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Arquivo : julho 2016

Procura-se um time para torcer
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Juca Kfouri

Procura-se time para torcer: o que dizem os clubes na hora de conquistar um novo torcedor
Um francês apaixonado por futebol está vindo morar no Brasil. Como convencê-lo a torcer pelo seu time?
POR MAURÍCIO BRUM

https://medium.com/puntero-izquierdo/procura-se-time-para-torcer-o-que-dizem-os-clubes-na-hora-de-conquistar-um-novo-torcedor-19b936459dcd#.1ordtkn85

O que você faria para convencer alguém a torcer para o seu clube do coração? Esta não é uma situação que aparece todos os dias. Num país em que a paixão pelo futebol nos é incutida desde cedo, muitas vezes por influência da família, a preferência por uma equipe raramente é racional — é muito mais eficiente, digamos, levar uma criança ao Maracanã lotado do que contar para ela quantas taças o Flamengo ganhou em sua história. Mas façamos esse exercício atípico: digamos que você esteja diante de alguém que só começou a gostar de futebol na idade adulta, ou de um estrangeiro sem filiações clubísticas aqui no Brasil: que argumentos você usaria para convencer esse sujeito a vestir as suas cores? Resolvemos dar a palavra aos próprios clubes: “Por que torcer para este time?” foi a pergunta feita aos 60 clubes das Séries A, B e C do Brasil.

 
A ideia foi inspirada em Aldin Karabeg, torcedor bósnio que, no fim de junho, escreveu para 92 equipes das quatro primeiras divisões inglesas perguntando as razões para passar a acompanhá-las.

 

Poucas responderam, mas algumas chegaram a ir além do esperado: ao ler nos fóruns frequentados por Karabeg que ele estava se inclinando para o Everton, o time de Liverpool gravou um vídeo com Muhamed Besic, bósnio que joga por lá, para convencer definitivamente o novo fã.

 

Na falta de um estrangeiro real, nossa reportagem se valeu de um alter ego: por alguns dias, assumi a identidade de Maurice Boucher, um francês de Nîmes que deve se mudar para o Brasil no ano que vem.

 

Boucher ama futebol e quer muito seguir uma equipe quando chegar aqui. Ainda está aprendendo a língua do novo país, então precisava de paciência dos clubes para o seu português macarrônico e cheio de pequenos erros pontuais. Após contar brevemente sua história, lançava a questão:
Depois de pesquisar um pouco, estou procurando informaçoes sobre as maiores equipes de cada estado. Assim escrevo a vocês para saber por que eu deveria escolher ser um fan de [nome do time].
Saudaçoes fraternas,
Maurice

 
Era uma proposta muito boa: seduzam-me e de quebra ganhem um torcedor internacional, com potencial fácil de divulgação da marca a partir de uma ação bem-feita — como o Everton soube fazer.

 
Mas a jornada entre mandar a mensagem e obter uma resposta nem sempre é simples. Evitamos as redes sociais, muitas vezes mal administradas, e priorizamos os veículos oficiais habituais: a aba de contato no site da equipe ou a aba da ouvidoria; na ausência de formas de chegar à equipe por ali, procuramos pelo e-mail do clube na primeira página do Google — se nenhuma dessas formas rendesse uma maneira de enviar a mensagem, convenhamos, qualquer estrangeiro escrevendo para dezenas de clubes acabaria desistindo. A incomunicabilidade foi rara e somente dois times não puderam ser acessados seguindo esse método — mas um deles, surpreendentemente, foi o Vasco da Gama.

 

No site do Vasco, a página de contato só lista números de telefone e a aba da ouvidoria exige cadastro prévio para se enviar uma mensagem. O e-mail não aparece em uma busca rápida que Maurice Boucher tentasse fazer através do Google.

 
Com isso, os 60 clubes se tornaram 58. Além do Vasco, o Guaratinguetá também se revelou difícil de encontrar para um torcedor comum, já que no momento do envio do e-mail (entre os dias 2 e 4 de julho) seu site oficial estava fora do ar.

 

Outra dificuldade nesse tipo de contato é que, muitas vezes, a mensagem é enviada por meio de um formulário padrão no site oficial. Nem sempre se recebe uma confirmação de que se foi bem-sucedido e, mesmo quando ela vem, isso não significa muita coisa: o Corinthians, por exemplo, enviou uma mensagem automática segundos depois do contato original, garantindo que estava em posse da mensagem de Boucher — mas nunca a respondeu.

 
Já o Palmeiras fez pior: não apenas ignorou a questão como utilizou o endereço de e-mail de Boucher para enviar spam — pouco tempo depois do contato, um anúncio sobre um saldão de camisetas palmeirenses apareceria na caixa de entrada.

 
Deixamos correr o prazo de uma semana desde o envio dos e-mails para fechar a matéria. Ao fim e ao cabo, 10 equipes responderam: nenhuma da Série C, três da B (Ceará, Joinville e Paysandu) e sete da A (América, Atlético Mineiro, Botafogo, Flamengo, Grêmio, Inter e Santos).

 

O silêncio total da terceira divisão decepcionou, mas a escadinha nas respostas era esperada. Conforme os orçamentos aumentam, é natural que ouvidorias e assessorias estejam mais estruturadas para lidar com esse tipo de contato. A seguir, um resumo do que cada clube tinha a dizer para conquistar um novo torcedor.
Série B

CEARÁ
A ordem alfabética faz o Ceará aparecer no topo aqui, mas sua mensagem, na verdade, foi a última que a reportagem recebeu. Veio três dias após o contato original, mas compensou o atraso na simpatia e no material enviado: somente aí Maurice Boucher foi saudado em francês. Embora o e-mail não tenha contado muito sobre o clube, incluía dois links úteis para saber mais sobre a história e a atualidade da equipe, acessando as revistas oficiais do time que, de outra forma, dificilmente seriam lidas pelo torcedor em potencial.
Trecho:
Bienvenue au Brésil! Bienvenue au Ceará!
O Ceará Sporting Club é o mais popular e mais tradicional e maior campeão do estado desde 1914. O Ceará é conhecido como o “Time do Povo” ou “Vozão”. Veja nestes links um pouco da nossa história:
https://pt.calameo.com/read/0020360186a28420eb63d
https://pt.calameo.com/read/00203601811d20e40a0a9

JOINVILLE
O JEC foi o primeiro a responder: o contato havia sido feito na tarde de um domingo e, antes do final da manhã de segunda-feira (4/7), a mensagem já estava na caixa de entrada. De Joinville, veio um relato simples e cumpridor sobre as conquistas da história do clube e o fanatismo da torcida.
Trecho:
Se optar por Santa Catarina, recomendamos torcer pelo JEC (Joinville Esporte Clube). O único clube a vencer por oito vezes seguidas o campeonato de times do estado de Santa Catarina. A mais recente conquista nacional entre os times catarinenses, também é tricolor, a Série B do Campeonato Brasileiro de 2014. Representamos na maior cidade do estado e, por consequência, temos a maior torcida.

PAYSANDU
Também eficiente, a resposta do Paysandu chegou vinte minutos após o contato do JEC, na mesma manhã de segunda-feira. Assim como o Joinville, o Papão da Curuzu destacou seus feitos e a importância deles na região em que está situado, procurando fazer uma apresentação do clube para alguém que provavelmente sabia pouco sobre ele. Também foi simpático ao usar o termo “fan”, que nosso francês vinha utilizando em sua mensagem original. Além do e-mail propriamente dito, a equipe paraense foi além, indicando links específicos para conhecer mais a história do clube.
Trecho:
O Paysandu é o maior campeão da Amazônia e do Norte do Brasil. Tem mais títulos e ainda possui a maior e mais fiel torcida da região. São milhares de fãns que lotam quase todos os jogos. Único time do norte a participar da competição mais importante do continente. A Libertadores da América. Possui o melhor aproveitamento de um clube do Brasil na competição. Torcer para o Paysandu é torcer bem. A torcida é apaixonada pelo clube e possui várias curiosidades. Veja em http://paysandu.com.br/paysandu/curiosidades/
Série A

AMÉRICA
O América deu a resposta mais rápida de todos os clubes contatados. Apenas vinte minutos após o e-mail original, o Coelho oferecia seus argumentos para atrair um novo torcedor: a mensagem seguiu o foco da campanha de associação que apresenta o América como o “Time da Família”, e incluiu o texto “Sonhos não envelhecem…”, de Marinho Monteiro, uma longa ode de amor ao clube e sua história. Não foi uma mensagem personalizada, mas foi uma das que mais se estendeu ao contar os feitos da equipe.
Trecho:
Veja o texto do americano (torcedor do América Mineiro) e saiba que o América é uma causa a ser defendida, somos o ‘Time da Família’ e como família lutamos cada luta em defesa das nossas causas, do nosso Manto Sagrado, a camisa do América Futebol Clube, o Coelhão das Minas Gerais:
Sonhos não envelhecem…
O América, como Belo Horizonte, nasceu de um sonho. Aquilo que transita entre o lúdico e o concreto, a utopia e a realidade, o racional com o irracional, a longevidade do amor com o efêmero da paixão. […]

ATLÉTICO MINEIRO
Do Galo, veio a resposta mais tardia entre os clubes da Série A — dois dias após o contato original. A demora foi compensada por uma das mensagens mais completas. O Atlético Mineiro se centrou em destacar a paixão da sua torcida, inclusive com vídeos, ofereceu uma série de canais diferentes para acompanhar o clube à distância (links para suas páginas no YouTube, Instagram, Twitter, Facebook e Flickr), e ainda teve uma pitada personalizada para um torcedor vindo da França, falando sobre as ligações do clube com aquele país.
Trechos:
É sempre bom crescermos nossa família. Sim, somos uma família de mais de 10 milhões de loucos apaixonados por esse manto alvinegro. Ser ATLETICANO é muito bom. Não é simplesmente torcer, é viver intensamente uma paixão. Para conhecer um pouco sobre o comportamento da torcida em dias de grandes jogos do Galo, recomendamos assistir ao vídeo abaixo.
https://www.youtube.com/watch?v=s6-jED_p4Ek
[…]
Por fim, o Atlético tem uma grande afinidade com a França. Além do título do Torneio de Paris (1982 — França), nosso mascote é o Galo.

BOTAFOGO
Tardou um dia para o Botafogo responder com um texto curto, que nada contou sobre a história do clube, mas teve um diferencial importante: foi dos poucos times a efetivamente convidar para conhecer o clube em pessoa, abrindo as portas ao torcedor em potencial. Em meio a tantas respostas frias e padronizadas, um tratamento mais pessoal chamou a atenção.
Trecho:
Quando estiver no Rio de Janeiro, na próxima oportunidade, não deixe de fazer contato. Teremos prazer em recebê-lo em nossa sede social para uma visita guiada em que conhecerá toda a história do nosso Glorioso e, certamente, se tornará um grande fã.

FLAMENGO
O grande problema para o Botafogo é que, no Rio de Janeiro, outro clube também fez convite para uma visita, em uma resposta bem mais completa — o Flamengo destacou não apenas as conquistas rubro-negras, mas o aspecto que o separa dos demais clubes do país: a imensidão de sua torcida. É verdade que um clube do tamanho do Fla tem facilidade para seduzir um novo torcedor, mas nem todos os times souberam aproveitar isso — como o Grêmio vai mostrar a seguir.
Trecho:
O Flamengo é o time brasileiro com mais de 40 milhões de torcedores, é um time que quando joga em casa, no Maracanã deixa qualquer um arrepiado. O Flamengo quando ganha tem festa no bar, na favela, na casa de ricos, de pobres, em qualquer estabelecimento. Único time do Rio que é campeão do mundo, o primeiro time do Rio a ser campeão da libertadores e também somos campeões 6 vezes do campeonato nacional. O Flamengo é um time também do povo e da elite, é o time que tem a torcida carismática e que está sempre do lado, dando palpites e participando do dia-a-dia. Esperamos que possamos ajuda-lo, venha nos visitar na Gávea para você ver de perto o clube, nossa sede.

GRÊMIO
A nota positiva para o Grêmio é que ele respondeu — 50 outros times não foram capazes de fazer isso. A nota negativa é que, das dez respostas recebidas, a do Grêmio é a que menos atrairia um torcedor novo, querendo aprender sobre o gremismo e sua história. Além de demorar um dia para responder, a justificativa para torcer para o tricolor teve exatamente uma linha sobre o tamanho da torcida e, em seguida, sugeriu entrar no site oficial do clube: na homepage! Indicar um link não é problema: outros times apontaram endereços com textos sobre suas conquistas e tradições. O Grêmio, porém, simplesmente aconselhou que Boucher entrasse na mesma página que já havia visitado para fazer o contato original.
Trecho:
Obrigada pelo contato.
Por ser a MAIOR TORCIDA DO SUL DO PAÍS.
Entre no nosso site (www.gremio.net)

INTERNACIONAL
Assim como o América, o Inter foi muito rápido, compensando com a eficiência o que faltou em intimidade no seu contato. A resposta colorada chegou em quarenta minutos, e indicava um link para acessar o vídeo da campanha de associação “É mais que um jogo. É o Inter”, que tem circulado na tevê gaúcha. Embora não tenha se dedicado a falar da história do clube, o Inter foi (ao lado do Galo) dos únicos a sugerir um vídeo, permitindo uma visualização do que é ser um torcedor no Beira-Rio.
Trecho:
O Sport Club Internacional agradece seu contato.
Segue um bom motivo para ser colorado.
http://www.internacional.com.br/conteudo?modulo=2&setor=18&codigo=34626

SANTOS
Com Pelé no passado e Neymar no presente, o Santos talvez seja o clube brasileiro que tem a tarefa mais fácil ao se deparar com um estrangeiro: dificilmente alguém não terá ouvido falar do clube e seus feitos. Mesmo assim, os santistas não dormem nos louros e ofereceram, de longe, a resposta mais completa e instigante do futebol brasileiro. Também foi a mais extensa, e por isso nos estenderemos mais com eles. O Santos foi o único clube a admitir que só os seus argumentos não bastam para formar um torcedor, como nesta passagem:
“caro Maurice, expomos alguns dos motivos pelo qual você possa se decidir por ser fã, porém analise e torça pelo Clube o qual seu coração mandar. Por aquele clube que lhe transmitir simpatia”.
Reconheceu ainda as questões específicas do Brasil quando se trata de acompanhar um time:
“Assim, devido as dimensões continentais, no Brasil há vários Clubes considerados grandes, seja pela sua estrutura ou pela tradição, os quais você pode optar para ser fã. Há uma identificação muito grande dos torcedores com seus clubes por características regionais, ou seja, perto de onde reside, no Estado, por influência familiar, pela posição do mesmo nos campeonatos quando o torcedor começa a se interessar por futebol e aparição constante na mídia. Ainda, outro fator preponderante é o Estado onde você for residir, pois muitas vezes a Televisão (afiliada local) transmite jogos dos clubes do próprio Estado e devido a frequência das partidas os torcedores acabam se simpatizando e torcendo por determinada Equipe.”
Da Vila Belmiro veio não somente um relato sobre a história do clube e uma sugestão para passear pelo estádio e conversar com velhos ídolos: foi também o convite mais atencioso e personalizado, com o ouvidor do clube se dispondo pessoalmente a guiar nosso torcedor em potencial durante sua visita:
Ao se transferir para o Brasil, venha nos fazer uma visita. Teremos o prazer em recebê-lo e levá-lo para assistir ao treino dos jogadores profissionais no Centro de Treinamento Rei Pelé, para ter contato direto com os jogadores através de fotos e autógrafos. Venha conhecer o Memorial das Conquistas (Museu) o qual apresentaremos os mais importantes e valiosos troféus. Conhecer os Camarotes em homenagem aos grandes goleiros como Gilmar, Cejas e Rodolfo Rodrigues, Sala de Imprensa, Vestiários dos Profissionais (inclusive o armário lacrado do Rei Pelé) e o gramado do Templo Sagrado. Se ficar algum tempo nos arredores do estádio terá oportunidade de encontrar com Pepe, Coutinho, Clodoaldo, Edú e outros monstros sagrados do futebol passeando, que de forma simples orbitam a Vila mais famosa do mundo, que terão o prazer em lhe dar autógrafo e fotos. Por último, programe-se para assistir a uma partida do time aqui no denominado Alçapão da Vila, e sinta a magia da torcida. Ao vir procure a mim (Batalha) ou Venceslau — Ouvidores, que teremos o prazer de promover um tour com você.
Depois disso, Maurice Boucher provavelmente não teria dúvidas quanto ao seu novo time.

https://medium.com/puntero-izquierdo/procura-se-time-para-torcer-o-que-dizem-os-clubes-na-hora-de-conquistar-um-novo-torcedor-19b936459dcd#.1ordtkn85


As arquibancadas da torcedora. A presença feminina nos estádios brasileiros
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Juca Kfouri

por Leda Costa

Zuca Sardan




Há três anos resolvi sair pelo Rio de Janeiro afora e conhecer clubes e estádios que eram parte da minha memória afetiva, mas os quais jamais havia visitado. Daí nasceu o projeto Caravana de Boleiros a partir do qual compartilho em um blog (www.caravanadeboleiros.com.br) minhas experiências futebolísticas em arquibancadas diversas. Poderia me definir como uma mulher que ama demais futebol e que mantém um relacionamento sério com o Vasco da Gama, amor que fiz questão de deixar marcado com uma tatuagem que ostento em meu ombro esquerdo. Muitos que me conhecem não sabem que a frequência a estádios de futebol é algo novo na minha vida. Durante muito tempo, ouvia os jogos pela rádio ou os assistia pela TV, sempre me imaginando nas arquibancadas, porém me faltava dinheiro e coragem para frequentá-las. Ao longo da minha adolescência e parte da minha juventude, estar em um estádio, torcendo pelo Vasco, me parecia sonho distante e que demandaria uma logística inviável à minha realidade.

Morava em um subúrbio distante no Rio de Janeiro e para chegar ao Maracanã, por exemplo, precisava enfrentar um ônibus cujo itinerário era bastante perigoso. Também havia a opção do trem, o que me forçaria a pegar duas conduções e também encarar um trajeto urbano pouco tranqüilo. Mas, se o Maracanã exigia tamanho esforço, São Januário parecia pertencer a outro planeta. O estádio do Vasco fica em São Cristóvão que apesar de ser um bairro muito próximo ao centro do Rio, algumas de suas ruas não são de acesso fácil. É o caso da General Almério de Moura onde se situa São Januário. Ela é longe do trem, do metrô e também exigiria – e ainda exige – de mim a necessidade do uso de dois transportes. A isso tudo se somariam os gastos com o ingresso cujo processo de compra podia incluir horas em filas.

E se a ida se mostrava complicada, a volta parecia ser ainda pior, afinal a noite nem sempre é uma criança. Em dias de jogos é comum que o transporte público se torne escasso, sobretudo aqueles que têm a periferia da cidade como destino. Para enfrentar tudo isso era preciso muita disposição, dinheiro e um pouco de sorte. Eu tinha um pouco de sorte e um tiquinho de disposição, o que não era suficiente para me levar ao Maracanã e, muito menos, a São Januário. Ir contra tantos obstáculos e ainda correr riscos, tornava a empreitada menos atrativa ainda. Afinal, havia a atmosfera da festa, mas também a do risco cercando os jogos de futebol. As notícias de brigas, que se tornaram comuns no final dos anos de 1980, faziam dos estádios uma diversão que parecia perigosa demais. Ainda hoje muitas pessoas me dizem que nunca foram a um estádio por medo, o que em grande parte é derivado do pânico provocado pela violência urbana que não se restringe ao futebol, mas se faz presente em esquinas das cidades.

E o fato de ser mulher tornava tudo mais difícil. Familiares e amigos me diziam que estádio não era lugar para mulher. E o futebol realmente me parecia um bem quase que exclusivamente masculino, afinal não havia comentaristas, jornalistas de campo, narradoras e, muito menos, jogadoras, pelo menos na tela da minha TV. Nas arquibancadas, a grande maioria dos rostos que apareciam nas câmeras eram de homens. Portanto, embora fosse obcecada pelo Vasco da Gama, levou certo tempo até que eu reunisse condições e certa coragem para freqüentar as arquibancadas do Maracanã e, sobretudo, as de São Januário. Nesse tempo, perdi anos incrivelmente férteis de títulos para o meu clube. Tive que assistir a tudo pela televisão, sempre com uma ponta de inveja e certo ressentimento de não poder estar lá no meio da torcida.

Porém, eu cansei dessa distância e quando comecei a financeiramente me emancipar, o medo se tornou menor do que a vontade de experimentar as arquibancadas. Percebi que na verdade não havia muito o que temer. Fui ao Maracanã e mais tarde a São Januário e hoje vou a vários estádios do Rio e de outros lugares. Ir a estádios alimentou em mim a vontade de deles nunca me separar.Mais que isso, me fez desejar ser pesquisadora de futebol.
E meus primeiros passos nas pesquisas acadêmicas sobre futebol tiveram como objetivo justamente investigar a história das mulheres nesse esporte. Durante algum tempo, mergulhei em jornais e revistas antigas buscando fontes para traçar o caminho das mulheres na modalidade esportiva mais popular do país e buscando explicar porque costumava ouvir que estádio não era um lugar para gente. Acreditar em algum tipo de incompatibilidade entre mulheres e estádio, se vinculava a crença de que “futebol é coisa de macho”, frase que costumava ser proferida com naturalidade por pessoas comuns e especialistas da bola. Porém, descobri que essa frase não tinha nada de natural.

Desde o início do século XX, mesmo que algumas práticas esportivas não lhe fossem recomendadas, assistir às disputas de remo, às corridas de cavalo e aos jogos de futebol possibilitava à mulher experimentar o mundo para além dos domínios da casa. O futebol, assim como outras modalidades esportivas, proporcionou à mulher uma das raras oportunidades de exposição e entrada nos espaços públicos. Mas se o futebol foi útil para a mulher, o público feminino também foi muito importante para o estabelecimento desse esporte em terras brasileiras. Nas primeiras décadas do século XX, a presença de senhoritas e senhoras da alta sociedade contribuiu muito para dar uma atmosfera fidalga ao esporte bretão associando-o à elegância, tranqüilidade e beleza tornando-o, portanto, um esporte considerado apropriado para as famílias mais abastadas. É válido lembrar que nos seus anos iniciais no Brasil, o futebol era atividade anexada aos hábitos da elite que tentava fazer dele um evento social da moda. E a presença feminina auxiliava a consolidar o jogo entre as camadas abastadas da cidade.

Porém, o surgimento dessa figura chamada “torcedora” não se deu sem polêmicas. Lima Barreto, conhecido por sua posição contrária ao futebol, certa vez escreveu uma crônica intitulada “Uma partida de football” publicada na revista Careta. De modo bastante irônico, Lima Barreto descreve o futebol como um dos mais agradáveis hábitos adotados pela sociedade carioca. No caso das mulheres “elas se entusiasmam de tal modo que esquecem todas as conveniências. São as chamadas torcedoras e o que é mais apreciável nelas, é o vocabulário. Rico no calão, veemente e colorido, e o seu fraseado só pede meças aos dos humildes carroceiros do cais do porto” (Vida Urbana, disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000161.pdf).Essa crônica é datada de 1919, ano que se realizou, no estádio das Laranjeiras, o Campeonato Sul-americano de futebol.

O alvoroço que esse evento provocou foi grande na cidade e nas páginas da imprensa carioca. Nas populares revistas Ilustradas, há diversas menções ao público presente ao estádio do Fluminense, em especial, as mulheres. Na revista Careta podemos encontrar ótimas matérias que ressaltam o nervosismo provocado pelos jogos da seleção brasileira.

Algumas dessas matérias são belissimamente ilustradas por J. Carlos que em seus desenhos traduz a dimensão plástica dos movimentos corporais do torcer e do contorcer-se pelo futebol. Na edição de 17 de maio de 1919, o cronista comenta que enquanto o mundo assistia a diversos acontecimentos importantes como a assinatura do armistício de Compiègne, que daria fim a primeira guerra mundial, o carioca só tinha olhos para o futebol. Mesmo em meio a uma epidemia de gripe espanhola, os farmacêuticos “ganhavam fortunas vendendo calmantes à antecipada excitação das torcedoras (…) Houve damas que na fúria e na angustia da torcida, quebraram as unhas que levaram meses a crescer” (O football, Careta, 17/05/1919. As edições digitalizadas da revista Careta podem ser acessadas na Hemeroteca da Biblioteca Nacional).
Na edição de 07 de junho de 1919 de Careta, podemos ler a matéria “A estação elegante” onde se descreve que durante os jogos as mulheres deixam de lado sua elegância, movidas pela emoção: “nas arquibancadas e nos varandins do stadium ficaram luvas torcidas, lenços retorcidos, finas bolsas esgaçadas, faixas de seda, plumas e palhas de chapéu, amarrotados, rendas desfeitas, laços, laçarotes arrancados na fúria do torcimento”. A popularização da figura da mulher como torcedora é notável nas páginas de outra importante revista como é o caso da Fon-Fon que publicou o que seria uma carta assinada por uma mulher chamada Carlota Augusta. Na carta endereçada a uma senhora de nome Julia, pedia-se um conselho a respeito de um problema que afligia o casamento de Carlota: seu marido havia virado a casaca e de torcedor do Fluminense, tornara-se botafoguense. Ela então desabafa: “o que não tolero (e aqui é que careço das tuas luzes) é que o Nico tenha virado a casaca: ouve pasma e cala: ele agora torce pelo Botafogo. Já fiz tudo para convencê-lo da hediondez de sua conduta” (De uma torcedora, Fon-Fon,31/05/1919, p.48).

 
A mulher enquanto torcedora vai ganhando espaço no imaginário, sendo retratada na imprensa e também na arte. Em 1921, Antonio Quintiliano escreve a peça A torcedora do Vasco, obra com forte tom caricatural e naqual é possível perceber um novo perfil feminino traçado por intermédio do esporte que no caso não é o futebol, mas o remo. No lugar das mocinhas desprotegidas, à espera de um casamento ou subordinadas aos seus maridos, vemos a personagem Sofia que autoritariamente inverte os papéis. Sofia manda e desmanda na casa, a sua palavra é sempre a última, cabendo ao marido apenas concordar com suas decisões. Além de mandona, Sofia não é aquele tipo de esposa prendada e sempre preocupada em cuidar do marido, ao contrário, Sofia “só cuida de regatas!”

Nada de cozinhar, lavar roupas ou limpar a casa, pegar o carro e ir à praia torcer pela equipe de remo do Vasco da Gama é a principal atividade de Sofia. Essa mulher tem anexado ao seu perfil dois ícones da modernidade: o automóvel e o esporte. Embora ambos sejam experimentados ainda que de maneira passiva – já que Sofia não dirige o carro assim como não pratica, mas somente assiste às competições de remo – a peça A torcedora do Vasco, com estilo cômico e excessivo, trabalha ficcionalmente um fenômeno perceptível no cotidiano daquela época e diz respeito ao surgimento de novos modelos de mulher a partir da sua relação com a máquina e, principalmente, com o esporte.

Entretanto, com o passar dos anos as torcedoras vão deixando gradativamente de serem tão mencionadas pela imprensa, o que indica a diminuição de sua presença nas arquibancadas. Fatores econômicos podem justificar esse fenômeno. O historiador João Malaia Casquinha já demonstrou que ao longo dos anos de 1910 e 20, os homens que fossem sócios de clubes como o Fluminense tinham o direito de levar, sem custos, a esposa e duas filhas solteiras. Porém, essa prática foi sendo abandonada e, além disso, as arquibancadas deixaram de ter sua maioria composta pelos sócios, pois muitos clubes passaram a obter lucro com a venda de ingressos. Sendo assim, muitas mulheres, em sua maioria sem renda própria, passaram a deixar de frequentar os estádios.

Além desse fato há de considerar que a crescente popularização do futebol provocou uma mudança no perfil de público freqüentador dos estádios. Os machts deixaram de ser considerados um evento social e passaram a ser associados a balburdia que para muitos cronistas era gerada pela presença de indivíduos das classes sociais mais baixas. Assim, os jogos de futebol começaram a ser percebidos como pouco adequados aos padrões de feminilidade, sobretudo aqueles relacionados aos estereótipos do sexo frágil cuja função primordial na sociedade seria a maternidade. Em relação à prática do futebol, o contexto era ainda mais desanimador. Em 1941, o Decreto Lei 3199 proibiu a prática do futebol por mulheres por considerar esse esporte violento e incompatível com a delicadeza feminina. Esse decreto somente seria revogado na década de 1980, o que dá mostras de que o futebol historicamente se encaminhou para ser um esporte considerado como “coisa de macho”.

Sendo assim quando meus pais e colegas diziam que estádio era um lugar pouco adequado a uma mulher, por trás desse discurso estavam camadas e camadas de estereótipos historicamente construídos em torno do futebol e das mulheres. Estereótipos absolutamente passíveis de desconstrução, afinal mesmo sendo difícil, muitas mulheres exerceram papel importante em meio à torcida. Em 1953, a torcedora-símbolo Elisa do Corinthians destacava-se na massa conquistando o prêmio de torcedora no 1 do clube paulista, chegando a ganhar ingresso permanente concedido pela própria Federação Paulista de Futebol, o que lhe permitia freqüentar livremente qualquer campo. A torcedora que se orgulhava em dizer “Eu sou Elisa, meu senhor”,era figura pública conhecida e respeitada.

Outra mulher a se destacar no cenário futebolístico foi Dulce Rosalina que em 1961 ganhou o concurso de melhor torcedor do país e cujo troféu deu ao seu time de coração Vasco da Gama, a quem costumava acompanhar em partidas pelo país a dentro. Em 1956 Dulce Rosalina passou a comandar a TOV (Torcida Organizada do Vasco) tornando-se a primeira mulher no Brasil a liderar uma torcida organizada. Por problemas políticos, em 1976, Dulce deixa a TOV e funda a Renovascão da qual participou até seu falecimento em 2004.


Dona Elisa ao lado de Sócrates. Fonte: http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/4195-socrates#foto-78130


Dulce Rosalina. Fonte: http://casaca.com.br/site/2016/03/09/relembre-historia-de-dulce-rosalina-1a-mulher-lider-de-uma-torcida-organizada-no-brasil/

Sem dúvida, há outros exemplos que poderiam aqui ser mencionados, todos dando mostras de que o futebol também é um território onde mulheres torcem e se retorcem por seus clubes. E hoje em dia a internet é um aliado fundamental das meninas que amam futebol. Nela há produções voltadas para a afirmação e legitimação da relação entre futebol e mulher. O site Dibradoras(http://dibradoras.com.br/) é um ótimo exemplo, assim como diversas outras inciativas que têm contribuído para enfraquecer ou mesmo tornar ultrapassada a frase “futebol é coisa de homem”. Certamente essas iniciativas dialogam com diversas outras vinculadas à libertação feminina de preconceitos e entraves outros que ao longo da história dificultaram sua participação em diversos setores da sociedade, entre os quais o futebol.

No caso da torcida, ainda faltam estudos mais amplos e sistematizados que demonstrem dados mais completos a respeito da participação das mulheres nas arquibancadas do Brasil. Porém, recentemente alguns breves levantamentos apontaram para números interessantes sobre esse assunto. Em pesquisa realizada em 2013 pela agência Box 1824, sob encomenda da Rádio Globo, 900 pessoas que residem no Rio de Janeiro e São Paulo foram ouvidas sobre seus hábitos de torcer e o resultado mostrou por exemplo que 38% das mulheres afirmam ir ao estádio mais de uma vez por mês contra 41% dos homens. 59% das torcedoras afirmam assistir a jogos de futebol até duas vezes por semana, enquanto 40% dos homens afirmam fazer o mesmo (Fonte: http://epoca.globo.com/vida/copa-do-mundo-2014/noticia/2013/12/nao-basta-torcer-belas-querem-ir-ao-estadiob.html).

 
Eu costumo ir ao estádio mais de uma vez ao mês, algo que faço não somente pelo Vasco, mas por causa da Caravana de Boleiros, projeto que desenvolvodesde 2013. A ideia da Caravana consiste basicamente em visitar jogos de times que estão fora do circuito mainstream do futebol, ou seja, aqueles que não despertam interesse da TV e nem mesmo da rádio, pelo menos os de alcance massivo. Me interessa conhecer estádios de clubes como Olaria, Bonsucesso, Portuguesa, Madureira, Bangu,Goytacaz entre outros de uma longa lista. Embora se chame Caravana, as visitações são feitas basicamente por mim que sozinha vago pelas arquibancadas de estádios antigos e que em nada fazem lembrar as tão aclamadas arenas.

No circuito percorrido pela Caravana, não há glamour nem espetáculo, não há cadeiras com lugares marcados e muito menos setorização. Do mesmo modo não há craques, nem celebridades, mas jogadores que ora foram dispensados pelos chamados grande, ora sequer a eles chegaram. Pode parecer uma tarefa de alguém excêntrico, porém quando falamos de futebol brasileiro esquecemos que cerca de 80% dos jogadores daqui ganham no máximo R$1000. Em outras palavras, os jogos que assisto representam a realidade predominante do futebol do país. Na freqüência a esses jogos e estádios, fiquei fascinada pelo circuito não mainstream e pela torcida que o circunda. Desse interesse derivou-se outra pesquisa na qual tento investigar o que acredito ser a manifestação de uma contracultura no futebol, notável em discursos e práticas de torcedores que de modo deliberado levantam voz contra os excessos da relação entre futebol consumo e espetáculo midiático. São vozes que podem ser consideradas de resistência, o que não exclui contradições e tensões.

Enquanto caminho com a Caravana e minhas pesquisas continuo seguindo meu amor bandido chamado Vasco da Gama. No cimento de São Januário suspiro por gols, me angustio com as derrotas, toco a felicidade com as vitórias. Há dias que saio jurando que nunca mais volto. Porém,na partida seguinte estou lá, novamente.

Posso dizer que nas arquibancadas me sinto no centro do mundo e que nesse momento me lembro do trecho de uma poesia de Sophia Brayner que diz “quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto ao mar”. Sempre que entro em um estádio é como se voltasse no tempo para buscar cada instante que não vivi junto às arquibancadas. Por isso, convido a todas as mulheres a fazerem o mesmo.

*Leda Costa é vascaína. Doutora em Literatura Comparada,( Universidade do Estado do Rio de Janeiro )( com a tese A trajetória da queda. As narrativas da derrota e os principais vilões da seleção em Copas do Mundo. É pesquisadora integrante NEPESS (Núcleo de Estudos e Pesquisas Sobre Esporte – Universidade Federal Fluminense) e Editora-chefe da Revista Esporte e Sociedade (www.esportesociedade.com).

Deixa falar: o megafone do esporte tem a edição e criação de Raul Milliet Filho (doutor em História pela USP, pesquisa a História do Futebol no Brasil, especialista em Políticas Públicas na área social. ).


Com vistas à Rio-16, o blog está em recesso escandinavo até o dia 27, podendo voltar em edição extraordinária, ou não, a qualquer momento. 


Burro!
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Meia-esquerda, matou a bola no peito e olhou adiante procurando o nove.

(Enquanto a bola descia, lembrou-se de outro jogo, anos antes, em que ele era o nove e aguardava o lançamento do meia, que também acabara de dominar a bola no peito. Ele então correra entre os beques e receberia o passe na cara do gol, mas o meia desviara o olhar e dera o passe para o volante ao seu lado – só que ele é quem fora xingado pela torcida, por ter corrido para o lado contrário ao que deveria.

Lembrou-se também – a bola passando pelo quadril – de que, naquele jogo, depois de não receber o passe do meia e ser xingado, lembrara-se de um jogo anterior, no qual ele era o meia-direita, e de que dominara no peito e vira o centroavante correndo, mas escolhera não fazer o passe para ele e sim dar a bola para o volante ao lado – tendo sido, por isso, xingado pelos torcedores.

E lembrou-se em seguida – a bola perto do joelho – de que, nesse jogo mais antigo, depois de dar o passe pro volante, lembrara-se de um jogo no início da carreira em que ele era o volante e recebera o passe do meia, que, em vez de enfiar a bola pro centroavante, preferira lhe passar a bola – e que ele não soubera o que fazer e a perdera, o que o fizera ser xingado na arquibancada.

E ainda – a bola na altura da canela – lembrou-se de que, no jogo em que ele era o volante, lembrara-se, depois de receber o passe e perder a bola, de que anos antes, jovem, na arquibancada, assistira a lances parecidos e xingara ora o centroavante, ora o meia e ora o volante.)

Quando a bola parou no seu pé, enfiou-a para o centroavante correndo atrás dos zagueiros, mas errou o passe e armou o contra-ataque adversário, e só então viu que o volante ao seu lado pedia a bola.

E então escutou um torcedor chamando-o de burro e não soube se aquilo era real ou se era uma lembrança sua durante um lance que ainda ocorreria no futuro.

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Luiz Guilherme Piva publicou Eram todos camisa dez (Editora Iluminuras).

Com vistas à Rio-16, o blog está em recesso escandinavo até o dia 27, podendo voltar em edição extraordinária, ou não, a qualquer momento.


A Cidade do Aço e o futebol
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Juca Kfouri

Zuca Sardan

Por H. Raphael de Carvalho*

Nosso gentil hospedeiro e companheiro Juca Kfouri, baseado em dados praticamente irrefutáveis, concluiu, e tem voltado reiteradamente ao tema, que Volta Redonda não gosta de futebol. E pede que alguém explique essa questão. Aceitando o difícil desafio, até porque os números que ele aponta são acachapantes, tentarei aclarar o assunto, com base em alguns fatos que tenho bem presentes em minha memória.
Vivi boa parte de meus dias na Cidade do Aço, aonde cheguei de trem, aos três meses de idade. E durante toda a minha infância e adolescência convivi com fatos que me informavam que Volta Redonda era apaixonada pelo futebol: os rádios da vizinhança transmitindo os jogos dos times do Rio, a discussão frequente e acalorada entre os torcedores apaixonados e a existência de grande número de times de várzea. A maior parte da população da cidade era oriunda de Minas Gerais (quase sempre da Zona da Mata) e os times que davam causa aos bate-bocas eram os do Rio, como em quase todo o restante do país.

Lembro-me bem do Campeonato dos Bairros (uma espécie de competição de times de várzea). Só no Retiro, o grande bairro, então periférico, no qual fui criado, havia o Flamenguinho (na verdade Sociedade Esportiva Retiro), o Tamandaré e o Juventus. Na mesma margem esquerda do Rio Paraíba do Sul, Vila Mury, Vila Brasília, Voldac, Santa Rita, Aero e São Luis. Do lado de lá, só no Acampamento Central e Nossa Senhora das Graças: Cruzeiro, Porto e Brasília. E não era só: tinha time da Vila Americana, Água Limpa, Vila São Geraldo, o Aza Negra (assim mesmo com z) de Santo Agostinho e por aí vai. Esses times produziam um campeonato eletrizante em que os campos ficavam lotados. Todos tinham 1º e 2º quadros e, em muitos casos, times de base. Hoje, no entanto, a maior parte deles não existe mais.

Os trabalhadores da CSN (a mítica Companhia Siderúrgica Nacional, a maior usina de produção de aço da América Latina criada em 1941 por Getúlio Vargas) disputavam um campeonato interno. Cada departamento – e eram muitos! – organizava um time e a competição pegava fogo. Lembro-me, ainda, de equipes formadas por trabalhadores em casas comerciais e em setores do serviço público, tudo a indicar que bastava um número suficiente de jogadores e um mínimo de organização entre eles para se criar mais um time de futebol. Havia também o campeonato da Liga: Guarani, concessionário do velho Estádio General Silvio Raulino de Oliveira (onde hoje está o Estádio da Cidadania, cujo nome oficial ainda é o do general que participou da criação da CSN), Industrial (ligado à Fábrica de Cimento), Comercial, América do Rústico, Palmares, C.R. Flamengo de Volta Redonda…

O Guarani tinha fumaças de profissional e disputava a Copa Vale do Paraíba (da qual participavam times de toda a região) e o Campeonato Estadual de Profissionais (que sempre foi muito fraquinho). Por lá, passaram muitos craques que depois brilharam nos grandes clubes do país, mas, certamente, o principal deles foi Paulinho Valentim que começou no Central da vizinha Barra do Piraí (sua terra), brilhou no Botafogo de João Saldanha ( seu técnico no título carioca de 1957) e se eternizou no Boca Juniors..

Uma vez por ano, no dia 9 de Abril, data de fundação da Companhia Siderúrgica Nacional, um grande jogo acontecia no campo do Recreio do Trabalhador Getúlio Vargas. Embora não fosse murado, era um campo de primeira, cercado por alambrado e com pista de atletismo. As pessoas assistiam aos jogos de pé, junto ao alambrado, ou sentadas nos barrancos gramados que ficavam numa das laterais.


Zuca Sardan
A privatização da CSN causou grandes danos à Volta Redonda: demitiu milhares de trabalhadores, arrasou famílias, sacrificou mais de uma geração e, além de não trazer qualquer lucro para o país (muito pelo contrário, apenas enriqueceu alguns poucos ) , ainda acabou com esse patrimônio popular que foi retalhado.

Eu ainda me lembro de um Olaria (quando o alvianil do subúrbio da Leopoldina disputava com brilho o campeonato carioca) versus Atlético Mineiro assistido por uma multidão. E lembro-me bem porque meu pai foi-se embora reclamando que o jogo era uma pelada e eu, menino ainda, tive que ir junto. Em 9 de abril de 1970, pela primeira vez, eu vi o Flamengo ao vivo. O técnico era Yustrich (que, então, lamentavelmente, era ele próprio uma atração). Foi um time misto, com Michila, Washington, Adãozinho, Mário Sérgio (ele mesmo, o Pontes de Paiva), Tinteiro e outros cuja memória me falha. O adversário foi o Sport Club de Juiz de Fora (história para outro momento). Uma massa impressionante se aglomerou nos alambrados e pelos barrancos gramados para assistir ao 1X0 do Flamengo, gol de Adãozinho.

Em meados dos anos 70, a cidade possuía dois times profissionais: o histórico Guarani e o C.R. Flamengo de Volta Redonda. Aqui, um parêntesis: o Flamengo era criatura do médico Guanayr de Souza Horst. Eu não o conhecia pessoalmente, mas não gostava dele por identificá-lo com a ARENA. Anos mais tarde, soube que ele ajudara a concretizar a fuga de importantes quadros do PCB. Naquele tempo, ficou célebre a frase: aonde a ARENA vai mal, um time no Nacional. A ditadura jogava pesado para pegar carona no futebol e a Confederação (ainda CBD) era presidida pelo almirante Heleno Nunes, irmão do vice-ditador de Médici. Foi então que os donos do poder (ou seus delegados) decidiram fundir o Guarani com o Flamengo – na verdade extingui-los – e criar o Volta Redonda F.C. O doutor Guanayr (que sonhava ver seu time transformado numa autêntica filial do Flamengo da Gávea) não aceitou e quase foi preso por causa disso.

Mas o Guarani, cujos dirigentes de então eram ligados à ARENA, não resistiu e foi extinto dando origem ao Volta Redonda. A prefeitura investiu, reformou o Raulino colocando arquibancadas tubulares e o time entrou no campeonato brasileiro. Logo depois aconteceu a fusão dos estados Rio de Janeiro/Guanabara. Com a unificação das respectivas federações estaduais, Times do antigo Estado do Rio passaram a disputar o campeonato que chamam erradamente de carioca. E digo erradamente porque a presença dos clubes do antigo Estado do Rio deveria transformá-lo em campeonato fluminense.

Nessa época, no Raulino, eu cheguei a assistir a um jogo do Volta Redonda contra o Flamengo, de Zico, em que o público ultrapassou o número de 30 mil pessoas. Verdadeira loucura a superlotação e a insegurança do Estádio, com momentos em que se esteve muito próximo de uma tragédia.

Tudo isso para apontar uma conclusão afirmando que, da criação da CSN por Getúlio Vargas e até, pelo menos, meados dos anos 80, Volta Redonda sempre foi apaixonada por futebol. Hoje, não é possível negar, os volta-redondenses não têm ido ao Estádio e preferem se concentrar diante das TVs em casas e bares. Uma boa pista para desenvolver e explicar a questão que não só o Juca Kfouri gostaria de ver respondida seria o debruçar-se sobre o estudo do autoritarismo (que perseguiu, extinguiu e fundiu times e acabou com uma infinidade de campos de futebol de várzea) e da privatização (que, não podemos nos esquecer, foi feita pelos e para os mesmos que se beneficiaram da ditadura) como causas do esvaziamento dos campos da Cidade do Aço.

Busco em Flanklin Foer, autor de um livro já clássico, intitulado “O Futebol Explica o Mundo” fundamento para o que concluo: talvez o drama da cidade de Volta Redonda, berço da modernização e da mais bem sucedida tentativa de desenvolver o Brasil como país independente, explique a tristeza das arquibancadas vazias do Raulino de Oliveira. O que temo, e pretendo desenvolver em outra oportunidade, é que a Cidade do Aço esteja mais uma vez simbolizando um processo que atingirá todo o país. Ontem, foi a derrocada do projeto de construção do Estado Nacional, hoje a agonia do futebol brasileiro.

*Doutor em Ciência Política pela UFF e Pesquisador Associado do INEST/UFF.

Deixa falar: o megafone do esporte tem a edição e criação de Raul Milliet Filho (doutor em História pela USP ).



Jogando por música
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Domingo cedo, indo pro jogo na caminhonete, todo mundo no samba. Ele ia calado.

Na volta, se vencessem, a mesma coisa. Cantoria e batucada. Ele, uma estátua. Assim continuava no bar o resto da tarde.

Mas, durante o jogo, cantava. Serestas, sambas-canção. Clássicos românticos e boêmios. O jogo todo.

Os adversários estranhavam. A torcida ao redor do campo, também.

Mas com o passar do jogo se acostumavam.

Não cantava alto. Nem baixo. Dava pra ouvir no campo quase todo.

E a voz dele era bonita. Um tenor macio, lírico.

Às vezes, a mesma música o jogo todo. Às vezes, uma em cada tempo.

Ficava repetindo, alheio aos gritos, reclamações, impropérios e falas dos demais jogadores e da torcida.

Meio-campo clássico, parecia reger seus passos e passes pelo andamento da melodia, pelos agudos e graves, pelas pausas.

E jogava muito. Sem ele, o time era fraco. Com ele, dominava, impunha o ritmo, criava chances, fazia gols, vencia quase sempre.

Como um maestro fazendo todos jogarem o melhor de si.

Não podia era acontecer de ele esquecer um pedaço da letra.

Quando acontecia, era uma tragédia. Ele parava onde estivesse e ficava repetindo a frase anterior da letra, coçava a cabeça, olhava pro alto, fechava os olhos, sussurrava de novo o verso anterior, e nada.

O jogo seguia e ele ficava parado onde estava.

Se lembrasse, retomava o jogo como se nada tivesse acontecido. Se não, ficava ali – ninguém o tirava porque ele poderia se lembrar a qualquer momento e isso mudaria o jogo.

Mas algumas vezes embatucava no verso, que sumia e não voltava. E aí era o desastre. O time desandava e perdia feio.

No começo era muito raro. Mas de uns tempos para cá vinha acontecendo com mais frequência. Lá pelo meio do segundo tempo, músicas tantas vezes cantadas, tantas vezes repetidas, falhavam.

E então a tragédia: ele parado, coçando a cabeça, mexendo os lábios, os olhos pra dentro e pro alto, repetindo o verso antecedente – e tome gol do outro time.

O que o pessoal começou a fazer foi aprender as músicas que ele mais cantava. Todos se puseram a decorar a maioria delas. Depois do treino, ensaiavam com o técnico, que distribuía as letras impressas para todos.

Eles iam pro jogo com o papelzinho nos bolsos se precisassem colar.

De modo que, havendo a parada na canção, alguém por perto já lhe soprava o verso faltante: “da mulher, pomba-rola que voou”, “me acompanha o meu violão”, “mas tu não flertaste ninguém”, “que o meu lar é o botequim”, “respeite ao menos meus cabelos brancos”, “jurar, aos pés do onipotente”, e pronto, ele retomava e seguia, cantando e jogando.

O problema é que agora ele surgiu com uma canção que ninguém conhece.

E a canta, a mesma, em todos os jogos. Os colegas prestam atenção, tentam decorar, já pesquisaram trechos na Internet, mas nada. Só ele sabe a letra, enorme, complicada, meio sem sentido.

Mas linda.

Todos ficam encantados.

Talvez seja a mais bela de todas as que ele já cantou.

Será composição dele?

Não ousam perguntar.

O fato é que, com a nova canção, ele tem jogado cada vez melhor.

Com isso, são jogos e jogos com vitórias seguidas – e muito samba na caminhonete e no resto da tarde.

Mas todos com um medinho lá no fundo: essa, se ele esquecer a letra, ninguém vai conseguir completar.

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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


O tango dos sete erros
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Juca Kfouri

POR JOÃO MARCONDES*
A “argentinização” do futebol brasileiro está dando certo?

As sete razões pelas quais a aventura portenha do São Paulo não passa de mera ilusão e representa rompimento com raízes do nosso futebol.

 
1. O argentino Edgardo Bauza, duas vezes campeão, foi contratado para “priorizar” a Libertadores. O técnico sequer conhece bem as idiossincrasias do futebol brasileiro. Está engatinhando ainda. Implantou, muitas vezes a fórceps, seus conceitos. O resultado foi razoável, mas aquém do potencial.

2. Centurion. O que dizer? Nunca antes na história desse país um jogador medíocre teve tantas chances para dar certo. Hermano? Mera coincidência, deve ser…

3. Rogério, o Mito II. A dispensa de Neymar do Nordeste foi um desastre. Um dos jogadores mais letais do time, algo genioso. Decidiu várias partidas nos últimos minutos, inclusive nesta Libertadores. Amado pela torcida, talismã. O que fez Patón? Colocou no banco e não teve 1% da paciência que teve com o centurião portenho. Ele deve vir a público e explicar.

4. A tal “função tática”. Supostamente por isso, abrimos mão de Rogério por Centurion. Ficou com sabor de muricybol com retrogosto de Malbec azedo.

5. “Valentia”. Imortalizado nas eras Cilinho e Telê, o São Paulo sempre teve a técnica e o futebol bonito como marcas registradas. Agora apostamos no Lugano velho de guerra e Maicon salvador da pátria, com arroubos de Felipe Melo. Raça? Não ganha jogo. Como se diz nas redes sociais: epic fail.

6. Jogadores temporários. Estratégia temerária, contratar jogadores por quatro, seis meses. Ok, Calleri é um grande atacante, mas vai ficar? E Maicon: a ironia de uma contratação por “uns dias”, o desespero para comprar em definitivo e a expulsão fatal. Tango argentino? Tragédia grega?

7. Torcida que só vai na Libertadores. Ok, muito legal bater recordes de público no torneio continental. O Morumbi fica lindo. Mas o que dizer estádio às moscas nos confrontos do Brasileirão? O que nos resta agora? Ah, o campeonato nacional, em que perdemos contato com as primeiras posições. Quem vai pagar o Patón?

*João Marcondes é jornalista.


 


Exemplares: atletas que tomam posição
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Juca Kfouri

Na premiação da ESPN americana (ESPYs), ontem, quatro astros do basquete mundial pediram a palavra, por vontade própria, para abrir o show.

Leitura obrigatória, uma lição para os esportistas do mundo inteiro, principalmente para os brasileiros. Principalmente.

https://www.youtube.com/watch?v=KCjMvEdPi30

Tradução por Gabriel Borges Martins:

Carmelo Anthony


“Boa noite, hoje é um celebração esportiva, celebraremos nossas conquistas e vitórias.
Mas, nesse momento de celebração, nós pedimos para começar o show nesta noite desta maneira, nós quatro falando para nossos colegas atletas, com o país assistindo.

Porque nós não podemos ignorar a realidade do estado atual dos EUA.

Os acontecimentos da última semana colocaram o foco na injustiça, desconfiança e raiva que contamina muitos de nós.

O sistema está falido. Os problemas não são novos, a violência não é nova e a divisão racial definitivamente não é também.

Mas a urgência de criar uma mudança nunca foi tão necessária”.

Chris Paul


“Não estamos aqui hoje aceitando nosso papel de unir comunidade, de ser a mudança que precisamos ver.

Nós estamos diante de vocês como pais, filhos, maridos, irmãos, tio e, no meu caso, como um homem afro-americano e sobrinho de um policial, que é um de centenas de milhares ótimos policiais servindo este país.

Mas, e Trayvon Martin, Michael Brown, Tamir Rice,  Eric Garner, Laquan McDonald, Alton Sterling, Philando Castile? (os negros mortos vítimas de violência policial)
Esta é também nossa realidade.

Gerações atrás, lendas como Jesse Owens, Jackie Robinson, Muhammad Ali, John Carlos e Tommie Smith, Kareem Abdul-Jabbar, Jim Brown, Billie Jean King, Arthur Ashe e tantos outros, estabelereceram um modelo sobre o que os atletas deveriam defender.

Então nós escolhemos seguir seus passos”.

Dwyane Wade


“A discriminação racial tem que parar. A mentalidade “atirar para matar” tem que acabar. A desvalorização de corpos negros tem que parar, mas, também, a retaliação tem que parar.
A interminável violência armada em locais como Chicago, Dallas, sem falar em Orlando, isso tem que parar.

Chega.

O bastante é o bastante!

Agora, como atletas, devemos desafiar cada um a fazer ainda mais do que já fazemos em nossas próprias comunidade.

A discussão não pode parar assim que fiquemos ocupados novamente.

Nem sempre será conveniente. Não será. Nem sempre será confortável, mas é necessário.

LeBron James

Nós nos sentimos impotentes e frustrados pela violência.

Nós sentimos.

Mas isso não é aceitável.

É hora de olhar no espelho e perguntar a nós mesmos o que estamos fazendo para criar mudança.
Isso não é sobre ser um modelo.

Não é sobre nossa responsabilidade sobre uma tradição de ativismo.

Eu sei que hoje nós honramos Muhammad Ali, o melhor de todos os tempos.

Mas para fazer alguma justiça ao seu legado, vamos usar esse momento como um chamado de atenção para todos atletas profissionais se educarem. Para esses problemas.

Posicionem-se, usem sua influência e renunciem toda violência.

E, mais importante, voltem para suas comunidades, invistam nosso tempo, nossos recursos, ajudem a reconstruí-las, a fortalecê-las, ajudem a mudá-las.

Nós todos temos que fazer melhor. Obrigado”.


Bom Senso FC esclarece
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Juca Kfouri

SEGUE O JOGO: BOM SENSO FC CONTINUA EM CAMPO

Ao contrário do que o Painel FC da Folha de S. Paulo afirmou na sua edição de sábado, o Bom Senso FC segue seu trabalho pela modernização, transparência e democratização do futebol brasileiro.

Não é de hoje que passamos por uma reestruturação estratégica. Ela vem desde que alcançamos a nossa maior vitória: a aprovação do Profut, projeto que instituiu novos padrões de governança e transparência aos clubes e federações. De lá para cá, estamos olhando para o futuro do futebol brasileiro com mais esperança, e também com a clareza de que não bastarão atuações isoladas para resolver um desafio sistêmico.

Reconhecemos que há ainda muito a se fazer pelo futebol. Estádios esvaziados, clubes endividados, corrupção desenfreada, crise técnica e escândalos políticos dão a dimensão do problema que desejamos resolver. A missão de desenvolver o futebol brasileiro e resgatar sua autoridade internacional vai exigir mudanças estruturais na relação entre a CBF, os clubes e todos os profissionais do setor. Também vai exigir paciência com o longo prazo e coragem frente aos poderosos da bola. O Bom Senso FC não só vai continuar acompanhando e cobrando as autoridades que regulamentam o esporte, como também vai estudar, pesquisar os cenários e propor medidas que melhoram o jogo para todas as partes. Com o reconhecimento do nosso legado e a responsabilidade que isso traz, o movimento se consolida e finca base como um centro independente de inteligência e ação pelo futebol brasileiro.

Vamos trabalhar como um time. Os atletas, como grandes ídolos do esporte, têm um papel fundamental em seu desenvolvimento, mas para atingir mudanças significativas será preciso engajar toda a comunidade do futebol em torno de propostas concretas. Torcedores, árbitros, treinadores, acadêmicos, patrocinadores e todos os outros setores relevantes do esporte precisam se envolver na construção de soluções.

A desunião atual entre esses setores talvez seja a principal explicação para o estado do nosso futebol. Criar sinergias e construir consensos mínimos com as pessoas e entidades interessadas na mudança do futebol brasileiro será nossa principal frente de atuação daqui em diante.

O Bom Senso FC hoje, enquanto organização social de interesse público, assume a função de um centro de mobilização, produção e incidência em temas estratégicos para o futebol melhor para todos. Com os protestos em campo demos o pontapé inicial, em 2013, para uma série de mudanças que ainda estão por vir. Longe do fim, o que encaramos agora é um novo começo.

Bom Senso Futebol Clube


Paulo André: “O Bom Senso FC não acabou”
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Juca Kfouri


“O Bom Senso acabou?” é a pergunta que pipocou no meu celular nos últimos dias por causa de uma matéria do Painel da Folha de S.Paulo. 
A resposta é simples, mas a explicação nem tanto, por isso vim me posicionar em respeito aos amigos do futebol, da imprensa e a todos que me leem e têm acompanhado minha jornada.

Durante os últimos 6 ou 7 anos muita coisa aconteceu. 
Entre o blog, o livro, a ONG, os eventos beneficentes e os títulos, conheci pessoas incríveis que, assim como eu, acreditam que o futebol é mais do que uma paixão, é uma ferramenta de transformação social e um patrimônio cultural do nosso país.

Quem me conhece sabe que sou um sonhador e de certa forma um maluco que vai atrás dos sonhos. 
Essa maluquice me levou por caminhos fantásticos e também me rendeu boas brigas e debates. 
Em determinado momento, as porradas ficaram mais fortes do que o apoio que eu recebia e por isso optei por me recolher e esperar a tormenta passar. 
Tentei viver uma vida tranquila, focada só no futebol, mas ainda acho que é muito pouco para qualquer um viver apenas de uma coisa só. Vivo de desafios, de realizações, de desafios, de sonhos e de paixões.

Aquele histórico Bom Senso de 2013, sentado no gramado, de braços cruzados, já não existe mais. 
Um outro, mais organizado, com pautas definidas e equipe de trabalho, funciona desde 2014, com menos holofotes e mais resultados práticos, como o Profut em 2015. 
Mas o segundo, sem a participação dos principais atletas do país, não faz nenhum sentido, não tem razão de prosseguir.

Sempre entendi que o Bom Senso serve como um meio para influenciar e exercer pressão sobre quem toma as decisões no nosso futebol. Ele nunca foi um fim. 
Os atletas renomados que fizeram parte do movimento nunca quiseram usar sua estrutura e visibilidade para defender causas próprias ou preparar o pós carreira, pelo contrário, colocaram em risco muita coisa para enfrentar quem está no poder. E obtivemos sucesso, sem dúvida.

Só que para continuar existindo, é preciso renovar suas lideranças, é preciso que surjam novos sonhadores, assim como nos movimentos estudantis que tão bem fazem ao país. 
Por diversas vezes já lamentamos a falta de engajamento dos atletas de destaque do futebol nacional e a falta de interesse dos “nossos” atuais ídolos, tão preocupados com suas redes sociais.

Havia um vácuo de oposição propositiva nos debates com as entidades que administram o futebol, assim como sobre legislação e políticas públicas do esporte e o Bom Senso ocupou esse espaço, não pode fugir dessa responsabilidade.
Porém, a partir de agora o movimento deixa seu lado mais combativo e passa a ser um centro de pesquisa, de projetos e de articulação (think and do tank) entre os entes do esporte, mantendo seu representante na APFUT e seguindo seu trabalho nas comissões de futebol da Câmara e do Senado em Brasília por meio de sua equipe de trabalho. Sua vocação ainda é mobilizar jogadores e criar um ambiente propício para mudanças.

Honestamente, tenho a sensação de que cumpri meu dever nesta etapa da vida, repleto de orgulho por ter feito parte do maior movimento de atletas da história do futebol brasileiro. É hora de outros assumirem o movimento e questionarem os rumos que toma o nosso esporte.

Minha vida seguirá e com ela novos desafios e lutas virão. Não abrirei mão do meu lado crítico, nem de participar de iniciativas que trabalhem por um futebol e um país melhor. Ainda há muito a se fazer dentro do nosso futebol, por vários caminhos, e, infelizmente, há pouca gente capaz ou interessada em assumir essa responsabilidade. 
As mudanças estruturais não acontecerão do dia para a noite, levarão anos para acontecer, seja por meio do Bom Senso, de outros movimentos ou de entidades, mas é preciso que mais pessoas saiam de suas zonas de conforto para pavimentarmos a via que devemos seguir.
Um abraço,
P.A


Senadores, rejeitem o PL Licença para Matar!
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Juca Kfouri

No último dia 6, a Câmara dos Deputados aprovou em regime de urgência um projeto que transfere para a Justiça Militar o julgamento de militares das Forças Armadas que matarem civis no Rio.

A proposta já está no Senado e deve ir à votação final nas próximas horas.


Nos tribunais militares, a maioria dos integrantes são oficiais da ativa, que não precisam ter formação jurídica.

Por seguir a hierarquia das Forças Armadas, eles tendem a ser mais duros com os praças do que com seus superiores, que podem ter mais chances de ficar impunes.

Ou seja, esse projeto de lei quer manter sob controle dos próprios militares os assassinatos cometidos por seus pares.

Além disso, o projeto é inconstitucional já que, segundo o artigo 5º da Constituição, crimes com intenção de matar devem ser julgados pelo Tribunal do Júri, formado por cidadãos e conduzido por um juiz.

Sem uma grande mobilização da sociedade, esse abuso autoritário será aprovado.

Sabemos que a maioria dos senadores está sendo submetida à pressão conservadora, mas juntos podemos barrar esse retrocesso. Vamos mostrar aos senadores que a sociedade não aceitará o PL Licença para Matar. Envie agora seu email de pressão aos senadores colocando seu nome e email na caixa ao lado!

As recentes experiências de ocupação militar das Forças Armadas no Rio deixam ainda mais claro o perigo que a aprovação desse projeto de lei representa para a vida dos cidadãos cariocas: durante a ocupação do Exército na Maré, por exemplo, o menino Vitor Santiago ficou paraplégico e teve uma perna amputada após seu carro ser fuzilado por soldados em fevereiro de 2015. Até hoje, o inquérito militar não foi aberto.

Em menos de um mês começam as Olimpíadas, por isso temos pouco tempo para lotar as caixas de email dos senadores pressionando contra a aprovação do PL.

Precisamos evitar que esse estado de exceção seja legitimado por uma lei que, além de antidemocrática, é inconstitucional.

Envie agora sua pressão!

http://paneladepressao.nossascidades.org/campaigns/969


Eder, o neto de Ricardina
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

O Bairro da Ajuda fica perto da Mãe D’Água.

Nada de prédios.

Apenas casas pobres e árvores estremecidas pelo calor.

Assimilados se vestiam de portugueses.

O apito.


Quando soprava o apito, os negros podiam chegar pra trabalhar.

O apito.

Quando sopravam o apito, o moleque Eder se punha a chutar a pelota.

Vó Ricardina se espantava.

Eder se pôs ao mar.

Onde está Cristiano Ronaldo pra subir na sobreloja?

A creche lusitana e a criança que se perde.

A única linguagem que conhece é esférica.

Vó Ricardina é fogo que arde sem se ver.

Portugal de Cabos Verdes e Bissaus.

Áfricas de José Águas, Eusébio e Coluna.

Portugal de Salazar e Spínola.

Guardam o velho cravo e os meninos correndo atrás do sonho.

Verdes são os campos da cor de limão.

Assim são os olhos do meu coração.

As tropas francesas invadem Portugal.

Dom João foge.

Foge como Eder foge da marcação gaulesa.

Agnello Regalla a se perguntar:

Que conheço eu de ti, Mãe África?

Nós conhecemos apenas os gols.

Cabeçadas de Águas.

Chutes de Eusébio.

Milagres de Eder.

Todo o sofrimento do povo negro que forjou a glória portuguesa.

Glória feita de sangue e navios negreiros.

Glória relembrada no discurso do ídolo Cristiano.

Saudando o Portugal dos imigrantes.

Portugal que se fez de Benficas, Portos e Sportings.

Portugal que se fez dos netos de Vovó Ricardina.

Ó mar salgado, quanto de teu sal são lágrimas dos escravos de Portugal?

Valeu a pena?

Não valeu a pena, pois a alma do colonizador era pequena.

Mas quem quer passar além do Bojador.

Tem de passar além da dor.

E foi isso que fez o neto de Vovó Ricardina.

O improvável e negro herói na noite da Paris de Luís XIV.

Talvez porque uma verdade resiste ao noventa minutos.

O artilheiro não é nada.

O artilheiro sozinho não pode ser nada.

Um artilheiro de Bissau não pode ser nada.

À parte isso, este menino carregava nos pés todos os sonhos do mundo…


Palmeiras x Santos lidera maiores públicos na Arena Palmeiras
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Juca Kfouri

Amanhã, Palmeiras e Santos fazem o grande jogo da 14ª rodada do Brasileiro, típico caso de por último, mas não o último, ao contrário, o primeiro, até porque com o líder do campeonato.

E uma curiosidade chama a atenção nos clássicos entre Palmeiras x Santos: contando com a partida desta terça-feira,  quatro dos sete maiores públicos da história do novo estádio alviverde foram envolvendo os dois rivais.


Parece até uma volta aos anos 1950/60, pena que com torcida única, esta estupidez implantada em São Paulo.

Mais do que isso, do total de quatro jogos já realizados entre ambos no estádio, 126.474 pessoas marcaram presença, sendo que mais da metade -71 mil pagantes, eram formadas por sócios-torcedores Avanti, motivados pela compra antecipada de bilhetes via internet.

Esses números apenas comprovam que a rivalidade de palmeirenses e santistas foi acentuada com as recentes decisões protagonizadas nos Paulistas de 2015 e 2016, e na Copa do Brasil da última temporada.

Em 2015, três dos cinco maiores públicos do Verdão no ano foram em jogos contra o Santos: 39.660 na final da Copa do Brasil, 39.479 na final do Paulistão, e 38.208 no Brasileiro. No Paulista deste ano, o público foi de ‘apenas’ 23.180, quando a competição ainda estava no início.

Agora, pelo Brasileiro, aproximadamente 38 mil ingressos já foram vendidos. Até amanhã, esse número vai aumentar.

Recordes de público na Arena Palmeiras:

39.995 – Palmeiras 1 x 0 Corinthians (Campeonato Brasileiro 2016)

39.660 – Palmeiras 2 x 1 Santos (final da Copa do Brasil 2015) – Obs. 100% dos ingressos vendidos para sócios-torcedores, via internet

39.479 – Palmeiras 1 x 0 Santos (final do Paulistão 2015)

38.784 – Palmeiras 0 x 1 Atlético-PR (Campeonato Brasileiro 2015) – Obs. Pela primeira vez na história do Palmeiras, 100% dos ingressos vendidos para sócios-torcedores, via internet

38.562 – Palmeiras 2 x 1 Fluminense (Campeonato Brasileiro 2015)

38.208 – Palmeiras 1 x 0 Santos (Campeonato Brasileiro 2015)

38 mil vendidos – Palmeiras x Santos, pelo Brasileiro deste ano, já chegou a 38 mil vendidos e vai entrar nesta lista.


ÀS ARMAS, PORTUGAL: Cristiano Ronaldo e a fundamental ausência de um ídolo redentor
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Juca Kfouri

POR ANDRÉ UZÊDA*

Contundido no segundo jogo do Mundial do Chile, Pelé não participou das outras quatro partidas daquela Copa e, ainda assim, sagrou-se campeão. Não é menos campeão por isso. No entanto, na prateleira onde descansam suas três réplicas da Jules Rimet, sem dúvidas, a de 1962 é a que menos reluz.


Léguas distante do ‘Maior de Todos’, a despeito do pouco tempo que permaneceu em campo durante a decisão da Euro, Cristiano Ronaldo, ao contrário do Rei, fez de sua ausência a maior de suas participações no futebol.

A imagem do herói de tênis, calção, agasalho luso e uma atadura no joelho esquerdo – indicando o ferimento que o levou às lágrimas e a maca dos enfermos – é forte o suficiente para ressignificar uma crença, há muito, arraigada no povo português.

Nossos colonizadores possuem como traço atávico, herdado até por nós, brasileiros, o mito do sebastianismo. É o olhar perdido no horizonte à espera do ídolo redentor.

No século XVI, enquanto comandava uma das campanhas de guerra no norte da África, o monarca português Dom Sebastião desapareceu. Entre a deserção e o ferimento de morte transcenderam versões da construção de uma fábula. O mito do rei extraviado que, messiânico, a qualquer momento reapareceria em seu robusto alazão para redimir seu povo das derrota tidas como líquidas e certas.

Em vão, os portugueses esperaram anos a fio pelo desabrochar do herói. Antônio Conselheiro, na comunidade de Canudos, no início da República brasileira, ainda citava Dom Sebastião, ao lado de Cristo, como uma das figuras que salvaria os sertanejos de todos os males ali impingidos por anos de seca e descaso da federação.

Com sete minutos de jogo, contra a França, Cristiano Ronaldo foi atropelado por um atabalhoado Payet. O árbitro sequer indicou falta. Caído, CR7 viu um inseto beijar seu rosto enquanto ensaiava as primeiras lágrimas. Resistiu até os 24 do primeiro tempo, até ser vencido pela dor e desaparecer no campo de batalha do Stade de France.

Os portugueses, mais uma vez, estavam ali abandonados ao próprio azar. Naufrágos de uma caravela sem capitão destinada ao degredo. Subvertendo o hino do país, durante os 90 minutos do tempo regulamentar, os lusos trocaram “as armas” pelos escudos. Optaram por se defender à espera do primeiro sinal de Dom Sebastião, cujo credo era o único indicativo para resistir.

No início da prorrogação, contrariando prognósticos, ele surge. Altivo, recuperado dos espamos da dor, confiante. Abraça os companheiros, transmite esperança. O agasalho de mangas compridas esconde o lugar marcado para ostentar a braçadeira.

Mas o herói não está ali para entrar em campo.

Não há ninguém que possa nos salvar que não nós mesmos. O herói inspira. Mostra ser possível. Mas são apenas aqueles que lá estão, independentemente de quaisquer circunstâncias, que podem fazer algo. E o gol pode ser de qualquer um. Que bom que seja de um improvável reserva, nascido em Guiné-Bissau, crescido em um orfanato, com nome de craque brasileiro (Eder) e que calça uma luva branca em sinal de paz.

Quando Brecth cunhou a famosa frase que “infeliz era a nação que precisa de heróis”, sem dúvidas, tinha em perspectiva o drama português à espera da salvação.

CR7 voltou não para jogar. Mostrou para dizer, apenas, que seria possível.

*André Uzêda é jornalista. Texto publicado originalmente no “Uratu online”.


Meu caro Waldemiro: carta a um atleta olímpico esquecido
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Juca Kfouri

POR ROBERTO SALIM,  em “O Estado de S.Paulo” de ontem.

Meu caríssimo Waldemiro Pinto,
Espero que receba esta mensagem. Esteja onde estiver. Da última vez, me informaram lá no cemitério de Pinheiral, um pouquinho abaixo de Volta Redonda, que não sabem direito em qual túmulo você está descansando desde 27 de fevereiro de 2013. Você foi enterrado como indigente, depois de trazer a medalha de ouro dos Jogos Pan-americanos de Chicago, em 1959, e de ter lutado na Olimpíada de Roma, em 1960, sempre como peso-galo.


Achei que você ficaria feliz de saber como andam as coisas para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, cidade onde você fez grandes lutas antes de viajar para uma aventura de quase 40 anos no Equador – onde foi lutador de boxe, massagista de futebol, lanterninha de cinema e nos últimos tempos andarilho pelas ruas de Quito, antes de ser resgatado pela equipe de reportagem da ESPN Brasil e voltar ao seu país, em junho de 2000.
Como no seu tempo, os atletas olímpicos do Brasil não tiveram muito carinho da cartolagem para estes Jogos em nossa terra. A verdade é que a Olimpíada é um grande negócio que se realiza de quatro em quatro anos: em alguns países adiantados, os atletas também lucram. Em outros só os empresários, empreiteiros e dirigentes é que lucram.
Se é que você me entende.
A Olimpíada é um grande negócio!
Nenhum dos responsáveis pela Olimpíada esteve preocupado com o desenvolvimento do esporte brasileiro. Se fosse assim, não teriam concretado a pista de atletismo do Estádio Célio de Barros, onde os atletas cariocas treinavam. Nos últimos tempos até “raves” foram realizadas lá, e não se sabe em benefício de quem foi a bilheteria.
E o campo de golfe construído em área de proteção ambiental?
No seu tempo de lutador, a Lagoa Rodrigo de Freitas já era tão poluída? Há uma informação de que a poluição é noticiada sempre que querem esconder um outro assunto bombástico. É… o tal departamento de marketing e factoides do Comitê Olímpico Internacional. Tudo muito elegante, moderno, virtual.
E o caso do laboratório brasileiro do antidoping descredenciado pela WADA – a associação que cuida do doping no mundo?
O doutor Francisco Radler, um cientista digno da Universidade Federal do Rio de Janeiro, deve estar irado com a situação.
Vai ser difícil entender o que aconteceu de verdade.
O handebol teve a construção de uma arena que depois será desmontada, enquanto a Federação Carioca funciona no porta-malas do carro da presidente.
E a ginástica, meu caro Galo Preto – era assim que te chamavam quando disputou o título sul-americano, não é?
Bem, a ginástica faz suas reuniões da federação carioca no estacionamento de um shopping, porque não tem sede.
E a federação de basquete ocupa uma saleta da Confederação da modalidade. O campeonato feminino de basquete tem só três times e as meninas nunca entraram no ginásio de basquete do Pan. O tal legado de 2007 custa muito caro para abrir suas portas.
Ah, Waldemiro, lembra quando você voltou ao Brasil e encontrou seu filho em Volta Redonda? Lembra que numa entrevista na ESPN Brasil, o presidente Carlos Arthur Nuzman declarou que um brasileiro como você, com sua história, com sua medalha de ouro pan-americana e sua participação olímpica seria recebido com honras de grande campeão?
Pois é, eu sei que ele nunca te chamou lá em Volta Redonda. Nem deve saber que você passou os últimos tempos no “Recanto dos Velhinhos Francisco Gonçalves Barbosa”, em Pinheiral, contando histórias de boxe para a Cidinha, cuidadora que é o xodó do asilo.
O COB também não te deu uma réplica da medalha, que você perdeu em seu bailado difícil pelo mundo dos ringues.
O que? Se eu acho que iam te convidar para carregar a tocha, se você estivesse aqui no mundo? Acho que não, tem mais grã-fino carregando a tocha do que atletas… Alguns até têm de pagar, para ficar com a lembrança.
Uma coisa eu sei: se morasse na Vila Autódromo, você seria desalojado, com medalha de ouro e tudo. Você e todos os moradores, junto com a dona Penha, mulher de 48 quilos e toneladas de dignidade. Enfrentou até o Batalhão de Choque para defender a moradia de gente que tinha concessão do governo estadual para residir no local.
Mais um detalhezinho, meu caro: o seu nome está escrito errado no livro editado pelo Comitê Olímpico Brasileiro. Na página 191, que fala da delegação nacional que foi aos Jogos de Roma, está escrito: peso-galo Waldomiro Pinto. Bobagem, Waldemiro.
É, mas só para você saber: o Nuzman continua como presidente do Comitê Olímpico. Sim. E disse que após a olimpíada do Rio pretende continuar como presidente do COB. Talvez mais dois mandatos, viu, Waldemiro?
É, ele mesmo que, quando assumiu o comando do COB, prometeu transformar o Brasil em uma potência olímpica em 8 anos. Verdade. Não cumpriu, mas por que não continuar tentando?
Tivemos o legado do Pan não é?
Você sabe da história do velódromo construído para os Jogos de 2007, não sabe? Você estava vivo ainda. Fizeram o velódromo, que custou R$ 18 milhões. E para ser adaptado para a Olimpíada ele precisaria de alguns ajustes, que custariam mais R$ 14 milhões segundo o arquiteto holandês Sander Douma – a maior autoridade do mundo em ciclismo de pista.
Mas o que resolveram os nossos diletos dirigentes, Waldemiro?
Ora, vamos derrubar esta obra e fazer outra!
O próprio Sander achou uma loucura: “Só no Brasil mesmo, vocês são loucos”.
Loucos ou não, o novo velódromo foi erguido pela bagatela de R$ 147 milhões. O dinheiro sobra, não é?
Além do mais a obra atrasou e não deu tempo de fazer um evento teste no local.
Como Waldemiro, você não entendeu?
Nem nós. Mas a história das bicicletas é muito pior.
Como o assunto do velódromo vazou, os dirigentes resolveram doar a carcaça do “legado” desmontado para alguma cidade. Um presente. Uma “bicicleta de grego”, digamos.
E tudo foi parar em Pinhais, no Paraná.
Transferir o material custou só R$ 1 milhão ou 2. O transporte foi feito em oito carretas. O material elétrico ficou em um galpão com um aluguel de… somente R$ 10 mil mensais – já houve alguns roubos de fio, mas coisa pequena.
A ferragem está no terreno, a céu aberto, onde um dia o velódromo será remontado. E aparentemente está enferrujando. A nova pista de madeira importada virá de algum lugar. A anterior, de pinho de riga, foi totalmente inutilizada, pois foi presa ao piso com 180 mil pregos na época do Pan.
Diz a lenda que a pilha de madeira virou lenha em alguma pizzaria.
Não, não tenho certeza disso, Waldemiro.
O que eu sei é que com tudo isso, a Olimpíada do Rio vai ser a maior festa esportiva de todos os tempos – muito diferente da fraca participação popular de Atlanta, por exemplo, sem falar do atentado e das ameaças. Pode conferir isso de onde você estiver. Nosso povo é animado, adora esportes, o cenário natural do Rio é fantástico, e o nosso clima é encantador – e você sabe disso desde os tempos em que lutava nas noites de boxe da TV Rio, com apresentação do Léo Batista.
A violência urbana?
Ah, Waldemiro, isso é tudo controlável.
Acerto de chefes para que nada aconteça durante as os grandes eventos cariocas: lembra da Eco-92, da visita do Papa, do campeonato mundial de futebol?
Depois, tudo volta ao normal, claro.

Ops! Waldemiro, brilha uma luz fraquinha no final dos túneis abertos para a remodelação urbana. Parece… parece, Waldemiro, que uma incrível série de denúncias virá a público após os Jogos Olímpicos.
Denúncias que só não explodiram ainda porque seriam catastróficas para a realização da competição.
É… dizem que não vai sobrar pedra sobre pedra no mundo da cartolagem.
Sim!!! Algo como aquilo que sacudiu a CBF.
Tá bom, você tem razão, o prédio da CBF continua em pé.
Está certo, Waldemiro, talvez eu esteja sendo otimista demais.
Claro, vamos torcer pelos meninos do boxe, representantes legítimos do povo brasileiro nos ringues olímpicos.
Lembranças para quem? Para o nosso representante no salto triplo?
Rapaz!!! Acredite, não teremos ninguém nesta prova no masculino. Ninguém se classificou.
Eu sei, é a prova do Adhemar Ferreira da Silva, do Nélson Prudêncio, do João do Pulo…
Paciência, Waldemiro. Paciência.
Outras medalhas virão!
Opa…Tá caindo a rede, Waldemiro Pinto. Mas acho que deu para você entender o que está acontecendo com o esporte nacional.
Tá picotando… Um abraço! E se eu achar sua medalha de ouro, ganha em Chicago, levo sim para o Cemitério de Pinheiral. Você só precisa avisar seu endereço certinho.
ROBERTO SALIM, JORNALISTA, IDEALIZADOR DO PROGRAMA ‘HISTÓRIAS DO ESPORTE’, DA ESPN BRASIL, COBRIU SEIS JOGOS OLÍMPICOS, SETE COPAS DO MUNDO E DOIS PAN-AMERICANOS



Um time que assusta e não se assusta
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Juca Kfouri

POR RODRIGO VESSONI, no diário “Lance!” de hoje.

O Corinthians venceu a Chapecoense, chegou aos 28 pontos e igualou o Palmeiras na liderança do Brasileirão 2016. Mas essa coluna não dependeria do resultado em Santa Catarina nem mudaria a minha impressão sobre esse número de pontos surpreendente. Essa coluna também não vai prever o futuro campeão nacional. Longe disso. Ela apenas tentará explicar por meio de uma tese pontuação e posição surpreendes até essa 14 rodada após perder sete titulares, treinador e gerente de futebol.


Isto colocado, o Corinthians hoje em dia tem algo importante, algo que é subjetivo e intangível, mas que faz parte do futebol: um ambiente vencedor. Vencer já não é mais um peso. Era mais ou menos o que tinha o São Paulo quando foi Tri (2006/07/08) sem fazer grande esforço. Independentemente de como a equipe estava, o adversário já temia e aceitava a derrota antes do jogo.

Veja os números do Timão em casa:
O Corinthians tem 21 jogos na Arena em 2016, com 18 vitórias e 3 empates. Uma invencibilidade que não evitou cair no mata-mata, mas que dá ao time incríveis 91% dos pontos no ano;

O Corinthians não é derrotado na Arena há 30 jogos (última vez foi para o Santos, pela Copa do Brasil-15).

O Corinthians não perde na Arena pelo Brasileirão há 24 jogos (última vez foi para o Palmeiras, no BR-15).

O adversário vai para a Arena hoje achando que enfrentará o Barcelona no Camp Nou. Não deveria ir assim, o time não é nenhuma maravilha, mas a imagem que se tem para o adversário é essa: venha a Itaquera e perderá. Ponto.

Não sei bem o que é, mas é algo que cria um clima de que ser vitorioso não é novidade . No ambiente do Corinthians estar na parte de cima da tabela é natural. O time que perde acha normal.

O São Paulo foi assim há um tempo. O Inter virou líder do BR-16 e se assustou. O Corinthians não empolgou ninguém em termos de jogo bonito e encostou no líder e badalado Palmeiras. Detalhe: a diferença de pontos até a 13 rodada era apenas o jogo do Allianz Parque, como visitante, por um normal 1 a 0 – se tivesse sido na Arena, talvez estaria três pontos à frente do rival.

Parece um papo de louco, mas acho que explica um pouco essa quase liderança meio sem explicação natural. Não é DNA vencedor no sentido de que se nasce com isso, é algo que você conquista com tantos anos brigando lá em cima e levantando troféus em sequência (foram 9 nos últimos 8 anos).

Vai ser campeão por isso? Não. Provavelmente não, deve cair um pouco no futuro. Mas explica esse início incrível da equipe após tamanho desmanche. Hoje tem 28 pontos. Sabe quantos pontos tinha nesta mesma rodada do ano passado quando bateu todos os recordes de pontos da era dos pontos corridos? 29.

Sim, apenas um a menos que o timaço de 2015. Incrível.


Horrível, Paes
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Juca Kfouri

POR ARNALDO BLOCH, em “O Globo” de hoje.

Ele é da gema. Ele é esperto. Ele samba. Usa sapatos coloridos. Um pândego. Uma versão cool do Cesar Maia

Semanas atrás foi publicado no Facebook um áudio em que a suposta voz do prefeito do Rio, Eduardo Paes, fazia um desabafo, sob o título: “Prefeito zomba da queda da ciclovia’’. Mais tarde, desiludido, descobri que era uma imitação atribuída ao humorista Marcelo Adnet. Transcrevo parte do áudio (que viralizou, e é fácil de achar na internet, é de morrer de rir), mantendo alguns palavrões e abreviando outros:

“Qualquer coisa em que eu me envolvo vira merda. É o Rei Merdas (trocadilho com Rei Midas). É ‘f’!, porque eu tenho craquejo, tenho carcaça, tenho história política, posicionamento. Mas porra!, com essa pressão fica ‘f’. (A voz se torna risonha, de quem se gaba) É ‘f’! Prefeito da melhor cidade do mundo! Todo mundo tem inveja de mim pra ‘c’., até a Dilma. Chego em convenções e olho pra cara dos prefeitos, todo mundo com inveja. Pode cair ciclovia, pode acontecer o que for, porque tá tudo na Olimpíada. Agora, tá pica, tá pica pra ‘c’’’.

Confesso que, quando ouvi, de fato acreditei piamente que fosse o nosso prefeito. Não só pelo timbre, pela fala acelerada, eufórica, esperta e fragmentada que é típica de Paes, mas porque ali estava um pensamento, um discurso, que poderia perfeitamente frutificar num desses arroubos do síndico aos quais o cidadão vai se acostumando, resignado, e até com certa boa vontade.

O desabafo não foi uma farsa. Quisera tivesse sido… Mas foi de voz própria, em inglês e diante dos microfones e das câmeras da CNN, que Paes, todo pimpão, disse que a segurança do Rio é “horrível, terrível”, sem se dar conta de que, por mais problemas endêmicos, gerenciais e financeiros que tenha nossa polícia, “horrível, terrível” é ele. Horrível é, diante da opinião pública internacional, reduzir a complexidade do problema da segurança na cidade a dois adjetivos extremados, como se o Rio estivesse em convulsão, como se a insegurança aqui fosse novidade, como se não houvesse uma polícia. Se Paes fosse um homem público de certa grandeza, se estivesse mais preocupado com a cidade do que em urinar na cabeça do governador em exercício, teria respondido ao entrevistador da CNN que a segurança do Rio é regida por uma cultura antiga, que frequentemente é truculenta com os próprios cidadãos, principalmente com os que estão em situação de penúria e com os negros, que as UPPs estão em processo de decadência, mas que não é uma polícia inoperante, e que, mal ou bem, aos trancos e barrancos, patrulha a cidade. Que está com os salários atrasados, mas que, graças a um aporte federal, a situação está sendo regularizada. E que, com o apoio das Forças Armadas, tudo correrá na mais perfeita ordem.

Em vez disso, Eduardo Paes, muito cioso de desfilar seu inglês como se isso indicasse alguma qualidade intrínseca, preferiu reduzir a situação a “horrível” e “terrível” e fazer algumas ressalvas, sabendo que 99% das manchetes dos jornais, sites e das TVs do mundo inteiro não iriam escolher as ressalvas, mas os bojudos e garrafais adjetivos. Depois, descontraído (ou seria “descontrariado”?), Paes deu entrevistas locais às risadas, voltou a ser o Zé Carioca de sempre, minimizando


A noite em que o Morumbi virou um inferno
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Juca Kfouri

Meu nome é André Costa e sou sãopaulino, sócio-torcedor.
Há mais de 25 anos frequento o Estádio do Morumbi, pelo menos vou a uns cinco jogos por ano, e fui em quase todos os jogos de Libertadores do São Paulo quando em seu estádio, desde 1993.

 
Anteontem, pela primeira vez, tive o desprazer de ir ao estádio pela desorganização para a entrada.

 
Minha esposa e eu chegamos ao estádio às 20h45, próximo ao portão da sede do clube e subimos para o portão 5. A quantidade de ambulantes e barracas nas ruas, somadas aos gradis que a Polícia Militar montou, às barracas de lanches e aos motoristas que bizarramente tentavam atravessar a multidão, fez com que não houvesse espaço para milhares de pessoas pudessem circular.

 
Havia uma onda de pessoas vindo em sentido ao portão 6 e outra indo em sentido ao portão 5 e, simplesmente, não havia como andar.

 
As pessoas estavam esmagadas e forçando a passagem. Nesse momento temi pelo pior, pois estávamos encurralados naquela massa de gente. Temi por minha esposa, por mim e pela enorme quantidade de pais com crianças, que mal conseguiam respirar pois tinham seus rostos colados no tronco das outras pessoas. Uma cena lamentável.

Após 20 minutos conseguimos chegar ao portão 5, mas não pudemos entrar, porque havia grades que nos impediam e teríamos que avançar mais uns 20 metros na rua para poder entrar no corredor montado pela PM.

Era um corredor no qual entravam 3 pessoas lado a lado.

Nesse momento aumentou o empurra-empurra e me separei de onde estava minha esposa, devido à força que as pessoas faziam para poder entrar naquele funil.

É incompreensível que uma instituição como o São Paulo FC, que cria campanhas para atração de seus torcedores para seu programa de fidelidade, para que voltem ao Morumbi, não consegue minimamente organizar um jogo de futebol com um público um pouco maior.
É incompreensível que não consiga proporcionar uma experiência positiva àqueles que foram a um jogo tão desejado e aguardado.

Independentemente do jogo e de seu resultado, a alegria de estar ali e curtir o “espetáculo” se perdeu. A vontade de voltar e o ânimo para levar meus filhos a um jogo do clube para o qual torço desde criança não existe mais.

Uma pena.

Assim como ver o Morumbi com aqueles toldos rasgados das coberturas das cadeiras inferiores, os placares com inúmeras luzes queimadas, onde mal se entende o que está escrito, e nem pensar em acessar a rede de internet.

Com medo de ocorrer o mesmo na saída, acabamos por sair mais cedo, após o primeiro gol do adversário.
A imagem na saída do portão 5 era desoladora. A PM brigando com os ambulantes, uma quantidade enorme de vans e microonibus estreitando novamente o tráfego de pessoas e uma volume absurdo de garrafas de cerveja no chão. Isso sem falar no lixo.

Deu no que deu.

Uma experiência inesquecível, infelizmente pelo lado negativo.

De um Sãopaulino, outrora apaixonado. Se o São Paulo FC não se importa conosco em sua casa, por que nos importarmos com ele ?

Em tempo: paguei, e caro, por tudo isso.


Três homens de sorte
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Juca Kfouri

POR BERNARDO MELLO FRANCO, hoje na “Folha de S.Paulo”

O deputado Fernando Giacobo, do PR, é um homem de sorte. Em 1997, ele ganhou 12 vezes na loteria num intervalo de apenas 15 dias. A feliz coincidência lhe rendeu R$ 443 mil, em valores atualizados. A Polícia Federal abriu inquérito para investigar o caso, mas o parlamentar não se abalou. Ele atribuiu a sequência de prêmios à graça divina. “Existe Deus, ele deu uma olhadinha lá e uma benzida”, disse.

Dezenove anos depois, o acaso voltou a sorrir para o deputado. Segundo vice-presidente da Câmara, ele cuidava de tarefas burocráticas como o ressarcimento de despesas médicas dos colegas. Em maio, Eduardo Cunha foi afastado e o vice Waldir Maranhão se inviabilizou. A cadeira da presidência sobrou para o afortunado Giacobo, que passou a comandar as sessões no plenário.

O deputado André Moura, do PSC, é outro homem de sorte. Réu em três ações penais, sob a acusação de desviar verbas públicas, ele continua a desfrutar das mordomias do mandato. Sua ficha ainda inclui três inquéritos, um deles por tentativa de homicídio. Para completar, ele foi condenado por improbidade após usar verba pública num churrasco.

Numa democracia madura, um político com esse currículo não ocuparia nenhum cargo relevante enquanto não fosse inocentado de todas as acusações. No Brasil de 2016, Moura conseguiu ser promovido a líder do governo na Câmara.

Nesta quarta (6), Giacobo abriu a ordem do dia com a leitura de mensagens presidenciais. Encaminhados por Moura, os textos retiraram a urgência na tramitação de um pacote de projetos contra a corrupção. Com isso, o Planalto adiou a votação de medidas como a criminalização do caixa dois e a tipificação do crime de enriquecimento ilícito.

Se a manobra ocorresse em outro governo, o país seria varrido por uma onda de protestos e panelaços. Mas as mensagens foram assinadas por Michel Temer, que também é um homem de sorte.


Cartolas não choram, cartolas agem
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Juca Kfouri

POR LUIZ FERNANDO GOMES, no diário “Lance!”

Faturar o tricampeonato olímpico, repetindo 2004 e 2008, ainda mais com os Jogos no Brasil, e ainda mais com Neymar em campo buscando a conquista inédita de um ouro brasileiro, seria certamente um momento de glória do futebol argentino. Seria…

Mas do lado de baixo do rio da Prata há algo mais no ar do que os impulsos nacionalistas e ufanistas de sempre. A atitude dos dirigentes de Independiente, River Plate e Rosário Central, recusando-se a ceder jogadores para a seleção olímpica é um marco. Ao invés de ficar choramingando pelos cantos ou bufando ameaças vazias diante dos microfones, como os Bandeiras, Modestos e Andrades fazem por aqui – os hermanos foram à luta. E, ao menos por enquanto, tomara que isso perdure, parecem dispostos a arcar com as consequências de seus atos, dando um claro recado à cambaleante AFA e a seus interventores.

Ainda que isso possa custar um ouro olímpico.

Como se sabe, apesar de apoiado pela federação, o técnico Tata Martino entregou o boné. Segundo análise do diário Olé, cansou-se do caos que se instalou na administração da AFA, decepcionou-se com a aposentadoria de Messi da seleção e, a gota d`água, viu-se refém de 12 jogadores – há quem diga que são apenas seis – que até aqui aceitaram a convocação para a Rio-2016. “Inacreditável, tudo um desastre” reagiu o treinador. Depende do ponto de vista…

Desastre, lá como cá, mesmo que por cá seja ainda pior, é a forma como as federações tratam os clubes, sempre em segundo plano, sempre sacrificados em nome de outros interesses nem sempre legítimos. Desastre é a forma submissa, condescendente e cúmplice com que os clubes sempre reagiram, lá como cá, às imposições e aos desmandos, legitimando os autores nas urnas ou nos conselhos de decisão das federações.

Já a reação do triuvirato porteño – o Boca ficou de fora, talvez por ter se tornado o clube do status quo com a chegada de Macri, seu ex-presidente, à Casa Rosada – está muito longe de ser um desastre. Com o esfacelamento da AFA, vislumbra-se a oportunidade real de, terminado o período de intervenção imposta pela Fifa, reconstruir-se o futebol argentino em novos parâmetros, com a formação de uma liga nacional e poder efetivo dos clubes nas decisões. O que se vê agora, com a pequena rebelião olímpica, é uma marola de esperança. Se isso vai virar uma onda, os próximos dias, os próximos meses dirão.


O dever do Estado contemporâneo no salvamento do futebol
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Juca Kfouri

Por Rodrigo R. Monteio de Castro e Glauco Martins Guerra*

Em entrevista publicada na Folha do dia 2 de julho, Leonardo, ex-jogador da seleção brasileira, do São Paulo, do Flamengo e do Milan, dentre outros times, afirma que a salvação do futebol depende dos clubes. O peso de sua afirmação não se mede apenas por sua experiência nos gramados, mas, também – e especialmente – pelo seu conhecimento acumulado fora dele: além de técnico, Leonardo teve passagem na função de executivo de times importantes como o PSG.

A afirmação é sem dúvida correta. Mas deve ser lida juntamente com outra sua proposição, contida na mesma matéria, que sustenta e justifica a primeira: a necessidade de mudança da estrutura jurídica dos clubes brasileiros.

Dessas proposições extrai-se, portanto, o seguinte: enquanto os clubes brasileiros não tiverem força, continuarão a ser subjugados e se manterão no atual processo de apequenamento; e, enquanto forem associações civis, sem fins lucrativos, os clubes manterão uma visão e uma conduta política, pautada e comandada por seus dirigentes-políticos, que, segundo palavras de Leonardo, “nos impede de ser atuais”.

A saída para esse ciclo vicioso, que entrou numa espiral perdedora, em todos os planos – clubístico ou do selecionado nacional -, passa pela coragem na implementação de um novo modelo, que deve priorizar os aspectos esportivos e econômicos, em detrimento da politização amadora.

Isso somente se resolve, no atual estágio do futebol brasileiro, por meio da criação de uma via jurídica que ofereça o ferramental necessário para a criação e o desenvolvimento de um ambiente que atraia agentes que, historicamente, se trataram como incompatíveis.

A incompatibilidade é falsa, porém. Foi– e ainda é – dogmatizada justamente por esse discurso político, avesso à ruptura com o modelo arcaico que vige no país. E que pretende incentivar e reforçar o sentimento de incompatibilidade.

Não existe, é bom repetir, incompatibilidade entre a tradição dos times e do jogo de bola, de um lado, e o capital, de outro. O que existe, isto sim, é um chassi regulatório inadequado – ou a falta dele.

Um chassi regulatório que reconheça os aspectos fundamentais a serem tutelados, em nome da preservação histórica e cultural do futebol. E que, justamente por conta dessa motivação, ofereça os instrumentos necessários para financiamento desse propósito.

Aí está, de modo simplista, a demonstração de que, ao contrário do que as poucas pessoas que se apoderaram da cultura de um povo pretendem reverberar, futebol e capital podem se atrair.

E podem conviver, fortalecendo-se um com o outro. Desde que um não explore ou subjugue o outro.

Esse foi o caminho percorrido por grande parte dos grandes times do planeta. E somente a partir do momento em que decidiram percorrê-lo, eles puderam defender e impor seus interesses, antes manipulados por entidades centralizadoras e monopolistas.

Entidades que não tinham interesse no fortalecimento dos times. Pois a força os libertaria. Como de fato os libertou.

A mesma liberdade que poderão ter os clubes brasileiros.

E como fazê-lo?

Aí está o problema. E a solução não é simples.

Endividados, desacreditados, sujeitos a sistemas políticos internos incompatíveis com a atividade econômica que administram – e na qual se inserem -, os clubes não têm, atualmente, meios de reverter o jogo, sem o apoio de um agente superior.

A ilusão não pode turvar a realidade. Os clubes se submetem, necessariamente, a um poder organizador que não se interessa pela reversão desse quadro. A força dos clubes implica enfraquecimento da CBF; inversamente, a crise clubística fortalece a CBF.

Aí surgem algumas questões fundamentais.

O futebol é um bem público? Ou será um “patrimônio nacional”?

A CBF seria seu “agente regulador”, do ponto vista da organização do Estado? Aqui não há dúvida: não.

E como conjugar essas questões, algumas, inclusive, ainda não respondidas.

O futebol possui um papel institucional que transcende, por sua história de conquistas e pelo enorme apelo popular, os limites do campo e da paixão, atingindo dimensões econômico-sociais que justificam uma regulação apropriada.

A CBF é uma entidade tipicamente privada. Superavitária, estruturada para atingir os seus próprios interesses, detentora de algumas dezenas de marcas, já registradas ou em processo de registro (a exemplo de Taça de Ouro – registrada; Seleção Brasileira de Futebol – registrada; Copa do Brasil – registrada; Somos Todos Futebol – no aguardo de exame para registro; We are all Footbal – no aguardo de exame para registro).

Todas as suas ações, condutas e atuações envolvem os nomes Brasil e Brasileiro. As cores que adota são as da Bandeira. O hino, o Nacional. Ela atua em nome do país em competições internacionais. E, novamente, organiza o futebol, um bem econômico em sentido estrito, no plano interno.

Esse quadro mostra a importância e alcance que um ente jurídico do porte da CBF representa no cenário esportivo de uma das 10 principais economias atuais e a maior ganhadora de campeonatos mundiais da história do futebol.

Como então compreender – ou melhor, aceitar – que essa entidade assuma características de uma verdadeira “Corporação de Ofício”, no melhor estilo medieval do termo, auto regulamentando um mercado que, por suas características e dimensões, teria tudo para ser lucrativo, autônomo e independente, empresarialmente estruturado, inclusive em regras de governança e compliance, e eficiente, tanto social como economicamente?

A única forma de reverter esse cenário é por meio da atuação de um poder maior, superior e legitimado a fazê-lo. O único poder que realmente tem a atribuição de, por meio de políticas públicas, zelar pela preservação da cultura de um povo: o Estado.

E a função do Estado, no caso do futebol, não consiste em financiá-lo ou praticar ações intervencionistas em seu funcionamento. Definitivamente não.

Cabe ao Estado criar os meios necessários à implantação de um ambiente que induza os clubes a deixarem de agir como clubes, e sim por meio de sociedades empresárias – as sociedades anônimas do futebol.

Para que, nesse ambiente, as sociedades anônimas do futebol possam – caso queiram, é sempre bom destacar – captar recursos, investir em suas atividades, sobretudo na formação, educação, treinamento e manutenção de atletas, e gerar receitas. Dessas receitas, reinvestir parte em suas atividades. E outra parte reverter aos seus acionistas, clubes e investidores de mercado, que houverem acreditado na proposta modernizante.

Esse toque de letra permitirá que o Estado deixe de financiar o amadorismo e a ineficiência e passe a legitimamente tributar a renda auferida pelas novas empresas econômicas, aumentando, assim, sua receita.

Esse ciclo virtuoso parte – o craque Leonardo tem absoluta razão – do fortalecimento dos times. E, continuando na linha do seu raciocínio – com o qual, aliás, esta Coluna concorda e vem, desde a sua criação, enfatizando – somente se implementa mediante a imposição de um novo marco regulatório.

Marco este que crie um mercado do futebol.

Marco que não será proposto pela CBF, mas sim protagonizado pelos clubes que ousarem enfrentar o poder central – um poder privado –, algo que, diante da periclitante situação financeira da grande maioria, é improvável ocorrer nas atuais circunstâncias.

De maneira que o Estado deve agir. O verbo é este mesmo: trata-se de um dever. E rápido. É caso de urgência e necessidade.

A ação não pode repetir os erros do passado. Não se trata de simplesmente prever que clubes se transformem ou constituam sociedades anônimas do futebol. Isso já foi tentado, mutatis mutandis, com a Lei Zico e com a Lei Pelé, ambas rapidamente subjugadas pelo status quo auto regulatório da CBF, em sua incrível capacidade de controle entrópico.

Não é por aí, portanto. O Estado deve reconhecer a necessidade de inclusão da formação do mercado do futebol na agenda prioritária de políticas públicas.

O Estado deve orientar seus agentes, como a CVM, na implementação das ações necessárias para que o futebol possa servir como elemento de integração nacional, desenvolvimento social, cultural, educacional e econômico.

O Governo que se mantiver inerte em relação a tamanha prioridade perderá uma oportunidade histórica de reconstruir o ludopédio, transformando as relações de suserania e vassalagem que hoje pautam o futebol brasileiro.

*Glauco Martins Guerra e Rodrigo Castro são advogados. Artigo publicado originalmente no sítio “MIGALHAS”.



Trio de Ferro volta a ser, de fato, Trio de Ferro
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Juca Kfouri

Os seis primeiros meses de 2016 comprovam que o Trio de Ferro voltou a demonstrar força no cenário nacional em três aspectos: público, renda e crescimento de sócios-torcedores.

Corinthians, Palmeiras e São Paulo são os clubes que mais arrecadaram em jogos como mandante em 2016.


O Timão soma R$ 39mi, o Verdão , R$ 27mi, e o Soberano, R$ 18mi.

O que mais se aproxima deles é o Atlético Mineiro,  com algo em torno de R$15mi.

Na média de público, contando com uma porcentagem superior a 65% de sócios-torcedores presentes no estádio, Corinthians e Palmeiras são os primeiros com 33mil e 26 mil, respectivamente.

O São Paulo aparece em quarto lugar, com 19.250, e passará o Galo, com 19.320, nesta noite.

Finalmente, no crescimento de novos associados, o estado de São Paulo encerrou o primeiro semestre  de 2016 na ponta – graças ao Trio de Ferro, com 24.868 novos inscritos.

Fica à frente dos estados do Paraná e Minas Gerais, ambos com 19 mil novos cadastrados cada um,  números do “Movimento Por um Futebol Melhor”.


Cai o número de brasileiros que joga futebol como atividade de lazer
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Juca Kfouri

POR HÉRIKA DIAS/Agência USP de Notícias

A paixão dos brasileiros pelo futebol pode ser grande, mas o número de pessoas que faz do esporte uma atividade física de lazer caiu. De 2006 a 2012, o percentual foi de 9,1% para 7,2%, uma redução de 20% em sete anos. O futebol foi ultrapassado pela musculação/ginástica (aumento de 7,9% para 11,2%) e se tornou a terceira atividade física mais praticada nas horas de folga dos brasileiros. Em primeiro está a caminhada (em torno de 18% entre 2006 e 2012).

As informações constam de um estudo do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, baseado nos dados do Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas), um inquérito produzido anualmente pelo Ministério da Saúde por meio de entrevistas por telefone com cerca de 54 mil pessoas, a partir dos 18 anos, nas capitais brasileiras e no Distrito Federal.

Os doutorandos Thiago Hérick de Sá e Leandro Martin Totaro Garcia e o pós-doutorando Rafael Moreira Claro analisaram as dados do Vigitel entre 2006 e 2012 para descrever a frequência e os principais tipos de atividade física praticados pelos adultos brasileiros no período de lazer .

De acordo com os pesquisadores, o estudo é descritivo e, portanto, não foram investigadas as possíveis causas da variação dos praticantes de futebol. “Não podemos ser taxativos de que está havendo uma substituição. O fato de o futebol estar caindo e da musculação/ginástica estarem subindo em termos populacionais, não quer dizer que as pessoas estão trocando uma coisa pela outra, pode ser que as pessoas que deixam de jogar futebol não sejam as mesmas que passaram a frequentar mais a academia”, ressalta Thiago Hérick de Sá.

Entretanto, eles formularam algumas hipóteses para explicar a queda na prática de futebol. “No Brasil, jogar futebol sempre foi muito dependente de campos públicos e muitos deles estão em terrenos baldios. Mas esses espaços têm diminuído muito por causa do mercado imobiliário, para a construção de novos prédios, novos empreendimentos, o que se dá tanto em regiões mais centrais como na periferia das cidades”, afirma o pesquisador.

Ele sugere que a diminuição dos praticantes de futebol também esteja ligada à dificuldade em se encontrar tempo e pessoas. “É preciso tempo para se fazer uma prática dessa ou mesmo para se organizar uma partida, porque jogar futebol envolve no mínimo 10 pessoas. A organização dessa atividade toma tempo e hoje vivemos em um contexto social que torna isso um pouco mais difícil.”

Academias
O crescimento dos praticantes de ginástica/musculação – passou de 7,9% em 2006 para 11,2% em 2012 – pode estar relacionado ao aumento da oferta de espaços para a prática, segundo Thiago. “O número de academias tem crescido, mesmo as academias de bairro. Há também iniciativas públicas, governamentais para oferecer esse tipo de espaço. Programas de ginástica dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), também aumentam a oferta desse tipo de atividade.”

Ele também acredita que o crescimento do poder de compra do brasileiro contribuiu para mudança. “A população brasileira teve um aumento no ganho real da sua remuneração nos últimos 10 anos, isso facilita as pessoas pagarem uma academia, por exemplo”.

Atividade física
O estudo mostra que metade dos brasileiros não faz atividades físicas no seu tempo de lazer. A outra metade que pratica alguma atividade física é composta na maioria por homens – 60%, contra 40% de mulheres. Os principais tipos de práticas em 2012 foram caminhada (18,1%), musculação/ginástica (11,2%), futebol (7,2%), corrida (3,1%), bicicleta (2%), hidroginástica (0,9%), natação (0,9%), outros (3,65).

Os pesquisadores chamam a atenção para a falta de diversidade nas atividades físicas de lazer praticadas no Brasil, 78% está baseada na caminhada, ginástica/musculação e futebol. “Isso é o reflexo da falta de uma política nacional de promoção da atividade física e do esporte. É normal que a cultura de alguns países dê mais atenção para determinados tipos de práticas, mas mesmo assim essa proporção no Brasil pareceu exagerada, precisaríamos diversificar, oferecer espaços para outras práticas, como handebol, luta, dança, yoga, etc”, alerta o pesquisador.

O trabalho dos pesquisadores do Nupens foi publicado em julho de 2014  no International Journal of Public Health.


Mortes pela polícia explodem a caminho da Olimpíada no Rio de Janeiro
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Juca Kfouri

Os alarmantes números de homicídios cometidos por policiais no mês de maio de 2016 divulgados pelo Instituto de Segurança Pública hoje confirmam os repetidos alertas feitos pela Anistia Internacional de que a violência da polícia e outras violações de direitos humanos estão aumentando no contexto dos Jogos Olímpicos.

Segundo o ISP, apenas na cidade do Rio de Janeiro houve 40 homicídios decorrentes de intervenção policial no último mês de maio, um aumento de 135% em comparação aos 17 mortos no mesmo período do ano passado.

No estado, o número passou de 44 a 84, consolidando um aumento de 90%.

“Às vésperas de mais um megaevento esportivo no Rio de Janeiro, as autoridades continuam falhando de forma inaceitável em controlar o uso da força letal pelos agentes da lei e garantir a segurança de todos os moradores da cidade, especialmente de quem vive em favelas”, denuncia Atila Roque, Diretor Executivo da Anistia Internacional.

Para a organização, trata-se de uma tragédia que já vem se consumando desde 2014, quando as mortes praticadas pela polícia aumentaram 40% no Rio de Janeiro no ano da Copa do Mundo. “Os Jogos Olímpicos não podem ser realizados à custa de mortes e violações de direitos humanos. Os organizadores dos jogos e a Secretaria de Segurança devem agir imediatamente para interromper esse ciclo de violência de Estado e garantir o direito à vida”, exige Roque.

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Muitas perguntas, poucas respostas
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Juca Kfouri

Levantamento inédito da Artigo 19 revela que falta de transparência é regra no plano de segurança da Olimpíada; órgão mais problemático, Secretaria de Segurança do Rio acaba de receber mais R$ 2,9 bilhões do governo federal

por Natalia Viana, da Agência Pública | 30 de junho de 2016 | Leia no site

Foto: Alex Ferro/Rio 2016
Na tarde desta quarta-feira, 29 de junho, o presidente interino Michel Temer assinou um decreto liberando crédito a fundo perdido de R$ 2,9 bilhões para o governo do Rio de Janeiro reforçar a segurança na Olimpíada.

Mas o esquema de segurança dos Jogos deixa muito a desejar em relação à transparência sobre gastos, protocolos de atuação e planejamento, em todas as diferentes forças e esferas governamentais envolvidas. E a Secretaria de Estado do Rio é a mais problemática.

É o que revelam as respostas a 16 pedidos de acesso a informação feitos pelas organizações Artigo 19 e Justiça Global e analisados pela Pública. As demandas foram feitas em fevereiro e março deste ano a diferentes instâncias: Polícia Federal, Ministério da Defesa, Ministério da Justiça, Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Anatel e Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro (Seseg). Apenas nove pedidos foram respondidos satisfatoriamente – um deles, somente após recurso em terceira instância às Controladoria-Geral da União (CGU), que levou quase dois meses para ser concluído.

“Estamos trabalhando há alguns meses em torno desses pedidos, e o que vemos é que de fato segurança pública ainda é um dos temas mais problemáticos e obscuros quando se trata de transparência do poder público”, explica a advogada Camila Marques, coordenadora do Centro de Referência Legal da Artigo 19, organização que defende o direito à informação. “Não podemos afastar do controle social a elaboração e previsão de políticas públicas tão somente pelo fato de se tratar de segurança pública. A divulgação dessas informações, em muitos casos, não traz riscos para a segurança pública; pelo contrário, fomenta debates, pesquisas, o monitoramento da sua eficácia e outros elementos.”

O buraco negro da Seseg
A Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro foi a mais opaca entre todas as instâncias consultadas. Não cumpriu nenhum dos prazos estabelecidos pela Lei de Acesso à Informação (12.527/2011) e em alguns casos simplesmente ignorou os pedidos feitos. “A Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro apresentou diversas peculiaridades e problemas. Em todos os casos da Seseg, tivemos que utilizar o instrumento recursal para cobrar que a secretaria apenas respondesse. Teve um caso em que tivemos que recorrer apontando o descumprimento do prazo e cobrando uma resposta por três vezes”, explica Camila.

A “lista de compras” de equipamentos não letais só foi obtida depois de uma batalha que levou o pedido, feito no dia 18 de fevereiro, à terceira instância recursal. A demanda feita à Secretaria foi solenemente ignorada duas vezes e foi respondida só em 11 de abril, depois de as organizações apelarem à Controladoria-Geral da União (CGU). (Leia mais aqui)

Outro questionamento da Artigo 19 era sobre a aquisição de equipamentos eletrônicos e softwares para uso policial durante a Olimpíada. A Seseg respondeu apenas que as informações eram estratégicas e de caráter reservado, mas não explicou o porquê. A ONG recorreu em 14 de abril e ainda não recebeu resposta. “O órgão que for questionado sobre informações sigilosas deve sempre oferecer informações como: assunto, grau de classificação, autoridade que decretou o sigilo, data desse decreto e o dispositivo que fundamente de maneira clara o sigilo”, explica Camila. (confira o pedido)

A advogada chama atenção ainda para o fato de que o governo do Rio lançou apenas há alguns meses um site em que se podem protocolar pedidos pela Lei de Acesso – até então, alguns pedidos tinham de ser levados pessoalmente à sede da Seseg, no centro do Rio. Porém, o site ainda deixa a desejar: “Não é bem divulgado, não há espaço destinado para a interposição de recurso, e para recorrer é preciso entrar com um novo pedido de informação, com um limite de 2.000 caracteres, o que é insuficiente para tratar de uma questão recursal”, diz.

Secretaria não explica como gastará R$ 2,9 bilhões

A falta de transparência na segurança da Olimpíada já se estende à aplicação do montante de R$ 2,9 bilhões liberados pelo governo federal por medida provisória quatro dias depois de o governo do Rio de Janeiro decretar estado de calamidade pública pela sua falência financeira. (Na véspera do decreto, o presidente interino, Michel Temer, jantou em Brasília com o governador do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, também interino, e o prefeito carioca Eduardo Paes).

O crédito passou a valer a partir de outra medida provisória, publicada nesta quinta-feira no Diário Oficial.

O valor é mais que o dobro do gasto previsto para segurança para a Olimpíada, que era de R$ 1,3 bilhão segundo anunciou o secretário de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, Ricardo Leyser, no final do ano passado. É 50% a mais do que o total gasto pelo governo federal com a Copa do Mundo nas 12 cidades-sede (cerca de R$ 1,9 bilhão).

Procurada pela Pública no mesmo dia em que a verba foi liberada, a assessoria de imprensa se Seseg afirmou: “Em reunião hoje do secretário José Mariano Beltrame com o governador em exercício Francisco Dornelles ficou acertado que primeiramente serão atendidos os servidores policiais, com o pagamento do restante do salário de maio, pagamento do salário de junho e das gratificações em atraso do Regime Adicional de Serviço (RAS) e Sistema Integrado de Metas”.

O RAS significa um regime de hora extra pago a policiais que fazem rondas fora do horário do serviço. Os soldados recebem R$ 150,00 por oito horas trabalhadas. A estimativa do custo para ter 25 mil PMs trabalhando e ganhando por fora durante os Jogos era de R$ 42 milhões, segundo O Globo. Já a folha de pagamento mensal da SESEG com policiais da ativa custa cerca de R$ 500 milhões.

Questionada sobre quanto por cento do valor total representa esse gasto inicial com salários e o que se pretende fazer com o restante, a assessoria de imprensa disse que “a ideia é descentralizar esse recurso para os batalhões policiais pagarem suas contas, por exemplo, com contratos de manutenção de aeronaves”.

A assessoria disse à Pública que não sabe os valores exatos, e quem deve saber isso são a PM e os departamentos. Após insistência, pediu mais prazo para enviar dados mais concretos, mas não respondeu até a publicação.

Se os protocolos existissem…

Além de indagarem sobre valores e equipamentos a serem utilizados na Olimpíada, a Artigo 19 e a Justiça Global perguntaram à Polícia Federal e ao Ministério da Defesa quais os protocolos que as forças atuantes do megaevento adotariam.

As respostas foram evasivas. “Recebemos uma resposta da Polícia Federal que ilustra bem a falta de justificativas concretas para a negação de uma informação: indagamos sobre as normativas editadas que dizem respeito especificamente a medidas e ações que ocorrerão durante a Olimpíada de 2016. Em sua resposta, a Polícia Federal afirmou que essas normativas não existem, porém, caso existissem, estariam guardadas em sigilo. Entretanto, ao determinar que a informação é sigilosa, o órgão deve sempre fundamentar e apresentar a motivação do ato classificatório demonstrando o risco, ainda que potencial, que a divulgação causaria à segurança pública. Nesse caso, além de não justificar concretamente a necessidade desse sigilo, o órgão estabelece a classificação em abstrato em relação a documentos que nem sequer existem”. (confira o pedido).

Para Camila, “é essencial que a sociedade possa conhecer como o policial deve se comportar para que possa cobrar a estrita legalidade das suas ações”.

Ela diz que o levantamento permite concluir que órgãos do Executivo federal responderam com mais pontualidade às demandas de acesso à informação do que o estado do Rio.

“A realização dos Jogos Olímpicos pressupõe uma série de políticas públicas, obras e gastos que geram impactos de grandes dimensões na população. Sabemos que a execução desses chamados ‘megaeventos’ geralmente vem acompanhada por uma série de violações aos direitos humanos: remoções de comunidades inteiras, aumento da militarização, criminalização dos movimentos sociais, entre outros. A sociedade tem o direito de estar informada e participar de todos os processos que a afetem. A opacidade verificada nas respostas que recebemos aponta que o legado dos jogos à sociedade será bastante negativo e contrário à garantia dos direitos humanos.”

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Messi e a argentinidade
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Juca Kfouri

POR ANDRÉS DEL RÍO*
Mais uma final, mais uma vez fomos vice. Messi chora. Minutos depois de perder a final, decide renunciar à seleção nacional. Ok, 100% argento. Porque só um argento processa a vida como um tango.


Na Argentina a gente tritura os ídolos, os mata. Os que sobrevivem se tornam parte da bandeira argentina, parte do hino nacional. Mas nesse processo o ídolo sofre. Muito. Como um tango.

A paixão argenta pelo futebol é tanguera: o passado sempre é melhor. O futuro é aquele que lembre esse passado. Não existe futuro, existe um passado para o resto do futuro. A paixão tem um horizonte à base de nostalgia, ao “nunca mais”, ao “nada vai ser como foi”.

Maradona ganhou a Copa 86 e os gols que ele fez foram uma revanche à morte e à violência da ditadura e da guerra das Malvinas. Tudo se mistura. Maradona esteve na beira da morte, mas sobreviveu. Ele se tornou parte da bandeira. Mas durante esse processo, ele oscilou entre ser o Deus da igreja maradoniana e ficar na cama de um hospital a cada seis meses.

Messi é o melhor jogador da atualidade. Para alguns ele é o esportista mais bem-sucedido do mundo. Não é qualquer esportista que se mantém por 10 anos no topo da alta competição. Por isso é diferente. Com o Barcelona ganhou tudo, poucas vezes perdeu. Ídolo nesse time, hoje é ídolo de qualquer criança no mundo. É o ídolo não conflitivo, não midiático, que nunca fez do poder que ele tem uma vantagem. Ele joga futebol. E o que mais gosta é jogar na seleção. Mas até hoje ele não parecia ser um típico argentino.

Aos 12 anos ele foi para Barcelona. Nem acne tinha. Mas as mudanças geográficas não alteraram o sentimento pelo país, pela seleção. Mas nós matamos nossos ídolos. Como se pudéssemos comprovar até onde eles conseguem ser humanos.

Messi ganhou a Copa do mundo sub 20, uma medalha de ouro nas olimpíadas, mais de 80 prêmios individuais e quase 60 torneios e prêmios coletivos, e é o maior goleador da história da seleção. Nos últimos três anos ele chegou às três finais dos campeonatos mais importantes do mundo. Mas ficou como vice. Argentina (com ele) é protagonista de todas as competições internacionais de futebol. Mas isso não importa.

O argentino quer comprovar até onde chega Messi. Criticam porque ele não é Maradona. “Não tem a personalidade dele”, alguns falam. Faz gols em quase todas as partidas, mas na Argentina falam que só faz gol contra Bolívia. Ele está presente em todas as partidas mesmo que esteja de férias do Barcelona, mas na Argentina se reprova porque ele veio a passear. Para alguns ele não canta o hino, como se a fortaleza com que se canta fosse proporcional ao amor que sente pela camisa. Para outros, ele não fala de política, por isso não tem o DNA argentino. Ele não é passional, logo não é argento. Em que lugar do mundo se colocaria em dúvida o brilhantismo de Messi?

Como um tango, o argentino só compreende a realidade nos extremos, nas rupturas. A renúncia de Messi à seleção o tornou um argentino 100%. Foi para um extremo. Como o argentino vive a vida. Tudo ou nada. Ao renunciar ele começou a agir como um argentino. E da renúncia ao pedido da volta (implorada) é um passo. Porque assim é a Argentina. Não existem cores pastel. O médio é o extremo.

Jogar ao futebol tem 50% de chances de perder e de ganhar. A Messi não se reclama o 50% das chances de ganhar, ele não tem chance de perder. Porque é tudo ou nada. Assim é para os ídolos. E no processo sofre, para se tornar parte da bandeira.

Messi não pode renunciar à seleção. O ídolo não pode obrigar aos torcedores que esqueçam ele. Agora cada partida vai ser comparada com a “Era Messi”. E sua ausência vai ser só presença. Não tem escapatória nesta equação. E o argentino é especialista em enaltecer o passado. “Com Messi jogávamos melhor”, escuto em um futuro próximo.

Imagino que a renúncia seja temporária, pendular e passional. Não é o primeiro jogador que renuncia à seleção. Nem o último. Independente disso, Messi mostrou sua argentinidade. O jogo só está começando e, como um tango, a parte trágica é fundamental. Nos vemos na copa da Rússia 2018.

*Andrés del Río é argentino e professor de Direitos Humanos da Universidade Federal Fluminense.

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Craque
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para Tarso de Castro (in memoriam)

O José é craque. O João é craque. O Muller, o Manoel, o Rodríguez e o Satoro são craques.

O Juan é craque. O Lao é cracaço. O Marco é craque. O Steve também é craque. O Menezes, o Solano, o Gonzalez, o Brad, o Xang, o François e o Luiz são craques fantásticos.

Os jornalistas são craques. Os comentaristas são craques fabulosos. Os treinadores, então, nem se fala: são mais do que craques. Todos os torcedores são, sem exceção, supercraques.

Os políticos, os motoristas, os porteiros, os médicos, os investidores, os seguranças e os escritores são craques.

Os caminhoneiros são craques. Os donos de iate são craques. Os mendigos e os milionários são todos craques.

Os palpiteiros e apostadores são craques. Os analistas políticos e os economistas também são grandes craques.

Os jogadores de futebol de todos os times de todas as divisões do mundo são craques.

O único perna de pau do mundo é o Messi.
__________________________________________
Luiz Guilherme Piva também é craque.

Comentário para o Jornal da CBN desta terça-feira, 28 de junho de 2016, que você ouve aqui.



O adeus de Messi em dia de Silva
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Juca Kfouri

POR ROBERTO VIEIRA

Messi disse adeus.

Cansado de ser cobrado pelos hinos, pelos títulos, pela glória perdida.

Pela Argentina que não existe mais.

Messi diz adeus porque tudo tem começo, meio e fim.


Puskas disse adeus em 1956 por causa da invasão russa.

Just Fontaine disse adeus em 1960 por causa das contusões.

Uwe Seeler disse adeus em 1970 por causa dos cabelos brancos.

Todos sem títulos mundiais.

Todos sem títulos continentais.

Todos fundamentais.

Porém, sempre existe o caso do Rei Pelé.

Pelé que disse adeus em 1966.

Cansado das pancadas, das derrotas e de ser vendido como panaceia.

Pelé que nunca gostou de perder.

Ainda mais no meio da bagunça infernal de Liverpool.

Pelé que voltou questionado em sua realeza.

Pelé que devolveu a dúvida com o Tri.

Hoje?

Hoje é dia de Silva.

Silva que bateu a última penalidade.

Silva que continuaria Silva caso perdesse o pênalti.

Porque difícil é ser Messi.

Um menino perdido em suas lembranças de infância.

Defendendo um país que lhe exige ser Gardel e Evita.

Um país que vive perdido nos tangos da década de 30…


O futebol e o lucro
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Juca Kfouri

POR RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO*


Já se mencionou, nesta coluna, a existência de um Projeto de Lei, do Deputado Federal Otavio Leite (PL 5.082/16), que propõe a criação da sociedade anônima do futebol (SAF).

Um dos únicos argumentos – ou talvez o único – que foram suscitados contra a proposta consiste num possível conflito entre a natureza econômica da atividade desenvolvida pela SAF e a intransigência do torcedor, sempre motivado pelas vitórias e pelos títulos.

De acordo com essa visão, tal relação conflituosa oporia a SAF e seus acionistas, que visariam ao lucro, ao torcedor, que, diante de um cenário de contas em dia e uma administração ética e profissional, de um lado, e a contratação de grandes jogadores e títulos, de outro, não hesitaria pela segunda.

Com isso, clube e investidores também se posicionariam em possível situação conflituosa, pois aquele haveria de seguir o desejo do torcedor, mesmo à conta da saúde financeira da SAF, enquanto o investidor agiria de modo frio e calculista, visando apenas o lucro.

Esse conjunto de coisas enalteceria a paixão pelo time como elemento diferenciador das empresas econômicas do futebol, manejadas pelas futuras SAF’s, das empresas econômicas ordinárias, sujeitas apenas às inflexões de mercado. E representaria o motivo pelo qual, para alguns críticos, o futebol brasileiro deve permanecer sob a gestão de associações civis, sem fins lucrativos.

Revela-se aí o suposto problema que, muito bem amplificado, sustenta a manutenção de um modelo que, de anos para cá, tornou-se indefensável.

Daí a importância de sua desmistificação.

Parte-se, neste breve artigo, de uma série de questões a respeito do funcionamento da sociedade anônima para, na sequência, abordar-se o tratamento da SAF. Os focos da breve investigação são a sistemática do lucro e o poder dos acionistas e administradores de agirem contra o interesse social.

Vejamos, sob a forma de perguntas e respostas.

1. O acionista de uma sociedade anônima pode embolsar todo o lucro anual?

O art. 202 da Lei 6.404/76 determina que o acionista tem direito de receber como dividendo obrigatório, em cada exercício, a parcela de lucros estabelecida no estatuto. Se a previsão for de, por exemplo, 25%, é esse o montante que será distribuído. O restante será mantido em reserva da SAF.

2. E se o estatuto for omisso?

Aponta-se, em primeiro lugar, que essa omissão é de rara ocorrência, justamente porque cria uma situação de imprevisibilidade, pouco desejada por quem destina recursos para aquisição de ações. O investidor, antes de adquiri-las, verifica a situação da companhia, suas perspectivas de crescimento e retorno, e sua capacidade de gerar excedentes e distribuir dividendos. Como ele é livre para investir onde quiser, se compra é porque vê boas perspectivas ou oportunidades, mesmo que, eventualmente, não se trate expressamente do montante mínimo a distribuir anualmente.

Mas, caso uma companhia deixe de definir o dividendo obrigatório, o mesmo art. 202 estabelece critérios que devem ser observados, a fim de que não se prive o acionista de algum retorno.

Funciona, resumindo, da seguinte forma: apura-se o dividendo mínimo pelo cálculo de metade do lucro líquido do exercício, diminuído ou acrescido dos seguintes valores: (a) importância destinada à constituição da reserva legal; e (b) importância destinada à formação da reserva para contingências e reversão da mesma reserva formada em exercícios anteriores.

3. Podem os acionistas de companhia cujo estatuto seja omisso reformá-lo para introduzir norma sobre a matéria?

Sim. Mas, nestes casos, a Lei 6.404/76 impõe um piso, para evitar que o acionista controlador defina percentual desprezível. De modo que a reforma não poderá contemplar número inferior a 25%. Note-se que a lei reconhece a importância do dividendo, que é, aliás, um direito essencial do acionista, mas, por outro lado, assume que nem todo lucro deve necessariamente ser distribuído, pois pode comprometer os planos empresariais ou, no limite, abalar a liquidez da companhia.

4. O que se pretende tutelar com esse conjunto de normas?

Tutela-se o direito do acionista, não controlador, ao recebimento de dividendo. De algum dividendo. Ou seja, aquele previsto no estatuto ou, se omisso, indicado na Lei 6.404/76. Por outro lado, inibe conduta do acionista controlador que, por algum motivo, queira preservar todos os recursos em caixa. Para o bem da companhia ou, em situações patológicas, para o seu proveito.

5. Qual a destinação dos lucros que excedam o dividendo obrigatório?

A destinação será aquela deliberada pela assembleia geral dos acionistas. A deliberação será tomada por maioria. Caso não se distribua o excesso, o lucro será destinado a reservas, e os recursos correspondentes reforçarão o caixa da companhia.

6. Muito bem. E como fica a SAF diante dessas normas?

Primeiro, esse conjunto normativo complementa o PL 5.082/16, por determinação de seu art. 2º, de modo que se aplicam igualmente à SAF, impondo, assim, um útil e necessário sistema de controle de decisões.

Segundo, ao constituir a SAF, o clube definirá, em seu estatuto, o dividendo obrigatório. Caso defina, por exemplo, 15%, esse será, necessariamente, o montante a ser distribuído. Eventuais modificações deverão observar o PL 5.082/16, a Lei 6.404/76 e o estatuto da SAF, e todos os seus procedimentos, evitando decisões apressadas e populistas, ou abusivas por parte de algum agente.

Terceiro, se em algum exercício social o dividendo obrigatório se mostrar incompatível com a situação financeira da SAF, seus administradores darão notícia à assembleia geral, para deliberação a favor ou contra a proposta de pagamento.

Quarto, e voltando para uma situação de normalidade financeira, pode um acionista minoritário, com propósitos puramente especulativos e imediatistas, sem qualquer vinculação com o time, exigir o pagamento de dividendos superiores ao obrigatório, afetando a situação financeira da SAF? Ele pode, sim, sugerir, mas exigir, não. E caso o tema vá para deliberação, prevalecerá a posição da maioria. Se o clube detiver a maioria, a deliberação não se toma sem a sua vontade.

Quinto, podem surgir divergências entre clube e investidores, ambos atuando como acionistas? Claro que sim, da mesma forma que surgem em outras companhias, com objetos sociais diferentes. E como se resolvem? Como regra, pela deliberação da maioria. Se o clube detiver a maioria, irá nortear o resultado da deliberação. Se for acionista minoritário, haverá de se sujeitar à decisão majoritária (exceto em relação às matérias que, conforme o PL 5.082/16, ele dispuser de poder de veto).

Sexto, mesmo que surjam conflitos entre acionistas, os órgãos de administração da SAF – que se desdobram em conselho de administração, cuja metade dos membros menos um, pelo menos, deve ser independente, e a diretoria, que deve ser profissional – saberão lidar com a situação e arbitrar no interesse da sociedade, e não de um ou outro acionista. O modelo obrigatório de governança da SAF fortalece a posição dos administradores e sua conduta no interesse social.

Sétimo, caso o acionista controlador da SAF, seja ele o clube ou um investidor, pratique atos com abuso de poder, como o de orientar a SAF a fim estranho ao seu objeto social, ou induzir ou tentar induzir administrador a praticar ato ilegal, responderá pelos danos causados.

Oitavo, os administradores que agirem, mesmo que dentro de suas atribuições ou poderes, com culpa ou dolo, ou com violação da lei ou do estatuto, respondem civilmente pelos seus atos.

Essa estrutura traz a gestão do futebol para um plano que, além de não colidir com a tradição do futebol, o protege – ou criar instrumentos para protegê-lo – de atuações oportunistas, interessadas e amadorísticas.

7. Para concluir essas breves reflexões, como ficam os torcedores caso o clube constitua uma SAF?

Ficam exatamente como estão.

Assim como também ficaram os torcedores de Bayern, PSG, Sporting, Arsenal, Juventus, Roma, Milionários, Colo-Colo e dezenas de outros que romperam com o dogma da relação futebol/amadorismo.

Ou, espera-se, ficarão em melhor posição, pois as decisões da SAF serão pautadas não apenas pela concepção imediatista do lucro, mas, também, pela necessidade de aproximação de seu público torcedor/consumidor. E quanto mais lucro gerar, maior será a capacidade investimento e atração de novos recursos, e maior será, provavelmente, o envolvimento do torcedor. E mais intensa será sua paixão.

Aliás, o debate a respeito do modelo de futebol para o Brasil deve evoluir. Insistir no dogma de que o futebol é paixão, e a empresa razão, e, portanto, realidades inconciliáveis, não é correto. Talvez seja, até, desonesto. Como se cartolas amadores não negociassem jogadores, em momentos críticos ou às vésperas de situações importantes, em troca de lucro. Como se, alguns deles, não tomassem decisões que desestabilizam o ambiente de trabalho em defesa de interesses políticos ou pessoais. Como se fossem, todos, guardiões de uma relíquia nacional.

O lucro não é incompatível com um modelo vencedor de futebol. O reconhecimento da natureza econômica da atividade futebolística não abala os alicerces do esporte. Decisões empresariais podem desagradar, em certos momentos e certas circunstâncias, parte dos torcedores; e, em muitos outros, agradá-los. Faz parte do jogo. Importa que tenha regras claras e se sujeite a uma regulação arquitetada para permitir sua evolução.

Ignorar essas proposições e manter o discurso da preservação de uma raiz arcaica significa negar as irreversíveis tendências mundiais e afundar o país, cada vez mais, no modelo amadorístico que o está transformando em mero exportador de commodity.

*Publicado originalmente no sítio “MIGALHAS“.



Houston, temos um problema!
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Juca Kfouri

O  nome do problema foi Messi.

Lionel Messi!


Aos 3 minutos ele pôs a bola na cabeça de Lavezzi e a Argentina fez 1 a 0 na semifinal da Copa América.

A seleção dos Estados Unidos ainda não tinha visto a bola.


Continuou a não vê-la até que, aos 33, o melhor jogador do mundo bateu uma falta pela esquerda, quase da intermediária, na forquilha direita da meta ianque: 2 a 0.

Foi com o pé, foi com a mão?

Não, foi com a cabeça genial de Messi.

O 55º gol dele com a camisa da seleção, maior goleador da história dos bicampeões mundiais.


O estádio de Houston, no Texas, com 71 mil torcedores, dançava ao som do tango moderno, o de Astor Piazzolla, embora, você sabe, Carlos Gardel cante cada vez melhor.

Tango que continuou alto e bom som logo aos 3 minutos do segundo tempo, com gol de Higuaín.

E que acabou com passe de Messi para Higuaín fazer 4 a 0.

No domingo, mais uma decisão para os hermanos, que foram vices-campeões na última Copa América, ao perdê-la, nos pênaltis, para o Chile, e na última Copa do Mundo, derrotada, na prorrogação, pela Alemanha: enfrentarão o Chile ou a Colômbia que decidem, hoje à noite, o outro finalista.

A Argentina ganhou os cinco jogos que disputou.

Chile ou Colômbia, o problema deixa de ser de Houston que pedirá a NASA a fórmula para parar “La Pulga” Lionel Messi.

Comentário para o Jornal da CBN desta quarta-feira, 22 de junho de 2016, que você ouve aqui.


Pedra cantada
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Juca Kfouri

Assim que o Brasil ganhou dos Estados Unidos o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2016, com o Rio de Janeiro de Sérgio Cabral Filho superando a Chicago de Barack Obama, aqui foi dito que as duas extraordinárias vitórias do então presidente Lula corriam o risco de se transformar em tiros pela culatra.

A megalomania prevalecera na busca de um lugar para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU e sediar os dois maiores megaeventos do planeta seria o gol a ser atingido com a “Copa das Copas” e a melhor Olimpíada de todos os tempos.

Não havia como deixar de ser cético, com ambos os projetos liderados por Ricardo Teixeira e Carlos Nuzman. Não deu outra.

Pagamos o preço de ter feito uma Copa do Mundo recheada de promessas descumpridas e uma manada de elefantes brancos, embora, sem dúvida, o mundo tenha aprovado a Copa.

Que um dia a organização da Olimpíada enfiaria a faca nas costas da viúva era mais que certo.

O dia chegou, a menos de dois meses da Rio-16, igual ao que aconteceu no Pan-2007. Era óbvio e não precisava ser adivinho para prever.

Afinal, Nuzman e Cabral eram elementos comuns ao Pan e aos Jogos, acrescidos de seguidores do governador como o “experto” Eduardo Paes.

A tática é velha: ou jorra dinheiro público para terminar o que foi mal começado ou o país passará por um vexame internacional. O sonho do assento na ONU vira vaga na terceira divisão mundial.

Que venham as obras emergenciais, as licitações postas a escanteio, o batido dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-em que o dó é a dó de nós mesmos, quase de Odebrechet, e o si é da Cyrela.

Enfim, é como já foi dito: a Olimpíada é uma ótima oportunidade para um país fazer propaganda de si mesmo. Com o risco de fazer um mau anúncio. O que veremos?

Para Barcelona-1992 foi muito bom.

Para Atenas-2004, muito ruim.

(Publicado originalmente na “Folha de S.Paulo” em 20/6/2016)