Blog do Juca Kfouri

Arquivo : março 2015

Uma outra visão pela paz no futebol
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR FELIPE TAVARES PAES LOPES e HELOISA HELENA BALDY DOS REIS* 

Baseados nas pesquisas que temos realizado nos últimos anos, gostaríamos de tecer alguns comentários sobre o relatório, de 2005/2006, da chamada “Comissão Paz no Esporte”.

Embora reconheçamos sua relevância e lamentemos, profundamente, que apenas uma pequena parte de suas recomendações tenha sido, efetivamente, implementada (aliás, a falta de continuidade de políticas públicas parece ser um problema crônico em nosso país…), não podemos deixar de destacar nossa preocupação com alguns de seus pontos e pressupostos.

Como é de conhecimento público, o referido relatório baseia-se, basicamente, em dois eixos interdependentes: a política da tolerância zero, que legitima um aparelho penal intrusivo e onipresente, e o chamado “modelo inglês” (em especial, o Relatório Taylor).
Em relação à referida política, gostaríamos de destacar que, seguindo as reflexões da jurista, criminóloga e professora Anastassia Tsoukala, entendemos que é preciso ampliar o teto de tolerância em relação a pequenas desordens e não baixá-lo, a fim de não agravá-las ainda mais.

Afinal, embora a maior parte dos torcedores seja pacífica e ordeira, ela tende a reagir negativamente a qualquer forma de desrespeito a ela (como, por exemplo, quando a polícia faz uso excessivo da força).

Esta estratégia já tem sido adotada em algumas partes da Europa e tem sido muito bem-sucedida, como ficou provado na Euro 2000 e na Euro 2004.

Além do mais, vale recordar que, conforme destaca o professor Eric Dunning, nos anos 1980, reduziu-se significativamente a permissividade nos eventos de futebol no Reino Unido, tornando-os mais policiados e normatizados.

No entanto, isto não impediu que ocorressem algumas das maiores tragédias do futebol mundial. Assim, ainda que o relatório da “Comissão Paz no Esporte”, acertadamente, insista na criação de uma atmosfera menos belicosa e mais festiva para os eventos de futebol, parece-nos preocupante que ela se baseie na política de tolerância zero.

Em relação ao “modelo britânico”, é preciso destacar que, embora o fenômeno do hooliganismo tenha perdido força a partir dos anos 1990, ele ainda existe – especialmente, nos deslocamentos para o exterior, nos pubs e nas divisões de acesso.

Também é preciso destacar que, hoje em dia, o Reino Unido (assim como alguns outros países europeus) adota, conforme nos indica a professora Tsoukala, uma controversa política de gestão do risco, que descarta o princípio da presunção de inocência.

Além do mais, embora os jogos da Premier League ocorram em estádios modernos e seguros, sua atmosfera é bastante fria e pasteurizada e o valor dos ingressos um dos mais altos do mundo.
Diante disto, acreditamos que esses dois modelos não devem ser os principais norteadores do futebol brasileiro.

A nosso ver, existem modelos mais inclusivos, democráticos e eficazes, como o belga e o alemão.

Desde o início da década de 1980, ambos têm investido em medidas educativas e no diálogo com o torcedor – o que tem ajudado a manter uma atmosfera festiva nas arquibancadas.

Obviamente, sabemos que o futebol belga e o alemão não estão isentos de problemas e que suas realidades são bastante diferentes da nossa.

Por isto mesmo, entendemos que, embora eles possam servir de norte, não é possível implementar as medidas que lá foram adotadas sem a devida mediação social e cultural.

De qualquer modo, caso ainda haja dúvida de que o caminho do diálogo é possível de ser seguido aqui na América do Sul, gostaríamos de recordar que a Colômbia também tem apostado nele e tem conseguido resultados bastante positivos.
Esses resultados indicam que, diferentemente do que muitas vezes defendem os meios de comunicação, o diálogo com as torcidas organizadas deve ser fortalecido, e não enfraquecido – desde que, obviamente, ele seja feito de forma pública e democrática, e não de forma clandestina.

Hoje em dia, as torcidas organizadas já possuem entidades como a Federação das Torcidas Organizadas do Rio de Janeiro (FTORJ) e a Associação Nacional de Torcidas Organizadas (ANATORG), que podem (e devem) servir de interlocutores dessas torcidas com o Poder Público. Interlocução esta que já começa ocorrer, como ficou claro no último seminário de torcidas organizadas promovido pelo Ministério do Esporte, em Belo Horizonte.
Além dos problemas já apontados, preocupa-nos a ausência, no relatório da “Comissão Paz no Esporte”, de propostas em relação a outras formas de violências que ocorrem no futebol brasileiro, como a estrutural e a cultural.

Por exemplo, a questão do preço (abusivo) dos ingressos não é colocada como um problema. Tampouco são problematizados os horários impostos pela televisão nas noites do meio de semana, que dificultam e tornam mais insegura a volta do torcedor para casa.

São igualmente deixadas de lado propostas que poderiam ensejar uma transformação cultural mais profunda. Menciona-se apenas, de forma bastante vaga, a necessidade de realização de campanhas que possam convencer a sociedade civil a integrar-se ativamente em uma forma menos violenta de torcer e a de realização de programas de conscientização das crianças sobre a importância da convivência entre contrários. Este ponto, todavia, é crucial, e tem de ser muito melhor discutido e detalhado. Não basta, por exemplo, a exibição de algumas faixas e publicidades contra a violência. Para que haja uma transformação cultural profunda, é preciso que seja realizado um acompanhamento socioassistencial regular dos jovens torcedores, tal como é realizado na Alemanha, nos chamados Fan Projekts.

Também nos preocupa a falta de propostas para a redução da violência policial – um dos principais problemas dos eventos de futebol. A nosso ver, é insuficiente advogar a “especialização” da polícia, pois é preciso responder, claramente, como fazê-la. Afinal, num contexto militarizado, torna-se particularmente difícil a construção de uma polícia respeitadora dos direitos democráticos do torcedor. Além disto, nos preocupa a falta de discussão sobre medidas que possam modificar o tratamento midiático dispensado ao tema da violência no futebol. Afinal, tal tratamento, frequentemente, estigmatiza determinados grupos de torcedores e dramatiza o jogo, colocando mais “lenha na fogueira”.
Por último, gostaríamos destacar que, obviamente, o futebol não é uma ilha dentro da sociedade e, sendo o Brasil um país, infelizmente, marcado por altos índices de criminalidade, sabemos da dificuldade e complexidade de se construir políticas eficazes de prevenção da violência. No entanto, embora não haja medidas miraculosas, a busca por soluções para o problema não pode ser deixada de lado. Soluções que só poderão ser consideradas justas e merecedoras de apoio se houver um amplo debate público e democrático sobre elas, envolvendo os mais diferentes atores. Afinal, a falta de diálogo, sobretudo com os setores habitualmente excluídos das posições de poder, também é uma forma brutal de violência.

*Os professores doutores Felipe Tavares Paes Lopes e Heloisa Helena Baldy dos Reis são pesquisadores  do tema da violência relacionada ao futebol na Unicamp.


Pela paz
Comentários Comente

Juca Kfouri


Diga não à Fifa
Comentários Comente

Juca Kfouri

Do blog do jovem jornalista Rodrigo Capelo, “Dinheiro em Jogo”, recolho esta jóia em forma de anúncio de uma empresa australiana de material esportivo.

Veja.

Na esteira dos grandes patrocinadores que se afastaram da Fifa por causa dos escândalos que a envolvem, a empresa se orgulha de não ser patrocinadora da entidade.

A Fifa, que perdeu parceiros como a Emirates, Sony, Castrol, Continental e Johnson & Johnson, se fez de morta diante da investida australiana.

Esperta, preferiu apostar que, calada, não aumentaria a repercussão da campanha, apesar dos bons resultados obtidos pela marca.

Um gol, um golaço pelo verdadeiro espírito esportivo, com o filme que termina com um garotinho pedindo  à Fifa para nos devolver o futebol.


Festa rubro-negra em Manaus
Comentários Comente

Juca Kfouri

IMG_2931.JPG

Diante de 22 mil torcedores na Arena Amazônia, em Manaus, a vitória no primeiro clássico nacional da temporada foi do Flamengo sobre o Vasco , por 1 a 0, gol de Everton, aos 8 minutos do segundo tempo, numa falha do volante cruzmaltino Sandro Silva, que tentou sair jogando da entrada da área e foi desarmado.

O jogo foi até surpreendente movimentado para início de ano e Paulo Victor, o goleiro rubro-negro, com pelo menos quatro grandes defesas, foi o nome do jogo.

Mas o mais bacana aconteceu antes do jogo.

Em vez da execução do hino brasileiro, que invariavelmente é desrespeitado pela sua banalização nos estádios pelo país afora, foram executados os hinos dos clubes, com as duas torcidas cantando alegre e fervorosamente.

Tomara que a moda pegue.

Comentário para o Jornal da CBN desta quinta-feira, 22 de janeiro de 2015, que você ouve aqui.


Inacreditável!
Comentários Comente

Juca Kfouri

Ranking do Progresso: os melhores parlamentares de 2014

VEJA publica pelo quarto ano o seu Ranking do Progresso, uma avaliação objetiva do desempenho dos senadores e deputados — que, sim, no conjunto, tratam o país com seriedade

 
NO SENADO FEDERAL:

EDUARDO AMORIM

10

PSC – SE

LINDBERGH FARIAS

9,53

PT – RJ

ARMANDO MONTEIRO

9,32

PTB – PE

ANIBAL DINIZ

8,23

PT – AC

EUNÍCIO OLIVEIRA

7,75

PMDB – CE

ANTONIO CARLOS VALADARES

7,72

PSB – SE

ZEZE PERELLA

7,48

PDT – MG

WALDEMIR MOKA

7,12

PMDB – MS

RANDOLFE RODRIGUES

7,04

PSOL – AP
10º
GLEISI HOFFMANN

7

PT – PR
11º
VITAL DO RÊGO

6,95

PMDB – PB
12º
RODRIGO ROLLEMBERG

6,69

PSB – DF
13º
LÍDICE DA MATA

6,59

PSB – BA
14º
VALDIR RAUPP

6,56

PMDB – RO
15º
EDUARDO SUPLICY

6,46

PT – SP
16º
ACIR GURGACZ

6,27

PDT – RO
17º
FERNANDO COLLOR

6,23

PTB – AL
18º
EDUARDO BRAGA

6,2

PMDB – AM
19º
PAULO DAVIM

6,19

PV – RN
20º
INÁCIO ARRUDA

6,14

PCdoB – CE
21º
JADER BARBALHO

6,06

PMDB – PA
22º
LUIZ HENRIQUE

6,04

PMDB – SC
23º
JOSÉ PIMENTEL

5,88

PT – CE
24º
KÁTIA ABREU

5,84

PMDB – TO
25º
ANA AMÉLIA

5,62

PP – RS
26º
CÍCERO LUCENA

5,59

PSDB – PB
26º
JOÃO CAPIBERIBE

5,59

PSB – AP
27º
CASILDO MALDANER

5,54

PMDB – SC
28º
VANESSA GRAZZIOTIN

5,53

PCdoB – AM
29º
ALFREDO NASCIMENTO

5,27

PR – AM
30º
ROMERO JUCÁ

5,05

PMDB – RR
31º
CIRO NOGUEIRA

4,99

PP – PI
32º
SÉRGIO PETECÃO

4,95

PSD – AC
33º
WALTER PINHEIRO

4,85

PT – BA
34º
PAULO PAIM

4,63

PT – RS
35º
JAYME CAMPOS

4,5

DEM – MT
36º
MARCELO CRIVELLA

4,49

PRB – RJ
37º
ANGELA PORTELA

4,45

PT – RR
37º
MOZARILDO CAVALCANTI

4,45

PTB – RR
38º
GIM

4,38

PTB – DF
39º
FRANCISCO DORNELLES

4,37

PP – RJ
40º
MAGNO MALTA

4,3

PR – ES
41º
ANTONIO CARLOS RODRIGUES

4,21

PR – SP
42º
FLEXA RIBEIRO

4,15

PSDB – PA
43º
ROBERTO REQUIÃO

4,13

PMDB – PR
44º
ALOYSIO NUNES FERREIRA

4,01

PSDB – SP
45º
DELCÍDIO DO AMARAL

3,97

PT – MS
46º
JOSÉ SARNEY

3,93

PMDB – AP
47º
BLAIRO MAGGI

3,9

PR – MT
48º
PAULO BAUER

3,89

PSDB – SC
48º
RENAN CALHEIROS

3,89

PMDB – AL
49º
WILDER MORAIS

3,85

DEM – GO
50º
BENEDITO DE LIRA

3,76

PP – AL
51º
JOÃO VICENTE CLAUDINO

3,7

PTB – PI
52º
RUBEN FIGUEIRÓ

3,68

PSDB – MS
53º
PEDRO SIMON

3,64

PMDB – RS
54º
JORGE VIANA

3,33

PT – AC
55º
IVONETE DANTAS

3,31

PMDB – RN
55º
LOBÃO FILHO

3,31

PMDB – MA
56º
RICARDO FERRAÇO

3,27

PMDB – ES
57º
PEDRO TAQUES

3,26

PDT – MT
58º
LÚCIA VÂNIA

3,23

PSDB – GO
59º
MÁRIO COUTO

3,14

PSDB – PA
60º
JARBAS VASCONCELOS

3,07

PMDB – PE
60º
VICENTINHO ALVES

3,07

SD – TO
61º
JOÃO ALBERTO SOUZA

3,01

PMDB – MA
62º
EPITÁCIO CAFETEIRA

2,61

PTB – MA
62º
MARIA DO CARMO ALVES

2,61

DEM – SE
63º
ALVARO DIAS

2,42

PSDB – PR
64º
ATAÍDES OLIVEIRA

2,25

PROS – TO
65º
ANA RITA

2,04

PT – ES
66º
CYRO MIRANDA

1,79

PSDB – GO
67º
HUMBERTO COSTA

1,77

PT – PE
68º
JOÃO DURVAL

1,74

PDT – BA
69º
JOSÉ AGRIPINO

1,64

DEM – RN
70º
WELLINGTON DIAS

0,76

PT – PI
71º
CLÉSIO ANDRADE

0,74

PMDB – MG
72º
CRISTOVAM BUARQUE

0,33

PDT – DF
73º
CÁSSIO CUNHA LIMA

0,13

PSDB – PB
74º
AÉCIO NEVES

0

PSDB – MG

Veja a matéria completa AQUI.


Um camisa 10
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

É muito raro aparecer um craque.

Não só no futebol. Em todas as artes.

Na música popular, por exemplo.

Abaixo, segue um talentosíssimo camisa dez em música e letra: Kiko Dinucci.

Faço meus os votos do final do vídeo.

__________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou Eram todos camisa dez (Editora Iluminuras)


O que o Relatório da Comissão da Verdade revela sobre o futebol
Comentários Comente

Juca Kfouri

trivela.uol.com.br

Há 50 anos, a ditadura militar se instaurou no Brasil. E, 29 anos depois da redemocratização do país, muitas cicatrizes deixadas no período continuam abertas. Assassinatos, torturas, perseguições e desaparecimentos que se revelaram ao longo das últimas décadas, mas também se esconderam em arquivos e memórias perdidas. Uma história que, no entanto, passou a ser revisitada com mais vigor a partir de 2012. A Comissão Nacional da Verdade se instituiu para apurar graves violações de Direitos Humanos. Nesta semana, divulgou o seu relatório final, detalhando muitos episódios de repressão.

50 ANOS DO GOLPE: Como a Ditadura Militar se apropriou do futebol brasileiro

Em um país fortemente ligado com o futebol, o esporte também apareceu nos documentos. Principalmente, citando histórias ocorridas em dois estádios que se tornaram centros de detenção em massa: o Caio Martins, em Niterói, e o Nacional de Santiago, no Chile, que também abrigou presos políticos a partir da instauração da ditadura de Augusto Pinochet. No mais, o relatório da CNV também reconta o assassinato do militante Jeová Assis Gomes, baleado enquanto fugia de militares em um pequeno campo de futebol na cidade de Guaraí, no interior de Goiás.

A utilização do Caio Martins e do Estádio Nacional do Chile, sobretudo, ressaltam a forma como o futebol acabou se tornando instrumento das ditaduras militares na América do Sul. Uma utilização do esporte que foi muito além das prisões realizadas nos dois locais, e que se aprofundou bem mais na coerção, no jogo de interesses e na manipulação da população. O relatório da CNV, entretanto, se aprofunda em dois momentos nos quais as violências se evidenciaram mais. Abaixo, trechos retirados dos documentos oficiais:

IMG_2839.PNG

Caio Martins
Os relatórios da Comissão Nacional da Verdade não se aprofundam nos depoimentos dos presos políticos do Caio Martins. No entanto, apresenta um panorama geral sobre como algumas instalações esportivas foram utilizadas como prisões coletivas logo após o golpe militar, em 1964.

Um dos aspectos mais reveladores das prisões coletivas realizadas em 1964 pelas forças de segurança da ditadura – incluindo-se agentes militares e policiais civis e militares – diz respeito aos locais utilizados para as prisões. Ultrapassando os limites dos quartéis, das delegacias e do sistema penitenciário, os trabalhadores foram mantidos presos em estádios de futebol e navios: em Niterói (RJ), no Ginásio Caio Martins; em Macaé (RJ), no Clube Ypiranga; em Criciúma (SC), no Esporte Clube Comerciários. Esses espaços apresentam-se como consequência lógica do que revelou a investigação de Marcelo Jasmin, realizada com base em 1.114 processos da Comissão de Reparações do Estado do Rio de Janeiro na qual 43,68% dos casos pesquisados de graves violações dos direitos humanos ocorreram nos três primeiros anos da ditadura – entre 1964 e 1966.

Destaque especial deve ser dado ao primeiro estádio da América Latina, o Ginásio Caio Martins, em Niterói, que funcionou como prisão desde abril de 1964 ou, nas palavras de ex-presos políticos, um verdadeiro “campo de concentração”. A despeito de o DOPS do Rio de Janeiro registrar que nesse estádio de futebol estiveram detidos apenas 339 pessoas, por ali passaram mais de mil presos políticos, conforme depoimentos de vítimas e advogados. As principais categorias de vítimas de prisão naquele local foram a dos bancários, dos ferroviários, dos operários navais e de trabalhadores do campo.

LEIA MAIS: O Brasil também teve o seu estádio-prisão durante a ditadura

IMG_2840.JPG

Estádio Nacional de Santiago
Em 1973, a ditadura de Augusto Pinochet considerou suspeitos todos os estrangeiros que migraram ao país durante o governo de Salvador Allende. Ao todo, 108 brasileiros foram detidos no Estádio Nacional do Chile. Um dos presos, Wânio José de Mattos, faleceu nas instalações, em “situação deliberada de omissão de socorro”. Sua esposa e sua filha de colo, rejeitados pela diplomacia brasileira, acabaram deportados a Paris.

LEIA TAMBÉM: Como o Santos se envolveu no 11 de setembro chileno

Aqueles que desejavam regressar ao Brasil tiveram a deportação tratada pelo Ministério das Relações Exteriores. Contudo, segundo as comunicações da época, “não só o MRE não tomou medidas que estavam ao seu alcance e que eram necessárias para que isso ocorresse, mas chegou mesmo a tomar iniciativas no sentido de impedi-lo”.

A realização da partida entre Chile e União Soviética, pela repescagem da Copa do Mundo de 1974, gerou uma “séria preocupação esvaziar o Estádio Nacional” no Ministro da Defesa chileno. As autoridades chilenas solicitaram a colaboração no “sentido de resolver rapidamente a situação dos brasileiros, já que devem deixar livres o mais rápido possível as dependências do estádio, e as prisões se encontram superlotadas”.

VÍDEO: Casely teve a mãe torturada por se opor a Pinochet

Ao invés de providenciar o auxílio, no entanto, o governo Médici enviou ao Chile uma equipe de militares e policiais brasileiros, para interrogar e torturar os detidos no Estádio Nacional. “Osni Geraldo Gomes relata como foi interrogado – pendurado no pau de arara e submetido a choques elétricos – por três agentes brasileiros, que falavam em português e perguntavam sobre suas atividades e ligações no Brasil. A sessão de tortura foi presenciada por um grupo de oficiais chilenos que assistiam a tudo por uma parede de vidro, e de um dos quais o depoente ouviu o seguinte comentário, dirigido aos demais: ‘esses são profissionais, prestem atenção’”.

O regime brasileiro manteve-se passivo sobre a situação dos presos, interessado apenas nos interrogatórios. Os documentos revelados não apresentaram qual a situação final das negociações, apenas de alguns casos nos quais o MRE ignorou os pedidos de deportação. Nos arquivos da chancelaria chilena há um único pedido de expedição de salvo-conduto, apresentado pelas autoridades brasileiras, para três cidadãos brasileiros detidos no Estádio Nacional. Monitorados de perto em seus deslocamentos, alguns desses brasileiros vieram a tornar-se desaparecidos políticos.

NO IMPEDIMENTO: La Cancha Infame, a história das prisões no Estádio Nacional

Na sequência, leia o depoimento de Luiz Carlos Vieira, preso político no Chile que, após sobreviver, foi acolhido pela embaixada da Suécia e se refugiou no país escandinavo.

O estádio parecia estar iluminado para uma noite de futebol. Ainda não sabíamos que o haviam transformado em uma enorme sala de tortura, humilhação e morte. Passamos por uma fileira de soldados. Logo seguimos por um longo corredor cujas paredes eram formadas por corpos humanos, os braços estendidos para o ar, os rostos voltados para as paredes de pedra do corredor do estádio. Chegamos ao que parecia ter sido um dos vestuários, agora transformado em sala de tortura. Um militante uruguaio acabava de ser castigado. Um oficial veio recolher nossos documentos de identificação. A sessão de tortura iniciou-se. O interrogatório girava em torno de um suposto esconderijo de armas, o qual era completamente desconhecido para nós. Diante da resposta negativa, o oficial decidiu que, juntamente com o militante uruguaio, devíamos deixar o estádio.

Todas essas viagens foram feitas em uma camioneta, onde íamos acompanhados de dois ou três soldados armados, sempre seguidos de perto por um caminhão com mais soldados. A última viagem levou-nos às margens do rio Mapocho. Os soldados mostravam-se nervosos e agiam com violência. Já não havia dúvida sobre qual seria o nosso destino. Luiz Carlos tentou argumentar com os soldados, mostrando-lhes o absurdo e o inumano de tal situação. Mas naquele momento já não regia nenhuma lei, nem a dos homens nem a de Deus. O uruguaio encaminhou-se para a beira do rio e jogou-se nas águas, sendo imediatamente metralhado por um soldado. O oficial mandou Luiz Carlos fazer o mesmo. Um soldado seguiu-o e disparou demoradamente. Depois foi a minha vez. Das três balas que me atingiram, uma pegou de raspão na cabeça, fazendo-me perder os sentidos por algum momento. Quando recuperei a consciência, senti-me levado pela leve correnteza do rio, ouvi as vozes dos soldados, vi as luzes dos caminhões refletirem-se nas águas do rio, iluminando os corpos inertes de meus companheiros. Era o único sobrevivente.