Topo

Blog do Juca Kfouri

Gre-Nal é gre-nal!!

Juca Kfouri

29/08/2007 18h32

Por ANNA MAGAGNIN


Aqui no Sul se vive o futebol.


E muita gente o vive as vias de fato.


Na semana passada houve o Gre-Nal de juniores.


No primeiro jogo, mais de 30 torcedores foram levados à delegacia por briga.


No segundo jogo, no domingo, a briga foi dentro de campo.


Com direito a socos em técnico e jogador no hospital.


Em setembro, haverá o Gre-Nal do futebol profissional.


E atualmente o governo do Estado discute com Grêmio e Internacional sobre a segurança dentro dos estádios.


Nesse contexto também costuma reaparecer a possiblidade de Gre-Nal com torcida única.

Baseado nisso fiz um texto sobre até onde pode ir essa violência que, na minha opinião, estraga o brilho do maior clássico do futebol gaúcho.


Sou estudante de jornalismo, colorada e tenho 22 anos. Compartilho o texto que fiz sobre o assunto.


Gre-Nal é gre-nal!!


Em uma segunda-feira qualquer do ano de 2027, meu filho de quinze anos lê as reportagens sobre a última rodada do Campeonato Brasileiro.


Era dia seguinte a um gre-nal e todos ficavam atentos as reportagens pós jogo, já que as transmissões dos gre-nais haviam sido suspensas, cinco anos antes, a fim de evitar conflitos.


Meu filho gosta de futebol e semana passada estava encantado com o clássico Fla-Flu que passou na tevê.


Tinha até torcida no estádio.


O Colorado venceu o gre-nal em questão, mas ele parecia triste.


– Que foi filho, virou gremista que não tá feliz com a vitória do Inter?


– É que eu tava pensando, gre-nal é um clássico do futebol brasileiro?


– Claro!


– Como o Fla-Flu?


– Sim, igual. São dois times rivais disputando um jogo. Que pergunta…


– Mãe, mas que clássico é esse que o estádio fica fechado? Que as torcidas não podem ver pela televisão? Esse jogo mais parece um treino. Nos lances que eu vi, parece que os jogadores não tão nem aí.


– É, mas um dia foi diferente…

Aí comecei a contar pra ele um pouquinho sobre a história dos Gre-Nais.


Os olhinhos do meu colorado brilharam.


Contei pra ele, que tanto o estádio do Grêmio, quanto o Beira-Rio em dia de Gre-Nal lotavam, sendo quase metade azul e metade vermelha.


Que as pessoas iam juntas ao Gre-Nal, um com cada camiseta.


Que quando o Gre-Nal era no Olímpico, os colorados se encontravam no Beira-Rio e iam até o Olímpico.


Quando a violência começou a aumentar iam escoltados pelo polícia.


Que isso unia muita torcida.


Uns iam para divisa do portão no estádio e ficavam xingando o adversário.


Que todo jogador quando vinha para um time do Sul queria jogar Gre-Nal.


Que o Pato, mesmo depois de ser o melhor do mundo, dizia que um dos remorsos da vida dele era não ter jogado um Gre-Nal.


Que Dunga e Ronaldinho Gaúcho disputaram um Gre-Nal.


Que parecia final de campeonato. As pessoas lotavam os bares. E depois do jogo, era um buzinaço só.


Tinha uma cidade do interior, em que eles brincavam de os perdedores puxar a carroça com os ganhadores dentro.


Que muita gente fazia aposta.


E durante a semana que antecedia o clássico, só se falava nisso na rua.


E no dia seguinte quem ganhava tinha a sua cor brilhando pela cidade.


O treinador que ganhava o Gre-Nal, podia colocar isso no currículo. E que ganhar na casa do adversário era motivo de alegria maior.


Conto pra ele do Gre-Nal de inauguração do Olimpico, antigo estádio gremista, em que o Inter ganhou de 6×2.


Falo dos 5×2 e da atuação de Fabiano Cachaça, em 1997.


Conto do grenal do século, conto do Fernandão e o gol 1000 em grenais, e como aquele jogador começou a se revelar depois daquele grenal.


Conto o Gre-Nal em que vi o Inter perder o título gaúcho em casa e como foi difícil ver a torcida do Grêmio cantar no Beira-Rio.


Até consegui mostrar uns vídeos pra ele. O guri vibra, era só alegria.


E conto que, na idade dele, eu vivia a rivalidade, pois presenciei o primeiro título mundial do Inter e de como isso afetou a rivalidade Gre-Nal.


– Bah mãe, mas era um festa linda. E como chegou a isso que é hoje?


– Ah, primeiro eles começaram a diminuir os espaços da torcida adversária.


É que dava muita briga.


Depois tiraram a bebida dos estádios.


Depois aumentaram o policiamento para dias de Gre-Nal, até o ponto em que o governo disse que não tinha homens suficiente para proteger os torcedores.


Teve umas mortes nessa época.


Aí, eles resolveram que seria torcida única.


Mas o adversário esperava nos entornos do estádio.


E teve muitas brigas feias nessa época também.


Aí decidiram fechar os portões.


Só que os donos dos bares começaram a reclamar dos prejuízos pelas frequentes brigas.


E jornalistas começaram a ser ameaçados.


Por segurança, decidiram que nenhum gre-nal mais seria transmitido, nem por televisão nem por rádio.


E gre-nal gerava dinheiro, mas sem transmissão, muitos empresários convenciam seus jogadores a boicotar o clássico.


E hoje só se escala reserva em gre-nal. A violência terminou com o brilho do gre-nal, essa que é a verdade.


– Mãe, mas quando essa violência chegou a esse ponto, tanta que começaram a cortar tudo. que tinha de bom num Gre-Nal?


– Ah, foi quando a minha geração era maioria nos estádios….

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/