Blog do Juca Kfouri http://blogdojuca.uol.com.br Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Desde 2005, é colunista da Folha de S.Paulo e do UOL. Thu, 25 Aug 2016 12:56:30 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=4.2.5 Mata-matas dão o ar de sua graça http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/mata-matas-dao-o-ar-de-sua-graca/ http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/mata-matas-dao-o-ar-de-sua-graca/#comments Thu, 25 Aug 2016 09:55:49 +0000 https://blogdojuca.uol.com.br/?p=81153 Os seis primeiros mata-matas da Copa do Brasil e da Copa Sul-Americana mostraram a sua cara.

Pelo menos três resultados surpreendentes.

O Juventude, da Série C, ganhou simplesmente do São Paulo no Morumbi: 2 a 1.


Poderá perder  jogo de volta por 1 a 0, em Caxias do Sul.

Também pela Copa do Brasil, no Mineirão, a Ponte Preta arrancou um empate por 1 a 1 com o Atlético e vai jogar pelo 0 a 0 em Campinas.

E na Copa Sul-Americana, o inimaginável.

O antepenúltimo colocado no Brasileirão, o Figueirense, enfiou 4 a 2 no quarto colocado, o Flamengo.

E esteve vencendo por 4 a 1!


Rafael Moura, o He Man, esteve infernal e fez três gols.

Flamengo terá de vencer por 2 a 0 para seguir adiante, em Cariacica, e não poderá poupar ninguém, como fez ontem.

Santos 3, Vasco 1; Atlético Paranaense 0, Grêmio 1, os dois pela Copa do Brasil, e Santa Cruz 0, Sport 0, pela Sul-Americana, foram os demais resultados da noite, absolutamente normais.

Comentário para o Jornal da CBN, desta quinta-feira, 25 de agosto de 2016, que você ouve aqui.

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He Man arrasa o Flamengo http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/he-man-arrasa-o-flamengo/ http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/he-man-arrasa-o-flamengo/#comments Thu, 25 Aug 2016 02:57:54 +0000 https://blogdojuca.uol.com.br/?p=81147 Pela Copa Sul-Americana, Santa Cruz e Sport foram avarentos no Arruda e ficaram no 0 a 0.


Em Floripa, em compensação, seis gols.

Três só de Rafael Moura, o He Man do Figueirense na vitória do time catarinense por 4 a 2 sobre um Flamengo que adora ser goleado no sul do país.

O jogo chegou a ficar 4 a 1, o que tornaria muito complicado para o rubro-negro o jogo de volta em Cariacica.

Mas Marcelo Cirino diminuiu para 4 a 2 o que permitirá ao Fla vencer por 2 a 0.

Alan Patrick havia empatado 1 a 1 e Marquinhos feito o 2 a 1 para o Figueira.

O terceiro gol dos anfitriões foi bizarro e belo.


Rafael Moura apostou numa falha de Donatti, o zagueiro escorregou, caiu, perdeu a bola e o He Man fez de cavadinha, encobrindo o goleiro Paulo Victor.

Curioso: foi só Argel Fucks sair e o Figueira fez quatro gols!

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Surgem as primeiras zebras das finais da Copa do Brasil http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/surgem-as-primeiras-zebras-das-finais-da-copa-do-brasil/ http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/surgem-as-primeiras-zebras-das-finais-da-copa-do-brasil/#comments Thu, 25 Aug 2016 02:41:42 +0000 https://blogdojuca.uol.com.br/?p=81138 O Morumbi recebeu um jogo repleto de simbolismos.

O São Paulo, que jamais venceu a Copa do Brasil, o título que lhe falta, contra o Juventude, campeão do torneio em 1999.

No banco paulista, Ricardo Gomes de volta ao estádio.

No gaúcho, Antônio Carlos, campeão pelo São Paulo, como zagueiro, do Brasileirão de 1991 e da Libertadores de 1992.


 E no primeiro ataque do Juventude, Roberson, chutou livre entre Denis e a trave e abriu o placar, aos 8 minutos, em bola defensável, uma pena para o goleiro que vinha bem nos últimos jogos.

Gol qualificado que pode fazer a diferença em Caxias do Sul, onde qualquer jogo é dureza.

Como nos primeiros oito minutos, os seguintes após o gol foram quase todos do Tricolor, mas pouco ameaçadores, ao contrário dos raros ataques gaúchos que, por duas vezes, quase ampliou, a primeira por pouco não virou gol contra de Lyanco.

Rodrigo Caio, que fez uma Olimpíada perfeita, estava fora, na Itália, para tratar de seu passaporte europeu.

Mas água mole em pedra dura…tanto bate que aos, 40, Carlinhos, que vinha sendo vaiado pela pequena torcida (6 mil torcedores) na fria noite paulistana, pôs a bola na cabeça do portenho Chávez e o centroavante empatou, para melhorar as perspectivas do segundo tempo.

Revoltado, Carlinhos em vez de comemorar, cobrou os torcedores e passou a ser apupado por parte deles sempre que pegava na bola.

Sem dúvida, trata-se de um modo estranho de torcer do brasileiro.

Carlinhos, no intervalo, não fugiu da polêmica: “Eu apenas pedi que apoiassem como estavam vaiando, só isso”, disse.

Michel Bastos veio para o jogo, no lugar de João Schmidt.

O jogo recomeçou com cheiro de virada. Só dava Tricolor, mesmo que aos trancos e barrancos.

Mas aos 28, depois de uma boa pontada gaúcha, em seguida, Lucas, que acabara de entrar, foi derrubado por Thiago Mendes na área e Roberson fez 2 a 1, bola de um lado, Denis do outro.

Kelvin saiu e Gilberto entrou para buscar o empate.

Nem bem entrou e Gilberto sofreu uma falta que levou o zagueiro Ruan a ser expulso de campo.

O São Paulo tinha 10 minutos para, ao menos empatar e Luiz Araújo entrou no lugar de Hudson.

Mas não deu e foi decretada a primeira zebra das finais da Copa do Brasil, que permite ao Juventude perder por 1 a 0 em Caxias.


No Mineirão, Atlético Mineiro e Ponte Preta disputaram sua 25ª partida desde 1970, diante de 15 mil torcedores.

E como sempre diz o ex-presidente do Galo, Alexandre Kalil, a Ponte é o adversário que mais o incomoda, tanto que nos 24 jogos anteriores houve 11 vitórias mineiras, seis campineiras e sete empates, mais de 50% dos resultados não foram o que a diferença entre eles sugere.

Quando o primeiro tempo terminou a Macaca ia conseguindo sua sétima vitória, gol de Roger, aos 38.

Menos mal que, aos 18 do segundo tempo, Robinho, sempre ele, aproveitou boa jogada de Maicossuel e empatou.

O Galo perdeu Rafael Carioca, machucado, e ficou com 10, pois já havia feito as três substituições. Má notícia para Tite.

No segundos finais a Macaca também ficou com 10, ao perder Douglas Grolli expulso.

Estava decretado o oitavo empate entre ambos e a Ponte jogará pelo 0 a 0 em Campinas.

Duas zebras na mesma noite.

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Santos não mata o Vasco e Grêmio sai na frente do Atlético Paranaense http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/santos-nao-mata-o-vasco-e-gremio-sai-na-frente-do-atletico-paranaense/ http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/santos-nao-mata-o-vasco-e-gremio-sai-na-frente-do-atletico-paranaense/#comments Thu, 25 Aug 2016 00:31:07 +0000 https://blogdojuca.uol.com.br/?p=81125 O provável campeão da Série B, o Vasco, foi presa fácil para um dos candidatos ao título da Série A, o Santos.

A Vila Belmiro viu seu time enfim completo, com todos os  jogadores de Seleção Brasileira, os da principal e os da olímpica.

O jogo começo ríspido, típico de mata-matas, pelas oitavas de final da Copa do Brasil.

Aos poucos o Santos foi envolvendo o Vasco e ainda no primeiro tempo, em 7 minutos, aos 31 e 38, com Renato, de cabeça, em cruzamento de Lucas Lima jogando muito de novo, e Ricardo Oliveira, de falta, fez 2 a 0, para tratar de matar a disputa no segundo tempo e não correr riscos em São Januário.


Era talento demais contra apenas a abnegação vascaína.

Zeca, Thiago Maia, Renato, Vítor Bueno, Lucas Lima, Ricardo Oliveira, Gabigol, gente demais para o modesto time carioca.

Nas poucas vezes em que o time cruzmaltino ameaçou, Vanderlei, para variar, fechou o gol santista.

Ou, como no segundo tempo, quando Andrezinho mandou no travessão paulista.

Mas talento é talento e o terceiro gol santista nasceu com uma jogada espetacular, de Thiago Maia para Renato, deste, de calcanhar para retribuir a Lucas Lima, que bateu colocado, mais com jeito do que com força, num golaço.

Mas o Santos que tinha a vaga nas quartas de final assegurada, tomou um gol de Éder Luís no derradeiro segundo, ao pegar o rebote de uma defesa de Vanderlei num chute de fora da área de Éderson.

Com 2 a 0 no Rio, o Vasco passa. Conseguirá?


Na Arena da Baixada, o Grêmio, também com um belo gol, de Bolaños, ao receber um passe de calcanhar de Douglas, no primeiro tempo, venceu o Furacão por 1 a 0 e jogará por empate em Porto Alegre.

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O Mestre Perguntador morre desencantado com o jornalismo http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/o-mestre-perguntador-morre-desencantado-com-o-jornalismo-2/ http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/o-mestre-perguntador-morre-desencantado-com-o-jornalismo-2/#comments Wed, 24 Aug 2016 21:56:39 +0000 https://blogdojuca.uol.com.br/?p=81117 Geneton Moraes Neto (1956-2016)
POR LUIZ CLÁUDIO CUNHA *

 

 

 

O jornalismo brasileiro ficou mais obtuso, medíocre, raso, frio, casmurro e sem respostas nesta segunda-feira, 22 do agosto sempre aziago.

Perdemos o Geneton.

Geneton Moraes Neto morreu no Rio de Janeiro aos 60 anos, vencido pelas complicações de um aneurisma na aorta sofrido três meses antes. Na autoapresentação de seu blog, criado em 2004, ele já avisava: “Nasci numa sexta-feira 13, num beco sem saída, numa cidade pobre da América do Sul: Recife. Tinha tudo para fracassar. Fracassei”.

Bela mentira. Em quatro décadas de jornalismo, o Geneton do beco e da sexta-feira 13 tornou-se, para sorte de todos nós, um exemplo de sucesso e uma referência para todos os repórteres que tentam ser fiéis ao compromisso irrevogável de uma imprensa dedicada à verdade, à memória, à história e ao dever de consolar os aflitos e afligir os consolados.

Ele começou como repórter em sua terra, no Diário de Pernambuco e na sucursal local de O Estado de S.Paulo¸ nos duros anos do Governo Geisel, em plena ditadura. Foi estudar no exterior. Em Paris, trabalhou como camareiro do Hotel Mônaco e motorista de uma família rica enquanto estudava Cinema na Sorbonne.

Voltou ao jornalismo, e ao Brasil, para trabalhar no Grupo Globo a partir de 1985. Ali, o repórter que se dizia fracassado foi chefe e mestre nos principais postos de jornalismo da casa: editor-executivo do Jornal da Globo e do Jornal Nacional, correspondente em Londres da GloboNews e do jornal O Globo, repórter e editor-chefe do Fantástico.

Nenhuma mesa poderosa da burocracia da redação, porém, deslumbrou o ex-fracassado do beco: “Não troco por nada o exercício da reportagem — a única função realmente importante no jornalismo”, definia Geneton no seu blog. E foi na função seminal de repórter, não como executivo de redação, que Geneton imprimiu sua marca indelével na imprensa brasileira. As provas estão guardadas para sempre no seu blog, geneton.com.br, que devia ser tombado como patrimônio cultural e leitura obrigatória para estudantes, repórteres, jornalistas e todos aqueles que respeitam a inteligência e o conhecimento. Ali, Geneton passeia sua intimidade, seu talento e seu ofício de repórter exemplar e humilde diante da notícia e de gente que, como ele, fez História. Presidentes e ex-governantes, generais e guerrilheiros, escritores e cineastas, atletas e poetas, astronautas e políticos, cantores e compositores, jornalistas e repórteres, grandes repórteres como ele, passaram pelo crivo de sua inteligência e argúcia.

Os bastardos

As duas sobreviventes do Titanic, o copiloto da bomba de Hiroshima, o assassino de Martin Luther King, o produtor dos Beatles, o promotor britânico do tribunal de Nuremberg, o agente secreto que tentou matar Hitler, os três astronautas que pisaram na Lula, o confessor de Bin Laden nas montanhas de Bora-Bora, o professor do líder dos terroristas do 11 de Setembro, o homem que encarou o ‘Setembro Negro’ nas Olimpíadas de Munique, o filho do carrasco nazista de Auschwitz que ataca o próprio pai, o guerrilheiro brasileiro que recrutou a mãe para a luta armada, o repórter de Watergate que derrubou o presidente da Casa Branca, o relato dos 11 jogadores brasileiros da derrota na final da Copa de 1950 num Maracanã estufado com 10% da população do Rio de Janeiro na época, mais de 200 mil torcedores.

Todos fazem parte deste universo mágico que Geneton esquadrinhou e trouxe para perto de nós, para nos recontar, com detalhes inéditos, a saga da espécie humana, nos seus bons e maus momentos. “Que se faça a louvação da reportagem. O papel de todo repórter é produzir informação a curto prazo. E memória, a longo prazo – de preferência, nas páginas de um livro, hoje transformado em espaço nobre a reportagem no Brasil”, escreveu Geneton na orelha do penúltimo de seus onze livros, Dossiê História (2007).

Ali, Geneton se define modestamente como um “pequeno tarefeiro da memória porque, em última instância, a memória é a grande matéria-prima do jornalismo”. Nessa tarefa, ele seguia com devoção o mandamento de um velho jornalista do inglês The Times, que ensinava:

Toda vez que estiver entrevistando alguém, anônimo ou famoso, rico ou pobre, o repórter deve sempre fazer a si mesmo, intimamente, a seguinte pergunta:

‘Por que será que estes bastardos estão mentindo para mim?’

O blog de Geneton se define como ‘jornal de um repórter’ e tem até uma padroeira, uma tal de ‘Nossa Senhora do Perpétuo Espanto’. Ele explicava:

Para que possam contribuir com esse ‘mundo real’, os jornalistas têm que ter uma atitude de permanente espanto. Precisam ser ‘levantadores’, não ‘derrubadores’ de matéria.

É aí que entra em cena, gloriosamente, a Nossa Senhora do Perpétuo Espanto. Quando criou esta ‘entidade’, Kurt Vonnegut [1922-2007, escritor, EUA] não estava se referindo ao jornalismo, mas essa ‘santa’ deveria ser proclamada padroeira plenipotenciária da nossa profissão.

O jornalista precisa manter, em algum ponto de suas florestas interiores, aquela chama, aquela faísca, aquele espanto que se vê no brilho dos olhos de um estagiário – ou de uma criança.

Quando você se guia pelo entusiasmo das pessoas que estão fora da redação, o resultado do trabalho é melhor do que se você se guiasse pelo tédio dos que estão dentro.

Geneton ensinava que o mundo real é mais interessante do que o mundo dos jornalistas: “Cansei de ver, ouvir e encontrar leitores e telespectadores mais interessados pelos fatos do que jornalistas. Não estou falando de algo abstrato, mas de uma situação real, palpável, comprovável no dia a dia dos jornais. Cansei de ver em redações um clima de tédio total entre os jornalistas. Se você atravessar a rua, for à padaria e comentar que entrevistou uma velhinha que foi passageira do Titanic, provavelmente os ‘ouvintes’ farão perguntas e se interessarão pelo assunto, enquanto muitos jornalistas dirão, com os olhos semicerrados de tédio: ‘Ah, mas já faz 100 anos que o Titanic afundou…’.”

Esse diagnóstico levou Geneton à descoberta de uma terrível doença que ataca as principais redações brasileiras: a SFG, a ‘Síndrome da Frigidez Editorial’, que ele batizou e, com ar divertido, ameaçava registrar na Organização Mundial da Saúde. Definição da síndrome, segundo Geneton: “É a doença do jornalista que, depois de anos de profissão, perde a capacidade de se espantar diante da realidade. Se perde esse fogo, o jornalista deve mudar de profissão”.

E jornalista que não se espanta, é claro, nem pergunta mais.

O crédito do general

Perguntar é o que Geneton sabia fazer como ninguém na imprensa brasileira. Como já se disse, “o jornalismo é a atividade humana que depende essencialmente da pergunta, não da resposta. O bom jornalismo se faz e se constrói com boas perguntas”.

Inimigo juramentado do terno e gravata, fiel ao seu negro blusão de gola rolê que fazia contraste com o branco da barba branca e dos cabelos desgrenhados e cada vez mais ralos no alto da cabeça, Geneton não se intimidava diante das luzes e câmeras da GloboNews, muito menos diante de seus entrevistados. Preocupado menos com a forma, o penteado ou o traje, ele não descuidava nunca do conteúdo, a partir da pauta que ele mesmo escrevinhava, em letras grandes, em folhas de papel almaço que brandia e consultava sem constrangimentos em suas entrevistas. Com sua fala mansa e firme, no doce sotaque recifense que preservou até o fim, Geneton encarava as respostas enganosas com mais perguntas — rápidas, incisivas, cirúrgicas —, repelindo as mentiras com outras perguntas que conduziam à verdade.

Quando o notório Paulo Maluf negou ser sua a assinatura de uma conta no exterior, mesmo diante do documento exibido pelo entrevistador, Geneton disparou:

— O sr. nega então que este Paulo Maluf, aqui, seja o senhor?

— Nego.

— Mesmo com a assinatura de Paulo Maluf?

— Nego.

— Então, existe outro Paulo Maluf?

O Maluf à sua frente ficou em silêncio.

Como todo bom repórter, Geneton era teimoso. Tentou uma, duas, três vezes, até convencer o general Leônidas Pires Gonçalves (1921-2015), ministro do Exército do Governo Sarney, a lhe dar uma histórica entrevista em 2010. Nos créditos da telinha, supreendentemente, o general não aparece identificado como o primeiro ministro militar da democracia, mas como o chefe da repressão da finada ditadura, a quem Leônidas serviu com espartana e rígida fidelidade. Por isso, na entrevista da GloboNews, o general é creditado apenas como ‘chefe do DOI-CODI, 1974-1977′.

O general falou com uma fluência inédita e uma sinceridade desconcertante, levantando temas que beiravam a fantasia, a leviandade e a arrogância. Ironizou as denúncias (“Hoje todo mundo diz que foi torturado para receber a bolsa-ditadura”) e duvidou até do assassinato do jornalista Vladimir Herzog sob torturas no DOI-CODI de São Paulo, em 1975: “Eu não tenho convicção de que Herzog tenha sido morto… Um homem não preparado e assustado faz qualquer coisa. Até se mata”.

Leônidas desafiou qualquer um a dizer que foi torturado no DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro, que ele comandou como chefe do Estado-Maior durante quase três anos, na fase mais turbulenta do governo Geisel. ‘Não houve tortura na minha área’, garantiu Leônidas.

Devia ser uma bolha milagrosa, porque ali mesmo no I Exército, comandado pelo general Sylvio Frota entre julho de 1972 e março de 1974, o DOI-CODI carioca era um centro de morte, conforme apurou O Globo. Naquele espaço de 21 meses, contou o jornal, morreram 29 presos nas masmorras da afamada rua Barão de Mesquita, onde funcionava o centro de torturas do Exército, comandado pelo notório major Adyr Fiúza de Castro, um dos radicais mais temidos da ditadura. Bastou chegar ali e assumir o DOI-CODI carioca, fantasiava o general Leônidas, e a paz dos anjos se instalou.

Sem arrogância, Geneton enfrentou o general Leônidas com perguntas precisas, enxutas, minimalistas, que iluminaram a história e conseguiram arrancar o melhor (e o pior) do chefe da repressão política que se orgulhava de seu trabalho na ditadura. Preocupado com a edição do programa na TV, Leônidas se apressou em ensinar jornalismo a Geneton:

— Que minhas ideias não sejam suprimidas na edição. Se houver um corte, você me deixa mal — avisou o general, esquecido de que o regime de força que ele defendeu se esmerava em cortes sistemáticos pela censura burra que suprimia ideias e fatos que sempre deixam mal as ditaduras. Geneton não cortou, e ainda assim o general Leônidas ficou muito mal pelas ideias que exprimiu, livremente.

Sempre educado, mas incorrigivelmente firme, Geneton questionou a exótica versão do general de que líderes do regime deposto – como Arraes, Brizola, Jango, Prestes – saíram do Brasil, a partir de 1964, ‘porque quiseram’. Leônidas mirou no ex-governador Miguel Arraes, conterrâneo de Geneton, pregando:

– Ele [Arraes] podia ter ficado em casa…

– Deposto – emendou Geneton.

– E qual é o problema? – admirou-se o general.

– Todo – encerrou Geneton, com a sintética sabedoria que o general, já nos seus 90 anos, ainda não apreendera. – Não havia condições de exercer a política no Brasil, naquela época, general.

O ex-chefe do DOI-CODI desdenhou toda uma fase de arbítrio e violência, dizendo que o país não teve exilados pelo golpe de 1964, mas apenas ‘fugitivos’.

– Eles que ficassem aqui e enfrentassem a justiça – pregou Leônidas.

– General, num regime de exceção, a justiça não é confiável – replicou o repórter, com a altivez e a dignidade devidas.

Eu destaquei esse luminoso desempenho de Geneton x Leônidas num texto — A arte de perguntar —, publicado pelo site Observatório da Imprensa em 7 de abril de 2010, quatro dias após a exibição do programa pela GloboNews, num sábado.

Geneton, o mestre e amigo a quem eu tratava nos e-mails pelo carinhoso título de Master Asker (Mestre Perguntador), me agradeceu pelo texto com o bom humor de sempre:

Olá. Com um cabo eleitoral como você aí, considero-me eleito para o Comitê

Central do PPB, Partido dos Perguntadores do Brasil. Obrigado!

No dia seguinte, ainda mais feliz, Geneton me repassou uma mensagem do diretor da GloboNews, César Seabra, que redistribuiu pelo correio interno o meu texto do Observatório a toda a equipe da TV, com a seguinte determinação:

 

Caros,

o texto do link abaixo faz elogios merecidíssimos ao nosso Geneton.

Mas também nos faz um alerta precioso, sobre como conduzir uma entrevista.

É leitura obrigatória para todos – apresentadores, repórteres, editores, produtores, chefes… Aproveitem. Beijo e bom dia,

César

 

Bolt da garotada

O incansável Geneton não desistiu do general, que ficou satisfeito com o que viu no ar, com todas as suas ideias bizarras respeitadas, como cabe numa democracia. “Devo ter recebido uns 400 telefonemas…”, disse o eufórico Leônidas a Geneton, num encontro casual num final de manhã de junho de 2014 num shopping do Leblon. Em março de 2015 Geneton pensava num lance mais ousado. Colocar o general da repressão no estúdio diante de um guerrilheiro da luta armada. O general piscou. Perguntou quem seria seu oponente. Geneton pensava no ex-guerrilheiro Cid Benjamin, um dos integrantes do grupo que sequestrou o embaixador americano Burke Elbrick em 1969. “Vou dizer uma coisa que você não sabe: o Cid foi prisioneiro meu”. O encontro épico sonhado por Geneton nunca aconteceu: Leônidas morreu três meses depois, aos 94 anos, exatamente um ano depois do encontro dos dois no shopping.

Geneton esmerou-se na arte das perguntas por que esta é a missão central do repórter: “Não faça jornalismo para jornalista. Faça para o público”, repetia ele ao público, embevecido como eu, nas duas vezes em que nos encontramos, em 2011 e 2014, no tradicional SET Universitário promovido pela Famecos (Comunicação Social) da PUC de Porto Alegre. É o mais longevo (29 anos em 2016) evento de comunicação do sul do país, atraindo gente da Argentina, Uruguai e outros países. Geneton era o Usain Bolt da garotada, que ele conquistava com a rapidez e o brilho de um raio.

Mesmo diante da crise econômica que vive a indústria da comunicação e da crise existencial que abate os jornalistas atropelados pelo desafio da tecnologia, Geneton nunca abdicou de seus princípios. Fidelidade absoluta à reportagem e ao seu ídolo maior, Joel Silveira (1918-2007), “o maior repórter brasileiro”, um sergipano autodidata que Geneton frequentava todo dia, até a sua morte, com a reverência de um fã.

Joel foi correspondente de guerra na campanha da FEB na II Guerra Mundial, escalado para cobrir o conflito em 1944 pelo dono dos Diários Associados. Assis Chateaubriand lhe deu a ordem final:

— O senhor vai para a guerra! E vou lhe pedir um favor, senhor Silveira: não me morra! Repórter não é para morrer, repórter é para mandar notícia!

Joel embarcou e voltou. Mas, contrariando as ordens de Chateaubriand, morreu um pouco.

— Fui para a Itália com 27 anos, passei dez meses e voltei com 40 anos. A guerra me tirou 13 anos — confessou o ídolo Joel ao fã Geneton, que a partir desses 20 anos de convivência e confidências, juntando fitas K7 e imagens amadoras, acabaria produzindo um documentário fundamental de 90 minutos sobre o maior repórter brasileiro: Garrafas ao mar — A víbora manda lembranças, exibido pela GloboNews em 2013.

Geneton se divertia contando as relações de seu ídolo com os magnatas da mídia. De Chateaubriand, Joel ganhou o apelido de ‘víbora’. De Adolpho Bloch, dono da revista Manchete, onde Joel publicou suas últimas reportagens, ele ganhou um bilhete. Bloch aproveitou uma viagem de seu repórter a Jerusalém e lhe pediu que colocasse o bilhete, como manda a tradição judaica, numa das frestas do Muro das Lamentações, acompanhado de um pedido. Joel cumpriu a pauta do patrão, que lhe perguntou na volta:

— E aí, Joel, fez o pedido?

— Fiz, Adolpho. Pedi para você me dar um aumento de salário…

O porta-estandarte

Um dos mantras preferidos do sergipano Joel Silveira — “Jornalismo é ver a banda passar, não é fazer parte da banda” — reproduz bem a visão que seu fã pernambucano tinha de boa parte da mídia atual, em que o jornalismo cede espaço ao partidarismo, a razão é acuada pela paixão, a isenção é atropelada pela facção. Geneton também deplorava o engajamento até de jornalistas experientes em uma ou em outra banda partidária, no calor de uma luta político-eleitoral cada vez mais acesa que rebaixou parcela da imprensa ao jogo abrutalhado de um Fla-Flu de caneladas e mútuo xingamento, tão estridente que nem dava para ouvir a banda passar.

Geneton, com a serenidade que nunca lhe permitiu desfilar nessas bandas, definia:

— Fazer jornalismo é não praticar nunca, jamais, sob hipótese alguma, a patrulha ideológica.

Geneton via em Joel o seu ideal cada vez mais romântico do repórter que sobreviveu à ‘ditadura da objetividade’, imposta para combater pragas como subliteratura, beletrismo e academicismo, e sucumbiu à maldição dos tempos atuais, com textos áridos, chatos, anêmicos, soporíferos, iguais. “Lástima, lástima, lástima”, lamentava Geneton.

Geneton sonhava com alguém pichando os muros da cidade, proclamando: “Chega de objetividade! As notícias eu já vi na internet e na TV! Quero vivacidade, imaginação, arrebatamento, ousadia!”. No seu devaneio, Geneton achava que Joel poderia ser o porta-estandarte do resgate desse tipo de jornalismo, segundo ele exilado para a Sibéria.

— A luta por um jornalismo mais vívido, mais atraente, mais iluminado faz parte da luta por um Brasil menos medíocre. Por que não? — perguntava-se Geneton, mais uma vez.

Para sustentar sua teoria, ele usava a prática inigualável de Joel, dando como exemplo este texto em que o velho sergipano descrevia um menino morto no Bogotazo, uma revolta popular na Colômbia de 1948 que se seguiu ao assassinato de um candidato liberal da oposição, Jorge Gaitán, abatido na rua com três tiros. Os protestos, desordens e a repressão desatada em Bogotá, num único dia, deixaram um saldo de 500 mortos só na capital. Trecho do texto de Joel:

Estive no Cemitério Central de Bogotá, em afazer de repórter, para ter uma ideia aproximada do saldo de mortos deixado pela explosão popular. Nunca, em toda minha vida, nem mesmo nos meses de guerra, estive diante de mortos tão mortos. Somente aquele menino – não mais de oito anos – morrera cândido, de olhos abertos, um começo de sorriso nos lábios. Os olhos vazios fixavam o céu de chumbo. As mãos de unhas sujas e compridas pendiam sobre a laje dura – como os remos inertes de um pequeno barco. Um funcionário qualquer se aproximou, olhou por alguns segundos o menino morto, procurou sem achar alguma coisa que ele deveria trazer nos bolsos. Tentou em seguida fechar com os dedos os olhos abertos, mas não conseguiu. Abertos e limpos, os olhos do menino morto pareciam maravilhados com o que somente eles viam, com o que queriam ver para sempre.

Geneton fez a pergunta, que insinuava a resposta:

— Os jornais de hoje publicariam textos assim? O grande poeta Ferreira Gullar fez uma vez, num verso, uma pergunta que a gente bem que poderia repetir, contra o cinzento da mesmice: ‘Onde escondeste o verde clarão dos dias?’. Ah, Jornalismo: onde escondeste o clarão?

Geneton, sempre amigo e solidário, acompanhou solitário o final de vida dos últimos 20 anos da víbora da reportagem. Ninguém mais frequentava aquele apartamento deserto no sexto andar de um prédio da rua Francisco Sá, em Copacabana, habitado apenas por livros, lembranças, história e Joel Silveira.

— Estou morrendo, Geneton, estou morrendo! — suspirava o velho repórter, que já não saía de casa e já não tinha amigos. Só Geneton. Joel desprezou o tratamento de um câncer na próstata para morrer em casa em 2007, na amarga mansidão de seus 88 anos. Na companhia fiel de seu último amigo.

Um dissidente

O fim melancólico de Joel Silveira, que Geneton definia como precursor do New Journalism que fez a fama de profissionais festejados como Gay Talese e Truman Capote, explica um pouco a visão cada vez mais pessimista que Geneton tinha do próprio jornalismo na atualidade.

Geneton criava, produzia, executava, editava e apresentava suas próprias reportagens na GloboNews, com a doída convicção de que, como Joel, ele se tornava uma avis rara do jornalismo, um exemplar de dinossauro condenado à extinção imposta pelo cometa brilhante da inevitável modernidade tecnológica. Geneton parecia, agora, uma víbora que já não confiava nem na peçonha de suas perguntas, por mais venenosas que fossem.

Aqui e ali, sem alarde, Geneton deixava fluir aos poucos sua melancolia, fazia vazar sua desilusão.

Na véspera do réveillon de 2010, ele publicou em seu blog uma nota sem destaque, quase escondida, sugerindo um ‘Teste para Seleção de Jornalistas’. Era uma azeda reflexão sobre o jornalismo:

Uma sugestão aos responsáveis pelos departamentos de pessoal das empresas jornalísticas: depois de pesquisas que se arrastaram por meses, os especialistas conseguiram montar um teste infalível para seleção de candidatos a vagas nas redações.

O candidato ao emprego deve ficar imóvel durante três minutos, diante de um fiscal da empresa.

Se, ao final deste prazo, o candidato não latir nem relinchar deve ser sumariamente eliminado, porque não serve para a profissão jornalística.

Se, no entanto, o candidato emitir latidos e relinchos terá provado que é jornalista legítimo. Deve ser imediatamente contratado.

Porque mostrou estar preparado para ingressar nas redações brasileiras e produzir os jornais, revistas e programas de TV mais chatos do mundo.

Cinco anos depois, em 24 de agosto de 2015, inspirado numa definição de Winston Churchill para a União Soviética de Stálin (“É uma charada envolvida num mistério dentro de um enigma”), Geneton voltou a filosofar com amargura em seu blog, numa nota impiedosa sob o título ‘Entrevista de Emprego’, que seria cômica, se não fosse trágica:

Se eu fosse enfrentar hoje uma entrevista de emprego e se me pedissem para dizer em trinta segundos o que penso do jornalismo, eu diria, com toda sinceridade:

‘Depois de décadas na estrada, tenho a nítida, nitidíssima sensação de que, no fim das contas, como escolha profissional, o jornalismo foi um equívoco envolvido num engano dentro de um grande erro. Mas agora é tarde para voltar atrás. Bola pra frente, então! Faz de conta que é a melhor profissão do mundo!

E é – para os que se descobrem tecnicamente incapazes de fazer alguma coisa que seja de fato útil ao avanço da humanidade!”.

Nem preciso dizer que eu seria imediatamente dispensado pelo burocrata do Departamento de Recursos Humanos encarregado de selecionar os candidatos.

Eu ouviria o aviso de dispensa sumária, me levantaria, cumprimentaria o dispensador e diria: ‘Parabéns! Você nunca tomou uma decisão tão acertada!’.

Cinco anos antes, na mesma mensagem de 8 de abril de 2010 em que me agradecia pela louvação à sua ‘arte de perguntar’, o e-mail privado de Geneton traía sua desilusão já na linha seguinte, com uma inesperada autodefinição em tom de confissão:

Pode parecer pretensão, mas acho que realmente o jornalismo se mediocrizou.

O exibicionismo toma o lugar da substância, especialmente na TV.

Modestamente, considero-me um dissidente.

O dissidente Geneton Moraes Neto, meu amigo Master Asker, nosso grande Mestre Perguntador, nos deixou de repente, envolto num manto diáfano de desencanto, deixando no ar uma última pergunta, que cabe a todos nós responder:

— Por quê?

*Luiz Cláudio Cunha é jornalista, autor de Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios (ed. L&PM, 2008).

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Hoje é noite de Copa do Brasil e Copa Sul-Americana http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/hoje-e-noite-de-copa-do-brasil-e-copa-sul-americana/ http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/hoje-e-noite-de-copa-do-brasil-e-copa-sul-americana/#comments Wed, 24 Aug 2016 09:55:07 +0000 https://blogdojuca.uol.com.br/?p=81101 Começam hoje as oitavas de final da Copa do Brasil, torneio que garante vaga ao campeão na Libertadores.

Começam bem, muito bem.


Às 19h30, com Santos e Vasco, na Vila Belmiro.
O Santos com seus três campeões olímpicos e o Vasco que busca fazer do limão da Série B, uma limonada que o devolva ao torneio continental.

No mesmo horário, o Grêmio vista o Atlético Paranaense na Arena da Baixada.

Depois, às 21h45, o Morumbi vai ser palco de São Paulo e Juventude, time da Série C, mas que, em Caxias do Sul, é osso duro de roer, o que obriga o Tricolor a fazer um resultado confortável em casa.

Ainda às 21h45, no Mineirão, o Galo recebe a Ponte Preta, que sempre complica vida do time mineiro.

Teremos também dois jogos pela Copa Sul-Americana, outro torneio que garante vaga na Libertadores.


Com um clássico regional no Recife, no Arruda, entre Santa Cruz e Sport e com Figueirense, em crise, contra o Flamengo, em ascensão, no Orlando Scarpelli, em Florianópolis.

Note que dos 12 clubes em ação, apenas o Vasco e o Juventude não estão na Série A do Brasileirão.

Comentário para o Jornal da CBN desta quarta-feira, 24 de agosto de 2016, que você ouve aqui.

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Um menino http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/um-menino/ http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/um-menino/#comments Wed, 24 Aug 2016 03:34:59 +0000 http://blogdojuca.uol.com.br/?p=81106 POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para o Irapuan

“A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.” (Guimarães Rosa, em “Sorôco, sua mãe, sua filha”)

Lotaram o ônibus velho. Além dos quarenta sentados, mais uns vinte em pé no corredor. Com bandeiras, bumbos, cornetas, apitos, as cabeças para fora, batendo as mãos na lataria e gritando o nome do time.

Pressionavam o motorista para andar mais depressa. Temiam se atrasar para o jogo – no campo do adversário, em outra cidadezinha, a uns trinta quilômetros. Ele tentava, acelerava, dava saltos nas arrancadas, mas o motor já não respondia tanto.

Entraram na cidade consultando os relógios.

De repente, o ônibus parou. O motor ligado, mas sem movimento.

Começou a gritaria. Partiram para cima do motorista. Ele apontou o para-brisa: na ausência do domingo, no sol humilhante do domingo, na poeira do domingo, um enterro entupia a passagem.

Poucas pessoas, maltrapilhas. Mulheres roxas. Crianças de espiga. Homens vazados. E um caixãozinho de seis palmos carregado por um velho e uma velha quase inexistentes.

Três torcedores decidiram ir lá tentar abrir caminho. Pediram calma aos demais, ajeitaram as camisas e os cabelos e desceram.

Andaram no meio do cortejo. Próximos ao caixão, onde havia mais adultos, falaram, perguntaram, fizeram sinais.

Nada.

Não respondiam. Não se mexiam. Não pareciam vê-los ou ouvi-los.

Adiantaram-se para perto do velho e da velha. A mesma coisa. Repetiram: o ônibus, o jogo, o time, os torcedores, o horário.

Nada.

Um deles então viu que o caixão não tinha tampa. Inclinou-se e olhou.

Viu um menino de uns cinco anos abraçado a uma bola.

Empalideceu, paralisado.

Mostrou com o rosto para os outros dois, que arregalaram os olhos e congelaram.

Como estavam diante do caixão, impediam o enterro de avançar.

Mas ninguém os olhava. Todos de cabeça baixa – almas puídas levando o menino morto com a bola nas mãos no vão do domingo –, parados.

O pessoal do ônibus começou a buzinar, tocar os instrumentos, gritar, xingar. Iam perder o jogo.

Então o velho e a velha iniciaram, quase em silêncio, uma ladainha enrolada, numa língua desconhecida. Os de trás os seguiram com vozes surdas. Um canto estranho – e tão baixo que abafava a zoeira que vinha do ônibus.

Os três, parados na frente, assustados, não tiravam os olhos da criança sem cor, esquálida, com a bola na mão.

E então, sem se darem conta, começaram também a balbuciar a cantiga que todos entoavam.

Pousaram as mãos no peito e puseram-se a andar ao lado do caixão, murmurando a mesma melodia, a mesma letra irreal, junto com todos.

Os que estavam no ônibus, impacientes, desceram e, com empurrões, abriram passagem no enterro até chegar lá na frente. Queriam liberar a rua para o ônibus passar.

Mas viram o caixão. E o esqueletinho abraçado à bola.

Estancaram como à beira de um abismo.

Em volta todos cantavam a canção grave, ininteligível.

Não falaram nada.

Perplexos, vazios, abaixaram as cabeças e, um a um, foram se juntando ao cortejo e somando suas vozes à cantiga.

E até o final do dia, quando o sol também era sepultado nos morros, quando a poeira entalava todos os poros, quando o oco da cidadezinha era fechado sob uma tampa escura, até a hora em que puseram o caixãozinho num buraco baldio, todos eles, que não mais se lembravam do jogo nem de si mesmos, seguiram o enterro, sussurraram a mesma canção crespa que os demais cantavam – cada vez mais baixo, cada vez mais triste, cada vez mais uníssona.

Antes da primeira pá de terra, com o caixão destampado, o motorista do ônibus pediu que esperassem. Entrou no buraco, tirou a bola das mãos e a pôs nos pés do menino. Subiu e sinalizou com a cabeça para que continuassem.

Com poucas pás estava tudo coberto e acabado.

Mudos, voltaram para o ônibus.

Entraram e sentaram-se em silêncio.

O ônibus arrastando-se na estrada e na noite.

Foi quando alguém, lá no fundo do ônibus, puxou, baixinho, a mesma ladainha do enterro.

E depois outro.

E mais um.

Até que todos, aos poucos, os seguiram e começaram a cantar, juntos, quase sem se fazer ouvir, o mesmo canto desconexo e dolorido com que sepultaram o menino e sua bola.

Como se o trouxessem no colo, como se o ninassem.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


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Novos tempos http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/novos-tempos-3/ http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/novos-tempos-3/#comments Tue, 23 Aug 2016 22:52:48 +0000 https://blogdojuca.uol.com.br/?p=81094

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Medalha de lata para a senadora Ana Amélia http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/medalha-de-lata-para-a-senadora-ana-amelia/ http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/medalha-de-lata-para-a-senadora-ana-amelia/#comments Tue, 23 Aug 2016 15:51:50 +0000 http://blogdojuca.uol.com.br/?p=81087 A senadora Ana Amélia (PP-RS) quis homenagear os atletas olímpicos do Brasil.

E conseguiu não acertar nenhum nome dos homenageados.

Até para criticar a TV ela errou o nome do autor do gol da final no Maracanã.

Imagine como vota esta senadora…

Quem deu foi o jornal “Extra”, do Rio.

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Os reis dos anéis http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/os-reis-dos-aneis/ http://blogdojuca.uol.com.br/2016/08/os-reis-dos-aneis/#comments Tue, 23 Aug 2016 09:55:55 +0000 https://blogdojuca.uol.com.br/?p=81064 O jamaicano Usain Bolt e o americano Michael Phelps foram os donos da Rio 16 do primeiro ao último dia.

Porque mesmo antes de competir a expectativa em torno deles monopolizava as atenções.

Ele cumpriram e superaram as melhores esperanças, dois shows na pista e na piscina e uma chuva de ouros.

Mas o último dia tinha reservado um terceiro trono.

Para um raro atleta de 40 anos que a exemplo dos homens mais rápidos do planeta na água e na terra disputava sua última Olimpíada.

A disputou tão bem que foi eleito o jogador mais valioso do torneio de vôlei.

E a disputou com tamanha felicidade que ele, até então dono de uma medalha de ouro e outras duas de prata, ganhou sua segunda de ouro, para fechar com chave de diamante a sua participação.

De Diamante do Norte, Paraná.


O nome completo dele você talvez não saiba: Sérgio Dutra Santos.

Os apelidos você não se cansa de saber: Serginho, o Escadinha para os íntimos.

Um dos maiores nomes, ou apelidos, do esporte brasileiro em todos os tempos.

Comentário para o Jornal da CBN desta terça-feira, 23 de agosto de 2016, que você ouve aqui.

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