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"Bem-vindo ao Congo". E daí?

Juca Kfouri

16/01/2010 02h23

O blogueiro está em férias.
 
Mas deixa alguns capítulos do livro "Por que não desisto", lançado pela Editora Disal, em 2009, e organizado pelo jornalista Márcio Kroehn, autor dos pequenos comentários (em vermelho) que apresentam os artigos do blogueiro.

"Bem-vindo ao Congo". E daí? 

Algumas comparações são mal colocadas e são feitas, sobretudo, por aqueles que não olham para o próprio umbigo. O fato é que não importam quem seja o espelho, as feridas (ou os orgulhos) são sempre cutucados sem que se reaja, se enfrente e se acabe com os problemas já conhecidos, mas jogados para debaixo do tapete.

Que o gerente de imprensa do Comitê Olímpico norte-americano fez uma brincadeira infeliz ao chegar ao Brasil e escrever "Bem-vindo ao Congo" é fora de discussão.

Kevin Neuendorf já foi devidamente punido e afastado. Talvez aproveite para estudar geografia, porque nem sequer distinguiu a qual Congo se referia, se ao Congo-Brazzaville ou ao Congo-Kinshasa, também chamado de República Democrática do Congo. Seja qual Congo for, no entanto, ficam as perguntas: quem se horrorizou com a piada sem graça o fez por termos sido comparados a um país africano ou com a ignorância do bobalhão? Se ele tivesse escrito "bem-vindo à França", também haveria reações patrióticas?

As perguntas cabem porque, na Copa da Alemanha, o francês Thierry Henry declarou que a habilidade natural do brasileiro para o futebol se deve à falta de escola. "Os brasileiros jogam futebol desde que nascem. Nós tínhamos de ir à escola das 8h às 17h e, quando pedíamos permissão à mãe para jogar, ela dizia não. Eles jogam das 8h às 18h, então em algum momento a técnica aparece", arrematou o craque.

E muita gente se ofendeu por aqui, embora seja inegável a verdade que, desafortunadamente, a frase contém. Ou estamos felizes com o padrão educacional brasileiro e temos nossas crianças bem atendidas na rede escolar, seja a pública, seja a particular? Ou não é verdade que um dos poucos meios de ascensão social para a garotada excluída é o futebol, ou a música, ou, por pouco tempo, o tráfico de drogas?

Confesso a minha também ignorância sobre a quantas anda a corrupção nos Congos. Nem sei quem é o presidente do Senado deles.

Nem se a Gautama já andou por lá (e é possível), ou se jovens de classe média batem em brancas pela madrugada. Ou se há mensalão, mensalinho, apagão aéreo, sanguessugas, ou mosquito da dengue, embora saiba, ao menos, que o calor é forte, como no Rio, ou em Nova York no verão. Carros blindados, há?

O que sei, ainda, é que não há o menor motivo para nos fazermos de indignados quando verdades são ditas sobre o Brasil, por mais que venham da boca de estrangeiros. Afinal, a mesma globalização que descaracterizou a seleção de futebol, permite que cada um dê sua opinião sobre tudo e todos, como, por exemplo, Carlos Nuzman fez questão de ridicularizar os Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, em 2003.

Verdade que começa a pagar pela língua mais cedo do que imaginava, com todos os atrasos do Rio-2007 e com a proteção que cobre seus parentes e amigos, cada vez mais revelada, onde se cutuca nas diversas empresas que gravitam em torno do evento.

O americano no Rio pode se imaginar no Congo como nós podemos dizer que George W. Bush não passa de um sanguinário mentiroso. É jogo jogado.

O que não podemos é defender que nossas mazelas fiquem escondidas do mundo, porque sempre haverá alguém para mostrar que o rei está nu.

E a nudez nacional é daquelas de dar vergonha, no esporte e fora dele, em partes iguais.

(Publicado na “Folha de S.Paulo” de 09/07/2007)

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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