Blog do Juca Kfouri

Arquivo : setembro 2016

Os melhores jogadores
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

1.
Fim da cerimônia, ele se aproximou e cumprimentou:

– Senhor Sebastião! Prazer enorme em conhecê-lo.

Era o novo presidente do time, na solenidade de posse, cumprimentando o zagueiro central, jogador mais antigo do elenco, titular há mais de dez anos, eterno capitão, respeitado na cidade e na redondeza como o melhor de sua posição em todas as épocas.

– Eu sou o Dr. Leopoldo, Sebastião. Mas pode me chamar de Léo.

Alto, negro, forte, ele apertou firme a mão do presidente e falou baixo e grave:

– Muito prazer, Elpídio Silva Soares.

– Hein?

– Muito prazer.

– Não.

– …

– Como disse?

– Muito prazer.

– Não!

– Não o quê?

– O nome. Qual nome você disse?

– Elpídio Silva Soares.

– Não é Sebastião?

– Não. É Elpídio.

A confusão ocorreu porque, antes do início da cerimônia, o presidente que deixava o cargo citou no seu discurso, mostrando–os para o que tomava posse – que nada conhecia do time e nem de futebol: era um jovem empresário com pretensões políticas –, um a um os jogadores do time.

Foi falando os nomes e as posições de cada um. Deixou para o final o zagueiro, dada sua importância. E fez elogios especiais, na linguagem empolada que costumava usar nessas ocasiões:

– Por fim, ali está o principal jogador de nossa plêiade, responsável maior pelas nossas glórias inumeráveis. Líder e referência máxima da nossa agremiação aqui e alhures, urbi et orbi. Nosso zagueiro, capitão, comandante, a fortaleza, o baluarte de nossa defesa, o nosso inexpugnável bastião!

As palmas irromperam fortes. O zagueiro se levantou, agradeceu e sentou-se de novo.

Foi por isso que, no fim da cerimônia, o novo presidente, percebendo que a amizade com o zagueiro o ajudaria no início de sua gestão, se aproximou para cumprimentá-lo. E daí sua estranheza.

– Não é Sebastião?

– Não, senhor.

– Mas… O apelido…

– É Pipi, senhor. Ao seu dispor.

2.
– O segundo melhor jogador de futebol da história!

Foi o que disse o homem simples, trabalhador braçal da pousada, para surpresa do casal brasileiro.

Ocorreu de verdade. Em 1991. Numa pousada pequena e charmosa num lugarejo de mil habitantes na França.

O casal brasileiro de professores compartilhava a grande mesa de jantar com professores, escritores, advogados de vários países. Na mesma mesa sentavam-se as proprietárias e o funcionário do lugar.

À pergunta sobre sua origem, o casal respondeu: “Brasil”.

Indagaram se eles eram do Rio de Janeiro, Brasília, Recife, São Paulo. Disseram que não, que eram de outra cidade, chamada Belo Horizonte. Ninguém conhecia.

Mas o funcionário levantou o rosto da sopa e disse:

– Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais?

– Sim, isso mesmo! Como você sabe?

Ele sorriu, orgulhoso e feliz:

– É a cidade do Tostão!

E arrematou com a frase lá do início.
________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).

NOTA DE ESCLARECIMENTO: Problemas técnicos desde ontem têm impedido o recebimento de comentários. A área responsável cuida de resolver a questão, mas, como se percebe pela demora, não está fácil.


Ronaldo, 40
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Alguns jogadores mudaram a história do futebol brasileiro.

Alguns poucos – embora a lista de craques seja extensa.

Todos eles foram como um clarão imenso.

Uma redescoberta do jogo de bola.

Uma revolução.


O primeiro foi Charles Miller, óbvio.

Charles ensinou o brasileiro a jogar.

Quando todos pensavam que já tinham visto tudo?

Friedenreich.

Quando El Tigre parecia sublime e inexcedível?

Veio Leônidas e suas bicicletas.

Um atacante feito de borracha e sorriso.

Na década de 50 estávamos perdidos.

Derrotados e complexados como nunca.

Os deuses nos mandaram não um, mas dois fenômenos:

Pelé e Garrincha.

E os dois cismaram de não perder nada juntos em campo.

Monotonia.

Apareceu Zico e suas cobranças de falta e pênaltis.

Seus dribles curtos.

O futebol moribundo renasceu nas noites de Buenos Aires e Montevidéu.

Todos eles, sem exceção, foram pichados e glorificados.

Deuses e demônios.

Tempo que passa.

Um belo dia o excepcional goleiro Rodolfo Rodrigues defende uma bola.

O Bahia já perdia por 4 x 0 do Cruzeiro.

Rodolfo deixa a bola no chão e dá esporro na defesa.

Quando Rodolfo olha pro chão, cadê a bola?

Um menino dentuço saía gritando gol.

O futebol brasileiro que andava borocochô, de novo, renasce.

O menino explode para o mundo em gols e arrancadas.

Faz delirar o Nou Camp.

Faz miséria ao lado de Romário.

Vai aos céus.

Desce aos infernos.

Literalmente falando.

Chorando no gramado em sua dor infinita.

Brilhando contra a Alemanha na final inesperada.

Ronaldo se tornou no maior conto de fadas do nosso futebol.

Sete jogadores fantásticos.

Sete epopeias dentro e fora do campo.

Pelé e sua caixinha de engraxate.

Pelé chorando machucado em 1962 e 1966.

Pelé esculhambado em 1969.

Pelé trazendo a Jules Rimet em 70.

Zico sofrendo calado com seu irmão preso no DOPS.

Zico acusado de ser jogador de Maracanã.

Miller vendo sua amada nos braços da poesia.

Friedenreich velho e desmemoriado.

Leônidas preso por Getúlio.

Garrincha cirrótico num hotel de quinta categoria.

E Ronaldo.

Velho e gagá em Paris.

Lesão no tendão patelar contra o Lecce.

Ronaldo desabando na sua volta contra a Lazio.

Claro.

Não dá pra saber ainda do final da história.

Ronaldo tem apenas 40 anos.

Mas ele habita o território único.

Olimpo.

O altar dos sete jogadores que mudaram a história do nosso futebol.

· Com todo respeito e admiração a… Julinho, Romeu, Zizinho, Romário, Tostão e por aí afora!


Daniel Dias x Michael Phelps
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Nada de Spitz.

Onze medalhas olímpicas são pouca coisa nessa disputa.

Os dois maiores nadadores da história são Dias e Phelps.

Entre eles, qual o melhor?

A pergunta é feita evitando falar em dificuldades pessoais.

Em suposta deficiência física.

Vamos falar de eficiência técnica.


Michael Phelps ganhou fama no nado borboleta e livre.

Mesmo caminho de Spitz.

Quando brilha no medley – prova que reúne os quatro estilos.

Phelps é soberbo no nado livre e borboleta.

Evoluiu muito no nado de costas.

Porém, está longe de ser genial no nado de peito.

Polivalência em natação é artigo raro.

É?


Para Daniel Dias não!

Daniel chegou a Pequim/2008 nadando livre, borboleta, costas e peito.

Melhor!

Daniel chegou ganhando medalhas nos quatro estilos da natação, além do medley.

Um nadador completo.

Caso inédito nas piscinas contemporâneas.

Daniel tem 24 medalhas olímpicas no currículo.

Phelps tem 28.

Daniel vai a Tóquio.

Phelps pode acabar indo também.

Porque ambos são peixes dentro d’água.

Com uma diferença.

Daniel brinca nas quatro.

Como Pelé brincava nas onze…


Lusa em linha reta
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Juca Kfouri

Por ÁLVARO DE CAMPOS

Ah, Juquinha!

Todas as crônicas de futebol são ridículas.

Mesmo assim nós as escrevemos –

e não seriam crônicas de futebol se não fossem.

Meu amigo Bernardo diria:

De sonhar ninguém se cansa.

Sonhar é esquecer, diria eu.


Veja bem que levei o Algisto Lorenzato para a Lusinha.

Isso mesmo, o Algisto!

E junto com Brandão e Oto Glória montamos o time.

Djalma Santos, Marinho Peres, Nena e Ceci.

Um time dos sonhos que apenas não jogou junto por ingratidão de Deus.

E se no futebol devemos ter todos os sonhos do mundo.

Quando Brandãozinho dominava a pelota e tocava pro Dicá.

Quando Dicá acordava o Enéas para jogar.

O Canindé era o Paraíso.

Mário Américo correndo e tocando bateria?

Ora, pois!

Tombamos na Tombense… piada fácil de português.

Deixemos Botelho contra os onze da Tombense.

Botelho solitário no Tejo de nós.

Botelho português que os italianos queriam Boteglio.

Bastaria o Julinho!

Adeus, Tombense.

Porém, voltando ao tema.

Não acredito muito no presente e no futuro.

Eles não existem.

Tudo o que existe é o passado.

O passado que corre com Dener e Simão.

O passado naquela velha Lisboa que deixei para ter a São Paulo.

Eu que sempre fui estrangeiro em todo o mundo.

Uma Lisboa triste e cinzenta.

Lisboa que não existe mais.

Como talvez não exista mais a minha Portuguesa.

Refúgio na garoa ante os efeitos da saudade.

Esta saudade que me desce lágrimas.

Lágrimas de um simples torcedor.

Torcedor que finge sentir a dor que deveras sente…

E para os torcedores das outras equipes?

Aqueles que riem da nossa sorte ingrata?

Aqueles que nos julgam por Héverton?

Meu abraço!

Porque nunca conheci torcedor que houvesse tomado porrada.

Todos os meus coirmãos têm sido campeões.

Em tudo.

Todos sempre foram príncipes.

Todos eles, príncipes nos noventa minutos dessa vida!


Os pitis de Paulo Nobre
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Juca Kfouri


Paulo Nobre rodou a baiana novamente, ontem, como você pode ler e ver AQUI.

Não é a primeira vez, como você pode ler abaixo.

(Do UOL Esporte, 6/9/2015)

O presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, se irritou com provocações de torcedores do Corinthians presentes no camarote da Allianz, empresa que patrocina e dá nome ao Allianz Parque, tentou entrar no local e causou confusão durante o clássico que terminou em empate por 3 a 3, neste domingo (6), pelo Brasileirão. O Palmeiras confirma o atrito, mas não o envolvimento de Nobre – o UOL Esporte sustenta a informação.
Nobre começou a assistir à partida no camarote da diretoria, que fica imediatamente ao lado do camarote da Allianz. Após um dos gols do Corinthians, torcedores rivais presentes no camarote da patrocinadora comemoraram gols e provocaram os palmeirenses, tanto nos camarotes como nas arquibancadas – as provocações pueram ser vistas de diversos pontos do estádio. Tal postura causou irritação dentro do camarote de diretoria, que foi até o camarote da Allianz para tirar satisfações.
O presidente Paulo Nobre foi um dos que se incomodaram e partiu para o camarote ao lado. Nobre tentou entrar no local, mas foi impedido por seguranças. Após o atrito o presidente deixou o camarote da diretoria e assistiu ao resto do jogo de outro local.
A postura de torcedores rivais nos camarotes do Allianz Parque tem gerado certa polêmica. Não foi a primeira vez que palmeirenses – tanto diretoria como torcida – se incomodaram com comemorações e provocações rivais dentro de camarotes. Desta vez, porém, o caso gerou confusão por se tratar de um clássico.

(Do diário “Lance!”, coluna De Prima, 23/9/2015)

O presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, poderá sofrer uma ação judicial por conta de uma confusão antes do jogo contra o Grêmio no último sábado, 19, no Pacaembu.
Segundo informações da coluna, o dirigente palmeirense insultou o juiz Ulisses Augusto Pascolati Júnior, do Juizado Especial Criminal (Jecrim) e que era o responsável pelo Juizado do Torcedor na partida.
Após o ocorrido, Pascolati Júnior registrou um boletim de ocorrência contra Nobre e um inquérito policial foi aberto para apurar o caso.
Os insultos de Paulo Nobre teriam ocorrido logo após o dirigente deixar o vestiário do Palmeiras para ir de carro até os camarotes do Pacaembu. Na saída do estacionamento do estádio, o carro do juiz Pascolati Júnior estava parado no portão impedindo a saída de Nobre, fato que irritou o dirigente palmeirense.
A versão do presidente do Palmeiras é que a reclamação foi feita ao porteiro do estacionamento do Pacaembu.


Corinthians sai do G4
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Juca Kfouri

Aos 15 minutos o Corinthians achou um gol com Marlone e passou a ser pressionado pelo Coritiba até que Fagner fizesse um pênalti infantil e Leandro empatasse, aos 28.

Fagner não jogará o Dérbi, suspenso pelo terceiro cartão amarelo e provavelmente Uendel também não, machucado e substituído por Guilherme Arana logo aos 5 minutos.


O jogo ficou equilibrado e morno até o segundo tempo em que o Corinthians jogou melhor, ainda mais depois que, aos 37, João Paulo foi expulso e deixou o Coxa com 10.

O empate persistiu e o Corinthians saiu do G4.

Voltará?


Rio 2016: Anistia Internacional entregará 200 mil assinaturas e balanço sobre violações de direitos humanos na Secretaria de Segurança
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Juca Kfouri

Pessoas de mais de 20 países pediram uma política de segurança pública que respeite os direitos humanos

Homicídios cometidos pela polícia aumentaram 103% entre abril e junho na cidade do Rio


No próximo dia 15 de setembro, a Anistia Internacional entregará as mais de 200 mil assinaturas coletadas pela campanha “A violência não faz parte deste jogo” à Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro.

Junto com as assinaturas, a Anistia Internacional também vai protocolar o documento “Um Legado de Violência”, que aponta violações cometidas pelas forças de segurança no contexto da Rio 2016, como homicídios praticados pela polícia, repressão a protestos e a militarização da cidade.

A concentração da atividade terá início às 10h na Praça Duque de Caxias (em frente à Central do Brasil).

A campanha “A Violência não faz parte deste jogo” foi lançada pela Anistia Internacional em junho deste ano apontando para o risco de violações de direitos humanos no campo da segurança pública antes e durante a realização de um megaevento esportivo como a Olimpíada.

A organização alertou para o histórico de aumento de mortes decorrentes de intervenção policial no contexto de
megaeventos anteriores, como os Jogos Panamericanos (2007) e a Copa do Mundo (2014) e exigiu a adoção de medidas preventivas.

Os alertas, porém, foram ignorados e o padrão de abuso da força letal pelos agentes de segurança pública se repetiu na preparação e realização da Olimpíada Rio 2016.

Entre abril e junho, trimestre que antecedeu os Jogos Olímpicos, a cidade do Rio de Janeiro sofreu um aumento de 103% no número de homicídios cometido por policiais em serviço em comparação ao mesmo período de 2015.

Nas duas semanas de Olimpíada, entre 5 e 21 de agosto, pelo menos 8 pessoas morreram durante operações policiais e 92 tiroteios foram registrados na cidade do Rio de Janeiro. A repressão à manifestações e protestos foi outra violação de direitos por agentes do Estado durante os Jogos Olímpicos

Em pouco menos de três meses, a Anistia Internacional reuniu mais de 200 mil assinaturas , sendo cerca de 30 mil do Brasil, pedindo políticas de segurança pública que respeitem os direitos humanos.

Os apoiadores incluem cidadãos e cidadãs do Reino Unido, Espanha, Noruega, Holanda, Coréia do Sul, Japão, Argentina e Paraguai, entre outros países, que se mobilizaram para exigir medidas contra o uso excessivo e desnecessário da força pela polícia, além de garantias de investigação rápida e imparcial de violações e apoio psicológico a vítimas.

 


Santa Via Crucis
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

O Santa Cruz é clube centenário e pop.

Sua torcida é imensa e apaixonada.

Torcida capaz de lotar estádios pelas séries D afora.

Fenômeno planetário na mídia.

Todo mundo sabe que o Santa Cruz cometeu descalabros financeiros.

Desastres pecuniários.

Sandices inimagináveis pra quem não é clube de futebol.

Porém, nas últimas administrações, a cobra botou a cabeça no lugar.

Geriu melhor seu veneno.

Conseguiu fugir do autoflagelo do populismo das finanças do futebol nacional.

Todo mundo pensou!

Agora o Santa Cruz conquista o Brasil.

Ainda mais com o título estadual e regional na mão em 2016.

Só que a grana constrói e destrói coisas belas.

Clubes como Santa Cruz, Remo, Ceará, Paysandu, Fortaleza são primos.

Primos pobres do futebol brasileiro.

Com o fracionamento espúrio do dinheiro nas competições no país.

Com o beneficiamento de quem vive mais perto dos e das capitais.

A lei da gravidade tem preferência por quem está fora do Clube dos Doze.

Má gestão?

É democrática.

Tem de norte a sul.

Mas enquanto não houver uma regra justa que possibilite a oxigenação de todos.

Teremos torneios pra inglês ver.

Aliás, nem mesmo ingleses.

Porque eles já resolveram essa obscenidade faz tempo.

Ou será que os ingleses rasgam dinheiro?


Ela
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

1.
O campinho ficava bem no alto do morro. Meia hora de subida. Chegavam lá cansados.

Mas valia a pena. Era um platô pequeno, com grama natural, com as traves de bambu que eles mesmos haviam colocado.

Só que em volta era tudo morro. Não tinha lateral nem tiro de meta nem escanteio. Um palmo ou dois depois dos limites do campo eram as inclinações – se a bola chegasse ali, rolaria até o sopé e fim de jogo.

O jeito era jogar como eles faziam. Toques curtos, suaves. Aproximações, dribles secos, domínio perfeito.

Pra fazer gol tinham que conduzir ou tabelar até as traves e, com o pé em cima da bola, fazê-la ultrapassar a linha e puxá-la.

Isso criava um cuidado, uma delicadeza de movimentos que lembravam o balé.

E, como no balé, eles jogavam em silêncio.

Só o vento, um pássaro, um chiado, vindos de algum lugar distante, formavam a música inaudível que eles dançavam.

Fui lá uma vez. Não quis jogar, temendo deixar a bola escapar e acabar com o jogo. Fiquei só olhando.

Admirei de início o domínio que eles tinham sobre a bola.

Mas logo percebi que não era bem isso.

Na verdade, era a bola quem os comandava.

Era ela quem imperava, ditava o ritmo, dirigia os movimentos.

Ela era a majestade.

Os meninos eram seus súditos.

O campinho, um tipo de palácio.

2.
O livro “Uma escola em jogo” (Editora Sesi), de José Santos e Rogério Correa, trata de muitas modalidades de literatura e de esporte.

Na parte relativa ao futebol, há uma constatação brilhante: é possível encontrar de tudo no lixo, menos uma bola de futebol.

É verdade.

Ninguém joga fora uma bola de futebol.

Porque a bola sempre será usada até se desintegrar, até esfarelar, até desaparecer.

E digo mais. Não só não se joga bola no lixo como do lixo retira-se de tudo para servir de bola: lata, cabeça de boneca, sapato, coco, caixa, roupa, etc.

Coisas que, depois de assumir esse papel, também serão usadas até se desintegrarem, até esfarelarem, até desaparecerem.

Porque a bola de futebol – como parte que é do ser humano – foi criada por Deus.

Do pó.

E, tal como o ser humano, não tem senão um destino: só ao pó voltará.


O ciclo da omissão
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Juca Kfouri

POR RODRIGO FERREIRA*

Os Jogos Rio 2016 não aprenderam com Londres uma de suas principais conquistas e, infelizmente, a sensação é de que talvez tenhamos voltado ao patamar de igualdade e valorização dos Jogos Paraolímpicos de Pequim 2008.

Por incrível que pareça, não no âmbito esportivo, mas sim no que talvez seja o mais importante para o Movimento Paraolímpico: a mensagem, o tratamento verdadeiramente igual entre atletas e seres humanos.

De um lado, o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) traz não apenas a esperança de ser quarto colocado, mas sim um verdadeiro legado esportivo. Em que resultados são fruto de planejamento de longo prazo, investimento em estrutura e valorização do esporte como pilar da transformação social. Equação perfeita para trazer medalhas. E elas virão, todos os dias, de baciada.


O símbolo mais reluzente e o maior “legado” esportivo dos Jogos Rio 2016 está não no Rio (talvez aí prova maior do pensamento de longo prazo), mas em São Paulo, num ponto quase equidistante de todo o ABC Paulista. O Centro Paralímpico Brasileiro, pasmem, foi inclusive base para a preparação de parte do Time Brasil Olímpico e será um centro de excelência e formação para as próximas gerações.

Por outro lado, o que ficou em falta foi o que parecia mais fácil (e correto): passar a mensagem, como Londres fez, que quando se tem espírito esportivo, determinação e coragem, nas pistas, quadras ou campos não há diferença. Para o Rio 2016, houve.

Os patrocinadores que são responsáveis por criar o clima entre a população e levar os Jogos para todo o país falharam. Omitiram-se ao longo de praticamente todo o ciclo, reduzindo sua presença a quase uma política de cotas. Atitudes de igualdade e ações verdadeiramente transformadoras foram uma raridade e que, por fim, tiveram mais apoio de empresas não patrocinadoras dos Jogos.

A omissão do próprio Comitê Rio 2016, este presidido pelo, no mínimo singular, mesmo presidente do nosso Comitê Olímpico (!?!) deu totais sinais de desigualdade e falta de respeito com os mais de 20% de brasileiros que possuem alguma deficiência (dados do censo de 2012). Os gastos descontrolados e mal planejados relegaram à competição Paralímpica um segundo plano. Nem a marca dos Jogos anteriores foi trocada na na sinalização pela cidade.
E todo o discurso de que o financiamento dos Jogos era fruto exclusivamente da iniciativa privada foi por terra quando, com o saldo negativo, a organização foi “obrigada” a recorrer ao Governo Federal e receber aportes de patrocínio de empresas públicas há menos de um mês dos Jogos.

Tratamento desigual que encontra paralelo na atenção dada pela mídia. Enquanto todo o vitorioso planejamento de igualdade dos Jogos de Londres deu a um outro canal (Channel4) um Jogos para chamar de seu e dar toda a atenção do mundo, no Rio a cobertura já está fadada aos flashes na programação. Entendendo sim a diferença de audiência, os Jogos em uma emissora menor proporciona a valorização do esporte com a mesma atenção dedica pela emissora oficial ao evento inegavelmente maior.

Não à toa, duas das campanhas mais emblemáticas dos Jogos de Londres estão relacionadas aos Paraolímpicos e a sua emissora oficial (links). Assim que os Jogos Olímpicos de Londres acabaram, o Channel 4 não se fez de rogado e espalhou outdoors pela cidade agradecendo pelo aquecimento. Afinal, a grande disputa estava prestes a começar. Na sua programação, um dos mais belos filmes já feitos para o esporte de modo geral tomava conta das tvs e da web.

Sim há diferença de tamanho do evento. Mas não pode haver diferença no tratamento. É responsabilidade de todos, de ponta a ponta, dar o exemplo que os atletas nos dão. Afinal, quando é dada a largada não existem limitações, apenas competição, apenas esporte. Aí sim teríamos, como nossos atletas Paraolímpicos, ouro atrás de ouro.

Que comecem os Jogos de todos. Parabéns, antes de começar, para o CPB e todos aqueles que independentemente da forma e do tamanho se orgulham em fazer parte do Movimento e fazer algo pelo esporte e pelo país.

*Rodrigo Ferreira, jornalista, publicitário e Geraldino acima de tudo.
https://br.linkedin.com/in/ferreirarodrigo


Stalin (Geórgia) x Hitler (Áustria)
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Os dois maiores ditadores do século XX reinaram longe de casa.

Hitler deixou sua Áustria.

Stalin abandonou a Geórgia.

Pobres, revolucionários, fanáticos e traiçoeiros.

Ambos percorreram o longo caminho das ruas ao Poder.

O futebol para ambos era propaganda.

Boa, barata e da qual pouco conheciam dentro das quatro linhas.

Hitler lançou aas bases do futuro poderio do futebol alemão.

Embora tenha dançado em casa nas Olimpíadas de 1936.

Seu pupilo Herbergger não fez feio no pós-guerra.

Stalin aprendeu com o colega e arquirrival.

Pegou o Dínamo de Moscou e mandou pra Inglaterra em 1945.

O Dínamo abriu a temporada em grande estilo.

Empatando com o Chelsea por 3 x 3.

Depois deu um pulo em Cardiff.

Sapecando 10 x1 no frágil Cardiff City.

O Arsenal acenou?

O Dínamo derrotou o Arsenal por 4 x 3.

Os britânicos estavam atônitos.

O Dínamo encerrou sua temporada empatando com o Rangers.

Stalin esfregou as mãos de contentamento.

Pegou o dinheiro da aposta com Churchill.

E liberou a vodka para seus heróis na volta pra casa.

Pois é.

Porém, taco a taco, cara a cara, nazistas e soviéticos nunca se enfrentaram.

Apenas nas ruelas de Berlim e do leste europeu.

Austríacos e georgianos?

Também não.

Até hoje.

Quando os países natais dos déspotas se encontraram pelas eliminatórias.

Uma partida que teria terminado em paredão nos anos 30 e 40.

Uma partida que hoje foi disputada na raça.

E, felizmente, apenas na bola…


NOTA PÚBLICA DO MOVIMENTO POR VERDADE, MEMÓRIA, JUSTIÇA E REPARAÇÃO
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Juca Kfouri

NOTA PÚBLICA DO MOVIMENTO POR VERDADE, MEMÓRIA, JUSTIÇA E REPARAÇÃO

O governo Temer anunciou hoje uma intervenção inédita na Comissão de Anistia, órgão do Estado brasileiro responsável pelas políticas de reparação e memória para as vítimas da ditadura civil-militar. Pela primeira vez se efetivou uma descontinuidade de sua composição histórica.

Desde a sua criação pelo governo FHC, a comissão é composta por conselheiros e conselheiras com grande histórico de atuação na área dos direitos humanos, mantendo-se, ao longo do tempo, a integralidade dos seus membros e as composições integrais advindas dos governos anteriores. Os eventuais desligamentos de conselheiros(as)sempre ocorreram por iniciativas pessoais dos próprios membros, sendo substituídos(as) gradativamente.

Essa característica sempre assegurou a pluralidade em seu formato que, até pouco tempo atrás, abrigava inclusive membros nomeados para sua primeira composição ainda no governo FHC em 2001. Isto reflete a compreensão da Comissão de Anistia como um órgão de Estado e não de governo.

Além disso, novas nomeações sempre foram precedidas por um processo de escuta aos movimentos dos familiares de mortos e desaparecidos, de ex-presos políticos e exilados, além de organizações e coletivos de luta por verdade, justica, memoria e reparação.

Pela primeira vez na história da Comissão de Anistia foram nomeados novos membros sem nenhuma consulta à sociedade civil e pela primeira vez foram exonerados coletivamente membros que não solicitaram desligamento.

O Diário Oficial da União publicou duas portaria do Ministro Alexandre de Moraes, uma com a nomeação de 20 novos conselheiros e outra com a exoneração de 6 membros atuais que não haviam solicitado desligamento do órgão. Outros 10 atuais conselheiros foram mantidos. Não foram divulgados os critérios desta seletividade.

Os conselheiros desligados são Ana Guedes, do Grupo Tortura Nunca Mais da Bahia e ex-presidente do Comitê Brasileiro pela Anistia na Bahia; José Carlos Moreira da Silva Filho, vice-presidente e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais da PUC-RS; Virginius Lianza da Franca, ex-coordenador geral do Comitê Nacional para Refugiados; Manoel Moraes, membro da Comissão Estadual da Verdade de Pernambuco e ex-membro do GAJOP; Carol Melo, professora do núcleo de Direitos Humanos da PUC-Rio; Marcia Elayne Moraes, ex-membro do comitê estadual contra a tortura do RS.

Ao dispensar esse grupo de Conselheiros, o governo Temer coloca a perder quase uma década de memória e de expertise na interpretação e aplicação da legislação de anistia no Brasil.

Uma outra portaria nomeou no mesmo dia, de uma só vez, 20 novos conselheiros e conselheiras. Alguns dos nomes anunciados são vinculados doutrinariamente ao polêmico professor de Direito Constitucional da USP Manoel Gonçalves Ferreira Filho, conhecido teórico e apoiador da ditadura civil-militar instaurada no Brasil em 1964, por ele denominada “Revolução de 1964″ e escreveram um livro em sua homenagem.

O jornal O Globo, por sua vez, trouxe uma outra grave denúncia de que pelo menos um dos novos membros são suspeitos de terem sido colaboradores da ditadura militar. Veja aqui: http://m.oglobo.globo.com/brasil/nomeado-para-comissao-da-anistia-aparece-como-colaborador-da-ditadura-20043410
Caso a nova composição da Comissão de Anistia reflita o pensamento de Manoel Gonçalves Ferreira Filho e tenha entre seus membros simpatizantes ou colaboradores com a ditadura trata-se de uma desfuncionalidade e um sério risco à posição oficial do órgão sobre a devida responsabilização penal dos agentes públicos que praticaram crimes de lesa-humanidade na ditadura.

A Comissão de Anistia tem estimulado, como parte dos compromissos internacionais do Brasil, o debate público nacional sobre o alcance da lei de anistia e possui uma posição clara e oficial pela imprescritibilidade e impossibilidade de lei de anistia para os crimes da ditadura, bem como defende o cumprimento integral da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre o caso Araguaia, sediada em São José da Costa Rica.

A atual composição da Comissão de Anistia foi responsável pela redução dos valores das indenizações milionárias concedidas no início da era FHC, ajustando-as a valores de mercado, e acelerou o julgamento dos pedidos de reparação, instituindo o pedido de desculpas às vítimas e as famílias.

A Comissão de Anistia também é conhecida internacionalmente por ter empreendido de maneira inovadora e sensível políticas públicas de memória e projetos vanguardistas como as Caravanas da Anistia, as Clínicas do Testemunho, o Projeto Marcas da Memória, e por ter iniciado a construção do Memorial da Anistia, realização de eventos e intercâmbios acadêmicos e culturais, e inúmeras publicações que aprofundam o sentido da Justiça de Transição no Brasil e na América Latina. Estes programas e projetos compõem hoje o Programa Brasileiro de Reparação Integral, reconhecido e celebrado internacionalmente, e fazem parte do rol dos direitos de todos aqueles que foram atingidos por atos de exceção durante a ditadura civil-militar e aos seus familiares. Esses direitos devem ser preservados, sob pena de ruptura com o dever integral de reparação.

Os movimentos de direitos humanos e cidadãos abaixo assinados repudiam a arbitrariedade destas exonerações e nomeações na Comissão de Anistia e denunciam o início da tentativa de desmonte destas políticas que marcam a nossa transição democrática e que são parte de obrigações internacionalmente assumidas pelo Estado brasileiro. Do mesmo modo denuncia o absurdo de ter entre os membros da nova Comissão nomes de pessoas que não possuem posição de oposição enfática de condenação à ditadura e aos crimes militares ou, pior, que possam ter sido colaboradores da Ditadura.

O governo Temer com esta atitude arbitrária comete um erro histórico que afeta a continuidade da agenda pendente do processo de transição democrática, e com isso aprofunda as suas características de um governo ilegítimo, sem fundamento na soberania popular.

São iniciativas muito graves e unilaterais que sinalizam o início de um desmonte na Comissão de Anistia, conquista histórica da sociedade democrática brasileira, e uma ofensa aos direitos das vítimas da ditadura e os seus familiares.

Não aceitaremos retrocesso nas conquistas da Justiça de Transição no Brasil. Nem um direito a menos!


A barbárie do antidoping positivo
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Juca Kfouri

POR SABINO VIEIRA LOGUERCIO

​A interferência de peculiaridades genéticas, ambientais, dietéticas, imunológicas, hepáticas, a indução enzimática, os servomecanismos metabólicos, as variações individuais nos fenômenos de absorção/excreção, o ritmo circadiano e as milhares de interações entre esses fatores fazem de cada pessoa um universo único. Os limites mínimo e máximo, que os laboratórios de análises clínicas delineiam como “faixa da normalidade”, referem-se a projeções e probabilidades estatísticas, que não podem dispensar um juízo clínico completo, de cuja configuração devem participar, obrigatoriamente, outros procedimentos. Sabe-se que, em estado de equilíbrio dinâmico, num determinado grupo populacional, os níveis plasmáticos podem refletir variações de até 30 vezes.

 
​Tais verdades escorrem com naturalidade dos livros de farmacologia. Os que exercem medicina sabem que o resultado de um exame laboratorial é mero elemento de informação, jamais de prova. Os laboratórios modernos frisam, em seus resultados, a necessidade do complemento investigatório. Constitui, pois, lamentável desconhecimento e total insensibilidade a prática de estabelecer um valor de referência acima do qual o resultado da análise toxicológica de substâncias na urina (ou em qualquer outro material provindo do interior do organismo) é considerado “prova de doping”. Como esses procedimentos começaram na década de 60 (do século XX), é fácil concluir que as comissões do antidoping punitivo acumulam um crônico e constrangedor atraso científico.

Exemplos clássicos: Zetti, reserva de Taffarel na Seleção Brasileira (1993, Bolívia) foi acusado de utilizar cocaína. A palavra oficial era de que só mesmo um balde dessa droga resultaria em resultado positivo. Quantidades menores não seriam detectadas nos testes da FIFA. Para sorte do goleiro, a trágica derrapagem ética foi prontamente desfeita: ao ingerir, na época, o chá boliviano TRIMATE (que contém porções insignificantes de cocaína e, por isso, é utilizado por todas as pessoas que enfrentam grandes altitudes) o repórter Renato Bertuol constatou, em seu teste urinário, o resultado laboratorial de 0,27mcg/mL, equivalente a nove vezes o parâmetro (0,03mcg/mL), além do qual as “autoridades” (!?) do antidoping consideram “caso de punição”. Ao penetrar no organismo, a cocaína é logo transformada em metabólitos. O que se dosa, no exame antidoping, é a benzoilecgonina, que, também está presente em nada menos do que 250 plantas da família das eritroxiláceas, o que torna o exame antidoping punitivo ainda mais falso por evidente ausência de provas cabais. O próprio COI já admitiu, há tempos, que cocaína não é doping, pois sua ação desaparece em minutos e não modifica, em nenhum aspecto, o desempenho atlético. Apenas permanece na lista pelo alegado “mau exemplo”, que só teria importância se o atleta usasse o espaço público para influenciar outras pessoas. Mas não. Contraditoriamente, o abalo acontece quando o tacão do contrassenso invade a intimidade de um atleta e espalha a notícia que deveria merecer tão somente o interesse dos parentes mais próximos e de seu médico.

 
Caso Anderson, atleta do Internacional de Porto Alegre, em1997: um grupo de repórteres evidenciou que a dosagem de morfina, encontrada em pãezinhos decorados com sementes de papoula, rotineiramente servidos em hotéis, ficou em 1000 ng/mL, cinco vezes acima do nível máximo admitido pelas comissões antidoping (200ng/mL), o que resultou na absolvição do jogador, depois que sua imagem foi jogada no lixo da imoralidade. Ele ingerira cinco desses pães, juntamente com outros membros da delegação, antes de um jogo noturno contra o Santos, em São Paulo.

 
A maratonista argentina Sandra Torres consumia um hormônio (NORETINDRONA), com a permissão do COI. No exame antidoping apareceu 19-NORANDROSTERONA (proibida). A atleta conseguiu comprovar, de forma inequívoca, com o auxílio de cientistas e advogados, que, no organismo dela, a NORETINDRONA sofria uma transformação em 19-NORANDROSTERONA. Depois de definida a punição medieval, acabou também absolvida, diante das evidências incontestáveis. Outras centenas de casos já demonstraram que o perigo de contaminação por fatores aleatórios e imponderáveis anula, em termos comprobatórios, a pretensa seriedade do teste antidoping usual. Os orientais, numa percentagem que beira os 30%, simplesmente não eliminam, pela urina, esteroides anabólicos, justamente as drogas mais acusadas de sustentar o estímulo dopante, o que lhes confere notória vantagem, caso venham a utilizá-las.

Conquanto tenham transitado como simples curiosidades, esses episódios são de tamanha transcendência que devem ser destacadas em qualquer comentário sobre doping. Pode ser que, com isso, não mais ouçamos as patacoadas que se sucedem a cada novo caso, como a informação de que a atleta Maurren Maggi “teria de ter passado a pomada (com clostebol) de cinco em cinco minutos, em sua pele, para ultrapassar o limite de 5mcg/mL.”

 
​A injustiça que os inquisidores praticaram contra essa atleta laureada do salto em distância, adquiriu dimensões de barbárie, através de, pelo menos, quatro facetas: 1ª – o ato administrativo de evidente nulidade jurídica, pela ausência de provas; 2ª – a indignidade e rudeza da ação sumária, que desencadeou um abalo psíquico gigantesco e afrontou um direito humano elementar e sagrado, que é o de viver do trabalho (ou da profissão); 3ª – a violência contra valores éticos de natureza pétrea, covardemente pisoteados pela divulgação mentirosa e 4ª – a hilariante demonstração de desconhecimento científico.
​Em suma, um canetaço sinistro, prepotente e desumano, cometido por um núcleo de pessoas despreparadas para comandar órgãos disciplinadores, mas que, através de outorga descabida, exercem poderes ilimitados. Situações semelhantes, que se repetem, clamam por justiça e exigem das pessoas ligadas ao esporte uma reparação urgente, por perdas e danos morais e profissionais.

 
​Poucas vezes, porém, o obscurantismo assumiu ares de tão brutal abuso de poder como quando alguém teve a ideia macabra de incluir diuréticos entre as substâncias proibidas, na “suposição” de que determinado(a) atleta estivesse camuflando a presença de droga estimulante. Com essa decisão, os princípios soberanos da Justiça, a ética médica, o conhecimento científico, as regras da civilização, as disposições constitucionais consolidadas e os direitos humanos naufragaram em definitivo, derrotados pela dissintonia entre o bom senso e a volúpia punitiva. A nossa consagrada Daiane dos Santos estava recuperando-se de uma lesão e totalmente fora de qualquer possibilidade de competir. Sua médica seguiu os ditames da conduta médica e, dentre outras recomendações, receitou-lhe um diurético.

 

Acredite se puder: foi apanhada no antidoping punitivo.
​Só o que falta agora é incluírem a água, o nosso mais precioso líquido, entre as substâncias proibidas, pois sua ação diurética, evidentemente por outros mecanismos, pode eliminar fármacos suspeitos. Sabidamente, também há muitas frutas que aumentam a diurese (melancia, mamão, abacaxi, maçã, pera, limão e coco).
​Não se depreenda desses comentários que a sugestão é abolir o exame antidoping. Pelo contrário: a ideia central é torná-lo preventivo, o que deixaria as competições a salvo das fraudes, porquanto delas não participariam os atletas em cujo organismo, após meticuloso processo investigatório, ficasse comprovado o “estado de doping” ou uma ação premeditada para aumentar o desempenho atlético. Como regra básica de ação civilizada, os seres humanos que praticam esporte profissional teriam preservada a reputação e não ficariam sujeitos ao escárnio público ou à execração infamante, já que as conclusões dos exames seriam sigilosas, em obediência estrita ao código de ética médica.

 

Quem ingere, ao abrigo da consciência, ou por mera desinformação, uma droga prejudicial ao seu organismo, ou que possa deflagrar uma vantagem atlética, é um doente para ser tratado (ou orientado) e nunca um delinquente para ser punido. Nesse contexto, o trajeto para criar o sistema antidoping preventivo pressupõe ampla discussão, da qual participariam pessoas com o suficiente discernimento e imprescindível informação científica (bioquímicos, toxicologistas e farmacologistas), para o resguardo, antes de tudo, dos direitos humanos.

*Sabino Vieira Loguercio é médico.


A torre olímpica
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Juca Kfouri

POR RAFAEL FRYDMAN*



Como é possível estar junto da quadra e não ver um ponto direito? Como é possível andar pelas tribunas mais bem localizadas do Maracanã e não acompanhar sequer um passo de Gisele?
Como é possível estar na cidade maravilhosa e não ir a praia ou a boemia por um mês inteiro?

A sensação é de que me aproximei tanto para ver o truque que fui eu quem o mágico fez sumir para delírio da plateia.

E que coisa esplêndida. Ainda que o público nem imagine que você está ali, nada como o ressoar do gritos e das palmas, nada como ver as lagrimas e os sorrisos.
Quão quão desgastante e quão prazeroso foi fazer as XXXI Olimpíadas é coisa que só quem entende são os que também trabalharam de amarelo, verde, vermelho ou azul.


Mas não pretendo louvar os jogos que aconteceram aos pés do Cristo e dizer que tudo foi perfeito.

Afinal, não se pode esquecer que a Aldeia Maracanã, oca vizinha ao estádio que inaugurou os jogos mostrando um lindo seguimento com os indígenas, a mata e a chegada do homem branco revela como ainda tratamos os primeiros habitantes dessa terra.
E ao final, ainda que cheios de recordes e disputas inesquecíveis, não se pode achar que os fins justificaram os meios ou, ainda pior, que não veremos mais o que vimos antes do dia 5 de agosto.

Assim como os jogos olímpicos não são a salvação de nenhuma cidade, não foram as olimpíadas que inventaram obras finalizadas as pressas e sem licitação. Não foi a ciclovia a primeira construção do Rio de Janeiro a ruir pouco depois de entregue e não será a impossibilidade de usar os grandes eventos como pretexto, que fará o otimista acreditar que a especulação imobiliária nunca mais resultará em remoções. Muitos incêndios que consomem barracos e favelas indicam que há outra chama a percorrer o país num revesamento velado.

E ainda assim não notamos os antolhos que nos vestem. Antes dos jogos encobriam tudo o que poderia acontecer nas pistas e campos revelando apenas as bactérias, os vírus e as balas. E o povo, que volta e meia é mordido pelo bicho da aposta, não colocou uma moeda sequer no sucesso dos jogos. Nem mesmo daquelas comuns, que não carregam imagens olímpicas no verso.

Da mesma forma, uma vez revelada a farsa do assalto ao campeão americano, fomos instados a bradar que no nosso país não se sai impune com uma mentira. Um mantra que pode levar desavisado a crer que não é cena cotidiana armas mirarem cabeças, apontadas por policiais bandidos ou bandidos que policiam. Mas isso, não só é história de nadador como, inúmeras vezes, o final da cena é muito mais terrível quando o local ou a cabeça envolvidas são mais escuros.

Sem falar na tristeza de ver, mesmo em esportes de forte apelo popular, como é menor a presença de publico, jornalistas, fotógrafos e canais de televisão nas competições femininas.

Mas se a solidão brasileira de antes dos jogos, em que tudo demorava em ser tão ruim, terminou em samba nas duas cerimonias, foi porque mandamos a tristeza embora.

Com poucas horas de sono, muitos quilômetros diários percorridos debaixo de chuva e sol, ouvindo as cobranças de quem dizia ser um erro qualquer coisa que fosse diferente daquilo visto em edições anteriores, digo que nem Bolt nem Phelps impressionaram tanto quanto as pessoas que vi trabalhar nesses jogos. Sim, se não vi sequer um set inteiro das 76 partidas de vôlei trabalhando no Maracanãzinho, que dirá ver as provas dos dois maiores atletas que competiram por aqui.

Mesmo assim, são das cenas que não tem replay e não geraram uma só foto, dos feitos que não são recorde algum e não levaram ninguém ao pódio que vou me lembrar com mais carinho. Foi olhar e abraçar essas pessoas o motivo das lagrimas rolarem junto com a dos jogadores comandados por Escadinha que a poucos metros de nós recebiam as medalhas de ouro.

E isso tudo porque ainda que não saiba explicar o tal do espírito olímpico, vi nesses jogos diversos pequenos momentos da sonhada união entre os povos.

Do campeão olímpico que dividiu o peso carregando materiais junto da senhorinha da equipe de limpeza, ao voluntário chines que tentava, em português, conseguir do motorista do ônibus a indicação que passaria em inglês para a britânica que, apesar de não saber uma palavra de nosso idioma, também se voluntariou.

Do fotógrafo cadeirante que ao chegar suspendia a disputa por posições que todos os fotógrafos travavam a cada partida, num fairplay lindo de ver entre profissionais que também carregavam enorme pressão para conquistar a foto de ouro. Ao grego que, com os olhos mareados, disse entender os brasileiros e estar vivendo seu melhor dia olímpico ao ver se formar um mutirão que virou a noite trabalhando para solucionar uma emergência. Mesmo exaustos e sonhando com as camas em que deveriam estar ha horas, seus integrantes faziam piada, riam, cantavam e compartilhavam a comida num improvisado jantar sem talheres ou mesa.

Ou ainda, o taxista que voltou para devolver a mala que a francesa esqueceu no carro quando todos davam como certo se tratar do malandro carioca pra cima do gringo otário. A chinesa que aos prantos revelou não querer sair do ginásio em que suas atletas favoritas foram campeãs e pedia desculpas por ter eliminado seus anfitriões. A fotógrafa que abria mão de minutos preciosos para mostrar o equipamento e dar dicas para a jovem voluntaria que não se deixou desencorajar ao ver que 95% dos que vestiam colete e carregavam uma câmera eram homens.

E enquanto atletas lutavam por desempenhos dignos de leva-los ao Olimpo, foi ficando claro que aos homens é fundamental perceber o desproposito de construir uma torre para subir aos céus e que, mesmo que por teimosia não desistamos de ergue-la, não será a confusão das línguas o fator para os desentendimentos. Mas aos poucos voltamos a ver pessoas dos mesmos lugares incapazes de lembrar que é possível entender outras línguas e outras vivencias e que virá Babel atrás de Babel, enquanto todos falarem ao mesmo tempo e cada vez mais alto, ainda que conheçam as mesmas palavras.

Dezesseis dias correram em segundos e o Rio de Janeiro continua lindo.

*Rafael Frydman trabalhou profissionalmente na organização da Olimpíada no Rio como gerente de fotografia no Maracanãzinho.


 


Os Godos na Chácara da Floresta
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Para os mais antigos, o apocalipse.

O Mais Querido sempre foi biscoito fino.

O Fluminense do Rio era organizado e chique.

Mas o São Paulo era caixa alta.

Um clube que podia se dar ao luxo de renunciar aos títulos.

Para construir o monumental Morumbi.

O Santos conquistava o mundo?

Tudo bem!

O Palmeiras montava a Academia.

Tanto faz!

O Corinthians multiplicava sua torcida na dor.

Dor é coisa para os fracos.

O tricolor podia se dar ao luxo de não ganhar nada.

Construído o Morumbi.

Lá se foi o Clube da Fé conquistar o mundo.

Três vezes.

Por isso, a invasão do clube.

Os xingamentos.

As agressões.

O furto.

Tudo isso soa como o apocalipse do futebol.

Porque quando o futebol brasileiro mergulhava no caos.

Sempre havia alguém para lembrar do São Paulo.

O último clube que nos permitia ter fé no futebol brasileiro.

Mas o último fio de esperança se foi.

O futebol é definitivamente dos godos.


Um menino
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para o Irapuan

“A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.” (Guimarães Rosa, em “Sorôco, sua mãe, sua filha”)

Lotaram o ônibus velho. Além dos quarenta sentados, mais uns vinte em pé no corredor. Com bandeiras, bumbos, cornetas, apitos, as cabeças para fora, batendo as mãos na lataria e gritando o nome do time.

Pressionavam o motorista para andar mais depressa. Temiam se atrasar para o jogo – no campo do adversário, em outra cidadezinha, a uns trinta quilômetros. Ele tentava, acelerava, dava saltos nas arrancadas, mas o motor já não respondia tanto.

Entraram na cidade consultando os relógios.

De repente, o ônibus parou. O motor ligado, mas sem movimento.

Começou a gritaria. Partiram para cima do motorista. Ele apontou o para-brisa: na ausência do domingo, no sol humilhante do domingo, na poeira do domingo, um enterro entupia a passagem.

Poucas pessoas, maltrapilhas. Mulheres roxas. Crianças de espiga. Homens vazados. E um caixãozinho de seis palmos carregado por um velho e uma velha quase inexistentes.

Três torcedores decidiram ir lá tentar abrir caminho. Pediram calma aos demais, ajeitaram as camisas e os cabelos e desceram.

Andaram no meio do cortejo. Próximos ao caixão, onde havia mais adultos, falaram, perguntaram, fizeram sinais.

Nada.

Não respondiam. Não se mexiam. Não pareciam vê-los ou ouvi-los.

Adiantaram-se para perto do velho e da velha. A mesma coisa. Repetiram: o ônibus, o jogo, o time, os torcedores, o horário.

Nada.

Um deles então viu que o caixão não tinha tampa. Inclinou-se e olhou.

Viu um menino de uns cinco anos abraçado a uma bola.

Empalideceu, paralisado.

Mostrou com o rosto para os outros dois, que arregalaram os olhos e congelaram.

Como estavam diante do caixão, impediam o enterro de avançar.

Mas ninguém os olhava. Todos de cabeça baixa – almas puídas levando o menino morto com a bola nas mãos no vão do domingo –, parados.

O pessoal do ônibus começou a buzinar, tocar os instrumentos, gritar, xingar. Iam perder o jogo.

Então o velho e a velha iniciaram, quase em silêncio, uma ladainha enrolada, numa língua desconhecida. Os de trás os seguiram com vozes surdas. Um canto estranho – e tão baixo que abafava a zoeira que vinha do ônibus.

Os três, parados na frente, assustados, não tiravam os olhos da criança sem cor, esquálida, com a bola na mão.

E então, sem se darem conta, começaram também a balbuciar a cantiga que todos entoavam.

Pousaram as mãos no peito e puseram-se a andar ao lado do caixão, murmurando a mesma melodia, a mesma letra irreal, junto com todos.

Os que estavam no ônibus, impacientes, desceram e, com empurrões, abriram passagem no enterro até chegar lá na frente. Queriam liberar a rua para o ônibus passar.

Mas viram o caixão. E o esqueletinho abraçado à bola.

Estancaram como à beira de um abismo.

Em volta todos cantavam a canção grave, ininteligível.

Não falaram nada.

Perplexos, vazios, abaixaram as cabeças e, um a um, foram se juntando ao cortejo e somando suas vozes à cantiga.

E até o final do dia, quando o sol também era sepultado nos morros, quando a poeira entalava todos os poros, quando o oco da cidadezinha era fechado sob uma tampa escura, até a hora em que puseram o caixãozinho num buraco baldio, todos eles, que não mais se lembravam do jogo nem de si mesmos, seguiram o enterro, sussurraram a mesma canção crespa que os demais cantavam – cada vez mais baixo, cada vez mais triste, cada vez mais uníssona.

Antes da primeira pá de terra, com o caixão destampado, o motorista do ônibus pediu que esperassem. Entrou no buraco, tirou a bola das mãos e a pôs nos pés do menino. Subiu e sinalizou com a cabeça para que continuassem.

Com poucas pás estava tudo coberto e acabado.

Mudos, voltaram para o ônibus.

Entraram e sentaram-se em silêncio.

O ônibus arrastando-se na estrada e na noite.

Foi quando alguém, lá no fundo do ônibus, puxou, baixinho, a mesma ladainha do enterro.

E depois outro.

E mais um.

Até que todos, aos poucos, os seguiram e começaram a cantar, juntos, quase sem se fazer ouvir, o mesmo canto desconexo e dolorido com que sepultaram o menino e sua bola.

Como se o trouxessem no colo, como se o ninassem.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).



Os sete de Tite e Suppici
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA*

Tite convocou sete campeões olímpicos para as Eliminatórias.

Sete é muito ou pouco?

Bom ou mal?

Justo ou injusto?

Ninguém tem bola de cristal pra saber.

Historicamente, apenas uma seleção conseguiu a proeza.

Ganhar a medalha de ouro sendo campeão mundial na sequencia.

O Uruguai nos mitológicos anos de 1928 e 1930.

Quem segurava o pepino da celeste na época era Alberto Suppici.

Sete vezes campeão uruguaio como jogador.

Suppici que era uma criança de 31 anos na época.

Suppici herdou a esquadra treinada por Luís Grecco – o Micale da época.

Foi xingado no terceiro lugar da Copa América de 1929.

Mandou embora o paredão boêmio Andres Mazalli.

Tacou Enrique Ballestero no arco.

E foi campeão mundial na final com… sete campeões olímpicos.

Nasazzi, Andrade, Fernandes, Álvaro Gestido, Scarone, Castro e Pedro Cea.

Entre os reservas havia mais quatro medalhistas de ouro em Amsterdã.

Petrone, Melogno, Tejera e Urdinaran.

Tite convocou sete campeões olímpicos para as Eliminatórias.

Bom ou mal?

Justo ou injusto?

Ninguém tem bola de cristal pra saber.

Só nos resta saber se os sete de Tite estarão entre os onze do antigo Estádio Lênin.

Lá em Moscou, 2018…

*Com o agradecimento do autor ao leitor Jota Peixe.


Revanche? Eu?
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Brasil e Alemanha farão a final da Olimpíada.

Finjo para mim mesmo que não sei da coincidência. Assovio para espantar a tensão.

Nego intimamente toda a sede de vingança.

Mas escuto o que andam falando.

Muita gente deseja que devolvamos o 7 X 1.

Salivam. Tremem. Babam. Riem sozinhos. Esfregam as mãos.

Um amigo me disse que tem acordado à noite. Outro, que tem dormido mais cedo pra tudo passar mais depressa e chegar logo a hora da revanche.

Todos eles querem o 7 X 1 de volta.

Eu, que faço que nada sei do jogo, que não percebo a oportunidade, nem que desejo a revanche, dou de ombros.

Como se qualquer placar valesse.

Repito para mim mesmo que aquele 7 X 1 de 2014 é passado, coisa do futebol, acidente, deixa pra lá, é só um jogo.

Mas não.

Há em mim, lá no fundo, uma ideia mais forte.

Ela cresce e ocupa minha alma – como uma febre interna.

É o seguinte.

Diz a lenda que, muitos anos atrás, os Harlem Globetrotters, um dia depois de uma exibição na França, leram no jornal que alguém se dera ao trabalho de contar as cestas durante a apresentação.

Embora o jogo, como sempre, tenha sido uma grande brincadeira, o jornal marcava a vitória do time local. Dizia que os Harlem Globetrotters já não eram mais os mesmos. Que estavam decadentes. E louvava o time francês que tinha vencido a partida.

Mais ainda: alguns jogadores locais davam entrevistas se vangloriando.

Pois bem.

Segue a lenda.

Os Globetrotters pediram revanche.

Jogariam de graça, mas queriam a revanche.

Criou-se grande expectativa antes da partida. Televisão, jornais, anúncios – uma enorme máquina de divulgação se formou.

E houve o jogo.

Alguém aí imagina quanto ficou? Alguém é capaz de arriscar o placar da revanche?

Pois eu, seguindo a lenda, lhes digo: ficou 1 X 0 para os Globetrotters!

Isso mesmo: 1 X 0!

No início do jogo, eles fizeram um ponto de lance livre e passaram o resto do jogo driblando, arremessando, voltando, trocando passes, fazendo malabarismos, acertando a tabela, pondo o time francês na roda.

Não sei o que ocorreu depois: a lenda para nesse ponto.

Mas, por minha conta, imagino a torcida de pé, aplaudindo. E os franceses soterrados de humilhação.

Pois é essa ideia que me corrói. Que se avoluma aqui dentro.

Nada de 7 X 1. Não quero o 7 X 1.

O que eu quero é o que os Globetrotters fizeram: vitória do Brasil de 1 X 0 sobre a Alemanha.

Só.

Mas com os alemães na roda noventa minutos, tomando dribles, chapéus, olé, bobinho, tabelas e tudo o mais que for possível!

Nossos atacantes fazendo linha de passe dentro da área, chegando em frente ao gol aberto e voltando, chutando na trave, segurando a bola com malabarismos humilhantes até o final do jogo!

O estádio em delírio! Os alemães sem ação, cabisbaixos!

Eu tento disfarçar. Evito pensar nisso. Finjo displicência.

Mas aqui dentro eu não consigo.

Por dentro eu salivo, babo, tremo, rio e esfrego as mãos.

Não consigo dormir.

Quem me vê assim tranquilo nem imagina.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


A primavera feminista vai florescer também nos gramados, quadras, piscinas e pistas!
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Juca Kfouri

POR SÂMIA BOMFIM*

Tecnicamente as jogadoras de futebol ou pugilistas que se tentou exibir aqui e ali não apresentam interesse algum; serão sempre imitações imperfeitas… Talvez as mulheres compreenderão logo que essa tentativa não é proveitosa nem para seu encanto nem mesmo para sua saúde” (Barão de Coubertin – “pai” das Olimpíadas Modernas)

O calendário esportivo mundial tem como seu grande marco as Olimpíadas.

De quatro em quatro anos podemos avaliar não somente o desempenho esportivo de cada delegação, mas, também, a forma como o esporte se relaciona com a sociedade.

Nesta edição do Rio a participação, presença e luta das mulheres tem causado um dos principais debates.

Como está a relação do esporte, ou, mais corretamente, dos donos dos esportes com as mulheres?

Quais são os avanços das mulheres no último ciclo olímpico?

Apesar de a Olimpíada de Londres 2012 ter sido a primeira na qual as mulheres competiram em todas as modalidades, e também a primeira a contar com mulheres atletas em todas as delegações, o ciclo olímpico que culminou na Olimpíada do Rio ocorreu concomitantemente com um grande acréscimo na consciência feminista e na luta das mulheres.

Foram anos em que ocorreram massivas e inéditas manifestações em repúdio aos estupros coletivos na Índia, a irônica e mordaz Marcha das Vadias no Canadá correu o mundo e a luta pelos direitos reprodutivos extrapolou os países mais desenvolvidos, além de a luta contra políticos machistas e reacionários no Brasil (como Cunha, Temer e Feliciano) ter ganho protagonismo.

Enfim, anos em que milhares de mulheres passaram a se entender como feministas.

Muito lento, muito pouco

A primeira participação olímpica das mulheres foi em 1900 com apenas 16 atletas (de quase mil competidores!) e em apenas duas modalidades.

As mulheres demoraram 40 anos para poderem competir no basquete, 88 anos no ciclismo, 96 anos no futebol e, só na Olimpíada de Londres 2012, algumas modalidades de luta aceitaram mulheres.
Agora estamos em todas as modalidades e estamos chegando à metade do total de atletas!

Celebrar esse avanço é homenagear as mulheres (atletas ou não) que lutaram para chegarmos até aqui.

Mas, se conseguimos uma quase igualdade formal, no concreto, a diferença de cobertura, prestígio e investimento entre as modalidades masculinas e femininas é brutal.

As mulheres recebem menos salários, patrocínios, bolsas e até as premiações são muito menores.

Não é escandaloso que a revista Forbes tenha divulgado que, dos 100 maiores ganhos anuais de atletas, 98 sejam de homens?!

E que a primeira colocada mulher (a incrível Serena Willians) ocupe apenas a 40ª posição?

Phelps de maiô, Bolt de saias

A disparidade entre a atenção dada aos homens e às mulheres que disputam os jogos é tão grande que não é incomum que o maior “elogio” comumente feito às mulheres atletas brilhantes, como Katie Ledecky e Katinka Hosszu, seja compará-las com homens, como Phelps.

Se fosse pelo estilo ou por outra característica inerente ao esporte, a comparação poderia fazer sentido, mas a impressão é que a régua de medir talento esportivo é sempre um homem.

Entre os inúmeros exemplos de aplicação dessa régua estão as tentativas de exaltar os grandes feitos da ginasta Simone Biles a comparando com Phelps, e os da velocista jamaicana Shelly-Ann Fraser-Pryce a comparando com Bolt.

Por que Simone Biles e Shelly-Ann Fraser-Pryce não podem ser “apenas” as excepcionais Simone Biles e Shelly-Ann Fraser-Pryce?

Além de bonita é boa atleta?

As mulheres estão agora em todas as modalidades, mas ainda não são tratadas da mesma forma pela mídia e pela imprensa esportiva.

Enquanto o corpo do Phelps é lembrado pela rara e eficiente aerodinâmica e Bolt surpreende por ser um velocista bem mais alto do que o esperado, os corpos das mulheres são lembrados em absurdas galerias das “mais gatas das Olimpíadas”, “colírios das quadras” e outras expressões tão tolas e machistas quanto estas.
As empresas fornecedoras de material esportivo também cumprem um grande papel na fetichização do corpo da mulher atleta.

Será que o quase biquíni do vôlei de praia serve mais ao desempenho esportivo ou às necessidades de vender o esporte feminino a partir de uma ótica sexista?

Em quase todas as modalidades a diferença entre os uniformes masculinos e femininos demonstra obviamente que os feitos atléticos e o desempenho têm uma importância bem mais relativizada em relação à aparência quando as atletas são mulheres.

Jogue e Lute como uma mulher!

Seguimos torcendo e nos emocionando com nossas atletas, medalhistas ou não.

Vibramos com a judoca Rafaela, mulher, negra, lésbica e periférica, retrato da mulher brasileira guerreira e lutadora, que nos deu um dos momentos mais emocionantes desses jogos.

Sofremos com a derrota no futebol da Marta, Formiga, Cristiane, que padecem com todo tipo de boicote em pleno país do futebol; com o vôlei feminino bi-campeão.

Apoiamos Joanna Maranhão dentro e fora da piscina, pelo seu desempenho como nadadora e pelo exemplo que dá na luta contra a cultura do estupro.

Orgulhamo-nos muito do nosso time de guerreiras, que lutam como mulheres dentro e fora das suas modalidades, mas vamos deixar claro que não aceitaremos mais que as mulheres nos esportes sejam lembradas somente de quatro em quatro anos!

Não queremos apenas torcer, mas queremos ligas femininas de futebol, mais mulheres comentando, cobrindo e narrando jogos, não aceitamos mais os comentários desqualificados e machistas de boçais que usam espaços na mídia para externar seus preconceitos e ignorância.

Queremos ver muito mais mulheres nas comissões de arbitragem, técnicas, dirigindo equipes e como dirigentes esportivas.

As meninas querem jogar futebol e praticar qualquer esporte na escola e não vão mais aceitar a sem sentido divisão de gênero nas aulas de educação física.

Passou da hora de podermos ir aos estádios sem medo de sermos assediadas como torcedoras ou esportistas.

E exigimos salários iguais para homens e mulheres!

Muitas reflexões devem ser feitas sobre as contradições das Olimpíadas, que carregam beleza e emoção, ao mesmo tempo que custam a moradia, os direitos e mesmo a vida de muitos cariocas.

Sem dúvida o debate sobre a participação das mulheres deve ser feito sob a mesma ótica.

Brilhamos nas quadras e gramados, mas na volta para a rotina longe dos holofotes internacionais somos invisibilizadas, assediadas, mal remuneradas e ignoradas.

A Primavera Feminista chegou para ficar também nos esportes.

Somos milhares com Joanna, Marta e Rafaela.

*Sâmia Bomfim é funcionária pública estadual em São Paulo e candidata à vereadora pelo PSOL na capital.


Mentira tem braçadas curtas
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Olimpíada de Chicago.

Quatro nadadores brasileiros saem pra comemorar.

Tomam todas.

Pegam o táxi e param num posto de gasolina.

Lá eles depredam o posto de gasolina.

Conversa pra cá.

Conversa pra lá.

Pagam os estragos e voltam ao hotel.

Para escapar da punição pela farra inventam a história.

Foram assaltados por um americano que se dizia policial.

Os quatro brutamontes morreram de medo.

A polícia americana não brinca em serviço.

Eles deram tudo o que tinham no bolso – exceto os celulares.

Pobres coitados!

As televisões brasileiras cobrem o assalto.

Chicago é mesmo perigosa. Dantesca.

Obama pede desculpas por sua cidade.

Surpresa.

Quando a polícia mete a mão no caso, não existe assalto.

Um nadador brasileiro se escafede pela fronteira do Canadá.

O mais veloz conseguiu fugir de avião.

Os outros dois têm menos sorte.

Vão mofar alguns meses no xilindró por mentirem pra Lei.

Os brasileiros aplaudem a polícia americana.

Lugar de bandido é mesmo na cadeia!

E ainda bem que o caso não aconteceu na Indonésia, dizem alguns.


Olympia 2016, a cidade onde nem todos têm preço
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Juca Kfouri

POR MARIANA GENESCÁ*

A cada quatro anos somos tomados por aquele sentimento arrebatador e renovador, que nos faz torcer por nossa bandeira e vibrar com nossos atletas em modalidades que às vezes nem conhecíamos.

O que dizer quando as olimpíadas são na nossa casa e podemos ver e sentir de perto essa grande festa, que reúne pessoas de mais de 200 países em um único lugar?


Para além de espectadores, como estamos acostumados, passamos então a ser parte da festa e da história e nos tornamos responsáveis.

Somos responsáveis pela recepção única e acolhedora aos turistas, somos responsáveis pela torcida mais animada do planeta (com seus excessos às vezes), somos responsáveis pela organização dos jogos, pela segurança e também, e principalmente, por manter vivo o Espírito Olímpico, afinal, é em nome dele que tudo acontece.

Como anfitriões, somos responsáveis também pela forma como as coisas são feitas, porque, além de garantir que a chama olímpica permaneça acesa (e com ela todos os seus valores e princípios), somos nós que ficaremos com a conta no final. E é certo que ela vai chegar. Assim como são certos o orgulho e a emoção de ver os atletas se doando e lutando por conquistas, como a de Rafaela Silva: primeira medalha de ouro do Brasil indo para uma mulher negra e da favela e que, simbolicamente, tinha mesmo que ser em uma modalidade de luta.

Como bons anfitriões, fomos responsáveis pela bela cerimônia de abertura.

O evento deu destaque para temas urgentes, como o respeito à diversidade e a preservação do meio ambiente.
Pudemos ver as delegações carregando sementes para serem plantadas na ‘Floresta dos Atletas’ e aros olímpicos verdes representando a natureza; pudemos ver uma transexual à frente da delegação brasileira; pudemos presenciar chefes de estado de diversos países aplaudindo de pé o time de refugiados; pudemos assistir o sorriso do menino da Mangueira acendendo a ‘Pira do Povo’ na Candelária.

Mas como guardiões desta mesma chama olímpica, precisamos nos importar em como o menino Jorge Alberto, negro e morador de uma comunidade, vai voltar para casa em todos os outros dias do ano sem tomar tapa na cara, caso haja uma “dura” no caminho, ou coisa ainda pior; como a Lea T vai ser respeitada no seu dia-a-dia e ter seus direitos garantidos; como o que aconteceu com a atleta Yusra Mardini, que teve que nadar pelo Mediterrâneo por três horas e meia puxando um barco para salvar sua família, nunca mais aconteça com outros sírios.

Precisamos nos importar em como permitimos a construção de um campo de golfe olímpico na nossa cidade, destruindo uma reserva ambiental (o que é proibido pela Constituição Federal), permitindo o aumento do gabarito da região de 6 para 22 andares, com a construção de torres que vão virar um grande condomínio de golfe, com apartamentos à venda a partir de R$ 5,5 milhões.

O escândalo do campo de golfe olímpico, que traz junto negociatas e contas mascaradas envolvendo a prefeitura do Rio e empreiteiras financiadoras de campanha (como aconteceu também no caso da Vila Autódromo, Porto Maravilha e Museu do Amanhã), teve pouco espaço na imprensa nacional e parece não abalar o Espírito Olímpico.

Tanto é, que a decisão judicial que anulou o laudo pericial sobre os impactos ambientais, que sustentava a argumentação da possibilidade de construção do campo, saiu exatamente um dia antes do início dos jogos e, além de não ter sido noticiada, não alterou a programação:

o golfe olímpico da Rio2016 está acontecendo em um campo construído em cima de uma Área de Proteção Ambiental e que não tem um único laudo válido que ateste sua viabilidade.

As capivaras, cobras e jacarés que tem aparecido por ali não estão a passeio. Elas sobreviveram e pedem socorro.

A construção desse campo de golfe, inclusive, começa com apropriações indevidas de grandes áreas da Barra da Tijuca, Recreio e Jacarepaguá e acusações de assassinatos ainda no século XVII, com cabeças cortadas e fincadas em estacas para demarcar territórios e demonstrar poder.

A realidade surreal descrita pelo jurista Pontes de Miranda já em 1939, como “grilagens dignas de fitas de cinema”, fez jus à profética descrição e virou um filme: ‘Olympia 2016 – a cidade onde nem todos têm um preço’ entra nos cinemas em 15 de setembro.

Misturando as linguagens de ficção e documentário, o filme mostra que já tem muita gente pagando a conta dos jogos.
Convidamos todos a assistir. A festa não pode interromper a vida.

*Mariana Genescá começou como jornalista esportiva e hoje é produtora de cinema e TV.



Os medalhões dos 100m rasos
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Juca Kfouri

 

O “Raio” Usain Bolt (Jamaica)


Recordista mundial da prova, atual bi-campeão olímpico e atual bi-campeão mundial.

 

O “Capitão América” Justin Gatlin (EUA)


Campeão olímpico em 2004, campeão mundial em 2005, atual vice-campeão mundial (Pequim 2015) e
melhor marca do ano de 2016 (Final da Seletiva americana com 9.80).

Campeão mundial em 2011, vice-campeão olímpico em 2012 e vencedor da seletiva jamaicana para as
Olimpíadas do Rio 2016.

Andre De Grasse (Canadá)


Campeão pan-americano dos 100 e 200m em 2015, medalha de bronze no mundial 2015 e campeão
canadense em 2016.

Trayvon Bromell (EUA)


Medalha de bronze no mundial 2015 e vice-campeão americano em 2016. No campeonato americano fez
sua melhor marca: 9s84

Jimmy Vicaut (França)


Terceiro colocado no ranking mundial em 2016 com 9.86.

 


O menino que bateu Phelps
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

A foto é surreal.

Singapura, 2008.

Phelps se prepara para os Jogos de Pequim.

Alguém chega e pede uma foto.

O já lendário Michael Phelps aceita.

O guri nem sabe o que dizer.

O guri que é fã de Phelps.

Phelps não sabia.

O guri nascido em Singapura tinha DNA aquático.

O tio-avô foi o primeiro atleta de Singapura em Londres, 1948.

O guri cresceu nadando nas histórias da família.

Nas horas de folga, ele curtia o Chelsea e já era um tubarão no nado borboleta.

Como nas melhores lendas olímpicas.

Oito anos depois.

O menino bate Phelps na final do 100m borboleta no Brasil.

Porque a realidade dos esportes.

É sempre muita mais surpreendente que os sonhos de criança…


Momentos olímpicos
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

1.
Olimpíada, gordo daquele jeito? Nunca andou mais de cinco metros na vida! Come, bebe e dorme, mais nada. Você sabe bem, pai. Você sabe. Agora, tem uma semana que está em frente à TV o dia todo. Só empilhando lata de cerveja, saquinho de amendoim e cigarro. E ainda disse pro caçula: “filho, esporte é saúde”, acredita? Fui falar com ele pra procurar emprego. Sabe o que ele respondeu? “Silêncio, agora é a prova de vela!”. De vela, pai! De vela! Xinguei-o de que tudo que é nome. Aí ele se levantou e me deu uma sacudida tão forte que me jogou no chão. Olha o roxo aqui no ombro, pai, olha. Ah, sabe o que ele disse pras crianças? Que eu não tenho “espírito olímpico”.

2.
Agora ela toda noite quer ver natação, vôlei, resumo do dia, reprises, tênis, tudo o que existe na Olimpíada. Botar o jantar? Arrumar a cama? Lição dos meninos? Nem aí. Bate palmas, dá gritinhos, chora, canta hino, vibra, torce – nem sei se ela entende o que está vendo. Não aguentei. Ontem nem voltei pra casa. Dormi num hotel. Pensa que ela telefonou? Nada. Nem deve ter notado. Acho que só vai notar no final dos Jogos. Se notar, meu amigo, se notar. Ainda se o Brasil ganhasse alguma coisa, vá lá. Mas ficar vendo gringo ganhar medalha de ouro e largar a casa naquela bagunça? Não dá, amigo, não dá. Mais uma e a conta?

3.
O pai estragou tudo, mãe. Ele é muito chato. No dia da abertura, levei os amigos pra assistir lá em casa. Sabe o que ele fez? Ficou na sala com a gente. E eu tinha pedido pra ele sair, mãe. Avisei que eu queria ficar sozinho com a turma. Atrapalhou tudo. E as piadas? Mãe, que vergonha! As delegações estavam entrando. Aí ele começou: “Barbados? Mas só tem um a caráter!”. “Os de Bermudas, sim, estão coerentes”. “Somália só com dois representantes? Tinha que ser Diminuília”. “Luxemburgo? Montenegro? Então eles se separaram de Vanderlei e de Oswaldo?” – e explicou pra todo mundo o que ocorreu com a antiga Tchecoslováquia. “A delegação japonesa só tem uns dez: o resto é truque de espelhos”. Ninguém aguentava mais. Eu estava morto de vergonha, mãe. No final do desfile entrou a delegação brasileira e ele ainda soltou essa: “que vexame, o Brasil já começa em último lugar!”. Foi todo mundo embora, mãe. Estragou tudo.

_____________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).



É criança na água, estúpido!
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Juca Kfouri

POR RENATO CORDANI*

Não é preciso fazer muitas contas para concluir que a seleção brasileira de natação não foi bem nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Ainda faltam duas finais, mas todo mundo viu, todo mundo sabe. Não que se esperassem muitas medalhas, a minha previsão era apenas uma, mas a grande maioria acabou piorando os tempos ao invés de melhorar. Muitas desculpas podem ser dadas pelos brasileiros individualmente: pressão da torcida, horário inadequado, o calor, a comida, Deus, a Vila, sei lá. São justificativas razoáveis, e não estou sendo irônico. Mas é isso o que temos, e querendo ou não, a seleção brasileira é formada nada mais nada menos pelos melhores nadadores que temos hoje no Brasil.

Aí você vai dizer: “ah, mas a Katinka, o Phelps, o Peaty, a Ledecky não sentiram nenhum desses problemas!”. Isso é fato, inclusive a Katinka, a Ledecky e o Peaty bateram recordes mundiais. Eles não sentiram nada disso, e obtiveram rendimento máximo na final olímpica, que é o objetivo de todo nadador.

Fazer o melhor tempo da vida na final olímpica é uma tarefa para poucos e bons, e não é inédito para brasileiros, por exemplo:

Ricardo Prado fez o seu melhor tempo ao ganhar a prata olímpica em 1984 (aqui).
Gustavo Borges tem seus melhores tempos de 100L e 200L em finais olímpicas medalhadas em 1996.
Fernando Scherer fez seu melhor tempo quando beliscou o bronze olímpico em 1996.
César Cielo fez seu melhor tempo ao ganhar o ouro olímpico em 2008, e o melhor de 100L (WR até hoje) na final do mundial de Roma em 2009.
Thiago Pereira fez sua melhor marca – adivinhem! – na final olímpica dos 400 medley em que ele garantiu a prata em 2012.

Enfim, alguns dos nossos nadadores já fizeram isso, embora com muito menos frequência do que os americanos. Quais nadadores? Os gênios! Aqueles que são os mais talentosos dentre os talentosos. Os quase sobrenaturais. O meu ponto aqui é que muito poucos nadadores são assim. De vez em quando, por pura sorte, um desses ultra-talentos pipoca por aqui.


Ricardo Prado: prata olímpica com melhor tempo da vida na final.

Já nos países que apresentam muitos talentos o tempo todo, como é o caso dos Estados Unidos, é porque os talentos foram selecionados dentre muitos milhares de nadadores. Nos EUA, em cada estado, em cada pequena cidade, seja nas escolas ou em clubes, a criança tem muito estímulo para nadar, mostrar seu talento e de um dia ser recrutado para a seleção. E de milhões, se faz uma seleção só de craques. É uma questão de simples estatística!

Com qual frequência aparece uma Ledecky? Com qual frequência aparece um Lochte?

Aqui no Brasil quantos são os centros de natação mirim-petiz? Que estados tem projetos para as suas crianças? Quantas escolas têm piscina? Quantos patrocinadores privados patrocinam o esporte de base? Quantos olheiros estão buscando talentos em locais de baixa renda? Quais Federações têm recursos próprios e fazem competições bacanas para a molecada? Quantas crianças estão na água? Fora a Federação Aquática Paulista e mais umas poucas outras, a verdade é que as nossas crianças não estão na água!


Paulista Petiz de Verão 2015: quantos estados do Brasil colocam tantas crianças na água?

Portanto a culpa dessa situação desoladora não é dos nadadores atuais, eles são os melhores do Brasil e estão lá com méritos. O que está faltando é criança na água!

Não sou leviano em dizer que essa culpa tem nome e sobrenome: sr. Coaracy Nunes e a sua CBDA, afinal essa turma está lá há quase trinta anos! Muito dinheiro é gasto com o alto rendimento (olha o exemplo do Pólo masculino), para tentar maximizar o número de medalhas, mas as Federações estão à míngua! Nenhum apoio real da Confederação é empenhado em competições para crianças, a não ser em alguns estados que se viram sozinhos. E as medalhas olímpicas, como vimos, só acontecem quando aparece (por pura sorte) um desses gênios! E para piorar, todo o dinheiro que está sendo usado hoje em dia vem quase exclusivamente de UM patrocínio estatal (Correios), que já disse que o dinheiro vai acabar… o que será de nós daqui para a frente?

Preparo psicológico, treinamento de altitude, tecnologia de ponta, técnicos de primeira, equipamentos de primeira linha, tudo isso a gente tem! Só falta criança na água, e é justamente o que de melhor uma Confederação de Desportos Aquáticos poderia fazer… e não está fazendo!

Essa está longe de ser a única, tem outras (aqui), mas é a principal razão pela qual já passou da hora de mudar: MUDA CBDA!

*Renato Cordani foi campeão brasileiro de natação.


Confissão de impotência
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Juca Kfouri

“É bom lembrar que o comandante disse que eles foram insistentes na recomendação: os comboios  não deveriam jamais entrar em comunidade, deveriam permanecer nas vias expressas, as chamadas vias olímpicas”.

A frase não é de nenhum chefe do tráfico de drogas no Rio nem de algum comandante de milícia que aterroriza as favelas cariocas.


A declaração, como de rendição, é do ministro da Defesa do governo interino do Brasil, Raul Jungmann, ao se referir ao atentado à bala sofrido ontem por uma unidade da Guarda Nacional destacada para dar segurança aos Jogos Olímpicos.

É o reconhecimento explícito de que há áreas em que o Estado não pode entrar, como se fossem, e são, territórios ocupados por forças acima da ordem nacional.

A que pontos chegamos!

Só resta continuar a torcer para que não haja uma tragédia na Olimpíada.


 


Em homenagem ao Dia do Advogado
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Juca Kfouri

11 de agosto é o Dia do Advogado.

Não fosse por alguns deles, como o solidário criminalista Luís Francisco Carvalho Filho, e é possível que eu estivesse preso, processado por Ricardo Teixeira, Joseph Blatter e José Maria Marin tantas vezes como já fui por apontar suas mazelas.


Imagine: eu preso, eles soltos, embora um esteja em prisão domiciliar em NY, outro não possa sair do país e o suíço expulso da Fifa.

Ou poderia estar na miséria não fosse pela advogada Taís Gasparian, minha querida defensora nas ações cíveis.


Daí, em homenagem a eles, reproduzo um texto de outro craque, não só nas letras jurídicas, mas, também, na literatura, autor do portentoso e premiado livro “Fernando Pessoa: Uma quase autobiografia”, José Paulo Cavalcanti Filho, um velho amigo e torcedor do Timbu.


CONSELHOS DE VELHOS JURISTAS A JOVENS ADVOGADOS

Sempre imaginei escrever um livro com título assim. Talvez algum dia o faça. E aproveito esse 11 de agosto, Dia do Advogado, para indicar alguns conselhos que juntei nos caminhos percorridos. Para todos os fins, conto meu tempo de profissão desde quando o governo militar me proibiu de estudar no Brasil. Era 14 de abril de 1969, não dá para esquecer uma data dessas. Então fui para Harvard, mas essa história não interessa a ninguém. Certo é que, esperando pelo dia de partir, botei gravata e passei a dar expediente no escritório de meu pai. Tinha só 20 anos. E já faz uma vida. Vamos a alguns dos tais conselhos que aprendi por lá.

Quando se vai demasiado longe, o progresso consiste em regredir. Eduardo Spíndola (ministro do STF).

Tantas vezes vi isso, na profissão. Pessoas que acreditavam estar sempre certas. Que não mudavam nunca de opinião. É um erro, senhores. Um pouco de modéstia não faz mal a ninguém. Outro conselho dele é Se não é preciso mudar, é preciso não mudar. Variável do dito americano Se não está quebrado, não conserte.

Nunca leia um artigo do Código mais que 6 vezes. Na sétima, ele vai começar a dizer o que você quer que ele diga. Clóvis Beviláqua (autor do Código Civil Brasileiro de 1916).

A realidade não pode ser vista, ou lida, a partir de nossas conveniências. As coisas são o que são, por mais que não gostemos. Outro conselho dele é Não entende o que um artigo diz?, leia o anterior. Continua sem entender?, leia o seguinte. Sugerindo ampliar a visão, para bem compreender cada situação. Sem preconceitos. Mundo, mundo, vasto mundo, escreveu Drummond. E é mesmo.

Vamos dizer as coisas como as coisas são. Quase igual é o mesmo que diferente. Francesco Carnelutti.

Sobre as virtudes no falar claro. Evitando acomodações. Esse jeitinho bem brasileiro de não ir à essência das questões. E sem receios de explicitar divergências. Elas nos enriquecem, amigo leitor. Uma crise da razão é, sempre, uma crise sem razão.
Faça tudo que puder enquanto não sentir as primeiras mordidas da velhice. Noberto Bobbio. Um conselho que vale para todos nós. Bucovski escreveu sobre a lancinante dor da liberdade. Há outras. Entre elas, a lancinante dor de existir. Até porque como na frase atribuída a Shaw, Juventude é doença que tem cura.

Não entre em problema que você não seja capaz de resolver. Afonso Arinos de Melo Franco (presidente da Comissão que redigiu o projeto da Constituição de 1988).

Pense bem antes de se meter em confusão. Duas vezes. Três. Se puder, corra dela. E não esqueça o conselho desse mestre, antes do primeiro passo.

Um problema é sempre um problema. Dois problemas, às vezes, é uma solução.

Esse conselho é meu. Por tantas vezes ver que um segundo problema acaba sendo, mesmo, solução que cai do céu. Podem acreditar. Sugiro, ao leitor amigo, prestar atenção na regrinha.

A mão aberta é um tapa. A mão fechada é um murro. E é a mesma mão.

De meu pai, José Paulo Cavalcanti, maior jurista que conheci. Sobre a importância de escrever bem. Esquecendo o que não é essencial. O adjetivo. O que não têm importância. E indo sempre ao centro da questão. Um belo conselho. Saudades do velho.


Boa sorte, Neymar!
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Neymar não está em má companhia.

Para o bem e para o mal.

Leônidas era boçal e foi vendido aos italianos.

Friedenreich era frio – bom era Neco – ambos craques.

Tim vivia de noitadas.

Barbosa era cego.

Juvenal frouxo e Gentil Cardoso metido a besta.

Jair Rosa Pinto era venal.

Pelé estava acabado em 1969.

Garrincha de alegria virou aleijado.

Ronaldo, um fraco.

Rivaldo oligofrênico.

Félix frangueiro.

Marinho Chagas irresponsável.

Zico era menino do Maracanã.

Cerezo um irresponsável.

Bellini saiu de herói a bonde em duas estações.

Valdir Peres sumiu do mapa.

Pepe tremia quando via Zagalo.

Alguns foram bons jogadores – a maioria, gênios.

Ninguém se salvou.

Nem Telê.

Nem Aymoré.

Nem Feola – que cochilava no banco.

Diante de tal histórico com nossos jogadores.

Resta apenas desejar boa sorte ao Neymar.

A mão que apedreja no futebol brasileiro.

Costuma afagar com amnésia na manhã seguinte.

Basta apenas o milagre do gol…


Mulheres recebem menos também nos esportes
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Juca Kfouri

Enquanto Neymar embolsa em média R$ 900 mil por gol, Marta ganha R$ 12 mil

por Natalia Mazotte, do Gênero e Número, para a Agência Pública

Além da baixa representatividade nas gerências das federações esportivas, a carreira das atletas passa por obstáculos financeiros.

O suor para estar em competições nacionais e internacionais de alto nível é o mesmo para homens e mulheres, mas invariavelmente as recompensas são menores para elas.

Em um caso que ganhou destaque recentemente, o time brasileiro vencedor da Liga Mundial de vôlei feminino de 2016 levou pra casa um cheque de 200 mil dólares, valor cinco vezes inferior ao recebido pelo primeiro lugar da Liga Mundial masculina.

Em entrevista ao “Gênero e Número”, a oposta Sheilla Castro, bicampeã olímpica e integrante da atual equipe de vôlei campeã, critica a diferença entre as premiações. “Muito discrepantes os prêmios no masculino e feminino. Nunca formalizamos nenhuma reclamação, mas já conversamos com o Ary [Graça, atual presidente da Federação Internacional de Vôlei], quando ele era presidente da CBV”, disse a jogadora.

A diferença de remuneração é ainda mais notória quando se olha para o prêmio em dinheiro oferecido pela FIFA, órgão de gestão do futebol no mundo que apenas em 2013 teve a primeira mulher em seu comitê executivo, a burundesa Lydia Nsekera.

Enquanto a equipe feminina dos EUA ganhou US$ 2 milhões da organização por vencer a Copa do Mundo do ano passado, a seleção masculina alemã arrecadou US$ 35 milhões após ser campeã da Copa do Mundo de 2014. Se o prêmio fosse dividido pelos jogadores em campo, a receita das americanas não chegaria a US$ 200 mil por atleta, enquanto os alemães embolsariam mais de US$3 milhões individualmente.

Sheilla afirma que a justificativa dada para a disparidade é a diferença de patrocinadores, o que impactaria no valor que entra. “Se é ou não verdade, eu não sei”, disse.


As contas bancárias dos atletas refletem essa diferença. Na última classificação divulgada pela Forbes, entre os cem atletas mais bem pagos do mundo há apenas duas mulheres: as tenistas Serena Williams, que recebe US$ 28,9 milhões, e Maria Sharapova, com US$ 21,9 milhões por ano, respectivamente 40º e 88º no ranking. Valores altos, mas nem metade do que recebe a estrela masculina do tênis Roger Federer, US$ 67 milhões.

Se no tênis, um dos esportes mais equânimes em termos de gênero, onde todos os principais torneios oferecem prêmios idênticos nas disputas femininas e masculinas, a diferença de salários e patrocínios dos primeiros do ranking ainda é considerável, no futebol ela atinge seu ápice.


Neymar e Marta são dois expoentes dessa a paixão nacional, e estão em campo na disputa pelo ouro olímpico.

Ela já foi eleita cinco vezes melhor jogadora do mundo pela Fifa e marcou 103 gols com a camisa da seleção.

Ele conquistou o terceiro lugar na última votação para melhor do mundo, e chegou a 50 gols defendendo o Brasil. Mas é na conta bancária que a diferença entre os dois se sobressai: Marta recebe de salário anual US$400 mil contra US$14,5 milhões de Neymar, de acordo com a Forbes. Se fossem pagos por gols, cada bola na rede da Marta valeria cerca de US$3,9 mil (cerca de R$12,2 mil), enquanto as do Neymar valeriam US$290 mil (cerca de R$905 mil).

Pode ser moralmente escandaloso que Marta receba tão menos que Neymar? Em um mercado movido a patrocínios, tudo parece justificável. As receitas patrocinadas da Copa do Mundo masculina chegaram a US$ 529 milhões. No mundial feminino, US$ 17 milhões de investimentos privados.

Visibilidade e popularidade são palavras-chave para entender por que os esportes femininos atraem menos patrocínios. “A mídia dá pouca visibilidade às conquistas das mulheres, aos campeonatos das mulheres”, explica Silvana Goellner, professora da Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e especialista em questões de gênero no esporte. “A mídia produz muito a representação do esporte para os homens, então como vamos tê-las como inspiração?”, questiona Silvana.

Os acordos de transmissão e direitos televisivos exercem uma poderosa influência nos negócios esportivos. A popularidade dos jogos, com o comparecimento aos estádios para ver as equipes femininas, também afeta diretamente a receita dos campeonatos e o interesse das emissoras. Quanto menos pessoas prestigiam as atletas, menos elas são noticiadas e televisionadas. Quanto menos são noticiadas e televisionadas, menos pessoas têm o interesse despertado e as prestigiam. Um círculo vicioso que explica em grande parte a batalha para equalizar economicamente as competições feminina e masculina.

Este texto foi produzido pela web revista Gênero e Número, uma iniciativa de jornalismo de dados que está sendo incubada pela Agência Pública em 2016. A cada mês, ela tratá uma série de reportagens com um tema relevante sobre a desigualdade de gêneros. Leia a investigação completa sobre Mulheres no Esporte: www.generonumero.media


“Olympia”: as Olimpíadas de Hitler
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Juca Kfouri


Zuca Sardan

por Adriano Bidão

O documentário “Olympia”(assista a um trecho do filme), lançado em 1938, aborda as Olimpíadas de Berlim, de 1936. O filme é dividido em duas partes: “Ídolos do Estádio” e“Vencedores Olímpicos”. Em 1948, recebeu a medalha de ouro do Comitê Internacional Olímpico. Dirigido por Leni Riefenstahl e financiadopelo Terceiro Reich, “Olympia” completa 78 anos de lançamento em 2016, ano em que o Rio de Janeiro sedia os Jogos Olímpicos.

O cinema de Riefenstahl é influenciado pelo movimento artístico denominado “Construtivismo Russo”. Esta escola, apoiada por Lênin, liderada por Sergei Eisenstein, ganha força no cinema contemporâneo com o uso da montagem dialética, em que os planos justapostos transmitiam emoção e percepção ao espectador. Filmes como “A greve (1925)” e “Encouraçado Potemkin (1925)”, ambos de Eisenstein, tinham como protagonista o proletariado representado por atores populares, travando um combate ferrenho contra um governo tirano, que acaba sendo destituído do poder. Trata-se de uma luta de um povo unido pelo espírito do comunismo presente na antiga União Soviética.

Quando se torna Chanceler, Hitler opta por financiar a realização de filmes de propaganda. Neste momento surge a figura de Leni Riefenstahl. É preciso esclarecer que não estamos igualando os pensamentos de Riefenstahl e de Sergei Eisenstein, visto que a Rússia atravessava um momento de transição política revolucionária, sintonizado com o avanço do socialismo, das utopias e da luta pelo ideal da igualdade social, movimento liderado pelo Partido Bolchevique, dirigido por Lênin até seu falecimento, em 1924. Em paralelo, na década de 1920, a Alemanha viveu um dos momentos dramáticos de sua História. Depois de uma tentativa frustrada de um golpe de Estado em 1923, Hitler é eleito Chanceler em 1933.

Assistindo ao filme “Olympia”, é possível identificar a ideologia da superioridade ariana pela naturalidade das observações eloquentes do narrador buscando imprimir dramaticidade às provas, como na narração da corrida de 800 metros rasos, na qual ele destaca a emulação de “dois corredores negros contra três atletas brancos”, acrescentando que o grande corredor negro Woodruff seria o favorito e o italiano Mario Lanzi a esperança da Europa. Já no final da corrida, quando os atletas negros Edward O’Brien e John Woodruff estão de fato liderando a prova, o narrador não resiste e pergunta em tom de desespero: “onde está Lanzi?”.

Vemos também, no filme, Adolf Hitler aplaudindo e vibrando quando os alemães Karl Hein e Erwin Blask ganham, respectivamente, as medalhas de ouro e prata na prova de lançamento de martelo. Ironicamente, na prova final do lançamento de disco, a atleta Wajsówna, da Polônia (primeiro país invadido pela Alemanha na Segunda Guerra Mundial), perde para a alemã Gisela Mauermeyer. Derrotas alemãs também são registradas, como a emblemática vitória do atleta negro e norte-americano Jesse Owens na prova do salto à distância, na qual também compete o alemão Lutz Long. Essa é uma das cenas mais marcantes do filme, pois, afinal, apesar de Hitler ter usado as


O norte-americano Jesse Owens, após vencer a prova de
salto em distância.

Olimpíadas para tentar provar a superioridade da “raça ariana”, os nazistas tiveram de assistir a Jesse Owens ganhar quatro medalhas de ouro.


O atleta alemão Lutz Long. Ele foi derrotado pelo atleta
norte-americano, Jesse Owens.


Há o registro de dois brasileiros: Ícaro de Castro Melo, na prova de salto em altura, e Catrambi, na prova de tiro ao alvo (a ida da equipe brasileira às Olimpíadas de Berlim renderia um excelente documentário. Seria um grande resgate da nossa memória e uma homenagem aos atletas que elevaram o nome do Brasil).
O atleta brasileiro Catrambi na prova de tiro.


O atleta brasileiro Castro Melo na prova de salto em altura.

Cabe ressaltar que a Alemanha saiu vitoriosa no quadro de medalhas obtendo 89 (33 de ouro) contra 56 (24 de ouro) dos EUA.
As lentes de “Olympia” captam com precisão a conjuntura conturbada da antessala da Segunda Guerra Mundial, conforme podemos ver através das fotos apresentadas neste artigo. É inegável o talento de Riefenstahl.

A grande polêmica em relação ao documentário em tela está na impossibilidade de não se vincular o nome da cineasta ao de Adolf Hitler. A ex-atriz e bailarina e mais tarde mergulhadora tornou-se uma produtora e diretora conhecida mundialmente em 1932, após o lançamento do filme “A Luz Azul”. Com a nacionalização da produtora “UFA” pelo Reich, o ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, via no cinema uma forma de disseminar os seus ideais por intermédio de cinejornais.

O contato profissional entre Hitler e Riefenstahl começou em fevereiro de 1933. Após assistir a um discurso do Führer, Riefenstahl envia-lhe uma carta. Em resposta, Hitler convida-a para um encontro que resultou na proposta para que ela se tornasse a cineasta do partido nazista, convite antes recusado pelo diretor Fritz Lang, autor do belíssimo filme “Metrópolis” (1927). Em 1934, ela realiza “O Triunfo da Vontade”, documentário sobre o sexto Congresso do Partido Nazista, em Nuremberg.

Durante esse período e até o final de sua vida, Riefenstahl sempre foi acusada de ser simpatizante do nazifascismo, ao que sempre respondia limitar-se a exercer o seu ofício profissional de diretora cinematográfica. Depois de décadas sem filmar, Riefenstahl conclui em 2002 o filme “Impressões Subaquáticas”.

Concordamos que seja possível assistir a “Olympia” e apreciá-lo de forma artística pelas imagens e pela música, que cultuam a plasticidade dos corpos dos atletas em movimento. Mas é impossível esquecermos seu significado e sua representação como pano de fundo da barbárie do nazismo.

Para alguns críticos e cinéfilos, “Olympia” transcende a política. É um filme para cinéfilos, para fãs de esportes olímpicos, jornalistas, historiadores e pesquisadores. Como descreveu a crítica norte-americana Pauline Kael: “Olympia é uma elegia sobre a juventude de 1936: ali está ela em seu desabrochar, dedicada aos mais altos ideais do desportismo – aqueles jovens que cedo demais iriam se matar uns aos outros”.

Em 1993, dez anos antes do falecimento de Riefenstahl, foi lançado o documentário biográfico “Leni Riefenstahl: a Deusa Imperfeita”, dirigido por Ray Müller.

Adriano Bidão é Cineasta, Roteirista e Escritor. Dirigiu e escreveu 5 curtas-metragens. É autor do livro contos “Reflexões Delirantes (Ed.Multifoco)”. Foi pesquisador do livro “Vida que Segue. João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970 de Raul Milliet Filho.(Ed.Nova Fronteira)”.

Notas do Editor do Megafone do Esporte
1. Em 1935, a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) era responsável pela organização das delegações olímpicas do País. A criação do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) neste mesmo ano provocou um conflito entre as duas entidades, que divergiram sobre quem teria a supremacia para levar os atletas brasileiros a Berlim. A disputa se estendeu e só foi decidida na véspera do embarque, depois que a CBD aquiesceu em fundir as equipes e aceitar o COB no comando desta jornada.
Não é preciso dizer que todo este imbróglio prejudicou o desempenho dos 95 atletas brasileiros inscritos (sendo 6 mulheres). Os brasileiros não conseguiram conquistar nenhuma medalha, sendo a última vez que isto aconteceu.
A nadadora Piedade Coutinho chegou em 5º lugar nos 100 metros livre, o mesmo acontecendo no atletismo com Sylvio de Magalhães Padilha, que ficou com a 5ª colocação nos 400 metros com barreiras.
2. As Olimpíadas de 1936 ficaram marcadas por uma disputa política entre Alemanha e Estados Unidos. Depois da Segunda Guerra Mundial até a derrubada do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, todos os Jogos Olímpicos tinham como principal pano de fundo a disputa política.
A partir de 1992, nos Jogos Olímpicos de Barcelona, tem início uma nova fase com a hegemonia do capitalismo globalizado e as grandes empresas multinacionais, que passam a dominar os destinos do Comitê Olímpico Internacional e dos comitês olímpicos dos países presentes às disputas.

Deixa falar: o megafone do esporte tem a edição e criação de Raul Milliet Filho (doutor em História pela USP, pesquisa a História do Futebol no Brasil, especialista em Políticas Públicas na área social. ).