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Blog do Juca Kfouri

A entrevista...(Continuação)

Juca Kfouri

24/09/2006 15h16

Cidade do Futebol – O senhor falou sobre a complexidade do ser humano e a importância de o treinador compreender isso. Como isso pode ser feito?


Manuel Sergio – O método que deve ser utilizado no futebol é a hermenêutica [ciência que tem por objeto a interpretação de textos religiosos ou filosóficos, seus signos e o significado das palavras]. O jogador de futebol é um texto, e cabe ao treinador e à comissão técnica saber ler isso e decifrar. A relação entre treinador e atleta precisa ser a mesma de um leitor para um livro. A prática desportiva é sinal, mensagem e texto, e o treinador precisa ter a sensibilidade de captar esses sinais.


Cidade do Futebol – Mas como essa interpretação pode ser feita?


Manuel Sergio – É preciso partir do pressuposto de que o futebol é uma coisa muito séria, que engloba ciências de diversos tipos de natureza. Ele precisa compreender a parte lógica, as ciências biológicas e as ciências humanas, e o treinador é um líder de uma equipe com capacidade para fornecer uma leitura específica do atleta sobre cada um desses aspectos.


Cidade do Futebol – A leitura precisa dos sinais do jogador pode fazer o futebol virar uma ciência exata?


Manuel Sergio – De maneira alguma! Uma vez estava falando com um rapaz chamado Acácio Rosa, que era fumante, e passou por nós um jogador de rugby. Ele disse que invejava aquela disposição física e aquela preparação toda. E um pouco depois, durante o treinamento, o jogador de rugby teve um problema e morreu. Isso quer dizer que a maneira de compreender o futebol mudou e saiu do "corra!" para o "mexa-se!", mas ainda há vários elementos que podem ser diferenciais.


Cidade do Futebol – Qual o principal desses diferenciais?


Manuel Sergio – Ser feliz é algo fundamental para a pessoa levar uma vida saudável. Não acredito na existência de uma separação entre corpo e mente, e quem quiser entender o futebol precisa tentar entender o homem. É isso que eu tento passar e mostrar. É preciso trabalhar de uma forma mais ampla.


Cidade do Futebol – E como esse trabalho mais amplo pode ser inserido nas comissões técnicas?


Manuel Sergio – O treinador precisa se cercar de pessoas que entendam e possam dar contribuições práticas para o trabalho com os seres humanos. É esse o conceito de uma comissão técnica multidisciplinar que tanto se fala. As ciências precisam trabalhar em conjunto para extrair o melhor dos atletas. É importante trabalhar, mas admitir que ainda estamos na pré-história do conhecimento humano.


Cidade do Futebol – O futebol, então, precisa de uma nova base teórica?


Manuel Sergio – Não é só isso. Teoria e prática não podem ser compreendidas de forma isolada. A teoria faz nascer a prática. A teoria acompanha a prática. A teoria muda a prática. Essa seqüência precisa estar muito clara para que todos entendam que uma revolução é possível e a base para isso é o conhecimento. O conhecimento científico é importante, mas o futebol hoje é muito mais do que isso. Ele é um fato usado para explicar os dramas e multiplicar as taras da sociedade.


Cidade do Futebol – O futebol pode ser, realmente, um fomentador da saúde?


Manuel Sergio – Sim. Mas depende do cenário em que ele é visto. O torcedor sai do estádio mais nervoso do que entra e o próprio treinador sabe que o emprego dele não depende do quanto ele pode acrescentar à equipe, e sim dos resultados que a equipe conquistar. Infelizmente, o futebol nem sempre se preocupa com a educação e a saúde das pessoas que estão envolvidas com ele.


Cidade do Futebol – Você acha que já começou a mudar essa perspectiva?


Manuel Sergio – Eu tento conversar com o maior número possível de pessoas sobre a complexidade do futebol. O problema não está com quem participa disso, mas com o resto do mundo. A maioria ainda não entendeu que existe algo errado se o homem é um meio e o esporte é um fim. A relação precisa ser o contrário. O esporte ainda não é visto como algo transformador, mas uma coisa útil para alguns.


Cidade do Futebol – O tratamento dado ao futebol é diferente no Brasil e na Europa?


Manuel Sergio – A grande diferença é a realidade financeira. O futebol no Brasil é muito mais criativo, e lá eles tentam compensar isso com muita dedicação. Os brasileiros entendem o futebol muito mais que os europeus, e eles equilibram na dedicação. A maneira de ver o jogo é um pouco diferente, mas o principal é o dinheiro. Tanto aqui quanto lá, a maioria das pessoas ainda não enxergam o conceito de totalidade e complexidade do esporte.


Cidade do Futebol – Qual o caminho para o futebol evoluir, então?


Manuel Sergio – Eu acho que deveria acontecer uma revolução de treinadores, e acho que isso deveria começar no Brasil. O Brasil tem obrigação de fazer isso porque é o melhor do mundo e serve como exemplo para todas as outras nações. Acho que deviam criar um grupo no Brasil e elaborar um manifesto com as coisas que devem ser alteradas no futebol. Mas uma coisa com apelo mundial e não apenas regional. Por tudo o que sabe além dos outros e por ser o melhor do mundo, o Brasil tem obrigação de fazer isso urgentemente. O futebol precisa dessa revolução ética metodológica.


 


Publicado no sítio CIDADE DO FUTEBOL, um espaço sério para quem quer pensar o futebol além das quatro linhas.


Um dos favorirtos deste blog.


 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/