Blog do Juca Kfouri

Arquivo : dezembro 2014

O que o Relatório da Comissão da Verdade revela sobre o futebol
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Juca Kfouri

trivela.uol.com.br

Há 50 anos, a ditadura militar se instaurou no Brasil. E, 29 anos depois da redemocratização do país, muitas cicatrizes deixadas no período continuam abertas. Assassinatos, torturas, perseguições e desaparecimentos que se revelaram ao longo das últimas décadas, mas também se esconderam em arquivos e memórias perdidas. Uma história que, no entanto, passou a ser revisitada com mais vigor a partir de 2012. A Comissão Nacional da Verdade se instituiu para apurar graves violações de Direitos Humanos. Nesta semana, divulgou o seu relatório final, detalhando muitos episódios de repressão.

50 ANOS DO GOLPE: Como a Ditadura Militar se apropriou do futebol brasileiro

Em um país fortemente ligado com o futebol, o esporte também apareceu nos documentos. Principalmente, citando histórias ocorridas em dois estádios que se tornaram centros de detenção em massa: o Caio Martins, em Niterói, e o Nacional de Santiago, no Chile, que também abrigou presos políticos a partir da instauração da ditadura de Augusto Pinochet. No mais, o relatório da CNV também reconta o assassinato do militante Jeová Assis Gomes, baleado enquanto fugia de militares em um pequeno campo de futebol na cidade de Guaraí, no interior de Goiás.

A utilização do Caio Martins e do Estádio Nacional do Chile, sobretudo, ressaltam a forma como o futebol acabou se tornando instrumento das ditaduras militares na América do Sul. Uma utilização do esporte que foi muito além das prisões realizadas nos dois locais, e que se aprofundou bem mais na coerção, no jogo de interesses e na manipulação da população. O relatório da CNV, entretanto, se aprofunda em dois momentos nos quais as violências se evidenciaram mais. Abaixo, trechos retirados dos documentos oficiais:

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Caio Martins
Os relatórios da Comissão Nacional da Verdade não se aprofundam nos depoimentos dos presos políticos do Caio Martins. No entanto, apresenta um panorama geral sobre como algumas instalações esportivas foram utilizadas como prisões coletivas logo após o golpe militar, em 1964.

Um dos aspectos mais reveladores das prisões coletivas realizadas em 1964 pelas forças de segurança da ditadura – incluindo-se agentes militares e policiais civis e militares – diz respeito aos locais utilizados para as prisões. Ultrapassando os limites dos quartéis, das delegacias e do sistema penitenciário, os trabalhadores foram mantidos presos em estádios de futebol e navios: em Niterói (RJ), no Ginásio Caio Martins; em Macaé (RJ), no Clube Ypiranga; em Criciúma (SC), no Esporte Clube Comerciários. Esses espaços apresentam-se como consequência lógica do que revelou a investigação de Marcelo Jasmin, realizada com base em 1.114 processos da Comissão de Reparações do Estado do Rio de Janeiro na qual 43,68% dos casos pesquisados de graves violações dos direitos humanos ocorreram nos três primeiros anos da ditadura – entre 1964 e 1966.

Destaque especial deve ser dado ao primeiro estádio da América Latina, o Ginásio Caio Martins, em Niterói, que funcionou como prisão desde abril de 1964 ou, nas palavras de ex-presos políticos, um verdadeiro “campo de concentração”. A despeito de o DOPS do Rio de Janeiro registrar que nesse estádio de futebol estiveram detidos apenas 339 pessoas, por ali passaram mais de mil presos políticos, conforme depoimentos de vítimas e advogados. As principais categorias de vítimas de prisão naquele local foram a dos bancários, dos ferroviários, dos operários navais e de trabalhadores do campo.

LEIA MAIS: O Brasil também teve o seu estádio-prisão durante a ditadura

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Estádio Nacional de Santiago
Em 1973, a ditadura de Augusto Pinochet considerou suspeitos todos os estrangeiros que migraram ao país durante o governo de Salvador Allende. Ao todo, 108 brasileiros foram detidos no Estádio Nacional do Chile. Um dos presos, Wânio José de Mattos, faleceu nas instalações, em “situação deliberada de omissão de socorro”. Sua esposa e sua filha de colo, rejeitados pela diplomacia brasileira, acabaram deportados a Paris.

LEIA TAMBÉM: Como o Santos se envolveu no 11 de setembro chileno

Aqueles que desejavam regressar ao Brasil tiveram a deportação tratada pelo Ministério das Relações Exteriores. Contudo, segundo as comunicações da época, “não só o MRE não tomou medidas que estavam ao seu alcance e que eram necessárias para que isso ocorresse, mas chegou mesmo a tomar iniciativas no sentido de impedi-lo”.

A realização da partida entre Chile e União Soviética, pela repescagem da Copa do Mundo de 1974, gerou uma “séria preocupação esvaziar o Estádio Nacional” no Ministro da Defesa chileno. As autoridades chilenas solicitaram a colaboração no “sentido de resolver rapidamente a situação dos brasileiros, já que devem deixar livres o mais rápido possível as dependências do estádio, e as prisões se encontram superlotadas”.

VÍDEO: Casely teve a mãe torturada por se opor a Pinochet

Ao invés de providenciar o auxílio, no entanto, o governo Médici enviou ao Chile uma equipe de militares e policiais brasileiros, para interrogar e torturar os detidos no Estádio Nacional. “Osni Geraldo Gomes relata como foi interrogado – pendurado no pau de arara e submetido a choques elétricos – por três agentes brasileiros, que falavam em português e perguntavam sobre suas atividades e ligações no Brasil. A sessão de tortura foi presenciada por um grupo de oficiais chilenos que assistiam a tudo por uma parede de vidro, e de um dos quais o depoente ouviu o seguinte comentário, dirigido aos demais: ‘esses são profissionais, prestem atenção’”.

O regime brasileiro manteve-se passivo sobre a situação dos presos, interessado apenas nos interrogatórios. Os documentos revelados não apresentaram qual a situação final das negociações, apenas de alguns casos nos quais o MRE ignorou os pedidos de deportação. Nos arquivos da chancelaria chilena há um único pedido de expedição de salvo-conduto, apresentado pelas autoridades brasileiras, para três cidadãos brasileiros detidos no Estádio Nacional. Monitorados de perto em seus deslocamentos, alguns desses brasileiros vieram a tornar-se desaparecidos políticos.

NO IMPEDIMENTO: La Cancha Infame, a história das prisões no Estádio Nacional

Na sequência, leia o depoimento de Luiz Carlos Vieira, preso político no Chile que, após sobreviver, foi acolhido pela embaixada da Suécia e se refugiou no país escandinavo.

O estádio parecia estar iluminado para uma noite de futebol. Ainda não sabíamos que o haviam transformado em uma enorme sala de tortura, humilhação e morte. Passamos por uma fileira de soldados. Logo seguimos por um longo corredor cujas paredes eram formadas por corpos humanos, os braços estendidos para o ar, os rostos voltados para as paredes de pedra do corredor do estádio. Chegamos ao que parecia ter sido um dos vestuários, agora transformado em sala de tortura. Um militante uruguaio acabava de ser castigado. Um oficial veio recolher nossos documentos de identificação. A sessão de tortura iniciou-se. O interrogatório girava em torno de um suposto esconderijo de armas, o qual era completamente desconhecido para nós. Diante da resposta negativa, o oficial decidiu que, juntamente com o militante uruguaio, devíamos deixar o estádio.

Todas essas viagens foram feitas em uma camioneta, onde íamos acompanhados de dois ou três soldados armados, sempre seguidos de perto por um caminhão com mais soldados. A última viagem levou-nos às margens do rio Mapocho. Os soldados mostravam-se nervosos e agiam com violência. Já não havia dúvida sobre qual seria o nosso destino. Luiz Carlos tentou argumentar com os soldados, mostrando-lhes o absurdo e o inumano de tal situação. Mas naquele momento já não regia nenhuma lei, nem a dos homens nem a de Deus. O uruguaio encaminhou-se para a beira do rio e jogou-se nas águas, sendo imediatamente metralhado por um soldado. O oficial mandou Luiz Carlos fazer o mesmo. Um soldado seguiu-o e disparou demoradamente. Depois foi a minha vez. Das três balas que me atingiram, uma pegou de raspão na cabeça, fazendo-me perder os sentidos por algum momento. Quando recuperei a consciência, senti-me levado pela leve correnteza do rio, ouvi as vozes dos soldados, vi as luzes dos caminhões refletirem-se nas águas do rio, iluminando os corpos inertes de meus companheiros. Era o único sobrevivente.


Sindicato mineiro lamenta saída de jornalista
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Juca Kfouri

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais lamenta a saída de João Paulo Cunha do comando da editoria de Cultura do jornal Estado de Minas, mais uma vítima da censura que impera nos grandes meios de comunicação e grassa em Minas Gerais, e repudia o cerceamento à liberdade de expressão.

Reconhecido como um dos mais brilhantes jornalistas e intelectuais mineiros, dono de uma vasta cultura e de um texto brilhante, João Paulo pediu demissão hoje à tarde. A decisão foi tomada depois da comunicação por parte da direção do jornal de que não poderia mais escrever sobre política na coluna que assinava semanalmente no caderno Pensar.

Seu último texto foi publicado no dia 6/12. Intitulado “Síndrome de Capitu”, critica a falta de uma oposição responsável no Brasil. “Há grandes projetos que impulsionam uma vida e moldam expectativas de futuro, algo que ganhou o belo nome de utopia”, diz um trecho do texto. E foi em nome dessa utopia que ele não aceitou mais essa imposição. Uma salva ao João.

Abaixo a íntegra de sua última coluna.

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SÍNDROME DE CAPITU

O Brasil já tem presidente para os próximos quatro anos, o que está faltando é oposição responsável

POR JOÃO PAULO

Existem duas verdades aparentemente óbvias que, no entanto, não têm ficado suficientemente claras para muita gente: o país mudou e a eleição já acabou. A insistência em dar continuidade ao processo que elegeu Dilma Rousseff poderia ser apenas um luto mal vivido, mas tende a se tornar perversa no campo político. Por outro lado, a recusa em enxergar a nova configuração da sociedade, resultado de seguidas políticas de distribuição de renda e inclusão social, pode gerar um impulso no mínimo grotesco em suas alusões reativas e chamamentos à ditadura.

É preciso ir adiante. A oposição, certamente, saiu fortalecida do resultado eleitoral bastante parelho. Mas corre o risco de jogar fora esse crescimento quantitativo em nome de um comportamento pouco produtivo em termos políticos. Em vez de jogar com seu eleitor fiel, interpreta os votos de acordo com suas conveniências e joga para a plateia pelos meios de comunicação, sem perceber que essa falácia já mostrou ser um paradoxo invencível: tem mais brilho que consistência, mais efeito que substância, mais eco que voz.

A oposição de hoje parece viver, no campo da política, o que Bento Santiago, o Bentinho de Dom Casmurro, de Machado de Assis, viveu em seus tormentos de alma: se perde na fantasia da traição (mesmo que ela tenha sido real). Para lembrar sumariamente o enredo do romance, Bentinho se apaixona por Capitu, desde logo apresentada como portadora de “olhos de ressaca”. São jovens de classes sociais distintas. Um arranjo permite o casamento. Logo Bentinho, já pai e bem posto na vida como advogado, desconfia que está sendo traído pela mulher com o melhor amigo, em quem vê semelhança com o filho. O casal se separa, o filho morre e Bento, sozinho, leva adiante sua sina de ser casmurro e sofrer com a desconfiança até o fim da vida.

Machado de Assis, como sempre, ao falar de seus personagens, está figurando a sociedade de seu tempo. Bentinho não sofre só pela traição, mas porque não entende que o mundo mudou. Não pode aceitar que a sociedade republicana deixou para trás as amarras elitistas do Segundo Reinado e da escravidão. Bento não reconhece a mulher, a sociedade, a história. Não pode aceitar que ela tenha uma vida independente e autônoma. Tudo que ele não compreende o ameaça. Capitu não é apenas a mulher, mas tudo que perdeu em seu mundo de referências que se esvaem. Mais que sexual, a traição é histórica. Homem de outro tempo, só resta a ele tentar convencer ao leitor e a si próprio de seu destino de vítima. E soprar um melancólico saudosismo acerca dos tempos idos, que busca reconstruir em sua casa feita à semelhança do lar da meninice.

O Brasil tem uma recorrente síndrome de Capitu: tudo que a elite não tolera se torna, por meio de um discurso marcado pela força jurídica e da tradição, algo que deve ser rejeitado. Eternos maridos traídos. A tendência de empurrar a política para os tribunais é uma consequência desse descaminho. Assim, tudo que de alguma forma aponta para a mudança e ampliação de direitos é considerado ilegítimo e, em alguns momentos, quase uma afronta que precisa ser questionada e combatida. Foi assim com a visibilidade dada aos novos consumidores populares (que foram criminalizados em rolezinhos ou objeto de ironia em aeroportos), com as cotas raciais para a universidade, com a chegada de médicos estrangeiros para ocupar postos que os brasileiros, psicanaliticamente, denegaram.

O romance de Machado de Assis tem ainda outro personagem curioso para a sociologia e psicologia do brasileiro, o agregado José Dias. Trata-se de um homem que vive às expensas da família de Bento e que, por isso, não cessa de elogiar quem o acolhe. Típico representante de certa classe média, ele é o bastião dos valores da burguesia da época, da qual só participa de esguelha. Mais burguês que os burgueses, em sua subserviência, ele gasta os superlativos e a vida a invejar e defender os “de cima”, com pânico de ser confundido com os “de baixo”. Epígonos de José Dias, hoje, são os que amam Miami, levam os filhos para ver o Pateta e participam de passeatas pedindo a volta dos militares.

Leviandade

Mas o que a síndrome de Capitu tem a ver com a política brasileira de hoje? Em primeiro lugar, ela explica por que, em vez de armar uma oposição de verdade, os partidos derrotados tentam inviabilizar a sequência do processo democrático. Em segundo lugar, pela defesa da dupla moral, que desculpa os erros do passado por causa da dimensão dos desvios de hoje, numa reedição do estilo udenista e despolitizador de analisar a conjuntura. Tudo que pode de alguma forma macular a oposição é considerado “sórdido” e “leviano”, numa substituição da política pela moral de circunstância. A corrupção, com sua espantosa abrangência, precisa ser combatida em toda sua dimensão e arco histórico. Nenhum culpado pode ficar de fora, de empresários a políticos de todos os partidos.

Por fim, a personagem machadiana ajuda a explicar a fixação em torno de determinados temas – no romance, é a traição, na vida política atual, é a inflação –, que são muito mais derivações que propriamente o que de fato interessa. A escolha dos ministros da área econômica mostrou como mesmo um governo popular e eleito democraticamente confirma as intuições de Machado de Assis. A excessiva submissão aos interesses rentistas pode ser um recuo estratégico. Mas é um recuo. Uma capitulação.

Economia não é uma ciência exata e, muito menos, isenta de componente ideológico. Um governo de esquerda precisa de uma política econômica de esquerda. Além do equilíbrio macroeconômico, o mais importante é apontar as estratégias de distribuição de renda e de investimento na área social. O deus Mercado não pode falar mais alto que os filhos de Deus. No complexo tecido que sustenta a governança, a presença das forças populares não pode ser colocada em segundo plano, como vem sendo até agora. A excessiva sujeição ao cálculo do apoio político está na base da grande corrupção que hoje enoja a todos. Por isso a reforma política popular se tornou a agenda prioritária da sociedade.

A oposição, por sua vez – e o senador Aécio Neves, candidato derrotado como seu nome de maior destaque –, tem uma tarefa a cumprir: dar um passo à frente no jogo político, com a grandeza que o momento requer. O que ainda está devendo.

Bentinho perdeu sua vida ao ficar preso a um passado de desconfianças que, de resto, até hoje divide as opiniões. Há grandes projetos que impulsionam uma vida e moldam expectativas de futuro, algo que ganhou o belo nome de utopia. Há, entretanto, obsessões que paralisam pelo rancor e ressentimento. Bentinho, é bom lembrar, nunca mais foi feliz. Foi ele mesmo o criador e a vítima da síndrome que o consumiu.

O blog está em regime de recesso para descansar.

Volta à normalidade em um mês.

Pipocará aqui ou ali sempre que a cabeça exigir, os dedos toparem e as netas deixarem.

Boas Festas para todos e boas férias para quem as gozar.


O futebol em três atos
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

E como venho palmilhando as pedregosas estradas de Minas, estive perto de dois dos três principais episódios do futebol brasileiro em 2014.

O primeiro foi o garrote da Alemanha, apertado em três voltas e meias da alavanca, secas e rápidas.

Foi faltando, a cada meia-volta, ar, sangue, reação, esperança, sentido, lucidez e vida.

O gol do Oscar foi o estrebucho da seleção e de todos os que víamos: o corpo vazio, bugalhos e língua de fora, estirado, com a existência entornando por nariz, boca e ouvidos.

O segundo foram dois só na aparência. Os quatro a um do Atlético no Corinthians e no Flamengo compuseram a mesma epopeia, de redenção e glória do herói que a tudo vence – mesmo nas mais adversas situações.

A formação, as conquistas, o desterro, os perigos, a morte iminente e a volta vitoriosa – a fórmula que sempre se escreve como farsa e que na vida real só se dá como tragédia pouquíssimas vezes gera o desfecho homérico que Ulisses e o Galo obtiveram.

Do terceiro não estive perto. Estive dentro. Foi o empate e a classificação do Palmeiras na última rodada do Brasileirão.

Poucas vezes se viu e se verá tão largo, demorado, fundo e entorpecente tormento. Não deixou ninguém imune.

Aterrorizou, chicoteou, entupiu, comoveu, encharcou, tirou do chão quantos tenham alguma sensibilidade – com o final patafísico e ionesquiano, mas lancinante.

O que faz desses os principais episódios do ano não é só a importância que têm.

É também a carga dramática que carregam e espalham.

Mas tampouco é só isso.

É principalmente porque eles abrigam e transbordam sensações e efeitos que só o futebol produz.

Nenhum livro, música, quadro, vício, prazer, esporte ou transcendência é capaz de gerar o que se experimentou nos casos acima.

Não falo de melhor ou pior. Falo da incapacidade de expressar, traduzir, imitar, delinear, espelhar.

Tente. Verá quão inúteis são nossa arte e nosso conhecimento, quão escassos nosso corpo e nossa alma – ainda bem que há o futebol para nos prover com o que nada mais é capaz de produzir.

Por fim, deve haver também um sentido maior, oculto, nos três episódios. Que leve ao engenho das coisas, ao nexo original de tudo, à máquina do mundo.

Mas eu desisti de procurá-lo.

Incurioso, nem avalio o que posso estar perdendo.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


Feito a mão
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Era velório, mas ele não continha o sorriso de orgulho – pela missão enfim cumprida, pelo produto e por atender a um ídolo.

O morto era o centroavante local, glória do cenário esportivo do município e microrregião, como estava na coroa de flores.

Adoecera longamente. Sabia-se o desfecho havia algum tempo.

Ele, que ali vira nascer e ali dera leito a tantos que morreram, tendo sido admirador do artilheiro, prometera o caixão à família.

De graça. O mais bonito. Trabalhado em marchetaria, mosaico de cubos, triângulos e sombras de sucupira, angelim, canela, parajú, bicuíba, cedro, mogno, cerejeira, gonçalo-alves, roxinho, jatobá, jequitibá, currupichá, marfim, angico, peroba e jacarandá, em tabuleiros, claro-escuros, torneamentos, no formão, na entalhadeira, no canivete, no sopro, na lixa, na flanela.

O forro de feltro e seda. As alças douradas. O vidrinho jateado do último três-por-quatro na tampa.

Com todo o capricho permitido pelo tempo da doença. Com todos os arremates, enfeites e detalhes que, a cada dia, a cada jogada rememorada, ele achava justo acrescentar.

Um gol decisivo, um rococó aqui.

Um lance heroico, um refinamento lá.

Os melhores recortes e retalhos, ripas e tábuas, ferpas, palitos, pontinhas, fiapos, de todas as madeiras que tinha.

Virou sua obra-prima.

E a chance de se recuperar da decepção sofrida, há quase cinquenta anos, no conto do José Cândido de Carvalho, quando, em igual empreitada, o doente se recuperou, causou-lhe prejuízo e decepção e, claro, mereceu seus desaforos e o despedaçamento do féretro no meio da praça.

Agora, não. Neste conto, ele tem a chance revivida na nova morte. E não só de um amigo, para satisfação particular, mas de um ídolo do pacato e ordeiro povo da municipalidade.

Ali na capela, no velório, sorrindo, notava os olhos na madeira, na cistina em que o centroavante jazia.

E sentiu o bem-estar geladinho que imaginou ser o mesmo que o artilheiro sentia quando o público o admirava.

Pensou que sua obra e a do jogador eram de igual dimensão, aparentadas, até. Ainda trocadilhou “primas” em silêncio, em cócega muda.

Ambos eram artistas.

Deviam ser sempre vistos e glorificados.

Resolveu pedir a palavra. Modestamente sugeriu o embalsamamento do artilheiro, com a camisa nove da agremiação citadina, enfatizou, dentro do humilde féretro por ele dado à luz, no saguão da Prefeitura ou da Igreja, ou na entrada do estadinho em que ele pontificara radiante em prol de nossas cores, tenho dito.

Houve uma marolinha de sussurros pra lá, que voltou nas mesmas amplitude e frequência pra cá, até ser parada pelo padre, que agradeceu e negou a proposta.

Deus do céu!

Foi um estalo. Um talho. Um golpe.

Agitou-se, suou, tossiu.

Quando saíam com sua obra e o morto, desesperou-se, correu, parou do lado, abriu a tampa, virou o caixão entornando o campeão na terra, gritou para que largassem as alças, vermelho, salivando, saiu arrastando o caixão xingando alto coisas que ninguém entendeu, até porque tiveram que se recompor e levar o artilheiro numa maca até a cova já aberta ali perto.

Guardou o caixão no depósito, imune a poeira e sol.

Está lá, à espera de outro conto, de outro contista, que o deixe terminar a história como merece.

Pra mulher diz que centroavante sempre aparece outro. Caixão como aquele, não.

E contista, conclui, é o que não falta.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


Inter dramaticamente de bronze
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Juca Kfouri

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Foi no último minuto, e só no último minuto, aos 50, em Floripa, com 7.027 pagantes , que o Inter manteve o terceiro lugar e garantiu vaga direta na Liberadores.

Saiu atrás do Figueira, empatou com o He-Man quando o time catarinense já estava com apenas 10 jogadores, aos 37, e, quando ambos os times estavam com nove em campo, Wellington Silva fez o gol da virada, da vitória, da classificação direta, o gol de bronze.

Porque, em São Paulo, diante de 38.044 pagantes, o Corinthians vencia o Criciúma também por 2 a 1, com gols de Elias e Fábio Santos, depois de sair na frente no primeiro tempo e tomar o empate no segundo.

O gol da vitória corintiana foi, certamente, o mais bonito já marcado na Arena Corinthians e dos mais belos do ano, numa jogada com a participação desde o início de Fábio Santos, toque de calcanhar de Danilo, Guerrero e a finalização cruzada, colocada do lateral-direito. Um golaço!

O Corinthians ainda carimbou a trave três vezes, mas viu o rival ter um gol mal anulado, aos 36 minutos de jogo, por impedimento que não existiu.

Tivesse o Inter apenas empatado e os gaúchos teriam motivo para reclamar da arbitragem.

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Em ondas
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

– Quatro Rayovac! Da grande!

Ficava o dia inteiro no banco da praça ouvindo rádio AM.

(Rádio era um aparelho como o notebook ou o tablet. Em vez de tela, tinha som. E AM eram os portais e redes sociais, só que falados).

Onda curta, onda média, onda média, onda curta. Chiado, propaganda, jogo, recado, posta-restante, perdidos, música, notícia, utilidade pública, achados.

Quando acabavam, batia no guichê que vendia passagem de ônibus, pão, doce, cerveja, Cibalena, carreto, ingresso pra jogo e pilha, entregando as velhas como se vasilhames.

– As amarelinhas, hein, do Pelé! – e apontava o cartaz da propaganda.

Não aceitava a concorrente, a do gato preto. Batia na madeira.

Chinelo, regata, bermuda, barriga. De noite pegava carona na charrete poeira acima.

Poeira abaixo, de manhã, sentava e a AM enchia o mundo.

Não ria nem movia traço. Sentado. Hora da marmita desembrulhada. Ondas curtas. Lusco-fusco. Ondas médias. O dial a trouxe-mouxe. Ouvido nas frestas da estática.

Morreu ali, sentado, tombando de mansinho pro lado. O moço do guichê ouviu o baque antes do amigo da charrete.

Ligado, Jorge Curi soltava a alma rasgada:

– Pelé! Pelé! Pelé!
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


E o nossos professores?
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Juca Kfouri

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A FIFA passou a eleger o melhor técnico do mundo em 2010.

Indica 10 nomes e, depois, os três finalistas.

Desde então nunca um brasileiro esteve sequer na relação dos 10, nem mesmo em 2012, quando Tite comandou o Corinthians na conquista do Mundial de Clubes.

Verdade que a lista saiu antes do Mundial, quando ele havia vencido “apenas” a Libertadores.

Em 2012 a honraria ficou para Vicente Del Bosque, campeão mundial, em 2010, e da Euro, em 2012, pela Espanha.

É evidente que os critérios da Fifa são contaminados por um exacerbado eurocentrismo, mas, de qualquer jeito, diversos técnicos sul-americanos, por trabalharem na Europa, já foram indicados, como o argentino Diego Simeone, do Atlético de Madrid, neste ano.

Que sirva, ao menos, para que nossos professores sejam mais humildes, porque jogadores brasileiros, e Marta, vira e mexe, são indicados, e premiados, embora também sempre atuando na Europa.

Aliás, ontem perguntaram ao Felipão: “Mas o Grêmio não ia se classificar?”.

Ao que ele respondeu:

“Bah, ia!”.


Tá combinado?
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Juca Kfouri

O presidente alviverde Paulo Nobre garantiu, no sábado, ao ser reeleito, que o Palmeiras não cairá.

Dorival Júnior, hoje, reafirmou com todas as letras a certeza do cartola:

“O Palmeiras não vai cair”, disse em Itu.

O blog pergunta, ao estilo de Mané Garrincha:

“Já combinaram com os russos?”.

Não custa lembrar de Carlos Alberto Parreira prevendo o hexacampeonato na Copa do Mundo no Brasil.

E que dos times fora da ZR que poderiam se livrar antes da última rodada, só o Palmeiras não conseguiu.


Dois na luta por vaga direta na Libertadores e três na briga para fugir da degola
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Juca Kfouri

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Inter e Corinthians, garantidos na Libertadores ao lado do Cruzeiro, do Galo e do São Paulo, ainda lutarão pelo terceiro lugar no Brasileirão, que dá vaga direta na Libertadores.

Quem ficar em quarto lugar terá de jogar a pré-Libertadores.

O Inter jogará contra o osso duro de roer do Figueirense, em Floripa.

Se vencer, a vaga direta será do Colorado.

O Corinthians recebe o rebaixado Criciúma, tem de vencer e torcer ao menos para um empate do Inter.

A pré-Libertadores é chata, porque em cima do fim das férias e sempre expõe quem a disputa ao ridículo, o Tolima que o diga.

Mas ruim mesmo é cair para a segunda divisão, risco que o Palmeiras ainda corre e que ameaça seriamente a dupla Ba-Vi.

Se o Palmeiras, em casa, vencer o Atlético Paranaense, estará salvo.

Para o Vitória escapar terá de vencer o Santos, no Barradão, e torcer para o Palmeiras não ganhar.

A situação do Bahia é ainda mais delicada.

O tricolor tem de passar pelo Coritiba, em Curitiba, torcer pela derrota do Palmeiras, em São Paulo, e para que o Vitória, no máximo, empate em Salvador.

Se o Bahia se safar terá de agradecer a todos os santos conhecidos e mais alguns que nascerão no dia da salvação.

A penúltima rodada do Brasileirão teve a ótima média de três gols por jogo e a razoável média de 16 mil torcedores por partida.

Ah, sim, o Botafogo caiu.

Mas disso você já sabia porque ninguém tem um cartola como Maurício Assumpção impunemente.

Comentário para o Jornal da CBN desta segunda-feira, 1o. de dezembro de 2014.


Tristes coincidências
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Juca Kfouri

Em 2002 o Ituano foi campeão paulista, num estadual sem os grandes, e o Palmeiras, a Portuguesa e o Botafogo foram rebaixados no Brasileirão.

Em 2014 o Ituano voltou a ser campeão paulista, desta vez num estadual com os grandes, e a Portuguesa e o Botafogo voltaram a ser rebaixados nos Brasileirões das Séries A e B.