Blog do Juca Kfouri

Arquivo : março 2015

Dragões de chuteiras
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Juca Kfouri

POR MARCELO NINIO, na Folha de S.Paulo de hoje, de Pequim:

Agora é oficial: futebol virou prioridade de Estado na China. O plano de renovação do futebol chinês foi o primeiro item discutido pelo Comitê Central de Reformas, que se reuniu na semana passada sob o comando dos dois homens mais poderosos do país, o presidente Xi Jinping e o premiê, Li Keqiang.

O recado foi claro: não basta ser a maior economia do mundo e uma potência global. A China quer ser também um gigante no futebol.

O empurrão vem do mais alto escalão comunista. Fã declarado de futebol, Xi Jinping elevou o esporte a política de Estado desde que chegou ao poder, há dois anos.

O resultado foi o plano aprovado pelo Comitê de Reformas e apresentado nesta semana na sessão anual do Congresso Nacional do Povo, evento mais relevante do calendário político chinês.

“Precisamos desenvolver e revitalizar o futebol para garantir que nos tornemos uma nação forte no esporte”, disse o comitê, num comunicado. “Este também é um desejo desesperado do povo.”

O plano torna obrigatória a prática do futebol nas escolas e prevê a construção de milhares de campos de futebol pelo país. A meta é que até 2017 a China tenha 100 mil crianças jogando.

Apesar de ter se tornado potência do esporte e ficado em 2º lugar na tabela de medalhas da última Olimpíada, a China no futebol é sinônimo de vexame e frustração para seus torcedores.

A seleção só se classificou uma vez para a Copa do Mundo, em 2002, quando foi eliminada na primeira fase com três derrotas.

Atualmente está em 82º lugar no ranking da Fifa, depois de subir 14 posições graças a um desempenho surpreendente na recente Copa da Ásia, na qual venceu os três jogos da primeira fase antes de ser eliminado pela anfitriã Austrália, campeã do torneio.

“Uma questão que sempre nos fazemos é: com uma população enorme de quase 1,4 bilhão de pessoas, por que a China não é capaz de escolher 11 jogadores para formar um time forte?”, escreveu o jornal oficial “Global Times”, repetindo algo que é consenso no país: o problema é que simplesmente não há muitos chineses jogando futebol.

Segundo o jornal, o país tem 30 mil jogadores registrados, contra 1,5 milhão no Brasil e 6,8 milhões na atual campeã mundial, Alemanha.

NOTA DO BLOG: A reportagem completa os assinantes do UOL ou da FOLHA podem ler AQUI.

Note que enquanto as duas maiores economias do mundo, Estados Unidos e China, voltam firmemente seus olhos e esforços para o mais popular dos esportes, no Brasil do 7 a 1 tudo permanece inalterado.

E quando o governo tem um belo projeto para modernizar o futebol, a ideia é sabotada na oposição e até por um deputado do PT.


Na trave
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

1.
Bola na trave é coisa séria.

O jogo pode estar uma porcaria, chato como um filme afegão, um engarrafamento, uma ata do Bacen – aí ela estoura, trisca, encosta, balança a trave, o pau, o ferro e tudo parece mudar.

Dali em diante cria-se a ilusão de que nada é mais o mesmo, incluindo o que ocorreu e o que ocorrerá. A história parece então refazer seus cursos.

Um sopro, uma luz, um chamado, uma chance de sucesso, um lembrança feliz, uma possibilidade, uma ousadia, uma acrobacia, um medo, um trauma, uma ameaça, a natureza morta dança e borrifa ou escurece e some.

2.
Tem bolas na trave que assombram, estrondam e fundam certo silêncio. Como se, no escuro, ouvindo um trovão, um rugido, um canhão, uma avalanche, um terremoto, viesse o medo.

Essas em geral são secas, graves, em lances nítidos e lentos. Todos mais ou menos na sua posição no campo, um passe ou um drible, a coreografia morna, nenhum aviso – e a explosão. O goleiro nem se mexe: só esguelha ou ausculta que algo ocorreu.

3.
Tem aquelas que, diferentemente, estrepitam e vibram, agudas. Gritam, gralham, esbugalham, esgoelam uma mudança, um risco, quem sabe.

Essas em geral saem de lances rápidos, com movimentos embaralhados, pressão na área, bate-rebate, contra-ataque populoso, falta tensa, troca rápida de passes, fila de dribles, corte seco na meia-lua, a torcida já urde uma exclamação, algo virá, não se sabe o quê – e ela estoura no pau, no ferro, e eis que morreríamos, vencia, salivo, acordareis, suspiraste, afundarão, quem sabe.

4.
Mas é só ilusão.

Tanto aquelas quanto estas nada mudam – porém, fazem com que ouvintes, torcedores, narradores e comentaristas passem a reler o jogo e o resultado a partir delas. É interpretação. Emoção. Envolvimento. Comoção. Esperança. Temor.

Com essas bolas na trave tudo segue igual.

As bolas na trave que mudam tudo de fato são outras.

São aquelas tinhosas, lentas, leves, felinas, pingam, escorregam, sem força, passam por ali, não vemos, por aqui, escapam, enganam, escorregam, vão entrar, deixa pra lá, vão sair, traiçoeiras, ardilosas, domesticadas, matreiras, dóceis, ôpa, cadê, vem cá, espera, psiu, que nada – e pimba, ou plóft, ou téc, ou tum, dão um beijo na trave, saem, param, se deixam ficar ou desmaiar por ali.

Essas sim definem tudo. Só que imperceptivelmente.

Trata-se de muito mais do que passado e futuro.

Poucos percebem, mas são elas que prescrevem a vida e a morte.

Pagliuca, goleiro da Itália na final de 94 contra o Brasil, percebeu.

Depois do chute do Mauro Silva, deu-se conta da dimensão do que estava em jogo.

Do que significava aquele beijo que a bola dera na trave.

Foi lá e, humildemente, reverenciou-a, imitando-a.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras


Uma outra visão pela paz no futebol
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Juca Kfouri

POR FELIPE TAVARES PAES LOPES e HELOISA HELENA BALDY DOS REIS* 

Baseados nas pesquisas que temos realizado nos últimos anos, gostaríamos de tecer alguns comentários sobre o relatório, de 2005/2006, da chamada “Comissão Paz no Esporte”.

Embora reconheçamos sua relevância e lamentemos, profundamente, que apenas uma pequena parte de suas recomendações tenha sido, efetivamente, implementada (aliás, a falta de continuidade de políticas públicas parece ser um problema crônico em nosso país…), não podemos deixar de destacar nossa preocupação com alguns de seus pontos e pressupostos.

Como é de conhecimento público, o referido relatório baseia-se, basicamente, em dois eixos interdependentes: a política da tolerância zero, que legitima um aparelho penal intrusivo e onipresente, e o chamado “modelo inglês” (em especial, o Relatório Taylor).
Em relação à referida política, gostaríamos de destacar que, seguindo as reflexões da jurista, criminóloga e professora Anastassia Tsoukala, entendemos que é preciso ampliar o teto de tolerância em relação a pequenas desordens e não baixá-lo, a fim de não agravá-las ainda mais.

Afinal, embora a maior parte dos torcedores seja pacífica e ordeira, ela tende a reagir negativamente a qualquer forma de desrespeito a ela (como, por exemplo, quando a polícia faz uso excessivo da força).

Esta estratégia já tem sido adotada em algumas partes da Europa e tem sido muito bem-sucedida, como ficou provado na Euro 2000 e na Euro 2004.

Além do mais, vale recordar que, conforme destaca o professor Eric Dunning, nos anos 1980, reduziu-se significativamente a permissividade nos eventos de futebol no Reino Unido, tornando-os mais policiados e normatizados.

No entanto, isto não impediu que ocorressem algumas das maiores tragédias do futebol mundial. Assim, ainda que o relatório da “Comissão Paz no Esporte”, acertadamente, insista na criação de uma atmosfera menos belicosa e mais festiva para os eventos de futebol, parece-nos preocupante que ela se baseie na política de tolerância zero.

Em relação ao “modelo britânico”, é preciso destacar que, embora o fenômeno do hooliganismo tenha perdido força a partir dos anos 1990, ele ainda existe – especialmente, nos deslocamentos para o exterior, nos pubs e nas divisões de acesso.

Também é preciso destacar que, hoje em dia, o Reino Unido (assim como alguns outros países europeus) adota, conforme nos indica a professora Tsoukala, uma controversa política de gestão do risco, que descarta o princípio da presunção de inocência.

Além do mais, embora os jogos da Premier League ocorram em estádios modernos e seguros, sua atmosfera é bastante fria e pasteurizada e o valor dos ingressos um dos mais altos do mundo.
Diante disto, acreditamos que esses dois modelos não devem ser os principais norteadores do futebol brasileiro.

A nosso ver, existem modelos mais inclusivos, democráticos e eficazes, como o belga e o alemão.

Desde o início da década de 1980, ambos têm investido em medidas educativas e no diálogo com o torcedor – o que tem ajudado a manter uma atmosfera festiva nas arquibancadas.

Obviamente, sabemos que o futebol belga e o alemão não estão isentos de problemas e que suas realidades são bastante diferentes da nossa.

Por isto mesmo, entendemos que, embora eles possam servir de norte, não é possível implementar as medidas que lá foram adotadas sem a devida mediação social e cultural.

De qualquer modo, caso ainda haja dúvida de que o caminho do diálogo é possível de ser seguido aqui na América do Sul, gostaríamos de recordar que a Colômbia também tem apostado nele e tem conseguido resultados bastante positivos.
Esses resultados indicam que, diferentemente do que muitas vezes defendem os meios de comunicação, o diálogo com as torcidas organizadas deve ser fortalecido, e não enfraquecido – desde que, obviamente, ele seja feito de forma pública e democrática, e não de forma clandestina.

Hoje em dia, as torcidas organizadas já possuem entidades como a Federação das Torcidas Organizadas do Rio de Janeiro (FTORJ) e a Associação Nacional de Torcidas Organizadas (ANATORG), que podem (e devem) servir de interlocutores dessas torcidas com o Poder Público. Interlocução esta que já começa ocorrer, como ficou claro no último seminário de torcidas organizadas promovido pelo Ministério do Esporte, em Belo Horizonte.
Além dos problemas já apontados, preocupa-nos a ausência, no relatório da “Comissão Paz no Esporte”, de propostas em relação a outras formas de violências que ocorrem no futebol brasileiro, como a estrutural e a cultural.

Por exemplo, a questão do preço (abusivo) dos ingressos não é colocada como um problema. Tampouco são problematizados os horários impostos pela televisão nas noites do meio de semana, que dificultam e tornam mais insegura a volta do torcedor para casa.

São igualmente deixadas de lado propostas que poderiam ensejar uma transformação cultural mais profunda. Menciona-se apenas, de forma bastante vaga, a necessidade de realização de campanhas que possam convencer a sociedade civil a integrar-se ativamente em uma forma menos violenta de torcer e a de realização de programas de conscientização das crianças sobre a importância da convivência entre contrários. Este ponto, todavia, é crucial, e tem de ser muito melhor discutido e detalhado. Não basta, por exemplo, a exibição de algumas faixas e publicidades contra a violência. Para que haja uma transformação cultural profunda, é preciso que seja realizado um acompanhamento socioassistencial regular dos jovens torcedores, tal como é realizado na Alemanha, nos chamados Fan Projekts.

Também nos preocupa a falta de propostas para a redução da violência policial – um dos principais problemas dos eventos de futebol. A nosso ver, é insuficiente advogar a “especialização” da polícia, pois é preciso responder, claramente, como fazê-la. Afinal, num contexto militarizado, torna-se particularmente difícil a construção de uma polícia respeitadora dos direitos democráticos do torcedor. Além disto, nos preocupa a falta de discussão sobre medidas que possam modificar o tratamento midiático dispensado ao tema da violência no futebol. Afinal, tal tratamento, frequentemente, estigmatiza determinados grupos de torcedores e dramatiza o jogo, colocando mais “lenha na fogueira”.
Por último, gostaríamos destacar que, obviamente, o futebol não é uma ilha dentro da sociedade e, sendo o Brasil um país, infelizmente, marcado por altos índices de criminalidade, sabemos da dificuldade e complexidade de se construir políticas eficazes de prevenção da violência. No entanto, embora não haja medidas miraculosas, a busca por soluções para o problema não pode ser deixada de lado. Soluções que só poderão ser consideradas justas e merecedoras de apoio se houver um amplo debate público e democrático sobre elas, envolvendo os mais diferentes atores. Afinal, a falta de diálogo, sobretudo com os setores habitualmente excluídos das posições de poder, também é uma forma brutal de violência.

*Os professores doutores Felipe Tavares Paes Lopes e Heloisa Helena Baldy dos Reis são pesquisadores  do tema da violência relacionada ao futebol na Unicamp.


Pela paz
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Juca Kfouri


Diga não à Fifa
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Juca Kfouri

Do blog do jovem jornalista Rodrigo Capelo, “Dinheiro em Jogo”, recolho esta jóia em forma de anúncio de uma empresa australiana de material esportivo.

Veja.

Na esteira dos grandes patrocinadores que se afastaram da Fifa por causa dos escândalos que a envolvem, a empresa se orgulha de não ser patrocinadora da entidade.

A Fifa, que perdeu parceiros como a Emirates, Sony, Castrol, Continental e Johnson & Johnson, se fez de morta diante da investida australiana.

Esperta, preferiu apostar que, calada, não aumentaria a repercussão da campanha, apesar dos bons resultados obtidos pela marca.

Um gol, um golaço pelo verdadeiro espírito esportivo, com o filme que termina com um garotinho pedindo  à Fifa para nos devolver o futebol.