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Blog do Juca Kfouri

Assim não, governador!

Juca Kfouri

29/08/2007 14h57

A Copa de 2014 e o governo do Distrito Federal


Por LINO CASTELLANI FILHO


Observatório do Esporte


O bordão "seria cômico se não fosse trágico" cabe aqui como uma luva…


Acabamos de ler a notícia de que o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, anunciou a assinatura de um decreto que obriga as escolas do Distrito Federal a instituírem uma disciplina focada no tema "Copa do Mundo".


O objetivo do projeto, anunciado por ocasião do encontro com representantes da FIFA, em Brasília, seria "estimular nos jovens a consciência da importância do torneio para o país, formando assim possíveis futuros voluntários na Copa 2014".


Tal iniciativa se revela, além de oportunista – a ocasião do anúncio do projeto fala por si só -, equivocada, traduzindo a compreensão da política educacional por parte das autoridades educacionais do governo do Distrito Federal.


Desde 1996 a Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional (Lei 9394) abre, aos sistemas educacionais brasileiros, a possibilidade de arquitetarem seus projetos pedagógicos em torno do princípio da "transversalidade" do processo de conhecimento, visando a superação, com esse proceder, da conservadora lógica "disciplinar", hegemônica nos currículos das escolas brasileiras.


Iniciativas bem sucedidas de projetos de escolarização centrados na lógica transdisciplinar já são conhecidas por aqueles que circulam no campo da educação básica em nosso país e, boa parte dessas experiências tem a Educação Física como sua área estruturante.


Vejam o caso dos Jogos Panamericanos recentemente realizado no Rio de Janeiro:


presenciamos escolas que, por um determinado tempo pedagógico, levaram seus alunos a se envolverem com questões afetas aos campos da história, da geografia, da cultura – e de uma sua dimensão, a cultura corporal – além de outros, a partir dos países dos atletas que para o Rio de Janeiro se dirigiram a fim de participarem das competições ali instaladas.


A riqueza de tal abordagem curricular pode ser observada na imensa gama de enfoques realizados pelos alunos e professores dos Jogos Panamericanos, ao suplantarem a prática corrente que vincula o entendimento do "conhecimento esportivo" quase que exclusivamente ao "saber fazer", possibilitando elevá-lo ao patamar da compreensão do significado e o sentido do esporte na cultura contemporânea.


Tal processo de reflexão sobre o Esporte é fundamental para que as falcatruas e mazelas do processo organizativo dos Jogos não passem despercebidas entre aqueles que buscam forjar nos dias de hoje a possibilidade da plena cidadania no dia de amanhã.


Ainda há tempo, senhor governador, para revogar o motivo da explicitação do seu desconhecimento da estrutura da educação escolar brasileira mas, infelizmente para o senhor, não o suficiente para impedir o testemunho sobre a sua forma açodada de olhar para as escolas do Distrito Federal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/