A entrevista do filósofo
Entrevista da semana: Manuel Sergio
Filósofo português analisa o atual momento do futebol e prega uma revolução a partir do Brasil
Por Guilherme Costa
O progresso nas últimas décadas acelerou e intensificou um processo de mudança mundial. E nesse contexto, o futebol também se tornou diferente. O esporte não carrega mais as características que tinha décadas atrás, e isso compreende uma mudança na preparação de jogadores e equipes. Mas será que o caminho de evolução que o futebol toma é realmente o ideal?
Para o filósofo português Manuel Sergio, o futebol precisa urgentemente de uma revolução ética e metodológica. O lusitano, que esteve no Brasil nesta semana, é o precursor da ciência da motricidade, que entende os atletas como indivíduos complexos e em busca de superação constante. Assim, é fundamental que o esporte seja visto de acordo com os conceitos de totalidade e que não admita uma filosofia simplista e empobrecida.
Durante uma palestra concedida a treinadores e profissionais ligados ao futebol, Manuel Sergio usou a gênese da educação física para explicar um erro conceitual. Segundo ele, essa atividade ainda segue os preceitos do filósofo francês Renné Descartes, que dividiu os seres humanos entre corpo e mente e tentou analisar cada parte de maneira absolutamente isolada.
Ainda hoje, os jogadores de futebol são trabalhados de maneira isolada. Os treinamentos são concebidos para aprimorar um ou outro ponto do atleta e a maioria dos treinadores não se preocupa com o contexto que aquela atividade tem para a situação em que se encontra a vida do jogador.
Por conta disso, Manuel Sergio pediu uma revolução urgente no futebol. E pediu isso a partir do Brasil, que é o melhor do mundo nesse esporte. "Acho que deviam criar um grupo no Brasil e elaborar um manifesto com as coisas que devem ser alteradas no futebol. Como líder mundial, o país tem obrigação de fazer isso", cobrou.
Formado em Filosofia e doutorado em Motricidade Humana, o português era marxista e fez parte do partido comunista juntamente com o escritor José Saramago. Em 1968, Sergio resolveu sistematizar a compreensão do futebol como um esporte que aborde a complexidade humana, e não apenas o físico. Assim, criou a ciência da motricidade.
Desde então, o português tem tentado transformar seus conceitos e os conceitos da sociedade acerca do esporte. Apaixonado por futebol, Sergio cobra uma reformulação na concepção do esporte para que ele passe a funcionar como formador de pessoas.
Alguns conceitos de Manuel Sergio ainda esbarram no pensamento arcaico e rígido da maioria das pessoas que vivenciam o dia-a-dia do futebol. No entanto, o número de discípulos do português tem crescido constantemente. Um dos mais famosos é o português José Mourinho, atualmente no Chelsea, que já mostrou várias vezes ser partidário do pensamento de seu ex-professor.
Cidade do Futebol – Como surgiu seu interesse pelo futebol?
Manuel Sergio – Nasci do lado de um campo de futebol e convivo com esse esporte desde que eu era garoto. Sou apaixonado por esse espetáculo e só posso agradecer aos brasileiros por tudo que é feito pelo futebol. Apesar de acompanhar há tanto tempo, sempre aprendo mais do que ensino.
Cidade do Futebol – O José Mourinho (técnico do Chelsea) sempre cita as coisas que aprendeu com você. Como foi o contato com ele?
Manuel Sergio – O José Mourinho é um gênio. Ele é um homem muito diferenciado porque apanha o que a gente diz e aproveita o que é melhor para ele. Ele não desperdiça as coisas. Foi meu aluno há uns 25 anos e me perguntou qual seria o caminho para ele se transformar em um treinador de futebol. Eu disse que, caso ele não se especializasse em ciências humanas, ia ser sempre mediano. Ele rumou por esse caminho e sempre teve a virtude de estudar muito. O problema é que ele é um bocado convencido, e isso aborrece as pessoas na Inglaterra. Ele chegou lá de forma corajosa e atrevida, dizendo que ia conquistar as coisas, e essa postura não era esperada de alguém vindo de um país periférico.
Cidade do Futebol – E a ciência da motricidade, como surgiu?
Manuel Sergio – Foi em 1968. Outras pessoas haviam falado essa palavra antes, mas ninguém tinha sistematizado como ciência. A idéia é que o ser humano é um indivíduo em movimento intencional de superação constante. Ele pode ser compreendido por sua circunstância e isso é importante. O jogador é o que foi, o que é e o que pode ser. A motricidade pressupõe a complexidade do atleta, e não apenas a preparação física. O conceito é o trabalho de totalidade. A motricidade supõe, de fato, o desenvolvimento das estruturas componentes do sistema nervoso central; mantém a regulação, a execução e a integração do comportamento; traduz a apropriação da cultura e da experiência humana. O importante é admitirmos a passagem do ser humano físico para o ser humano em movimento.
Cidade do Futebol – Como sistematizar isso nos treinamentos?
Manuel Sergio – As atividades precisam ser concebidas de uma forma mais pedagógica e que aborde a complexidade dos atletas. O que acontece agora é que fazem treinos físicos. Não existem treinos físicos! Mesmo que o atleta faça só exercícios, vai mexer com o que não é físico. Se perguntarem a um médico se correr faz bem, ele vai dizer que sim porque é mais fácil julgar o que vê, mas não vai se preocupar com toda a complexidade desse movimento. O futebol é complexidade e isso quer dizer incerteza. São elementos demais presentes em um grupo, e por isso o treinador precisa ser um especialista em humanidades.
Cidade do Futebol – Mas a aplicação disso é viável?
Manuel Sergio – Por ser tão complexa, a atividade de um treinador exige constantes leituras e atualizações. Mas o tipo que só lê também não serve para nada. É preciso ir a campo e, tentando entender o jogo como um todo, fazer as atividades que trabalhem toda a complexidade dos atletas.
Cidade do Futebol – Qual o papel que o conhecimento empírico e a experiência como atleta têm para a formação de um treinador?
Manuel Sergio – Isso pode ajudar, mas não é fundamental. Ninguém precisa ter sofrido do estômago para ser um gastroenterologista. Existe um treinador em Portugal chamado Mario Muniz Pereira, que trabalha com atletismo e também é fadista. Ele tem muito mais elementos para entender a complexidade humana e o drama que é a vida. É importante acompanhar o progresso, mas o futebol é um esporte e a necessidade fundamental é ser tratado como tal.
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Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/











