Blog do Juca Kfouri

Arquivo : julho 2017

Que jogo!
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

No bar, já com algumas rodadas de chope, começaram a brincar de voltar no tempo. Mas com destino específico: voltar a determinado jogo a que tinham assistido, seja no estádio, seja na televisão.

Um falou do Brasil 4 x 1 Itália em 1970. Todos fizeram “ah!”, expressando aprovação e saudade. Ele tinha dez anos, ficava ao lado da TV arrumando a antena e o controle das horizontais. A sala cheia, os gritos, as bandeirinhas de papel, as pessoas na rua depois do jogo, o sol, o domingo que nunca mais acabaria.

Outro estalou os dedos e citou Botafogo 6 x 0 Flamengo em 1972. Mas não era botafoguense e sim flamenguista. Sete anos de idade, a camisa do time, a dor de cada gol rasgando um pouco sua camisa e seu peito – logo era noite, o choro em soluços, a escola no dia seguinte com as gozações que ainda ressoavam na sua cabeça.

“Não tem comparação”, disse outro: “Corinthians 1 x 0 Ponte Preta, em 1977, gol do Basílio”. Notou-se sua emoção ao descrever o lance, os saltos nos chutes que antecederam o arremate fatal do “pé-de-anjo”, o grito rouco, já era rapazinho, o pai até o deixara tomar um copo de cerveja, ficou ouvindo rádio até não haver mais assunto, redesenhando na mente, deitado, todo o lance.

Surgiram clássicos Atlético x Cruzeiro, Grêmio x Internacional, o Brasil 2 x 3 Itália de 1982 – que provocou lamentos, xingamentos e até um choro, aplacado com um gole grande e uns tapinhas nas costas. E outros tantos jogos, às vezes citados ao mesmo tempo, causando certa alegria em uns, tristeza em outros, mas sempre com a aura de “que jogo, que jogo!”.

Só um, calado, apenas olhando, bebericando, não citou nenhum. Notaram. “E você, nenhum jogo? Logo o mais fanático por futebol? Não tem nenhum que você gostaria de voltar pra ver?”

Recostou-se, escorreu o corpo na cadeira, passou as duas mãos nos cabelos, suspirou. Todos o olhavam.

“Tem”, respondeu. “Eu era pequeno, no interior. Domingo de manhã fui pela primeira vez ver meu pai jogar na várzea. Ao lado do meu tio, vi o poeirão subindo nas disputas de bola, os empurra-empurras, os palavrões da torcida e dos jogadores, meu pai no banco, aguardando. Ele olhava pra mim às vezes, dava tchau. Eu perguntava pro meu tio se ele não ia jogar. ‘Vai, sim, já, já ele entra.’”

“Ganhei picolé, bala, biscoito de polvilho. O jogo já durava a vida inteira. Até que o vi se levantar do banco, arrumar o meião, ficar à beira do campo. Quando ele entrou meu coração virou um balão, subiu ao céu, planou sobre o mundo todo. E o vi correndo, dominando a bola, chutando. Era meu pai. Deu um carrinho que a torcida aplaudiu. Uma cabeçada que me pareceu que ele subira mais alto que um super-herói. Era meu pai.”

Na mesa, todos em atenção total. Nem mexiam nos copos.

“E acabou o jogo. Não sei quanto ficou. Sei que fui encontrá-lo. Ele suado, a camisa com o número 3 nas costas, a chuteira velha, a barba rala, o cheiro, a aliança apertando o dedo já mais gordo, os pelos nas pernas. Era meu pai.”

Bebeu um gole.

“Nunca mais fui ver. Ele também parou de jogar logo depois. Só o via depois com a roupa de trabalho: camisa, calça, sapato e a pastinha de vendedor. A mesma com que foi enterrado – sem a pastinha, claro.”

Fechou os olhos. Todos calados. “Eu queria voltar a esse jogo. Só pra gritar o que eu não gritei naquele dia. Queria gritar alto: ‘É meu pai! É meu pai!”. Não sei por que não gritei. Fiquei só olhando. Ele, às vezes, no campo, olhava pra mim. Sempre sonho que ele esperava que eu gritasse. Mas não gritei.”

Olhou em volta, bateu na mesa com as duas mãos. “Agora já era. Não dá mais.”

Uns segundos de silêncio.

Pediram a conta. Foram embora.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


O adeus de Duque (1926-2017)
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Davi Ferreira, o Duque, era um mineiro de muitas histórias.

Zagueiro esquecido nas brumas do tempo.

Vestiu a camisa de Cruzeiro, Vasco da Gama e Fluminense sem comprometer.

Também não entrou para a antologia poética de nenhum deles.

Embora fosse chapinha de Castilho, Telê e Pinheiro.

De repente.


Duque comanda o Olaria no Carioca de 1962.

Quarto lugar.

Vai pro Vasco caindo aos pedaços.

É mandado embora após dezesseis relatórios ao clube.

Dezesseis relatórios para devolver a grandeza vascaína.

Exílio.

Chega desconfiado em Pernambuco.

Transforma o Náutico em semifinalista de várias taças Brasil.

Implementa uma surpresa na região.

O treino em dois períodos.

É acusado de doping.

Quando o doping repousava na classe de Nado, Bita, Ivan, suor.

Depois pega o trabalho do Mestre Gradim.

E bota fogo no Santa Cruz.

Famoso no Nordeste, quase o milagre?

Levando o Timão ao título do Brasileirão de 72 e 76.

Em 1972 havia uma virada do Botafogo pelo caminho.

Em 1976 havia o rolo compressor Colorado.

No meio do caminho, quebra o jejum do Sport no Pernambucano.

Preparo físico ou mandingas.

Química ou física.

Duque foi até o fim um apaixonado pelo futebol.

Um dos últimos exemplares da bola que o tempo vai esquecendo.

Duque que deixava o catimbó rolar.

Duque amigo do pai Edu.

Duque que era tudo menos supersticioso.

1980.

Final de turno em Recife.

Duque treinava o Santa Cruz.

O Sport deixa um boneco de vudu todo espetado no banco de reservas tricolor.

Pior.

Um corcunda rubro negro entra em campo e se abraça ao treinador.

Duque sorri e abraça Quasimodo.

O Santa vence o Sport e o boneco alfinetado.

Davi Ferreira, o Duque, era um mineiro de muitas histórias.

Zagueiro esquecido nas brumas do tempo.

 


Futebol and Roll
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Oh, yeah!

Hoje é Dia do Rock?

Poderia ser o samba.

Samba que é o rei no país de Pelé.

Como poderia ser o Tango.

Nas milongas argentinas e uruguaias.

Futebol que já foi Valsa nos pés do Wunderteam.

La vie em rose na careca de Zidane.

Ópera de Verdi, Meazza e Rossi.

Porém, for those about to play?

We salute you!

Rock’n roll.

O futebol é rock nas veias e nas imagens universais.

Beatles e Brasil de 58 e 70.

Duncan Edwards e Buddy Holly.

A estrada para o céu dos uruguaios em 50.

A estrada para o inferno de Barbosa.

George Best e Dylan embriagados nos anos 60.

Puskas e a canhota de Hendrix.

Crujff polivalente tal qual Oldfield.

Hooligans, organizadas e Sex Pistols.

O magic bus nos conduzindo ao teatro dos sonhos.

Ruínas de um domingo sangrento domingo.

Quantos de nós atingimos o Nirvana nos 90 minutos?

Quantos de nós não cantamos We Are The Champions?

We Will Rock You?

O rock se traduz em gols e defesas milagrosas.

A glória de uma Space Oddity.

A derrota no dark side of the moon.

Quando enlouquecidos como Barret vagamos pelas alamedas da mente.

Mutantes.

Legiões urbanas.

Claptomaníacos do ingresso da bola.

Pois não existe Satisfaction sem futebol.

Futebol que nunca se recusa to spend the night together.

Futebol nascido de três acordes básicos.

Futebol que se tornou psicodélico, punk e progressivo na infinita highway.


Logo, logo
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Fantasmas, sim. Eles sempre jogam ali. Chegam de noitinha, batem bola, dividem-se e começam.

Todos eles. Conheço todos. Vi cada um deles crescer, viver e morrer aqui no bairro. Pedreiros, vendedores, garçons, chapas, camelôs. Um deles foi alfaiate. E um ruço bexiguento que só bebia.

Foram morrendo. Uns moços; outros, de velhice. De uns anos pra cá começaram a se reunir ali pra jogar bola.

Começa bem na hora que eu pego no serviço. Abro o portão, entro, fecho, limpo os pingos de velas do chão, jogo fora os restos de flores e vou pra guarita.

Precisa, sim, de vigia. Antes não tinha. Mas andaram roubando de tudo aqui: azulejos, vasos, dentes, anéis, sapatos, sumiu até corpo de mulher nova.

Eles não me veem. Ou fingem, não importa. Fico ali fumando, de vez em quando grito “chuta!”, “cuidado!”, mas não ouvem. Só dá um grande eco no escuro.

Passa carro às vezes, bem no meio deles. No início eu me assustava, achava que ia atropelá-los, mas hoje dou risada. Também moto, gente, bicicleta. São poucos, mas passam. E não veem nada.

Ainda bem. Iam se assustar. As cabeças deles parecem máscaras: pálidas, sem pupilas, banguelas. Mas o corpo é igual ao de quando eram vivos.

Sabe que é um futebol até bonito? Leve, silencioso, sem briga.

O que me pergunto sempre é sobre a bola. Como é que pode ter bola fantasma?

Sim, bola fantasma. Porque ninguém que passa por aqui vê a bola. Só eles. Se fosse bola de verdade, o pessoal veria, não?

Como eu vejo? Não sei. Mas vejo tudo. Até a bola.

Meia-noite eles param. É a hora que eu desligo tudo. Deito no colchonete. Espero amanhecer.

Não sei até quando.

Não deve demorar.

Mas até que é bom saber que logo, logo vou ter essa peladinha pra jogar com eles.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


Calma, torcedor da Chape!
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Juca Kfouri

POR ZÉ ROBERTO PADILHA*

Ave, Mancini


Ele foi contratado para realizar uma pré-temporada atípica: dirigir em 2017 um clube de futebol sem time. Todos os outros treinadores que disputariam com ele o estadual, a Recopa, a Copa Sul Americana e a primeira divisão do campeonato brasileiro tinham perdidos alguns jogadores e contratados outros. Mantiveram as suas bases, no máximo em um mês um novo sistema tático estaria definido. Com Vagner Mancini foi diferente: teve que organizar uma nova comissão técnica, nem o massagista ele encontrou no vestiário, e formar um novo time, já que perdeu para a posteridade dezessete jogadores. Não encontrou nem titulares, nem reservas.

Quem os levou foi quem o iluminou nesta espinhosa missão: recusou vários medalhões que se ofereceram em meio a um mar de altruísmo e fraternidade que se formou pelo país e pelo mundo, e montou um elenco de bons jogadores que carregavam, acima de tudo, uma história de superação e luta. Do Flamengo veio o Luiz Antonio que estava no Sport, o Atlético Mineiro cedeu Lucas e Dodô, do Palmeiras Nathan e Vitor Ramos, o Londrina colocou o Caike à sua disposição e o São Paulo emprestou o Reinaldo. Douglas Grolli veio do Cruzeiro e Apodi, Neném, Osman e Wellington Paulista foram indicados por ele. Por mais que fosse um técnico rodado, nos primeiros coletivos teve que perguntar a um deles, como um treinador da base, “Em qual posição você se sente melhor meu filho?”.

Mesmo assim, como num milagre após o desastre, a bonança após a tempestade, conseguiu armar um time tão competitivo que alcançou o título estadual. Foi vice-campeão da Recopa e está classificado para a Copa Sul Americana, ao lado do Flamengo. E após dez rodadas do campeonato brasileiro, ocupa a décima terceira colocação à frente de Atlético Mineiro e São Paulo. Vagner Mancini, sua comissão técnica e todo seu elenco, mereciam ser reverenciados. No mínimo, respeitados. Mas ontem, sete meses depois de toda esta bonita história de reconstrução, saíram de campo vaiados após perderem em casa para o Atlético Mineiro. A imagem de um torcedor da chapecoense exaltado, xingando os jogadores ao final da partida, só contido pela polícia, nos faz refletir: Será que o luto acabou? Sabemos que o oficial decretado é de três dias, em caso de um Presidente da República, como Tancredo Neves, ele foi de oito dias. E quanto ao falecimento de um clube de futebol onde a emoção está sempre colocada acima da razão?

Segundo a psicologia, “O luto complicado não é definido por seu tempo de duração. Trata-se da compreensão de um tempo de Kairós, que designa o momento certo, e não o tempo de Chronos, que mede a quantidade de dias ou de horas”. Compreensão de um tempo. Seria mesmo pedir muito para um universo que vaia até minuto de silêncio, que fica na tocaia esperando o ônibus adversário passar com pedras na mão e que não é capaz de enxergar, mesmo jogando em casa, o valor destes novos heróis que o criador enviou para substituir os seus.


*Zé Roberto é jornalista e jogou na dupla Fla-Flu. E bem.


Gol de honra
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Comecinho de jogo.

– Volta!

Ele olhou espantado.

– Volta!

Era com ele mesmo.

Centroavante, retornava caminhando depois do ataque perdido. E iria somente até a intermediária do outro time, ou até o meio de campo, no máximo.

O rapaz gritava com ele:

– Volta pra marcar, porra! Vai ficar olhando?

Parou. Mais de dez anos jogando ali. Artilheiro. Capitão. Nunca ninguém ousara algo parecido. Nem técnico, nem torcida, muito menos jogador.

O rapaz, zagueiro, era novo no time. Filho de um morador recém-chegado ao bairro.

Não voltou. Pôs as mãos na cintura e ficou olhando. O rapaz foi envolvido pela tabela dos adversários, tentou bloquear o nove, chegou tarde, caiu, gol deles.

Levantou-se bufando e viu o centroavante lá na frente, assistindo. Foi andando firme em sua direção. Parecia decidido a enfrentá-lo.

Jogadores, torcida, juiz, técnicos, todo mundo olhando.

Parou na frente do centroavante. Ia abrir a boca para xingá-lo ao mesmo tempo em que movia as mãos para pegá-lo pela gola.

O centroavante foi mais rápido. Segurou o rapaz pelos punhos, apertou-os de forma dolorida, colou o rosto no dele e berrou:

– Sabe quando eu vou voltar pra marcar? Sabe? Nunca!

A saliva espirrou no rosto do rapaz. O veterano o empurrou violentamente.

– Aqui eu faço é gol! Vocês lá atrás marcam! E os do meio me passam a bola para eu fazer gol!

Pôs o dedo no meio dos olhos do rapaz.

– Entendeu?

O jovem olhou em volta. O silêncio de todos parecia dar razão ao centroavante.

Ainda tentou, intimidado:

– Mas, gente. Futebol moderno é assim. Todo mundo tem que ajudar na marcação. Senão dá nisso: gol deles. Não viram?

Ficou claro que não tinha entendido nada.

O outro zagueiro foi lá puxá-lo de volta. Mas ele ainda insistia:

– É jogo coletivo, gente.

O pai dele, do lado de fora, abaixou a cabeça, entrou em campo, pegou-o pelo braço:

– Vem, filho, vamos embora,

– Mas, pai.

– Vamos, filho, vamos.

Virou-se para o centroavante:

– Desculpa aí. Ele é novo. Fica vendo esses jogos na TV. Desculpa.

Não tinha ninguém para entrar no lugar dele. Jogaram o tempo todo com dez. E o centroavante seguiu sem voltar para marcar.

Perderam feio: seis a um.

Mas o gol foi dele.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


Vencendo sempre
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Eles chegavam e contavam como fora o jogo. Suados, sedentos, misturavam as palavras com a respiração e os goles de água. O golaço, a furada, o começo de briga, o final emocionante.

Falavam os quatro ao mesmo tempo. E a turma ouvia. Salivava de inveja, admiração e vontade. Mas não podia ir. “Vocês são muito novos”, diziam. “É longe, e perigoso.” “Nem pra assistir?” “Não. Quando vocês crescerem mais a gente leva.”

Eram os quatro heróis do bairro. Da vila, na verdade. Um beco com velhos e moleques olhando e correndo. Lembrando e sonhando. Sumindo e crescendo.

Os quatro eram maiorzinhos, quatorze, quinze anos. Dia de jogo saíam cedo, bola na mão, camisas velhas de times, kichute, a meninada vinha vê-los cruzar o beco de ponta a ponta, dobrar a esquina, ganhar a rua e ir diminuindo até a avenida em que pegavam o ônibus.

Os pequenos passavam o dia jogando no beco o jogo que eles imaginavam – na verdade, sabiam – que os quatro, lá longe, jogavam. Entre as paredes, as cadeiras dos velhos, os varais, os tambores de lixo, os cachorros: eram golaços, furadas, começos de briga, finais emocionantes. Suavam, respiravam forte, morriam de sede, afogavam-se no bico da garrafa.

E então, fim do dia, calor e mormaço, quase escuro, os heróis voltavam. Descreviam tudo. E não poderia ser mais igual ao que eles tinham imaginado, jogado, vivido!

Orgulhavam-se dos quatro bravos. Sua aventura no desconhecido, sua coragem frente a estranhos. Viam selvas, despenhadeiros, correntezas, muros altos, adversários armados – e eles venciam!

Sempre venciam. Nunca perderam. Às vezes um placar apertado porque não existia empate: “quem fizer ganha!”. Ficavam ali em volta deles, ouvindo-os contar o jogo, a ida, a volta, os percalços, as conquistas, com as pupilas crescendo, os dentes se abrindo, o coração inflando, até o encerramento.

Abraçavam-nos, pulavam em volta. “Me leva na próxima, por favor!” “Deixa a gente ir!” Os quatro se levantavam, diziam que não dava, deixavam a bola ali para que eles brincassem e cruzavam de volta o beco, como cavaleiros na volta da missão no estrangeiro. Os velhos os abençoavam com os olhos.

Na casa de um deles, no pedaço de terra atrás do tanque, antes de se despedirem, combinavam como seria a próxima. Quanto seria o jogo. Quem faria os gols. Como acabaria. Como seria o outro time. Lances importantes. Algum sofrimento. E a vitória final, claro. Porque isso é o que importava. Voltar e contar a vitória.

É isso: não iam a lugar nenhum. Viravam na avenida, atravessavam pro bairro depois do posto e ficavam jogando sozinhos num terrão abandonado.

Golaço, furada, começo de briga, final emocionante. Tudo entre eles. Mas nem era pra valer. Era como eles imitavam o jogo que eles imaginavam – na verdade, sabiam – que eles jogariam se fossem jogadores, se estivessem num time, se disputassem partidas contra outros times de outros bairros e voltassem pra vila.

Cansados, sedentos, ofegantes.

Mas vitoriosos. Sempre vitoriosos. Nunca haveriam de perder. Esse era o compromisso que tinham com si mesmos e com os meninos e os velhos.

Não sabiam até quando duraria tudo aquilo. Mas sabiam que venceriam sempre.
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Luiz Guilherme Piva publicou “eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


De Santos para o Mundo
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Juca Kfouri

POR RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO*

O Santos Futebol Clube (“Santos”) já deu ao mundo Pelé, Robinho e Neymar, e muitos outros jogadores que maravilharam – e maravilham – multidões.


Foi com Pelé e companhia, no entanto, que a mitologia se criou. E ainda resiste às décadas de aposentadoria do maior atleta da história. Jogadores que o sucederam contribuíram para manter a chama acesa, mas não foram – e não são – capazes de perpetuar esse estado de encantamento. O Santos deve reagir e se posicionar. Mostrar sua grandeza.

No plano nacional, ele leva vantagens realmente importantes em relação aos demais times grandes: baixa rejeição e simpatia, quando em confronto com rivais de outras torcidas.

Ou seja, se corretamente dirigido, poderia se tornar um time de expressão nacional e internacional, membro, talvez, do seleto grupo dos 10 maiores do planeta, inclusive em receitas.

Para isso, haveria de imprimir um movimento transformacional e admitir, como muitos times europeus o fizeram, que sua vocação não é apenas local e regional, mas, sim, global.


A bela cidade de Santos não o deve limitar, portanto; ao contrário, que sirva como o “porto” de lançamento para uma aventura, planejada, de dominação pelo futebol, pela arte do futebol.

Não haveria nada de errado nisso. Assim como não houve com Manchester United, Barcelona, Bayern, PSG, Manchester City e outros que resolveram, em momentos distintos de suas histórias, expandir suas fronteiras.

Conseguiram. A conquista, aliás, atinge meninos e meninas santistas, e torcedores de outros times, que, lamentavelmente, preferem acompanhar e torcer por times europeus, pelos conquistadores contemporâneos, em detrimento dos brasileiros.

Revendo o estatuto do Santos, percebe-se que, em algum momento, tentou-se, timidamente, ou ao menos de modo formal, dar-se o primeiro passo. O artigo 5o, Parágrafo Terceiro estabelece que:

“É facultado ao SANTOS, mediante prévia aprovação do Conselho Deliberativo, constituir sociedade, de qualquer tipo, ou deter participação societária em sociedade que tenha como objeto a prática esportiva profissional, e que seja classificada como entidade de prática desportiva participante de competições profissionais, nos termos definidos na Lei n. 9.615/98 e suas alterações, inclusive a Lei n. 10.672/2003, e transferir a ela os bens móveis e direitos relativos à modalidade profissional presente no objeto social da mencionada sociedade, que sejam necessários para o seu desenvolvimento, observando-se a legislação aplicável”.

O parágrafo Quarto fixa as regras que devem ser observadas se o movimento se produzir:

“Caso ocorra a transferência de bens e/ou direitos do clube à sociedade mencionada no parágrafo anterior, o SANTOS deverá deter, no mínimo, 75% das ações ou quotas em que se divide o capital social votante e total da sociedade, e sua participação societária não poderá ser onerada ou transferida, a qualquer título, e para qualquer fim, sem a aprovação do Conselho Deliberativo (…)”

Também se impôs um modelo administrativo colegiado, por meio de um comitê de gestão, formado por 9 membros. Mas, não se deu o passo rumo à contemporaneidade e se manteve atrelado ao sistema interno da tradicional política, que atrasa o futebol brasileiro. Assim, todos os membros (exceto o Presidente e o Vice, que são eleitos pela Assembleia) são indicados pelo Presidente do Comitê de Gestão dentre os membros Eleitos, Efetivos e Natos do Conselho Deliberativo.

Não existe, portanto, uma estrutura de controle e fiscalização dos atos executivos, por órgão superior autônomo, a exemplo do conselho de administração de companhias.

Aliás, o Conselho Fiscal, que é, de acordo com o estatuto santista o órgão independente de fiscalização da administração, é composto de 5 membros do Conselho Deliberativo, eleitos pelo próprio Conselho Deliberativo. Este Conselho fornece, assim, os membros do Comitê Gestor e os membros do Conselho Fiscal, que fiscalizam seus pares e colegas.

Falta, como se nota, independência, e estimula a ocorrência de situações de conflito de interesses, especialmente no âmbito político.

Complementa esse modelo a administração executiva, conduzida por profissionais remunerados, com qualificação comprovada, subordinada às decisões e determinações do Comitê de Gestão. Seus membros são, de fato, conforme se depreende do estatuto, executores, e não administradores, como se esperaria em uma empresa econômica.


Resumindo, o potencial planetário do Santos não é aproveitado. Muito pelo contrário: parece que se empreende muito esforço para confiná-lo na bela cidade praiana. Um verdadeiro pecado.

Para concluir, a estrutura do Santos, que não mantém equipamento clubístico social, facilita uma série de movimentos transformadores, como, no limite, a passagem do associativismo à forma da sociedade anônima, com a atribuição, a cada associado, de uma ação de nova companhia.

Apenas o mundo, e os seus administradores, limitam o Santos.

*Rodrigo R. Monteiro de Castro é advogado e colaborador do sítio Migalhas.


Os dias eram assim
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Juca Kfouri

POR ROBERTO VIEIRA
Muita gente não imagina – pensa que é mentira. Mas os dias eram assim, bicho!

13 de maio de 1977. Dia da abolição da escravatura por ironia. Os jogadores brasileiros recebem um decreto da Confederação Brasileira de Desportos (CBD). Todo mundo de juba aparada, elegante e calado. Atleta da seleção na Copa de 78 não podia abrir o bico nem opinar sobre nada: de esquema tático até política.

Se é que alguém era doido de falar em política após o abril de pacotes e desavenças entre Geisel e o Congresso.

Marinho Chagas era alvo fácil Suas madeixas louras eram fetiche para os delírios militaristas de plantão.


 E assim, a seleção foi pra Copa com um contrato milionário com a Adidas – os jogadores não viram um tostão. Um capitão do exército foi o técnico. Um almirante foi o comandante fora das quatro linhas – escalando até Dinamite.

Fomos campeões morais de uma Copa imoral que de bom mesmo só apresentou cento e oitenta minutos da Laranja Mecânica sem Crujff.

Laranja que tinha os cabelos dos hippies woodstockianos.


Para abalar suas certezas
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Juca Kfouri

O São Paulo é mesmo o time da elite?

E Palmeiras da colônia italiana?

Será só o Corinthians o time do povo?

Se você quiser saber as respostas leia o livro “Cego é aquele que só vê a bola”‘ de João Paulo França Streapco, pela edusp.


Fruto de sete de anos de pesquisa, a tese de mestrado que virou livro desmistifica uma porção de versões sobre o Trio de Ferro paulistano e, de quebra, mostra como o futebol ganhou espaço na cidade de São Paulo.

Uma obra que você lê discutindo com ela o tempo todo, buscando até negá-la diante do que você já sabe, mas que, à medida que transcorre, desmonta velhas concepções.

O lançamento será nesta sexta-feira.


De cavadinha
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

O senhor sabe, doutor. É minha ideia fixa. Já sonhei mil vezes. Venho na corrida, recebo a bola, driblo um, dois, três, o goleiro vem saindo, eu toco por cima, de cavadinha, e a bola desce na rede, surfando a onda de barbante.

Tem anos, isso, doutor, o senhor sabe. Desde que eu vim aqui a primeira vez. Já fiz esse gol, igualzinho, milhões de vezes. Mas agora não consigo mais.

Já tem algumas semanas. Eu toco por cima, o goleiro pula e agarra. As duas mãos pro alto. Segura a bola, traz pra junto do peito e pousa os pés na grama com ela encaixada.

Uma vez, vá lá. Duas, estranhei. Três, acordei irritado e não dormi mais. Com ontem, já são cinco vezes. Não faço mais o gol. Já dormi pensando “vou tocar mais alto um pouco”, mas na hora da cavadinha o maldito sobe, pega, encaixa e pousa.

Antes, o sonho até tinha uns segundos a mais: eu comemorava, sentia o prazer do gol. Agora, não. Assim que ele pousa, acaba. Quer dizer, acordo. Suo. Ando. Xingo. Demoro a dormir.

O quê? O que eu acho disso? Acho ruim. Péssimo. Mas não é o pior.

O pior é o desgraçado do Alaor. Que Alaor? O Alaor, doutor, o pentelho do meu colega no escritório. Invejoso, puxa-saco, fofoqueiro. Já te falei dele mil vezes. Lembrou?

Então, doutor. Escuta. Ontem ele me contou que começou a ter um sonho repetitivo. Eu: ham-ham. Que já sonhou o mesmo sonho três vezes nas últimas semanas. Eu: sei. Ele: é a coisa mais esquisita. Tá. E sabe qual é o sonho dele, doutor? Sabe o que o disgramado sonha? Que ele é goleiro!

Isso mesmo! Goleiro, doutor! E sabe o que mais? Que ele tá no gol, vem um atacante driblando os zagueiros, um dois, três, ele sai, o atacante toca por cobertura, ele sobe, pega a bola, traz pro peito e pousa com ela encaixada!

O senhor acredita nisso, doutor? O senhor acredita? Eu fiquei de boca aberta! Achei que ele estava zoando. Que conhecia meu sonho. Mas não. Nunca que ele saberia. Só o senhor conhece isso. Fiquei parado, assustado. Olhei pra ele. Ele parou um pouco e disse: rapaz, você não sabe como eu fico feliz quando eu sonho isso! Quando vejo que agarrei a bola e estou no chão com ela no peito, sinto uma paz enorme. Durmo como um anjo.

Um anjo, doutor! Um anjo? É o capeta, isso sim! Só pode ser! Só o capeta pode entrar no sonho dos outros, doutor! É isso o que está acontecendo. Eu matei a charada: ele entrou no meu sonho, doutor! Ou melhor: ele pôs o sonho dele dentro do meu sonho! Por algum caminho do além ele descobriu onde eu jogo no sonho e resolveu entrar pra me atrapalhar.

Eu bem que tinha reparado que a cara do goleiro tinha mudado. Mas não dei importância. Depois que ele contou o sonho dele é que eu juntei as coisas. O goleiro que defende a bola é ele, doutor! É o Alaor!

É inveja, doutor, é inveja. É o mesmo que ele faz no trabalho. Copia meus relatórios, repete o que eu falo nas reuniões, cumprimenta o chefe antes de mim. Insinua que erro muito. Ele quer o meu lugar, doutor. Ele quer me prejudicar de todo jeito. Aí resolveu que perturbar o meu dia não bastava. Tinha também que perturbar minha noite.

Agora me explica, doutor. Como é que o cara consegue ter um sonho que invade o sonho do outro? Que poder é esse? Que invade e fica? Que não deixa mais o sonho do outro voltar ao normal?

Sabe o que eu fiz, doutor? Falei pra ele que esse tipo de sonho, mesmo dando prazer, quando é muito repetido, é doença. É ideia fixa. Ele ficou preocupado. Falei que pode virar obsessão. Até paranoia, coisa grave, de internar. Ele se assustou. Pensou. Pediu conselho. Eu falei: claro, amigão. E dei o telefone do senhor. Falei que o senhor cura essas coisas. Só no bate-papo. Na psicologia.

Ele vai marcar a consulta, doutor.

Então, doutor, agora o senhor me faça o favor, pelo amor de Deus! Quando o Alaor vier aqui, faça o que for preciso! Assusta ele, põe medo, dá remédio, faça o diabo.

Mas tira ele do meu sonho, doutor! Tira o sonho dele de dentro do meu!

Senão eu não me garanto.

Juro, doutor. Mais um tempo, se ele continuar a aparecer e defender, eu acabo com esse negócio de cavadinha.

Eu encho o pé, doutor. Dou de bico. Na ignorância. Meto a bola com força na cara dele!

Quero ver no dia seguinte, com a cara inchada, se ele se atreve a entrar de novo no sonho dos outros.

Quero ver.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


Janot inocenta Romário
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Juca Kfouri

Documento original do Ministério Público: Prom._arq._60-2017_(1)

Na última quarta-feira (3), o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, mandou arquivar a investigação sobre uma suposta conta do senador Romário (PSB-RJ) na Suíça. A suspeita iniciou depois da publicação de um extrato bancário na revista Veja, em 2015. O documento atribuía ao senador a quantia de R$ 7,5 milhões, não declarados à Receita Federal.
Na época, o próprio senador foi à Suíça e recebeu documentos do banco que comprovavam a falsidade do documento. Posteriormente, o Romário solicitou ao Ministério Público que o investigasse. A investigação chegou ao fim na quarta-feira, quando Janot assinou o pedido de arquivamento do procedimento. No documento, o procurador esclarece que pediu cooperação jurídica as autoridades suíças e o Ministério Público da Confederação Helvética acionou o banco suíço BSI.

Veja o que concluiu o Ministério Público:

“Verifica-se, do trecho transcrito, que o BSI negou manter relacionamento bancário com Romário de Souza Faria, assim como informou que a conta corrente com o número mencionado na reportagem do semanário ‘Veja” não existe, assim como a cópia do extrato bancário publicada é falsa, pois não condiz com o “layout” adotado por aquela instituição financeira. Nesse sentido, não há elementos concretos de prova a subsidiar a suspeita inicial. O banco BSI, ao declarar a inexistência da conta corrente mencionada na reportagem, afasta a veracidade do conteúdo do extrato bancário publicado, demonstrando que os fatos delituosos imputados ao congressista são inverídicos. Ante o exposto, diante da inexistência de indícios de materialidade e autoria delitivas que justifiquem a continuidade das apurações, determino o arquivamento dos autos.”
Notícia completa aqui: http://www.romario.org/news/all/janot-arquiva-investigacao-sobre-suposta-conta-de-romario-na-suica-fatos-inveridicos/


Está tudo errado. Exceto Tite
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Juca Kfouri

POR RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO

Paulo Francis escreveu que “um dos serviços mais importantes e em muitos casos semi-involuntário (…) que a imprensa presta aos poderes é dignificá-lo (…) porque o simples fato de relatar o que dizem e fazem os políticos (…) dignifica em parágrafos e imagens o que é em geral sandice absoluta”. “O jornalista organiza a besteira do político”.
O autor disse, ainda, que o ataque confere ao atacado personalidade que não tem. E reconheceu, com imodéstia, que sua pena ajudara muita gente a sair da obscuridade.
Não sou jornalista e o que escrevo não muda a vida de ninguém.
O que me conforta, ao menos em relação ao tema tratado esta semana, é que, quem quer que discorra sobre ele, também não será ouvido por ninguém – mesmo que, formalmente, seja lido.
É impossível falar sobre futebol sem, ao menos esporadicamente, abordar a sua organização política. E quando se fala de política do futebol, o grande – e talvez único – agente, responsável por tudo o que está aí, é a CBF.
Essa é a deixa para tratar de um importante documento, publicado recentemente: suas demonstrações financeiras.
A leitura do relatório da administração, capítulo introdutório do documento, parece querer resgatar aquela afirmação de que a CBF é o Brasil que dá certo. Diz-se, nele, que: “o resultado demonstra de forma clara o esforço continuado da administração da CBF em manter e ampliar os investimentos no futebol brasileiro, mesmo com a crise financeira do Brasil em 2016. A CBF aposta no futebol como um catalisador de investimentos com impactos financeiros e sociais para o país”.
Como já se podia supor, o efeito Tite é, de modo oblíquo, envolvido no discurso, mesmo que, em sua apresentação, parte dos resultados não tenha se realizado em 2016 – período a que se referem as demonstrações: “o ano de 2016 foi marcante para a história da Seleção Brasileira. Pela primeira vez, conseguimos a tão almejada medalha de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Esta conquista é fruto de investimento massivo nas seleções de base, nas novas tecnologias e na preparação para a competição”. E aí vem a apropriação de conquista futura, contabilizada nas demonstrações de ano anterior: “a seleção brasileira foi a primeira a se classificar para a Copa do Mundo da FIFA de 2018. A Seleção pentacampeã conseguiu a vaga na 14a rodada, sua classificação, com maior antecedência desde a mudança no formato das Eliminatórias Sul-Americanas”.
A peça também enfatiza os avanços no plano da governação: “nosso compromisso é estabelecer processos e modelos de governança com aderência às melhores práticas do mercado, sendo reconhecidos como uma entidade que adota os procedimentos mais modernos do mundo corporativo e esportivo”. E finaliza: “a administração da CBF reitera seu desejo de encarar os desafios de 2017 com serenidade, mantendo e ampliando o debate participativo e democrático e trabalhando cada vez mais para que o Brasil consolide sua posição de destaque no futebol mundial”.
Relata-se um mundo encantado do futebol brasileiro. Nada mais inverídico, porém. Até a chegada de Tite, a situação da CBF, sob qualquer ângulo, era tenebrosa.
Além disso, com poucas exceções, os times brasileiros, de todas as séries, estão atolados em dívidas, não encontram meios de se financiar e se curvam diante de concorrentes organizados e capitalizados, que protagonizam o esporte mundial. Os futebolistas e demais trabalhadores desse esporte enfrentam desemprego, dificuldades para receber seus salários ou se sujeitam a condições muito distantes daquelas oferecidas às poucas estrelas que se destacam em times de elite da Série A ou que são exportados para clubes europeus ou chineses.
A verdade é que, por um momento, os times brasileiros tiveram uma grande oportunidade, após o fracasso da Copa de 2014 e a multiplicação dos escândalos envolvendo os dirigentes da entidade, de impor – ou exigir – um novo modelo para o futebol brasileiro.
Nunca, realmente nunca, na história recente do futebol, as oportunidades de transformação foram tão evidentes.
Faltou, talvez, união. Ação coletiva. Abandono de condutas individualistas, em favor de um projeto maior: um projeto de contornos econômicos e sociais magníficos. Ninguém será realmente grande se a grandeza for isolada, não compartilhada e rivalizada.
Atualmente, o discurso pseudo-ufanista, quase sem vergonha de acontecimentos que, se o futebol fosse um tema de Estado (ou ao menos de Governo), teriam justificado intervenções ou manifestações públicas contundentes, sombreia condutas alcunhadas, pela imprensa, de maquiavélicas (cf. o jornal Lance!, edição eletrônica de 23.03.17).
Esconde-se, atrás de suposta habilidade política e criatividade jurídica, o desrespeito ao Estado Democrático de Direito. A zombaria, no caso, atingiu o ápice com a atribuição de voto múltiplo às federações estaduais, para que prevalecessem sobre a somatória dos times de primeira e segunda séries, incluídos no colégio eleitoral por determinação de Lei Federal que criou o Profut.

Nada mais distante, deve-se registrar, do anunciado processo e modelo de governança com aderência às melhores práticas do mercado. Se esse é o procedimento mais moderno do mundo corporativo e esportivo, como se gaba o relatório da administração, criou-se um mundo próprio, hermético, para justificar todas e quaisquer condutas.
Espanta, nesse processo, o silêncio dos clubes, que poderiam, enfim, dominar a entidade e orientá-la em benefício deles próprios, dos jogadores e demais agentes direta ou indiretamente dependentes do futebol.
A brutalidade parece que foi aceita pela sociedade. Aliás, nem mesmo é digna de reflexão e contrariedade. No plano da política futebolística, infelizmente, ainda se reflete, com força histórica, o verdadeiro Brasil.

*Publicado originalmente no sítio “Migalhas”.


A justica esportiva é uma piada
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Juca Kfouri

Fagner pegou um jogo de suspensão e, teoricamente, está fora da final contra a Ponte Preta.

Deveria ter sido julgado antes do primeiro jogo e pego, no mínimo, dois jogos, para aprender a deixar de ser bobinho,  valentinho e burrinho, esquecido de que as câmaras captam tudo.

Pottker também deveria ter sido julgado, e suspenso,  ontem, mas não foi, com o que jogará a decisão e, depois, se apresentará ao Inter, livre de qualquer punição em São Paulo.

Não poderia ser mais ridículo.

Ou poderá, com a concessão, amanhã, de efeito suspensivo para Fagner.

Tivéssemos o tribunal de penas, rito sumário, Fagner não teria jogado em Campinas e nem ele nem Pottker jogariam em Itaquera.

Mas o que temos é apenas um picadeiro.


Uma bola
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Ninguém soube dizer de onde ela tinha vindo.

Talvez tivesse caído do alto do morro, onde provavelmente ficara desde a pelada do dia anterior: a meninada descera para suas casas – barracos amontoados em vielas tortas e íngremes – e a deixara lá. Mas os meninos garantiram que havia muitos dias não jogavam.

O fato é que, de manhã cedinho, o pessoal descendo os becos, as janelas esfregando as pálpebras, a bola veio pingando. Rolando devagar no começo, nas pedras do alto do morro, depois quicando nas lajes, ganhando altura, estufando os lençóis e as roupas coloridas como as de um festival ou de um feriado, esgueirando-se entre antenas e postes, batendo nas portas como se trouxesse cartas, pulando nos degraus de escadas sem começo nem fim, mergulhando nas bacias, nas latas d’águas nas cabeças, nos tetos de zincos pendurados pertinho do céu, às vezes ganhando enorme altura e formando outro olho, vesgo, ao lado do sol, às vezes perdendo velocidade e amortecendo o quique e deslizando nas ruelas mais planas, e as pessoas paravam para olhar, para dar caminho, para abrir as portas, a molecada correndo atrás, sem ninguém ousar tocá-la, todos dando-lhe passagem como num cortejo, até com reverências, abrindo a boca nas manobras mais elásticas, torcendo nos trechos em que ela se aninhava em obstáculos e se arrastava até o próximo declive e retomava a descida aos pulos, todos com os rostos para o alto, e para baixo, e para o alto, e para baixo, até que ela foi chegando ao fim do morro, ao limite entre a favela e a cidade, o asfalto, os carros, e tropeçou numa pedra mais alta, adquiriu força maior, elevou-se acima dos prédios da rua – e não desceu.

Não desceu.

Ficou todo mundo olhando para o alto, procurando, esperando sua volta triunfante, para vê-la quicando no asfalto até perder lentamente a inércia e repousar em algum canto, ou cair em cima de um caminhão, para cruzar fronteiras, ou parar embaixo dele, atropelada.

Mas não desceu.

O pessoal estranhou. Perguntaram-se com olhares, gestos, palavras, mas ninguém soube dizer.

E foi cada um pro seu canto. Cada qual com sua dor.

O curioso é que a meninada resolveu ir ao alto do morro, onde costumavam jogar e de onde a bola devia ter partido.

E não é que ela estava lá?
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


O Brasil deveria parar para acompanhar as eleições no São Paulo
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Juca Kfouri

POR RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO*

Na próxima terça-feira, 18 de abril, os conselheiros do SPFC escolherão o futuro presidente do clube. A importância das eleições transcende os muros do Morumbi.
Estará em jogo a esperança, o fio de esperança em relação ao início de uma nova fase da governação do futebol brasileiro.
Do ponto de vista formal, o estatuto do SPFC, aprovado por mais de 80% dos associados presentes à assembleia geral realizada em dezembro de 2016, absorveu aspectos essenciais do PL 5.082/16, de autoria do Deputado Federal Otavio Leite, que institui a Sociedade Anônima do Futebol.
Lá estão: o conselho de administração, com 1/3 de membros independentes; a diretoria executiva profissional, composta de membros que deverão se dedicar exclusivamente ao clube, em troca de remuneração compatível com suas responsabilidades; o conselho fiscal, formado por associados que não participem de qualquer órgão de administração do clube e eleitos diretamente pelos seus pares; a auditoria anual obrigatória por empresa especializada e de notória reputação; e, last but not least, a obrigatoriedade de realizar um estudo de viabilidade com o propósito de separar o futebol das demais atividades clubísticas, incluindo outras modalidades esportivas.
A importância das eleições decorre, portanto, da oportunidade de se iniciar a implementação – antes mesmo da existência de um marco regulatório adequado – de um modelo brasileiro de governação, arquitetado para resgatar e estabilizar seus times entre os protagonistas mundiais.
A eventual falta de comprometimento material com os comandos formais do estatuto implicará a dissipação do fio de esperança. Esperança que não se escreve apenas com as cores do SPFC, mas de todos os times que pretendem romper com o obsoleto e ineficiente sistema que impera no país.
Daí a motivação para que o Brasil acompanhe esse momento.
A missão será atribuída a um de dois candidatos: Carlos Augusto de Barros e Silva (“Leco”), atual Presidente, ou José Eduardo Mesquita Pimenta (“Pimenta”), Presidente de 1990 a 1994.
Ambos apresentam como promessa de campanha posição intransigente em relação à implementação integral dos instrumentos de governação e controle previstos no estatuto. Mais do que isso: prometem, a partir dessa nova constituição são paulina, construir os pilares que levarão o time ao topo do planeta.
Pimenta teve a virtude de presidir durante um período que se pode chamar de bossa nova tricolor. Sob o seu comando montou-se o time que, dirigido pelo mestre Telê Santana e capitaneado pelo maior jogador da história do SPFC, Raí, conquistou a América e o Mundo.
Por esses fatores, o então Presidente tinha força e poder político para impor o projeto reformista que desejasse. Não o fez.
Agora, quase 25 anos após sua passagem pela presidência, pretende conduzir a reconstrução que o estatuto determina. Se a sua pretensão for realmente sincera, terá, no entanto, que convencer e lidar com a sua base de apoio, formada por diversos conselheiros que negam a legitimidade do processo que resultou no novo estatuto.
Leco é um advogado bem sucedido, ex-Presidente da poderosa Associação dos Advogados de São Paulo – AASP e histórico dirigente do SPFC. Alçado ao cargo máximo em decorrência da renúncia de seu antecessor, viveu – e vive – a antítese do espírito da bossa nova noventista: assumiu um clube com enorme dívida financeira, turbulência política, interferências externas e elenco desacreditado.
Porém, o ambiente adverso não o impediu de, surpreendente e corajosamente, propor a reforma do estatuto, constituir uma comissão independente de associados para formular um projeto inovador, defendê-lo mesmo diante da proposição de criação de novos órgãos de administração (e consequente compartilhamento e controle do poder) e aprová-lo.
Leco, agora, pretende concluir o projeto que ele próprio iniciou – com o apoio de sua base de sustentação política e que obteve a aprovação (i) unânime dos membros do conselho deliberativo presentes à sessão deliberativa (inclusive daqueles que se opõem à sua candidatura e à legitimidade do processo conceptivo) e (ii) da maioria absoluta dos associados do clube -, implementando todos, conforme ele afirma, os comandos do estatuto.
Mais: promete trazer profissionais de mercado, realmente independentes, para as posições de conselheiro de administração que lhe compete indicar (a terça parte) e de diretoria executiva, e não subverter os princípios formadores do novo estatuto.
Resumo da ópera: contra Pimenta pesa o fato de não ter feito, quase 25 anos atrás, quando tinha poder praticamente absoluto, o que diz que fará agora. Pesa, ainda, o fato de estar associado a conselheiros que: (i) negam a importância e a legitimidade do projeto; (ii) tentaram, por via judicial, interromper o processo de concepção do novo estatuto; e (iii) pretendem, judicialmente, impedir a realização das eleições do dia 18.
A favor de Leco o fato de, mesmo na adversidade, (i) ter proposto e iniciado, de modo inédito e corajoso, o processo que não apenas o SPFC – mas o futebol brasileiro – precisa, e, ainda, de (ii) se comprometer, em conjunto com os conselheiros e grupos políticos que o apoiam, com a implementação do novo modelo de governação aprovado soberanamente pela assembleia geral de associados.
A eleição de terça-feira não será apenas mais uma na história do SPFC; talvez seja, sim, a mais importante desde a constituição do clube. A responsabilidade do conselho deliberativo é, pois, monumental.
Por esses motivos, o Brasil deveria parar e acompanhar essas eleições.

*Rodrigo R. Monteiro de Castro é advogado.


40 anos depois de tudo
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Juca Kfouri

POR CARLOS MAGNO SILVA DE MENEZES*
Nesses tempos em que se critica demais os estaduais, e com razão

O Campeonato Paulista tem uma chance rara de se tornar o maior campeonato do mundo

Seria com uma final reeditada entre Corinthians e Ponte Petra

Quarenta anos depois do maior Corinthians e Ponte Preta da história

Eu, como bom corintiano, é lógico que torceria para a Ponte

E se o jogo final fosse em um Moisés Lucarelli lotado?


Com Jadson sendo expulso ainda no primeiro tempo para alimentar ainda mais o sonho

Com o gol da vitória saindo nos momentos finais, chorado…

Dos pés de Pottker? Clayson? Elton?

Só saberemos após o último sonho de Gilson Kleina antes da partida

E que com o final do jogo começasse uma explosão de alegria jamais vista

Com a bandeira da Ponte sendo carregada de joelho pelo gramado

E nós corintianos, com lágrimas nos olhos, seríamos dois tipos

Os que viveram um dia parecido, esses seriam engolidos por uma lembrança avassaladora

E os que sentiriam ainda mais saudade de um dia que não viveram

Esses finalmente iriam entender como um título de Campeonato Paulista

Pode ser maior que qualquer título de Brasileiro, Libertadores ou Mundial

O maior título do mundo em toda a história

Só sendo superado neste momento diante dos seus olhos pela Ponte Preta

Depois ajudaríamos a acabar com toda a cerveja de Campinas
*Carlos Magno Silva de Menezes, 33 anos, e jornalista.


Relatório oficial é nova bomba no vôlei brasileiro
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Juca Kfouri

Em tempos de caixas-pretas do esporte brasileiro sendo abertas, um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) tem o poder de uma bomba:

o órgão da Fazenda que atua na prevenção e lavagem de dinheiro considerou que as transações da S4G, empresa de Fábio Azevedo e que tinha diversos contratos com a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), tem uma série de transações “com indícios de atipicidade” e apresentam “movimentação de recursos incompatível com o patrimônio do proprietário”, “recebimento de recursos com imediata compra de instrumentos para realização de pagamentos ou de transferências a terceiros sem justificativa”, de acordo com o relatório do órgão da Fazenda.

Chamaram atenção do COAF os inúmeros e seguidos saques em espécie no valor de R$ 100 mil, e até saques como um de R$ 386.157,00 também em espécie, pela secretaria de Azevedo.

Além de pagamentos realizados assim que recebiam depósitos da CBV para empresas da mulher de Azevedo, ou de uma sobrinha de Ary Graça, e para diretores da confederação e empresas prestadoras de serviço que estão sendo checados.

Fábio Azevedo era o braço direito de Ary Graça na CBV e segue sendo na Federação Internacional de Vôlei (FIVB).


Um dia
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Era o que ele mais queria. Igual na TV, subir na tela ao comemorar o gol.

Só que não tinha alambrado.

Cada campo! Às vezes ao lado tinha riacho, bananeira, ribanceira, porteira, curral, estrada, muro, trilha de boi, formigueiro, ou só um descampado mesmo, de areia, terra ou capim.

Ele fazia o gol – muitos, aliás – e saía correndo, olhando, imaginando-se saltando nos buracos de arame e dando os braços para os torcedores, rodando a camisa sobre a cabeça e jogando-a no meio da galera.

Podiam dar cartão, sem problemas. Se fosse o segundo, podiam expulsar – nem aí.

Mas queria aquela glória. Vendo na TV abria a boca, levantava-se, insinuava o mesmo movimento, chegou a pular no sofá – que, fraco e velho, quebrou e lhe valeu uma bronca da esposa.

Uma vez havia uma cerca. Baixa, velha e de arame farpado. Chegou a correr na direção dela, mas viu que ela ia desmontar e que ele poderia se enganchar nos espinhos de ferro. Parou.

Até que um dia – quase sempre é com “um dia” que se fazem as histórias – foram a um campo melhor. Quase um estádio. Traves de ferro, rede nova, dois degraus de cimento de um lado para os torcedores, marcação de cal – e o alambrado!

Dos quatro lados. Com vigas brancas e a tela de losangos de arame.

Atrás dele, uma dúzia de velhos e meninos, dois vira-latas, um sujeito magrelo vendendo laranja.

Eu poderia terminar dizendo que ele não fez gol, mesmo tendo, além de duas chances cara a cara, um pênalti que ele chutou longe. E que se frustrou a ponto de nem querer mais jogar, ou de não conseguir mais fazer gol.

Ou que, mesmo assim, sem marcar, ao final do jogo ele correu até lá, subiu e comemorou emocionado, para espanto dos jogadores e dos assistentes.

Mas não. Este “um dia” pede outra variação.

Melhor assim: ele fez o gol, o da vitória, no final do jogo (no último segundo, na verdade), num chute retumbante de fora da área que bateu na forquilha e estufou a rede.

Ele correu para o alambrado. Ia subir e rodar a camisa e jogá-la como sempre sonhou.

Mas parou bruscamente a um metro da grade. Com a freada, os companheiros quase caíram por cima dele. Abraçaram-no, empilharam-se, ergueram-no nos ombros e o levaram numa espécie de volta olímpica.

Percorreram todo o perímetro lado a lado com o alambrado. Ele olhava cada gomo vazio, as vigas, os laços em volta das vigas, a cor do arame, o calibre, o espaço onde poria os pés, imaginava como apoiaria a mão esquerda e onde a camisa iria cair – talvez no cesto de laranjas.

Mas seguiu nos ombros dos colegas, deixou-se levar ao barraco que servia de vestiário, ao caminhão, à estrada, ao nunca mais.

E perdeu a vontade. Parou de pensar naquilo. Seguiu fazendo gols e comemorando no chão, como sempre.

Nem as comemorações da TV o abalavam mais.

Ele sabia que poderia ter feito o que mais queria. Que seria perfeito, glorioso, como sempre sonhara.

E isso lhe bastava.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


A fome do Central
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Parece ficção.

Mas é a realidade do futebol brasileiro.

Intervalo do jogo Náutico x Central.

Os jogadores do Central de Caruaru pedem um copo d’água aos adversários.

Estão com sede e fome.

Nenhum deles jantou.

Nem mesmo um lanche foi oferecido pelo clube.

Muitos deles não se aguentam em pé.

O jogo ainda está 1 x 0 para o Náutico.

Mas o segundo tempo é cruel.

O Náutico marca mais quatro gols.

Os jogadores do Central deliram na noite pernambucana.

Jogam por dever do ofício.

Jogam famintos como o Dínamo de Kiev na ocupação nazista.

Dínamo que venceu os alemães com fome e orgulho.

Mas os jogadores do Central sentem apenas fome.

Conforme relato do zagueiro Sanny após o jogo.

Todo o lamentável episódio parece inexplicável, entretanto.

O Central Sport Club tem quase cem anos.

É o principal clube de uma cidade rica.

Tem estádio próprio.

Torcida apaixonada.

História e lendas.

Teve o primeiro atleta profissional do estado de Pernambuco.

A sede e a fome do Central não possuem explicação dentro das quatro linhas do gramado.

A sede e a fome do Central vêm de anos de indigestão.

Vêm dos subterrâneos da Feira de Caruaru.

Vêm do canto triste da Patativa.

Vêm dos labirintos onde a bola não ousa caminhar.

Vêm de um planeta chamado Brasil.

Nota do blog:  O zagueiro Sanny não vestirá mais a camisa do Central.  O  clube o acionará na Justiça por dizer que time não recebeu alimentação antes do jogo.


A Mandioca, Alex Atala, o Futebol, Tite e o Brasil
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Juca Kfouri

POR RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO*

Alex Atala, provavelmente o mais talentoso cozinheiro que o país produziu, afirma que o ingrediente alimentar que une os brasileiros, independentemente de origem, classe ou região, é a mandioca e as suas farinhas (e não o arroz com feijão). Essa revelação, que foi precedida de intensa pesquisa e visitação, contribui para o resgate de hábitos alimentares que marcaram a formação de nossa cultura.

Partindo-se da classificação de Ezra Pound, Alex Atala se enquadra no tipo de pessoas caracterizadas pela maestria. Os mestres se diferenciam dos inventores – que são os homens descobridores de novos processos – pois, apesar de não terem inventado tais processos, os usam tão bem ou melhor que os próprios inventores.

Sua maestria, contudo, mesmo associada à sua capacidade inata de comunicação e encantamento, sobretudo pela paixão que envolve suas proposições, não produzirá um país melhor a partir da mandioca.

Tite também se classifica entre os mestres. Um mestre ainda em evolução, mas que poderá, talvez, se sentar ao lado de outros, sagrados e consagrados, como Telê Santana e Pep Guardiola. Ou almejar um posto maior.

O produto que ele maneja, no entanto, ao contrário da mandioca – e de qualquer outro elemento que reúne expressão de cultura e alguma relevância econômica – é dotado de poder transformacional.

A expressão dessa realidade se acentua nos momentos de necessidade de afirmação nacional. É exatamente o que se passa com o processo de beatificação de Tite, desde o início de seu trabalho na liderança da seleção brasileira.

Ao treinador se tenta conferir o crédito pelo início do resgate da confiança e do orgulho de ser brasileiro, num momento extremamente delicado da história política e econômica do país. A transformação do ambiente se opera, portanto, pelo futebol, e não pelo prometido resgate da economia. E decorre, vale ressaltar, da atuação de um novo líder, um quase-Messias, e não de um processo de reformulação das bases do esporte, especialmente para colocá-lo no mesmo patamar de seus oponentes internacionais.

Desse processo não participaram os donos do futebol, que nada fizeram – e nada fazem, efetivamente – para a operação do quase-milagre. Foi obra do acaso, ou de Deus, que é, afinal, brasileiro.

Esse diagnóstico é assustador: Tite é efêmero; sua vontade e sua energia para produzir o bem podem se esgotar; e, num cenário que não se pode desprezar, a convergência e união grupal podem se dissipar, e os resultados positivos tornarem-se menos frequentes.

De todo modo, esse lampejo ufanista que o brasileiro começa a reverberar, de certa forma tributário de um modelo de país que não se quer ver nem pintado de verde e amarelo, revelam, no entanto, a força da maior expressão cultural do país: seu futebol.

O futebol não solucionará todos os problemas do país. Mas poderá integrá-lo e promover pujança econômica e avanços sociais.

Porém, pessoas que se deliciam com as extravagâncias culinárias alienígenas, quando a conta se apresenta em euros ou dólares, mas que são incapazes de compreender a proposta revolucionária de um cozinheiro (ou chef) local, quase macunaímico, que oferece produtos em reais, mantêm-se curvadas à secular dominação europeia, agora sob a forma do jogo de bola.

A incapacidade – ou falta de vontade – de transformar o país é enaltecida pelo empenho na formação de um novo símbolo transformador que, paradoxalmente, reforça o status quo.

A seleção deveria pertencer aos brasileiros. Tite vem se apresentando, realmente, como o instrumento de aproximação e fiador de um novo romance. O problema é que ele representa, institucionalmente, os algozes das milhões de pessoas que sonham, de modo legítimo, com uma vida melhor a partir do futebol, com um futebol melhor ou apenas com a sua devida valoração no plano econômico.

O conflito está posto.

Se Tite atingir seu objetivo como técnico – o título da copa do mundo, ou uma participação reconhecidamente encantadora, como a da seleção de 1982 -, não poderá ignorar o dever de protagonizar a revolução da governação do futebol brasileiro. E, assim, tornar-se, além de mestre, um grande inventor.

*Rodrigo R. Monteiro de Castro é advogado e um dos autores do livro Futebol, Mercado e Estado” pela editora Quartier Latin. Publicado originalmente no sítio Migalhas.


Verdades
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Juca Kfouri

“Do Blog Domínio Público”

– O futebol brasileiro é o melhor do mundo.

– Não foi golpe.

– Messi é um enganador.

– A terceirização beneficia os trabalhadores.

– Neymar é cai-cai.

– Pagar para despachar a bagagem vai baratear as passagens.

– A CBF é o Brasil que deu certo.

– A aposentadoria é a principal causa do déficit público.

– O 7 x 1 foi um acidente.

– Direitos sociais da Constituição de 1988 são privilégios corporativos.

– A Leila Pereira tem prova de sua associação ao Palmeiras.

– Não existem abusos na Lava Jato.

– O Internacional tem razão em pleitear a permanência na Primeira Divisão.

– Os juros altos são essenciais para a recuperação econômica.

– Não foi pênalti no Tinga.

– A imprensa, o Judiciário, a Polícia Federal e o Ministério Público são as instituições mais isentas e confiáveis do Brasil.

– Felipe Melo é um exemplo de jogador moderno.

– Não existe mais esse negócio de esquerda e direita.

– Pelé não jogaria nada no futebol atual.

– O Palmeiras tem Mundial.

– O governo está conseguindo reorganizar a economia brasileira.

– O Sport é o campeão brasileiro de 1987.

– Todos são iguais perante a lei.

– O hexa está no papo.

– Deus é brasileiro.

– Hoje não é primeiro de abril.


Salve Paulinho, nobre peladeiro
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Juca Kfouri

POR JOSÉ ROBERTO DE PONTE*

Não se assuste com o título do texto. Escrevo para render elogios ao meio-campista da Seleção Brasileira. Após o fim da época romântica do nosso futebol e o profissionalismo da elite do esporte se consolidou, a figura do “peladeiro” minguou.


 Talvez não seja coincidência, mas veio junto com a diminuição no número de grandes jogadores. Outro motivo pode ser também a geração que passou a usar mais computadores e jogos eletrônicos, deixando de frequentar o verdadeiro celeiro dos grandes craques tupiniquins, a rua. Difícil ver garotos batendo uma bolinha, mesmo em bairros mais periféricos.

 
Paulinho com seus 28 anos vivenciou o momento possivelmente derradeiro da nossa principal escola de “peladeiros”. Onde driblar não gerava mimimi, onde o couro comia solto, onde uma furada fazia lascas de dedões se perderem pelo asfalto, onde dificilmente cavavam faltas porque quedas no asfalto geravam ralados tratados a base de muito mertiolate (que ardia pra caramba!) e dias com o corpo ardendo.

 
Saído das ruas do bairro paulistano do Parque Novo Mundo, na Zona Norte, Paulinho iniciou trajetória no São Paulo, mas se destacou no Juventus da Moóca, outro símbolo da origem do futebol brasileiro que sofre para sobreviver. Apesar de ter a mesma origem humilde de astros que o técnico Tite tem convocado, ele não é nem de longe o mais badalado.

 
Porém, a cada partida parece estar jogando pela vida ou por um prato de comida. Isso não o desonra em nada. Mas depois de comer o pão que o diabo amassou, perambulando por Lituânia, Polônia, até se destacar no Bragantino e chegar ao Corinthians, viu sua vida financeira se transformar, e não abriu mão da simplicidade. Isso se reflete no campo, iniciando as jogadas e acompanhando até o seu desfecho. Não por acaso se destaca pelos gols que marca.

 
Ele, que foi um dos mais crucificados na Seleção da Copa de 2014, sendo vítima dos exageros dos tempos atuais onde quem acerta hoje é Deus, mas se erra amanhã é o demônio, parecia fadado a nunca mais vestir a camisa amarela e foi pra China.

 
Quis o destino que Tite assumisse a seleção num momento complicado e o trouxesse como um homem de confiança, sendo muito criticado por isso, inclusive. Paulinho, como um autêntico peladeiro de rua do Brasil, que nunca desistiu de jogar porque o asfalto era duro ou porque passou sufoco na Lituânia, ressurge e mesmo em meio a astros do quilate de Neymar, Philippe Coutinho e Marcelo, transformar-se na cara de um futebol qualidade que não abre mão do talento e nem dos carregadores de piano.

 
Nos últimos grandes momentos do futebol brasileiro sempre houve espaço para jogadores assim. Em 1994, Romário (mesmo dono do time e não correndo muito, era o autêntico bom malandro), Viola, Cafu e em 2002, Vampeta, Edilson, Luizão, Denilson e os fantásticos Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo eram representantes da boa linhagem peladeira do Brasil.

 
Possivelmente aí esteja um dos caminhos para o nosso futebol voltar aos momentos gloriosos de outrora.

 
*José Roberto de Ponte, jornalista, autor do livro “Lugar de Repórter Ainda é na Rua – O Jornalismo de Ricardo Kotscho” e amante do futebol raiz.



Além do campo de jogo
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Juca Kfouri

POR PAULO ANDRÉ

No futebol brasileiro, há um processo de mudança de paradigma com relação à competência dos treinadores de futebol. O que se viu até meados dos anos 2000 foi uma enorme quantidade de ex-jogadores que se tornavam treinadores por causa de suas experiências práticas dentro do campo e pelo aprendizado de anos de convivência com grupos de atletas de futebol. A linguagem do boleiro, as superstições e o paternalismo obtidos nesse ambiente fechado ditavam o ritmo e as regras das relações entre os comandantes e os comandados.

Como havia pouca bibliografia a respeito do que se passava por trás dos treinos e jogos transmitidos pelo rádio e pela televisão, era muito difícil esperar que alguém “de fora” do meio adquirisse conhecimento e experiência suficientes para fazer frente a esses “nativos do futebol nacional”. Ou seja, até a virada do milênio, parecia ser improvável se tornar treinador de futebol profissional de sucesso sem que se tivesse sido jogador profissional. O preconceito era enorme e as tentativas de se colocar acadêmicos no banco de reservas eram quase sempre frustradas.

Entretanto, sabe-se que o cargo de treinador, atualmente, além de demandar um vasto conhecimento no complexo processo de ensino e aprendizagem dentro das quatro linhas, exige inúmeras outras competências técnicas e científicas que ultrapassam o campo de jogo.

Com o desenvolvimento do jogo e o aprimoramento de metodologias de treinamentos, vieram também novas táticas e estratégias, evolução no sistema de análise de desempenho, novos conceitos de formação de jovens atletas, métricas para gerenciamento e composição do elenco (manutenção, recrutamento e desligamento de jogadores), foco no desenvolvimento e performance mental dos atletas, além do advento da tecnologia e da globalização – saber lidar com a internet e as redes sociais como objeto integrado ao cotidiano de trabalho. A função de treinador passou a ser a de um gestor estratégico cuja a importância de se dominar a arte da comunicação, interna e externa, de forma eficiente, se faz mais do que necessária, já que o ocupante do cargo lidera um grupo de pessoas dispostas em vários setores/departamentos e é, na maior parte das vezes, o principal porta-voz do clube nas entrevistas semanais.

Claudio Coutinho, João Saldanha, Carlos Alberto Parreira e Paulo Autuori foram alguns dos poucos “estudiosos/cientistas” (não ex-jogadores) que se destacaram no ludopédio nacional nas últimas cinco décadas e, desta forma, abriram caminho para a mudança que se percebe atualmente no país. Eles entenderam desde cedo que o conhecimento que o treinador de futebol profissional precisa aplicar na rotina de trabalho vai muito além do conhecimento técnico de campo. Aquele que ocupa a função deve ter a capacidade de entender e lidar com as relações humanas, se posicionar e atuar diante dos atletas, da torcida, da diretoria, da imprensa e até mesmo dos patrocinadores.

O treinador contemporâneo precisa ser capaz de criar um ambiente saudável, que gere novas ideias, que defina metas objetivas e palpáveis para os atletas e funcionários (individualmente) e para a equipe como um todo (coletivamente) na tentativa de motivar todos os integrantes do grupo de trabalho. Além disso, é cada vez mais comum que o treinador participe do recrutamento ou da formação de novos líderes nos diversos setores que influenciam diretamente o seu trabalho, como o de nutrição, fisiologia, fisioterapia, logística de viagens, captação de talentos, analise de desempenho, departamento médico, dentre outros. O intuito é fazer com que esses líderes sejam capazes não apenas de resolver as tarefas mais simples, mas também de assumir as tomadas de decisões e transformações que fazem parte do ritmo intenso do mundo atual.

Ao melhorar a comunicação desses departamentos interligados, o treinador permite maior horizontalidade, fluência e interdependência, descaracterizando as antigas autocracias existentes no meio futebolístico brasileiro. Isso significa que ao criar ou dar à sua equipe gerenciadora a possibilidade de agirem e tomarem iniciativas, o treinador ganha tempo para focar seus esforços em questões mais estratégicas, enquanto permite que seus gerentes corrijam rotas e acelerem processos decisórios, desde que esses estejam em comunhão com os princípios e os objetivos do clube.

Uma boa comunicação e feedback podem evitar ruídos e intromissões desnecessárias durante o período de trabalho e implantação do projeto de jogo. As avaliações constantes dos processos em andamento podem mitigar riscos e antever crises. O próprio treinador pode desenvolver formulas de remuneração variável que permitam premiar o mérito e as boas práticas, aumentando a capacidade competitiva de toda sua equipe de trabalho. Não se pode esquecer, é claro, da necessidade de compreender os aspectos financeiros, as estratégias do marketing do clube e também ter capacidade para lidar com situações políticas inesperadas.

Um clube de futebol é um sistema extremamente aberto que sofre influências dos ambientes internos e externos de acordo com a variação dos resultados esportivos, da pressão da mídia e da torcida, das oscilações, do êxtase e da frustração em curtos períodos de tempo, e com as interações humanas no dia-dia.

A inovação e os resultados não vêm das máquinas, mas da cabeça e das habilidades dos seres humanos. São as pessoas que se relacionam, interagem, fazem conexões e encontram soluções para a equipe/organização.

A capacidade de liderar os funcionários do clube e os atletas, por meio de convencimento, atitude e visão, rumo à um ambiente menos formal, mais flexível e que valorize as relações e o talento humano como principal fonte de competitividade do clube passa não só pelas competências técnicas e cientificas de um treinador, mas por todo seu conhecimento nas áreas de gestão que estão além das quatro linhas que delimitam o campo de jogo.


Estatuto
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Não tinha outra data. Quando combinamos não sabíamos que cairia no Carnaval. Não tem jeito: se cancelar paga multa pesada. É mesmo, é muito ruim. Mas acontece.

Foi o que disseram em casa. Tinha torneio no outro estado, 600 quilômetros, na roça, nem celular pega lá, ônibus já alugado e tudo. Hospedagem reservada, tinham que ir.

Mas era farra, óbvio. E pesada. Numa fazenda mais ou menos perto. Bebidas, mulheres, churrasco, batuque, e até um campinho de pelada pra se distraírem – mas que bola que nada!

Sexta à noite, sábado o dia todo, domingo direto, segunda no embalo, mas na terça estavam acabados. Não aguentavam mais.

Para desopilar os excessos, alguns foram para o campinho, começaram a tocar a bola, os outros vieram, formaram os times de dentro e de fora e engataram as peladas.

A outra turma da festa estranhou. As mulheres também. Carne sobrando, bebida congelando, o pessoal do samba com os instrumentos encostados. O clima ficou estranho. Foram lá tirar satisfação. História é essa de futebol? Ano inteiro é isso, agora é Carnaval!

Eles nem aí. Já era quase meio-dia. Os rachas estavam esquentando. Cada um jogando mais do que se fosse campeonato. Só paravam pra água e pro xixi.

O organizador – alugou a fazenda, comprou tudo, arranjou as companhias e os sambistas, preparou o churrasco – se alterou. Entrou em campo, pegou a bola e enfiou-lhe a faca. O chiado dela se esvaziando diante dos olhos e suores e respirações e bocas abertas dos jogadores era como o de uma cobra invisível no meio do mato: de espanto e medo, ninguém se mexia.

Com a faca na mão e o couro murcho debaixo do braço, proclamou: “futebol é futebol, sacanagem é sacanagem! Aqui ninguém vai avacalhar!”.

Concordaram. Ele tinha razão.

E assim foi que esticaram a folia também na terça gorda.

Em respeito ao regulamento.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)


Sem volta
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para o Pasquale

Tudo foi um grande equívoco. Aquela cidade, aquele time, a posição e, mais do que tudo, a profissão: com que diabos ele veio a ser jogador de futebol? Lateral-esquerdo? E naquele fim de mundo, num time que perde muito mais do que vence?

Sempre tenta refazer o percurso que o levou a tudo isso. Jogava mais por diversão (de centroavante!), queria mesmo era continuar na escola, ter um ofício – eletricista, ou relojoeiro, ou contador –, montar um negócio, seguir a vida.

Mas algo ocorreu em algum momento. Ele não sabe quando nem o quê. Foi rápido. Seria só por um tempo. Porém, foi tudo ganhando volume, velocidade, duração, inconsciência e, num estalo, ali está ele, no uniforme roto, no campo esfarelado, correndo atrás da bola sem saber por quê.

Não era nada disso.

Seria outra sua história.

A casinha branca, a mesa com toalha de xadrezinho, a jarra de água em forma de abacaxi, a cortina no vitrô, o porta-retratos no aparador de fórmica, o suor na aliança, o banho, o pão partido com as mãos e picado na sopa, o guaraná e o brinde de “saúde!” com a mulher e os filhos de cabelo penteado.

Jornal, novela, um cigarro na varanda e a cama.

Aí sim, poderia sonhar que era lateral-esquerdo num time do interior e que corria atrás da bola, ralando a perna, frustrando-se, amargando as derrotas – só para acordar aliviado, olhar a esposa, o ventilador, os chinelos, o copo d’água, ouvir o cachorro no quintal e o rangido da correntinha do xaxim e ter a certeza de que era feliz, de que fizera a escolha certa.

Mas lá vem a bola dividida, o cotovelo na altura do gogó, a poeira nas narinas – e a sola do adversário na canela o arranca do devaneio.

Isso poderia ser só um pesadelo do qual ele despertasse.

Mas é a sua vida.

Um equívoco total, infelizmente.

Mas é isso mesmo: um equívoco é o que é a sua vida.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)


O legado é seu também: escolha melhor quem patrocinar
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Juca Kfouri

POR RODRIGO FERREIRA*

Vendo as infinitas notícias sobre o descaso com o Maracanã e o abandono do Parque Olímpico, voltamos às conversas sobre legado, sobre o propósito das coisas, sobre sifnificado. Mais uma vez, nos vemos iludidos por promessas de ouro e recordes, e mais uma vez estamos aqui bradando contra o duro golpe de ver o esporte ser abusado e ficar parado no tempo.


Como idealista e “marketeiro”, prefiro ver a luz no fim do túnel. Acreditar que não teremos perdido a oportunidade de sediar os dois maiores eventos do mundo e que vamos, sim, evoluir como nação esportiva. Aproveitando a moda do país sendo passado a limpo, sugiro passar o bastão da responsabilidade novamente para as marcas, para a iniciativa privada. E, a partir de agora, estabelecer novos padrões, mais saudáveis, para o esporte.


Sigo acreditando na palavra autenticidade quando falamos de patrocínio. Sobre associação de valores e uma relação ganha-ganha, onde deveriam sair vencedores patrocinador, patrocinado e, principalmente, os apaixonados que fazem do esporte (e das marcas) um sucesso. Sendo assim, é responsabilidade também de patrocinadores mudar este jogo.

Mas a empresa pode se perguntar: “o que eu tenho a ver com isso?”

A verdade é que o legado também é seu. Patrocínio é troca de valores. A marca busca propriedades, atletas, confederações, competições que tenham valores parecidos com os seus e com os clientes que deseja. Ao emprestar sua imagem e também seu dinheiro, o patrocinador está afirmando que está de acordo com o que o patrocinado é e o que ele simboliza, bem como com o uso que será feito com o dinheiro.

Chegou a hora de as marcas pensarem melhor onde colocar o dinheiro. Ou o momento de retirar o seu apoio.

O público não pode desistir da cobrança às instituições públicas, mas talvez valha mais passar a cobrar as empresas que hoje sustentam a operação. A mudança, infelizmente por falta de alternativas, é mais rápida nas mãos da iniciativa privada, que pode moldar suas atitudes para atender aos desejos de seus clientes.


Rugby: Um bom exemplo.

Tive recentemente a oportunidade de conhecer um pouco mais de perto a estrutura e os objetivos da Confederação Brasileira de Rugby. Os planos claros, a transparência, a confiabilidade estimulam o investimento. Tem começo (objetivos), meio (transparente) e fim (entrega).

O objetivo não é nada simples: levar o Brasil à Copa do Mundo de Rugby. Um feito histórico e que não será conquistado ao acaso. Para isso, profissionalismo é a palavra mais utilizada. Organização, método e, o principal, confiança para mudar o patamar do esporte no Brasil. Um projeto que começa pela gestão, com conselho administrativo e tratando a CBRu como uma empresa. Com profissionais contratados do mercado, todos os envolvidos estão engajados com cada um dos passos necessários para esta jornada, que tem tudo para ser histórica.

A partir de investimentos técnicos, como a contratação de treinadores estrangeiros ou criação de centros de desenvolvimento, os resultados comerciais são imediatos: a CBRu tem hoje o mais diversificado e qualificado rol de patrocinadores do esporte brasileiro, exceção feita apenas para o futebol. Com consciência financeira e transparência, passo a passo o esporte está se desenvolvendo. Se você não sabe, até o Pacaembu já é hoje a casa do Rugby no Brasil e o esporte já está na TV aberta.

A certeza de que o legado esportivo está sendo gerado é compartilhado por todos os envolvidos e dá segurança para marcas. Não há dúvidas de que a parceria, com sucesso esportivo visível, trará benefícios comerciais para os patrocinadores e alegria para os torcedores.

Não há como responsabilizar um patrocinador e nem é preciso. A questão é fechar a fonte de dinheiro para as entidades que não geram o legado que a sociedade espera. É preciso mexer com o bolso.

Que gestores, executivos e profissionais de marketing assumam a responsabilidade de investir seu dinheiro na construção de suas marcas, mas também no desenvolvimento saudável dos esportes que são o motor da paixão dos torcedores, por acaso seus potenciais consumidores.

Se um contrato de patrocínio está condicionado às entregas, aos objetivos, naturalmente os absurdos como o Parque Olímpico e o Maracanã não aconteceriam. E, claramente, se acontecessem os responsáveis seriam cobrados comercialmente por isso.

Para fazer o legado Olímpico acontecer, instituições esportivas precisam oferecer profissionalismo como um de seus valores. E você, patrocinador, precisa escolher melhor quem patrocinar. Bons exemplos já estão em curso.

*Rodrigo Ferreira, jornalista, publicitário e Geraldino acima de tudo.
https://br.linkedin.com/in/ferreirarodrigo

 


Noturno
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Juca Kfouri

LUIZ GUILHERME PIVA

Nas entradas e nas cãs já se nota. Um pouco de barriga também. Tem que apertar os olhos pra ver o gol adversário. A mobilidade é pequena.

Mas tem a técnica. O toque. O imprevisto que desmantela o ferrolho, percorre a picada, invade a clareira e põe os companheiros na cara do gol.

Só que já está cansado. Quer parar. Executa seus números como o profissional no teatro mambembe, de cor, sem o ímpeto infantil que o fez tornar-se adulto naquele ofício.

A categoria com que amacia e movimenta a bola intimida os que cogitam criticá-lo por não correr, não marcar, por jogar tão calado.

Às vezes até ensaia-se um apupo.

Mas eis o passe de mágica – e a muralha à sua frente se esfumaça. O milagre do centroavante livre na área. Palmas, gritos, espanto.

Nos bastidores, depois dos jogos, sua, respira forte. Não quer mais seguir.

Mas é no palco, aliás, no campo velho e esburacado, com os mesmos truques, aliás, lances, que consegue o almoço e a janta.

O pior é olhar pra frente: mesmo não podendo, sabe que mais um pouco vai ter que parar.

O horizonte é claro: nada se vê.

E não adianta apertar os olhos.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


Como Cabral lucrou com Nuzman
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Juca Kfouri

República de Mangaratiba” de Cabral ganhou milhões no Comitê de Nuzman.
POR LÚCIO DE CASTRO


A última década aproximou Sergio Cabral Filho, Eduardo Paes e Carlos Arthur Nuzman. Indeléveis parceiros, unidos pelo Pan-2007 e pelas Olimpíadas-2016. Atravessaram a década dos grandes eventos no Rio de Janeiro irmanados. Entre as várias interseções do trio neste período estão dois integrantes da “República de Mangaratiba”, beneficiários de inúmeros contratos com os três. Marco Antônio de Luca, participante do mais próximo círculo de Cabral e membro das confrarias do “Guardanapo” e da “República de Mangaratiba”, obteve nos últimos anos milhões ganhos em contratos com o governo estadual de Cabral e a prefeitura de Eduardo Paes. Com o Comitê Rio 2016 (CoRio2016), presidido por Carlos Arthur Nuzman, não foi diferente: através de três distintos Cadastro Nacional Pessoas Jurídicas (CNPJ), um grupo de empresas com ligações societárias e objetos em comum conquistou nove contratos com a entidade olímpica presidida por Nuzman. Em flagrante desrespeito as normas do próprio comitê. O outro protagonista dos anos do guardanapo que aparece em uma dessas sociedades é Arthur César de Menezes Soares Filho, o Rei Arthur, como era chamado pelo amigo e vizinho Cabral, investigado na “Operação Calicute”.

Com a Masan Serviços Especializados foram seis contratos diferentes com o CoRio2016. Entre os contratos, está o 979/2016, cujo objeto é “Prestação de Serviço de Limpeza e Conservação das Instalações do Rio 2016”. Início em 11/06/2016 e fim no dia 30/01/2017. No entanto, mais dois diferentes contratos da Masan tem como objeto limpeza de instalações. Como no 1464/2016, que trata sobre “Prestação de serviços de limpeza e manutenção predial, em caráter emergencial na Vila dos Atletas”, iniciado em 3/8/2016, até 20/8/2016. O contrato 1288/2016 também tem limpeza de instalações incluído no escopo (“Prestação de Serviço de Segurança, limpeza e gestão de resíduos para as áreas de hospitalidade Zona VI Parque Olímpico e Arena Olímpica do Rio”), aberto em 22/7/2016 e com fim em 30/11/2016.

Os outros três contratos firmados com a entidade pela Masan tem distintos objetos: o 1600/2016 é sobre “serviços de mão de obra de 376 caixas e atendentes de fila dentro das concessões presentes nas instalações do Rio2016, trabalhando em 13 dias (13/9/2016 a 16/9/2016). O 303/2016 assinala como “objeto deste contrato a prestação, pela contratada ao RIO 2016, de serviços de alimentação para as Instalações do Parque Olímpico durante os Jogos Rio 2016, conforme definido na proposta comercial, proposta técnica e escopo técnico Rio 2016”, iniciando em 31/3/2016 e fechando em 31/1/2017. E o 812/2015 é sobre ”Contrato de prestação de Serviços de Hospitalidade (In Venue Hospitality Services – IVH) a serem executados na Zona 6, nas instalações Arena Rio, Centro Olímpico e Paralímpico de Tênis, Parque Olímpico e Paralímpico, Arena Carioca 1 e Clube Olímpico”, de 24/9/2015 a 31/12/2016. Assim, a Masan obteve contratos que variavam entre limpeza, contratação de pessoal e hospitalidade.

O CoRio2016 contratou a Masan, a Denjud e a Comissaria Aérea do Rio de Janeiro. E as três tem ligações societárias e se encontram, entre outras participações, no “Consórcio Alimentar”
Três diferentes contratos com duas diferentes empresas tratam sobre “Prestação de serviço de alimentação para a força de trabalho”. O 1271/2016, com a Denjud Refeições Coletivas Administração e Serviços (“prestação do serviço de alimentação para a Força de Trabalho e Contractors, além do fornecimento de frutas para consumo dos Atletas e gelo filtrado para reabastecimento dos coolers fornecidos pelo Patrocinador da Rio 2016”, (12/7/2016 até 31/9/2016). E dois acordos assinados com a empresa Comissaria Aérea Rio de Janeiro: 252/2014 (14/7/2014 a 30/9/2014, sendo objeto a “prestação dos serviços de alimentação, através do fornecimento de refeições, detalhados por tipos de cliente, níveis de serviços e características da instalação -local de fornecimento- Evento Teste de Vela Marina da Glória) e o contrato 304/2016, que, assim como o da Denjud, trata sobre “prestação do serviço de alimentação para a força de trabalho”. De 8/3/2016 até 31/1/2017: “Prestação de Serviços de Alimentação para da Força de Trabalho do RIO 2016”.

No entanto, ao verificar-se a complexa teia de participações da “Masan Serviços especializados”, encontra-se a mesma como integrante de uma terceira empresa, a “Consórcio Alimentar”. Em cuja sociedade estão juntas a “Denjud” e a “Comissaria Aérea do Rio de Janeiro”, além do próprio Marco Antônio de Luca como pessoa física. Assim, o CoRio2016 contratou a Masan, a Denjud e a Comissaria Aérea do Rio de Janeiro. E as três tem ligações societárias e se encontram, entre outras participações, no “Consórcio Alimentar”, em 30 de junho de 2011.

As regras do Comitê Rio 2016 quanto a isso são bem claras. No Portal de Suprimentos da entidade, em seu artigo 5, item D das “Condições Gerais do Fornecedor”, está a descrita a “obrigação do fornecedor no que se refere ao cadastramento”: “Não realizar cadastro de sociedades pertencentes ao mesmo grupo econômico que atuem no mesmo segmento”.

E as três fornecedoras do CoRio2016, (Masan, Comissaria Aérea e Denjud) não tem apenas as ligações societárias em comum. No “Código e descrição da atividade econômica” de cada uma delas na base de dados da Receita Federal está a atuação em um mesmo segmento, explicitado número por número do código, palavra por palavra: “56.20-1-01: Fornecimento de alimentos preparados preponderantemente para empresas”, em desacordo com as normas do CoRio2016.

As três fornecedoras do CoRio2016, (Masan, Comissaria Aérea e Denjud) não tem apenas as ligações societárias em comum
A reportagem perguntou ao CoRio2016, através da assessoria de imprensa, se o órgão conhecia tais relações societárias (Denjud e Comissaria Aérea) com a Masan Serviços Especializados. O comitê respondeu que “todas as concorrências incluíam a verificação de compliance dos candidatos e neste caso era feito uma checagem de composição acionária. Os contratos da Masan, pelo volume, foram todos submetidos para aprovação do Conselho Diretor”. Não foi possível ter acesso ao valor total dos nove contratos com Masan e empresas com ligação. A estimativa possível pelo único dado conhecido é que apenas um deles CoRio2016/Masan tinha valor de R$ 82 milhões, e de acordo com informação fornecida pelo próprio órgão, teve um adendo e baixou para R$ 17 milhões.

Uma quinta sociedade forma o “Consórcio Alimentar”, além dos sócios Masan, Denjud, Comissaria Aérea e Marco Antônio de Luca: é a Prol Alimentos. Que vem a ser um dos braços da Prol, como passou a se chamar a “Facility”, empresa de Arthur Cesar de Menezes Soares Filho. Cujos negócios com o governo estadual chegaram a R$ 2,8 bilhões, divididos em 57 contratos com 19 órgãos.

No “Rio Transparente”, da prefeitura, encontram-se contratos sob o nome de Facility. No entanto, o CNPJ que consta é o que aparece na base de dados da Receita Federal como da Prol Alimentação. A reportagem obteve também na Junta Comercial o documento da alteração contratual da Facility para Prol S.A.

Em 2014, mesmo ano em que Cabral deixa o governo, Arthur Soares, envolvido em escândalos e investigações, anuncia que estaria vendendo a empresa para um fundo internacional de nome “Rise”. No entanto, de acordo com os documentos obtidos por esta reportagem, a “Rise” passa a ser gerida por Tereza Cristina Porto Xavier no endereço comercial da rua Barão de Itapagibe 61, no Rio Comprido, zona norte do Rio de Janeiro. O endereço é da Prol. Tereza Cristina Porto Xavier vem a ser ex-secretária de educação de Cabral entre fevereiro de 2008 a outubro de 2010.

Na “República de Mangaratiba”, formada por oito amigos próximos a Cabral, entre empresários e ex-secretários de governo, o “Rei Arthur” é um dos com casa mais próxima ao agora presidiário, ambas juntas a faixa de areia da praia de São Braz, como mostrou reportagem do jornal O Globo, de Chico Otávio. O ex-governador foi habitué do jatinho particular do empresário. De acordo com dados da Receita Federal apresentados durante a “Operação Calicute”, Arthur Soares pagou R$ 1,7 milhão em propina, divididos entre o escritório de Adriana Cabral, ex-primeira-dama do estado, e uma empresa de Carlos Miranda, apontado pelo Ministério Público Federal como um dos operadores do esquema.

A Masan, dos seis contratos diretos com o CoRio2016, também impressiona pelo volume de negócios com as gestões de Cabral e Paes.

.Entre 2008 e 2011, a Masan Alimentos e Serviços, de Marco Antônio de Luca e onde José Mantuano de Luca Filho (Comercial Milano) também aparece através da participação societária da Sepasa Serviços, faturou R$ 17 milhões nos negócios com o governo de Cabral. Com Eduardo Paes na prefeitura o volume foi muito maior: entre 2008 e 2012, a Masan obteve contratos no valor de R$ 122.690.561,16 (cento e vinte dois milhões, seiscentos e noventa mil, quinhentos e sessenta e um reais e dezesseis centavos), como consta em dados obtidos através do “Rio Transparente”. Os contratos da Masan prosperaram nas mais diversas secretarias, sendo o volume maior de dinheiro no fornecimento de merenda escolar na Secretaria de Educação e de refeições em hospitais para a Secretaria de Saúde. E em 2014, Masan e Comercial Milano estiveram juntas na mesma denúncia, feita pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), do Ministério Público Estadual (RJ), que apontou fraude em licitações na prefeitura de Magé. As duas foram vencedoras em três concorrências, somando quase R$ 2 milhões. E nas disputas, concorriam entre elas.

Já a soma recebida pela Comercial Milano é ainda mais admirável: entre 2008 até 2016, os anos de Eduardo Paes na prefeitura, foram R$ 606.177.186,16 (seiscentos e seis milhões, cento e setenta e sete mil, cento e oitenta e seis reais e dezesseis centavos) como está demonstrado no Rio Transparente. Assim, apenas nos anos de Paes no Rio os sócios, entre Masan e Comercial Milano levaram um total de R$ 728.867.747,32 (setecentos e vinte oito milhões, oitocentos e sessenta e sete mil, setecentos e quarenta sete reais e trinta e dois centavos).

A empresa de José Mantuano de Luca Filho, também esteve nos noticiários no escândalo das propinas pagas para Rodrigo Bethlem, então na Secretaria de Assistência Social da prefeitura, em um esquema que perdurou entre 2009 e 2012, gestão de Eduardo Paes. Em 2010, a Comercial Milano foi denunciada na CPI da Merenda Escolar, comandada pela ex-vereadora Andréa Gouvêa Vieira, por suspeita de irregularidade na licitação. E em 2015, a Masan chegou a ser afastada de uma concorrência após denúncia do Ministério Público por favorecimento em concorrência de R$ 52 milhões para fornecimento de pessoal e equipamentos no Centro de Operação da Prefeitura. Em 2012, outra acusação de favorecimento envolveu a Masan, escolhida para operar carros fumacê (veículos utilizados no combate ao mosquito da dengue) no município do Rio, mesmo sendo do ramo de alimentação.

A reportagem enviou pedido de resposta para a Masan, sem retorno.

Além da questão sobre ligações societárias das empresas, cuja resposta está no corpo da matéria, a reportagem enviou ao CoRio2016 outras questões como o escopo semelhante de alguns contratos da Masan e sobre a concorrência. Através da assessoria de imprensa, a entidade afirmou:

“Trabalhamos com a Masan em três frentes: Limpeza e Conservação; Catering (alimentação) e Hospitalidade (Serviços de hotelaria para vilas de imprensa, árbitros e tratadores). Em todos os casos, a Masan competiu com pelo mais de uma empresa em concorrências públicas e transparentes que depois era ratificadas ou não pelo Conselho Diretor.

A operação de alimentação dos jogos era imensamente complicada. Nenhuma empresa no Brasil tinha condições de realizar tudo. Ela incluía alimentação de atletas (Main Dinning da Vila Olímpica), do público (em todas os parques e instalações), dos VIPs, e dos hospedes já citados (Jornalistas, árbitros, tratadores…). Por isso as operações foram fatiadas, para dar mais acesso a outros grupos, o que explica os múltiplos contratos. A maior fatia desse bolo, alimentação, ficou com a Sapore que operou a Vila dos Atletas.

Depois chamamos a Masan à título de emergência para atuar na “crise” da Vila dos Atletas. Eles também foram chamados para ajudar com pessoal nas concessionárias de alimentação que entraram em crise nos primeiros dois dias dos jogos. Em ambos os casos a dispensa de concorrência necessária por conta da urgência da contratação da Masan foi aprovada em todas as instâncias inclusive no Conselho Diretor (onde são checados os cruzamentos acionários). Vale citar aqui que o desempenho da Masan nos jogos foi impecável e o espírito de parceria com as necessidades do comitê idem”.

Confira os documentos AQUI.


Final de Copa
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

1.
Não resistiu. Viu a pelada e deu seta, pegou o acostamento devagar, desceu o pequeno declive de terra e deixou o carro perto do capinzal.

De terno e gravata, ficou em pé assistindo. Terrão, sol humilhante, dois times (com camisa e sem camisa) de rapazes simples jogavam como numa final de Copa do Mundo.

Suava, estava atrasado, se empoeirava, o compromisso era importante – mas ele não saía do lugar.

Viu que tinha uns galões de água, fez sinal pra um dos jogadores pedindo pra tomar. Virou no bico, esfregou a boca com as costas da mão, molhou o cabelo, pôs as mãos na cintura abrindo as asas do paletó e voltou a assistir.

Não pensava mais no tempo. A tarde crepitava. O jogo parecia que não teria fim. O zunido dos carros na estrada. Gols comemorados como vitórias numa guerra. O manto de poeira.

De cócoras. Com a mão em continência pra apurar a vista. A boca seca. Os lábios nos mesmos galões em que todos tomavam.

E foi aquilo. Um se machucou, tio, entra aí, quem, eu?, é, tio, completa aí, mas só estou assistindo, faz tempo que não jogo, só completa, de terno?, vai logo, tio, peraí, boa.

Era no time de camisa. Deixou o paletó no chão e entrou.

Não sabia mais o que estava acontecendo. Sol, poeira, carros, a bola, os jogadores em volta, ele correndo sem parar, a gravata balançando, os sapatos doendo, o suor empapando tudo, o barulho do tempo zunindo, zunindo, zunindo, escurecendo, quem fizer acaba, mas ninguém fazia, o jogo não acabava, quase noite, ele correndo, tocando, chutando, tropeçando, a boca cheia de terra, já não se via mais nada.

2.
O carro tá lá no capinzal faz mais de um mês. Depenado.

Quem mora em volta não sabe como ele foi parar lá. Ninguém se lembra de ter visto nada: nem acidente, nem pelada, nem ninguém saindo do carro, dizem que naquele campo ninguém joga há anos.

Mas a polícia segue procurando o corpo.

É que acharam um paletó no chão, sujo de terra, do lado do campo.

Mas sem nada. Nenhum documento, nenhum papel. Nada.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)