Blog do Juca Kfouri

Arquivo : agosto 2016

Um menino
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para o Irapuan

“A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.” (Guimarães Rosa, em “Sorôco, sua mãe, sua filha”)

Lotaram o ônibus velho. Além dos quarenta sentados, mais uns vinte em pé no corredor. Com bandeiras, bumbos, cornetas, apitos, as cabeças para fora, batendo as mãos na lataria e gritando o nome do time.

Pressionavam o motorista para andar mais depressa. Temiam se atrasar para o jogo – no campo do adversário, em outra cidadezinha, a uns trinta quilômetros. Ele tentava, acelerava, dava saltos nas arrancadas, mas o motor já não respondia tanto.

Entraram na cidade consultando os relógios.

De repente, o ônibus parou. O motor ligado, mas sem movimento.

Começou a gritaria. Partiram para cima do motorista. Ele apontou o para-brisa: na ausência do domingo, no sol humilhante do domingo, na poeira do domingo, um enterro entupia a passagem.

Poucas pessoas, maltrapilhas. Mulheres roxas. Crianças de espiga. Homens vazados. E um caixãozinho de seis palmos carregado por um velho e uma velha quase inexistentes.

Três torcedores decidiram ir lá tentar abrir caminho. Pediram calma aos demais, ajeitaram as camisas e os cabelos e desceram.

Andaram no meio do cortejo. Próximos ao caixão, onde havia mais adultos, falaram, perguntaram, fizeram sinais.

Nada.

Não respondiam. Não se mexiam. Não pareciam vê-los ou ouvi-los.

Adiantaram-se para perto do velho e da velha. A mesma coisa. Repetiram: o ônibus, o jogo, o time, os torcedores, o horário.

Nada.

Um deles então viu que o caixão não tinha tampa. Inclinou-se e olhou.

Viu um menino de uns cinco anos abraçado a uma bola.

Empalideceu, paralisado.

Mostrou com o rosto para os outros dois, que arregalaram os olhos e congelaram.

Como estavam diante do caixão, impediam o enterro de avançar.

Mas ninguém os olhava. Todos de cabeça baixa – almas puídas levando o menino morto com a bola nas mãos no vão do domingo –, parados.

O pessoal do ônibus começou a buzinar, tocar os instrumentos, gritar, xingar. Iam perder o jogo.

Então o velho e a velha iniciaram, quase em silêncio, uma ladainha enrolada, numa língua desconhecida. Os de trás os seguiram com vozes surdas. Um canto estranho – e tão baixo que abafava a zoeira que vinha do ônibus.

Os três, parados na frente, assustados, não tiravam os olhos da criança sem cor, esquálida, com a bola na mão.

E então, sem se darem conta, começaram também a balbuciar a cantiga que todos entoavam.

Pousaram as mãos no peito e puseram-se a andar ao lado do caixão, murmurando a mesma melodia, a mesma letra irreal, junto com todos.

Os que estavam no ônibus, impacientes, desceram e, com empurrões, abriram passagem no enterro até chegar lá na frente. Queriam liberar a rua para o ônibus passar.

Mas viram o caixão. E o esqueletinho abraçado à bola.

Estancaram como à beira de um abismo.

Em volta todos cantavam a canção grave, ininteligível.

Não falaram nada.

Perplexos, vazios, abaixaram as cabeças e, um a um, foram se juntando ao cortejo e somando suas vozes à cantiga.

E até o final do dia, quando o sol também era sepultado nos morros, quando a poeira entalava todos os poros, quando o oco da cidadezinha era fechado sob uma tampa escura, até a hora em que puseram o caixãozinho num buraco baldio, todos eles, que não mais se lembravam do jogo nem de si mesmos, seguiram o enterro, sussurraram a mesma canção crespa que os demais cantavam – cada vez mais baixo, cada vez mais triste, cada vez mais uníssona.

Antes da primeira pá de terra, com o caixão destampado, o motorista do ônibus pediu que esperassem. Entrou no buraco, tirou a bola das mãos e a pôs nos pés do menino. Subiu e sinalizou com a cabeça para que continuassem.

Com poucas pás estava tudo coberto e acabado.

Mudos, voltaram para o ônibus.

Entraram e sentaram-se em silêncio.

O ônibus arrastando-se na estrada e na noite.

Foi quando alguém, lá no fundo do ônibus, puxou, baixinho, a mesma ladainha do enterro.

E depois outro.

E mais um.

Até que todos, aos poucos, os seguiram e começaram a cantar, juntos, quase sem se fazer ouvir, o mesmo canto desconexo e dolorido com que sepultaram o menino e sua bola.

Como se o trouxessem no colo, como se o ninassem.
________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


Os sete de Tite e Suppici
Comentários Comente

Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA*

Tite convocou sete campeões olímpicos para as Eliminatórias.

Sete é muito ou pouco?

Bom ou mal?

Justo ou injusto?

Ninguém tem bola de cristal pra saber.

Historicamente, apenas uma seleção conseguiu a proeza.

Ganhar a medalha de ouro sendo campeão mundial na sequencia.

O Uruguai nos mitológicos anos de 1928 e 1930.

Quem segurava o pepino da celeste na época era Alberto Suppici.

Sete vezes campeão uruguaio como jogador.

Suppici que era uma criança de 31 anos na época.

Suppici herdou a esquadra treinada por Luís Grecco – o Micale da época.

Foi xingado no terceiro lugar da Copa América de 1929.

Mandou embora o paredão boêmio Andres Mazalli.

Tacou Enrique Ballestero no arco.

E foi campeão mundial na final com… sete campeões olímpicos.

Nasazzi, Andrade, Fernandes, Álvaro Gestido, Scarone, Castro e Pedro Cea.

Entre os reservas havia mais quatro medalhistas de ouro em Amsterdã.

Petrone, Melogno, Tejera e Urdinaran.

Tite convocou sete campeões olímpicos para as Eliminatórias.

Bom ou mal?

Justo ou injusto?

Ninguém tem bola de cristal pra saber.

Só nos resta saber se os sete de Tite estarão entre os onze do antigo Estádio Lênin.

Lá em Moscou, 2018…

*Com o agradecimento do autor ao leitor Jota Peixe.


Revanche? Eu?
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Brasil e Alemanha farão a final da Olimpíada.

Finjo para mim mesmo que não sei da coincidência. Assovio para espantar a tensão.

Nego intimamente toda a sede de vingança.

Mas escuto o que andam falando.

Muita gente deseja que devolvamos o 7 X 1.

Salivam. Tremem. Babam. Riem sozinhos. Esfregam as mãos.

Um amigo me disse que tem acordado à noite. Outro, que tem dormido mais cedo pra tudo passar mais depressa e chegar logo a hora da revanche.

Todos eles querem o 7 X 1 de volta.

Eu, que faço que nada sei do jogo, que não percebo a oportunidade, nem que desejo a revanche, dou de ombros.

Como se qualquer placar valesse.

Repito para mim mesmo que aquele 7 X 1 de 2014 é passado, coisa do futebol, acidente, deixa pra lá, é só um jogo.

Mas não.

Há em mim, lá no fundo, uma ideia mais forte.

Ela cresce e ocupa minha alma – como uma febre interna.

É o seguinte.

Diz a lenda que, muitos anos atrás, os Harlem Globetrotters, um dia depois de uma exibição na França, leram no jornal que alguém se dera ao trabalho de contar as cestas durante a apresentação.

Embora o jogo, como sempre, tenha sido uma grande brincadeira, o jornal marcava a vitória do time local. Dizia que os Harlem Globetrotters já não eram mais os mesmos. Que estavam decadentes. E louvava o time francês que tinha vencido a partida.

Mais ainda: alguns jogadores locais davam entrevistas se vangloriando.

Pois bem.

Segue a lenda.

Os Globetrotters pediram revanche.

Jogariam de graça, mas queriam a revanche.

Criou-se grande expectativa antes da partida. Televisão, jornais, anúncios – uma enorme máquina de divulgação se formou.

E houve o jogo.

Alguém aí imagina quanto ficou? Alguém é capaz de arriscar o placar da revanche?

Pois eu, seguindo a lenda, lhes digo: ficou 1 X 0 para os Globetrotters!

Isso mesmo: 1 X 0!

No início do jogo, eles fizeram um ponto de lance livre e passaram o resto do jogo driblando, arremessando, voltando, trocando passes, fazendo malabarismos, acertando a tabela, pondo o time francês na roda.

Não sei o que ocorreu depois: a lenda para nesse ponto.

Mas, por minha conta, imagino a torcida de pé, aplaudindo. E os franceses soterrados de humilhação.

Pois é essa ideia que me corrói. Que se avoluma aqui dentro.

Nada de 7 X 1. Não quero o 7 X 1.

O que eu quero é o que os Globetrotters fizeram: vitória do Brasil de 1 X 0 sobre a Alemanha.

Só.

Mas com os alemães na roda noventa minutos, tomando dribles, chapéus, olé, bobinho, tabelas e tudo o mais que for possível!

Nossos atacantes fazendo linha de passe dentro da área, chegando em frente ao gol aberto e voltando, chutando na trave, segurando a bola com malabarismos humilhantes até o final do jogo!

O estádio em delírio! Os alemães sem ação, cabisbaixos!

Eu tento disfarçar. Evito pensar nisso. Finjo displicência.

Mas aqui dentro eu não consigo.

Por dentro eu salivo, babo, tremo, rio e esfrego as mãos.

Não consigo dormir.

Quem me vê assim tranquilo nem imagina.
_________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


A primavera feminista vai florescer também nos gramados, quadras, piscinas e pistas!
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR SÂMIA BOMFIM*

Tecnicamente as jogadoras de futebol ou pugilistas que se tentou exibir aqui e ali não apresentam interesse algum; serão sempre imitações imperfeitas… Talvez as mulheres compreenderão logo que essa tentativa não é proveitosa nem para seu encanto nem mesmo para sua saúde” (Barão de Coubertin – “pai” das Olimpíadas Modernas)

O calendário esportivo mundial tem como seu grande marco as Olimpíadas.

De quatro em quatro anos podemos avaliar não somente o desempenho esportivo de cada delegação, mas, também, a forma como o esporte se relaciona com a sociedade.

Nesta edição do Rio a participação, presença e luta das mulheres tem causado um dos principais debates.

Como está a relação do esporte, ou, mais corretamente, dos donos dos esportes com as mulheres?

Quais são os avanços das mulheres no último ciclo olímpico?

Apesar de a Olimpíada de Londres 2012 ter sido a primeira na qual as mulheres competiram em todas as modalidades, e também a primeira a contar com mulheres atletas em todas as delegações, o ciclo olímpico que culminou na Olimpíada do Rio ocorreu concomitantemente com um grande acréscimo na consciência feminista e na luta das mulheres.

Foram anos em que ocorreram massivas e inéditas manifestações em repúdio aos estupros coletivos na Índia, a irônica e mordaz Marcha das Vadias no Canadá correu o mundo e a luta pelos direitos reprodutivos extrapolou os países mais desenvolvidos, além de a luta contra políticos machistas e reacionários no Brasil (como Cunha, Temer e Feliciano) ter ganho protagonismo.

Enfim, anos em que milhares de mulheres passaram a se entender como feministas.

Muito lento, muito pouco

A primeira participação olímpica das mulheres foi em 1900 com apenas 16 atletas (de quase mil competidores!) e em apenas duas modalidades.

As mulheres demoraram 40 anos para poderem competir no basquete, 88 anos no ciclismo, 96 anos no futebol e, só na Olimpíada de Londres 2012, algumas modalidades de luta aceitaram mulheres.
Agora estamos em todas as modalidades e estamos chegando à metade do total de atletas!

Celebrar esse avanço é homenagear as mulheres (atletas ou não) que lutaram para chegarmos até aqui.

Mas, se conseguimos uma quase igualdade formal, no concreto, a diferença de cobertura, prestígio e investimento entre as modalidades masculinas e femininas é brutal.

As mulheres recebem menos salários, patrocínios, bolsas e até as premiações são muito menores.

Não é escandaloso que a revista Forbes tenha divulgado que, dos 100 maiores ganhos anuais de atletas, 98 sejam de homens?!

E que a primeira colocada mulher (a incrível Serena Willians) ocupe apenas a 40ª posição?

Phelps de maiô, Bolt de saias

A disparidade entre a atenção dada aos homens e às mulheres que disputam os jogos é tão grande que não é incomum que o maior “elogio” comumente feito às mulheres atletas brilhantes, como Katie Ledecky e Katinka Hosszu, seja compará-las com homens, como Phelps.

Se fosse pelo estilo ou por outra característica inerente ao esporte, a comparação poderia fazer sentido, mas a impressão é que a régua de medir talento esportivo é sempre um homem.

Entre os inúmeros exemplos de aplicação dessa régua estão as tentativas de exaltar os grandes feitos da ginasta Simone Biles a comparando com Phelps, e os da velocista jamaicana Shelly-Ann Fraser-Pryce a comparando com Bolt.

Por que Simone Biles e Shelly-Ann Fraser-Pryce não podem ser “apenas” as excepcionais Simone Biles e Shelly-Ann Fraser-Pryce?

Além de bonita é boa atleta?

As mulheres estão agora em todas as modalidades, mas ainda não são tratadas da mesma forma pela mídia e pela imprensa esportiva.

Enquanto o corpo do Phelps é lembrado pela rara e eficiente aerodinâmica e Bolt surpreende por ser um velocista bem mais alto do que o esperado, os corpos das mulheres são lembrados em absurdas galerias das “mais gatas das Olimpíadas”, “colírios das quadras” e outras expressões tão tolas e machistas quanto estas.
As empresas fornecedoras de material esportivo também cumprem um grande papel na fetichização do corpo da mulher atleta.

Será que o quase biquíni do vôlei de praia serve mais ao desempenho esportivo ou às necessidades de vender o esporte feminino a partir de uma ótica sexista?

Em quase todas as modalidades a diferença entre os uniformes masculinos e femininos demonstra obviamente que os feitos atléticos e o desempenho têm uma importância bem mais relativizada em relação à aparência quando as atletas são mulheres.

Jogue e Lute como uma mulher!

Seguimos torcendo e nos emocionando com nossas atletas, medalhistas ou não.

Vibramos com a judoca Rafaela, mulher, negra, lésbica e periférica, retrato da mulher brasileira guerreira e lutadora, que nos deu um dos momentos mais emocionantes desses jogos.

Sofremos com a derrota no futebol da Marta, Formiga, Cristiane, que padecem com todo tipo de boicote em pleno país do futebol; com o vôlei feminino bi-campeão.

Apoiamos Joanna Maranhão dentro e fora da piscina, pelo seu desempenho como nadadora e pelo exemplo que dá na luta contra a cultura do estupro.

Orgulhamo-nos muito do nosso time de guerreiras, que lutam como mulheres dentro e fora das suas modalidades, mas vamos deixar claro que não aceitaremos mais que as mulheres nos esportes sejam lembradas somente de quatro em quatro anos!

Não queremos apenas torcer, mas queremos ligas femininas de futebol, mais mulheres comentando, cobrindo e narrando jogos, não aceitamos mais os comentários desqualificados e machistas de boçais que usam espaços na mídia para externar seus preconceitos e ignorância.

Queremos ver muito mais mulheres nas comissões de arbitragem, técnicas, dirigindo equipes e como dirigentes esportivas.

As meninas querem jogar futebol e praticar qualquer esporte na escola e não vão mais aceitar a sem sentido divisão de gênero nas aulas de educação física.

Passou da hora de podermos ir aos estádios sem medo de sermos assediadas como torcedoras ou esportistas.

E exigimos salários iguais para homens e mulheres!

Muitas reflexões devem ser feitas sobre as contradições das Olimpíadas, que carregam beleza e emoção, ao mesmo tempo que custam a moradia, os direitos e mesmo a vida de muitos cariocas.

Sem dúvida o debate sobre a participação das mulheres deve ser feito sob a mesma ótica.

Brilhamos nas quadras e gramados, mas na volta para a rotina longe dos holofotes internacionais somos invisibilizadas, assediadas, mal remuneradas e ignoradas.

A Primavera Feminista chegou para ficar também nos esportes.

Somos milhares com Joanna, Marta e Rafaela.

*Sâmia Bomfim é funcionária pública estadual em São Paulo e candidata à vereadora pelo PSOL na capital.


Mentira tem braçadas curtas
Comentários Comente

Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Olimpíada de Chicago.

Quatro nadadores brasileiros saem pra comemorar.

Tomam todas.

Pegam o táxi e param num posto de gasolina.

Lá eles depredam o posto de gasolina.

Conversa pra cá.

Conversa pra lá.

Pagam os estragos e voltam ao hotel.

Para escapar da punição pela farra inventam a história.

Foram assaltados por um americano que se dizia policial.

Os quatro brutamontes morreram de medo.

A polícia americana não brinca em serviço.

Eles deram tudo o que tinham no bolso – exceto os celulares.

Pobres coitados!

As televisões brasileiras cobrem o assalto.

Chicago é mesmo perigosa. Dantesca.

Obama pede desculpas por sua cidade.

Surpresa.

Quando a polícia mete a mão no caso, não existe assalto.

Um nadador brasileiro se escafede pela fronteira do Canadá.

O mais veloz conseguiu fugir de avião.

Os outros dois têm menos sorte.

Vão mofar alguns meses no xilindró por mentirem pra Lei.

Os brasileiros aplaudem a polícia americana.

Lugar de bandido é mesmo na cadeia!

E ainda bem que o caso não aconteceu na Indonésia, dizem alguns.


Olympia 2016, a cidade onde nem todos têm preço
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR MARIANA GENESCÁ*

A cada quatro anos somos tomados por aquele sentimento arrebatador e renovador, que nos faz torcer por nossa bandeira e vibrar com nossos atletas em modalidades que às vezes nem conhecíamos.

O que dizer quando as olimpíadas são na nossa casa e podemos ver e sentir de perto essa grande festa, que reúne pessoas de mais de 200 países em um único lugar?


Para além de espectadores, como estamos acostumados, passamos então a ser parte da festa e da história e nos tornamos responsáveis.

Somos responsáveis pela recepção única e acolhedora aos turistas, somos responsáveis pela torcida mais animada do planeta (com seus excessos às vezes), somos responsáveis pela organização dos jogos, pela segurança e também, e principalmente, por manter vivo o Espírito Olímpico, afinal, é em nome dele que tudo acontece.

Como anfitriões, somos responsáveis também pela forma como as coisas são feitas, porque, além de garantir que a chama olímpica permaneça acesa (e com ela todos os seus valores e princípios), somos nós que ficaremos com a conta no final. E é certo que ela vai chegar. Assim como são certos o orgulho e a emoção de ver os atletas se doando e lutando por conquistas, como a de Rafaela Silva: primeira medalha de ouro do Brasil indo para uma mulher negra e da favela e que, simbolicamente, tinha mesmo que ser em uma modalidade de luta.

Como bons anfitriões, fomos responsáveis pela bela cerimônia de abertura.

O evento deu destaque para temas urgentes, como o respeito à diversidade e a preservação do meio ambiente.
Pudemos ver as delegações carregando sementes para serem plantadas na ‘Floresta dos Atletas’ e aros olímpicos verdes representando a natureza; pudemos ver uma transexual à frente da delegação brasileira; pudemos presenciar chefes de estado de diversos países aplaudindo de pé o time de refugiados; pudemos assistir o sorriso do menino da Mangueira acendendo a ‘Pira do Povo’ na Candelária.

Mas como guardiões desta mesma chama olímpica, precisamos nos importar em como o menino Jorge Alberto, negro e morador de uma comunidade, vai voltar para casa em todos os outros dias do ano sem tomar tapa na cara, caso haja uma “dura” no caminho, ou coisa ainda pior; como a Lea T vai ser respeitada no seu dia-a-dia e ter seus direitos garantidos; como o que aconteceu com a atleta Yusra Mardini, que teve que nadar pelo Mediterrâneo por três horas e meia puxando um barco para salvar sua família, nunca mais aconteça com outros sírios.

Precisamos nos importar em como permitimos a construção de um campo de golfe olímpico na nossa cidade, destruindo uma reserva ambiental (o que é proibido pela Constituição Federal), permitindo o aumento do gabarito da região de 6 para 22 andares, com a construção de torres que vão virar um grande condomínio de golfe, com apartamentos à venda a partir de R$ 5,5 milhões.

O escândalo do campo de golfe olímpico, que traz junto negociatas e contas mascaradas envolvendo a prefeitura do Rio e empreiteiras financiadoras de campanha (como aconteceu também no caso da Vila Autódromo, Porto Maravilha e Museu do Amanhã), teve pouco espaço na imprensa nacional e parece não abalar o Espírito Olímpico.

Tanto é, que a decisão judicial que anulou o laudo pericial sobre os impactos ambientais, que sustentava a argumentação da possibilidade de construção do campo, saiu exatamente um dia antes do início dos jogos e, além de não ter sido noticiada, não alterou a programação:

o golfe olímpico da Rio2016 está acontecendo em um campo construído em cima de uma Área de Proteção Ambiental e que não tem um único laudo válido que ateste sua viabilidade.

As capivaras, cobras e jacarés que tem aparecido por ali não estão a passeio. Elas sobreviveram e pedem socorro.

A construção desse campo de golfe, inclusive, começa com apropriações indevidas de grandes áreas da Barra da Tijuca, Recreio e Jacarepaguá e acusações de assassinatos ainda no século XVII, com cabeças cortadas e fincadas em estacas para demarcar territórios e demonstrar poder.

A realidade surreal descrita pelo jurista Pontes de Miranda já em 1939, como “grilagens dignas de fitas de cinema”, fez jus à profética descrição e virou um filme: ‘Olympia 2016 – a cidade onde nem todos têm um preço’ entra nos cinemas em 15 de setembro.

Misturando as linguagens de ficção e documentário, o filme mostra que já tem muita gente pagando a conta dos jogos.
Convidamos todos a assistir. A festa não pode interromper a vida.

*Mariana Genescá começou como jornalista esportiva e hoje é produtora de cinema e TV.



Os medalhões dos 100m rasos
Comentários Comente

Juca Kfouri

 

O “Raio” Usain Bolt (Jamaica)


Recordista mundial da prova, atual bi-campeão olímpico e atual bi-campeão mundial.

 

O “Capitão América” Justin Gatlin (EUA)


Campeão olímpico em 2004, campeão mundial em 2005, atual vice-campeão mundial (Pequim 2015) e
melhor marca do ano de 2016 (Final da Seletiva americana com 9.80).

Campeão mundial em 2011, vice-campeão olímpico em 2012 e vencedor da seletiva jamaicana para as
Olimpíadas do Rio 2016.

Andre De Grasse (Canadá)


Campeão pan-americano dos 100 e 200m em 2015, medalha de bronze no mundial 2015 e campeão
canadense em 2016.

Trayvon Bromell (EUA)


Medalha de bronze no mundial 2015 e vice-campeão americano em 2016. No campeonato americano fez
sua melhor marca: 9s84

Jimmy Vicaut (França)


Terceiro colocado no ranking mundial em 2016 com 9.86.

 


O menino que bateu Phelps
Comentários Comente

Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

A foto é surreal.

Singapura, 2008.

Phelps se prepara para os Jogos de Pequim.

Alguém chega e pede uma foto.

O já lendário Michael Phelps aceita.

O guri nem sabe o que dizer.

O guri que é fã de Phelps.

Phelps não sabia.

O guri nascido em Singapura tinha DNA aquático.

O tio-avô foi o primeiro atleta de Singapura em Londres, 1948.

O guri cresceu nadando nas histórias da família.

Nas horas de folga, ele curtia o Chelsea e já era um tubarão no nado borboleta.

Como nas melhores lendas olímpicas.

Oito anos depois.

O menino bate Phelps na final do 100m borboleta no Brasil.

Porque a realidade dos esportes.

É sempre muita mais surpreendente que os sonhos de criança…


Momentos olímpicos
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

1.
Olimpíada, gordo daquele jeito? Nunca andou mais de cinco metros na vida! Come, bebe e dorme, mais nada. Você sabe bem, pai. Você sabe. Agora, tem uma semana que está em frente à TV o dia todo. Só empilhando lata de cerveja, saquinho de amendoim e cigarro. E ainda disse pro caçula: “filho, esporte é saúde”, acredita? Fui falar com ele pra procurar emprego. Sabe o que ele respondeu? “Silêncio, agora é a prova de vela!”. De vela, pai! De vela! Xinguei-o de que tudo que é nome. Aí ele se levantou e me deu uma sacudida tão forte que me jogou no chão. Olha o roxo aqui no ombro, pai, olha. Ah, sabe o que ele disse pras crianças? Que eu não tenho “espírito olímpico”.

2.
Agora ela toda noite quer ver natação, vôlei, resumo do dia, reprises, tênis, tudo o que existe na Olimpíada. Botar o jantar? Arrumar a cama? Lição dos meninos? Nem aí. Bate palmas, dá gritinhos, chora, canta hino, vibra, torce – nem sei se ela entende o que está vendo. Não aguentei. Ontem nem voltei pra casa. Dormi num hotel. Pensa que ela telefonou? Nada. Nem deve ter notado. Acho que só vai notar no final dos Jogos. Se notar, meu amigo, se notar. Ainda se o Brasil ganhasse alguma coisa, vá lá. Mas ficar vendo gringo ganhar medalha de ouro e largar a casa naquela bagunça? Não dá, amigo, não dá. Mais uma e a conta?

3.
O pai estragou tudo, mãe. Ele é muito chato. No dia da abertura, levei os amigos pra assistir lá em casa. Sabe o que ele fez? Ficou na sala com a gente. E eu tinha pedido pra ele sair, mãe. Avisei que eu queria ficar sozinho com a turma. Atrapalhou tudo. E as piadas? Mãe, que vergonha! As delegações estavam entrando. Aí ele começou: “Barbados? Mas só tem um a caráter!”. “Os de Bermudas, sim, estão coerentes”. “Somália só com dois representantes? Tinha que ser Diminuília”. “Luxemburgo? Montenegro? Então eles se separaram de Vanderlei e de Oswaldo?” – e explicou pra todo mundo o que ocorreu com a antiga Tchecoslováquia. “A delegação japonesa só tem uns dez: o resto é truque de espelhos”. Ninguém aguentava mais. Eu estava morto de vergonha, mãe. No final do desfile entrou a delegação brasileira e ele ainda soltou essa: “que vexame, o Brasil já começa em último lugar!”. Foi todo mundo embora, mãe. Estragou tudo.

_____________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).



É criança na água, estúpido!
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR RENATO CORDANI*

Não é preciso fazer muitas contas para concluir que a seleção brasileira de natação não foi bem nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Ainda faltam duas finais, mas todo mundo viu, todo mundo sabe. Não que se esperassem muitas medalhas, a minha previsão era apenas uma, mas a grande maioria acabou piorando os tempos ao invés de melhorar. Muitas desculpas podem ser dadas pelos brasileiros individualmente: pressão da torcida, horário inadequado, o calor, a comida, Deus, a Vila, sei lá. São justificativas razoáveis, e não estou sendo irônico. Mas é isso o que temos, e querendo ou não, a seleção brasileira é formada nada mais nada menos pelos melhores nadadores que temos hoje no Brasil.

Aí você vai dizer: “ah, mas a Katinka, o Phelps, o Peaty, a Ledecky não sentiram nenhum desses problemas!”. Isso é fato, inclusive a Katinka, a Ledecky e o Peaty bateram recordes mundiais. Eles não sentiram nada disso, e obtiveram rendimento máximo na final olímpica, que é o objetivo de todo nadador.

Fazer o melhor tempo da vida na final olímpica é uma tarefa para poucos e bons, e não é inédito para brasileiros, por exemplo:

Ricardo Prado fez o seu melhor tempo ao ganhar a prata olímpica em 1984 (aqui).
Gustavo Borges tem seus melhores tempos de 100L e 200L em finais olímpicas medalhadas em 1996.
Fernando Scherer fez seu melhor tempo quando beliscou o bronze olímpico em 1996.
César Cielo fez seu melhor tempo ao ganhar o ouro olímpico em 2008, e o melhor de 100L (WR até hoje) na final do mundial de Roma em 2009.
Thiago Pereira fez sua melhor marca – adivinhem! – na final olímpica dos 400 medley em que ele garantiu a prata em 2012.

Enfim, alguns dos nossos nadadores já fizeram isso, embora com muito menos frequência do que os americanos. Quais nadadores? Os gênios! Aqueles que são os mais talentosos dentre os talentosos. Os quase sobrenaturais. O meu ponto aqui é que muito poucos nadadores são assim. De vez em quando, por pura sorte, um desses ultra-talentos pipoca por aqui.


Ricardo Prado: prata olímpica com melhor tempo da vida na final.

Já nos países que apresentam muitos talentos o tempo todo, como é o caso dos Estados Unidos, é porque os talentos foram selecionados dentre muitos milhares de nadadores. Nos EUA, em cada estado, em cada pequena cidade, seja nas escolas ou em clubes, a criança tem muito estímulo para nadar, mostrar seu talento e de um dia ser recrutado para a seleção. E de milhões, se faz uma seleção só de craques. É uma questão de simples estatística!

Com qual frequência aparece uma Ledecky? Com qual frequência aparece um Lochte?

Aqui no Brasil quantos são os centros de natação mirim-petiz? Que estados tem projetos para as suas crianças? Quantas escolas têm piscina? Quantos patrocinadores privados patrocinam o esporte de base? Quantos olheiros estão buscando talentos em locais de baixa renda? Quais Federações têm recursos próprios e fazem competições bacanas para a molecada? Quantas crianças estão na água? Fora a Federação Aquática Paulista e mais umas poucas outras, a verdade é que as nossas crianças não estão na água!


Paulista Petiz de Verão 2015: quantos estados do Brasil colocam tantas crianças na água?

Portanto a culpa dessa situação desoladora não é dos nadadores atuais, eles são os melhores do Brasil e estão lá com méritos. O que está faltando é criança na água!

Não sou leviano em dizer que essa culpa tem nome e sobrenome: sr. Coaracy Nunes e a sua CBDA, afinal essa turma está lá há quase trinta anos! Muito dinheiro é gasto com o alto rendimento (olha o exemplo do Pólo masculino), para tentar maximizar o número de medalhas, mas as Federações estão à míngua! Nenhum apoio real da Confederação é empenhado em competições para crianças, a não ser em alguns estados que se viram sozinhos. E as medalhas olímpicas, como vimos, só acontecem quando aparece (por pura sorte) um desses gênios! E para piorar, todo o dinheiro que está sendo usado hoje em dia vem quase exclusivamente de UM patrocínio estatal (Correios), que já disse que o dinheiro vai acabar… o que será de nós daqui para a frente?

Preparo psicológico, treinamento de altitude, tecnologia de ponta, técnicos de primeira, equipamentos de primeira linha, tudo isso a gente tem! Só falta criança na água, e é justamente o que de melhor uma Confederação de Desportos Aquáticos poderia fazer… e não está fazendo!

Essa está longe de ser a única, tem outras (aqui), mas é a principal razão pela qual já passou da hora de mudar: MUDA CBDA!

*Renato Cordani foi campeão brasileiro de natação.


Confissão de impotência
Comentários Comente

Juca Kfouri

“É bom lembrar que o comandante disse que eles foram insistentes na recomendação: os comboios  não deveriam jamais entrar em comunidade, deveriam permanecer nas vias expressas, as chamadas vias olímpicas”.

A frase não é de nenhum chefe do tráfico de drogas no Rio nem de algum comandante de milícia que aterroriza as favelas cariocas.


A declaração, como de rendição, é do ministro da Defesa do governo interino do Brasil, Raul Jungmann, ao se referir ao atentado à bala sofrido ontem por uma unidade da Guarda Nacional destacada para dar segurança aos Jogos Olímpicos.

É o reconhecimento explícito de que há áreas em que o Estado não pode entrar, como se fossem, e são, territórios ocupados por forças acima da ordem nacional.

A que pontos chegamos!

Só resta continuar a torcer para que não haja uma tragédia na Olimpíada.


 


Em homenagem ao Dia do Advogado
Comentários Comente

Juca Kfouri

11 de agosto é o Dia do Advogado.

Não fosse por alguns deles, como o solidário criminalista Luís Francisco Carvalho Filho, e é possível que eu estivesse preso, processado por Ricardo Teixeira, Joseph Blatter e José Maria Marin tantas vezes como já fui por apontar suas mazelas.


Imagine: eu preso, eles soltos, embora um esteja em prisão domiciliar em NY, outro não possa sair do país e o suíço expulso da Fifa.

Ou poderia estar na miséria não fosse pela advogada Taís Gasparian, minha querida defensora nas ações cíveis.


Daí, em homenagem a eles, reproduzo um texto de outro craque, não só nas letras jurídicas, mas, também, na literatura, autor do portentoso e premiado livro “Fernando Pessoa: Uma quase autobiografia”, José Paulo Cavalcanti Filho, um velho amigo e torcedor do Timbu.


CONSELHOS DE VELHOS JURISTAS A JOVENS ADVOGADOS

Sempre imaginei escrever um livro com título assim. Talvez algum dia o faça. E aproveito esse 11 de agosto, Dia do Advogado, para indicar alguns conselhos que juntei nos caminhos percorridos. Para todos os fins, conto meu tempo de profissão desde quando o governo militar me proibiu de estudar no Brasil. Era 14 de abril de 1969, não dá para esquecer uma data dessas. Então fui para Harvard, mas essa história não interessa a ninguém. Certo é que, esperando pelo dia de partir, botei gravata e passei a dar expediente no escritório de meu pai. Tinha só 20 anos. E já faz uma vida. Vamos a alguns dos tais conselhos que aprendi por lá.

Quando se vai demasiado longe, o progresso consiste em regredir. Eduardo Spíndola (ministro do STF).

Tantas vezes vi isso, na profissão. Pessoas que acreditavam estar sempre certas. Que não mudavam nunca de opinião. É um erro, senhores. Um pouco de modéstia não faz mal a ninguém. Outro conselho dele é Se não é preciso mudar, é preciso não mudar. Variável do dito americano Se não está quebrado, não conserte.

Nunca leia um artigo do Código mais que 6 vezes. Na sétima, ele vai começar a dizer o que você quer que ele diga. Clóvis Beviláqua (autor do Código Civil Brasileiro de 1916).

A realidade não pode ser vista, ou lida, a partir de nossas conveniências. As coisas são o que são, por mais que não gostemos. Outro conselho dele é Não entende o que um artigo diz?, leia o anterior. Continua sem entender?, leia o seguinte. Sugerindo ampliar a visão, para bem compreender cada situação. Sem preconceitos. Mundo, mundo, vasto mundo, escreveu Drummond. E é mesmo.

Vamos dizer as coisas como as coisas são. Quase igual é o mesmo que diferente. Francesco Carnelutti.

Sobre as virtudes no falar claro. Evitando acomodações. Esse jeitinho bem brasileiro de não ir à essência das questões. E sem receios de explicitar divergências. Elas nos enriquecem, amigo leitor. Uma crise da razão é, sempre, uma crise sem razão.
Faça tudo que puder enquanto não sentir as primeiras mordidas da velhice. Noberto Bobbio. Um conselho que vale para todos nós. Bucovski escreveu sobre a lancinante dor da liberdade. Há outras. Entre elas, a lancinante dor de existir. Até porque como na frase atribuída a Shaw, Juventude é doença que tem cura.

Não entre em problema que você não seja capaz de resolver. Afonso Arinos de Melo Franco (presidente da Comissão que redigiu o projeto da Constituição de 1988).

Pense bem antes de se meter em confusão. Duas vezes. Três. Se puder, corra dela. E não esqueça o conselho desse mestre, antes do primeiro passo.

Um problema é sempre um problema. Dois problemas, às vezes, é uma solução.

Esse conselho é meu. Por tantas vezes ver que um segundo problema acaba sendo, mesmo, solução que cai do céu. Podem acreditar. Sugiro, ao leitor amigo, prestar atenção na regrinha.

A mão aberta é um tapa. A mão fechada é um murro. E é a mesma mão.

De meu pai, José Paulo Cavalcanti, maior jurista que conheci. Sobre a importância de escrever bem. Esquecendo o que não é essencial. O adjetivo. O que não têm importância. E indo sempre ao centro da questão. Um belo conselho. Saudades do velho.


Boa sorte, Neymar!
Comentários Comente

Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Neymar não está em má companhia.

Para o bem e para o mal.

Leônidas era boçal e foi vendido aos italianos.

Friedenreich era frio – bom era Neco – ambos craques.

Tim vivia de noitadas.

Barbosa era cego.

Juvenal frouxo e Gentil Cardoso metido a besta.

Jair Rosa Pinto era venal.

Pelé estava acabado em 1969.

Garrincha de alegria virou aleijado.

Ronaldo, um fraco.

Rivaldo oligofrênico.

Félix frangueiro.

Marinho Chagas irresponsável.

Zico era menino do Maracanã.

Cerezo um irresponsável.

Bellini saiu de herói a bonde em duas estações.

Valdir Peres sumiu do mapa.

Pepe tremia quando via Zagalo.

Alguns foram bons jogadores – a maioria, gênios.

Ninguém se salvou.

Nem Telê.

Nem Aymoré.

Nem Feola – que cochilava no banco.

Diante de tal histórico com nossos jogadores.

Resta apenas desejar boa sorte ao Neymar.

A mão que apedreja no futebol brasileiro.

Costuma afagar com amnésia na manhã seguinte.

Basta apenas o milagre do gol…


Mulheres recebem menos também nos esportes
Comentários Comente

Juca Kfouri

Enquanto Neymar embolsa em média R$ 900 mil por gol, Marta ganha R$ 12 mil

por Natalia Mazotte, do Gênero e Número, para a Agência Pública

Além da baixa representatividade nas gerências das federações esportivas, a carreira das atletas passa por obstáculos financeiros.

O suor para estar em competições nacionais e internacionais de alto nível é o mesmo para homens e mulheres, mas invariavelmente as recompensas são menores para elas.

Em um caso que ganhou destaque recentemente, o time brasileiro vencedor da Liga Mundial de vôlei feminino de 2016 levou pra casa um cheque de 200 mil dólares, valor cinco vezes inferior ao recebido pelo primeiro lugar da Liga Mundial masculina.

Em entrevista ao “Gênero e Número”, a oposta Sheilla Castro, bicampeã olímpica e integrante da atual equipe de vôlei campeã, critica a diferença entre as premiações. “Muito discrepantes os prêmios no masculino e feminino. Nunca formalizamos nenhuma reclamação, mas já conversamos com o Ary [Graça, atual presidente da Federação Internacional de Vôlei], quando ele era presidente da CBV”, disse a jogadora.

A diferença de remuneração é ainda mais notória quando se olha para o prêmio em dinheiro oferecido pela FIFA, órgão de gestão do futebol no mundo que apenas em 2013 teve a primeira mulher em seu comitê executivo, a burundesa Lydia Nsekera.

Enquanto a equipe feminina dos EUA ganhou US$ 2 milhões da organização por vencer a Copa do Mundo do ano passado, a seleção masculina alemã arrecadou US$ 35 milhões após ser campeã da Copa do Mundo de 2014. Se o prêmio fosse dividido pelos jogadores em campo, a receita das americanas não chegaria a US$ 200 mil por atleta, enquanto os alemães embolsariam mais de US$3 milhões individualmente.

Sheilla afirma que a justificativa dada para a disparidade é a diferença de patrocinadores, o que impactaria no valor que entra. “Se é ou não verdade, eu não sei”, disse.


As contas bancárias dos atletas refletem essa diferença. Na última classificação divulgada pela Forbes, entre os cem atletas mais bem pagos do mundo há apenas duas mulheres: as tenistas Serena Williams, que recebe US$ 28,9 milhões, e Maria Sharapova, com US$ 21,9 milhões por ano, respectivamente 40º e 88º no ranking. Valores altos, mas nem metade do que recebe a estrela masculina do tênis Roger Federer, US$ 67 milhões.

Se no tênis, um dos esportes mais equânimes em termos de gênero, onde todos os principais torneios oferecem prêmios idênticos nas disputas femininas e masculinas, a diferença de salários e patrocínios dos primeiros do ranking ainda é considerável, no futebol ela atinge seu ápice.


Neymar e Marta são dois expoentes dessa a paixão nacional, e estão em campo na disputa pelo ouro olímpico.

Ela já foi eleita cinco vezes melhor jogadora do mundo pela Fifa e marcou 103 gols com a camisa da seleção.

Ele conquistou o terceiro lugar na última votação para melhor do mundo, e chegou a 50 gols defendendo o Brasil. Mas é na conta bancária que a diferença entre os dois se sobressai: Marta recebe de salário anual US$400 mil contra US$14,5 milhões de Neymar, de acordo com a Forbes. Se fossem pagos por gols, cada bola na rede da Marta valeria cerca de US$3,9 mil (cerca de R$12,2 mil), enquanto as do Neymar valeriam US$290 mil (cerca de R$905 mil).

Pode ser moralmente escandaloso que Marta receba tão menos que Neymar? Em um mercado movido a patrocínios, tudo parece justificável. As receitas patrocinadas da Copa do Mundo masculina chegaram a US$ 529 milhões. No mundial feminino, US$ 17 milhões de investimentos privados.

Visibilidade e popularidade são palavras-chave para entender por que os esportes femininos atraem menos patrocínios. “A mídia dá pouca visibilidade às conquistas das mulheres, aos campeonatos das mulheres”, explica Silvana Goellner, professora da Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e especialista em questões de gênero no esporte. “A mídia produz muito a representação do esporte para os homens, então como vamos tê-las como inspiração?”, questiona Silvana.

Os acordos de transmissão e direitos televisivos exercem uma poderosa influência nos negócios esportivos. A popularidade dos jogos, com o comparecimento aos estádios para ver as equipes femininas, também afeta diretamente a receita dos campeonatos e o interesse das emissoras. Quanto menos pessoas prestigiam as atletas, menos elas são noticiadas e televisionadas. Quanto menos são noticiadas e televisionadas, menos pessoas têm o interesse despertado e as prestigiam. Um círculo vicioso que explica em grande parte a batalha para equalizar economicamente as competições feminina e masculina.

Este texto foi produzido pela web revista Gênero e Número, uma iniciativa de jornalismo de dados que está sendo incubada pela Agência Pública em 2016. A cada mês, ela tratá uma série de reportagens com um tema relevante sobre a desigualdade de gêneros. Leia a investigação completa sobre Mulheres no Esporte: www.generonumero.media


“Olympia”: as Olimpíadas de Hitler
Comentários Comente

Juca Kfouri


Zuca Sardan

por Adriano Bidão

O documentário “Olympia”(assista a um trecho do filme), lançado em 1938, aborda as Olimpíadas de Berlim, de 1936. O filme é dividido em duas partes: “Ídolos do Estádio” e“Vencedores Olímpicos”. Em 1948, recebeu a medalha de ouro do Comitê Internacional Olímpico. Dirigido por Leni Riefenstahl e financiadopelo Terceiro Reich, “Olympia” completa 78 anos de lançamento em 2016, ano em que o Rio de Janeiro sedia os Jogos Olímpicos.

O cinema de Riefenstahl é influenciado pelo movimento artístico denominado “Construtivismo Russo”. Esta escola, apoiada por Lênin, liderada por Sergei Eisenstein, ganha força no cinema contemporâneo com o uso da montagem dialética, em que os planos justapostos transmitiam emoção e percepção ao espectador. Filmes como “A greve (1925)” e “Encouraçado Potemkin (1925)”, ambos de Eisenstein, tinham como protagonista o proletariado representado por atores populares, travando um combate ferrenho contra um governo tirano, que acaba sendo destituído do poder. Trata-se de uma luta de um povo unido pelo espírito do comunismo presente na antiga União Soviética.

Quando se torna Chanceler, Hitler opta por financiar a realização de filmes de propaganda. Neste momento surge a figura de Leni Riefenstahl. É preciso esclarecer que não estamos igualando os pensamentos de Riefenstahl e de Sergei Eisenstein, visto que a Rússia atravessava um momento de transição política revolucionária, sintonizado com o avanço do socialismo, das utopias e da luta pelo ideal da igualdade social, movimento liderado pelo Partido Bolchevique, dirigido por Lênin até seu falecimento, em 1924. Em paralelo, na década de 1920, a Alemanha viveu um dos momentos dramáticos de sua História. Depois de uma tentativa frustrada de um golpe de Estado em 1923, Hitler é eleito Chanceler em 1933.

Assistindo ao filme “Olympia”, é possível identificar a ideologia da superioridade ariana pela naturalidade das observações eloquentes do narrador buscando imprimir dramaticidade às provas, como na narração da corrida de 800 metros rasos, na qual ele destaca a emulação de “dois corredores negros contra três atletas brancos”, acrescentando que o grande corredor negro Woodruff seria o favorito e o italiano Mario Lanzi a esperança da Europa. Já no final da corrida, quando os atletas negros Edward O’Brien e John Woodruff estão de fato liderando a prova, o narrador não resiste e pergunta em tom de desespero: “onde está Lanzi?”.

Vemos também, no filme, Adolf Hitler aplaudindo e vibrando quando os alemães Karl Hein e Erwin Blask ganham, respectivamente, as medalhas de ouro e prata na prova de lançamento de martelo. Ironicamente, na prova final do lançamento de disco, a atleta Wajsówna, da Polônia (primeiro país invadido pela Alemanha na Segunda Guerra Mundial), perde para a alemã Gisela Mauermeyer. Derrotas alemãs também são registradas, como a emblemática vitória do atleta negro e norte-americano Jesse Owens na prova do salto à distância, na qual também compete o alemão Lutz Long. Essa é uma das cenas mais marcantes do filme, pois, afinal, apesar de Hitler ter usado as


O norte-americano Jesse Owens, após vencer a prova de
salto em distância.

Olimpíadas para tentar provar a superioridade da “raça ariana”, os nazistas tiveram de assistir a Jesse Owens ganhar quatro medalhas de ouro.


O atleta alemão Lutz Long. Ele foi derrotado pelo atleta
norte-americano, Jesse Owens.


Há o registro de dois brasileiros: Ícaro de Castro Melo, na prova de salto em altura, e Catrambi, na prova de tiro ao alvo (a ida da equipe brasileira às Olimpíadas de Berlim renderia um excelente documentário. Seria um grande resgate da nossa memória e uma homenagem aos atletas que elevaram o nome do Brasil).
O atleta brasileiro Catrambi na prova de tiro.


O atleta brasileiro Castro Melo na prova de salto em altura.

Cabe ressaltar que a Alemanha saiu vitoriosa no quadro de medalhas obtendo 89 (33 de ouro) contra 56 (24 de ouro) dos EUA.
As lentes de “Olympia” captam com precisão a conjuntura conturbada da antessala da Segunda Guerra Mundial, conforme podemos ver através das fotos apresentadas neste artigo. É inegável o talento de Riefenstahl.

A grande polêmica em relação ao documentário em tela está na impossibilidade de não se vincular o nome da cineasta ao de Adolf Hitler. A ex-atriz e bailarina e mais tarde mergulhadora tornou-se uma produtora e diretora conhecida mundialmente em 1932, após o lançamento do filme “A Luz Azul”. Com a nacionalização da produtora “UFA” pelo Reich, o ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, via no cinema uma forma de disseminar os seus ideais por intermédio de cinejornais.

O contato profissional entre Hitler e Riefenstahl começou em fevereiro de 1933. Após assistir a um discurso do Führer, Riefenstahl envia-lhe uma carta. Em resposta, Hitler convida-a para um encontro que resultou na proposta para que ela se tornasse a cineasta do partido nazista, convite antes recusado pelo diretor Fritz Lang, autor do belíssimo filme “Metrópolis” (1927). Em 1934, ela realiza “O Triunfo da Vontade”, documentário sobre o sexto Congresso do Partido Nazista, em Nuremberg.

Durante esse período e até o final de sua vida, Riefenstahl sempre foi acusada de ser simpatizante do nazifascismo, ao que sempre respondia limitar-se a exercer o seu ofício profissional de diretora cinematográfica. Depois de décadas sem filmar, Riefenstahl conclui em 2002 o filme “Impressões Subaquáticas”.

Concordamos que seja possível assistir a “Olympia” e apreciá-lo de forma artística pelas imagens e pela música, que cultuam a plasticidade dos corpos dos atletas em movimento. Mas é impossível esquecermos seu significado e sua representação como pano de fundo da barbárie do nazismo.

Para alguns críticos e cinéfilos, “Olympia” transcende a política. É um filme para cinéfilos, para fãs de esportes olímpicos, jornalistas, historiadores e pesquisadores. Como descreveu a crítica norte-americana Pauline Kael: “Olympia é uma elegia sobre a juventude de 1936: ali está ela em seu desabrochar, dedicada aos mais altos ideais do desportismo – aqueles jovens que cedo demais iriam se matar uns aos outros”.

Em 1993, dez anos antes do falecimento de Riefenstahl, foi lançado o documentário biográfico “Leni Riefenstahl: a Deusa Imperfeita”, dirigido por Ray Müller.

Adriano Bidão é Cineasta, Roteirista e Escritor. Dirigiu e escreveu 5 curtas-metragens. É autor do livro contos “Reflexões Delirantes (Ed.Multifoco)”. Foi pesquisador do livro “Vida que Segue. João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970 de Raul Milliet Filho.(Ed.Nova Fronteira)”.

Notas do Editor do Megafone do Esporte
1. Em 1935, a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) era responsável pela organização das delegações olímpicas do País. A criação do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) neste mesmo ano provocou um conflito entre as duas entidades, que divergiram sobre quem teria a supremacia para levar os atletas brasileiros a Berlim. A disputa se estendeu e só foi decidida na véspera do embarque, depois que a CBD aquiesceu em fundir as equipes e aceitar o COB no comando desta jornada.
Não é preciso dizer que todo este imbróglio prejudicou o desempenho dos 95 atletas brasileiros inscritos (sendo 6 mulheres). Os brasileiros não conseguiram conquistar nenhuma medalha, sendo a última vez que isto aconteceu.
A nadadora Piedade Coutinho chegou em 5º lugar nos 100 metros livre, o mesmo acontecendo no atletismo com Sylvio de Magalhães Padilha, que ficou com a 5ª colocação nos 400 metros com barreiras.
2. As Olimpíadas de 1936 ficaram marcadas por uma disputa política entre Alemanha e Estados Unidos. Depois da Segunda Guerra Mundial até a derrubada do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, todos os Jogos Olímpicos tinham como principal pano de fundo a disputa política.
A partir de 1992, nos Jogos Olímpicos de Barcelona, tem início uma nova fase com a hegemonia do capitalismo globalizado e as grandes empresas multinacionais, que passam a dominar os destinos do Comitê Olímpico Internacional e dos comitês olímpicos dos países presentes às disputas.

Deixa falar: o megafone do esporte tem a edição e criação de Raul Milliet Filho (doutor em História pela USP, pesquisa a História do Futebol no Brasil, especialista em Políticas Públicas na área social. ).



Mais um degrau para a democratização no Corinthians
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR SÉRGIO ALVARENGA*

No dia 27 de agosto, os Conselheiros do Corinthians terão oportunidade de fortalecer o modelo democrático de composição dos órgãos gestores do clube. Será votada proposta de Revisão Estatutária que, entre outras coisas, propõe o fim do chamado “chapão” para eleição dos membros do Conselho.

Reconheça-se que já houve muitas conquistas nos últimos 10 anos: eleições diretas para a Diretoria; fim da reeleição; redução do número de Conselheiros vitalícios; Conselheiros trienais 100% escolhidos pelos associados; para citar apenas as mais sensíveis. A ideia central sempre foi a de conceder, cada vez mais, maiores poderes ao associado.

Não tenho dúvidas de que o recente sucesso do Corinthians nos gramados deve-se, também, em boa dose, a esse respirar mais democrático nas esferas de comando.

Mas é preciso prosseguir na escalada. E o próximo passo é o fim do “chapão”.

Pelo método do “chapão”, todas as 200 vagas de Conselheiros trienais são preenchidas pelos membros da chapa vencedora. A(s) chapa(s) vencida(s), independentemente do número de votos recebidos, não ocupa qualquer espaço. Em consequência, os seus eleitores não se veem representados no Conselho. Ou tudo, ou nada.

É óbvio que não é justo! Mas além de injusta, a fórmula é contraproducente!

A divergência sensata de ideias é sempre saudável. A discordância – educada, respeitosa, responsável, claro! – faz crescer. O debate equilibrado faz pensar e, reflexamente, evoluir. Até porque, num ambiente peculiar como o de um clube de futebol, o ideal de todos é um só: a grandeza do Corinthians!

Os partidários do “chapão” valem-se de um argumento, a meu ver, improcedente: “A governabilidade restaria prejudicada com um sistema plural”.

Ora, a Diretoria já é eleita pelo sistema majoritário – e assim deve ser mesmo! Toda a Diretoria já é composta por pessoas da mesma inclinação, eleitas em conjunto ou nomeadas pelo Presidente. A administração executiva não sofrerá qualquer crise de incompatibilidades.
É de todo recomendável, então, que a composição do órgão fiscalizador se faça proporcionalmente, em reverência à vontade de todos os grupos de associados, nas suas respectivas parcelas eleitorais.

Caberá à Diretoria fazer política – no melhor sentido da expressão –, justificando aos Conselheiros suas ações e escolhas. E, em assim agindo, seguramente a governabilidade não sentirá qualquer obstrução. Ao contrário, poderá eventualmente ser beneficiada com o agregar de pensamentos novos. A conveniência de um Conselho monocórdio induz à estagnação, ao comodismo.

Quatro outras regras para a eleição estão sendo debatidas internamente no clube. Com características específicas, algumas vantagens aqui, desvantagens ali, todas têm, em comum, o benefício de dar representatividade ao associado minoritário.

Nas últimas eleições, os atuais Conselheiros assumiram pessoalmente, como compromisso de campanha, aprovar tal alteração. O associado-eleitor, seguramente, não se esquece.

A hora de subir mais um degrau chegou. Estamos maduros para mais esse progresso.

*Sérgio Alvarenga é advogado e presidente da Comissã0 de Ética do Corinthians.



O fim do manto sagrado ou João, o profeta
Comentários Comente

Juca Kfouri


ZUCA SARDAN

por Marcos Alvito
Respeitemos as camisas tradicionais”
​​​​​​​​​​João Saldanha


ZUCA SARDAN

 
​Ex-jogador, membro do Partido Comunista, escritor, técnico da maior seleção brasileira de todos os tempos, radialista, marido, cidadão… estas coisas e muitas outras foi João Saldanha.

Mas hoje eu quero afirmar que ele também foi profeta.

Pois há 35 anos, ele afirmava em sua coluna no Jornal do Brasil (6/11/1981):
“Volto a falar sobre o negócio das camisas dos clubes e a publicidade sobre elas que alguns, ingenuamente, pensam que resolve alguma coisa. Pois duvido. O prejuízo é maior do que o lucro.”
​Claro que ele estava certo. Afinal, pode-se dizer que os clubes estão melhor hoje do que estavam quando suas camisas eram a mais pura expressão do clube? Todo o dinheiro que entra em um clube de futebol visa ser utilizado para melhorar o elenco e levar vantagem sobre os outros clubes. Se todos vendem suas camisas, se todos vendem sua história e sua dignidade, ninguém melhora, porque o patamar de gastos passa a se elevar para todos. Ou melhor, os clubes com maior torcida conseguem normalmente contratos melhores. Ou seja, a publicidade nas camisas não resolve o problema dos clubes e ainda aumenta as disparidades entre eles. Uma maravilha.
​Ainda bem que o velho Saldanha não viu o Botafogo jogar com um anúncio da Supergasbrás na parte de trás do calção, nem as belas listas alvinegras serem corrompidas por propaganda de secador a R$ 39 ou Promoção Maluca de uma loja de departamentos. Claro que isto vale para todos os outros clubes.
​O curioso é que o esporte mais rentável do mundo, o futebol americano, não permite às franquias venderem espaços publicitários em suas camisas. O mesmo ocorre na NBA e na liga de beisebol (MLB). Tratam o esporte como um produto a ser vendido, mas entendem que este produto tem que ser valorizado, minimamente respeitado. A publicidade nas camisas de futebol hoje em dia, suja o espetáculo, perturba a relação do torcedor com o seu clube e, para repetir João, o profeta, não resolve nada.
Marcos Alvito – é carioca de Botafogo e Flamengo até morrer. É um antropólogo que dá aula de História na UFF desde o longínquo ano de 1984. Perna-de-pau consagrado, estuda um jogo que nunca conseguiu jogar direito: o futebol. Mas encara qualquer um no futebol de botão.

Nota do Editor do Megafone do Esporte:
​Em 1983, em depoimento inédito ao Projeto Memória do Esporte, intitulado “Futebol e zona do agrião”, João Saldanha aprofunda suas críticas à mercantilização do futebol brasileiro, que, como poderemos ver, complementa o artigo de Marcos Alvito.
Segue abaixo um pequeno trecho deste depoimento:
​“Estou preocupado. A militarização, a burocratização do treinamento esportivo, o desaparecimento progressivo dos campos de pelada nas grandes e médias cidades, a banalização do espetáculo, a mercantilização excessiva, a utilização dos jogadores como objetos e a supremacia das teorias de treinamento burramente baseadas na supervalorização da força das ‘táticas’ sobre o talento e a habilidade… Assim, vamos para o ‘vinagre’”. (Depoimento publicado no livro Vida que segue – João Saldanha e as copas de 1966 e 1970; Editora Nova Fronteira, org. Raul Milliet Filho).

Deixa falar: o megafone do esporte tem a edição e criação de Raul Milliet Filho (doutor em História pela USP, pesquisa a História do Futebol no Brasil, especialista em Políticas Públicas na área social ).



Procura-se um time para torcer
Comentários Comente

Juca Kfouri

Procura-se time para torcer: o que dizem os clubes na hora de conquistar um novo torcedor
Um francês apaixonado por futebol está vindo morar no Brasil. Como convencê-lo a torcer pelo seu time?
POR MAURÍCIO BRUM

https://medium.com/puntero-izquierdo/procura-se-time-para-torcer-o-que-dizem-os-clubes-na-hora-de-conquistar-um-novo-torcedor-19b936459dcd#.1ordtkn85

O que você faria para convencer alguém a torcer para o seu clube do coração? Esta não é uma situação que aparece todos os dias. Num país em que a paixão pelo futebol nos é incutida desde cedo, muitas vezes por influência da família, a preferência por uma equipe raramente é racional — é muito mais eficiente, digamos, levar uma criança ao Maracanã lotado do que contar para ela quantas taças o Flamengo ganhou em sua história. Mas façamos esse exercício atípico: digamos que você esteja diante de alguém que só começou a gostar de futebol na idade adulta, ou de um estrangeiro sem filiações clubísticas aqui no Brasil: que argumentos você usaria para convencer esse sujeito a vestir as suas cores? Resolvemos dar a palavra aos próprios clubes: “Por que torcer para este time?” foi a pergunta feita aos 60 clubes das Séries A, B e C do Brasil.

 
A ideia foi inspirada em Aldin Karabeg, torcedor bósnio que, no fim de junho, escreveu para 92 equipes das quatro primeiras divisões inglesas perguntando as razões para passar a acompanhá-las.

 

Poucas responderam, mas algumas chegaram a ir além do esperado: ao ler nos fóruns frequentados por Karabeg que ele estava se inclinando para o Everton, o time de Liverpool gravou um vídeo com Muhamed Besic, bósnio que joga por lá, para convencer definitivamente o novo fã.

 

Na falta de um estrangeiro real, nossa reportagem se valeu de um alter ego: por alguns dias, assumi a identidade de Maurice Boucher, um francês de Nîmes que deve se mudar para o Brasil no ano que vem.

 

Boucher ama futebol e quer muito seguir uma equipe quando chegar aqui. Ainda está aprendendo a língua do novo país, então precisava de paciência dos clubes para o seu português macarrônico e cheio de pequenos erros pontuais. Após contar brevemente sua história, lançava a questão:
Depois de pesquisar um pouco, estou procurando informaçoes sobre as maiores equipes de cada estado. Assim escrevo a vocês para saber por que eu deveria escolher ser um fan de [nome do time].
Saudaçoes fraternas,
Maurice

 
Era uma proposta muito boa: seduzam-me e de quebra ganhem um torcedor internacional, com potencial fácil de divulgação da marca a partir de uma ação bem-feita — como o Everton soube fazer.

 
Mas a jornada entre mandar a mensagem e obter uma resposta nem sempre é simples. Evitamos as redes sociais, muitas vezes mal administradas, e priorizamos os veículos oficiais habituais: a aba de contato no site da equipe ou a aba da ouvidoria; na ausência de formas de chegar à equipe por ali, procuramos pelo e-mail do clube na primeira página do Google — se nenhuma dessas formas rendesse uma maneira de enviar a mensagem, convenhamos, qualquer estrangeiro escrevendo para dezenas de clubes acabaria desistindo. A incomunicabilidade foi rara e somente dois times não puderam ser acessados seguindo esse método — mas um deles, surpreendentemente, foi o Vasco da Gama.

 

No site do Vasco, a página de contato só lista números de telefone e a aba da ouvidoria exige cadastro prévio para se enviar uma mensagem. O e-mail não aparece em uma busca rápida que Maurice Boucher tentasse fazer através do Google.

 
Com isso, os 60 clubes se tornaram 58. Além do Vasco, o Guaratinguetá também se revelou difícil de encontrar para um torcedor comum, já que no momento do envio do e-mail (entre os dias 2 e 4 de julho) seu site oficial estava fora do ar.

 

Outra dificuldade nesse tipo de contato é que, muitas vezes, a mensagem é enviada por meio de um formulário padrão no site oficial. Nem sempre se recebe uma confirmação de que se foi bem-sucedido e, mesmo quando ela vem, isso não significa muita coisa: o Corinthians, por exemplo, enviou uma mensagem automática segundos depois do contato original, garantindo que estava em posse da mensagem de Boucher — mas nunca a respondeu.

 
Já o Palmeiras fez pior: não apenas ignorou a questão como utilizou o endereço de e-mail de Boucher para enviar spam — pouco tempo depois do contato, um anúncio sobre um saldão de camisetas palmeirenses apareceria na caixa de entrada.

 
Deixamos correr o prazo de uma semana desde o envio dos e-mails para fechar a matéria. Ao fim e ao cabo, 10 equipes responderam: nenhuma da Série C, três da B (Ceará, Joinville e Paysandu) e sete da A (América, Atlético Mineiro, Botafogo, Flamengo, Grêmio, Inter e Santos).

 

O silêncio total da terceira divisão decepcionou, mas a escadinha nas respostas era esperada. Conforme os orçamentos aumentam, é natural que ouvidorias e assessorias estejam mais estruturadas para lidar com esse tipo de contato. A seguir, um resumo do que cada clube tinha a dizer para conquistar um novo torcedor.
Série B

CEARÁ
A ordem alfabética faz o Ceará aparecer no topo aqui, mas sua mensagem, na verdade, foi a última que a reportagem recebeu. Veio três dias após o contato original, mas compensou o atraso na simpatia e no material enviado: somente aí Maurice Boucher foi saudado em francês. Embora o e-mail não tenha contado muito sobre o clube, incluía dois links úteis para saber mais sobre a história e a atualidade da equipe, acessando as revistas oficiais do time que, de outra forma, dificilmente seriam lidas pelo torcedor em potencial.
Trecho:
Bienvenue au Brésil! Bienvenue au Ceará!
O Ceará Sporting Club é o mais popular e mais tradicional e maior campeão do estado desde 1914. O Ceará é conhecido como o “Time do Povo” ou “Vozão”. Veja nestes links um pouco da nossa história:
https://pt.calameo.com/read/0020360186a28420eb63d
https://pt.calameo.com/read/00203601811d20e40a0a9

JOINVILLE
O JEC foi o primeiro a responder: o contato havia sido feito na tarde de um domingo e, antes do final da manhã de segunda-feira (4/7), a mensagem já estava na caixa de entrada. De Joinville, veio um relato simples e cumpridor sobre as conquistas da história do clube e o fanatismo da torcida.
Trecho:
Se optar por Santa Catarina, recomendamos torcer pelo JEC (Joinville Esporte Clube). O único clube a vencer por oito vezes seguidas o campeonato de times do estado de Santa Catarina. A mais recente conquista nacional entre os times catarinenses, também é tricolor, a Série B do Campeonato Brasileiro de 2014. Representamos na maior cidade do estado e, por consequência, temos a maior torcida.

PAYSANDU
Também eficiente, a resposta do Paysandu chegou vinte minutos após o contato do JEC, na mesma manhã de segunda-feira. Assim como o Joinville, o Papão da Curuzu destacou seus feitos e a importância deles na região em que está situado, procurando fazer uma apresentação do clube para alguém que provavelmente sabia pouco sobre ele. Também foi simpático ao usar o termo “fan”, que nosso francês vinha utilizando em sua mensagem original. Além do e-mail propriamente dito, a equipe paraense foi além, indicando links específicos para conhecer mais a história do clube.
Trecho:
O Paysandu é o maior campeão da Amazônia e do Norte do Brasil. Tem mais títulos e ainda possui a maior e mais fiel torcida da região. São milhares de fãns que lotam quase todos os jogos. Único time do norte a participar da competição mais importante do continente. A Libertadores da América. Possui o melhor aproveitamento de um clube do Brasil na competição. Torcer para o Paysandu é torcer bem. A torcida é apaixonada pelo clube e possui várias curiosidades. Veja em http://paysandu.com.br/paysandu/curiosidades/
Série A

AMÉRICA
O América deu a resposta mais rápida de todos os clubes contatados. Apenas vinte minutos após o e-mail original, o Coelho oferecia seus argumentos para atrair um novo torcedor: a mensagem seguiu o foco da campanha de associação que apresenta o América como o “Time da Família”, e incluiu o texto “Sonhos não envelhecem…”, de Marinho Monteiro, uma longa ode de amor ao clube e sua história. Não foi uma mensagem personalizada, mas foi uma das que mais se estendeu ao contar os feitos da equipe.
Trecho:
Veja o texto do americano (torcedor do América Mineiro) e saiba que o América é uma causa a ser defendida, somos o ‘Time da Família’ e como família lutamos cada luta em defesa das nossas causas, do nosso Manto Sagrado, a camisa do América Futebol Clube, o Coelhão das Minas Gerais:
Sonhos não envelhecem…
O América, como Belo Horizonte, nasceu de um sonho. Aquilo que transita entre o lúdico e o concreto, a utopia e a realidade, o racional com o irracional, a longevidade do amor com o efêmero da paixão. […]

ATLÉTICO MINEIRO
Do Galo, veio a resposta mais tardia entre os clubes da Série A — dois dias após o contato original. A demora foi compensada por uma das mensagens mais completas. O Atlético Mineiro se centrou em destacar a paixão da sua torcida, inclusive com vídeos, ofereceu uma série de canais diferentes para acompanhar o clube à distância (links para suas páginas no YouTube, Instagram, Twitter, Facebook e Flickr), e ainda teve uma pitada personalizada para um torcedor vindo da França, falando sobre as ligações do clube com aquele país.
Trechos:
É sempre bom crescermos nossa família. Sim, somos uma família de mais de 10 milhões de loucos apaixonados por esse manto alvinegro. Ser ATLETICANO é muito bom. Não é simplesmente torcer, é viver intensamente uma paixão. Para conhecer um pouco sobre o comportamento da torcida em dias de grandes jogos do Galo, recomendamos assistir ao vídeo abaixo.
https://www.youtube.com/watch?v=s6-jED_p4Ek
[…]
Por fim, o Atlético tem uma grande afinidade com a França. Além do título do Torneio de Paris (1982 — França), nosso mascote é o Galo.

BOTAFOGO
Tardou um dia para o Botafogo responder com um texto curto, que nada contou sobre a história do clube, mas teve um diferencial importante: foi dos poucos times a efetivamente convidar para conhecer o clube em pessoa, abrindo as portas ao torcedor em potencial. Em meio a tantas respostas frias e padronizadas, um tratamento mais pessoal chamou a atenção.
Trecho:
Quando estiver no Rio de Janeiro, na próxima oportunidade, não deixe de fazer contato. Teremos prazer em recebê-lo em nossa sede social para uma visita guiada em que conhecerá toda a história do nosso Glorioso e, certamente, se tornará um grande fã.

FLAMENGO
O grande problema para o Botafogo é que, no Rio de Janeiro, outro clube também fez convite para uma visita, em uma resposta bem mais completa — o Flamengo destacou não apenas as conquistas rubro-negras, mas o aspecto que o separa dos demais clubes do país: a imensidão de sua torcida. É verdade que um clube do tamanho do Fla tem facilidade para seduzir um novo torcedor, mas nem todos os times souberam aproveitar isso — como o Grêmio vai mostrar a seguir.
Trecho:
O Flamengo é o time brasileiro com mais de 40 milhões de torcedores, é um time que quando joga em casa, no Maracanã deixa qualquer um arrepiado. O Flamengo quando ganha tem festa no bar, na favela, na casa de ricos, de pobres, em qualquer estabelecimento. Único time do Rio que é campeão do mundo, o primeiro time do Rio a ser campeão da libertadores e também somos campeões 6 vezes do campeonato nacional. O Flamengo é um time também do povo e da elite, é o time que tem a torcida carismática e que está sempre do lado, dando palpites e participando do dia-a-dia. Esperamos que possamos ajuda-lo, venha nos visitar na Gávea para você ver de perto o clube, nossa sede.

GRÊMIO
A nota positiva para o Grêmio é que ele respondeu — 50 outros times não foram capazes de fazer isso. A nota negativa é que, das dez respostas recebidas, a do Grêmio é a que menos atrairia um torcedor novo, querendo aprender sobre o gremismo e sua história. Além de demorar um dia para responder, a justificativa para torcer para o tricolor teve exatamente uma linha sobre o tamanho da torcida e, em seguida, sugeriu entrar no site oficial do clube: na homepage! Indicar um link não é problema: outros times apontaram endereços com textos sobre suas conquistas e tradições. O Grêmio, porém, simplesmente aconselhou que Boucher entrasse na mesma página que já havia visitado para fazer o contato original.
Trecho:
Obrigada pelo contato.
Por ser a MAIOR TORCIDA DO SUL DO PAÍS.
Entre no nosso site (www.gremio.net)

INTERNACIONAL
Assim como o América, o Inter foi muito rápido, compensando com a eficiência o que faltou em intimidade no seu contato. A resposta colorada chegou em quarenta minutos, e indicava um link para acessar o vídeo da campanha de associação “É mais que um jogo. É o Inter”, que tem circulado na tevê gaúcha. Embora não tenha se dedicado a falar da história do clube, o Inter foi (ao lado do Galo) dos únicos a sugerir um vídeo, permitindo uma visualização do que é ser um torcedor no Beira-Rio.
Trecho:
O Sport Club Internacional agradece seu contato.
Segue um bom motivo para ser colorado.
http://www.internacional.com.br/conteudo?modulo=2&setor=18&codigo=34626

SANTOS
Com Pelé no passado e Neymar no presente, o Santos talvez seja o clube brasileiro que tem a tarefa mais fácil ao se deparar com um estrangeiro: dificilmente alguém não terá ouvido falar do clube e seus feitos. Mesmo assim, os santistas não dormem nos louros e ofereceram, de longe, a resposta mais completa e instigante do futebol brasileiro. Também foi a mais extensa, e por isso nos estenderemos mais com eles. O Santos foi o único clube a admitir que só os seus argumentos não bastam para formar um torcedor, como nesta passagem:
“caro Maurice, expomos alguns dos motivos pelo qual você possa se decidir por ser fã, porém analise e torça pelo Clube o qual seu coração mandar. Por aquele clube que lhe transmitir simpatia”.
Reconheceu ainda as questões específicas do Brasil quando se trata de acompanhar um time:
“Assim, devido as dimensões continentais, no Brasil há vários Clubes considerados grandes, seja pela sua estrutura ou pela tradição, os quais você pode optar para ser fã. Há uma identificação muito grande dos torcedores com seus clubes por características regionais, ou seja, perto de onde reside, no Estado, por influência familiar, pela posição do mesmo nos campeonatos quando o torcedor começa a se interessar por futebol e aparição constante na mídia. Ainda, outro fator preponderante é o Estado onde você for residir, pois muitas vezes a Televisão (afiliada local) transmite jogos dos clubes do próprio Estado e devido a frequência das partidas os torcedores acabam se simpatizando e torcendo por determinada Equipe.”
Da Vila Belmiro veio não somente um relato sobre a história do clube e uma sugestão para passear pelo estádio e conversar com velhos ídolos: foi também o convite mais atencioso e personalizado, com o ouvidor do clube se dispondo pessoalmente a guiar nosso torcedor em potencial durante sua visita:
Ao se transferir para o Brasil, venha nos fazer uma visita. Teremos o prazer em recebê-lo e levá-lo para assistir ao treino dos jogadores profissionais no Centro de Treinamento Rei Pelé, para ter contato direto com os jogadores através de fotos e autógrafos. Venha conhecer o Memorial das Conquistas (Museu) o qual apresentaremos os mais importantes e valiosos troféus. Conhecer os Camarotes em homenagem aos grandes goleiros como Gilmar, Cejas e Rodolfo Rodrigues, Sala de Imprensa, Vestiários dos Profissionais (inclusive o armário lacrado do Rei Pelé) e o gramado do Templo Sagrado. Se ficar algum tempo nos arredores do estádio terá oportunidade de encontrar com Pepe, Coutinho, Clodoaldo, Edú e outros monstros sagrados do futebol passeando, que de forma simples orbitam a Vila mais famosa do mundo, que terão o prazer em lhe dar autógrafo e fotos. Por último, programe-se para assistir a uma partida do time aqui no denominado Alçapão da Vila, e sinta a magia da torcida. Ao vir procure a mim (Batalha) ou Venceslau — Ouvidores, que teremos o prazer de promover um tour com você.
Depois disso, Maurice Boucher provavelmente não teria dúvidas quanto ao seu novo time.

https://medium.com/puntero-izquierdo/procura-se-time-para-torcer-o-que-dizem-os-clubes-na-hora-de-conquistar-um-novo-torcedor-19b936459dcd#.1ordtkn85


As arquibancadas da torcedora. A presença feminina nos estádios brasileiros
Comentários Comente

Juca Kfouri

por Leda Costa

Zuca Sardan




Há três anos resolvi sair pelo Rio de Janeiro afora e conhecer clubes e estádios que eram parte da minha memória afetiva, mas os quais jamais havia visitado. Daí nasceu o projeto Caravana de Boleiros a partir do qual compartilho em um blog (www.caravanadeboleiros.com.br) minhas experiências futebolísticas em arquibancadas diversas. Poderia me definir como uma mulher que ama demais futebol e que mantém um relacionamento sério com o Vasco da Gama, amor que fiz questão de deixar marcado com uma tatuagem que ostento em meu ombro esquerdo. Muitos que me conhecem não sabem que a frequência a estádios de futebol é algo novo na minha vida. Durante muito tempo, ouvia os jogos pela rádio ou os assistia pela TV, sempre me imaginando nas arquibancadas, porém me faltava dinheiro e coragem para frequentá-las. Ao longo da minha adolescência e parte da minha juventude, estar em um estádio, torcendo pelo Vasco, me parecia sonho distante e que demandaria uma logística inviável à minha realidade.

Morava em um subúrbio distante no Rio de Janeiro e para chegar ao Maracanã, por exemplo, precisava enfrentar um ônibus cujo itinerário era bastante perigoso. Também havia a opção do trem, o que me forçaria a pegar duas conduções e também encarar um trajeto urbano pouco tranqüilo. Mas, se o Maracanã exigia tamanho esforço, São Januário parecia pertencer a outro planeta. O estádio do Vasco fica em São Cristóvão que apesar de ser um bairro muito próximo ao centro do Rio, algumas de suas ruas não são de acesso fácil. É o caso da General Almério de Moura onde se situa São Januário. Ela é longe do trem, do metrô e também exigiria – e ainda exige – de mim a necessidade do uso de dois transportes. A isso tudo se somariam os gastos com o ingresso cujo processo de compra podia incluir horas em filas.

E se a ida se mostrava complicada, a volta parecia ser ainda pior, afinal a noite nem sempre é uma criança. Em dias de jogos é comum que o transporte público se torne escasso, sobretudo aqueles que têm a periferia da cidade como destino. Para enfrentar tudo isso era preciso muita disposição, dinheiro e um pouco de sorte. Eu tinha um pouco de sorte e um tiquinho de disposição, o que não era suficiente para me levar ao Maracanã e, muito menos, a São Januário. Ir contra tantos obstáculos e ainda correr riscos, tornava a empreitada menos atrativa ainda. Afinal, havia a atmosfera da festa, mas também a do risco cercando os jogos de futebol. As notícias de brigas, que se tornaram comuns no final dos anos de 1980, faziam dos estádios uma diversão que parecia perigosa demais. Ainda hoje muitas pessoas me dizem que nunca foram a um estádio por medo, o que em grande parte é derivado do pânico provocado pela violência urbana que não se restringe ao futebol, mas se faz presente em esquinas das cidades.

E o fato de ser mulher tornava tudo mais difícil. Familiares e amigos me diziam que estádio não era lugar para mulher. E o futebol realmente me parecia um bem quase que exclusivamente masculino, afinal não havia comentaristas, jornalistas de campo, narradoras e, muito menos, jogadoras, pelo menos na tela da minha TV. Nas arquibancadas, a grande maioria dos rostos que apareciam nas câmeras eram de homens. Portanto, embora fosse obcecada pelo Vasco da Gama, levou certo tempo até que eu reunisse condições e certa coragem para freqüentar as arquibancadas do Maracanã e, sobretudo, as de São Januário. Nesse tempo, perdi anos incrivelmente férteis de títulos para o meu clube. Tive que assistir a tudo pela televisão, sempre com uma ponta de inveja e certo ressentimento de não poder estar lá no meio da torcida.

Porém, eu cansei dessa distância e quando comecei a financeiramente me emancipar, o medo se tornou menor do que a vontade de experimentar as arquibancadas. Percebi que na verdade não havia muito o que temer. Fui ao Maracanã e mais tarde a São Januário e hoje vou a vários estádios do Rio e de outros lugares. Ir a estádios alimentou em mim a vontade de deles nunca me separar.Mais que isso, me fez desejar ser pesquisadora de futebol.
E meus primeiros passos nas pesquisas acadêmicas sobre futebol tiveram como objetivo justamente investigar a história das mulheres nesse esporte. Durante algum tempo, mergulhei em jornais e revistas antigas buscando fontes para traçar o caminho das mulheres na modalidade esportiva mais popular do país e buscando explicar porque costumava ouvir que estádio não era um lugar para gente. Acreditar em algum tipo de incompatibilidade entre mulheres e estádio, se vinculava a crença de que “futebol é coisa de macho”, frase que costumava ser proferida com naturalidade por pessoas comuns e especialistas da bola. Porém, descobri que essa frase não tinha nada de natural.

Desde o início do século XX, mesmo que algumas práticas esportivas não lhe fossem recomendadas, assistir às disputas de remo, às corridas de cavalo e aos jogos de futebol possibilitava à mulher experimentar o mundo para além dos domínios da casa. O futebol, assim como outras modalidades esportivas, proporcionou à mulher uma das raras oportunidades de exposição e entrada nos espaços públicos. Mas se o futebol foi útil para a mulher, o público feminino também foi muito importante para o estabelecimento desse esporte em terras brasileiras. Nas primeiras décadas do século XX, a presença de senhoritas e senhoras da alta sociedade contribuiu muito para dar uma atmosfera fidalga ao esporte bretão associando-o à elegância, tranqüilidade e beleza tornando-o, portanto, um esporte considerado apropriado para as famílias mais abastadas. É válido lembrar que nos seus anos iniciais no Brasil, o futebol era atividade anexada aos hábitos da elite que tentava fazer dele um evento social da moda. E a presença feminina auxiliava a consolidar o jogo entre as camadas abastadas da cidade.

Porém, o surgimento dessa figura chamada “torcedora” não se deu sem polêmicas. Lima Barreto, conhecido por sua posição contrária ao futebol, certa vez escreveu uma crônica intitulada “Uma partida de football” publicada na revista Careta. De modo bastante irônico, Lima Barreto descreve o futebol como um dos mais agradáveis hábitos adotados pela sociedade carioca. No caso das mulheres “elas se entusiasmam de tal modo que esquecem todas as conveniências. São as chamadas torcedoras e o que é mais apreciável nelas, é o vocabulário. Rico no calão, veemente e colorido, e o seu fraseado só pede meças aos dos humildes carroceiros do cais do porto” (Vida Urbana, disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000161.pdf).Essa crônica é datada de 1919, ano que se realizou, no estádio das Laranjeiras, o Campeonato Sul-americano de futebol.

O alvoroço que esse evento provocou foi grande na cidade e nas páginas da imprensa carioca. Nas populares revistas Ilustradas, há diversas menções ao público presente ao estádio do Fluminense, em especial, as mulheres. Na revista Careta podemos encontrar ótimas matérias que ressaltam o nervosismo provocado pelos jogos da seleção brasileira.

Algumas dessas matérias são belissimamente ilustradas por J. Carlos que em seus desenhos traduz a dimensão plástica dos movimentos corporais do torcer e do contorcer-se pelo futebol. Na edição de 17 de maio de 1919, o cronista comenta que enquanto o mundo assistia a diversos acontecimentos importantes como a assinatura do armistício de Compiègne, que daria fim a primeira guerra mundial, o carioca só tinha olhos para o futebol. Mesmo em meio a uma epidemia de gripe espanhola, os farmacêuticos “ganhavam fortunas vendendo calmantes à antecipada excitação das torcedoras (…) Houve damas que na fúria e na angustia da torcida, quebraram as unhas que levaram meses a crescer” (O football, Careta, 17/05/1919. As edições digitalizadas da revista Careta podem ser acessadas na Hemeroteca da Biblioteca Nacional).
Na edição de 07 de junho de 1919 de Careta, podemos ler a matéria “A estação elegante” onde se descreve que durante os jogos as mulheres deixam de lado sua elegância, movidas pela emoção: “nas arquibancadas e nos varandins do stadium ficaram luvas torcidas, lenços retorcidos, finas bolsas esgaçadas, faixas de seda, plumas e palhas de chapéu, amarrotados, rendas desfeitas, laços, laçarotes arrancados na fúria do torcimento”. A popularização da figura da mulher como torcedora é notável nas páginas de outra importante revista como é o caso da Fon-Fon que publicou o que seria uma carta assinada por uma mulher chamada Carlota Augusta. Na carta endereçada a uma senhora de nome Julia, pedia-se um conselho a respeito de um problema que afligia o casamento de Carlota: seu marido havia virado a casaca e de torcedor do Fluminense, tornara-se botafoguense. Ela então desabafa: “o que não tolero (e aqui é que careço das tuas luzes) é que o Nico tenha virado a casaca: ouve pasma e cala: ele agora torce pelo Botafogo. Já fiz tudo para convencê-lo da hediondez de sua conduta” (De uma torcedora, Fon-Fon,31/05/1919, p.48).

 
A mulher enquanto torcedora vai ganhando espaço no imaginário, sendo retratada na imprensa e também na arte. Em 1921, Antonio Quintiliano escreve a peça A torcedora do Vasco, obra com forte tom caricatural e naqual é possível perceber um novo perfil feminino traçado por intermédio do esporte que no caso não é o futebol, mas o remo. No lugar das mocinhas desprotegidas, à espera de um casamento ou subordinadas aos seus maridos, vemos a personagem Sofia que autoritariamente inverte os papéis. Sofia manda e desmanda na casa, a sua palavra é sempre a última, cabendo ao marido apenas concordar com suas decisões. Além de mandona, Sofia não é aquele tipo de esposa prendada e sempre preocupada em cuidar do marido, ao contrário, Sofia “só cuida de regatas!”

Nada de cozinhar, lavar roupas ou limpar a casa, pegar o carro e ir à praia torcer pela equipe de remo do Vasco da Gama é a principal atividade de Sofia. Essa mulher tem anexado ao seu perfil dois ícones da modernidade: o automóvel e o esporte. Embora ambos sejam experimentados ainda que de maneira passiva – já que Sofia não dirige o carro assim como não pratica, mas somente assiste às competições de remo – a peça A torcedora do Vasco, com estilo cômico e excessivo, trabalha ficcionalmente um fenômeno perceptível no cotidiano daquela época e diz respeito ao surgimento de novos modelos de mulher a partir da sua relação com a máquina e, principalmente, com o esporte.

Entretanto, com o passar dos anos as torcedoras vão deixando gradativamente de serem tão mencionadas pela imprensa, o que indica a diminuição de sua presença nas arquibancadas. Fatores econômicos podem justificar esse fenômeno. O historiador João Malaia Casquinha já demonstrou que ao longo dos anos de 1910 e 20, os homens que fossem sócios de clubes como o Fluminense tinham o direito de levar, sem custos, a esposa e duas filhas solteiras. Porém, essa prática foi sendo abandonada e, além disso, as arquibancadas deixaram de ter sua maioria composta pelos sócios, pois muitos clubes passaram a obter lucro com a venda de ingressos. Sendo assim, muitas mulheres, em sua maioria sem renda própria, passaram a deixar de frequentar os estádios.

Além desse fato há de considerar que a crescente popularização do futebol provocou uma mudança no perfil de público freqüentador dos estádios. Os machts deixaram de ser considerados um evento social e passaram a ser associados a balburdia que para muitos cronistas era gerada pela presença de indivíduos das classes sociais mais baixas. Assim, os jogos de futebol começaram a ser percebidos como pouco adequados aos padrões de feminilidade, sobretudo aqueles relacionados aos estereótipos do sexo frágil cuja função primordial na sociedade seria a maternidade. Em relação à prática do futebol, o contexto era ainda mais desanimador. Em 1941, o Decreto Lei 3199 proibiu a prática do futebol por mulheres por considerar esse esporte violento e incompatível com a delicadeza feminina. Esse decreto somente seria revogado na década de 1980, o que dá mostras de que o futebol historicamente se encaminhou para ser um esporte considerado como “coisa de macho”.

Sendo assim quando meus pais e colegas diziam que estádio era um lugar pouco adequado a uma mulher, por trás desse discurso estavam camadas e camadas de estereótipos historicamente construídos em torno do futebol e das mulheres. Estereótipos absolutamente passíveis de desconstrução, afinal mesmo sendo difícil, muitas mulheres exerceram papel importante em meio à torcida. Em 1953, a torcedora-símbolo Elisa do Corinthians destacava-se na massa conquistando o prêmio de torcedora no 1 do clube paulista, chegando a ganhar ingresso permanente concedido pela própria Federação Paulista de Futebol, o que lhe permitia freqüentar livremente qualquer campo. A torcedora que se orgulhava em dizer “Eu sou Elisa, meu senhor”,era figura pública conhecida e respeitada.

Outra mulher a se destacar no cenário futebolístico foi Dulce Rosalina que em 1961 ganhou o concurso de melhor torcedor do país e cujo troféu deu ao seu time de coração Vasco da Gama, a quem costumava acompanhar em partidas pelo país a dentro. Em 1956 Dulce Rosalina passou a comandar a TOV (Torcida Organizada do Vasco) tornando-se a primeira mulher no Brasil a liderar uma torcida organizada. Por problemas políticos, em 1976, Dulce deixa a TOV e funda a Renovascão da qual participou até seu falecimento em 2004.


Dona Elisa ao lado de Sócrates. Fonte: http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/4195-socrates#foto-78130


Dulce Rosalina. Fonte: http://casaca.com.br/site/2016/03/09/relembre-historia-de-dulce-rosalina-1a-mulher-lider-de-uma-torcida-organizada-no-brasil/

Sem dúvida, há outros exemplos que poderiam aqui ser mencionados, todos dando mostras de que o futebol também é um território onde mulheres torcem e se retorcem por seus clubes. E hoje em dia a internet é um aliado fundamental das meninas que amam futebol. Nela há produções voltadas para a afirmação e legitimação da relação entre futebol e mulher. O site Dibradoras(http://dibradoras.com.br/) é um ótimo exemplo, assim como diversas outras inciativas que têm contribuído para enfraquecer ou mesmo tornar ultrapassada a frase “futebol é coisa de homem”. Certamente essas iniciativas dialogam com diversas outras vinculadas à libertação feminina de preconceitos e entraves outros que ao longo da história dificultaram sua participação em diversos setores da sociedade, entre os quais o futebol.

No caso da torcida, ainda faltam estudos mais amplos e sistematizados que demonstrem dados mais completos a respeito da participação das mulheres nas arquibancadas do Brasil. Porém, recentemente alguns breves levantamentos apontaram para números interessantes sobre esse assunto. Em pesquisa realizada em 2013 pela agência Box 1824, sob encomenda da Rádio Globo, 900 pessoas que residem no Rio de Janeiro e São Paulo foram ouvidas sobre seus hábitos de torcer e o resultado mostrou por exemplo que 38% das mulheres afirmam ir ao estádio mais de uma vez por mês contra 41% dos homens. 59% das torcedoras afirmam assistir a jogos de futebol até duas vezes por semana, enquanto 40% dos homens afirmam fazer o mesmo (Fonte: http://epoca.globo.com/vida/copa-do-mundo-2014/noticia/2013/12/nao-basta-torcer-belas-querem-ir-ao-estadiob.html).

 
Eu costumo ir ao estádio mais de uma vez ao mês, algo que faço não somente pelo Vasco, mas por causa da Caravana de Boleiros, projeto que desenvolvodesde 2013. A ideia da Caravana consiste basicamente em visitar jogos de times que estão fora do circuito mainstream do futebol, ou seja, aqueles que não despertam interesse da TV e nem mesmo da rádio, pelo menos os de alcance massivo. Me interessa conhecer estádios de clubes como Olaria, Bonsucesso, Portuguesa, Madureira, Bangu,Goytacaz entre outros de uma longa lista. Embora se chame Caravana, as visitações são feitas basicamente por mim que sozinha vago pelas arquibancadas de estádios antigos e que em nada fazem lembrar as tão aclamadas arenas.

No circuito percorrido pela Caravana, não há glamour nem espetáculo, não há cadeiras com lugares marcados e muito menos setorização. Do mesmo modo não há craques, nem celebridades, mas jogadores que ora foram dispensados pelos chamados grande, ora sequer a eles chegaram. Pode parecer uma tarefa de alguém excêntrico, porém quando falamos de futebol brasileiro esquecemos que cerca de 80% dos jogadores daqui ganham no máximo R$1000. Em outras palavras, os jogos que assisto representam a realidade predominante do futebol do país. Na freqüência a esses jogos e estádios, fiquei fascinada pelo circuito não mainstream e pela torcida que o circunda. Desse interesse derivou-se outra pesquisa na qual tento investigar o que acredito ser a manifestação de uma contracultura no futebol, notável em discursos e práticas de torcedores que de modo deliberado levantam voz contra os excessos da relação entre futebol consumo e espetáculo midiático. São vozes que podem ser consideradas de resistência, o que não exclui contradições e tensões.

Enquanto caminho com a Caravana e minhas pesquisas continuo seguindo meu amor bandido chamado Vasco da Gama. No cimento de São Januário suspiro por gols, me angustio com as derrotas, toco a felicidade com as vitórias. Há dias que saio jurando que nunca mais volto. Porém,na partida seguinte estou lá, novamente.

Posso dizer que nas arquibancadas me sinto no centro do mundo e que nesse momento me lembro do trecho de uma poesia de Sophia Brayner que diz “quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto ao mar”. Sempre que entro em um estádio é como se voltasse no tempo para buscar cada instante que não vivi junto às arquibancadas. Por isso, convido a todas as mulheres a fazerem o mesmo.

*Leda Costa é vascaína. Doutora em Literatura Comparada,( Universidade do Estado do Rio de Janeiro )( com a tese A trajetória da queda. As narrativas da derrota e os principais vilões da seleção em Copas do Mundo. É pesquisadora integrante NEPESS (Núcleo de Estudos e Pesquisas Sobre Esporte – Universidade Federal Fluminense) e Editora-chefe da Revista Esporte e Sociedade (www.esportesociedade.com).

Deixa falar: o megafone do esporte tem a edição e criação de Raul Milliet Filho (doutor em História pela USP, pesquisa a História do Futebol no Brasil, especialista em Políticas Públicas na área social. ).


Com vistas à Rio-16, o blog está em recesso escandinavo até o dia 27, podendo voltar em edição extraordinária, ou não, a qualquer momento. 


Burro!
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Meia-esquerda, matou a bola no peito e olhou adiante procurando o nove.

(Enquanto a bola descia, lembrou-se de outro jogo, anos antes, em que ele era o nove e aguardava o lançamento do meia, que também acabara de dominar a bola no peito. Ele então correra entre os beques e receberia o passe na cara do gol, mas o meia desviara o olhar e dera o passe para o volante ao seu lado – só que ele é quem fora xingado pela torcida, por ter corrido para o lado contrário ao que deveria.

Lembrou-se também – a bola passando pelo quadril – de que, naquele jogo, depois de não receber o passe do meia e ser xingado, lembrara-se de um jogo anterior, no qual ele era o meia-direita, e de que dominara no peito e vira o centroavante correndo, mas escolhera não fazer o passe para ele e sim dar a bola para o volante ao lado – tendo sido, por isso, xingado pelos torcedores.

E lembrou-se em seguida – a bola perto do joelho – de que, nesse jogo mais antigo, depois de dar o passe pro volante, lembrara-se de um jogo no início da carreira em que ele era o volante e recebera o passe do meia, que, em vez de enfiar a bola pro centroavante, preferira lhe passar a bola – e que ele não soubera o que fazer e a perdera, o que o fizera ser xingado na arquibancada.

E ainda – a bola na altura da canela – lembrou-se de que, no jogo em que ele era o volante, lembrara-se, depois de receber o passe e perder a bola, de que anos antes, jovem, na arquibancada, assistira a lances parecidos e xingara ora o centroavante, ora o meia e ora o volante.)

Quando a bola parou no seu pé, enfiou-a para o centroavante correndo atrás dos zagueiros, mas errou o passe e armou o contra-ataque adversário, e só então viu que o volante ao seu lado pedia a bola.

E então escutou um torcedor chamando-o de burro e não soube se aquilo era real ou se era uma lembrança sua durante um lance que ainda ocorreria no futuro.

______________________________
Luiz Guilherme Piva publicou Eram todos camisa dez (Editora Iluminuras).

Com vistas à Rio-16, o blog está em recesso escandinavo até o dia 27, podendo voltar em edição extraordinária, ou não, a qualquer momento.


A Cidade do Aço e o futebol
Comentários Comente

Juca Kfouri

Zuca Sardan

Por H. Raphael de Carvalho*

Nosso gentil hospedeiro e companheiro Juca Kfouri, baseado em dados praticamente irrefutáveis, concluiu, e tem voltado reiteradamente ao tema, que Volta Redonda não gosta de futebol. E pede que alguém explique essa questão. Aceitando o difícil desafio, até porque os números que ele aponta são acachapantes, tentarei aclarar o assunto, com base em alguns fatos que tenho bem presentes em minha memória.
Vivi boa parte de meus dias na Cidade do Aço, aonde cheguei de trem, aos três meses de idade. E durante toda a minha infância e adolescência convivi com fatos que me informavam que Volta Redonda era apaixonada pelo futebol: os rádios da vizinhança transmitindo os jogos dos times do Rio, a discussão frequente e acalorada entre os torcedores apaixonados e a existência de grande número de times de várzea. A maior parte da população da cidade era oriunda de Minas Gerais (quase sempre da Zona da Mata) e os times que davam causa aos bate-bocas eram os do Rio, como em quase todo o restante do país.

Lembro-me bem do Campeonato dos Bairros (uma espécie de competição de times de várzea). Só no Retiro, o grande bairro, então periférico, no qual fui criado, havia o Flamenguinho (na verdade Sociedade Esportiva Retiro), o Tamandaré e o Juventus. Na mesma margem esquerda do Rio Paraíba do Sul, Vila Mury, Vila Brasília, Voldac, Santa Rita, Aero e São Luis. Do lado de lá, só no Acampamento Central e Nossa Senhora das Graças: Cruzeiro, Porto e Brasília. E não era só: tinha time da Vila Americana, Água Limpa, Vila São Geraldo, o Aza Negra (assim mesmo com z) de Santo Agostinho e por aí vai. Esses times produziam um campeonato eletrizante em que os campos ficavam lotados. Todos tinham 1º e 2º quadros e, em muitos casos, times de base. Hoje, no entanto, a maior parte deles não existe mais.

Os trabalhadores da CSN (a mítica Companhia Siderúrgica Nacional, a maior usina de produção de aço da América Latina criada em 1941 por Getúlio Vargas) disputavam um campeonato interno. Cada departamento – e eram muitos! – organizava um time e a competição pegava fogo. Lembro-me, ainda, de equipes formadas por trabalhadores em casas comerciais e em setores do serviço público, tudo a indicar que bastava um número suficiente de jogadores e um mínimo de organização entre eles para se criar mais um time de futebol. Havia também o campeonato da Liga: Guarani, concessionário do velho Estádio General Silvio Raulino de Oliveira (onde hoje está o Estádio da Cidadania, cujo nome oficial ainda é o do general que participou da criação da CSN), Industrial (ligado à Fábrica de Cimento), Comercial, América do Rústico, Palmares, C.R. Flamengo de Volta Redonda…

O Guarani tinha fumaças de profissional e disputava a Copa Vale do Paraíba (da qual participavam times de toda a região) e o Campeonato Estadual de Profissionais (que sempre foi muito fraquinho). Por lá, passaram muitos craques que depois brilharam nos grandes clubes do país, mas, certamente, o principal deles foi Paulinho Valentim que começou no Central da vizinha Barra do Piraí (sua terra), brilhou no Botafogo de João Saldanha ( seu técnico no título carioca de 1957) e se eternizou no Boca Juniors..

Uma vez por ano, no dia 9 de Abril, data de fundação da Companhia Siderúrgica Nacional, um grande jogo acontecia no campo do Recreio do Trabalhador Getúlio Vargas. Embora não fosse murado, era um campo de primeira, cercado por alambrado e com pista de atletismo. As pessoas assistiam aos jogos de pé, junto ao alambrado, ou sentadas nos barrancos gramados que ficavam numa das laterais.


Zuca Sardan
A privatização da CSN causou grandes danos à Volta Redonda: demitiu milhares de trabalhadores, arrasou famílias, sacrificou mais de uma geração e, além de não trazer qualquer lucro para o país (muito pelo contrário, apenas enriqueceu alguns poucos ) , ainda acabou com esse patrimônio popular que foi retalhado.

Eu ainda me lembro de um Olaria (quando o alvianil do subúrbio da Leopoldina disputava com brilho o campeonato carioca) versus Atlético Mineiro assistido por uma multidão. E lembro-me bem porque meu pai foi-se embora reclamando que o jogo era uma pelada e eu, menino ainda, tive que ir junto. Em 9 de abril de 1970, pela primeira vez, eu vi o Flamengo ao vivo. O técnico era Yustrich (que, então, lamentavelmente, era ele próprio uma atração). Foi um time misto, com Michila, Washington, Adãozinho, Mário Sérgio (ele mesmo, o Pontes de Paiva), Tinteiro e outros cuja memória me falha. O adversário foi o Sport Club de Juiz de Fora (história para outro momento). Uma massa impressionante se aglomerou nos alambrados e pelos barrancos gramados para assistir ao 1X0 do Flamengo, gol de Adãozinho.

Em meados dos anos 70, a cidade possuía dois times profissionais: o histórico Guarani e o C.R. Flamengo de Volta Redonda. Aqui, um parêntesis: o Flamengo era criatura do médico Guanayr de Souza Horst. Eu não o conhecia pessoalmente, mas não gostava dele por identificá-lo com a ARENA. Anos mais tarde, soube que ele ajudara a concretizar a fuga de importantes quadros do PCB. Naquele tempo, ficou célebre a frase: aonde a ARENA vai mal, um time no Nacional. A ditadura jogava pesado para pegar carona no futebol e a Confederação (ainda CBD) era presidida pelo almirante Heleno Nunes, irmão do vice-ditador de Médici. Foi então que os donos do poder (ou seus delegados) decidiram fundir o Guarani com o Flamengo – na verdade extingui-los – e criar o Volta Redonda F.C. O doutor Guanayr (que sonhava ver seu time transformado numa autêntica filial do Flamengo da Gávea) não aceitou e quase foi preso por causa disso.

Mas o Guarani, cujos dirigentes de então eram ligados à ARENA, não resistiu e foi extinto dando origem ao Volta Redonda. A prefeitura investiu, reformou o Raulino colocando arquibancadas tubulares e o time entrou no campeonato brasileiro. Logo depois aconteceu a fusão dos estados Rio de Janeiro/Guanabara. Com a unificação das respectivas federações estaduais, Times do antigo Estado do Rio passaram a disputar o campeonato que chamam erradamente de carioca. E digo erradamente porque a presença dos clubes do antigo Estado do Rio deveria transformá-lo em campeonato fluminense.

Nessa época, no Raulino, eu cheguei a assistir a um jogo do Volta Redonda contra o Flamengo, de Zico, em que o público ultrapassou o número de 30 mil pessoas. Verdadeira loucura a superlotação e a insegurança do Estádio, com momentos em que se esteve muito próximo de uma tragédia.

Tudo isso para apontar uma conclusão afirmando que, da criação da CSN por Getúlio Vargas e até, pelo menos, meados dos anos 80, Volta Redonda sempre foi apaixonada por futebol. Hoje, não é possível negar, os volta-redondenses não têm ido ao Estádio e preferem se concentrar diante das TVs em casas e bares. Uma boa pista para desenvolver e explicar a questão que não só o Juca Kfouri gostaria de ver respondida seria o debruçar-se sobre o estudo do autoritarismo (que perseguiu, extinguiu e fundiu times e acabou com uma infinidade de campos de futebol de várzea) e da privatização (que, não podemos nos esquecer, foi feita pelos e para os mesmos que se beneficiaram da ditadura) como causas do esvaziamento dos campos da Cidade do Aço.

Busco em Flanklin Foer, autor de um livro já clássico, intitulado “O Futebol Explica o Mundo” fundamento para o que concluo: talvez o drama da cidade de Volta Redonda, berço da modernização e da mais bem sucedida tentativa de desenvolver o Brasil como país independente, explique a tristeza das arquibancadas vazias do Raulino de Oliveira. O que temo, e pretendo desenvolver em outra oportunidade, é que a Cidade do Aço esteja mais uma vez simbolizando um processo que atingirá todo o país. Ontem, foi a derrocada do projeto de construção do Estado Nacional, hoje a agonia do futebol brasileiro.

*Doutor em Ciência Política pela UFF e Pesquisador Associado do INEST/UFF.

Deixa falar: o megafone do esporte tem a edição e criação de Raul Milliet Filho (doutor em História pela USP ).



Jogando por música
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Domingo cedo, indo pro jogo na caminhonete, todo mundo no samba. Ele ia calado.

Na volta, se vencessem, a mesma coisa. Cantoria e batucada. Ele, uma estátua. Assim continuava no bar o resto da tarde.

Mas, durante o jogo, cantava. Serestas, sambas-canção. Clássicos românticos e boêmios. O jogo todo.

Os adversários estranhavam. A torcida ao redor do campo, também.

Mas com o passar do jogo se acostumavam.

Não cantava alto. Nem baixo. Dava pra ouvir no campo quase todo.

E a voz dele era bonita. Um tenor macio, lírico.

Às vezes, a mesma música o jogo todo. Às vezes, uma em cada tempo.

Ficava repetindo, alheio aos gritos, reclamações, impropérios e falas dos demais jogadores e da torcida.

Meio-campo clássico, parecia reger seus passos e passes pelo andamento da melodia, pelos agudos e graves, pelas pausas.

E jogava muito. Sem ele, o time era fraco. Com ele, dominava, impunha o ritmo, criava chances, fazia gols, vencia quase sempre.

Como um maestro fazendo todos jogarem o melhor de si.

Não podia era acontecer de ele esquecer um pedaço da letra.

Quando acontecia, era uma tragédia. Ele parava onde estivesse e ficava repetindo a frase anterior da letra, coçava a cabeça, olhava pro alto, fechava os olhos, sussurrava de novo o verso anterior, e nada.

O jogo seguia e ele ficava parado onde estava.

Se lembrasse, retomava o jogo como se nada tivesse acontecido. Se não, ficava ali – ninguém o tirava porque ele poderia se lembrar a qualquer momento e isso mudaria o jogo.

Mas algumas vezes embatucava no verso, que sumia e não voltava. E aí era o desastre. O time desandava e perdia feio.

No começo era muito raro. Mas de uns tempos para cá vinha acontecendo com mais frequência. Lá pelo meio do segundo tempo, músicas tantas vezes cantadas, tantas vezes repetidas, falhavam.

E então a tragédia: ele parado, coçando a cabeça, mexendo os lábios, os olhos pra dentro e pro alto, repetindo o verso antecedente – e tome gol do outro time.

O que o pessoal começou a fazer foi aprender as músicas que ele mais cantava. Todos se puseram a decorar a maioria delas. Depois do treino, ensaiavam com o técnico, que distribuía as letras impressas para todos.

Eles iam pro jogo com o papelzinho nos bolsos se precisassem colar.

De modo que, havendo a parada na canção, alguém por perto já lhe soprava o verso faltante: “da mulher, pomba-rola que voou”, “me acompanha o meu violão”, “mas tu não flertaste ninguém”, “que o meu lar é o botequim”, “respeite ao menos meus cabelos brancos”, “jurar, aos pés do onipotente”, e pronto, ele retomava e seguia, cantando e jogando.

O problema é que agora ele surgiu com uma canção que ninguém conhece.

E a canta, a mesma, em todos os jogos. Os colegas prestam atenção, tentam decorar, já pesquisaram trechos na Internet, mas nada. Só ele sabe a letra, enorme, complicada, meio sem sentido.

Mas linda.

Todos ficam encantados.

Talvez seja a mais bela de todas as que ele já cantou.

Será composição dele?

Não ousam perguntar.

O fato é que, com a nova canção, ele tem jogado cada vez melhor.

Com isso, são jogos e jogos com vitórias seguidas – e muito samba na caminhonete e no resto da tarde.

Mas todos com um medinho lá no fundo: essa, se ele esquecer a letra, ninguém vai conseguir completar.

__________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


O tango dos sete erros
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR JOÃO MARCONDES*
A “argentinização” do futebol brasileiro está dando certo?

As sete razões pelas quais a aventura portenha do São Paulo não passa de mera ilusão e representa rompimento com raízes do nosso futebol.

 
1. O argentino Edgardo Bauza, duas vezes campeão, foi contratado para “priorizar” a Libertadores. O técnico sequer conhece bem as idiossincrasias do futebol brasileiro. Está engatinhando ainda. Implantou, muitas vezes a fórceps, seus conceitos. O resultado foi razoável, mas aquém do potencial.

2. Centurion. O que dizer? Nunca antes na história desse país um jogador medíocre teve tantas chances para dar certo. Hermano? Mera coincidência, deve ser…

3. Rogério, o Mito II. A dispensa de Neymar do Nordeste foi um desastre. Um dos jogadores mais letais do time, algo genioso. Decidiu várias partidas nos últimos minutos, inclusive nesta Libertadores. Amado pela torcida, talismã. O que fez Patón? Colocou no banco e não teve 1% da paciência que teve com o centurião portenho. Ele deve vir a público e explicar.

4. A tal “função tática”. Supostamente por isso, abrimos mão de Rogério por Centurion. Ficou com sabor de muricybol com retrogosto de Malbec azedo.

5. “Valentia”. Imortalizado nas eras Cilinho e Telê, o São Paulo sempre teve a técnica e o futebol bonito como marcas registradas. Agora apostamos no Lugano velho de guerra e Maicon salvador da pátria, com arroubos de Felipe Melo. Raça? Não ganha jogo. Como se diz nas redes sociais: epic fail.

6. Jogadores temporários. Estratégia temerária, contratar jogadores por quatro, seis meses. Ok, Calleri é um grande atacante, mas vai ficar? E Maicon: a ironia de uma contratação por “uns dias”, o desespero para comprar em definitivo e a expulsão fatal. Tango argentino? Tragédia grega?

7. Torcida que só vai na Libertadores. Ok, muito legal bater recordes de público no torneio continental. O Morumbi fica lindo. Mas o que dizer estádio às moscas nos confrontos do Brasileirão? O que nos resta agora? Ah, o campeonato nacional, em que perdemos contato com as primeiras posições. Quem vai pagar o Patón?

*João Marcondes é jornalista.


 


Exemplares: atletas que tomam posição
Comentários Comente

Juca Kfouri

Na premiação da ESPN americana (ESPYs), ontem, quatro astros do basquete mundial pediram a palavra, por vontade própria, para abrir o show.

Leitura obrigatória, uma lição para os esportistas do mundo inteiro, principalmente para os brasileiros. Principalmente.

https://www.youtube.com/watch?v=KCjMvEdPi30

Tradução por Gabriel Borges Martins:

Carmelo Anthony


“Boa noite, hoje é um celebração esportiva, celebraremos nossas conquistas e vitórias.
Mas, nesse momento de celebração, nós pedimos para começar o show nesta noite desta maneira, nós quatro falando para nossos colegas atletas, com o país assistindo.

Porque nós não podemos ignorar a realidade do estado atual dos EUA.

Os acontecimentos da última semana colocaram o foco na injustiça, desconfiança e raiva que contamina muitos de nós.

O sistema está falido. Os problemas não são novos, a violência não é nova e a divisão racial definitivamente não é também.

Mas a urgência de criar uma mudança nunca foi tão necessária”.

Chris Paul


“Não estamos aqui hoje aceitando nosso papel de unir comunidade, de ser a mudança que precisamos ver.

Nós estamos diante de vocês como pais, filhos, maridos, irmãos, tio e, no meu caso, como um homem afro-americano e sobrinho de um policial, que é um de centenas de milhares ótimos policiais servindo este país.

Mas, e Trayvon Martin, Michael Brown, Tamir Rice,  Eric Garner, Laquan McDonald, Alton Sterling, Philando Castile? (os negros mortos vítimas de violência policial)
Esta é também nossa realidade.

Gerações atrás, lendas como Jesse Owens, Jackie Robinson, Muhammad Ali, John Carlos e Tommie Smith, Kareem Abdul-Jabbar, Jim Brown, Billie Jean King, Arthur Ashe e tantos outros, estabelereceram um modelo sobre o que os atletas deveriam defender.

Então nós escolhemos seguir seus passos”.

Dwyane Wade


“A discriminação racial tem que parar. A mentalidade “atirar para matar” tem que acabar. A desvalorização de corpos negros tem que parar, mas, também, a retaliação tem que parar.
A interminável violência armada em locais como Chicago, Dallas, sem falar em Orlando, isso tem que parar.

Chega.

O bastante é o bastante!

Agora, como atletas, devemos desafiar cada um a fazer ainda mais do que já fazemos em nossas próprias comunidade.

A discussão não pode parar assim que fiquemos ocupados novamente.

Nem sempre será conveniente. Não será. Nem sempre será confortável, mas é necessário.

LeBron James

Nós nos sentimos impotentes e frustrados pela violência.

Nós sentimos.

Mas isso não é aceitável.

É hora de olhar no espelho e perguntar a nós mesmos o que estamos fazendo para criar mudança.
Isso não é sobre ser um modelo.

Não é sobre nossa responsabilidade sobre uma tradição de ativismo.

Eu sei que hoje nós honramos Muhammad Ali, o melhor de todos os tempos.

Mas para fazer alguma justiça ao seu legado, vamos usar esse momento como um chamado de atenção para todos atletas profissionais se educarem. Para esses problemas.

Posicionem-se, usem sua influência e renunciem toda violência.

E, mais importante, voltem para suas comunidades, invistam nosso tempo, nossos recursos, ajudem a reconstruí-las, a fortalecê-las, ajudem a mudá-las.

Nós todos temos que fazer melhor. Obrigado”.


Bom Senso FC esclarece
Comentários Comente

Juca Kfouri

SEGUE O JOGO: BOM SENSO FC CONTINUA EM CAMPO

Ao contrário do que o Painel FC da Folha de S. Paulo afirmou na sua edição de sábado, o Bom Senso FC segue seu trabalho pela modernização, transparência e democratização do futebol brasileiro.

Não é de hoje que passamos por uma reestruturação estratégica. Ela vem desde que alcançamos a nossa maior vitória: a aprovação do Profut, projeto que instituiu novos padrões de governança e transparência aos clubes e federações. De lá para cá, estamos olhando para o futuro do futebol brasileiro com mais esperança, e também com a clareza de que não bastarão atuações isoladas para resolver um desafio sistêmico.

Reconhecemos que há ainda muito a se fazer pelo futebol. Estádios esvaziados, clubes endividados, corrupção desenfreada, crise técnica e escândalos políticos dão a dimensão do problema que desejamos resolver. A missão de desenvolver o futebol brasileiro e resgatar sua autoridade internacional vai exigir mudanças estruturais na relação entre a CBF, os clubes e todos os profissionais do setor. Também vai exigir paciência com o longo prazo e coragem frente aos poderosos da bola. O Bom Senso FC não só vai continuar acompanhando e cobrando as autoridades que regulamentam o esporte, como também vai estudar, pesquisar os cenários e propor medidas que melhoram o jogo para todas as partes. Com o reconhecimento do nosso legado e a responsabilidade que isso traz, o movimento se consolida e finca base como um centro independente de inteligência e ação pelo futebol brasileiro.

Vamos trabalhar como um time. Os atletas, como grandes ídolos do esporte, têm um papel fundamental em seu desenvolvimento, mas para atingir mudanças significativas será preciso engajar toda a comunidade do futebol em torno de propostas concretas. Torcedores, árbitros, treinadores, acadêmicos, patrocinadores e todos os outros setores relevantes do esporte precisam se envolver na construção de soluções.

A desunião atual entre esses setores talvez seja a principal explicação para o estado do nosso futebol. Criar sinergias e construir consensos mínimos com as pessoas e entidades interessadas na mudança do futebol brasileiro será nossa principal frente de atuação daqui em diante.

O Bom Senso FC hoje, enquanto organização social de interesse público, assume a função de um centro de mobilização, produção e incidência em temas estratégicos para o futebol melhor para todos. Com os protestos em campo demos o pontapé inicial, em 2013, para uma série de mudanças que ainda estão por vir. Longe do fim, o que encaramos agora é um novo começo.

Bom Senso Futebol Clube


Paulo André: “O Bom Senso FC não acabou”
Comentários Comente

Juca Kfouri


“O Bom Senso acabou?” é a pergunta que pipocou no meu celular nos últimos dias por causa de uma matéria do Painel da Folha de S.Paulo. 
A resposta é simples, mas a explicação nem tanto, por isso vim me posicionar em respeito aos amigos do futebol, da imprensa e a todos que me leem e têm acompanhado minha jornada.

Durante os últimos 6 ou 7 anos muita coisa aconteceu. 
Entre o blog, o livro, a ONG, os eventos beneficentes e os títulos, conheci pessoas incríveis que, assim como eu, acreditam que o futebol é mais do que uma paixão, é uma ferramenta de transformação social e um patrimônio cultural do nosso país.

Quem me conhece sabe que sou um sonhador e de certa forma um maluco que vai atrás dos sonhos. 
Essa maluquice me levou por caminhos fantásticos e também me rendeu boas brigas e debates. 
Em determinado momento, as porradas ficaram mais fortes do que o apoio que eu recebia e por isso optei por me recolher e esperar a tormenta passar. 
Tentei viver uma vida tranquila, focada só no futebol, mas ainda acho que é muito pouco para qualquer um viver apenas de uma coisa só. Vivo de desafios, de realizações, de desafios, de sonhos e de paixões.

Aquele histórico Bom Senso de 2013, sentado no gramado, de braços cruzados, já não existe mais. 
Um outro, mais organizado, com pautas definidas e equipe de trabalho, funciona desde 2014, com menos holofotes e mais resultados práticos, como o Profut em 2015. 
Mas o segundo, sem a participação dos principais atletas do país, não faz nenhum sentido, não tem razão de prosseguir.

Sempre entendi que o Bom Senso serve como um meio para influenciar e exercer pressão sobre quem toma as decisões no nosso futebol. Ele nunca foi um fim. 
Os atletas renomados que fizeram parte do movimento nunca quiseram usar sua estrutura e visibilidade para defender causas próprias ou preparar o pós carreira, pelo contrário, colocaram em risco muita coisa para enfrentar quem está no poder. E obtivemos sucesso, sem dúvida.

Só que para continuar existindo, é preciso renovar suas lideranças, é preciso que surjam novos sonhadores, assim como nos movimentos estudantis que tão bem fazem ao país. 
Por diversas vezes já lamentamos a falta de engajamento dos atletas de destaque do futebol nacional e a falta de interesse dos “nossos” atuais ídolos, tão preocupados com suas redes sociais.

Havia um vácuo de oposição propositiva nos debates com as entidades que administram o futebol, assim como sobre legislação e políticas públicas do esporte e o Bom Senso ocupou esse espaço, não pode fugir dessa responsabilidade.
Porém, a partir de agora o movimento deixa seu lado mais combativo e passa a ser um centro de pesquisa, de projetos e de articulação (think and do tank) entre os entes do esporte, mantendo seu representante na APFUT e seguindo seu trabalho nas comissões de futebol da Câmara e do Senado em Brasília por meio de sua equipe de trabalho. Sua vocação ainda é mobilizar jogadores e criar um ambiente propício para mudanças.

Honestamente, tenho a sensação de que cumpri meu dever nesta etapa da vida, repleto de orgulho por ter feito parte do maior movimento de atletas da história do futebol brasileiro. É hora de outros assumirem o movimento e questionarem os rumos que toma o nosso esporte.

Minha vida seguirá e com ela novos desafios e lutas virão. Não abrirei mão do meu lado crítico, nem de participar de iniciativas que trabalhem por um futebol e um país melhor. Ainda há muito a se fazer dentro do nosso futebol, por vários caminhos, e, infelizmente, há pouca gente capaz ou interessada em assumir essa responsabilidade. 
As mudanças estruturais não acontecerão do dia para a noite, levarão anos para acontecer, seja por meio do Bom Senso, de outros movimentos ou de entidades, mas é preciso que mais pessoas saiam de suas zonas de conforto para pavimentarmos a via que devemos seguir.
Um abraço,
P.A


Senadores, rejeitem o PL Licença para Matar!
Comentários Comente

Juca Kfouri

No último dia 6, a Câmara dos Deputados aprovou em regime de urgência um projeto que transfere para a Justiça Militar o julgamento de militares das Forças Armadas que matarem civis no Rio.

A proposta já está no Senado e deve ir à votação final nas próximas horas.


Nos tribunais militares, a maioria dos integrantes são oficiais da ativa, que não precisam ter formação jurídica.

Por seguir a hierarquia das Forças Armadas, eles tendem a ser mais duros com os praças do que com seus superiores, que podem ter mais chances de ficar impunes.

Ou seja, esse projeto de lei quer manter sob controle dos próprios militares os assassinatos cometidos por seus pares.

Além disso, o projeto é inconstitucional já que, segundo o artigo 5º da Constituição, crimes com intenção de matar devem ser julgados pelo Tribunal do Júri, formado por cidadãos e conduzido por um juiz.

Sem uma grande mobilização da sociedade, esse abuso autoritário será aprovado.

Sabemos que a maioria dos senadores está sendo submetida à pressão conservadora, mas juntos podemos barrar esse retrocesso. Vamos mostrar aos senadores que a sociedade não aceitará o PL Licença para Matar. Envie agora seu email de pressão aos senadores colocando seu nome e email na caixa ao lado!

As recentes experiências de ocupação militar das Forças Armadas no Rio deixam ainda mais claro o perigo que a aprovação desse projeto de lei representa para a vida dos cidadãos cariocas: durante a ocupação do Exército na Maré, por exemplo, o menino Vitor Santiago ficou paraplégico e teve uma perna amputada após seu carro ser fuzilado por soldados em fevereiro de 2015. Até hoje, o inquérito militar não foi aberto.

Em menos de um mês começam as Olimpíadas, por isso temos pouco tempo para lotar as caixas de email dos senadores pressionando contra a aprovação do PL.

Precisamos evitar que esse estado de exceção seja legitimado por uma lei que, além de antidemocrática, é inconstitucional.

Envie agora sua pressão!

http://paneladepressao.nossascidades.org/campaigns/969


Eder, o neto de Ricardina
Comentários Comente

Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

O Bairro da Ajuda fica perto da Mãe D’Água.

Nada de prédios.

Apenas casas pobres e árvores estremecidas pelo calor.

Assimilados se vestiam de portugueses.

O apito.


Quando soprava o apito, os negros podiam chegar pra trabalhar.

O apito.

Quando sopravam o apito, o moleque Eder se punha a chutar a pelota.

Vó Ricardina se espantava.

Eder se pôs ao mar.

Onde está Cristiano Ronaldo pra subir na sobreloja?

A creche lusitana e a criança que se perde.

A única linguagem que conhece é esférica.

Vó Ricardina é fogo que arde sem se ver.

Portugal de Cabos Verdes e Bissaus.

Áfricas de José Águas, Eusébio e Coluna.

Portugal de Salazar e Spínola.

Guardam o velho cravo e os meninos correndo atrás do sonho.

Verdes são os campos da cor de limão.

Assim são os olhos do meu coração.

As tropas francesas invadem Portugal.

Dom João foge.

Foge como Eder foge da marcação gaulesa.

Agnello Regalla a se perguntar:

Que conheço eu de ti, Mãe África?

Nós conhecemos apenas os gols.

Cabeçadas de Águas.

Chutes de Eusébio.

Milagres de Eder.

Todo o sofrimento do povo negro que forjou a glória portuguesa.

Glória feita de sangue e navios negreiros.

Glória relembrada no discurso do ídolo Cristiano.

Saudando o Portugal dos imigrantes.

Portugal que se fez de Benficas, Portos e Sportings.

Portugal que se fez dos netos de Vovó Ricardina.

Ó mar salgado, quanto de teu sal são lágrimas dos escravos de Portugal?

Valeu a pena?

Não valeu a pena, pois a alma do colonizador era pequena.

Mas quem quer passar além do Bojador.

Tem de passar além da dor.

E foi isso que fez o neto de Vovó Ricardina.

O improvável e negro herói na noite da Paris de Luís XIV.

Talvez porque uma verdade resiste ao noventa minutos.

O artilheiro não é nada.

O artilheiro sozinho não pode ser nada.

Um artilheiro de Bissau não pode ser nada.

À parte isso, este menino carregava nos pés todos os sonhos do mundo…


Palmeiras x Santos lidera maiores públicos na Arena Palmeiras
Comentários Comente

Juca Kfouri

Amanhã, Palmeiras e Santos fazem o grande jogo da 14ª rodada do Brasileiro, típico caso de por último, mas não o último, ao contrário, o primeiro, até porque com o líder do campeonato.

E uma curiosidade chama a atenção nos clássicos entre Palmeiras x Santos: contando com a partida desta terça-feira,  quatro dos sete maiores públicos da história do novo estádio alviverde foram envolvendo os dois rivais.


Parece até uma volta aos anos 1950/60, pena que com torcida única, esta estupidez implantada em São Paulo.

Mais do que isso, do total de quatro jogos já realizados entre ambos no estádio, 126.474 pessoas marcaram presença, sendo que mais da metade -71 mil pagantes, eram formadas por sócios-torcedores Avanti, motivados pela compra antecipada de bilhetes via internet.

Esses números apenas comprovam que a rivalidade de palmeirenses e santistas foi acentuada com as recentes decisões protagonizadas nos Paulistas de 2015 e 2016, e na Copa do Brasil da última temporada.

Em 2015, três dos cinco maiores públicos do Verdão no ano foram em jogos contra o Santos: 39.660 na final da Copa do Brasil, 39.479 na final do Paulistão, e 38.208 no Brasileiro. No Paulista deste ano, o público foi de ‘apenas’ 23.180, quando a competição ainda estava no início.

Agora, pelo Brasileiro, aproximadamente 38 mil ingressos já foram vendidos. Até amanhã, esse número vai aumentar.

Recordes de público na Arena Palmeiras:

39.995 – Palmeiras 1 x 0 Corinthians (Campeonato Brasileiro 2016)

39.660 – Palmeiras 2 x 1 Santos (final da Copa do Brasil 2015) – Obs. 100% dos ingressos vendidos para sócios-torcedores, via internet

39.479 – Palmeiras 1 x 0 Santos (final do Paulistão 2015)

38.784 – Palmeiras 0 x 1 Atlético-PR (Campeonato Brasileiro 2015) – Obs. Pela primeira vez na história do Palmeiras, 100% dos ingressos vendidos para sócios-torcedores, via internet

38.562 – Palmeiras 2 x 1 Fluminense (Campeonato Brasileiro 2015)

38.208 – Palmeiras 1 x 0 Santos (Campeonato Brasileiro 2015)

38 mil vendidos – Palmeiras x Santos, pelo Brasileiro deste ano, já chegou a 38 mil vendidos e vai entrar nesta lista.


ÀS ARMAS, PORTUGAL: Cristiano Ronaldo e a fundamental ausência de um ídolo redentor
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR ANDRÉ UZÊDA*

Contundido no segundo jogo do Mundial do Chile, Pelé não participou das outras quatro partidas daquela Copa e, ainda assim, sagrou-se campeão. Não é menos campeão por isso. No entanto, na prateleira onde descansam suas três réplicas da Jules Rimet, sem dúvidas, a de 1962 é a que menos reluz.


Léguas distante do ‘Maior de Todos’, a despeito do pouco tempo que permaneceu em campo durante a decisão da Euro, Cristiano Ronaldo, ao contrário do Rei, fez de sua ausência a maior de suas participações no futebol.

A imagem do herói de tênis, calção, agasalho luso e uma atadura no joelho esquerdo – indicando o ferimento que o levou às lágrimas e a maca dos enfermos – é forte o suficiente para ressignificar uma crença, há muito, arraigada no povo português.

Nossos colonizadores possuem como traço atávico, herdado até por nós, brasileiros, o mito do sebastianismo. É o olhar perdido no horizonte à espera do ídolo redentor.

No século XVI, enquanto comandava uma das campanhas de guerra no norte da África, o monarca português Dom Sebastião desapareceu. Entre a deserção e o ferimento de morte transcenderam versões da construção de uma fábula. O mito do rei extraviado que, messiânico, a qualquer momento reapareceria em seu robusto alazão para redimir seu povo das derrota tidas como líquidas e certas.

Em vão, os portugueses esperaram anos a fio pelo desabrochar do herói. Antônio Conselheiro, na comunidade de Canudos, no início da República brasileira, ainda citava Dom Sebastião, ao lado de Cristo, como uma das figuras que salvaria os sertanejos de todos os males ali impingidos por anos de seca e descaso da federação.

Com sete minutos de jogo, contra a França, Cristiano Ronaldo foi atropelado por um atabalhoado Payet. O árbitro sequer indicou falta. Caído, CR7 viu um inseto beijar seu rosto enquanto ensaiava as primeiras lágrimas. Resistiu até os 24 do primeiro tempo, até ser vencido pela dor e desaparecer no campo de batalha do Stade de France.

Os portugueses, mais uma vez, estavam ali abandonados ao próprio azar. Naufrágos de uma caravela sem capitão destinada ao degredo. Subvertendo o hino do país, durante os 90 minutos do tempo regulamentar, os lusos trocaram “as armas” pelos escudos. Optaram por se defender à espera do primeiro sinal de Dom Sebastião, cujo credo era o único indicativo para resistir.

No início da prorrogação, contrariando prognósticos, ele surge. Altivo, recuperado dos espamos da dor, confiante. Abraça os companheiros, transmite esperança. O agasalho de mangas compridas esconde o lugar marcado para ostentar a braçadeira.

Mas o herói não está ali para entrar em campo.

Não há ninguém que possa nos salvar que não nós mesmos. O herói inspira. Mostra ser possível. Mas são apenas aqueles que lá estão, independentemente de quaisquer circunstâncias, que podem fazer algo. E o gol pode ser de qualquer um. Que bom que seja de um improvável reserva, nascido em Guiné-Bissau, crescido em um orfanato, com nome de craque brasileiro (Eder) e que calça uma luva branca em sinal de paz.

Quando Brecth cunhou a famosa frase que “infeliz era a nação que precisa de heróis”, sem dúvidas, tinha em perspectiva o drama português à espera da salvação.

CR7 voltou não para jogar. Mostrou para dizer, apenas, que seria possível.

*André Uzêda é jornalista. Texto publicado originalmente no “Uratu online”.