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Futebol, jornalismo e Ciências Sociais

Juca Kfouri

07/10/2011 13h23

Por RONALDO HELAL

A literatura acadêmica sobre o futebol brasileiro começou a se constituir no Brasil alguns anos após a publicação do livro Universo do Futebol: esporte e sociedade brasileira, organizado por Roberto DaMatta e publicado em 1982.

Até aquele momento, os estudos eram escassos e havia uma tendência a se utilizar uma perspectiva "apocalíptica" (nos termos de Umberto Eco), influenciada pelo marxismo, que considerava o esporte de massa uma poderosa força de alienação dos dominados.

Mais adiante, a perspectiva apocalíptica deu lugar a outra que pretendeu entender o fenômeno esportivo como expressão da cultura, como uma forma de se entender melhor a sociedade em que vivemos.

Ainda naquele período, era comum que os escritos sobre a temática lamentassem o descaso das ciências sociais sobre o futebol, um fenômeno tão abrangente no país.

Hoje podemos dizer que o descaso inexiste e que proliferam estudos e grupos de trabalhos em congressos científicos que tratam do tema.

As razões alinhavadas justificam o título escolhido: Futebol, Jornalismo e Ciências Sociais: interações.

Consideramos que o esporte, e especialmente o futebol, em suas variadas dimensões, hoje interage como um parceiro que gera questões significativas para as ciências sociais.

De fato, o campo cresceu e foi se consolidando como importante área de estudos acadêmicos.

Na Faculdade de Comunicação Social da Uerj, Ronaldo Helal e Hugo Lovisolo organizaram o grupo de pesquisa "Esporte e Cultura", cadastrado no CNPq desde 1998.

Em 2001, publicamos, junto com Antonio Jorge Soares, membro atuante do grupo e, uma vez mais coautor deste livro, A Invenção do País do Futebol, contendo artigos dos pesquisadores "Esporte e Cultura".

A Invenção do País do Futebol teve, para nossa alegria, expressiva repercussão nos estudos que lidavam com a historiografia do futebol brasileiro, principalmente por ousar debater sobre um dos cânones da simbologia do futebol brasileiro, o consagrado livro de Mário Filho, O Negro no Futebol Brasileiro.

Quase uma década após a publicação de A Invenção do País do Futebol, continuamos na linha de debater e questionar "verdades construídas".

Se já não apresentamos a evidente heterogeneidade de antes é porque estamos continuamente refinando nossos argumentos.

Ainda que os pontos de convergência superem em muitos os de divergência, seguimos buscando o entendimento dos processos que levam à construções mitológicas que surgem em torno do futebol brasileiro.

Invariavelmente esta busca tende a desconstruir as verdades do senso comum e gera polêmica. Se, por um lado, fazemos, muitas vezes, o papel de destruidores dos mitos mais prazerosos dos brasileiros, por outro, estamos convencidos de que este mesmo papel contribui para o avanço acadêmico do campo.

Os artigos reunidos neste livro dão igualmente prova da força e da amplitude do campo (sem duplo sentido), além de demonstrarem fôlego para debates e questionamentos acerca dos argumentos apresentados. Mais do que certezas absolutas, nossas certezas podem ser provisórias, desde que argumentos contrários sejam apresentados com evidências empíricas.

O leitor vai encontrar aqui estudos sobre os seguintes temas: a)uma revisão geral, e crítica, da literatura do campo acadêmico sobre o futebol;

b) análises sobre a construção do estilo brasileiro de jogar o futebol e de seus principais expoentes, como Garrincha;

c) uma análise de material jornalístico sobre a reconstrução da memória da partida entre Brasil e Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, mostrando como o futebol pode ser abordado e reconfigurado simbolicamente e como ele está presente no senso comum e na memória coletiva das nações;

d)uma discussão sobre as narrativas da imprensa argentina sobre a seleção brasileira durante a Copa de 2006, em uma tentativa de se entender o processo de acirramento das rivalidades entre os vizinhos nas últimas décadas;

e)uma análise comparativa sobre as figuras públicas de Pelé e Maradona e do sentido da construção sobre quem foi o melhor da história;

f)uma investigação etnográfica em bares onde são transmitidas partidas de futebol, buscando interpretar as lógicas relacionadas do compartilhar coletivo do acesso ao mesmo produto de mídia – o jogo de futebol – nesses ambientes de frequência predominantemente masculina;

g) uma discussão da importância social do futebol, tendo como base a recepção coletiva dos jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo;

e finalmente, f) uma investigação do papel do futebol como um dos fatores de integração nacional brasileira no século XXI e de como este mesmo papel vem declinando nas últimas décadas.

Desejamos que a produtiva interação das ciências sociais com o futebol continue ativa e de que novos "profissionais" ou "peladeiros" se incorporem ao campo escolhendo, cada um, seu tipo de jogo e papel.

 

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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