Blog do Juca Kfouri

Arquivo : junho 2016

Mortes pela polícia explodem a caminho da Olimpíada no Rio de Janeiro
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Juca Kfouri

Os alarmantes números de homicídios cometidos por policiais no mês de maio de 2016 divulgados pelo Instituto de Segurança Pública hoje confirmam os repetidos alertas feitos pela Anistia Internacional de que a violência da polícia e outras violações de direitos humanos estão aumentando no contexto dos Jogos Olímpicos.

Segundo o ISP, apenas na cidade do Rio de Janeiro houve 40 homicídios decorrentes de intervenção policial no último mês de maio, um aumento de 135% em comparação aos 17 mortos no mesmo período do ano passado.

No estado, o número passou de 44 a 84, consolidando um aumento de 90%.

“Às vésperas de mais um megaevento esportivo no Rio de Janeiro, as autoridades continuam falhando de forma inaceitável em controlar o uso da força letal pelos agentes da lei e garantir a segurança de todos os moradores da cidade, especialmente de quem vive em favelas”, denuncia Atila Roque, Diretor Executivo da Anistia Internacional.

Para a organização, trata-se de uma tragédia que já vem se consumando desde 2014, quando as mortes praticadas pela polícia aumentaram 40% no Rio de Janeiro no ano da Copa do Mundo. “Os Jogos Olímpicos não podem ser realizados à custa de mortes e violações de direitos humanos. Os organizadores dos jogos e a Secretaria de Segurança devem agir imediatamente para interromper esse ciclo de violência de Estado e garantir o direito à vida”, exige Roque.

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Muitas perguntas, poucas respostas
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Juca Kfouri

Levantamento inédito da Artigo 19 revela que falta de transparência é regra no plano de segurança da Olimpíada; órgão mais problemático, Secretaria de Segurança do Rio acaba de receber mais R$ 2,9 bilhões do governo federal

por Natalia Viana, da Agência Pública | 30 de junho de 2016 | Leia no site

Foto: Alex Ferro/Rio 2016
Na tarde desta quarta-feira, 29 de junho, o presidente interino Michel Temer assinou um decreto liberando crédito a fundo perdido de R$ 2,9 bilhões para o governo do Rio de Janeiro reforçar a segurança na Olimpíada.

Mas o esquema de segurança dos Jogos deixa muito a desejar em relação à transparência sobre gastos, protocolos de atuação e planejamento, em todas as diferentes forças e esferas governamentais envolvidas. E a Secretaria de Estado do Rio é a mais problemática.

É o que revelam as respostas a 16 pedidos de acesso a informação feitos pelas organizações Artigo 19 e Justiça Global e analisados pela Pública. As demandas foram feitas em fevereiro e março deste ano a diferentes instâncias: Polícia Federal, Ministério da Defesa, Ministério da Justiça, Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Anatel e Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro (Seseg). Apenas nove pedidos foram respondidos satisfatoriamente – um deles, somente após recurso em terceira instância às Controladoria-Geral da União (CGU), que levou quase dois meses para ser concluído.

“Estamos trabalhando há alguns meses em torno desses pedidos, e o que vemos é que de fato segurança pública ainda é um dos temas mais problemáticos e obscuros quando se trata de transparência do poder público”, explica a advogada Camila Marques, coordenadora do Centro de Referência Legal da Artigo 19, organização que defende o direito à informação. “Não podemos afastar do controle social a elaboração e previsão de políticas públicas tão somente pelo fato de se tratar de segurança pública. A divulgação dessas informações, em muitos casos, não traz riscos para a segurança pública; pelo contrário, fomenta debates, pesquisas, o monitoramento da sua eficácia e outros elementos.”

O buraco negro da Seseg
A Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro foi a mais opaca entre todas as instâncias consultadas. Não cumpriu nenhum dos prazos estabelecidos pela Lei de Acesso à Informação (12.527/2011) e em alguns casos simplesmente ignorou os pedidos feitos. “A Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro apresentou diversas peculiaridades e problemas. Em todos os casos da Seseg, tivemos que utilizar o instrumento recursal para cobrar que a secretaria apenas respondesse. Teve um caso em que tivemos que recorrer apontando o descumprimento do prazo e cobrando uma resposta por três vezes”, explica Camila.

A “lista de compras” de equipamentos não letais só foi obtida depois de uma batalha que levou o pedido, feito no dia 18 de fevereiro, à terceira instância recursal. A demanda feita à Secretaria foi solenemente ignorada duas vezes e foi respondida só em 11 de abril, depois de as organizações apelarem à Controladoria-Geral da União (CGU). (Leia mais aqui)

Outro questionamento da Artigo 19 era sobre a aquisição de equipamentos eletrônicos e softwares para uso policial durante a Olimpíada. A Seseg respondeu apenas que as informações eram estratégicas e de caráter reservado, mas não explicou o porquê. A ONG recorreu em 14 de abril e ainda não recebeu resposta. “O órgão que for questionado sobre informações sigilosas deve sempre oferecer informações como: assunto, grau de classificação, autoridade que decretou o sigilo, data desse decreto e o dispositivo que fundamente de maneira clara o sigilo”, explica Camila. (confira o pedido)

A advogada chama atenção ainda para o fato de que o governo do Rio lançou apenas há alguns meses um site em que se podem protocolar pedidos pela Lei de Acesso – até então, alguns pedidos tinham de ser levados pessoalmente à sede da Seseg, no centro do Rio. Porém, o site ainda deixa a desejar: “Não é bem divulgado, não há espaço destinado para a interposição de recurso, e para recorrer é preciso entrar com um novo pedido de informação, com um limite de 2.000 caracteres, o que é insuficiente para tratar de uma questão recursal”, diz.

Secretaria não explica como gastará R$ 2,9 bilhões

A falta de transparência na segurança da Olimpíada já se estende à aplicação do montante de R$ 2,9 bilhões liberados pelo governo federal por medida provisória quatro dias depois de o governo do Rio de Janeiro decretar estado de calamidade pública pela sua falência financeira. (Na véspera do decreto, o presidente interino, Michel Temer, jantou em Brasília com o governador do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, também interino, e o prefeito carioca Eduardo Paes).

O crédito passou a valer a partir de outra medida provisória, publicada nesta quinta-feira no Diário Oficial.

O valor é mais que o dobro do gasto previsto para segurança para a Olimpíada, que era de R$ 1,3 bilhão segundo anunciou o secretário de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, Ricardo Leyser, no final do ano passado. É 50% a mais do que o total gasto pelo governo federal com a Copa do Mundo nas 12 cidades-sede (cerca de R$ 1,9 bilhão).

Procurada pela Pública no mesmo dia em que a verba foi liberada, a assessoria de imprensa se Seseg afirmou: “Em reunião hoje do secretário José Mariano Beltrame com o governador em exercício Francisco Dornelles ficou acertado que primeiramente serão atendidos os servidores policiais, com o pagamento do restante do salário de maio, pagamento do salário de junho e das gratificações em atraso do Regime Adicional de Serviço (RAS) e Sistema Integrado de Metas”.

O RAS significa um regime de hora extra pago a policiais que fazem rondas fora do horário do serviço. Os soldados recebem R$ 150,00 por oito horas trabalhadas. A estimativa do custo para ter 25 mil PMs trabalhando e ganhando por fora durante os Jogos era de R$ 42 milhões, segundo O Globo. Já a folha de pagamento mensal da SESEG com policiais da ativa custa cerca de R$ 500 milhões.

Questionada sobre quanto por cento do valor total representa esse gasto inicial com salários e o que se pretende fazer com o restante, a assessoria de imprensa disse que “a ideia é descentralizar esse recurso para os batalhões policiais pagarem suas contas, por exemplo, com contratos de manutenção de aeronaves”.

A assessoria disse à Pública que não sabe os valores exatos, e quem deve saber isso são a PM e os departamentos. Após insistência, pediu mais prazo para enviar dados mais concretos, mas não respondeu até a publicação.

Se os protocolos existissem…

Além de indagarem sobre valores e equipamentos a serem utilizados na Olimpíada, a Artigo 19 e a Justiça Global perguntaram à Polícia Federal e ao Ministério da Defesa quais os protocolos que as forças atuantes do megaevento adotariam.

As respostas foram evasivas. “Recebemos uma resposta da Polícia Federal que ilustra bem a falta de justificativas concretas para a negação de uma informação: indagamos sobre as normativas editadas que dizem respeito especificamente a medidas e ações que ocorrerão durante a Olimpíada de 2016. Em sua resposta, a Polícia Federal afirmou que essas normativas não existem, porém, caso existissem, estariam guardadas em sigilo. Entretanto, ao determinar que a informação é sigilosa, o órgão deve sempre fundamentar e apresentar a motivação do ato classificatório demonstrando o risco, ainda que potencial, que a divulgação causaria à segurança pública. Nesse caso, além de não justificar concretamente a necessidade desse sigilo, o órgão estabelece a classificação em abstrato em relação a documentos que nem sequer existem”. (confira o pedido).

Para Camila, “é essencial que a sociedade possa conhecer como o policial deve se comportar para que possa cobrar a estrita legalidade das suas ações”.

Ela diz que o levantamento permite concluir que órgãos do Executivo federal responderam com mais pontualidade às demandas de acesso à informação do que o estado do Rio.

“A realização dos Jogos Olímpicos pressupõe uma série de políticas públicas, obras e gastos que geram impactos de grandes dimensões na população. Sabemos que a execução desses chamados ‘megaeventos’ geralmente vem acompanhada por uma série de violações aos direitos humanos: remoções de comunidades inteiras, aumento da militarização, criminalização dos movimentos sociais, entre outros. A sociedade tem o direito de estar informada e participar de todos os processos que a afetem. A opacidade verificada nas respostas que recebemos aponta que o legado dos jogos à sociedade será bastante negativo e contrário à garantia dos direitos humanos.”

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Messi e a argentinidade
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Juca Kfouri

POR ANDRÉS DEL RÍO*
Mais uma final, mais uma vez fomos vice. Messi chora. Minutos depois de perder a final, decide renunciar à seleção nacional. Ok, 100% argento. Porque só um argento processa a vida como um tango.


Na Argentina a gente tritura os ídolos, os mata. Os que sobrevivem se tornam parte da bandeira argentina, parte do hino nacional. Mas nesse processo o ídolo sofre. Muito. Como um tango.

A paixão argenta pelo futebol é tanguera: o passado sempre é melhor. O futuro é aquele que lembre esse passado. Não existe futuro, existe um passado para o resto do futuro. A paixão tem um horizonte à base de nostalgia, ao “nunca mais”, ao “nada vai ser como foi”.

Maradona ganhou a Copa 86 e os gols que ele fez foram uma revanche à morte e à violência da ditadura e da guerra das Malvinas. Tudo se mistura. Maradona esteve na beira da morte, mas sobreviveu. Ele se tornou parte da bandeira. Mas durante esse processo, ele oscilou entre ser o Deus da igreja maradoniana e ficar na cama de um hospital a cada seis meses.

Messi é o melhor jogador da atualidade. Para alguns ele é o esportista mais bem-sucedido do mundo. Não é qualquer esportista que se mantém por 10 anos no topo da alta competição. Por isso é diferente. Com o Barcelona ganhou tudo, poucas vezes perdeu. Ídolo nesse time, hoje é ídolo de qualquer criança no mundo. É o ídolo não conflitivo, não midiático, que nunca fez do poder que ele tem uma vantagem. Ele joga futebol. E o que mais gosta é jogar na seleção. Mas até hoje ele não parecia ser um típico argentino.

Aos 12 anos ele foi para Barcelona. Nem acne tinha. Mas as mudanças geográficas não alteraram o sentimento pelo país, pela seleção. Mas nós matamos nossos ídolos. Como se pudéssemos comprovar até onde eles conseguem ser humanos.

Messi ganhou a Copa do mundo sub 20, uma medalha de ouro nas olimpíadas, mais de 80 prêmios individuais e quase 60 torneios e prêmios coletivos, e é o maior goleador da história da seleção. Nos últimos três anos ele chegou às três finais dos campeonatos mais importantes do mundo. Mas ficou como vice. Argentina (com ele) é protagonista de todas as competições internacionais de futebol. Mas isso não importa.

O argentino quer comprovar até onde chega Messi. Criticam porque ele não é Maradona. “Não tem a personalidade dele”, alguns falam. Faz gols em quase todas as partidas, mas na Argentina falam que só faz gol contra Bolívia. Ele está presente em todas as partidas mesmo que esteja de férias do Barcelona, mas na Argentina se reprova porque ele veio a passear. Para alguns ele não canta o hino, como se a fortaleza com que se canta fosse proporcional ao amor que sente pela camisa. Para outros, ele não fala de política, por isso não tem o DNA argentino. Ele não é passional, logo não é argento. Em que lugar do mundo se colocaria em dúvida o brilhantismo de Messi?

Como um tango, o argentino só compreende a realidade nos extremos, nas rupturas. A renúncia de Messi à seleção o tornou um argentino 100%. Foi para um extremo. Como o argentino vive a vida. Tudo ou nada. Ao renunciar ele começou a agir como um argentino. E da renúncia ao pedido da volta (implorada) é um passo. Porque assim é a Argentina. Não existem cores pastel. O médio é o extremo.

Jogar ao futebol tem 50% de chances de perder e de ganhar. A Messi não se reclama o 50% das chances de ganhar, ele não tem chance de perder. Porque é tudo ou nada. Assim é para os ídolos. E no processo sofre, para se tornar parte da bandeira.

Messi não pode renunciar à seleção. O ídolo não pode obrigar aos torcedores que esqueçam ele. Agora cada partida vai ser comparada com a “Era Messi”. E sua ausência vai ser só presença. Não tem escapatória nesta equação. E o argentino é especialista em enaltecer o passado. “Com Messi jogávamos melhor”, escuto em um futuro próximo.

Imagino que a renúncia seja temporária, pendular e passional. Não é o primeiro jogador que renuncia à seleção. Nem o último. Independente disso, Messi mostrou sua argentinidade. O jogo só está começando e, como um tango, a parte trágica é fundamental. Nos vemos na copa da Rússia 2018.

*Andrés del Río é argentino e professor de Direitos Humanos da Universidade Federal Fluminense.

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Craque
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para Tarso de Castro (in memoriam)

O José é craque. O João é craque. O Muller, o Manoel, o Rodríguez e o Satoro são craques.

O Juan é craque. O Lao é cracaço. O Marco é craque. O Steve também é craque. O Menezes, o Solano, o Gonzalez, o Brad, o Xang, o François e o Luiz são craques fantásticos.

Os jornalistas são craques. Os comentaristas são craques fabulosos. Os treinadores, então, nem se fala: são mais do que craques. Todos os torcedores são, sem exceção, supercraques.

Os políticos, os motoristas, os porteiros, os médicos, os investidores, os seguranças e os escritores são craques.

Os caminhoneiros são craques. Os donos de iate são craques. Os mendigos e os milionários são todos craques.

Os palpiteiros e apostadores são craques. Os analistas políticos e os economistas também são grandes craques.

Os jogadores de futebol de todos os times de todas as divisões do mundo são craques.

O único perna de pau do mundo é o Messi.
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Luiz Guilherme Piva também é craque.

Comentário para o Jornal da CBN desta terça-feira, 28 de junho de 2016, que você ouve aqui.



O adeus de Messi em dia de Silva
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Juca Kfouri

POR ROBERTO VIEIRA

Messi disse adeus.

Cansado de ser cobrado pelos hinos, pelos títulos, pela glória perdida.

Pela Argentina que não existe mais.

Messi diz adeus porque tudo tem começo, meio e fim.


Puskas disse adeus em 1956 por causa da invasão russa.

Just Fontaine disse adeus em 1960 por causa das contusões.

Uwe Seeler disse adeus em 1970 por causa dos cabelos brancos.

Todos sem títulos mundiais.

Todos sem títulos continentais.

Todos fundamentais.

Porém, sempre existe o caso do Rei Pelé.

Pelé que disse adeus em 1966.

Cansado das pancadas, das derrotas e de ser vendido como panaceia.

Pelé que nunca gostou de perder.

Ainda mais no meio da bagunça infernal de Liverpool.

Pelé que voltou questionado em sua realeza.

Pelé que devolveu a dúvida com o Tri.

Hoje?

Hoje é dia de Silva.

Silva que bateu a última penalidade.

Silva que continuaria Silva caso perdesse o pênalti.

Porque difícil é ser Messi.

Um menino perdido em suas lembranças de infância.

Defendendo um país que lhe exige ser Gardel e Evita.

Um país que vive perdido nos tangos da década de 30…


O futebol e o lucro
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Juca Kfouri

POR RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO*


Já se mencionou, nesta coluna, a existência de um Projeto de Lei, do Deputado Federal Otavio Leite (PL 5.082/16), que propõe a criação da sociedade anônima do futebol (SAF).

Um dos únicos argumentos – ou talvez o único – que foram suscitados contra a proposta consiste num possível conflito entre a natureza econômica da atividade desenvolvida pela SAF e a intransigência do torcedor, sempre motivado pelas vitórias e pelos títulos.

De acordo com essa visão, tal relação conflituosa oporia a SAF e seus acionistas, que visariam ao lucro, ao torcedor, que, diante de um cenário de contas em dia e uma administração ética e profissional, de um lado, e a contratação de grandes jogadores e títulos, de outro, não hesitaria pela segunda.

Com isso, clube e investidores também se posicionariam em possível situação conflituosa, pois aquele haveria de seguir o desejo do torcedor, mesmo à conta da saúde financeira da SAF, enquanto o investidor agiria de modo frio e calculista, visando apenas o lucro.

Esse conjunto de coisas enalteceria a paixão pelo time como elemento diferenciador das empresas econômicas do futebol, manejadas pelas futuras SAF’s, das empresas econômicas ordinárias, sujeitas apenas às inflexões de mercado. E representaria o motivo pelo qual, para alguns críticos, o futebol brasileiro deve permanecer sob a gestão de associações civis, sem fins lucrativos.

Revela-se aí o suposto problema que, muito bem amplificado, sustenta a manutenção de um modelo que, de anos para cá, tornou-se indefensável.

Daí a importância de sua desmistificação.

Parte-se, neste breve artigo, de uma série de questões a respeito do funcionamento da sociedade anônima para, na sequência, abordar-se o tratamento da SAF. Os focos da breve investigação são a sistemática do lucro e o poder dos acionistas e administradores de agirem contra o interesse social.

Vejamos, sob a forma de perguntas e respostas.

1. O acionista de uma sociedade anônima pode embolsar todo o lucro anual?

O art. 202 da Lei 6.404/76 determina que o acionista tem direito de receber como dividendo obrigatório, em cada exercício, a parcela de lucros estabelecida no estatuto. Se a previsão for de, por exemplo, 25%, é esse o montante que será distribuído. O restante será mantido em reserva da SAF.

2. E se o estatuto for omisso?

Aponta-se, em primeiro lugar, que essa omissão é de rara ocorrência, justamente porque cria uma situação de imprevisibilidade, pouco desejada por quem destina recursos para aquisição de ações. O investidor, antes de adquiri-las, verifica a situação da companhia, suas perspectivas de crescimento e retorno, e sua capacidade de gerar excedentes e distribuir dividendos. Como ele é livre para investir onde quiser, se compra é porque vê boas perspectivas ou oportunidades, mesmo que, eventualmente, não se trate expressamente do montante mínimo a distribuir anualmente.

Mas, caso uma companhia deixe de definir o dividendo obrigatório, o mesmo art. 202 estabelece critérios que devem ser observados, a fim de que não se prive o acionista de algum retorno.

Funciona, resumindo, da seguinte forma: apura-se o dividendo mínimo pelo cálculo de metade do lucro líquido do exercício, diminuído ou acrescido dos seguintes valores: (a) importância destinada à constituição da reserva legal; e (b) importância destinada à formação da reserva para contingências e reversão da mesma reserva formada em exercícios anteriores.

3. Podem os acionistas de companhia cujo estatuto seja omisso reformá-lo para introduzir norma sobre a matéria?

Sim. Mas, nestes casos, a Lei 6.404/76 impõe um piso, para evitar que o acionista controlador defina percentual desprezível. De modo que a reforma não poderá contemplar número inferior a 25%. Note-se que a lei reconhece a importância do dividendo, que é, aliás, um direito essencial do acionista, mas, por outro lado, assume que nem todo lucro deve necessariamente ser distribuído, pois pode comprometer os planos empresariais ou, no limite, abalar a liquidez da companhia.

4. O que se pretende tutelar com esse conjunto de normas?

Tutela-se o direito do acionista, não controlador, ao recebimento de dividendo. De algum dividendo. Ou seja, aquele previsto no estatuto ou, se omisso, indicado na Lei 6.404/76. Por outro lado, inibe conduta do acionista controlador que, por algum motivo, queira preservar todos os recursos em caixa. Para o bem da companhia ou, em situações patológicas, para o seu proveito.

5. Qual a destinação dos lucros que excedam o dividendo obrigatório?

A destinação será aquela deliberada pela assembleia geral dos acionistas. A deliberação será tomada por maioria. Caso não se distribua o excesso, o lucro será destinado a reservas, e os recursos correspondentes reforçarão o caixa da companhia.

6. Muito bem. E como fica a SAF diante dessas normas?

Primeiro, esse conjunto normativo complementa o PL 5.082/16, por determinação de seu art. 2º, de modo que se aplicam igualmente à SAF, impondo, assim, um útil e necessário sistema de controle de decisões.

Segundo, ao constituir a SAF, o clube definirá, em seu estatuto, o dividendo obrigatório. Caso defina, por exemplo, 15%, esse será, necessariamente, o montante a ser distribuído. Eventuais modificações deverão observar o PL 5.082/16, a Lei 6.404/76 e o estatuto da SAF, e todos os seus procedimentos, evitando decisões apressadas e populistas, ou abusivas por parte de algum agente.

Terceiro, se em algum exercício social o dividendo obrigatório se mostrar incompatível com a situação financeira da SAF, seus administradores darão notícia à assembleia geral, para deliberação a favor ou contra a proposta de pagamento.

Quarto, e voltando para uma situação de normalidade financeira, pode um acionista minoritário, com propósitos puramente especulativos e imediatistas, sem qualquer vinculação com o time, exigir o pagamento de dividendos superiores ao obrigatório, afetando a situação financeira da SAF? Ele pode, sim, sugerir, mas exigir, não. E caso o tema vá para deliberação, prevalecerá a posição da maioria. Se o clube detiver a maioria, a deliberação não se toma sem a sua vontade.

Quinto, podem surgir divergências entre clube e investidores, ambos atuando como acionistas? Claro que sim, da mesma forma que surgem em outras companhias, com objetos sociais diferentes. E como se resolvem? Como regra, pela deliberação da maioria. Se o clube detiver a maioria, irá nortear o resultado da deliberação. Se for acionista minoritário, haverá de se sujeitar à decisão majoritária (exceto em relação às matérias que, conforme o PL 5.082/16, ele dispuser de poder de veto).

Sexto, mesmo que surjam conflitos entre acionistas, os órgãos de administração da SAF – que se desdobram em conselho de administração, cuja metade dos membros menos um, pelo menos, deve ser independente, e a diretoria, que deve ser profissional – saberão lidar com a situação e arbitrar no interesse da sociedade, e não de um ou outro acionista. O modelo obrigatório de governança da SAF fortalece a posição dos administradores e sua conduta no interesse social.

Sétimo, caso o acionista controlador da SAF, seja ele o clube ou um investidor, pratique atos com abuso de poder, como o de orientar a SAF a fim estranho ao seu objeto social, ou induzir ou tentar induzir administrador a praticar ato ilegal, responderá pelos danos causados.

Oitavo, os administradores que agirem, mesmo que dentro de suas atribuições ou poderes, com culpa ou dolo, ou com violação da lei ou do estatuto, respondem civilmente pelos seus atos.

Essa estrutura traz a gestão do futebol para um plano que, além de não colidir com a tradição do futebol, o protege – ou criar instrumentos para protegê-lo – de atuações oportunistas, interessadas e amadorísticas.

7. Para concluir essas breves reflexões, como ficam os torcedores caso o clube constitua uma SAF?

Ficam exatamente como estão.

Assim como também ficaram os torcedores de Bayern, PSG, Sporting, Arsenal, Juventus, Roma, Milionários, Colo-Colo e dezenas de outros que romperam com o dogma da relação futebol/amadorismo.

Ou, espera-se, ficarão em melhor posição, pois as decisões da SAF serão pautadas não apenas pela concepção imediatista do lucro, mas, também, pela necessidade de aproximação de seu público torcedor/consumidor. E quanto mais lucro gerar, maior será a capacidade investimento e atração de novos recursos, e maior será, provavelmente, o envolvimento do torcedor. E mais intensa será sua paixão.

Aliás, o debate a respeito do modelo de futebol para o Brasil deve evoluir. Insistir no dogma de que o futebol é paixão, e a empresa razão, e, portanto, realidades inconciliáveis, não é correto. Talvez seja, até, desonesto. Como se cartolas amadores não negociassem jogadores, em momentos críticos ou às vésperas de situações importantes, em troca de lucro. Como se, alguns deles, não tomassem decisões que desestabilizam o ambiente de trabalho em defesa de interesses políticos ou pessoais. Como se fossem, todos, guardiões de uma relíquia nacional.

O lucro não é incompatível com um modelo vencedor de futebol. O reconhecimento da natureza econômica da atividade futebolística não abala os alicerces do esporte. Decisões empresariais podem desagradar, em certos momentos e certas circunstâncias, parte dos torcedores; e, em muitos outros, agradá-los. Faz parte do jogo. Importa que tenha regras claras e se sujeite a uma regulação arquitetada para permitir sua evolução.

Ignorar essas proposições e manter o discurso da preservação de uma raiz arcaica significa negar as irreversíveis tendências mundiais e afundar o país, cada vez mais, no modelo amadorístico que o está transformando em mero exportador de commodity.

*Publicado originalmente no sítio “MIGALHAS“.



Houston, temos um problema!
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Juca Kfouri

O  nome do problema foi Messi.

Lionel Messi!


Aos 3 minutos ele pôs a bola na cabeça de Lavezzi e a Argentina fez 1 a 0 na semifinal da Copa América.

A seleção dos Estados Unidos ainda não tinha visto a bola.


Continuou a não vê-la até que, aos 33, o melhor jogador do mundo bateu uma falta pela esquerda, quase da intermediária, na forquilha direita da meta ianque: 2 a 0.

Foi com o pé, foi com a mão?

Não, foi com a cabeça genial de Messi.

O 55º gol dele com a camisa da seleção, maior goleador da história dos bicampeões mundiais.


O estádio de Houston, no Texas, com 71 mil torcedores, dançava ao som do tango moderno, o de Astor Piazzolla, embora, você sabe, Carlos Gardel cante cada vez melhor.

Tango que continuou alto e bom som logo aos 3 minutos do segundo tempo, com gol de Higuaín.

E que acabou com passe de Messi para Higuaín fazer 4 a 0.

No domingo, mais uma decisão para os hermanos, que foram vices-campeões na última Copa América, ao perdê-la, nos pênaltis, para o Chile, e na última Copa do Mundo, derrotada, na prorrogação, pela Alemanha: enfrentarão o Chile ou a Colômbia que decidem, hoje à noite, o outro finalista.

A Argentina ganhou os cinco jogos que disputou.

Chile ou Colômbia, o problema deixa de ser de Houston que pedirá a NASA a fórmula para parar “La Pulga” Lionel Messi.

Comentário para o Jornal da CBN desta quarta-feira, 22 de junho de 2016, que você ouve aqui.


Pedra cantada
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Juca Kfouri

Assim que o Brasil ganhou dos Estados Unidos o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2016, com o Rio de Janeiro de Sérgio Cabral Filho superando a Chicago de Barack Obama, aqui foi dito que as duas extraordinárias vitórias do então presidente Lula corriam o risco de se transformar em tiros pela culatra.

A megalomania prevalecera na busca de um lugar para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU e sediar os dois maiores megaeventos do planeta seria o gol a ser atingido com a “Copa das Copas” e a melhor Olimpíada de todos os tempos.

Não havia como deixar de ser cético, com ambos os projetos liderados por Ricardo Teixeira e Carlos Nuzman. Não deu outra.

Pagamos o preço de ter feito uma Copa do Mundo recheada de promessas descumpridas e uma manada de elefantes brancos, embora, sem dúvida, o mundo tenha aprovado a Copa.

Que um dia a organização da Olimpíada enfiaria a faca nas costas da viúva era mais que certo.

O dia chegou, a menos de dois meses da Rio-16, igual ao que aconteceu no Pan-2007. Era óbvio e não precisava ser adivinho para prever.

Afinal, Nuzman e Cabral eram elementos comuns ao Pan e aos Jogos, acrescidos de seguidores do governador como o “experto” Eduardo Paes.

A tática é velha: ou jorra dinheiro público para terminar o que foi mal começado ou o país passará por um vexame internacional. O sonho do assento na ONU vira vaga na terceira divisão mundial.

Que venham as obras emergenciais, as licitações postas a escanteio, o batido dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-em que o dó é a dó de nós mesmos, quase de Odebrechet, e o si é da Cyrela.

Enfim, é como já foi dito: a Olimpíada é uma ótima oportunidade para um país fazer propaganda de si mesmo. Com o risco de fazer um mau anúncio. O que veremos?

Para Barcelona-1992 foi muito bom.

Para Atenas-2004, muito ruim.

(Publicado originalmente na “Folha de S.Paulo” em 20/6/2016)



Após remoções para Transolímpica, Prefeitura do Rio descumpre acordo e deixa moradores endividados
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Juca Kfouri

Foto: Ricardo Cassiano/Prefeitura do Rio de Janeiro

Moradores da zona oeste reassentados no Minha Casa, Minha Vida estão recebendo cobranças indevidas do Banco do Brasil, o que gera insegurança e medo; alguns estão com nome sujo no SPC

POR JESSICA MOTA , da Agência Pública.

Quando foram removidos à força por causa da construção da Transolímpica, os ex-moradores da rua Ipadu, da comunidade São Sebastião e da Vila União de Curicica – comunidades da zona oeste do Rio –, não tiveram muitas opções. As remoções começaram em 2014 e as mudanças para o residencial ocorreram no começo de 2015. Alguns receberam a oferta de uma indenização que não lhes possibilitaria comprar um imóvel na região, mas a maioria aceitou sair da sua casa em troca de um apartamento num dos condomínios construídos pelo programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, administrado pela prefeitura.

“Na hora de desapropriar, eles prometeram que iam pagar, mas nosso problema foi que eles [os representantes da Prefeitura] não deram nada por escrito”, conta Jorge Valdevino, representante do Condomínio Colônia Juliano Moreira, para onde os moradores foram realocados. Até a publicação desta matéria, a Secretaria de Habitação da Prefeitura do Rio não havia informado quantas pessoas foram reassentadas naquele residencial.

O processo de remoção, com a notificação dos moradores, começou em 2013 para dar lugar à via Transolímpica, considerada um dos legados dos Jogos Olímpicos no Brasil. Formada por duas pistas de três faixas, sendo uma exclusiva para o BRT – Bus Rapid Transport –, a via irá conectar os bairros Deodoro e Barra da Tijuca, na zona oeste. Quem administra a via é o Consórcio Via Rio, composto pela CCR, Odebrecht e Invepar. Em contrato com a Prefeitura, o consórcio ficou responsável pelo cadastro das famílias a serem removidas, pela demolição das casas e pela mudança dos moradores.

À esquerda, pista elevada da via Transolímpica, que corta o bairro de Curicica, região de Jacarepaguá (Foto: Jessica Mota/Agência Pública)

A Pública esteve no Colônia e entrevistou 17 moradores de diferentes blocos do condomínio. Todos relatam a mesma situação: depois de mais de um ano morando ali, até hoje não têm cópia dos contratos dos apartamentos. Além disso, há cerca de seis meses, alguns moradores começaram a receber cartas de cobrança do Banco do Brasil, que financiou a construção do condomínio, avisando que têm uma dívida de R$ 75 mil.

“A carta nem veio para cá, foi lá pra onde eu morava, e minha mãe me entregou. A carta era no valor de R$ 75 mil. A última vez que eu puxei o SPC, [a dívida] estava em R$ 69 e alguma coisa”, conta Ozineide Pereira da Silva, 30 anos, manicure, sobre cadastro no Serviço de Proteção de Crédito (SPC).

“A gente assinou o contrato e foi na Prefeitura. O banco foi, foi um carro-forte, todos os envelopes, tudo bonitinho. Estava tudo lacrado, abriram na nossa frente. A gente assinou um montão de folha, muita folha, mas eles não deram nenhuma via para a gente”, lembra. Ela morava com os três filhos, a avó (que é deficiente física), a mãe, a irmã e quatro sobrinhos em um cômodo na ocupação que existia na rua Ipadu, em uma antiga fábrica de lenços. Com a remoção, a mãe e a irmã tiveram de “caçar um canto”, como ela conta. Hoje mora com os três filhos e a avó, de quem cuida, em um apartamento de dois quartos. Para Ozineide, que morava no galpão de uma fábrica abandonada, o novo apartamento foi muito bom. “O único medo que a gente tem é devido o banco ter botado o nosso nome no SPC e medo de, sei lá… Depois o governo muda… Eu não tenho nada que diga que isso aqui é meu”, preocupa-se ela.

A única documentação que alguns moradores receberam foram cópias de modelos de contrato do Minha Casa, Minha Vida, sem informações. Foto: Jessica Mota/Agência Pública

Já Antônio Zacarias da Silva, 40, mora com a filha e a esposa. Recebeu duas cartas do Banco do Brasil, com a cobrança de R$ 70 mil. “Eu não sei o que diz a carta porque eu não sei ler. Quem sabe ler é minha esposa”, conta. Sem informações, Antônio interpreta os avisos de cobrança como cartas de despejo. “Vai ter que desocupar o apartamento”, acredita. Ele morava na ocupação da rua Ipadu e trabalha carregando entulhos e fazendo mudanças com sua carroça e seu cavalo, o Xuxa.

Creuza da Silveira e a mãe, Conceição de Oliveira, também moravam na ocupação da rua Ipadu. Creuza é analfabeta e recebeu as cartas de cobrança no valor de R$ 76 mil. Quem sabe ler é o filho. “Meu nome está sujo, vem escrito na carta, com meu CPF.” A única documentação que entregaram a ela foi uma cópia genérica de um contrato do Minha Casa, Minha Vida em que, no lugar do nome e dos valores, consta uma sequência de xis e campos em branco.

Creuza da Silveira e a mãe, Conceição de Oliveira. Foto: Jessica Mota/Agência Pública

Elaine Santos, 34, ex-moradora da rua Ipadu, não recebeu cartas de cobrança, mas já se sente afetada pelo clima de incertezas. “Nem leite estou produzindo mais porque estou me estressando tanto. Nem leite”, fala a mãe de cinco filhos, entre eles um bebê de menos de um mês. “Não vou mentir que era bonito, era feio. Mas lá era sossego. Era da gente. E aqui ninguém tem documento, e vem esse boato que querem tirar… Como a gente vai provar que aqui é nosso?” Ela conta que assinou o contrato, mas também não recebeu nenhuma cópia da Prefeitura.

Após as primeiras entrevistas no Condomínio Colônia Juliano Moreira, a reportagem da Pública foi procurada por diversos moradores, que confirmaram o clima de medo, insegurança e indignação, por causa da situação. Muitos temem perder a casa porque não têm como provar que são donos dos apartamentos.

Isabela Cristina Oliveira Santos, de 22 anos, diz que sua irmã tentou registrar a comprovação de assinatura do contrato. “Minha irmã assinou e não pôde tirar foto, porque falaram que ela tinha que esperar. Nisso de esperar, o nome dela está sujo.” Já Isabela não assinou nenhum contrato até hoje, mesmo tendo entregado a documentação necessária à Prefeitura, segundo relata. “A gente está aguardando para ver que dia a gente vai poder assinar o papel do Banco do Brasil. Quando eu puxei no Serasa, não acusou nada. A gente liga quase todos os dias para a Prefeitura. Dizem que tem que aguardar porque a documentação está toda com o banco. Nunca informam nada para a gente.”

Isabela Santos e seu marido, Gil Mário Antonio. Foto: Jessica Mota/Agência Pública

Giselle Murad da Silva, de 22 anos, professora, só descobriu que o nome estava sujo quando foi prestar um concurso público. Ela morava com a mãe, Sandra Murad da Silva, 47 anos, na Vila União de Curicica, em uma casa com quintal, copa, sala, quartos e terraço. Sandra era moradora da Vila União havia 27 anos, até a chegada da Transolímpica. Como outros moradores do Condomínio Colônia Juliano Moreira, o único documento referente ao apartamento que ela possui é um modelo de contrato não assinado e com espaços em branco.

“Foi tudo feito pela Prefeitura com o Banco do Brasil. E ela recebe direto e-mail, a gente recebe carta cobrando, dizendo que a gente deve R$ 75 mil ao Banco do Brasil. Mas a gente não deve nada, nós trocamos chave por chave!”, indigna-se Sandra. Giselle reclama do assédio do banco. “Me ligam, me mandam mensagens no celular, tenho diversas mensagens do Banco do Brasil dizendo que é para eu regularizar meu débito. Mas eu não tenho débito no Banco do Brasil. Nem conta no Banco do Brasil eu tenho.”

Giselle Rodrigues tem sido assediada pelo Banco do Brasil para quitar uma dívida que não é sua. Foto: Jessica Mota/Agência Pública

O vizinho delas, que também morava ao lado na Vila União, comunidade removida para a Olimpíada, José Pereira Filho, 52 anos, sofre com o mesmo problema e se diz decepcionado. “Já fui mais de 20 vezes na Subprefeitura [da Barra e Jacarepaguá]. Fui esquecido, só eles têm minha documentação. Eles não me deram papel nenhum. Eu acreditei na palavra da Prefeitura”, conta.

Na Vila União, além da casa em que morava com a mulher e o filho, José mantinha uma oficina mecânica de forma autônoma. Ele também diz que não foi indenizado pela oficina, perdeu diversas ferramentas e equipamentos mecânicos e hoje está desempregado. “Nós assinamos um monte de documento coletivamente, não tinha tempo hábil para ninguém ler. O prefeito [Eduardo Paes] prometeu que era troca de chaves, que a gente estaria com o apartamento quitado, que receberíamos uma escritura provisória e depois de dez anos viria a definitiva. O que a gente recebeu foi a cobrança integral do valor do Banco do Brasil, como se nós tivéssemos comprado o apartamento.”

De acordo com Paulo Magalhães, sociólogo e ex-consultor da vice-presidência da Caixa Econômica Federal, esta é responsável pela maior parte dos condomínios do programa Minha Casa, Minha Vida. “[No Colônia] foi feito pelo Banco do Brasil, mas o procedimento é o mesmo. Só que o Banco do Brasil não tem a mesma experiência burocrática, de trâmites de documentação.”

Em contratos regulares do programa de habitação, as pessoas pagam parcelas subsidiadas e, depois de cinco anos, recebem a titularidade definitiva do apartamento. No caso daquelas que foram reassentadas pela Prefeitura do Rio na modalidade “chave por chave” – perderam suas casas, que seriam demolidas em troca de moradia pelo Minha Casa, Minha Vida –, a obrigação de quitar as parcelas é da Prefeitura. A dívida dos moradores não deveria existir. “Se a sua casa foi destruída, você não paga. Evidentemente, essa é uma operação financeira cruzada. Alguém tem que pagar”, explica Paulo Magalhães.

“Em tese, quando as pessoas vão ocupar o imóvel, quando vão receber as chaves, assinam um contrato. Esse contrato é fundamental porque, mesmo que você não tenha o título da propriedade, o contrato é a sua garantia”, diz Magalhães. Esse contrato deveria estar nomeado e assinado pelo banco, pela Prefeitura e pelo morador.

Procurado pela Pública para esclarecer a situação, o Banco do Brasil negou-se a dar entrevistas e respondeu que “cumpriu todas as suas obrigações até o momento e aguarda do ente público a regularização da situação”. O banco não respondeu aos questionamentos da Pública sobre não ter entregado cópias dos contratos aos moradores.

A Secretaria de Habitação da Prefeitura do Rio de Janeiro afirmou, em nota, que o imbróglio se deu por um atraso do banco na liberação das informações das prestações dos contratos. A secretaria diz que “o pagamento das prestações dos imóveis das famílias reassentadas no Condomínio Colônia Juliano Moreira está sendo regularizado”. Após “entendimentos” entre o Banco do Brasil e o órgão público, a informação é que “a questão está equacionada para que o repasse seja realizado”.

A secretaria informa que a documentação será entregue após registro em cartório, mas não respondeu quando isso acontecerá.

* Colaborou Beth McLoughlin.

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Memória: Tite assinou o manifesto por uma nova CBF
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Juca Kfouri

Em dezembro do ano passado mais de uma centena de personalidades ligadas e não ligadas diretamente ao futebol assinaram um manifesto duro que exigia a democratização da CBF e a renúncia de Marco Polo Del Nero. 


Tite está entre os signatários, como é possível constatar abaixo:
“Brasil, dezembro de 2015

A Confederação Brasileira de Futebol vive a maior crise de sua história.

Seus últimos três presidentes são réus em investigação policial internacional por fraude na CBF e na FIFA. José Maria Marin está preso desde maio, Ricardo Teixeira e Marco Polo Del Nero estão indiciados pela Justiça dos EUA desde o dia 3 de dezembro.

Compreendemos que a sucessão determinada por um estatuto viciado, que foi arquitetado e aperfeiçoado para a manutenção do poder nas mãos dessa mesma linhagem, é ilegítima e imoral.

Exigimos a renúncia definitiva de Marco Polo Del Nero e sua diretoria, seguida da convocação de eleições livres e democráticas para o comando da CBF, sem a atual cláusula de barreira, mecanismo que impede a aparição de posições independentes ao sistema vigente, pois exige oito assinaturas de federações e mais cinco de clubes para candidaturas.

A crise de corrupção é a face mais vísivel de um profundo problema estrutural, que travou o desenvolvimento do futebol brasileiro em todas as suas dimensões.

Conclamamos a Procuradoria Geral da República, a Polícia Federal e a Receita Federal a não deixar impunes quem corrompeu ou quer continuar a corromper o futebol pentacampeão mundial.

Aos clubes e federações, pedimos que se paute e vote a alteração de pontos estatutários necessários para a democratização e desenvolvimento de nossa maior paixão, inexorável e sem volta.

De nossa parte, signatários deste manifesto, acreditamos que, caso as mudanças sejam iniciadas, os novos mandatários da CBF, juntamente com os muitos personagens capacitados e honrados da comunidade do futebol saberão criar as condições para a reconstrução da credibilidade, confiança e retomada do protagonismo esportivo do futebol brasileiro, de seus jogadores, da alegria do jogo e, principalmente, dos torcedores”.

Abílio Diniz -Empresário

Alberto Helena Jr.- Jornalista Esportivo

Alcides Scaglia- Doutor em Pedagogia do Esporte

Alex SouzaEx-Jogador, Comentarista e Líder do Bom Senso FC

Amir Somoggi- Consultor de Marketing

Ana Lorena MarchePesquisadora do Futebol – Universidade do Futebol

Ana Moser- Ex-Atleta e Presidente da Atletas pelo Brasil

Anderson-Jogador de Futsal

André Kfouri-Jornalista Esportivo

André Veras-Ex-Atleta e Membro da Atletas pelo Brasil

Antero Greco-Jornalista Esportivo

Antônio Carlos Almeida Braga – Braguinha-Empresário

Antonio Prata-Escritor

Bernardinho- Treinador de Vôlei e Membro da Atletas pelo Brasil

Bernardo Borges Buarque de Hollanda- Pesquisador e Sociólogo

Bob FernandesJornalista

BruninhoJogador de Vôlei

Bruno GagliassoAtor

Carlinhos NevesPreparador Físico

Carlos Alberto VieiraEmpresário

Carlos BonowAtor

Carlos Moreira Jr.Diretor Executivo do Twitter

Carlos Roberto Jamil CuryPesquisador do CNPq

Celso GrelletExecutivo de Marketing

Celso Loducca Publicitário

Chico BuarqueCompositor e Escritor

Claudio ManoelHumorista

Claudio Weber AbramoEx-Diretor Executivo e atual Conselheiro Transparência Brasil

Dan StulbachAtor e Apresentador

Daniel BortoletoJornalista

Daniela CastroDiretora Executiva da Atletas pelo Brasil

DidaJogador e Líder do Bom Senso FC

Domingos MeirellesJornalista e Presidente da Associação Brasileira de Imprensa

Dorival Jr.Treinador

Eduardo Conde TegaCEO da Universidade do Futebol

Eduardo TironiJornalista Esportivo

Enrico AmbroginiDiretor Executivo Bom Senso FC

FalcãoJogador de Futsal

FaustãoApresentador

Fernando A FleuryProfessor e Consultor de Marketing Esportivo

Fernando BaptistaDiretor Jurídico Bom Senso FC

Fernando CalazansJornalista

Fernando MeligeniEx-Tenista e Apresentador

Fernando PrassJogador e Líder do Bom Senso FC

Gilberto SilvaEx-Jogador e Líder do Bom Senso FC

Gregorio DuvivierHumorista

Guilherme GomesJornalista

Hélio de la PeñaHumorista

Helio Paulo FerrazEx-Presidente do Flamengo

Heloísa ReisSocióloga

Ivo HerzogDiretor do Instituto Vladimir Herzog

Jô SoaresApresentador, Escritor e Diretor

João Batista FreireDoutor em Pedagogia do Esporte

João Carlos AssumpçãoJornalista Esportivo

João PalominoJornalista Esportivo

João Paulo DinizEmpresário

João Paulo MedinaPresidente da Universidade do Futebol

José Luis PortellaCoordenador do Estatuto do Torcedor e Colunista Lance!

José PadilhaCineasta

José Paulo CavalcantiAdvogado

José Roberto ToreroCineasta

José TrajanoJornalista Esportivo

JuanJogador e Líder do Bom Senso FC

Juan Pablo SorínEx-Jogador e Comentarista

Juca KfouriJornalista

Julio ZaguiniDiretor do Google Brasil

Kelly SantosEx-Atleta e Membro da Atletas pelo Brasil

Larissa GalattiPesquisadora em Esporte

Leo PasqualiEx-Atleta e Membro da Atletas pelo Brasil

Leonardo SakamotoJornalista

Lino Castellani Doutor em Educação

Luciano HuckApresentador

Lucio FlávioJogador e Líder do Bom Senso FC

Luis Fernando VerissimoEscritor

Luiz Antônio Almeida BragaEmpresário

Luiz Fernando GomesEditor chefe do Lance!

Magic PaulaEx-Atleta e Membro da Atletas pelo Brasil

Marcelo LombaJogador e Líder do Bom Senso FC

Marcelo TasApresentador

Marcos JoaquimAdvogado

Mariliz Pereira JorgeColunista

Matinas SuzukiJornalista

MauricioEx-Atleta e Membro da Atletas pelo Brasil

Mauro BetingJornalista Esportivo

Mauro Cezar PereiraJornalista Esportivo

Nelson AertsEx-Atleta e Diretor da Atletas pelo Brasil

Oscar MagriniAtor

Patricia MedradoEx-Atleta e Diretor da Atletas pelo Brasil

Paulo AndréJogador e Líder do Bom Senso FC

Paulo AutuoriTreinador

Paulo CalçadeJornalista Esportivo

Pedro DanielProfissional de Gestão Esportiva

Pelé

Priscila UlbrichMarketing e Comunicação

PVCJornalista Esportivo

RaíEx-Jogador e Diretor da Atletas pelo Brasil

Renê SimõesTreinador

Ricardo BernaJogador e Líder do Bom Senso FC

Ricardo Borges MartinsDiretor Executivo Bom Senso FC

Ricardo Gomes Treinador Botafogo

Roberto AssafJornalista

Roberto BragaPedagogo do Esporte – Universidade do Futebol

Roberto VolpatoJogador e Líder do Bom Senso FC

Rodolfo MohrDiretor de Comunicação Bom Senso FC

Rodrigo CaetanoExecutivo de Futebol

Rogério Ceni Ex-jogador

Roque JuniorTreinador

Serginho (Escadinha) Jogador de Vôlei

Silvio MeiraPesquisador

Thiago LacerdaAtor

Tiago SpliterJogador Basquete

Tite-Treinador

Toni PlatãoMúsico

TostãoColunista e Ex-Jogador

Ugo GiorgettiCineasta

Vagner ManciniTreinador

ViniciusJogador de Futsal

Vladir LemosJornalista Esportivo

Wagner MouraAtor

Waldomiro Ferreira NetoEditor de produção e Colunista do Lance!

Walter de Mattos JuniorFundador e editor do Lance!

Walter Salles Cineasta

Washington OlivettoPublicitário

Zé MarioPresidente da FBTF

ZicoEx-Jogador e Treinador

Zuza Homem de MelloMusicólogo e Jornalista


Brinquedos
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para o Roberto Vieira

No filme Toy Story 3 o menino descarta seus brinquedos. Já está crescido. Não brinca mais com eles.

O contrário se dá conosco no futebol.

Os jogadores é que nos abandonam quando crescemos.

Já não ligam mais para nós. Jogam para outros olhos, mais novos, brilhantes, sedentos.

Deixam-nos num tipo de sótão ou caixa ou prateleira, vendo ou só ouvindo ou só intuindo o que eles fazem.

Ficamos ali, quietos, querendo que de novo eles nos encantem, que eles de novo joguem somente para nós.

Mas não.

É para os outros que eles agora brilham e para sempre brilharão.

Adultos, velhos, temos que nos conformar com outras distrações sem nenhuma graça.

De longe acompanhamos o calor, a fantasia e a felicidade das crianças e jovens torcendo e descobrindo o mundo com os nossos antigos brinquedos – quer dizer, jogadores –, que desempenham o seu máximo para eles.

No final do filme, o ex-garoto, agora rapaz, dá os brinquedos para outra criança, brinca uma última vez com eles, mostra a ela como eles são fantásticos.

Ao menos isso, antes de mudarem de olhos e almas, os jogadores poderiam fazer conosco quando crescemos: uma última apresentação, um último brilho, uma última fantasia – só para nos dar a derradeira ilusão do quanto um dia isso tudo, para nós, foi fantástico.

Mas não. Simplesmente nos descartam.
___________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).



As conexões brasileiras do “Senhor dos Anéis”
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Juca Kfouri

Conheça Sead Dizdarevic, o empresário croata que traz na bagagem histórias de corrupção e negócios lucrativos à sombra das Olimpíadas

LÚCIO DE CASTRO para a Agência Pública
http://goo.gl/hVWXgK

O “Senhor dos Anéis” está chegando, cercado por histórias de corrupção, compra de votos e milionários negócios à sombra do mundo olímpico. Quem quiser saber como funciona o lado B das Olimpíadas, as conexões brasileiras, o esquema de venda de ingressos, ou entender a razão das dificuldades para conseguir um bom lugar para ver as competições, guarde bem este nome: Sead Dizdarevic.
É o todo-poderoso que detém a chave das melhores relações com o Comitê Olímpico Internacional (COI) e com o Comitê Organizador Rio 2016 (CoRio); o dono da Jet Set Sports e da CoSport; personagem-chave por trás de um dos maiores negócios que envolvem o esporte brasileiro: a Tamoyo Internacional, que, detentora do monopólio da venda dos milionários pacotes de hospitalidade que negociam os combos de ingresso/hospedagem da Olimpíada no Brasil, foi a agência oficial do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) desde a ascensão de Carlos Arthur Nuzman à presidência até 2012, e parceira em contrato de passagens do CoRio, que tem o mesmo Nuzman na presidência. É a agência responsável pelas milionárias transações das vendas de passagens aéreas para boa parte das confederações esportivas nacionais, turbinadas por verba pública vinda das leis de incentivo e convênios com o Ministério do Esporte.
Muitos dos nomes de pessoas físicas e jurídicas que você vai ler aqui como a parte da conexão nacional de Dizdarevic são personagens em comum de outro rumoroso enredo do esporte nacional, encontráveis no “Relatório de Auditoria 201407834” da Controladoria-Geral da União (CGU), que auditou a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV). São peças importantes da engrenagem mostrada na série de reportagens “Dossiê Vôlei”, que, publicada em 2014-2015 na ESPN, gerou a investigação da CGU.
A “trilha interna”


Sead Dizdarevic, proprietário da Jet Set Sports e da CoSport (Foto: Divulgação)

Comecemos pelo topo. Sead Dizdarevic vai desembarcar por aqui discretamente e longe dos holofotes, como faz desde sua primeira visita ao Rio de Janeiro, em 2009, ano em que a cidade foi escolhida para ser sede olímpica dali a sete anos e em que começou o súbito interesse pelo Brasil desse croata naturalizado americano, 65 anos. De lá para cá, esteve aqui 13 vezes, geralmente a bordo de seu jato particular. A cada dois anos é assim: viaja várias vezes aos locais das Olimpíadas de inverno ou de verão. E sai com milhões de dólares a mais na conta – amparado nas relações locais, em cartolas e em comitês.
A porta de entrada de Dizdarevic no mundo olímpico é uma típica história que comprova o ditado segundo o qual a ocasião faz o cidadão. A pequena agência de viagens com a qual tentava construir o sonho americano em Staten Island, condado mais esquecido de Nova York, atendia preferencialmente os compatriotas imigrantes da então Iugoslávia. A vitória de Sarajevo como local dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1984 foi o salto. Com um pé nos Estados Unidos e a raiz na terra natal, movia-se com desenvoltura entre os dois mundos, abrindo caminho para conquistar um terceiro muito maior e com possibilidades infinitas: o universo olímpico. Era 1984, antes da queda do Muro, com uma Cortina de Ferro burocrática separando os eventuais visitantes. Foi nessa fresta que Dizdarevic conquistou seus primeiros punhados de dólares, sendo a ponte entre esse turista olímpico e o outro lado da Cortina. Oferecer hospedagem, ingressos, desenrolar burocracias, ligar as partes, estava tudo no seu pacote.
Os jogos de inverno e verão ainda eram no mesmo ano. Em 1994, já com uma agenda de contatos olímpicos enriquecida, Dizdarevic deu um salto mais alto. Na pequena cidade norueguesa de Lillehammer, sem quartos suficientes para a família olímpica, ousou fazer um hotel temporário. Já estava com os dois pés naquele mundo fechado, comandado então por Juan Antonio Samaranch.
Em 1996, só uma força muito poderosa poderia destronar Atenas da condição de anfitriã no ano em que os jogos completavam 100 anos. Nos bastidores olímpicos, corria a lenda de que Dizdarevic foi uma dessas forças, um dos pesos fundamentais no prato americano. A lenda se confirmou quando o Seattle Times entrou com pedido na Justiça americana e conquistou o direito de quebrar o sigilo do processo sobre subornos olímpicos em que Dizdarevic era um dos protagonistas. Entre os papéis arquivados no processo, estavam as pegadas dele, atestadas em um memorando de Bill Payne, com data de 1988, apreendido nas investigações, em que o líder da candidatura de Atlanta indicava a necessidade de aliança com o homem da Jet Set. “Ele tem sido muitas vezes altamente recomendado para nós como alguém que tem a trilha interna. E também conhece e tem amizades com muitos membros do Comitê Olímpico Internacional (COI).”
O processo mostra mais, segundo o Seattle Times. Antes da votação, enquanto o mundo e mesmo os mais informados sobre os labirintos do COI davam Atenas como barbada, Dizdarevic garantiu com todas as letras a Payne que Atlanta seria vencedora. Sua palavra era respaldada: entregou uma lista a Payne com o nome dos candidatos que poderia influenciar. Pouco tempo depois, o mundo inteiro se surpreendeu com a maior zebra da história dos conclaves olímpicos: Atlanta tinha derrubado a mais do que favorita Atenas, em eleição realizada em Tóquio, no ano de 1990. Certamente apenas um cidadão no mundo não se surpreendeu. Aquele que já tinha antecipado a fumaça branca para Bill Payne, o carmelengo olímpico – Sead Dizdarevic.
Para a sede americana, a conta de tão alto qualificado lobista veio ainda no mesmo ciclo olímpico. Em 1994, Payne anunciava que aprovara um acordo tripartite entre o Comitê Organizador Local (COL), o Comitê Olímpico Americano (USOC) e o Senhor dos Anéis: a Jet Set abocanhou a exclusividade dos pacotes de hospitalidade para patrocinadores dos jogos. Pelo acordo, 3% das vendas da empresa seriam a comissão do COL e do USOC, com saldo final de US$ 28 milhões para Dizdarevic e resíduo de US$ 844 mil para as outras duas partes.
Se a aprovação do acordo tinha sido de Bill Payne, a assinatura final foi do seu vice no COL, John Krimsky. Em 1995, um ano depois da assinatura do contrato entre Krimsky e Dizdarevic, este último compra, por US$ 225 mil, uma empresa ligada a membros do comitê local. A Cooperative Sports, pertencente à mulher de Krimsky. “Um esquema de propina clássico”, como está nos autos relatados pela reportagem do Seattle Times.
Vale a pena fixar o modus operandi de Dizdarevic: primeiro ajuda a amealhar votos para a vitória da sede olímpica; depois da vitória da nova sede, conquista a exclusividade para os pacotes de hospitalidade e compra uma empresa ligada aos dirigentes locais. Tão engenhoso quanto simples.

 

O esquema se repete

A traição a Atenas não impediu que Dizdarevic, quando esta por fim se saiu vencedora em 2004, tivesse lucros exorbitantes ali. Resolveu o problema de quartos para os mais abastados transformando luxuosos transatlânticos em hotéis de ocasião atracados no Pireu. Sempre casando habitação e ingressos. A cada edição, o Senhor dos Anéis tem com ele, mais do que qualquer outro mortal, um número maior de ingressos na mão e quartos bloqueados. Para pessoas físicas ou jurídicas. Sem distinguir regime de governo ou sistema político, é sempre o grande vencedor, compartilhando partes de seus lucros com locais, subornos e afins. Em Pequim 2008, pela estimativa da reportagem do Seattle Times, é que tenha tido em mãos 74 mil bilhetes; em Vancouver, no inverno de 2010, 63 mil ingressos.
Ainda mais relevante é a porcentagem dos melhores lugares, os bilhetes mais VIP. Em Sydney 2000, um escândalo que explodiu pouco antes da competição também tinha Dizdarevic como protagonista. Novamente aqui se tem um caminho seguro para entender o conhecido modus operandi do chefão olímpico: uma investigação do governo australiano mostrou que funcionários do Comitê Local tinham desviado ingressos para a Jet Sports e a CoSport. Os números impressionam e certamente frustram quem perdeu horas tentando comprar ingressos via internet, sem êxito, para as provas principais: dos 24 mil lugares considerados VIP nas principais competições, Dizdarevic e os seus tinham 20 mil tíquetes na mão. Também na sede australiana não fez por menos, fiel a seu modo de agir a cada edição: contratou para a Jet Set, com bom salário, a namorada de Phil Coles, homem com chaves importantes na organização de Sydney e membro do COI.
Jim Moriarty, advogado de Houston, Texas, contrariado com os problemas que teve ao virar turista para ver os Jogos de Pequim, resolveu litigar contra o homem da Jet Set, questionando o monopólio dos ingressos e pacotes. Nos autos, diz que o absoluto controle na mão de um só e seus parceiros de empreitada afeta diretamente o preço das entradas e a disponibilidade. Sua definição para a competição que será vista no Brasil em mais alguns dias é cortante, dando a dimensão de quanto o Rio será apenas a locadora de uma bela paisagem e sua população, apenas um elenco de apoio que paga a conta para alguns poucos desfrutarem: “Dizdarevic transformou os Jogos Olímpicos em um playground de ricos e poderosos”.

Segundo reportagem do Seattle Times, Dizdarevic foi um dos grandes responsáveis pela vitória da candidatura de Atlanta, que sediou a Olimpíada de 1996 (Foto: Flickr/Carful)

Em entrevista para esta reportagem, Moriarty dá bons caminhos para entender como alguns ingressos olímpicos são estabelecidos com preços relativamente baixos, mas depois somem e só são encontráveis em pacotes. “Há um conflito inerente relativo às vendas de ingressos para as Olimpíadas: o país anfitrião e o COI estipulam bilhetes baratos, mas a demanda por bons ingressos impulsiona o valor de mercado para o céu. Em Pequim, o “preço de tabela” para os melhores bilhetes para a cerimônia de abertura foi cerca de US$ 750, mas as pessoas estavam dispostas a pagar US$ 10 mil para bilhetes de menor qualidade. E Dizdarevic aprendeu há muito tempo como converter esse valor da diferença para pôr o dinheiro no bolso. Décadas atrás, ele aprendeu que, nas mãos gananciosas de pessoas que têm o poder para fornecer ingressos para a Olimpíada, o dinheiro iria gerar uma grande riqueza para ele e seus amigos”, afirma Moriarty.
Sem fazer nenhuma analogia fácil com o esporte, Dizdarevic invariavelmente nada de braçada a cada edição dos jogos, sem enfrentar maiores problemas, a despeito das práticas controversas. Um histórico que torna possível projetar que a Rio 2016 será um agradável passeio tropical para o milionário.

Salt Lake City

A exceção dessas águas sem tormentas ficou com Salt Lake City, em 2002 – o maior escândalo da história dos Jogos Olímpicos e do COI. Como sempre, Dizdarevic teve um lugar de protagonista em todas as tramas que vieram a ser reveladas. Como sempre, saiu ileso. E com posição mais forte no mundo olímpico. Depois de ter perdido o direito a sediar as competições de inverno duas vezes seguidas, a cidade que fica no estado de Utah resolveu tomar caminhos pouco ortodoxos. Mais uma vez, Dizdarevic entrava em cena. De acordo com os processos judiciais americanos descritos pelo Seattle Times, dois altos funcionários do COL de Salt Lake, David Johnson e Thomas Welch, recorreram ao Senhor dos Anéis para ajudar na compra dos votos em 1994, um ano antes da votação. Dizdarevic iniciou ali uma manobra para viabilizar a operação. Como consta nos autos, começa com uma série de saques rotineiros de US$ 10 mil, limite para não chamar atenção do Internal Revenue Service (IRS), o equivalente à Secretaria da Receita Federal brasileira. Assim como no Brasil, saques acima de determinado limite devem ser notificados à Receita Federal. O produto dos saques foi armazenando em um cofre, até que chegou a hora da distribuição. O próprio Dizdarevic assumiu em depoimento que entregava as quantias para suborno à dupla de dirigentes do COL. Quando o escândalo explodiu, Dizdarevic ficou como patriota. “Era meu dever. Sou um cidadão americano naturalizado, e esse é meu novo país”, na torta explicação publicada na imprensa para justificar sua participação. Já os membros do COL foram punidos com o desligamento. Marca de seu pragmatismo, Dizdarevic chegou a depor contra os dois antigos cúmplices com a promessa da Justiça de arquivar o seu caso. Livrou-se. Já contra os dois ficaram 15 denúncias de fraude e conspiração. Para salvar os jogos, assumiu o comando, como gestor, Mitt Romney, que acabou mais uma vez fortalecendo a posição de Sead no movimento olímpico e como vendedor exclusivo dos pacotes de hospitalidade de Salt Lake City.
Por e-mail, Moriarty confirma a versão sobre como Dizdarevic ganhou o selo de agente oficial do COI para comercializar os pacotes dos jogos ao entregar apenas alguns e preservar outros em delação premiada. “Inicialmente, esse comércio foi feito às escondidas, com propinas sob a mesa, mas, quando seu papel como o provedor do plano para trazer ilicitamente os Jogos Olímpicos para Salt Lake City foi descoberto por uma investigação criminal do governo dos Estados Unidos, Dizdarevic tornou-se testemunha para o governo. Ele jogou seus antigos parceiros ‘debaixo do ônibus’ ao fechar um acordo de delação premiada. Em seguida, com um flash de insight brilhante, negociou um acordo com o COI para se tornar o patrocinador de hospitalidade dos Jogos Olímpicos e, ao fazê-lo, legitimou o que tinha anteriormente sido feito com propinas e subornos. Ao controlar tanto a habitação quanto o melhor acesso a bilhetes, ele criou um monopólio de acesso significativo às Olimpíadas para quem não vive na comunidade anfitriã. Agora, quando os ricos e poderosos necessitam de bilhetes olímpicos, transporte VIP e quartos cinco-estrelas, eles chamam Sead e tudo está bem no mundo.”

Dizdarevic também teve papel chave na realização dos Jogos Olímpicos de inverno em Salt Lake City, nos EUA, em 2002 (Foto: Flickr/Spooky6)

Em fevereiro de 2012, poucos meses antes do início da edição dos Jogos Olímpicos de Londres, uma câmera secreta do programa Dispatches, da TV inglesa, conseguiu gravar uma conversa de um funcionário da Jet Set, que oferecia, como mais uma das facilidades do pacote de hospitalidade, o acesso ao privilégio de circular pelas rotas de tráfego exclusivas para atletas e poucos credenciados com direito ao conforto.
Jim Moriarty vai além: “Há muitos que acreditam que o COI, e na verdade toda a empresa olímpica, é um pouco mais do que uma empresa criminosa, em muitos aspectos como a Fifa. A ‘marca’ olímpica é a marca mais valiosa do mundo, com bilhões de dólares em direitos de TV e outras receitas. Poucos benefícios chegam aos atletas e suas famílias, e a maioria dos benefícios fica com as pessoas no topo, que vivem vidas que deixariam Gordon Gekko com vergonha”, diz, referindo-se ao personagem de Michael Douglas em Wall Street: Poder e Cobiça, um investidor inescrupuloso e ganancioso.
Quatro décadas depois, o Senhor dos Anéis pôs o mundo olímpico no bolso. Sua agenda de contatos, conchavos, licitações que sempre vence e toda sorte de artimanhas capazes de demolir quem ainda acredita no discurso do “olimpismo” e do “espírito olímpico” dos organizadores, está sendo entregue aos poucos ao filho Alan Sead Dizdarevic, 36 anos, nascido nos Estados Unidos, que será o próximo dono do mundo olímpico. Já entra com a herança garantida de ser o patrocinador e agente de vendas para os Comitês Olímpicos – os oficiais – da Austrália, Bulgária, Canadá, Grã-Bretanha, Noruega, Rússia, Suécia e Estados Unidos.

E assim ele chegou ao Brasil

Se essa história toda do Senhor dos Anéis olímpicos fosse conhecida no Brasil em 2009, a assembleia do COI em Copenhague, no dia 2 de outubro daquele ano, que escolheu o Rio para sede em 2016, provavelmente não teria sido cercada de tanta expectativa e suspense. Afinal, as pegadas de Sead Dizdarevic sempre avisam para onde o vento olímpico está indo. Direção confirmada na goleada do Rio em Madri, na última rodada de votos, por 66 a 32.
É que cinco meses antes do conclave, o homem da Jet Set desembarcou no Brasil pela primeira vez. Os registros de imigração informam que no dia 12 de maio de 2009, com visto de turista, ele andou por aqui. Tiro rápido, breves seis dias de estada. Como em todas as outras vésperas de eleição de sede, mesmo quando está contra todos os prognósticos, seu radar não errou. Não se sabe ao certo se naquela passada rápida Dizdarevic pôs em prática o modus operandi de sempre, repetiu Salt Lake e bancou a certeza da vitória, dando ainda listinha com votos a ganhar. Do que se pode ter certeza é que, logo depois daquele breve flerte da primeira visita, entrou com os dois pés no Brasil. Confirmada a vitória, era hora de estruturar o caminho verde e amarelo para buscar aqui os imensos lucros que fazem dele o verdadeiro Senhor dos Anéis, aquele que só ganha.
Como de hábito, sabia bem onde pisava e foi às portas certas depois da confirmação da sede carioca. No dia 8 de novembro de 2011, de acordo com os registros da Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro (Jucerja), abriu a Jet Set Sports Brasil Serviços.
Poucos dias depois, em 20 de dezembro, estabelecia a conexão certa no país da vez para ficar tudo dominado no controle dos ingressos da Rio 2016: a recém-aberta Jet Set assume o controle de 75% da Tamoyo Internacional Agência de Viagens e Turismo, para em 2015 ter o controle total.
A Tamoyo é a senhora das viagens, ingressos e pacotes de hospitalidade em grandes eventos do COB desde o primeiro ciclo olímpico de Carlos Arthur Nuzman, e lá se vão duas décadas de monopólio, enriquecido substancialmente com dinheiro público em seu volume de recursos com o advento da Lei Piva de Incentivo ao Esporte (16/7/2001). Uma lei que Nuzman se empenhou para que passasse a ser chamada Agnello/Piva, em deferência ao ex-ministro dos Esportes Agnelo Queiroz, condenado em primeira instância por improbidade administrativa e presente na deleção premiada da Andrade Gutierrez, no caso petrolão, por propina no Estádio Mané Garrincha.
A relação estreita do COB na gestão de Nuzman e da Tamoyo é alvo de questionamentos há mais de uma década. Em 1º de agosto de 2004, em entrevista para a Folha de S.Paulo, ao garantir que existia licitação para escolher a agência do COB, Nuzman explicou assim a razão de não mudar nunca a agência: “Porque ela ganha”. Os anos se passaram e a Tamoyo seguiu ganhando, sendo a agência do COB para viagens e pacotes olímpicos. Até 2012, quando o COB troca de agência e passa a ter como contratada a Promotional Travel Viagens e Turismo, de Luiz Antônio Strauss de Campos e Flávio Alves da Costa.
Luiz Antônio Strauss de Campos é cunhado da deputada estadual Cidinha Campos (PDT), titular da Secretaria Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor (Seprocon) e forte aliada do governo do estado do Rio de Janeiro sob Sérgio Cabral Filho, então parte importante da aliança entre os provedores dos jogos. Curiosamente, Strauss era o mais ferrenho crítico da relação entre Nuzman e a Tamoyo. Em 2005, chegou a entrar com recurso contra a licitação de contratos entre o Comitê Organizador do Pan 2007 e a Tamoyo. Na ocasião, a Promotional Travel perdeu a concorrência para a Tamoyo e Strauss questionou as regras, afirmando que elas beneficiavam a vencedora. A Promotional tem vencido também, na maior parte das vezes com dispensa de licitação, concorrências para venda de passagens na área federal como Eletrobrás e UFRJ. A reportagem tentou falar com Strauss, sem retorno.
A saída da Tamoyo do COB ocorre em paralelo à conquista pela agência de contrato de viagens no CoRio 2016 e à diminuição de convênios entre o COB e o Ministério do Esporte, como mostra o Portal da Transparência, que registra o último acordo entre ambos, assinado em 10 de maio de 2012.
Em 9 de janeiro 2012, a Tamoyo, já sob controle de Dizdarevic, assina contrato (nº 026/2012) com o CoRio, com duração de um ano, de “serviços de agência de viagens e de turismo em geral para atender a demanda de viagens do Comitê Rio 2016”. Por mais três vezes, o contrato entre CoRio e Tamoyo recebe aditivos de prazo e valor, até 30 de setembro de 2013. O acúmulo de cargo por Nuzman na presidência dos comitês olímpico e organizador do país, algo inédito na história olímpica, foi duramente criticado por entidades de controle.

A Tamoyo Internacional Agência de Viagens e Turismo, controlada por Dizdarevic, tem contrato de viagens com o CoRio, comandado por Carlos Arthur Nuzman, também presidente do COB (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Por meio da assessoria de imprensa, o CoRio afirmou sobre os contratos com a Tamoyo: “Tivemos contrato com três agências de viagem no decorrer dessa jornada: Primeiro com a Tamoyo e depois com a Flytour e agora com a Alatur. O procedimento aqui é que todos os contratos acima de R$ 1 milhão passem por uma concorrência pública e depois sejam aprovados pelo conselho de diretores. Os valores que você encontrou no balanço do Comitê representam o total de despesas com viagens e foram sempre distribuídos em mais de uma agência. A agência que ficou com a principal parte das nossas despesas de viagem foi a Alatur JTB”.
Os lucros de Dizdarevic com o CoRio foram além de tíquetes. Através da Jet Set, ganhou também um contrato (nº 312/2014) com o CoRio para “fornecimento de software customizável (Sistema), para o gerenciamento das operações de chegadas e partidas, transportes e reserva de acomodações (inventário de apartamentos e quartos) dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016”, assinado em 14 de agosto de 2014 e válido até 30 de setembro de 2016. Valor: US$ 545.300, aproximadamente R$ 1.884.000. A justificativa, de acordo com a resposta do CoRio, é por se tratar de “um software de gerenciamento das operações de chegadas e partidas (Concorrência C690) que eles venceram no preço e também na qualidade, o produto é o melhor do mercado global”.
A reportagem perguntou ainda ao CoRio se o histórico de Sead Dizdarevic, noticiado na imprensa internacional em escândalos de corrupção relacionados às edições dos Jogos Olímpicos, não inibiria a entidade de fazer negócio com empresa encabeçada por ele. “Não temos operações de ingressos com a Jet Set talvez pelos motivos que você citou. Não recebemos um centavo de recursos públicos na organização dos Jogos e portanto podemos trabalhar com empresas nacionais ou estrangeiras, desde que os contratos sejam aprovados pelo Conselho. Preferimos, óbvio, trabalhar com empresas locais, mas os critérios principais seguem sendo custo e capacidade de entrega”, respondeu o CoRio.
No entanto, encontramos ainda o contrato nº 1559/2015 entre CoRio e Jet Set Sports Holding, de “Acordo entre Comitês para a venda e distribuição de tickets, pela outra Parte, a determinado público”, assinado em 30 de setembro de 2015 e válido até 31 de dezembro de 2016. E um anterior com a Tamoyo (nº 034/2011), assinado em 31 de março de 2011, para “compra de ingressos em Londres”.
A reportagem procurou o COB para falar sobre as relações com a Tamoyo, sobre as repetidas contratações da agência e processos de licitação. O COB limitou-se a responder que “a Tamoyo não é a empresa contratada pelo COB desde 2012. A agência contratada pelo COB, atualmente, através de processo público de licitação, é a Promotional Travel Viagens e Turismo. As questões colocadas com respeito à venda de ingressos dos Jogos Olímpicos Rio 2016 são de responsabilidade do Comitê Organizador Rio 2016”. Procurada diversas vezes, a Tamoyo não respondeu aos questionamentos.
Um rosto brasileiro: Cícero Augusto Oliveira de Alencar

 

A já citada abertura da Jet Set Sports Brasil na Jucerja, em novembro de 2011, e o ato seguinte da empresa ao assumir alguns dias depois o controle acionário da Tamoyo têm um personagem-chave que conecta Jet Set e Tamoyo a entidades e dirigentes do esporte brasileiro. Mais um rosto absolutamente desconhecido do grande público neste relato de conexões e relações: Cícero Augusto Oliveira de Alencar, 62 anos, nomeado diretor de operações e administrador no ato em que Jet Set Sports Holdings e CoSport Australia, ambas de Sead Dizdarevic, formam um braço brasileiro, a Jet Set Sports Brasil, quealguns dias depois assumiria a Tamoyo.
Cícero Alencar, morador da Ilha do Governador, bairro de classe média do Rio de Janeiro, é um dos personagens do “Relatório de Auditoria 201407834”, da CGU, cuja área fazendária auditou a CBV e foi minuciosa ao lançar luz sobre ele – um homem com 136 “Cadastros Nacionais de Pessoas Jurídicas”, o conhecido CNPJ. De acordo com o relatório da CGU, além de constar como sócio em 136 empresas, Alencar é contador de 279 outras. Questionado pela reportagem sobre o número, ele respondeu: “A legislação societária brasileira exige um mínimo de 2 sócios para cada entidade local incorporada. Como temos mais de 300 clientes estrangeiros atendidos por nossa firma, uma grande parcela deles nos contrata para figurarmos como segundo sócio nas subsidiárias locais. É uma prestação de serviço (sempre com uma participação nominal de 1 quota de capital – apenas para cumprir a legislação e ter 2 sócios)”. A reportagem apurou também a participação dele nos registros da Forecast Corp, na Flórida, sobre o que respondeu: “Não só nesta sociedade mas em uma centena de outras empresas no exterior, prestando serviços de administrador nomeado dos investidores em tais sociedades”.
A lente de aumento da CGU pousou especialmente sobre uma das 136 empresas em que aparecia o nome de Alencar, o diretor de operações e administrador da Tamoyo, que, de acordo com o relatório, também constava como sócio-administrador da Acal Auditores Independentes, responsável pela auditoria de convênios da CBV. Boa parte dos convênios auditados pela Acal na CBV era relativa a recursos destinados à Tamoyo.
Assim, como mostra a CGU, quem auditava as contas da CBV representava um dos beneficiários dos convênios, a Tamoyo. A CBV pagou R$ 154 mil pelo serviço da Acal. As auditorias foram realizadas a partir de maio de 2013. Antes, eram feitas pela PS Contax, cujo sócio Nelson Fernando Marques Plaltzgraff passa a ser da Acal também a partir de maio de 2013, de acordo com a CGU, que encontrou ainda pagamentos da CBV para a Acal e PS Contax sem previsão contratual. O órgão destaca que a PS Contax aparecia com o mesmo número de telefone da “Universidade Corporativa do Voleibol” (UCV), onde Ary Graça, ex-presidente da CBV, aparecia como responsável.

Cinco meses antes do Rio de Janeiro ser escolhido como sede da Olimpíada de 2016, Dizdarevic desembarcou no Brasil pela primeira vez, segundo os registros da imigração (Foto: Raphael Lima/Prefeitura do Rio de Janeiro)

Além do sócio em comum e das relações com entidades do esporte brasileiro, a Jet Set Sports Brasil tem outro elo com a Acal Auditores: na Jucerja, o endereço que consta para a Jet Set Sports Brasil é também o da Acal. Indagado pela reportagem sobre o eventual conflito de interesses, Cícero Alencar negou. “Baseado em que regulação isso pode ser caracterizado como conflito de interesse? Primeiro que não sou sócio – nem consto do Contrato Social da ACAL Auditores Independentes S/S e portanto não tenho conflito algum com os contratos que esta firma mantém com seus clientes”. No entanto, segundo o relatório da CGU, Cícero era sócio-administrador da Acal Auditores Independentes S/S e se retirou, e segue como sócio-administrador (com 98% das cotas) da Acal Consultoria e Auditoria S/S, que tem três sócios em comum com a anterior. Diante disso, o relatório da CGU afirma: “o que demonstra que elas mantêm um vínculo. Assim, a empresa contratada pela CBV para, inclusive, prestar serviços relacionados a convênios, tinha como ex-sócio e possivelmente parte interessada Cícero Augusto Oliveira Alencar”.
No relatório em que destaca o possível conflito de interesses entre o representante da Tamoyo e o auditor dos contratos que envolviam passagens compradas na empresa, a CGU expõe um quadro em que demonstra que 56% das passagens contratadas pela CBV foram emitidas pela Tamoyo, em um negócio de R$ 2.970.121 só em 2013. O relatório observa ainda que de 2011 para 2013 houve um aumento expressivo na despesa nesse transporte aéreo, com crescimento de 96%.
O comitê presidido por Carlos Arthur Nuzman também teve contrato com a PS Contax. Em 14 de fevereiro de 2011 o Comitê Rio 2016 (CoRio) assinou contrato (nº 04/2011) de auditoria contábil e financeira com a empresa. A reportagem perguntou a Nelson Plaltzgraff se a auditoria da PS Contax estaria disponível e por que, depois de 2011, não voltou a prestar o serviço. O responsável pela PS Contax limitou-se a dizer: “Nós declinamos da prestação de serviço”. Já o CoRio afirmou: “A PS Contax prestou serviços de auditoria financeira entre 14/2 e 20/5 de 2011. Depois disso as auditorias do Comitê têm sido lideradas pela KPMG e Grant Thornton auditores independentes”.
Cícero Alencar aparece também em processo do Tribunal de Contas da União (TCU) em 2002, assinando a prestação de contas da Petrobras Netherlands ao lado de Almir Guilherme Barbassa, ex-diretor financeiro da Petrobras e da Petrobras Netherlands, afastado após o início da Operação Lava Jato. A reportagem buscou contato com a estatal, via assessoria de imprensa, para saber sobre o vínculo de Cícero Alencar com a empresa e entender por que ele consta na prestação de contas. A empresa informou: “Não consta em nossos sistemas da Petrobras Holding empregado ou ex-empregado com o nome Cícero Augusto Oliveira de Alencar. Adicionalmente, informamos que também não localizamos registros do Sr. Cícero como empregado de empresa prestadora de serviços”.
Já Cícero Alencar respondeu: “De 1999 a 2006 a firma ACAL Consultoria e Auditoria S/S prestou serviços à Petrobras, no Brasil e no exterior, incluindo toda a reestruturação de ativos internacionais que pertenciam à PIFCO – Petrobras International Finance, com sede em Cayman, e que foram conferidos para o patrimônio da PNBV”. Sobre a relação com Almir Guilherme Barbassa, afirmou: “Me encontrei com ele 2 ou 3 vezes nos 7 anos que servimos a Petrobras para discutir resultados de nossos serviços”.
A reportagem perguntou por fim a Cícero Alencar se ele representava alguém na sociedade da Jet Set. E, caso fosse positiva a resposta, a quem? Ele respondeu: “Meu nome foi usado para a posição e administrador da sociedade local, como prestador de serviço – posição que ocupo em outra centena de clientes que necessitam de um brasileiro residente para a posição e que não possuem quadro de empregados no país”.

Bolinha da sorte

Os imensos tentáculos da Jet Set contam também com a sorte. Em 10 de abril, reportagem do “Dossiê Vôlei” mostrara que, entre os 56% de passagens compradas pela CBV na Tamoyo, até a bolinha do sorteio brilhava para a empresa de Sead Dizdarevic – como na licitação de 13 de abril de 2012. Convocadas pelo edital 003/2012 da CBV para “aquisição de hospedagem e passagens aéreas nacionais e internacionais [para] os atletas e membros da comissão técnica das seleções de vôlei de praia adulta feminina e masculina” (verba contemplada no convênio 761160/2011 com o Ministério do Esporte), três empresas entregaram suas propostas: a Master Turismo, a Tamoyo e a BB Turismo (BBTur, agência de viagens do Banco do Brasil, patrocinador da CBV).
Quando os envelopes foram abertos, a Master Turismo foi desclassificada por “ter apresentado proposta sem assinatura e com diversos percentuais de desconto”. Ficaram a BB Turismo e a Tamoyo. Ambas apresentaram o mesmo percentual de desconto: 3%. Como previsto no item 5.1 do edital, sobre “critério de julgamento”, em caso de empate, a decisão é feita por sorteio. Num golpe de sorte, venceu quem leva a absoluta maioria das licitações da CBV e de boa parte das confederações do esporte olímpico brasileiro, incluindo o COB: a Tamoyo, de Sead Dizdarevic e seus sócios brasileiros. A bolinha da sorte representou um contrato de R$ 1.374.390. O ato foi realizado no escritório da CBV pela “Comissão Especial de Licitação” da entidade com os representantes das empresas envolvidas. No mesmo dia, o contrato foi assinado.
Na ocasião, a Tamoyo afirmou ao repórter não ter conhecimento do volume de passagens aéreas e hospedagens, “mas participamos de alguns processos licitatórios da Confederação Brasileira de Vôlei e fomos vencedores de alguns destes”.
Já a CBV afirmou que “consta nos registros da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) que, até o ano de 2012, as agências de viagem que atendiam a CBV foram selecionadas ou por meio de processo licitatório e de compra direta. Entre essas agências estavam a Tamoyo e a BBTUR. A partir de 2013, todas as agências foram escolhidas por meio de licitação, seguindo a Portaria Interministerial 507/2011 /Decreto Federal 6170 e Lei 8666/93”.

O Rio de braços dados com a Tamoyo

As ações da Tamoyo no esporte brasileiro não se restrigem apenas às confederações, COB e convênios do Ministério do Esporte. Em 12 de junho de 2012, o Diário Oficial da União (DOU) publicou que a Autoridade Pública Olímpica (APO), ligada ao Ministério do Esporte, comprou da Tamoyo R$ 100.000 em ingressos para os Jogos Olímpicos de Londres. A dispensa de licitação se dá porque é a única a ter direito de vendas no Brasil dos ingressos olímpicos.
Não importam partido, matiz ideológico ou o poder que está sendo representado. Dizdarevic e seus sócios brasileiros estão sempre bem. Também em 2012, o então governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral pôs o estado para pagar à Tamoyo R$ 2,2 milhões entre ingressos e passagens para que sua turma estivesse na Olimpíada de Londres. No estado que viria a quebrar, sem dinheiro para pagar o funcionalismo, até a primeira-dama estava contemplada, mas a divulgação da reportagem no site UOLfez com que as despesas de Adriana Cabral, de R$ 32 mil, fossem devolvidas. Treze membros do governo foram agraciados com o mimo e desfrutaram Londres.
O prefeito Eduardo Paes não fica atrás em compras na Tamoyo. Desde 2012 até aqui, R$ 3.338.233 dos cofres da cidade olímpica foram para a Tamoyo. Também sem licitação, como os R$ 323.362 pagos à Tamoyo por “prestação de serviços de apoio logístico a ser prestado à prefeitura do Rio de Janeiro por ocasião dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Londres 2012”. Nas asas da Tamoyo, diferentes divisões do governo Paes viajaram ou gastaram: Companhia Municipal de Limpeza Urbana, Companhia de Engenharia de Tráfego do Rio de Janeiro, Controladoria-Geral do Município do Rio de Janeiro, Empresa Municipal de Informática S.A. (Iplanrio), Empresa Municipal de Urbanização (Rio-Urbe), Empresa Pública de Saúde do Rio de Janeiro S.A. e Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro.
Embora todas as esferas de poder gastem com a Tamoyo, a empresa foi mais comedida em financiamento de campanhas eleitorais. Limitou-se a abrir o bolso para o PCdoB – que então dominava o Ministério do Esporte e era grande provedor de verba para convênios de confederações que incluíam compra de passagens –, ajudando com R$ 25 mil a candidatura sem êxito de Márcio Marques dos Santos a deputado estadual pelo partido nas eleições de 2010.
Lá fora, Dizdarevic também é generoso com seus candidatos. Mitt Romney, depois de ter salvado Salt Lake City dos escândalos, como já se contou aqui, se cacifou para voo mais alto. Ousou tentar a Casa Branca em 2008, sem sucesso. Mas, na dúvida, a campanha do fiel amigo desde os jogos de Salt Lake City, em 2002, contou com U$ 9 mil da parte do Senhor dos Anéis, que costumeiramente também ajuda o chapéu do Partido Republicano.

A Prefeitura do Rio de Janeiro, representada por Eduardo Paes, já pagou mais de R$ 3 milhões à Tamoyo, dos quais R$ R$ 323.362 sem licitação (Foto: Ricardo Cassiano/Prefeitura do Rio de Janeiro)

Em 2009, o TCU apontou vícios na relação entre o COB e a Tamoyo, em particular para uma licitação de 2008. O relatório falava em “ausência de publicidade e de demonstração dos critérios para avaliação da exequibilidade da proposta”, “não concessão de oportunidade ao licitante para demonstração da viabilidade de seu preço”, “vício no edital” e “prejuízo à seleção da proposta mais vantajosa”, entre outros apontamentos. Em sua defesa, o argumento principal do COB foi a não utilização, nesse pregão, de recursos públicos, aceito pelo TCU, que arquivou o processo, embora com ressalvas, como a recomendação de adoção de algumas medidas para licitações.
Em 14 de julho de 2014, a Jet Set Sports Holding e a CoSport, capitalistas da Jet Set Sports Brasil, por sua vez majoritária da Tamoyo, dão o passo que precisavam para legalizar seu monopólio olímpico por aqui também e alteram o contrato social da Jet Set Sports Brasil para “incluir a atividade de venda de ingressos para eventos esportivos e de pacotes de serviço de hospitalidade” (clique aqui para ver).
Além de passar de Jet Set Brasil Participações para Jet Set Brasil Serviços (veja aqui), a empresa promove a substituição de quem a representa. Cícero Alencar sai de cena na Jet Set e é substituído por Neemias dos Santos Araújo, funcionário da Jet Set. Na Jucerja, o endereço de Neemias também é o da Acal.
As conexões rumorosas da Jet Set no Brasil seguiram. O procurador que representava a Jet Set Sports Holdings e a CoSport na abertura, em 2011, Eduardo Bezerra de Menezes Carreirão, dá lugar a George Pikielny na representação de ambas junto com a mudança no contrato social. Brasileiro, administrador de empresas bem-sucedido, morador de São Paulo, Pikielny é citado em um barulhento e ainda sem solução caso que envolve uma morte misteriosa e a dilapidação do patrimônio do desaparecido. A história foi contada no jornal Centro Oeste Popular, do Mato Grosso do Sul, em dezembro de 2015.
De acordo com a reportagem, em 19 de junho de 2012, Guma Leandro Kaplan Aguiar, carioca radicado nos Estados Unidos, de 35 anos, saiu para passear de lancha e desapareceu. A justiça da Flórida já o reconheceu como morto. Era dono de uma fortuna estimada em US$ 100 milhões. Um ano depois do desaparecimento, de acordo com a reportagem do jornal, as propriedades foram vendidas e as ações, transferidas pelos ex-sócios e administradores à revelia da viúva e dos quatro herdeiros. Pikielny é citado como um desses beneficiados. Esta reportagem enviou perguntas para Pikielny, sem resposta.
Os mistérios e as conexões que envolvem Sead Dizdarevic e seus movimentos no Brasil, transformando seus negócios sempre em um intrincado cipoal, remetem à ação de Jim Moriarty, que correu na Corte da Califórnia sob o número “3:08-cv-03514-jsw”. Nela, o autor descreve algumas características que, segundo ele, compõem o modus operandi de Dizdarevic e conexões: “Os arguidos ocultam ao público suas verdadeiras identidades e informações de contato, em um aparente esforço para permanecer no anonimato e fugir de processo por sua conduta ilícita”.
Outra conexão de Dizdarevic revela o que pode acontecer aqui durante a Olimpíada. Para a Copa do Mundo de 2014, a Jet Set se associou à Match, revendedora oficial dos pacotes de hospitalidade da Fifa, para revenderem os conjuntos de ingressos/hospedagem do certame brasileiro na Austrália, Noruega, Rússia, Estados Unidos e Suécia. Todos se lembram do fim da história: o executivo da Match Raymond Whelan foi preso, assim como o argelino Mohamadou Lamine Fofana, por integrarem uma quadrilha internacional de cambistas. Com Fofana foram encontrados ingressos em nome da Jet Set.
Sead Dizdarevic não aparece por aqui desde sua 13ª vinda, em 5 de novembro de 2015. Em duas dessas ocasiões, geralmente para períodos curtos, de cinco dias, veio com visto temporário e, nas outras 11 vezes, como turista. Não se sabe ao certo como irá desembarcar para os Jogos Olímpicos daqui a algumas semanas. Se vem na condição de turista ou com permissão de trabalho para colher em definitivo os dólares olímpicos que vem semeando nesta terra desde 2009, alguns meses antes da própria escolha da sede – , embora a Jet Set prefira dizer (leia entrevista do porta-voz da empresa) que iniciou suas conversas com a Tamoyo em 2011, ano em que na verdade já incorporou parte da empresa – ainda não está claro.
Pela primeira vez, no dia 14 de agosto, Dizdarevic vai passar um aniversário em meio aos jogos, dos quais continua sendo o maior senhor. Provavelmente brindando com sócios locais de cada edição e as vastas e complexas conexões com comitês organizadores e olímpicos. O Senhor dos Anéis está chegando, com motivos de sobra para festejar seus 66 anos. Salvo eventuais imprevistos no negócio do megaevento, como durante a Copa de 2014, quando homens poderosos a serviço de um esquema milionário acabaram vendo o Mundial no xadrez de uma pequena delegacia policial na Praça da Bandeira.

Entrevista: Jet Set Sports

Michael Kontos é responsável pela comunicação da Jet Set Sports nos Estados Unidos. Nesta entrevista, ele explica a relação da empresa com a Tamoyo, entre outras coisas.

Qual a razão da escolha da empresa Tamoyo para ser a parceira da Jet Set no Brasil?

A Jet Set tem escritórios e operações em dez países, dos quais alguns são resultados de aquisições, como no Brasil. Cada decisão para adquirir uma companhia local foi baseada em estratégia empresarial. A liderança da Jet Set conheceu a Tamoyo como Revendedora Autorizada de Tickets dos Jogos de Londres 2012 (ATR) no Brasil. Impressionada com os serviços e as operações deles naqueles jogos, a Jet Set iniciou discussões com a Tamoyo em 2011, o que eventualmente nos levou a um investimento em operações e depois à aquisição completa da empresa, em setembro de 2015.

A Jet Set tem um histórico de sociedades em empresas ligadas a pessoas com relações aos Comitês Organizadores Locais. Isso se repetiu no Brasil?

Ainda não estou seguro da intenção desta pergunta. A Jet Set tem sido um patrocinador oficial, fornecedor ou provedor de dez dos 11 últimos Comitês Organizadores de Jogos Olímpicos de Verão ou Inverno desde Atlanta 1996. Mas não temos esse tipo de relação com a Rio 2016.

Entre as críticas que a Jet Set sofre, está a de monopolizar os melhores tíquetes e associar estes à hospedagem, encarecendo o preço dos ingressos olímpicos e tornando-os inacessíveis ao público em geral. Como veem essas críticas?

As críticas não levam em conta como os programas de tíquetes funcionam. São desenvolvidos pelos Comitês Organizadores, Rio 2016, aprovados pelo COI. Este programa determina que porcentagem será posta para o público brasileiro em geral, que porcentagem será distribuída para os Comitês Olímpicos de cada país (NOCs) e que porcentagem vai para a família olímpica, autoridades, patrocinadores, mídia etc. É importante lembrar que os melhores lugares são reservados para a mídia, então eles podem transmitir para o público de todo o mundo com os melhores ângulos.

Só a Rio 2016 vende tíquetes para o público geral brasileiro, com o Comitê Organizador determinando que ingressos serão vendidos para o público em geral, o preço e como são oferecidos. A Jet Set não está envolvida com ingressos para o mercado brasileiro em geral.

A Rio 2016, depois, distribui/vende ingressos internacionais para os NOCs, muitos dos quais confiam em Revendedores Autorizados de Tíquetes (ATR) para revender esses tíquetes a seu público. A lista desses revendedores pode ser acessada aqui.

É importante notar que, depois dos direitos de transmissões e patrocínios, bilheteria é a terceira maior fonte de receita do Comitê Organizador. Assim, cada Comitê Organizador, como Rio 2016, precisa dos NOCs para vender o máximo de tíquetes possível, atingindo assim seus objetivos de receitas e diminuindo a pressão sobre o governo local.

Os revendedores não apenas apoiam os NOCs, assim como os Comitês Organizadores, com expertise em vender tíquetes para o público internacional, como também se comprometem em comprar certo número de tíquetes na frente, ajudando assim numa muito esperada receita para os NOCs e os Comitês Organizadores e assumindo alguns riscos, no lugar dos destes, de tíquetes não vendidos, antes que qualquer um seja vendido. As revendedoras, incluindo Jet Set e sua companhia irmã CoSport, então fazem tíquetes individuais/tíquetes e passagens/tíquetes mais passagens mais pacotes de hospitalidade acessíveis de acordo com as demandas e necessidades dos públicos com os quais lidam. Nos 30 anos em que forneceu hospitalidade olímpica, a Jet Set e seus sócios ajudaram mais de 1,2 milhão de torcedores a estar em Jogos Olímpicos de Verão e Inverno, e o nível de satisfação dos clientes consistentemente está acima de 90%.

Gostaria que comentasse os casos de participação em compra de votos para candidaturas olímpicas pelo Sr. Sead Dizdarevic, como amplamente citado na imprensa internacional, o que já o levou a responder na Justiça americana.

O sr. Dizdarevic forneceu informações para as investigações sobre a candidatura de Salt Lake para os Jogos de Inverno de 2002. Isso foi noticiado várias vezes. De fato, desde aquele incidente, a Jet Set foi escolhida como patrocinadora, provedora ou fornecedora por meio de processos competitivos conduzidos pelos Comitês Organizadores de Atenas (2004), Turim (2006), Pequim (2008), Vancouver (2010), Londres (2012) e Sochi (2014), somando ainda Atlanta (1996), Nagano (1998), Sydney (2000) e Salt Lake City (2002). Todas as maiores decisões desses Comitês Organizadores, alguns deles incluindo participação governamental, foram tomadas após passarem por vasta investigação, e todos eles escolheram a Jet Set como seu melhor sócio. Ainda, desde então, a Jet Set e a CoSport foram escolhidas para ser revendedoras de mais de uma dúzia de NOCs, incluindo Austrália, Bulgária, Canadá, Grã-Bretanha, Noruega, Rússia, Suécia e Estados Unidos. Com exceção do comitê americano, todos os outros são organizações “quasi-governmental” (nota: apoiadas pelo governo, mas de gestão privada). A Jet Set não seria selecionada por todas essas organizações se suas alegações fossem precisas.

A Pública enviou diversas perguntas sobre os temas abordados na reportagem também para a agência Tamoyo, no Brasil, e tentou contato diversas vezes para obter as respostas, sem sucesso. Posteriormente, duas das perguntas enviadas para o escritório brasileiro foram respondidas por Michael Kontos, da Jet Set americana:

Era de conhecimento que Cícero Augusto Oliveira de Alencar também era sócio da Acal, que auditava convênios da CBV e do Ministério do Esporte que envolviam compras de passagens na Tamoyo?

Não. Entramos em contato com a Acal com base em uma recomendação de alguém com quem costumávamos trabalhar aqui nos Estados Unidos. A empresa nos foi recomendada porque tanto tinha a experiência e a capacidade de conduzir nosso projeto como nossos prazos. Não tínhamos conhecimento de todos os outros negócios que a empresa tinha conduzido ou com que estava trabalhando.

Qual a razão para que uma empresa de turismo como a Tamoyo tenha feito uma doação de campanha para a candidatura de Márcio Marques dos Santos a deputado estadual nas eleições de 2010?

Isso antecede o nosso investimento e a eventual aquisição da Tamoyo, por isso não temos informações sobre esse tópico.



Bandidos inanimados
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Juca Kfouri

POR BRUNO SILVA QUIRINO
Fulano não sabia nem tampouco pretendia aprender a se comportar bem num estádio de futebol. Sempre usou os jogos para fazer extravasar seus instintos selvagens, sua angústia reprimida ou vingar-se da acidez da vida.

No início de sua carreira ainda existiam arquibancadas de cimento e a galera combinava de “ir ao campo”. Era permitido entrar com fogos de artifício e bandeiras. Num clássico, mirou a torcida adversária – que “meiava” o espaço com a sua – e atirou o foguete. Cegou um “inimigo”.

Fulano era muito criativo. Bambu de bandeira virava lança, rádio funcionava como pedra de acertar cobrador de lateral e até com sapato poderia torpedear o bandeirinha.

Se à base de água Fulano tinha combustível para virar um soldado a serviço da balbúrdia, ao se abastecer de álcool ganhava força pra esfacelar um corpo que vestisse cores diferentes das suas. Ao longo dos anos ganhou inúmeros campeonatos de violência e pouco deu notícia do que acontecia em campo.

A cada feito de Fulano, as autoridades respondiam com severas medidas. Mandaram botar cadeiras por cima das arquibancadas. Proibiram a comemoração trepando nos alambrados. Instituíram o clássico de torcida única. Vetaram a entrada de torcedores portando rádios ou bandeiras. Criminalizaram os mosaicos com frases “ameaçadoras”. Censuraram a cerveja do lado de dentro das arenas (aqueles lugares outrora chamados estádios).

Inspirado pelo futebol, Fulano driblou os obstáculos. A cada nova regra, ele arrumava seu jeito, de maneira que pudesse perpetuar-se no causamento de confusão. A cerveja, por exemplo, ele continua bebendo do lado de fora até instantes antes do jogo. As cadeiras, ele quebra, os “inimigos”, ele dá um jeito de encontrar pra agredir.

Dessa forma, Fulano continua agindo. Afinal, ninguém nunca o proibiu de frequentar campo de futebol, mesmo com todo seu histórico.

Já os objetos inanimados, esses sofrem os rigores da lei. Bandeira, bambu, cerveja e rádio estão banidos do esporte. Vira e mexe, interditam-se bandidos de tijolo e aço.

Ontem o Estádio Mané Garrincha, em Brasília, foi interditado por causa da briga de fulanos no jogo Flamengo e Palmeiras.


Portas abertas para a inclusão social
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Juca Kfouri

Educação Física Inclusiva na rede pública: Instituto Rodrigo Mendes e UNICEF revelam os resultados do projeto “Portas Abertas Para a Inclusão”

Em sua segunda edição e em parceria com a Fundació FC Barcelona, o projeto liderado pelo Instituto Rodrigo Mendes envolveu 15 capitais brasileiras

Em 2015, professores, gestores escolares e técnicos de secretarias municipais de 15 capitais brasileiras participaram de uma formação sobre Educação Física inclusiva. Cerca de 51 mil pessoas, dentre elas 37 mil crianças e adolescentes, foram impactados pelo projeto que desenvolveu 122 experiências educacionais locais, envolvendo 458 profissionais participantes.

“Abrir as portas das escolas públicas regulares para as crianças com deficiência, garantindo o direito de aprender e se desenvolver de forma integral é o objetivo do projeto Portas Abertas para a Inclusão, pilotado pelo Instituto Rodrigo Mendes, Unicef e pelo parceiro Fundació FCBarcelona”, explica Rodrigo Hübner Mendes, superintendente do Instituto Rodrigo Mendes.

A metodologia do projeto envolve a elaboração de um diagnóstico sobre a realidade local de cada instituição de ensino e o desenvolvimento de projetos voltados à garantia de participação de todos no ambiente escolar. Os cursistas foram estimulados a trocar experiências e repensar as práticas pedagógicas. “Por meio do esporte e da brincadeira, queremos promover o direito das crianças com deficiência de estarem na escola, aprendendo e se desenvolvendo com as demais”, destaca Rodrigo Fonseca, especialista da área de Esporte para o Desenvolvimento do UNICEF no Brasil.

Resultados
– os educadores que participaram da formação inovaram em propostas para incluir todos os alunos nas aulas
– é possível mudar a forma de toda a escola compreender e se relacionar com as diferenças humanas, superando desigualdades, por meio da ressignificação da educação física
– formação de professores
– elaboração de um guia de práticas de educação física inclusiva, criado partir das experiências desenvolvidas pelos participantes do projeto

Casos e Inspirações

· São Paulo – CEU Quinta do Sol | Atividades cooperativas

Desafio: mobilizar os demais professores para a questão da educação inclusiva e repensar as atividades físicas para que todos pudessem participar.
Estratégia para a inclusão: realização de um circuito de atividades, no qual as crianças passariam por cada estação realizando um conjunto de brincadeiras. Ao final, foi realizada uma mostra cultural com a exposição dos resultados e trabalhos dos estudantes.
As atividades escolhidas e separadas por estação:
1. Brincadeiras de roda: batata quente, passa-anel, telefone sem fio;
2. Jogos de estafeta: com arco, jornal, sinos, colchonetes, ata e desata, ligeirinho, alvo com cones, entrega do jornal;
3. Brincadeiras com bambolê, peteca e cordas;
4. Danças infantis;
5. Natação.
Resultados: Marcela, professora da sala regular, ficou surpresa com os resultados do projeto: “Notamos uma proximidade dos docentes com os pais das crianças. Antes, o contato era feito somente pela coordenadora pedagógica”.

· Rio de Janeiro – Escola Municipal Floriano Peixoto | Esportes inclusivos

Desafio: transformar a unidade em um espaço efetivamente inclusivo.
Estratégia: fazer as atividades propostas se tornarem um meio para acessar novos conhecimentos que possibilitassem o desenvolvimento da educação inclusiva para garantir a aprendizagem de todos.
No projeto desenvolvido na escola, foram criados novos esportes inclusivos, como:

• Futebol de pano em três fases: no chão, sentado na cadeira e em pé;
• Slackline: slackine solidário, slackline autônomo e slackline cego;
• Jogo da bola maluca: o esporte foi criado pelos estudantes e é jogado com uma bola americana com a rede baixa e alta;
• Vôlei sentado: houve flexibilização das regras do esporte adaptado para se tornar inclusivo;
• Corda amiga: o ritmo da corda é determinado por quem pula;
• Jogos de passes: jogo em duplas em que trocam a bola durante o deslocamento;
• Pique sensorial: os alunos de olhos vendados encontram os colegas por meio de guizos amarrados ao pulso;
• Corrida sensitiva: um estudante vendado é guiado por outro vidente;
• Reactionball: criado na escola, usa regras definidas pelos próprios estudantes.

Resultados: Elna, professora do AEE (Atendimento Educacional Especializado), revela com orgulho os resultados da participação dos estudantes com autismo: “Davi não conseguia ficar por muito tempo com os olhos vendados, mas fez questão de brincar com a venda na testa. Joubert, que no início participava somente um pequeno período, aos poucos foi aumentando a interação nas atividades, surpreendendo a todos”.

· Belém – Escola Municipal Professora Terezinha Souza | Miniatletismo

Desafio: desenvolver um planejamento didático que contemple a aprendizagem de todos os alunos, sobretudo aqueles com deficiência
Estratégia: transformar o circuito de miniatletismo em uma atividade inclusiva e acessível a todas crianças do 5º ano, por meio das flexibilizações. Pensado a partir das particularidades de cada estudante, o minicircuito de atletismo arquitetado pelos docentes tinha a intenção de deixar de lado a competição. Para isso, as normas técnicas da prática esportiva foram alteradas com o objetivo de favorecer a participação e inclusão de todos nas atividades.
Como foi desenvolvido: pontuações, a verificação de tempo por cronômetros e as exigências físico-motoras foram repensadas. O salto, por exemplo, antes entendido como o ato de se atirar de um lugar, passou a ser visto como a ação de passar de um ponto para outro. O lançamento, por sua vez, conhecido pelo uso da força no arremesso, foi adotado como o ato de abandonar o objeto em determinado ponto. Já a corrida passou a ser praticada segundo os tempos e velocidades individuais.
Resultados: “Jonnhy, aluno com deficiência física, se destacou e fez questão de estar com o grupo, participar das atividades, se arriscando e sem medo de errar” conta a professora do AEE, Edselma. Ela também atribui o feito à família do garoto, que sempre o estimula a explorar suas potencialidades.
“O resultado foi tão bom que temos a intenção de levar o projeto para as turmas do 1° ao 5° ano nos jogos escolares, evento da rede que acontece em todas as unidades”, destaca o docente de Educação Física, Itair.

Edições anteriores
Em sua primeira edição, entre 2013 e 2014, o projeto Portas Abertas para a Inclusão alcançou mais de 22.500 estudantes das redes de ensino das 12 cidades-sede da Copa do Mundo. Ao todo, 324 educadores, gestores e técnicos participaram de um curso semipresencial. Nesta nova edição, o projeto foi expandido para mais três municípios e outras escolas foram mobilizadas em Belém, Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Maceió, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Luís e São Paulo.

Importante: a Educação Física inclusiva é ainda uma proposta muito recente, cuja consolidação demanda formação continuada e eliminação de barreiras. As experiências apresentadas neste documento representam passos iniciais de um complexo processo de transformação. Por isso, sua interpretação deve levar em conta as particularidades políticas, culturais e estruturais de cada escola/município.


O mundo do boxe: preso nas cordas do antidoping
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Juca Kfouri

O jornalista investigativo Andrew Jennings alerta para escândalos envolvendo o esporte que podem contaminar a Olimpíada*



Por Andrew Jennings, para a Agência Pública | http://goo.gl/9iG4We

Outro escândalo de doping está prestes a estourar, ferindo ainda mais o Comitê Olímpico Internacional (COI) às vésperas dos jogos no Rio. Desta vez, envolve a International Boxing Association (AIBA), a entidade mesquinha que atua como uma associação internacional de boxe amador.

Em dezembro do ano passado, empregados da sede da AIBA, em Lausanne, na Suíça, admitiram para inspetores da Agência Mundial Antidoping que não haviam feito, fora da época de competição esportiva, quase nenhum teste nos últimos três anos. Chegaram a zero teste em 2015, ano pré-olímpico. O documento de 27 páginas produzido em seguida pelo inspetor e analisado pela reportagem é condenatório.

“Ao longo dos últimos anos, a AIBA tem implementado um programaantidoping bastante limitado, fazendo um trabalho meia-boca não só por não atender aos requisitos da Agência Mundial Antidoping, mas também por não proteger o esporte e os atletas que são ficha limpa dos riscos do doping”, diz o documento. “O programa de testes da AIBA que ocorre fora da época de competição esportiva praticamente inexistiu nos últimos três anos, e apenas 19 amostras foram coletadas (18 em 2013, 1 em 2014 e nenhuma em 2015). Este representa o número mais baixo entre os 28 esportes da Olimpíada.”

Já que a coleta de informações e inteligência são essenciais para realizar testes de maneira eficaz, os inspetores ficaram chocados ao descobrir que “a AIBA não possui a estrutura necessária para coletar ou processar esse tipo de informação”. Depois de listar outros “déficits”, o relatório conclui: “É altamente recomendável que a AIBA considere com urgência um plano de antidoping estratégico e operacional que tenha como meta cumprir as normas internacionais”.

Resumindo, a AIBA não cumpre as normas.

Se o presidente da Agência Mundial Antidoping, sir Craig Reedie, da Escócia, que é também vice-presidente do COI, quiser tornar público esse documento, é difícil imaginar como AIBA poderá participar da Olimpíada daqui a dois meses.

Escândalo também nas finanças
Como se isso tudo já não fosse o suficiente, a AIBA também está imersa em um escândalo financeiro. A reportagem teve acesso a um documento “estritamente privado e confidencial” da divisão forense da rede de contadores PricewaterhouseCoopers (PwC), empresa britânica que oferece serviços de auditoria. Ele revela que milhões de dólares não foram contabilizados na prestação de contas anual da associação.

Durante a investigação, que recebeu o melodramático codinome de Projeto Tigre, os auditores da PwC descobriram que em 2010 o presidente da AIBA, Ching Kuo Wu, assinou um “pedido de empréstimo” com uma companhia do Azerbaijão um tanto obscura. O dono dessa companhia é Kamaladdin Heydarov, que antes liderava o serviço corrupto de alfândega do país e agora comanda um império de empresas que englobam áreas desde construção até turismo. E tudo isso enquanto ocupa o cargo de “ministro de Situações de Emergência” no Azerbaijão.


O presidente da AIBA, Ching Kuo Wu (Foto: AIBA)

De acordo com a PwC, Heydarov tem “uma reputação não confiável no mercado”. E o mesmo pode ser dito sobre a AIBA, já que os auditores notam que o empréstimo “não foi contabilizado corretamente nos registros financeiros da AIBA”, uma prática que viola o código criminal suíço. O empréstimo de US$ 10 milhões, que chegou até a acumular juros de US$ 498 mil, deveria ter sido pago em novembro de 2013, mas o pessoal do Azerbaijão não está interessado em receber o dinheiro e parece mais preocupado com o empenho dos seus atletas no Rio de Janeiro. Não houve nenhuma reclamação do comitê de auditoria e finanças da AIBA possivelmente porque o presidente Wu o dissolveu.

Sob os auspícios da AIBA, o empréstimo supostamente daria início ao Campeonato Mundial de Boxe nos Estados Unidos. Quatro companhias do Campeonato Mundial de Boxe foram estabelecidas, mas US$ 1 milhão “desapareceu” rumo ao México. Wu insiste que ele “não recebeu um centavo”, mas é difícil realmente saber onde foi parar esse dinheiro porque a PwC não encontrou notas fiscais ou “documentação de apoio” para comprovar como foram gastos os US$ 4,3 milhões em pagamentos. O documento observa que, além de Wu, “nenhum outro membro da gerência executiva estava ciente dos termos do empréstimo e em particular do papel da AIBA como fiador”. Esse entendimento só mudou em junho passado, quando o diretor executivo da AIBA, Ho Kim, “levantou algumas alegações de irregularidade”.

A PwC disse que a AIBA precisa “declarar de novo”, com urgência, as suas contas dos últimos seis anos. “É recomendável que todas as companhias ou operações da AIBA passem por um processo de auditoria externa. Declarações financeiras consolidadas revelarão a verdadeira e atual posição financeira da associação.

O mais que suspeito chefe do Campeonato Mundial de Boxe
Surpreendentemente, o vice-presidente responsável pelo campeonato mundial World Series of Boxing (WSB), nomeado pessoalmente pelo próprio Wu há dois anos, é Gafur Rakhimov, figura identificada pelas autoridades norte-americanas como traficante de heroína de alto escalão e um dos líderes do crime organizado no Usbequistão. Rakhimov, que hoje reside na Rússia, visava ser introduzido na elite do COI pelo seu ex-presidente, o fascista Juan Antonio Samaranch. Mas no ano 2000, por orientação da FBI, ele foi banido da Olimpíada de Sydney para “garantir o bem-estar e a segurança da comunidade australiana”.

Em 2012, o Tesouro americano congelou todas as contas bancárias de Rakhimov ao redor do mundo, e um ano depois ele foi oficialmente declarado “membro-chave” do Círculo da Irmandade, uma entidade criminosa da Eurásia. Ele apareceu ainda mais nas manchetes há dois anos, quando o canal de TV ABC News, em Nova York, alegou que ele havia subornado membros do COI com “sacolas de dinheiro” para que a Rússia se tornasse a cidade-sede da Olimpíada de Inverno. Um porta-voz de Rakhimov negou o suborno, mas confirmou que houve “uma forte influência” de sua parte para conseguir votos para a Rússia. Depois em julho de 2014, o Tesouro dos Estados Unidos voltou a fazer acusações sobre seu envolvimento com tráfico de drogas. Quatro anos depois, Wu o escolheu a dedo para ser o vice-presidente da AIBA.

Wu ocupa também um lugar no Conselho Executivo do COI. Será que Thomas Bach, presidente do COI, consegue continuar a ignorar o fedor que a AIBA vem exalando?

*Texto originalmente publicado na revista britânica Private Eye.


 


Por uma lei para, de fato, fazer avançar o futebol no Brasil
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Juca Kfouri

Lei Geral do Futebol Brasileiro – Comentários à proposta de criação da Sociedade Anônima Desportiva – Sades


POR RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO*

1. Introdução

Será colocado em audiência pública um projeto de lei que pretende estabelecer a Lei Geral do Futebol Brasileiro (“LGF”).
A LGF trata, dentre outros temas, de (i) contrato especial de trabalho desportivo do atleta profissional de futebol, (ii) formação de atletas, incluindo registro de atleta em formação, bolsa formação, desligamento e transferência e indenização, (iii) prática de futebol profissional, (iv) regime especial de tributação aplicável às entidades de prática desportiva, constituídas em sociedades empresárias, (v) seguro de vida ou de acidentes para atletas, (vi) relações de trabalho do trinador profissional, (vii) direito de arena e imagem, (viii) gestão temerária nas entidades desportivas profissionais, (ix) ordem desportiva, (x) justiça desportiva e (xi) sociedades desportivas.
Neste texto aborda-se apenas o último tema, ou seja, as sociedades desportivas, denominadas, na LGF, Sades.

2. Pertinência do tema

Não resta dúvida de que o Brasil precisa de uma legislação que o coloque no mesmo nível dos demais países que protagonizam o futebol mundial. França, Espanha, Alemanha, Portugal e Itália, na Europa; e Chile, Colômbia e Uruguai, na América do Sul, são exemplos de países que perceberam, em alguns casos há muito tempo, essa necessidade.
Quanto a isso, todos que acompanham, apreciam ou se enlouquecem com o futebol, devem estar de acordo; contra se colocam, apenas, as pessoas que não pretendem que o esporte evolua.
Mas não pode ser qualquer legislação, simplesmente para que se comemore a sua existência. Caso contrário, o efeito será inverso ao pretendido.
O modelo brasileiro deve olhar para sua realidade, para os seus problemas, e encontrar suas soluções. Preferencialmente de modo simples, aproveitando-se de institutos e técnicas já existentes no próprio sistema.
E, sobretudo, com o propósito de criar um microssistema – um, digamos, ecossistema – equilibrado, que respeite os aspectos culturais do jogo de bola e a relação da torcida com o seu time, mas que, por outro lado, crie o ambiente necessário para formação de um mercado regulado, onde os times poderão encontrar os recursos necessários para investir, evoluir e crescer.
Ainda mais: para que times – e clubes – deixem de ser dependentes de agentes que não querem sua independência – justamente para controlar suas ações.
É com esses aspectos que uma legislação societária-futebolística deveria se preocupar.

3. A LGF

Talvez pudesse se afirmar que a LGF seja um avanço. Mas não é disso que o Brasil precisa. A Lei Zico trouxe avanços; a Lei Pelé, também. O Profut igualmente evolui em vários pontos. A LGF poderia, eventualmente, participar desse grupo.
Vive-se, em relação à administração do futebol, momento único. A fragilidade do modelo, decorrente de escândalos internacionais de corrupção, oferece oportunidade histórica de discutir e introduzir uma nova forma societária para a organização do futebol. Este é o momento.
Qualquer esforço legislativo não pode apenas dar um ou dois passos; deve resolver os problemas existentes. E, igualmente relevante, não pode criar outros.
E assim se enumeram, apenas como exemplos, 10 pontos (i) que devem ser objeto de profunda reflexão, para evitar o fracasso do projeto, (ii) bem como que representam problemas que a LGF não resolve ou, ao contrário, cria:
1. A sociedade anônima com propósito de organizar o futebol é matéria de direito societário, e não de direito desportivo. É evidente que há de haver profundo conhecimento e sintonia com esta disciplina, mas em hipótese alguma uma inversão valorativa. Uma Lei Geral do Futebol, que trata de tema específico dentro do gênero direito desportivo, deveria, simplesmente, prever, em um único artigo, que é admitida a constituição de sociedade anônima do futebol, na forma de lei especial. E deixar para esta lei especial a sua regulação.
2. A técnica sugerida no item anterior permite isolar a discussão societária da esportiva. Além disso, evita que o trâmite seja afetado por conta de outras discussões, inegavelmente relevantes, mas que envolvem interesses próprios.
3. Assumindo-se que uma lei geral do futebol deva regular apenas o futebol, não faz sentido a criação da sociedade anônima desportiva (Sades). Amplia-se equivocadamente o objeto.
3.1. Mesmo que se tente, no art. 70 da LGF, indicar que a Sades se aplica primordialmente à prática do futebol, seu alcance é muito mais amplo. E assim revela enorme potencial de gerar dúvidas interpretativas e de aplicação, podendo incrementar o nível de litigiosidade. Ou comprometer sua eficácia.
3.2. Além de trazer para discussão pública agentes que, de modo legítimo, terão interesse em propor modificações pensando em suas modalidades de atuação, criando-se, assim, um ambiente diversionista – quando, na verdade, o que deve estar em discussão numa lei geral da modalidade é apenas esta modalidade.
4. Uma lei que pretende resolver problemas do futebol brasileiro pode – e deve – olhar, entender e importar certas soluções existentes em outros países. Mas não copiá-las, sem as devidas adaptações. A LGF faz isso, ao incorporar, literalmente, regras existentes no direito espanhol e, sobretudo, no português, que – novamente – fazem sentido para suas realidades.
4.1. Lembre-se ao legislador, aliás, que o país deixou de ser colônia portuguesa há quase dois séculos; e que a dominação espanhola, por conta da unificação ibérica, durou apenas de 1560 a 1640.
5. Uma lei que pretende ser definitiva deve ser concebida como um sistema integrado, harmônico e lógico. Ao copiar leis ibéricas, e a elas incorporar praticamente todas as normas de um outro projeto existente, este concebido para regular exclusivamente a sociedade anônima do futebol (Projeto de Lei 5.082/16, de autoria do Deputado Otavio Leite – PSDB/RJ; a seguir definido como “PL 5.082/16”), reconhece-se, por uma lado, suas qualidades, e de outro, a insuficiência e inaplicabilidade das leis de referência.
6. Ao tentar um exercício de encaixe de todas essas leis e projetos, somando-se outras disposições, produz-se uma lei sem integração, pouco harmônica e, em certos aspectos, ilógica. Talvez um ornitorrinco jurídico.
7. Exemplo disso é o tratamento diferenciado que se dá a Sades, em função da forma como ela se constitui. Assim, no caso de constituição da Sades em decorrência da personalização jurídica das equipes, conforme termo empregado no art. 71, II, o clube fundador somente poderá deter, a qualquer tempo, no máximo 40% e, no mínimo, 15% do capital social.
7.1. Não há motivo para existência dessa regra, que aniquila o interesse do clube em constituir uma Sades, pois, necessariamente, não a poderá controlar. Esta deve ser uma decisão exclusiva dele, clube, e não do legislador.
8. Ainda neste caso de personalização jurídica das equipes – algo que, aliás, a doutrina se matará para explicar o que é e como se realiza -, o clube somente poderá integralizar sua parcela no capital em dinheiro.
8.1. Trata-se de proposição anacrônica e, diante de outras normas contidas na LGF, contraditória. Isto porque a modalidade “personalização da equipe” reconhece o valor dos elementos que a compõem, tais como marcas, direitos econômicos de atletas, estádio e outros ativos utilizados pelo futebol. E assim deve ser, pois, mais do que dinheiro, o que clubes têm a oferecer, e que vale, em certos casos, realmente muito, são seus ativos atrelados ao futebol.
9. A LGF também interfere na autonomia da Sades de organizar-se, econômica e operacionalmente. Decorre da definição de teto, de 30% de seu orçamento anual, para pagamento ao clube, em contraprestação da utilização de instalações físicas (como estádios).
9.1. Essa intervenção talvez fizesse sentido se aplicada no âmbito de um programa de salvamento econômico ou financeiro, a exemplo do que pretendeu o Profut. Não, porém, quando se trata de relação privada, entre clube e uma sociedade empresária, a qual, aliás, poderá ter diversos acionistas.
10. Para concluir os exemplos escolhidos, a LGF define o destino de certos ativos da Sades, em caso de sua extinção, sem guardar qualquer relação com a sua efetiva situação patrimonial e com a sua estrutura societária (isto é, com a divisão do capital social entre seus acionistas, incluindo o clube).
10.1. Isto porque, no caso aventado, as instalações desportivas serão atribuídas necessariamente ao clube desportivo. Mas e se o clube deixar de ser acionista? Ou se detiver, por exemplo, 5% do capital social, e o estádio, por exemplo, representar 50% do patrimônio? É mais uma norma que ignora a natureza empresária da Sades e interfere indevidamente no seu funcionamento e na sua organização.

4. Conclusões

A LGF incorpora, no capítulo destinado à Sociedade Anônima Desportiva, toda a estrutura da SAF, prevista no PL 5.082/16; mas insere uma série de outros dispositivos, que abalam a coerência sistêmica.
Para que se forme o mercado que o país precisa, que terá enorme potencial de contribuir para o seu desenvolvimento social e econômico, é recomendável que se adote um sistema próprio, sem a tentação de importar mecanismos que talvez se justifiquem em seus países de origem, mas não no Brasil. A exemplo do PL 5.082/16.
E, igualmente relevante, que sua discussão no Congresso, pela matéria envolvida, se separe de uma Lei Geral. Esta, de natureza esportiva; aquela, societária.

*Rodrigo R. Monteiro de Castro é Mestre e Doutor em Direito Comercial (PUC/SP),Professor de Direito Comercial (Mackenzie) e Ex-Presidente do Instituto de Direito Societário Aplicado (IDSA).



[Paratodos] estreia dia 23
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Juca Kfouri

NOTA DO BLOG: Normalmente você encontra este aviso no pés das notas do blog.

Esta exceção se justifica.

O que você lerá abaixo é um “release” sobre um filme a ser lançado: PARATODOS.

Normalmente “releases” são textos promocionais para vender seu peixe, uns bons, outros ruins.

Os que tratam de cultura costumam ser os melhores, porque com senso crítico, vergonha na cara.

O de abaixo é muito bom, embora não dê conta de expor o que é exatamente o filme de que trata.

Pude vê-lo e também não sou capaz de exprimi-lo.

Não sei se é comovente porque é profundamente alegre ou se é alegre porque é profundamente comovente.

Sei que é uma lição de vida e não pelos motivos que você pode imaginar.

Além de fazer quem o vê torcer feito louco num jogo de futebol ou numa prova de velocidade.

Juca Kfouri


Através das historias dos atletas Alan Fonteles, Daniel Dias, Fernando Fernandes, Terezinha Guilhermina, Susana Schnarndorf, Yohansson do Nascimento, Fernando Cowboy Rufino e Ricardinho, o filme faz um recorte sobre a bem-sucedida história do esporte paralímpico brasileiro

Trailer: https://www.facebook.com/paratodosofilme

PARATODOS, dirigido por Marcelo Mesquita e roteirizado por Peppe Siffredi, dupla de realizadores intitulada Sala12 que lançou os documentários Cidade Cinza (2013) e A Viagem de Yoani (2015), estreia nos cinemas brasileiros no dia 23 de junho, com distribuição da O2 Play.

A produção acompanhou de perto quatro equipes paralímpicas: natação, atletismo, canoagem e futebol, em um intervalo de quatro anos (2013 – 2016), por seis países: França, Canada, Japão, Itália, Catar e Brasil.

Ao assistir pela primeira vez a uma Paralimpíada, Londres 2012, o diretor Marcelo Mesquita, fanático por esportes, “tomou um susto” ao ver Alan Fonteles, 21 anos, brasileiro do Pará, vencer o maior atleta paralímpico da história, Oscar Pistorius.

Após o feito, vieram os questionamentos: “Quem é ele? Como ele corre sem as duas pernas? Como ele pode ser tão rápido? Como tem tanta gente neste estádio se as Olimpíadas já acabaram? Como um brasileiro venceu o maior de todos? O Brasil é uma potência paralímpica, como assim? E a principal questão: Como eu não sei responder a nenhuma destas questões?”

Com esta motivação surgia PARATODOS, um filme que parte do esporte para abordar questões humanas. Nos treinos, em competições, sob pressão, nas derrotas, nas vitórias, revela-se a verdadeira personalidade e os conflitos dos indivíduos retratados, e eles são comuns a todos. O filme foge do lugar comum da superação da deficiência para abordar problemáticas como: egotrips, autoestima, esperança, bullying, perfeccionismo, companheirismo.

Este é um filme de esporte em que nem todos vencem; um filme sobre pessoas com deficiência que possui tensão, humor, emoção; um filme sobre um Brasil que dá certo, que vence e dá espetáculo.

Busca-se também através deste documentário, que antecede a primeira Paralímpiada a ser realizada na América do Sul, trazer o debate sobre a inclusão à tona, colaborando na luta por um país mais acessível, justo e inclusivo.

O momento presente da vida dos nossos atletas, além de levantar e emocionar plateias mundo afora pelo alto nível das performances, desperta a atenção em torno de um tema latente: a necessidade de um diálogo pela inclusão da pessoa com deficiência física na sociedade.

Com isso, a Sala12 juntamente com a coprodutora Barry Company, a distribuidora O2Play, uniram forças para que o PARATODOS chegue aos cinemas no dia 23 de junho de 2016.

UM DIA PARATODOS: Para fazer uma distribuição para todos, quebrar as barreiras e aproveitar a proximidade com os Jogos do Rio, a O2Play criou uma estratégia diferenciada de lançamento: Dia 21 de junho, será UM DIA PARATODOS, quando a pré-estreia do filme acontecerá em diversos cinemas do Brasil simultaneamente, com ingressos de meia entrada.

Tanto no circuito arthouse quanto no circuito mais comercial, as sessões contarão com a presença de atletas, realizadores e personalidades ligadas ao filme e ao tema.

A ideia é criar um grande movimento em torno do lançamento, ter uma pré-estreia acessível e diferenciada. UM DIA PARATODOS firmou parceria com a Taturana Mobilização Social, que realizará mobilização junto a Instituições e Organizações Sociais que trabalham com a inclusão da pessoa com deficiência, para que sessões (inclusivas) durante a pré-estreia sejam organizadas a fim de levar um público ainda maior aos cinemas.

PARATODOS NAS ESCOLAS: A ideia de levar o PARATODOS à rede pública de ensino nasceu de uma certeza dos realizadores: o debate sobre inclusão não deve ocorrer somente no âmbito do esporte. Está na base, na educação, no acesso a cultura e educação. Assim, a Sala12 e a Taturana Mobilização Social, com patrocínio da Caixa Loterias, se juntaram para levar o debate à rede pública de ensino. PARATODOS ao mesmo tempo em que estará nos cinemas, será exibido gratuitamente em escolas públicas de várias regiões do Brasil. O desafio não é pequeno: chegar a 2 mil unidades escolares e aproximadamente 200 mil alunos até o fim de 2016!

 

SINOPSE

PARATODOS mergulha no cotidiano de alguns dos principais atletas paralímpicos brasileiros para investigar os bastidores do esporte de alta performance e discutir a inclusão da pessoa com deficiência na sociedade. No universo paralímpico, se superar não é uma opção ou gesto de heroísmo, é somente o ponto de partida.

“Se você olhar para o que uma pessoa pode fazer em vez do que ela não consegue fazer, a perspectiva muda e perde-se a visão de coitadinho”. (Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro).

 

PERSONAGENS


 Alan Fonteles: velocista detentor do recorde dos 100m e 200m. Nos Jogos de Londres, ele superou Oscar Pistorius, o único atleta da história a competir entre os convencionais, e conquistou o ouro nos 200m rasos. Virou capa de jornais, fechou contratos de patrocínio e se tornou um dos símbolos do esporte. Mas a sua luta pela vida começou cedo. Com apenas 21 dias de vida, teve as pernas amputadas depois de uma infecção. Começou a correr com oito anos depois de assistir ao ídolo Robson Caetano nas pistas, e assim o menino que corria com próteses rústicas, passou a correr com as lâminas especiais que o levaram ao sucesso. Porém, em 2014, passou a faltar em treinos, ganhou peso e foi afastado da seleção. Agora ele está tentando provar que ainda é o grande atleta que fora até pouco tempo atrás.


Daniel Dias: maior nadador do mundo, um colecionar de prêmios e recordes: 15 medalhas em Jogos Paralímpicos. Recebeu o troféu Laureus, vulgo “Oscar do Esporte”, como Melhor Atleta com Deficiência em 2009 e em 2013. Apenas quatro outros brasileiros receberam este prêmio: Pelé, Ronaldo Fenômeno, Bob Burnquist e Raí. Daniel nasceu com má formação congênita dos braços e da perna direita, mas isso nunca o impediu de participar das peladas com os amigos. O tempo passou e, aos 16 anos, o campo deu lugar às piscinas. E pouco depois a sua consagração nos Jogos de Pequim. Hoje o nadador já tem conquistas suficientes para estar entre os maiores do esporte brasileiro, olímpico ou paralímpico.

Fernando Fernandes: o tetracampeão mundial de paracanoagem era um modelo de renome, estudou teatro, participou do reality show Big Brother Brasil 2, fez fotos para Vogue, campanha para Dolce & Gabbana, e em paralelo praticava esportes e cursou educação física. Até que no dia 04 de julho, quando voltava para casa após uma partida de futebol, sofreu um acidente que lhe causou lesões medular e cerebrais. Perdeu o movimento das pernas. Durante um período de fisioterapia, descobriu a modalidade que novamente o consagraria no mundo todo: a paracanoagem. Poucos meses depois do acidente, Fernando começou a competir e se tornou uma referência da canoagem paralímpica: tricampeão sul-americano, tetracampeão mundial, bicampeão Pan-americano, pentacampeão brasileiro e campeão da Copa do Mundo. E o atleta quer mais: voltar a andar e a medalha nos Jogos Paralímpicos Rio 2016.


Terezinha Guilhermina: a velocista cega mais rápida do mundo. Nos Jogos Paralímpicos Londres 2012, ao completar a prova dos 100m em 12’01”, garantiu seu lugar no livro dos recordes. Mineira, de origem pobre, formada em psicologia depois de adulta, colecionadora de prendedores de cabelo, descobriu apenas aos 16 que que nasceu com retinose pigmentar, doença congênita que provoca perda gradual da visão. Antes, acreditava que era assim que todo mundo enxergava. Dos seus doze irmãos, cinco também têm deficiência visual. Quando está competindo, ela diz que se sente uma “artista” diante da possibilidade de apresentar ao mundo aquilo que mais sabe e gosta de fazer: correr. Veterana, deseja que 2016 seja o ano de sua vida profissional, para, em seguida, alcançar seu ápice como mulher: ser mãe.

Susana Schnarndorf: a única atleta da delegação paralímpica brasileira a ter representado o país tanto entre os convencionais, antes de sua doença se manifestar, quanto entre os paralímpicos. Até os 30 e poucos anos, ela era uma das principais triatletas brasileiras, tendo participado de 13 edições Iron Man e vencido alguns deles, e mãe de três crianças, sendo uma delas recém-nascida. De um dia para o outro, esta pessoa que possuía um corpo “perfeito” cai na cama com uma doença degenerativa muscular gravíssima, uma espécie de Parkinson raríssimo combinado com outras moléstias. Através da natação, ela recupera parte de seus movimentos e volta a competir, vencendo uma medalha de ouro no mundial de natação no Canadá. Atualmente, Susana, que luta contra a doença que progressivamente diminui sua capacidade motora e intelectual para poder representar o Brasil nos jogos, precisa ser reclassificada para continuar competitiva e obter índices para participar dos Jogos.

Yohansson do Nascimento: nasceu com má formação nas mãos, fato que não o impediu de agarrar as chances que a vida lhe reservou. Aos 17 anos, entra em contato com o atletismo quase por acaso e, aos 21, recebe sua primeira medalha paralímpica. Ele é um exemplo de esportista. Obstinado nos treinos, sereno e simpático fora das pistas, ele se destaca pelos resultados: vencedor de quatro medalhas paralímpicas em duas edições diferentes dos Jogos, e se destaca também pela alegria, pela simpatia, pelo carisma que possui. Em Londres, protagonizou uma cena que ficou imortalizada na historia dos Jogos, logo após vencer os 200 metros, ele exibiu um cartaz em plena pista no qual pedia sua noiva em casamento.


Fernando Cowboy Rufino: fisiculturista e montador de rodeios, Fernando Rufino, o Cowboy, sofreu quatro acidentes antes de se tornar um dos grandes nomes da paracanoagem. “Acho que Deus tem caminho pra gente. A única coisa que me faria parar de montar em touros seria virar paralitico. Aqui é roseta, é loucura”. É assim, com sotaque carregado, de chapéu e um sorriso largo, que Cowboy resume as fatalidades que o levaram a se tornar um grande canoísta: ele foi pisoteado por um touro competindo num rodeio, atropelado por um ônibus do qual caiu pela porta, colidiu contra uma arvore de carona numa moto e foi atingido por um raio durante um temporal em casa. De lá pra cá, entre outras conquistas, ele foi ouro no campeonato Pan-americano no México, prata e um bronze nos mundiais na Rússia e a Itália, vice-campeão Europeu na Republica Tcheca e ouro no Sul-americano.


Ricardinho: o melhor jogador do futebol de cinco do mundo na atualidade. Aos oito anos de idade, depois de dois anos lutando contra um problema na visão, ficou cego. Na época, pensou ser o fim do seu sonho de ser jogador. Hoje, é um craque reconhecido. Nas escolinhas do Santa Luzia, em Porto Alegre, o atleta reencontrou o futebol e já era destaque aos 12 anos, quando atuava contra meninos de 15, 16 e 17. Aos 15, ele foi selecionado para a seleção brasileira e um ano depois, foi eleito melhor jogador do Mundial. Em 2010, foi campeão e, daí em diante, sua carreira só melhorou. Ele treina em dois turnos, com ênfase na preparação física e no aprimoramento técnico. Acredita que ter enxergado antes ajuda na sua performance.


Curiosidades Olímpicas
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Juca Kfouri

Você sabia que a edição mais longa das Olimpíadas foi a de 1908, em Londres, que duraram 188 dias?

Que há 76 países no mundo que jamais ganharam uma medalha olímpica?

E que o cabo de guerra já foi um esporte olímpico?

O especialista em esportes e curiosidades, jornalista Marcelo Duarte acaba de lançar, pela editora Panda Books, “Infográficos olímpicos”, livro recheado de números e informações rápidas sobre a história dos Jogos.


É só abrir as primeiras páginas para descobrir qual é o atleta com o maior número de medalhas em Olimpíadas – Michael Phelps, nadador norte-americano, detém o recorde com 22 delas.

Por sinal, os Jogos de Pequim, em 2008, acumulam o maior número de recordes quebrados: foram 175, entre mundiais e olímpicos.

Mais adiante, são reveladas informações como quem foi o mais jovem a competir em uma Olimpíada e que esporte é campeão em casos de doping. Sabe quem?

O atleta mirim se chama Marcel Depaillé, francês de apenas sete anos que disputou a prova de remo em 1900, e o esporte com mais trapaceiros é o halterofilismo, que acumula 43 casos registrados de doping. Quanto à nacionalidade, o ouro fica para os gregos, que já foram pegos no exame 11 vezes!

O livro também funciona como material de consulta. A apresentação por meio de infográficos deixa mais fácil a comparação de tempo em esportes como a maratona e o atletismo, além do destaque dos diversos recordes olímpicos. Todas as edições das Olimpíadas da era moderna, desde 1896, têm seus dados dissecados, trazendo o registro de número de atletas, países participantes, quadros de medalhas, recordes e muito mais. Isso sem, em momento algum, descuidar das curiosidades. Ao citar o jamaicano Usain Bolt, por exemplo, homem mais rápido do mundo, Marcelo Duarte compara sua performance à de adversários do reino animal. Numa corrida, Bolt, que atinge 44 km/h, perderia do coelho, do avestruz, do coiote, do cavalo, da leoa e, de longe, do guepardo, que corre a 115 km/h!

Uma seção especial traz dados fresquinhos, com os mais curiosos números dos últimos Jogos Olímpicos, em Londres, 2012. Foram 5 milhões de litros de água mineral consumidos pelos atletas e 110 mil mililitros de protetor solar utilizados pelos remadores durante as competições. E em um capítulo exclusivamente dedicado à evolução tupiniquim nas Olimpíadas, você vai descobrir que o Brasil, na verdade, é o país do… vôlei! Nossos atletas acumulam um total de 108 medalhas ao longo da história dos Jogos, e a modalidade que mais contribuiu foi o vôlei, com vinte delas. Que os Jogos de 2016 tragam ainda mais curiosidades!

Você pode achar que tudo isso é cultura inútil, que não muda a vida de ninguém.

Mas que é divertido saber é impossível negar e Marcelo Duarte tem a manha de como tornar este saber ainda mais saboroso.

NOTA DO BLOG:A área de comentários do UOL está em manutenção.


Vote no projeto da Transparência Brasil de monitoria de construção de escolas
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Juca Kfouri

A Transparência Brasil é uma das finalistas do Desafio de Impacto Social do Google 2016 com o aplicativo “Cadê a Minha Escola”, uma ferramenta que permitirá o monitoramento participativo da construção de escolas e creches públicas.

O projeto pressionará governos locais a entregarem as obras sem atrasos e desvios de recursos públicos.

A maior parte das construções é financiada com verbas federais que são repassadas a governos locais para contratar empresas de construção civil.

No entanto, boa parte dos investimentos não é concluída.

De acordo com dados de 2015, 20% das obras foram abandonadas ou paralisadas e outras 34% registravam atraso médio de um ano letivo.
Apenas por ser finalista, a Transparência Brasil , irá receber um financiamento de R$ 650 mil para implementar o projeto piloto, mas está  concorrendo a um financiamento de R$ 1,5 milhões, para implementar o projeto completo.

E uma das formas de obter esse financiamento maior é por meio do voto popular.

Para votar no projeto, basta acessar o link abaixo.

https://desafiosocial.withgoogle.com/brazil2016/charity/transparencia-brasil


Se você gosta de clássico, divirta-se nesta noite
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Juca Kfouri

Se você gosta de clássicos, a noite desta quarta-feira é um prato cheio: serão cinco, quatro deles muito atraentes.

Logo às 19h30, no Beira-Rio, um dos líderes, o Inter, recebe o Atlético Paranaense.

Depois, às 21h, além de Santa Cruz e Sport, no Arruda, tem Corinthians e Santos, em Itaquera.

E não pára por aí, não.

Às 21h45, no Horto, tem Galo e Fluminense, além de Botafogo x Cruzeiro, no Mané Garrincha, este um clássico um pouco esvaziado pelo momento dos dois times.

A noite de bola ainda será contemplada com Figueirense e São Paulo e Coritiba e Chapecoense.

Não dá para se queixar de monotonia.

Quer palpites?

Inter, Santa Cruz, Corinthians, Galo e Cruzeiro vencem. Figueirense e São Paulo e Coritiba e Chapecoense empatam.

Depois divirta-se me cobrando pelos erros, já que dos acertos ninguém nunca se lembra. Só eu…

Comentário para o Jornal da CBN desta quarta-feira, 1º de junho de 2016, que você ouve aqui.


 

 

 


Brasil é o único país a ter quatro clubes com mais de 100 mil sócios-torcedores
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Juca Kfouri

São Paulo ultrapassa barreira dos 100 mil e se junta a Corinthians, Palmeiras e Internacional

Garantido nas semifinais da Copa Libertadores, o São Paulo tem registrado grande ascensão em seu programa de sócio-torcedor .

Nesta terça-feira, o  tricolor superou a barreira de 100 mil associados (100.151) e agora faz parte de seleto grupo, que já contava com Corinthians, Palmeiras e Internacional.

Mais: faz do Brasil o primeiro país a ter quatro clubes com mais de 100 mil sócios-torcedores.

De acordo com levantamento feito pelo Movimento Por um Futebol Melhor, apenas 13 clubes do planeta já ultrapassaram essa marca:

Bayern Munique (258.000), Arsenal (225.000), Benfica (157.000), Barcelona (150.000), Sporting (136.389), Borussia Dortmund (130.000), Corinthians (128.101), Palmeiras (126.675), Internacional (112.756), Porto (110.000), Chelsea (100.000) e Tottenham Hotspur (100.000).

Antes de o São Paulo superar a barreira, o Brasil estava empatado com Portugal e Inglaterra no número de representantes.

Atual líder do Campeonato Brasileiro, o Grêmio é outro próximo de chegar aos 100 mil sócios-torcedores. Com 94.892 inscritos em seu programa, o clube gaúcho aparece na quinta colocação do Torcedômetro e, em 2016, já registrou 6 mil novas adesões.


Um, dois, três
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

1.
Ele não era importante na charanga: tocava reco-reco. Quase não era ouvido perto do tarol, do pandeiro, do pistão e do surdo na animação da torcida – que eram só algumas dezenas de espectadores nos degraus atrás do alambrado.

Mas jogo sem ele era sem graça. É que toda vez, no meio do segundo tempo, ele, fraco, magro, calado, largava o reco-reco, pedia silêncio e fazia o que era a atração principal, muito maior do que o jogo e a charanga.

Paravam todos para ver e ouvir. Jogadores, juízes, torcedores, charanga, tudo.

Ele punha as mãos em conchas ao redor da boca e soltava o grito do Tarzan do Johnny Weismuller. Aquilo levava uns 20 segundos. Ecoava ao redor do campo, reverberava nos morros, alertava pássaros e motoristas longínquos, dividia a tarde ao meio.

No final, abria a camisa e dava socos no peito magro.

Depois, o jogo, o reco-reco, o resto da tarde, agora mudada.

Era o que valia a pena.

2.
Não era o mesmo campo da história acima, mas muito parecido, numa cidade próxima.

O sujeito era agrimensor, vindo da capital para obras na região. Tornou-se autoridade local pelo respeito à sua sofisticada tarefa nas ruas, estradas, fazendas.

Viam-no com o teodolito para todo lado, demarcando fronteiras e rotas, resolvendo pendengas de divisas, delimitando e mapeando o que era ignorado ou contencioso.

Aos domingos, assíduo nos jogos, começou a ser consultado sobre impedimentos duvidosos porque uma ameaça de linchamento do bandeirinha se dissipou quando ele interveio e disse que o auxiliar estava certo. Bastou: anulou-se o gol e ninguém discutiu.

Nos muitos meses em que ficou por ali, até que as obras o levassem para outra região, era obrigatório, nos jogos, que o juiz e os bandeiras, na dúvida, olhassem para ele, sempre sentado no degrau mais alto, na linha do meio de campo.

Ele fazia o sinal com o polegar, para cima ou para baixo, para validar ou não a decisão do bandeirinha.

E ninguém discutia.

O problema foi quando ele partiu. Na primeira partida, numa polêmica, lincharam o bandeirinha. Ninguém mais quis exercer a função.

Até hoje, me dizem, jogam sem bandeirinhas. O juiz deixa que os jogadores se entendam. Não havendo acordo, acaba o jogo.

3.
Com a camisa velha do Corinthians caindo nos ombros e alcançando os joelhos, o moleque baixo e magrelo jogava bola na viela de terra sem saída ao lado da linha do trem.

Sozinho, em dois, três, quantos houvesse, entre as cadeiras dos velhos fumando, as janelas das senhoras falando, as pernas das moças crescendo, as casas descascadas, os cachorros e as poças e cacos e latas e lençóis pendurados à beira da linha.

Tudo tremia quando o trem passava. Já no apito de longe começava a correria pra tirar do varal o que desse, pra evitar que a fumaceira sujasse tudo. Com medo, o moleque parava o jogo, ficava atrás de uma cadeira, segurando a bola no peito. Ou atrás das coxas das moças, abraçando seus joelhos. Depois da fumaça, do cheiro e das tosses, bola ao chão, cigarros, janelas e moças.

Ao cheiro da poeira, da fumaça do trem e do suor do jogo, foi se somando o das pernas das moças. A inquietude pra dormir. Nem sabia por quê. Cresceu um pouco e já lhes abraçava as coxas na hora do trem, o rosto atrás dos seus quadris.

Cresceu de vez, foi ser eletricista, biscate, vendedor, jogador da várzea, o trem nunca mais passou, uma das moças, novinha, se casou com ele. Fumando na viela, olha hoje a linha parada, os molequinhos com camisas do Corinthians, um deles é seu filho. As senhoras, os lençóis, a bola. E as pernas das novas moças.

Não pensa dessa forma, mas se soubesse e pudesse, diria que o mundo e a história do mundo estão inteiros ali.

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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).



Fechem os olhos
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Vocês não estão vendo. Nem ninguém. Mas ali está havendo um jogo. Onde? Ora, onde! Ali, bem à sua frente. Sei: nem mesmo o campinho vocês enxergam, não é? Nem a mim, eu sei; só me ouvem.

Mas isso basta. Prestem atenção à minha voz. Olhem para a frente. Mas não de olhos abertos. Assim é que não verão nada mesmo. Façam como eu: fechem os olhos. Tapem-nos com as mãos. Pronto. Agora vocês conseguirão assistir ao jogo.

Já veem o campinho, certo? Os buracos, as descaídas, o capinzal no fundo, o barro eterno num dos cantos. A bola velha, soltando lascas de couro, meio murcha. E o bando de moleques.

Reparem bem. Não são estranhos. São vocês. Magrelos, joelhos esfolados, pés encardidos, suor por todo o corpo. Correndo sem parar. Misturando-se uns com os outros, com o mato, com o barro, brigando pela bola como cães atrás de comida. Caem, rolam, pulam, chutam, brigam, riem, se abraçam, trocam socos, falam alto.

Vejam a si mesmos quando meninos jogando bola. Pensem em vocês agora. Parecem seres distintos, eu sei. Mas não é para se espantarem. Algo ocorreu – sempre ocorre, e não há quem saiba dizer o que é – desde aqueles jogos até hoje que tornou tudo e todos aparentemente tão diferentes. Por isso é que vocês não se reconhecem. Mas agora, observando bem, já têm certeza de que são vocês, certo?

Então. Vejam o jeito de cada um. A maneira de dominar a bola, de chutá-la, de esbravejar, driblar, dar passes, comemorar. Parece inacreditável, mas é assim que vocês ainda fazem hoje. Eu sei que vocês não jogam mais bola. Mas é por isso que estou lhes mostrando esse jogo. Para que percebam que é naquele campinho, com aquela bola, com os traços e modos que vocês tinham quando eram crianças e jogavam futebol que vocês forjaram o que são hoje.

Não falo de modos físicos. Nem de fracassos e sucessos. Falo da tormenta ou da paz de espírito. Da dignidade ou da covardia. Da respiração forte ou fraca. Do olhar altivo ou baixo. Da percepção ou não do espaço e do tempo e do que fazem ao percorrê-los. Esses são os fundamentos adquiridos nas peladas da infância e que os anos transformam em caráter.

Tudo isso está ali, no jogo à sua frente. Só que vocês então não o sabiam. Muito menos o sabem hoje. E tampouco o saberão daqui por diante. Porque assim que destaparem e abrirem os olhos tudo será esquecido. E o que é invisível voltará a sê-lo.

Vocês continuarão cegos, lutando, felizes ou infelizes, atrás de algo que não sabem o que é. Mas que provavelmente é voltar a jogar aqueles mesmos jogos. Para ter a chance – impossível – de tomar consciência de que ali se decidia o que viriam a ser ou deixar de ser hoje.

Agora chega. Podem abrir os olhos.

Veem? Pois é. É isso mesmo. Nada.

Não vemos nada, não é?

Mas é normal que não vejamos.

Porque não há mais nada para ver.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).



Livro escancara corrupção endêmica na Fifa
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Juca Kfouri

Jornalista Rodrigo Mattos detalha escândalos do futebol revelados por operação do FBI


Em 2015, depois de três anos de trabalho, a Agência Federal de Investigação (FBI) e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos escancararam o jeitinho Fifa de se fazer negócios: dirigentes embolsavam dinheiro e cediam direitos de marketing e televisivos de campeonatos como a Copa América e a Copa Libertadores da América para quem lhes pagasse mais.

Foram 18 acusados de pagamento e recebimento de propinas por contratos de competições em todo o continente americano, com destaque para o Brasil. José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), foi um dos sete dirigentes da Fifa presos em 27 de maio de 2015, numa operação policial em Zurique, na Suíça, que marcou o início da deflagração de uma série de escândalos envolvendo o órgão máximo do futebol mundial.
O caso que abalou as estruturas da Fifa é narrado com detalhes em Ladrões de bola.

O autor, Rodrigo Mattos, é jornalista esportivo, mantém um blog com reportagens diárias no UOL Esporte e já perfilou e entrevistou grande parte dos cartolas investigados.

No livro, ele aborda o tema delicado de maneira quase didática, contribuindo para o entendimento da trama de corrupção.

Bastam algumas das 184 páginas páginas para o leitor entender como o Brasil entrou na dança.

Em 1991, o empresário brasileiro José Hawilla, dono de uma empresa de marketing esportivo, descobriu o esquema de propinas que reinava na Fifa e quis tirar uma casquinha.

Levou os direitos de imagem da Copa Ouro, competição então recém-criada de seleções nacionais da Concacaf (Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe), depois de oferecer uma bolada de seis dígitos para Jack Warner, chefão da confederação.

Foi com o depoimento de José Hawilla à Justiça norte-americana, em 2014, que vieram à tona os escândalos futebolísticos tramados em solo brasileiro.

O empresário assumiu que concordou pagar subornos e propinas encobertos pelos contratos da Copa América, da Copa do Brasil e da Nike, patrocinadora da Seleção Brasileira, sob o mando do então presidente da CBF Ricardo Teixeira. A revelação levou à criação da CPI da CBF/Nike, na Câmara dos Deputados, e da CPI do Futebol, no Senado.

Os detalhes sórdidos presentes no livro prometem atrair não só os fanáticos por futebol, mas todo o público leitor interessado no funcionamento da máquina da corrupção, assunto que não poderia estar mais quente nos tempos atuais de crise política.

A escolha da África do Sul para sediar a Copa do Mundo 2010, por exemplo, custou 10 milhões de dólares não oficiais, negociados por representantes da Fifa com o governo do país africano.

Uma mixaria, comparada aos 100 milhões de dólares em subornos recebidos pela Fifa da gigante do marketing International Sport and Leisure (ISL), por muito tempo principal parceira da instituição.

A ISL acabou indo à falência de tanto pagar suborno a cartolas! Só Ricardo Teixeira embolsou uma mesada que totalizou 26,4 milhões de reais, com o objetivo de influenciar suas decisões ao renovar contratos relacionados aos direitos de transmissão e marketing da Copa do Mundo.

Capítulos exclusivos dedicados às falcatruas referentes à gestão de grandes competições como a Copa Libertadores da América e a Copa do Mundo 2014, sediada no Brasil, deixa clara a forma como a corrupção prejudica o futebol.

E, ao longo de todo o livro, o autor aproveita para traçar perfis de figurões dos bastidores do futebol, como José Maria Marin, Marco Polo Del Nero, Joseph Blatter e Ricardo Teixeira, contribuindo assim para o reconhecimento dos personagens envolvidos na trama criminosa e permitindo que mesmo o público não familiar com o tema esportivo tenha uma experiência proveitosa na leitura.

TRECHO

“Quando João Havelange estava idoso demais para seguir na presidência da Fifa, após 24 anos no poder, era natural que procurasse para substituí-lo um homem que daria seguimento à sua gestão e não remexeria no passado. Era preciso evitar que viessem à tona verdades inconvenientes. Para atender a esse tipo de requisito havia o seu braço direito na entidade: o suíço Joseph Blatter, secretário-geral do mundo do futebol. Sua carreira de cartola desen- volvera-se ligada às grandes corporações que atuavam junto à federação internacional de futebol, como a Adidas e a Coca-Cola. Conhecia a fundo os contratos e as relações com os donos do dinheiro que abasteciam a Fifa. Não sairia dali nenhuma resistência ou questionamento aos negócios realizados pelo chefão do futebol mundial.”

O AUTOR

Rodrigo Mattos é jornalista e iniciou a carreira em O Estado de S. Paulo em 1999, como repórter de Esporte. Depois de passar pelo diário Lance!, foi trabalhar na Folha de S.Paulo, onde ficou de 2005 a 2012, até ser transferido para o UOL. Cobriu duas Copas do Mundo e uma Olimpíada.

LADRÕES DE BOLA
R$ 35,90


Brasileirão tem quase um milhão de sócios torcedores
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Juca Kfouri

Clubes da Série A somam 941,721 inscritos no Movimento Por um Futebol Melhor

Entre os 20 clubes que disputarão a Série A nesta temporada, apenas Atlético Paranaense, Coritiba, Santa Cruz e Figueirense não fazem parte do Movimento.

O grande destaque entre os clubes participantes é o Corinthians, que tem 130.408 membros no Fiel Torcedor.

O Palmeiras, com 126.675 associados ao Avanti, e o Internacional, com 112.756 inscritos em seu programa, completa o pódio do “Torcedômetro”.

Atual campeão estadual e de volta à elite do futebol brasileiro após quatro anos na Série B, o América mineiro é o clube com menos sócios-torcedores: 1.902.

A Chapecoense, que disputa a primeira divisão nacional pela terceira temporada consecutiva, aparece logo à frente do clube mineiro, com 5.184.

Ao todo, o Movimento com 69 agremiações e 1.126.978 inscritos.

Confira o ranking (por ordem alfabética) de sócios-torcedores dos clubes que disputam o Campeonato Brasileiro de 2016:

América: 1.902
Atlético Mineiro: 61.504
*Atlético Paranaense: Não está inscrito.
Botafogo: 13.521
Chapecoense: 5.184
Corinthians: 130.408
*Coritiba: Não está inscrito.
Cruzeiro: 74.878
*Figueirense: Não está inscrito.
Flamengo: 54.811
Fluminense: 32.452
Grêmio: 94.726
Internacional: 112.756
Palmeiras: 126.675
Ponte Preta: 18.476
*Santa Cruz: Não está inscrito.
Santos: 63.396
São Paulo: 95.608
Sport: 43.656
Vitória: 11.768


“Somos todos esquizofrênicos”
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Juca Kfouri

O ex-parlamentar europeu Daniel Cohn-Bendit tem uma fraqueza por futebol.

Nesta entrevista, concedida ao diretor da combativa revista esportiva austríaca “ballesterer”, o jornalista Robert Florencio, ele fala sobre maus exemplos, gastança demasiada de dinheiro e dá seu palpite para a Eurocopa.


 
“Desde a infância estou ligado ao futebol. Minha alfabetização iniciou-se porque sempre quis saber o que estava escrito nas páginas esportivas do ‘L’Equipe'”, disse Daniel Cohn-Bendit nesta conversa num bistrô francês em Frankfurt.

Entrevistador do Doutor Sócrates, em 1984, e autor de excelente documentário durante a Copa de 2014 no Brasil, ele é mais conhecido como “Dany, o vermelho”, um dos principais ativistas dos protestos estudantis de Maio de 1968 em Paris, e por ter sido político do Parlamento Europeu pelo Partido Verde, do que como jornalista.


ballesterer – É sabido dos perigos de terrorismo durante a Eurocopa, que começa no próximo dia 10 de junho. Seria melhor aos visitantes tomar precauções especiais ou simplesmente não ir?

Daniel Cohn-Bendit – Eu não sei. O perigo de ataque está dado. Se, de fato, algo acontecerá ou não, depende de vários fatores. A qualidade da cooperação entre os serviços de segurança europeus desempenha um papel fundamental, porém, o acaso também. Entendo a preocupação dos torcedores, mas não se deve esquecer que, fora este evento, um ato terrorista é algo que pode acontecer a qualquer hora.
Quando se entra num trem-bala voltando para Viena, não se tem a certeza de que tudo correrá bem até a sua chegada. Aqui na Europa temos que aprender a viver com esta situação. Contudo, não devemos nos intimidar e seguir a vida normalmente.

O senhor vê as autoridades francesas bem preparadas contra possíveis ameaças?

Não tenho ideia sobre as atividades de serviço secreto. Eu só posso dizer que na situação atual, eu não desejaria, de forma alguma, ser o chefe do Ministério do Interior francês, pois só existem duas possibilidades: se nada acontecer, estiveram bem preparados. Caso algo aconteça, a responsabilidade recai sobre eles.

No recém inaugurado museu da FIFA em Zurique, o título mundial da França de 1998 é mostrado sob dois diferentes aspectos políticos. O primeiro é a aceitação do esporte pelos críticos intelectuais. O segundo aspecto seria a reconciliação dos três grandes grupos populacionais black, blanc, beurre. (negros, brancos e descendentes argelinos).
O senhor acredita que um novo título poderia reacender a atmosfera daquele tempo?

Sempre houve uns e outros intelectuais. Cito Albert Camus que sempre disse ter aprendido tudo o que sabe sobre ética humana nos campos de futebol.
Falando do outro aspecto, lembro dos dois milhões de pessoas de todas as classes sociais que participaram nas comemorações na Champs-Elysees em 1998. Ao contrário da demonstração daquela época, depois dos ataques recentes à revista “Charlie Hebdo”, onde outra grande manifestação do repúdio ao terrorismo e em prol da liberdade da imprensa foi organizada, os moradores dos Banlieues (subúrbios) não estiveram presentes.
Hoje a situação é bem mais complicada para muitas pessoas e ainda mais tensa desde os atentados.
Seria duvidoso dizer que uma alegria coletiva pudesse repetir-se, entretanto, se a performance da seleção for extraordinária, não excluiria esta possibilidade.

Os jogadores da seleção francesa expressam publicamente suas opiniões sobre temas sociais?

O primeiro nome que me ocorre é o de Lilian Thuram, que luta bravamente por intervenções anti-racistas. Depois temos Vikash Dhorasoo, que cuida de jovens dos guetos e Emmanuel Petit que frequentemente faz afirmações sociopolíticas.
Mas estes jogadores são exceções – todos já terminaram suas carreiras. Não é bem como no Brasil, onde vários jogadores antigos, que fizeram carreira na Europa, agora investem em doações ou possuem Fundações próprias que oferecem melhores oportunidades às crianças pobres.
O que, por exemplo, Raí e Leonardo fizeram no Brasil com sua Fundação Gol de Letra, serviria como um excelente exemplo para jogadores europeus.

Isto funcionaria se alguém como Karim Benzema se engajasse na periferia?

Se ele tivesse algo na cabeça, sim. Não devemos esperar muito dos jogadores, porém, meu desejo é que eles se dedicassem um pouco mais socialmente. Com o dinheiro que ganham, poderiam facilmente fazer um bocado e contribuir mais socialmente.

A França sediará, após a Eurocopa de 1984, da Copa de 1998 e do Campeonato mundial de rúgbi em 2007 o quarto grande evento esportivo em 32 anos. Existem problemas de financiamento? E como será a sustentabilidade das novas arenas?

O Governo injetou novamente dois bilhões de euros para a construção de novos e a adaptação de antigos estádios. Isto é uma quantidade altíssima, mas os franceses não tem uma disciplina fiscal tão rígida como os alemães. O aspecto sustentabilidade não teve um papel importante e somente agora , com a intenção de sediar os Jogos Olímpicos de 2024 na capital, a prefeita parisiense apresentou um projeto ecológico para tal.

Em outros países europeus há cada vez mais oposição contra eventos esportivos de grande porte. Seriam os franceses mais adeptos por tais espetáculos e menos conscientes do impacto ecológico?

Temos um pouco de ambos, mas existem protestos também na França. Os ecologistas protestaram em Lyon contra a construção do novo Estádio na periferia da Cidade, onde um monte de árvores foi arrancado. Também em Paris, um grupo de cidadãos se formou pela preservação de um parque que será afetado pelos trabalhos de ampliação do estádio de tênis Roland Garros. E, sim, é verdade: se houvesse um plebiscito na França, a maioria decidiria provavelmente a favor dos eventos esportivos – não importa se Eurocopa ou se Jogos Olímpicos.

No campeonato francês, Paris Sant-Germain parece inalcançável, por muitos anos, graças ao dinheiro do Catar. Como pode se competir com isso?

Se observarmos as principais Ligas européias, constatamos um problema de dinheiro. Podemos, por assim dizer: somos todos esquizofrênicos.
No aspecto do futebol em si, que é regido pelos negócios, é uma crueldade. Somente a ideia de conceder uma Copa do Mundo ao Catar, já é, por si só, um escândalo. A Rússia no seu estado atual é igualmente outro escândalo. E no que concerne aos Campeonatos nacionais: Se não houver regras de limites para os investidores estrangeiros, o mesmo time será sempre o mais beneficiado e o grande favorito aos títulos.
O futebol está sendo tragado pelo dinheiro e este fato possui efeitos sobre a psique dos jogadores, como se pode observar nas diversas escapadas. Eles perdem totalmente a noção em relação à vida real, pelas grandes somas de dinheiro que recebem.
Por isso compreendo as pessoas que não querem mais desperdiçar seu tempo com este mundo surreal e nem querem preocupar-se mais com tal coisa. Este é um lado.

E o outro lado?

Com frequência, se vê jogos de alta qualidade e grande dramaturgia – como no último confronto entre Bayern de Munique e Juventus. Ficamos fascinados. E, embora saibamos que Lionel Messi e Neymar enganem o fisco e Luis Suarez goste de morder, contiuamos fascinados com os atacantes dos sonhos do Barcelona. Esta é a esquizofrenia na qual vivemos.

Falemos de política esportiva. A FIFA tem um novo presidente, a UEFA ainda terá que escolher um em pouco tempo. Como o julgar todos estes escândalos?

A Copa de 2006 foi comprada, com certeza. O comportamento de Franz Beckenbauer foi muito desajeitado. Se ele tivesse falado desde o início que ninguém receberia uma Copa sem suborno por causa das estruturas corruptas da Fifa, hoje seria um herói. Entretanto, por causa das inúmeras mentiras e permanentes manobras, ficou numa situação complicada.
O que para mim é especialmente terrível, são os contratos que os países organizadores das Copas são forçados a assinar com a Fifa.
O presidente da Fifa espera ser tratado como Chefe de Estado. Nas zonas que envolvem os arredores dos estádios não vigoram mais as leis do país-sede, mas sim as da própria Fifa. Estes fatos mostram, claramente, o poder desta entidade, conseguido graças aos patrocinadores e aos direitos de transmissão. Isto é um absurdo.

Michael Platini está envolvido até o pescoço nas teias da corrupção e finalmente foi obrigado a deixar seu cargo como Presidente da UEFA. Qual a importância dele?

Michel Platini decepcionou muito. Entrou como um grande reformador, facilitou o caminho para os times menores da Liga dos Campeões e introduziu o jogo limpo financeiro. Coisas que jamais passariam pela cabeça de um Beckenbauer. No exemplo de Platini, se vê claramente: quando se faz parte de um sistema que permite a corrupção, se é tragado facilmente.

Alguma ideia de como este rumo poderia ser mudado?

Numa conversa com a ex-ministra dos Esportes, sugeri uma categoria de ingressos econômicos para as camadas excluídas. Ela saiu e não deu.

No geral é necessário puxar o freio monetário dos negócios ligados ao futebol?

Inicialmente eu começaria com os contratos de TV, que possibilitariam aos canais não pagos a livre transmissão dos jogos. Além disso, deveriam ser introduzidos limites financeiros para a cobertura dos direitos de transferência da TV e logo a seguir tetos salariais para os jogadores.
Também na formação das categorias de base, seria necessário uma proteção para os clubes formadores, evitando, desta forma, uma saída prematura das jovens promessas. Deveria haver ajustes mais claros nestas áreas.

O que se poderia fazer para diminuir o abismo que existe entre os pequenos times, os de médio porte e os 20 top de linha, que são clientes de carteirinha da Liga dos Campeões?

Meu receio é que seja tarde demais. Os grandes tiraram vantagens, tanto finaceiras quanto esportivas, as quais não podemos mais retirar. Contudo, todos os campeões das diferentes Ligas européias deveriam ter chances justas de fazer parte da Liga dos Campeões. Nos resta a esperança por surpresas, como o ocorrido na Inglaterra, com o time de Leicester.

O que esperar da Eurocopa? Como vê as chances da França levando em conta as vitórias em casa nos últimos torneios?

Logicamente que temos chances, porém não será fácil. Os jogos a partir das oitavas de final ficam bem acirrados, nesta fase tudo é possível. Me lembro do jogo contra o Paraguai em 1998, aonde a vitória só foi possível nos acréscimos e com bastante dificuldade. O melhor jogo foi a final. Mas, recapitulando o torneio em sua totalidade, uma grande porção de sorte foi necessária.

E a Alemanha? Joachim Löw disse que a Eurocopa é somente uma pequena parada a caminho da Copa de 2018, na Rússia.

Ele é realista e sabe que seu time não está tão forte atualmente. Philipp Lahm já não está mais no time. Bastian Schweinsteiger está machucado. Mesut Özil é um mistério, às vezes está presente, às vezes não, Ilkay Gündogan está lesionado e fora. Além disso, os problemas defensivos na esquerda e na direita. Não será fácil para eles, mas são, como todo mundo sabe, um time que cresce durante o torneio.

Quem mais teria em sua lista de favoritos para o título?

Os espanhóis, mas temos que observar se conseguiram remodelar o time, após o vexame da Copa.
Então os ingleses, que após um longo período conseguiram formar um time bem forte e também os belgas, que despertam muitas expectativas. Caso eu tivesse 1.000 Euros, apostaria em vários times.


Jogando no escuro
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

1.
No futebol de cegos a bola tem guizos para que os jogadores a localizem, dominem, troquem passes, chutem – joguem, enfim. Atrás do gol adversário fica o “chamador”, que, com a voz e batidas de metal nas traves, dá a direção e o alvo aos jogadores do seu time. A torcida tem que fazer silêncio total para não atrapalhar o som da bola e do chamador.

Uma bola de guizos e um chamador.

É isso.

Ele de repente descobre do que precisa a esta altura do segundo tempo.

Para saber o que fazer e para onde ir, em vez de ficar correndo a esmo como tem feito desde o apito inicial.

Ah, e de silêncio também.

2.
Desde cedo a capina, marmita, à tarde de novo capina, de noitinha chegava a hora da bola. De botinas, chapéus, calças rotas, um punhado para cada lado, enxadas, ancinhos e foices demarcando o campo e as traves, a umidade e o calor empapando o ar, o cheiro do ribeirão e do capim cortado, os restos de mato voando sob as solas, era tudo isso, todo dia, toda a vida. Até que houve a briga. Todos contra todos. As enxadas, os ancinhos e as foices, mais as facas das cintas e das botas, fizeram a sangueira escorrer no capim, quase todos mortos, picados, decepados, só três ficaram em pé, se olhando com medo e respeito, contando no chão as mortes estripadas e assistindo ao afluente de sangue dar no ribeirão, que ficou vermelho e correu pra algum lugar que eles imaginavam ser um lago enorme e fundo e então eles jogaram os pedaços dos corpos na corrente, limparam o que puderam, esfregaram as roupas, recolheram as armas, colocaram-nas na carroça e foram embora. À noite, só ficou ali no campo da capina, do jogo, das mortes, a bola. Debaixo de um arbusto, como se escondida e amedrontada. Nos gomos arregalados, respingos de sangue. O barulhinho espesso e rubro do ribeirão era seu antiacalanto.

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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).



Um livro, quatro crianças e muitas coincidências
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Juca Kfouri

POR CESAR OLIVEIRA*

Ele veio ao Rio de Janeiro para um evento na ABI. Era novembro de 2011. Protestávamos no “Comitê Popular Rio – Copa e Olimpíadas” contra a absurda maneira como o pessoal da Vila Autódromo estava sendo tratada, com o pé da porta e a retroescavadeira derrubando as paredes, numa reedição modernizada do “Ponha-se na Rua”.

O debate começando e eu curtindo o prazer de estar ao lado dele na plateia, conversando e esperando o momento em que ele seria convidado para subir ao palco e falar, com a conhecida contundência, contra aquela tremenda sacanagem perpetrada contra a população carioca.

A imprensa (ao contrário de agora), nada falava. Parece que a imprensa brasileira adora escolher o lado errado da força. Estava ao lado dos empreiteiros e incorporadores – esses mesmo aí agora envolvidos até o ú na Lava-Jato, governantes e empresários, armando o golpe dos Jogos Olímpicos, uma roubalheira sem tamanho que o jornalista investigativo escocês Andrew Jennings denuncia pelo mundo afora, só aqui que não lhe dão guarida, preferem ficar ao lado dos filibusteiros do dinheiro público.

(Depois dessa rápida digressão, voltemos ao nosso personagem, ao lado do qual eu estava sentado)

Apresentei a ele um exemplar do livro “O passe e o gol”, que ele escrevera há seis anos e havia dedicado “à Luiza, a netinha mais linda que já aconteceu na sua vida”.

Ele sorriu daquele mesmo jeito que a gente vê na televisão, soltou um “Opa!” e perguntou para quem ele deveria autografar o livro.

– É para o meu neto!
– Ah, que legal! E como ele se chama?
– Ainda não nasceu! É uma dedicatória prévia!

Ele riu e tascou:

“A quem vier, quando vier,
com um beijo afetuoso do
Vovô Juca”


Dito isso, duas conclusões:

1 – à minha nora Fabiana Portas e ao meu filho Thiago Carvalho Oliveira, comunico que estou botando nos Correios, para Ana Luiza e Victória, o exemplar do livro que Vovô Juca Kfouri autografou para elas em novembro de 2011.

2 – para Vovô Juca Kfouri, comunico, então, que quem veio, veio em dobro: as gêmeas Ana Luiza e Victória chegaram fazendo tabelinha, feito Pelé e Coutinho, Roberto Miranda e Jairzinho, Silva Batuta e Almir Pernambuquinho, em dezembro passado, filhas de um carioca flamenguista e uma paulistana da Moóca.

Mas… qual é a surpresa desse livro, autografado pelo vovô Juca, em novembro de 2011, para “quem viesse, quando viesse”?

É que a história de “O passe e o gol” é – pasmem! – a história de irmãos gêmeos – Joãozinho e Marinho – muito amigos, mas que, quando tinha bola no meio, era briga na certa…

Ora, ora… Juca Kfouri! Olha aí os deuses do futebol – como eu sempre disse, esses tremendos sacanas – aprontando mais uma!

Daqui a alguns anos, Ana Luiza (o passe? o gol?) e Victória (o gol? o passe?) poderão receber das mãos da mamãe Fabiana e do papai Thiago, o livro que vovô Cesar pediu pro Vovô Juca autografar há algum tempo, “para quem viesse, quando viesse”.

Mas o que me deixa mais feliz mesmo, feliz de fato, mais feliz que pinto no lixo, é que, na história do Vovô Juca, os gêmeos vão jogar do mesmo lado, no mesmo time… o Preto e Branco Futebol Clube!

UAU!!!

Como Botafoguense, Vovô Cesar fica feliz, com mais uma – quem sabe? – premonição consumada naquela tarde de 25 de novembro de 2011.

Caprichem na tabelinha, meninas!

Será que vai dar encrenca, Vovô Juca?…

*Cesar Oliveira é editor da Livros de Futebol.

NOTA DO BLOG: Por essas coisas é que viver segue sendo muito legal.


Manobra de Jucá dá em nada e CBF liga o alerta vermelho
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Juca Kfouri

A cúpula da CBF percebeu, de repente, que o seu homem de ouro na CPI do Futebol,  Romero Jucá, deixará o Senado  para se tornar, nas próximas horas, o poderoso ministro do Planejamento de Michel Temer.

O lobista da CBF Vandenbergue Machado colheu sete assinaturas para aprovar o apressado relatório de Jucá, repleto de platitudes e sem incriminar ninguém.

A manobra não deu certo porque dependia da aprovação do presidente da CPI, senador Romário.

Nenhuma reunião da CPI acontece sem a convocação dele.

Jucá conseguiu de seu aliado Renan Calheiros a publicação do relatório, de resto inócuo, porque a CPI seguirá até agosto.

Romário não fará um gesto enquanto não houver a decisão de Calheiros quanto à questão de ordem de Randolfe Rodrigues,  aprovada pelo senador Benedito de Lira contra a manobra de Ciro Nogueira, a serviço da CBF, que buscou anular a convocação de notórios corruptos de nosso futebol.

Romário e Randolfe sustentam que a convocação dessas pessoas, por enquanto barrada pela manobra de Nogueira e liberada pela decisão de Lira, vai trazer dados fundamentais para a investigação.

Com a saída iminente de Jucá a CBF entrou em alerta vermelho.