Blog do Juca Kfouri

Arquivo : fevereiro 2017

Estatuto
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Não tinha outra data. Quando combinamos não sabíamos que cairia no Carnaval. Não tem jeito: se cancelar paga multa pesada. É mesmo, é muito ruim. Mas acontece.

Foi o que disseram em casa. Tinha torneio no outro estado, 600 quilômetros, na roça, nem celular pega lá, ônibus já alugado e tudo. Hospedagem reservada, tinham que ir.

Mas era farra, óbvio. E pesada. Numa fazenda mais ou menos perto. Bebidas, mulheres, churrasco, batuque, e até um campinho de pelada pra se distraírem – mas que bola que nada!

Sexta à noite, sábado o dia todo, domingo direto, segunda no embalo, mas na terça estavam acabados. Não aguentavam mais.

Para desopilar os excessos, alguns foram para o campinho, começaram a tocar a bola, os outros vieram, formaram os times de dentro e de fora e engataram as peladas.

A outra turma da festa estranhou. As mulheres também. Carne sobrando, bebida congelando, o pessoal do samba com os instrumentos encostados. O clima ficou estranho. Foram lá tirar satisfação. História é essa de futebol? Ano inteiro é isso, agora é Carnaval!

Eles nem aí. Já era quase meio-dia. Os rachas estavam esquentando. Cada um jogando mais do que se fosse campeonato. Só paravam pra água e pro xixi.

O organizador – alugou a fazenda, comprou tudo, arranjou as companhias e os sambistas, preparou o churrasco – se alterou. Entrou em campo, pegou a bola e enfiou-lhe a faca. O chiado dela se esvaziando diante dos olhos e suores e respirações e bocas abertas dos jogadores era como o de uma cobra invisível no meio do mato: de espanto e medo, ninguém se mexia.

Com a faca na mão e o couro murcho debaixo do braço, proclamou: “futebol é futebol, sacanagem é sacanagem! Aqui ninguém vai avacalhar!”.

Concordaram. Ele tinha razão.

E assim foi que esticaram a folia também na terça gorda.

Em respeito ao regulamento.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)


Sem volta
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para o Pasquale

Tudo foi um grande equívoco. Aquela cidade, aquele time, a posição e, mais do que tudo, a profissão: com que diabos ele veio a ser jogador de futebol? Lateral-esquerdo? E naquele fim de mundo, num time que perde muito mais do que vence?

Sempre tenta refazer o percurso que o levou a tudo isso. Jogava mais por diversão (de centroavante!), queria mesmo era continuar na escola, ter um ofício – eletricista, ou relojoeiro, ou contador –, montar um negócio, seguir a vida.

Mas algo ocorreu em algum momento. Ele não sabe quando nem o quê. Foi rápido. Seria só por um tempo. Porém, foi tudo ganhando volume, velocidade, duração, inconsciência e, num estalo, ali está ele, no uniforme roto, no campo esfarelado, correndo atrás da bola sem saber por quê.

Não era nada disso.

Seria outra sua história.

A casinha branca, a mesa com toalha de xadrezinho, a jarra de água em forma de abacaxi, a cortina no vitrô, o porta-retratos no aparador de fórmica, o suor na aliança, o banho, o pão partido com as mãos e picado na sopa, o guaraná e o brinde de “saúde!” com a mulher e os filhos de cabelo penteado.

Jornal, novela, um cigarro na varanda e a cama.

Aí sim, poderia sonhar que era lateral-esquerdo num time do interior e que corria atrás da bola, ralando a perna, frustrando-se, amargando as derrotas – só para acordar aliviado, olhar a esposa, o ventilador, os chinelos, o copo d’água, ouvir o cachorro no quintal e o rangido da correntinha do xaxim e ter a certeza de que era feliz, de que fizera a escolha certa.

Mas lá vem a bola dividida, o cotovelo na altura do gogó, a poeira nas narinas – e a sola do adversário na canela o arranca do devaneio.

Isso poderia ser só um pesadelo do qual ele despertasse.

Mas é a sua vida.

Um equívoco total, infelizmente.

Mas é isso mesmo: um equívoco é o que é a sua vida.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)


O legado é seu também: escolha melhor quem patrocinar
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Juca Kfouri

POR RODRIGO FERREIRA*

Vendo as infinitas notícias sobre o descaso com o Maracanã e o abandono do Parque Olímpico, voltamos às conversas sobre legado, sobre o propósito das coisas, sobre sifnificado. Mais uma vez, nos vemos iludidos por promessas de ouro e recordes, e mais uma vez estamos aqui bradando contra o duro golpe de ver o esporte ser abusado e ficar parado no tempo.


Como idealista e “marketeiro”, prefiro ver a luz no fim do túnel. Acreditar que não teremos perdido a oportunidade de sediar os dois maiores eventos do mundo e que vamos, sim, evoluir como nação esportiva. Aproveitando a moda do país sendo passado a limpo, sugiro passar o bastão da responsabilidade novamente para as marcas, para a iniciativa privada. E, a partir de agora, estabelecer novos padrões, mais saudáveis, para o esporte.


Sigo acreditando na palavra autenticidade quando falamos de patrocínio. Sobre associação de valores e uma relação ganha-ganha, onde deveriam sair vencedores patrocinador, patrocinado e, principalmente, os apaixonados que fazem do esporte (e das marcas) um sucesso. Sendo assim, é responsabilidade também de patrocinadores mudar este jogo.

Mas a empresa pode se perguntar: “o que eu tenho a ver com isso?”

A verdade é que o legado também é seu. Patrocínio é troca de valores. A marca busca propriedades, atletas, confederações, competições que tenham valores parecidos com os seus e com os clientes que deseja. Ao emprestar sua imagem e também seu dinheiro, o patrocinador está afirmando que está de acordo com o que o patrocinado é e o que ele simboliza, bem como com o uso que será feito com o dinheiro.

Chegou a hora de as marcas pensarem melhor onde colocar o dinheiro. Ou o momento de retirar o seu apoio.

O público não pode desistir da cobrança às instituições públicas, mas talvez valha mais passar a cobrar as empresas que hoje sustentam a operação. A mudança, infelizmente por falta de alternativas, é mais rápida nas mãos da iniciativa privada, que pode moldar suas atitudes para atender aos desejos de seus clientes.


Rugby: Um bom exemplo.

Tive recentemente a oportunidade de conhecer um pouco mais de perto a estrutura e os objetivos da Confederação Brasileira de Rugby. Os planos claros, a transparência, a confiabilidade estimulam o investimento. Tem começo (objetivos), meio (transparente) e fim (entrega).

O objetivo não é nada simples: levar o Brasil à Copa do Mundo de Rugby. Um feito histórico e que não será conquistado ao acaso. Para isso, profissionalismo é a palavra mais utilizada. Organização, método e, o principal, confiança para mudar o patamar do esporte no Brasil. Um projeto que começa pela gestão, com conselho administrativo e tratando a CBRu como uma empresa. Com profissionais contratados do mercado, todos os envolvidos estão engajados com cada um dos passos necessários para esta jornada, que tem tudo para ser histórica.

A partir de investimentos técnicos, como a contratação de treinadores estrangeiros ou criação de centros de desenvolvimento, os resultados comerciais são imediatos: a CBRu tem hoje o mais diversificado e qualificado rol de patrocinadores do esporte brasileiro, exceção feita apenas para o futebol. Com consciência financeira e transparência, passo a passo o esporte está se desenvolvendo. Se você não sabe, até o Pacaembu já é hoje a casa do Rugby no Brasil e o esporte já está na TV aberta.

A certeza de que o legado esportivo está sendo gerado é compartilhado por todos os envolvidos e dá segurança para marcas. Não há dúvidas de que a parceria, com sucesso esportivo visível, trará benefícios comerciais para os patrocinadores e alegria para os torcedores.

Não há como responsabilizar um patrocinador e nem é preciso. A questão é fechar a fonte de dinheiro para as entidades que não geram o legado que a sociedade espera. É preciso mexer com o bolso.

Que gestores, executivos e profissionais de marketing assumam a responsabilidade de investir seu dinheiro na construção de suas marcas, mas também no desenvolvimento saudável dos esportes que são o motor da paixão dos torcedores, por acaso seus potenciais consumidores.

Se um contrato de patrocínio está condicionado às entregas, aos objetivos, naturalmente os absurdos como o Parque Olímpico e o Maracanã não aconteceriam. E, claramente, se acontecessem os responsáveis seriam cobrados comercialmente por isso.

Para fazer o legado Olímpico acontecer, instituições esportivas precisam oferecer profissionalismo como um de seus valores. E você, patrocinador, precisa escolher melhor quem patrocinar. Bons exemplos já estão em curso.

*Rodrigo Ferreira, jornalista, publicitário e Geraldino acima de tudo.
https://br.linkedin.com/in/ferreirarodrigo

 


Noturno
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Juca Kfouri

LUIZ GUILHERME PIVA

Nas entradas e nas cãs já se nota. Um pouco de barriga também. Tem que apertar os olhos pra ver o gol adversário. A mobilidade é pequena.

Mas tem a técnica. O toque. O imprevisto que desmantela o ferrolho, percorre a picada, invade a clareira e põe os companheiros na cara do gol.

Só que já está cansado. Quer parar. Executa seus números como o profissional no teatro mambembe, de cor, sem o ímpeto infantil que o fez tornar-se adulto naquele ofício.

A categoria com que amacia e movimenta a bola intimida os que cogitam criticá-lo por não correr, não marcar, por jogar tão calado.

Às vezes até ensaia-se um apupo.

Mas eis o passe de mágica – e a muralha à sua frente se esfumaça. O milagre do centroavante livre na área. Palmas, gritos, espanto.

Nos bastidores, depois dos jogos, sua, respira forte. Não quer mais seguir.

Mas é no palco, aliás, no campo velho e esburacado, com os mesmos truques, aliás, lances, que consegue o almoço e a janta.

O pior é olhar pra frente: mesmo não podendo, sabe que mais um pouco vai ter que parar.

O horizonte é claro: nada se vê.

E não adianta apertar os olhos.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


Como Cabral lucrou com Nuzman
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Juca Kfouri

República de Mangaratiba” de Cabral ganhou milhões no Comitê de Nuzman.
POR LÚCIO DE CASTRO


A última década aproximou Sergio Cabral Filho, Eduardo Paes e Carlos Arthur Nuzman. Indeléveis parceiros, unidos pelo Pan-2007 e pelas Olimpíadas-2016. Atravessaram a década dos grandes eventos no Rio de Janeiro irmanados. Entre as várias interseções do trio neste período estão dois integrantes da “República de Mangaratiba”, beneficiários de inúmeros contratos com os três. Marco Antônio de Luca, participante do mais próximo círculo de Cabral e membro das confrarias do “Guardanapo” e da “República de Mangaratiba”, obteve nos últimos anos milhões ganhos em contratos com o governo estadual de Cabral e a prefeitura de Eduardo Paes. Com o Comitê Rio 2016 (CoRio2016), presidido por Carlos Arthur Nuzman, não foi diferente: através de três distintos Cadastro Nacional Pessoas Jurídicas (CNPJ), um grupo de empresas com ligações societárias e objetos em comum conquistou nove contratos com a entidade olímpica presidida por Nuzman. Em flagrante desrespeito as normas do próprio comitê. O outro protagonista dos anos do guardanapo que aparece em uma dessas sociedades é Arthur César de Menezes Soares Filho, o Rei Arthur, como era chamado pelo amigo e vizinho Cabral, investigado na “Operação Calicute”.

Com a Masan Serviços Especializados foram seis contratos diferentes com o CoRio2016. Entre os contratos, está o 979/2016, cujo objeto é “Prestação de Serviço de Limpeza e Conservação das Instalações do Rio 2016”. Início em 11/06/2016 e fim no dia 30/01/2017. No entanto, mais dois diferentes contratos da Masan tem como objeto limpeza de instalações. Como no 1464/2016, que trata sobre “Prestação de serviços de limpeza e manutenção predial, em caráter emergencial na Vila dos Atletas”, iniciado em 3/8/2016, até 20/8/2016. O contrato 1288/2016 também tem limpeza de instalações incluído no escopo (“Prestação de Serviço de Segurança, limpeza e gestão de resíduos para as áreas de hospitalidade Zona VI Parque Olímpico e Arena Olímpica do Rio”), aberto em 22/7/2016 e com fim em 30/11/2016.

Os outros três contratos firmados com a entidade pela Masan tem distintos objetos: o 1600/2016 é sobre “serviços de mão de obra de 376 caixas e atendentes de fila dentro das concessões presentes nas instalações do Rio2016, trabalhando em 13 dias (13/9/2016 a 16/9/2016). O 303/2016 assinala como “objeto deste contrato a prestação, pela contratada ao RIO 2016, de serviços de alimentação para as Instalações do Parque Olímpico durante os Jogos Rio 2016, conforme definido na proposta comercial, proposta técnica e escopo técnico Rio 2016”, iniciando em 31/3/2016 e fechando em 31/1/2017. E o 812/2015 é sobre ”Contrato de prestação de Serviços de Hospitalidade (In Venue Hospitality Services – IVH) a serem executados na Zona 6, nas instalações Arena Rio, Centro Olímpico e Paralímpico de Tênis, Parque Olímpico e Paralímpico, Arena Carioca 1 e Clube Olímpico”, de 24/9/2015 a 31/12/2016. Assim, a Masan obteve contratos que variavam entre limpeza, contratação de pessoal e hospitalidade.

O CoRio2016 contratou a Masan, a Denjud e a Comissaria Aérea do Rio de Janeiro. E as três tem ligações societárias e se encontram, entre outras participações, no “Consórcio Alimentar”
Três diferentes contratos com duas diferentes empresas tratam sobre “Prestação de serviço de alimentação para a força de trabalho”. O 1271/2016, com a Denjud Refeições Coletivas Administração e Serviços (“prestação do serviço de alimentação para a Força de Trabalho e Contractors, além do fornecimento de frutas para consumo dos Atletas e gelo filtrado para reabastecimento dos coolers fornecidos pelo Patrocinador da Rio 2016”, (12/7/2016 até 31/9/2016). E dois acordos assinados com a empresa Comissaria Aérea Rio de Janeiro: 252/2014 (14/7/2014 a 30/9/2014, sendo objeto a “prestação dos serviços de alimentação, através do fornecimento de refeições, detalhados por tipos de cliente, níveis de serviços e características da instalação -local de fornecimento- Evento Teste de Vela Marina da Glória) e o contrato 304/2016, que, assim como o da Denjud, trata sobre “prestação do serviço de alimentação para a força de trabalho”. De 8/3/2016 até 31/1/2017: “Prestação de Serviços de Alimentação para da Força de Trabalho do RIO 2016”.

No entanto, ao verificar-se a complexa teia de participações da “Masan Serviços especializados”, encontra-se a mesma como integrante de uma terceira empresa, a “Consórcio Alimentar”. Em cuja sociedade estão juntas a “Denjud” e a “Comissaria Aérea do Rio de Janeiro”, além do próprio Marco Antônio de Luca como pessoa física. Assim, o CoRio2016 contratou a Masan, a Denjud e a Comissaria Aérea do Rio de Janeiro. E as três tem ligações societárias e se encontram, entre outras participações, no “Consórcio Alimentar”, em 30 de junho de 2011.

As regras do Comitê Rio 2016 quanto a isso são bem claras. No Portal de Suprimentos da entidade, em seu artigo 5, item D das “Condições Gerais do Fornecedor”, está a descrita a “obrigação do fornecedor no que se refere ao cadastramento”: “Não realizar cadastro de sociedades pertencentes ao mesmo grupo econômico que atuem no mesmo segmento”.

E as três fornecedoras do CoRio2016, (Masan, Comissaria Aérea e Denjud) não tem apenas as ligações societárias em comum. No “Código e descrição da atividade econômica” de cada uma delas na base de dados da Receita Federal está a atuação em um mesmo segmento, explicitado número por número do código, palavra por palavra: “56.20-1-01: Fornecimento de alimentos preparados preponderantemente para empresas”, em desacordo com as normas do CoRio2016.

As três fornecedoras do CoRio2016, (Masan, Comissaria Aérea e Denjud) não tem apenas as ligações societárias em comum
A reportagem perguntou ao CoRio2016, através da assessoria de imprensa, se o órgão conhecia tais relações societárias (Denjud e Comissaria Aérea) com a Masan Serviços Especializados. O comitê respondeu que “todas as concorrências incluíam a verificação de compliance dos candidatos e neste caso era feito uma checagem de composição acionária. Os contratos da Masan, pelo volume, foram todos submetidos para aprovação do Conselho Diretor”. Não foi possível ter acesso ao valor total dos nove contratos com Masan e empresas com ligação. A estimativa possível pelo único dado conhecido é que apenas um deles CoRio2016/Masan tinha valor de R$ 82 milhões, e de acordo com informação fornecida pelo próprio órgão, teve um adendo e baixou para R$ 17 milhões.

Uma quinta sociedade forma o “Consórcio Alimentar”, além dos sócios Masan, Denjud, Comissaria Aérea e Marco Antônio de Luca: é a Prol Alimentos. Que vem a ser um dos braços da Prol, como passou a se chamar a “Facility”, empresa de Arthur Cesar de Menezes Soares Filho. Cujos negócios com o governo estadual chegaram a R$ 2,8 bilhões, divididos em 57 contratos com 19 órgãos.

No “Rio Transparente”, da prefeitura, encontram-se contratos sob o nome de Facility. No entanto, o CNPJ que consta é o que aparece na base de dados da Receita Federal como da Prol Alimentação. A reportagem obteve também na Junta Comercial o documento da alteração contratual da Facility para Prol S.A.

Em 2014, mesmo ano em que Cabral deixa o governo, Arthur Soares, envolvido em escândalos e investigações, anuncia que estaria vendendo a empresa para um fundo internacional de nome “Rise”. No entanto, de acordo com os documentos obtidos por esta reportagem, a “Rise” passa a ser gerida por Tereza Cristina Porto Xavier no endereço comercial da rua Barão de Itapagibe 61, no Rio Comprido, zona norte do Rio de Janeiro. O endereço é da Prol. Tereza Cristina Porto Xavier vem a ser ex-secretária de educação de Cabral entre fevereiro de 2008 a outubro de 2010.

Na “República de Mangaratiba”, formada por oito amigos próximos a Cabral, entre empresários e ex-secretários de governo, o “Rei Arthur” é um dos com casa mais próxima ao agora presidiário, ambas juntas a faixa de areia da praia de São Braz, como mostrou reportagem do jornal O Globo, de Chico Otávio. O ex-governador foi habitué do jatinho particular do empresário. De acordo com dados da Receita Federal apresentados durante a “Operação Calicute”, Arthur Soares pagou R$ 1,7 milhão em propina, divididos entre o escritório de Adriana Cabral, ex-primeira-dama do estado, e uma empresa de Carlos Miranda, apontado pelo Ministério Público Federal como um dos operadores do esquema.

A Masan, dos seis contratos diretos com o CoRio2016, também impressiona pelo volume de negócios com as gestões de Cabral e Paes.

.Entre 2008 e 2011, a Masan Alimentos e Serviços, de Marco Antônio de Luca e onde José Mantuano de Luca Filho (Comercial Milano) também aparece através da participação societária da Sepasa Serviços, faturou R$ 17 milhões nos negócios com o governo de Cabral. Com Eduardo Paes na prefeitura o volume foi muito maior: entre 2008 e 2012, a Masan obteve contratos no valor de R$ 122.690.561,16 (cento e vinte dois milhões, seiscentos e noventa mil, quinhentos e sessenta e um reais e dezesseis centavos), como consta em dados obtidos através do “Rio Transparente”. Os contratos da Masan prosperaram nas mais diversas secretarias, sendo o volume maior de dinheiro no fornecimento de merenda escolar na Secretaria de Educação e de refeições em hospitais para a Secretaria de Saúde. E em 2014, Masan e Comercial Milano estiveram juntas na mesma denúncia, feita pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), do Ministério Público Estadual (RJ), que apontou fraude em licitações na prefeitura de Magé. As duas foram vencedoras em três concorrências, somando quase R$ 2 milhões. E nas disputas, concorriam entre elas.

Já a soma recebida pela Comercial Milano é ainda mais admirável: entre 2008 até 2016, os anos de Eduardo Paes na prefeitura, foram R$ 606.177.186,16 (seiscentos e seis milhões, cento e setenta e sete mil, cento e oitenta e seis reais e dezesseis centavos) como está demonstrado no Rio Transparente. Assim, apenas nos anos de Paes no Rio os sócios, entre Masan e Comercial Milano levaram um total de R$ 728.867.747,32 (setecentos e vinte oito milhões, oitocentos e sessenta e sete mil, setecentos e quarenta sete reais e trinta e dois centavos).

A empresa de José Mantuano de Luca Filho, também esteve nos noticiários no escândalo das propinas pagas para Rodrigo Bethlem, então na Secretaria de Assistência Social da prefeitura, em um esquema que perdurou entre 2009 e 2012, gestão de Eduardo Paes. Em 2010, a Comercial Milano foi denunciada na CPI da Merenda Escolar, comandada pela ex-vereadora Andréa Gouvêa Vieira, por suspeita de irregularidade na licitação. E em 2015, a Masan chegou a ser afastada de uma concorrência após denúncia do Ministério Público por favorecimento em concorrência de R$ 52 milhões para fornecimento de pessoal e equipamentos no Centro de Operação da Prefeitura. Em 2012, outra acusação de favorecimento envolveu a Masan, escolhida para operar carros fumacê (veículos utilizados no combate ao mosquito da dengue) no município do Rio, mesmo sendo do ramo de alimentação.

A reportagem enviou pedido de resposta para a Masan, sem retorno.

Além da questão sobre ligações societárias das empresas, cuja resposta está no corpo da matéria, a reportagem enviou ao CoRio2016 outras questões como o escopo semelhante de alguns contratos da Masan e sobre a concorrência. Através da assessoria de imprensa, a entidade afirmou:

“Trabalhamos com a Masan em três frentes: Limpeza e Conservação; Catering (alimentação) e Hospitalidade (Serviços de hotelaria para vilas de imprensa, árbitros e tratadores). Em todos os casos, a Masan competiu com pelo mais de uma empresa em concorrências públicas e transparentes que depois era ratificadas ou não pelo Conselho Diretor.

A operação de alimentação dos jogos era imensamente complicada. Nenhuma empresa no Brasil tinha condições de realizar tudo. Ela incluía alimentação de atletas (Main Dinning da Vila Olímpica), do público (em todas os parques e instalações), dos VIPs, e dos hospedes já citados (Jornalistas, árbitros, tratadores…). Por isso as operações foram fatiadas, para dar mais acesso a outros grupos, o que explica os múltiplos contratos. A maior fatia desse bolo, alimentação, ficou com a Sapore que operou a Vila dos Atletas.

Depois chamamos a Masan à título de emergência para atuar na “crise” da Vila dos Atletas. Eles também foram chamados para ajudar com pessoal nas concessionárias de alimentação que entraram em crise nos primeiros dois dias dos jogos. Em ambos os casos a dispensa de concorrência necessária por conta da urgência da contratação da Masan foi aprovada em todas as instâncias inclusive no Conselho Diretor (onde são checados os cruzamentos acionários). Vale citar aqui que o desempenho da Masan nos jogos foi impecável e o espírito de parceria com as necessidades do comitê idem”.

Confira os documentos AQUI.


Final de Copa
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

1.
Não resistiu. Viu a pelada e deu seta, pegou o acostamento devagar, desceu o pequeno declive de terra e deixou o carro perto do capinzal.

De terno e gravata, ficou em pé assistindo. Terrão, sol humilhante, dois times (com camisa e sem camisa) de rapazes simples jogavam como numa final de Copa do Mundo.

Suava, estava atrasado, se empoeirava, o compromisso era importante – mas ele não saía do lugar.

Viu que tinha uns galões de água, fez sinal pra um dos jogadores pedindo pra tomar. Virou no bico, esfregou a boca com as costas da mão, molhou o cabelo, pôs as mãos na cintura abrindo as asas do paletó e voltou a assistir.

Não pensava mais no tempo. A tarde crepitava. O jogo parecia que não teria fim. O zunido dos carros na estrada. Gols comemorados como vitórias numa guerra. O manto de poeira.

De cócoras. Com a mão em continência pra apurar a vista. A boca seca. Os lábios nos mesmos galões em que todos tomavam.

E foi aquilo. Um se machucou, tio, entra aí, quem, eu?, é, tio, completa aí, mas só estou assistindo, faz tempo que não jogo, só completa, de terno?, vai logo, tio, peraí, boa.

Era no time de camisa. Deixou o paletó no chão e entrou.

Não sabia mais o que estava acontecendo. Sol, poeira, carros, a bola, os jogadores em volta, ele correndo sem parar, a gravata balançando, os sapatos doendo, o suor empapando tudo, o barulho do tempo zunindo, zunindo, zunindo, escurecendo, quem fizer acaba, mas ninguém fazia, o jogo não acabava, quase noite, ele correndo, tocando, chutando, tropeçando, a boca cheia de terra, já não se via mais nada.

2.
O carro tá lá no capinzal faz mais de um mês. Depenado.

Quem mora em volta não sabe como ele foi parar lá. Ninguém se lembra de ter visto nada: nem acidente, nem pelada, nem ninguém saindo do carro, dizem que naquele campo ninguém joga há anos.

Mas a polícia segue procurando o corpo.

É que acharam um paletó no chão, sujo de terra, do lado do campo.

Mas sem nada. Nenhum documento, nenhum papel. Nada.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)



Pra fora
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

1.
Nunca foi de estudar, não. Negócio dele era bola, o dia todo.

Às vezes ajudava a mãe a preparar as coisas pra vender na rodoviária, mas logo se mandava pro campinho.

Comigo, nem pensar. Veio conhecer o ponto, expliquei tudo (grupo, dezena, os rateios), não quis saber. Deu uma brecha e sumiu.

Mas nunca deu trabalho. Chegava sujo, tomava banho, deitava, de manhã saía pra escola – mas ia nada, só quando não arrumava pelada no caminho.

Bom, agora taí. Moço, alto. Diz que vai embora. Tentar um time numa cidade maior. Fala nisso o dia todo. A gente tenta mudar a cabeça dele, mas vai dizer o quê? Pra vender sacolé, fazer jogo do bicho?

O medo é de que ele não volte nunca mais.

2.
Morava numa pensão ali em frente. Era feriado, almoçou tarde, andou um pouco e resolveu entrar no estadiozinho. Nem gostava muito, mas se distrairia.

Sentou-se no cimento, o campo quase sem grama, os times entrando aos poucos, e viu que só havia ele assistindo.

Certamente chegaria mais gente. Da pensão sempre via ao menos umas dezenas entrando e saindo.

Mas não.

Hora de começar o jogo e ninguém nos degraus, só ele.

Tinha pensado em ficar uns minutos e sair. Mas agora não tinha jeito. Sentiu-se responsável: aprumou a postura, fixou os olhos mostrando interesse, não podia fingir que não estava ali.

O jogo morno, arrastado.

Mas ele começou a aplaudir um lance aqui, a dizer “boa!” pra uma jogada ali, a incentivar os dois times.

Levantava-se: “vamos, vamos!”; “chuta!”, “abre na direita!”; e até um “uh!” num chute que passou mais perto.

Os jogadores foram se animando. Tinham cochichado, antes de começar, que devia ser maluco: sozinho, naquele sol, no feriado, vir assistir a um jogo que não valia nada.

Mas, com os comentários e incentivos, começaram a se dedicar. A jogar para ele. Faziam um lance e o olhavam, como se buscassem sua aprovação. E viam-no cada vez mais envolvido, animado, assoviando, batendo palmas: “toca mais a bola!”; “volta pra marcar!”; “as costas, as costas, cuidado!” – para os dois times.

Até que soltou, muito alto, sem pensar, um “seu filho da puta!” pro centroavante que furou na cara do gol.

Todos pararam e o olharam. Ele estava alterado, vermelho.

E então se deu conta. Estancou. Sentiu o impacto.

Estranhou-se como se saísse de um transe que o tomara aos poucos.

Olhou em volta. Vazio. O campo. Os jogadores.

O eco do palavrão ainda reverberava, subia, batia no sol e descia como uma bigorna.

Sentou-se desajeitado. O jogo recomeçou lento.

Minutos depois, ele se levantou, foi saindo aos poucos, cabeça baixa, passou pelo portão, foi embora.

Os jogadores ficaram espiando sua saída. Mantiveram os lances devagar checando se ele desistiria. Depois, pararam e esperaram pra ver se ele voltava.

Ã-ã.

Só o sol, o silêncio e o vazio.

E desistiram.

Acabaram o jogo – não tinha juiz mesmo, eles é que resolviam.

Mas não perdoaram o centroavante, que foi sendo xingado por todos até o vestiário.

Quer dizer, o barraco atrás do gol.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).



Um e outro
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

O estilo do jogador é a expressão de sua personalidade.

Veja-o em ação em campo. Compare com seu jeito de falar, com seu comportamento e sua postura fora de campo, seu olhar, seus gestos.

É uma identidade só. A mesma persona dentro e fora do gramado.

Pense no Garrincha, no Tostão, no Rivellino, no Ademir da Guia, no Zico, no Romário, no Ronaldinho Gaúcho, no Neymar.

Mas também nos menos famosos.

E também nos de fora: Zidane, Maradona, Messi, Iniesta, Cruijff, Cristiano Ronaldo.

Vá pensando e testando – é batata! Todos são a mesma coisa dentro e fora do campo.

Menos um.

Pelé.

O que se vê em campo não é somente diferente do que se vê fora: é completamente estranho, avesso, antípoda.

É outra espécie. Outro ser.

Fora, um indivíduo meio simplório, ingênuo.

Dentro de campo, porém, o que se vê é uma pantera, um leão, um guepardo – feras em plena caça, dominando as savanas, as pradarias, as florestas.

Os olhos saltados, a concentração, o arranque, a objetividade, a força muscular, a gana de um animal impondo seu poderio sobre as presas e o território.

Não há nada de um no outro.


Veja o lance contra o goleiro Mazurkiewicz em 1970, certamente o mais belo e difícil da história das Copas – e talvez da história do futebol.

A execução, em força e raciocínio, é a de um fenômeno da natureza, rasgando o espaço e o tempo, impondo-se sobre tudo e todos.

Mas não só. Há ainda o que se dá depois do lance.

O gol não saiu e, diante do mundo bestificado, impressionado, Pelé volta andando, coçando algo nos lábios ou nos dentes, sem lamentos, sem surpresas, sem caretas, com a mesma altivez e naturalidade ostentada durante todo o jogo.

O corpo e os membros rijos, em movimento pausado. Como o predador que perdeu por pouco sua presa e se reposiciona para nova investida.

Só ele está tranquilo. Porque só ele sabe que aquilo é da sua essência sobrenatural.

Então.

Agora pense no Pelé das entrevistas, das canções, das declarações, da vida social, das campanhas publicitárias.

Não são o mesmo ser, definitivamente.

Mas ambos vivem suas existências próprias dentro do mesmo corpo. Talvez como heterônimos um do outro, ao modo de Fernando Pessoa.

E talvez daí venha a distinção psicológica e de pronomes que eles próprios usam para falar de seu oposto: Edson e Pelé.

Mas é mais do que isso, porque o Edson é de uma espécie. E o Pelé, de outra.

Para nossa sorte, quem entrava em campo era o Pelé.

Fosse o Edson e talvez não passasse nas peneiras como um meia-direita tímido e burocrático.

Em compensação, fosse o Pelé o que estivesse fora de campo, provavelmente teríamos um Rei de verdade a imperar em vasta área do planeta, com poder incontestável e milhões de súditos.

Não sei você, mas eu seria um deles.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).



Campinho Paradiso
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Lá estava ele em nostalgia no maior conforto. Aquela angústia inusitada sentado na Arena no final de tarde. Aquele sentimento de perda infinita comendo pipoca com o neto. A saudade de um tempo regulamentar que já se foi…

Ah, que saudade que eu tenho!

Roubaram o cachorro quente com tomate, cebola, pimentão e carne moída.

Roubaram o jogo na beira do campo sem alambrado.

Depois roubaram alambrado e o fosso.

Roubaram o inofensivo batedor de carteiras.

O ceguinho pedinte de cuia na mão.

Roubaram as baianas do Campo da Graça.

Roubaram até Padim Ciço no Presidente Vargas.

Roubaram o Barro Preto – bem antes de roubarem o JK.

JK que foi substituído por um governador, absurdo esse, uai!

Levaram-me o Velódromo faz tempo.

A Mooca.

Bariris, Ilha do Governador, Laranjeiras que ainda me sorri.

Quando entro no elevador e lembro os Eucaliptos.

O British Club, o Parque Central e os Aflitos.

Ah, aquela grama dos Aflitos!

A Boca Maldita.

Vestiários retocados com cal virgem.

Sinais da cruz no Pedro Ludovido em dia de domingo.

Bandeiras tremulando na Pajuçara após a peixada.

Figueira de Melo onde namorei pela primeira vez uma bola.

Ainda bem que não me levaram a Vila.

Vila que foi maior que o Nou Camp.

Vila que viu o que Wembley jamais verá.

Vila que simboliza os velhos campinhos de Casimiro de Abreu.

Que futebol, que sonhos, que cores!

Campinhos dessa saudade que temos.

Das Moças Bonitas de nossa vida que os anos não trazem mais…


Nomes, nomes
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

O Pobre, ponta-direita, já jogava lá havia um tempo. O apelido decorria de ser filho de empresário, enquanto o resto do time era formado por pobres de verdade: lixeiros, desempregados, chapas, pedreiros, etc.

O Deci, batizado Valdeci, chegou depois, pra jogar na ponta esquerda.

O centroavante, Vicente, era chamado pelo sobrenome (de Moraes), porque o goleiro tinha o mesmo nome e era mais antigo.

De modo que o ataque ficou sendo Pobre, de Moraes e Deci.

Mas um gozador teve o achado: “de Moraes pode ser Demarré!”.

E imortalizou o ataque local: Pobre, Demarré e Deci.

Eu sei que você não acredita. Mas é verdade.

Igual a uma outra dupla que jogou muitos anos numa cidadezinha ali perto.

Eram gêmeos, chamados de Toinho (clássico, lançador) e Tonhão (veloz, artilheiro).

O primeiro acabou virando Tuím. Depois, com o seriado famoso na TV, um gaiato batizou o segundo de Piques, o que combinava com o seu estilo de jogo.

E assim ficou: Tuím e Piques.

Jogaram muito. Pode perguntar lá que vão confirmar.

Mas o jogador mais famoso da região naquela época foi o Maria.

Isso mesmo. Maria.

Chamava-se Walderney, desde pequeno Neyzão, por ser troncudo e brigador. Mas no ginásio, por azar, tocou-lhe ler em voz alta a conjugação do verbo somar. E na hora do futuro do pretérito saiu “eu somaria”.

Ele tirou dez, mas levou as gozações e o apelido. Custou-lhe muitas brigas, mas não tinha mais jeito.

Acabou se acostumando.

Só não gostou quando chegou pra formar dupla com ele o Joãozinho.

Aí ele largou o time e sumiu. Sem deixar pistas.

Por fim, teve o Du Morrier – alto, magrelo e de pele morena. Era o Pedreira até lançarem, nos anos setenta, um cigarro comprido e marrom chamado Du Morrier.

Pronto. Ficou sendo seu nome até o final da carreira.

Que, aliás, nem durou muito. Ninguém nem se lembra dele direito.

Por fim, não, minto, porque eu me lembrei de outro caso. O lateral esquerdo baixinho, sarnento, chamado Sebastião Beethoven.

Que ganhou o apelido de Tantantantan por causa da abertura da Quinta Sinfonia, que a torcida tocava na corneta sempre que ele pegava na bola.

Com o tempo, ficou sendo o Tantan.

Não era nenhum gênio, mas até que jogou direitinho.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).



Real Madrid ou Kashima Antlers?
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Juca Kfouri

Quando o Mundial de Clubes da Fifa começou pareceu que o futebol sul-americano nadaria de braçada.

Corinthians, São Paulo e Inter foram os três primeiros vencedores.

Depois do título colorado, em 2006, no entanto, seis anos se passaram para que um clube do continente ganhasse novamente o torneio, o Corinthians, em 2012.

Neste domingo, às 8h30, Real Madrid, em busca de seu segundo título, e Kashima Antlers, campeão japonês e por isso no Mundial, em busca do primeiro de um time não europeu ou sul-americano.

Esta oito a quatro para Europa.

Alguém crê no Kashima?

Zico, seu grande ídolo, acredita.

E esta é a pergunta do vídeo promocional da Fifa sobre seu Mundial de Clube.


Deu pra ti, Inter!
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Juca Kfouri

POR MARCELO TORRES*

“Deu pra ti” é uma espécie de “canção do exílio” de todo gaúcho que mora em outras partes do mundo.

A música estourou nas paradas de sucesso de todo o Brasil em 1981, com os irmãos Kleiton e Kledir.


Nascidos em Pelotas, eles faziam carreira musical no Rio de Janeiro e sentiam muitas saudades do Rio Grande.

A letra fala da saudade do Parque da Redenção, do cobertor de frio, do estádio do Beira Rio, do craque Falcão.

Kleiton é gremista, Kledir é colorado. E este deve ter sido o autor da letra, pelas claras referências ao Internacional.

Falar “deu pra ti”, na linguagem dos gaúchos, significa dizer “chega, basta, já deu, para com isso, tchê!”.

É o que o eu-lírico fala pro baixo astral: “Deu pra ti”.

Quando andava assim meio down, o compositor ia pra Porto e… tri-legal.

“Tri”, para o gaúcho, significa mais que três, significa “muito”.

No gauchês, fala-se tri-bom, tri-ruim, tri-bonito, tri-feio.

Como a música é de 1981, talvez exista aí uma referência aos três títulos brasileiros do Inter – em 1975, 1976 e 1979.

Tri-bom, tri-legal, tricampeão.

O colorado Luís Fernando Veríssimo acha que sim.

O gremista Peninha acha que não.

Inter, tri brasileiro, bi da Libertadores, campeão do mundo.

Um gigante, sem dúvida.

Mas os gigantes também caem.

E precisam aceitar a queda.

Precisam saber cair.

Mas o que os dirigentes do Inter fizeram – e estão a fazer – é gol contra, pisada na bola, canelada.

Os subterfúgios usados pelo Inter estão apequenando um gigante.

Por isso, neste domingo, cantemos:

“Deu pra ti, Inter. Vai pra Série B, tchau”.

Em 2018 você estará de volta.

Mas, este ano, “deu pra ti”.

*Marcelo Torres, jornalista, torcedor do Vitória, baiano, mora em Brasília.



Um caso de abuso de autoridade: 31 presos por “presunção de culpa”
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Juca Kfouri

 Familiares de corintianos presos no Rio se mobilizam; menor de idade é solto por falta de provas

Em defesa dos 31 torcedores presos desde 23 de outubro, familiares soltam nota denunciando tortura, falta de provas e presunção de culpa

Depois de um mês e meio que 31 torcedores corintianos foram presos no Maracanã após confusão, familiares soltam nota pública intitulada “Relatos selvagens ou como fingir o combate à violência das torcidas organizadas”. O texto, recheado de fotos, denuncia a tortura e a violação de direitos aos quais foram submetidos os detidos. Para os familiares a decisão judicial pela manutenção das prisões, sem provas e sem que tenha sido feito o julgamento, se sustenta numa escolha política de preservação da imagem e da credibilidade dos próprios agentes e órgãos do Estado.

A argumentação dos familiares de que a presunção de culpa é o que está prevalecendo tem agora a seu favor a recente decisão da justiça de absolver, por falta de provas, o único menor de idade entre os 31 presos. A audiência e absolvição do menor foi feita na quarta-feira (16/11). Com base em imagens de câmera do entorno do estádio, no escaneamento do momento em que o ingresso passou pela catraca do estádio e de testemunhos em que policiais admitiram não ter certeza do reconhecimento físico do rapaz de 17 anos, foi provado que nem mesmo dentro do Maracanã ele estava no momento da confusão.

“Se não há certeza do reconhecimento que os policiais fizeram de um deles, as outras certezas também caem por terra, a não ser que existam provas factuais, como imagens, que identifiquem os agressores”, afirmou o irmão de um dos 30 que seguem presos. Assim como o menor de idade, outros dos detidos também têm evidências de que sequer tinham entrado no estádio no momento do confronto ou que comprovadamente estavam distantes daquele ponto da arquibancada. É o caso, por exemplo, do corretor André Tavares, que tem fotos no metrô e fora do estádio no momento em que a confusão acontecia.

Na nota publicada, familiares apontam que nas imagens que dão suporte às prisões “27 dos 31 que estão presos não aparecem”. “Isso torna inadmissível, repleto de vícios e plenamente nulos os depoimentos apresentados pelos supostos agentes garantidores de lei e da ordem”, afirmam. As imagens das câmeras de segurança do Maracanã até agora não foram apresentadas nos autos. Apesar das denúncias de espancamento e tortura, também não foram feitos exames de corpo delito. Um dos detidos tem câncer de pele e não está recebendo atendimento especializado. Outro teve o nariz quebrado por policiais militares.

“Cabe a punição sem provas, de jovens estudantes e trabalhadores, apenas para conforto do judiciário perante a suposta opinião pública?”, questionam os familiares, em nota. O Tribunal de Justiça justificou a manutenção das prisões argumentando que “os fatos apresentados ganharam grande repercussão social, de modo que a liberdade dos acusados, ao menos neste momento do processo, certamente colocará em xeque a credibilidade da justiça e do poder judiciário”.

“Como vem sendo comum em tempos recentes neste país, além de comportamentos estranhos ao devido processo legal e o uso exacerbado da prisão preventiva principalmente para os pobres, parece prevalecer a presunção da culpa ao arrepio da previsão basilar da presunção de inocência!”, ressalta a nota.

Está claro o abuso de autoridade e que há inocentes entre os presos.

Mesmo os eventualmente culpados não podem ser tratados desse modo.

A Justiça entrará em recesso para as festas de fim de ano e se não forem tomadas providências imediatas todos correm o risco de permanecer arbitrariamente detidos sem culpa formada.


China celebra acordo com Alemanha para desenvolvimento do futebol no país
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Juca Kfouri

Parceria de 5 anos contará com participação da Bundesliga

POR RODOLFO MOHR 

http://chinabrasilfutebol.com.br

A Federação Alemã de Futebol anunciou a celebração de um amplo acordo entre Alemanha e China para criar uma parceria de futebol entre as duas nações, com duração de 5 anos.

A negociação se deu a nível de Estado, celebrado pela chanceler alemã, Angela Merkel, e pelo presidente da China, Xi Jinping. Na ocasião da assinatura, no dia 26 de novembro, os chineses foram representados pela vice-presidente Liu Yandong.

Estiveram envolvidos na construção da parceria as federações de futebol dos dois países, a Bundesliga e o Ministério da Educação da China.

O acordo prevê intercâmbio de ideias e experiências entre os países e o suporte para desenvolvimento do futebol chinês com a formação de atletas, técnicos e árbitros, bem como o auxílio da Bundesliga na organização da Super Liga Chinesa.

A assinatura do convênio foi realizada na Chancelaria Federal, a sede do poder executivo alemão, em Berlim.

Na foto, atrás, da esquerda para direita:

Secretário Geral da Federação Chinesa, Zhang Jian; Presidente da Bundesliga, Dr. Rauball; Secretário de Estado do Ministério do Interior alemão, Sr. Engelke; CEO da Bundesliga, Mr. Seifert; Presidente da Federação Alemã de Futebol, Sr. Grindel; Secretário Geral da Federação Alemã, Dr. Curtius.

Na frente, da esquerda para direita:

Ministra-Adjunta de Relações Exteriores da China, Liu Haixing; Presidente da Federação Chinesa de Futebol e Diretor-Adjunto de Estado da Administração Geral de Esportes, Cai Zhenhua; Chanceler Alemã, Dra. Angela Merkel; Secretário Geral-Adjunto da China, Sra. Jiang; Vice-presidente da China, Sra. Liu; Embaixador Chinês na Alemanha, Sr. Shi; Ministro da Ciência e Tecnologia da China, Sr. Wan; Vice-ministro da Educação da China, Sr. Hao.


Força Chape, força Brasil!
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Juca Kfouri

POR JOÃO PAULO S. MEDINA*

Uma reflexão sobre futebol, sociedade e política

 
Alguns entendem que o futebol é uma coisa sem importância, se comparado com outros setores da atividade humana como a saúde, a educação, a economia…

 
Mas o acidente aéreo envolvendo o time da Chapecoense, em face à tamanha comoção que provocou no Brasil, na Colômbia e no mundo todo, nos mostrou mais uma vez que esta é uma manifestação social e um fenômeno cultural que transcende uma simples atividade esportiva.

 
A tragédia de um time de futebol, envolto por tantas emoções, permitiu que todos nós tivéssemos a oportunidade de vivenciar uma experiência sofrida, dolorosa, mas ao mesmo tempo rica em todas as suas dimensões e, particularmente, na dimensão que podemos chamar de espiritual ou transcendental.

 
O desastre com a Chapecoense foi capaz de unir pessoas, grupos, classes sociais, povos e nações que, em condições normais, provavelmente jamais ocorreria. A intensidade do sofrimento e da dor provocou uma catarse coletiva incomum, seguida de muitas reflexões sobre o real sentido da vida.

 
Tentar explicar esta catástrofe, seus desdobramentos e seus motivos, talvez seja desnecessário e inócuo neste momento. Não se trata de julgar se ela pode ser considerada maior ou menor do que outras tragédias que aconteceram na história da humanidade ou que acontecem no nosso cotidiano, construído com tantas incoerências, injustiças e desigualdades.

 
O fato é que nós todos, que não estávamos dentro do avião da empresa boliviana, temos uma grande oportunidade de reconstruir as nossas vidas, o nosso futebol e a nossa sociedade. E a referência pode ser o drama que matou 71 seres humanos e que tanto nos impactou e ainda mais as famílias e amigos mais próximos das vítimas deste desastre aéreo, agora inserido na história do futebol brasileiro e mundial.

 
O caso da Associação Chapecoense de Futebol, um clube até pouco tempo desconhecido e hoje reconhecido mundialmente, é emblemático. Com ele nos identificamos, por ser um exemplo de como se pode sair do nada para o céu. No fundo de nossos corações, representa um pouco de tudo aquilo que cada um de nós gostaria de conquistar como seres humanos e sociais, que passa por seguir nossos propósitos de vida, buscar nossos objetivos e, mais cedo ou mais tarde, morrer!

 
Sabemos que o futebol não é tudo que temos na vida, mas pode ser um importante vetor de transformação social, pela paixão e encantamento que causa em crianças, jovens, homens, mulheres, ricos e pobres. Na verdade, o futebol pode tanto levar à alienação como pode ser um poderoso agente de transformação da sociedade, dependendo daquilo que fazemos com ele.

 
Estamos fartos de conviver com um mundo socialmente doente, e já não temos o direito de aceitar tudo isso de forma tão passiva. Na correlação de forças que divide o futebol e de forma mais ampla toda a sociedade em interesses conflitantes e contraditórios, precisamos tomar consciência e partido contra este estado de coisas. As atuais políticas, no futebol e na sociedade, estão decadentes, na contramão da história do desenvolvimento humano e social, e precisam ser renovadas.

 
A política deve ser entendida como ciência e arte da negociação ou a capacidade de indivíduos e grupos para se compatibilizar interesses coletivos. Neste sentido, não podemos mais continuar dizendo que não gostamos de política. Queiramos ou não, é ela que conduz nossos destinos. Não se combate a “má política” com a “não política”. Só se combate esta má política que nos cerca e nos anula enquanto cidadãos, com a boa política. E ela só pode ser conduzida por meio da voz e atitude daqueles que acreditam que é possível superar as injustiças e as desigualdades do ambiente em que vivemos. Trata-se, portanto, de consolidarmos um movimento que flui muito mais, se for conduzido de baixo para cima, ou seja, a partir da sensibilidade, das angústias, do amor – sim, do amor – das pessoas (crianças, jovens, adultos) humildes, marginalizadas, sem direitos e oportunidades.

 
Saber o que significa genuinamente a boa política e trabalhar para construí-la é, talvez, o nosso grande desafio nestes tempos difíceis.

 

Afinal, é ela que poderá nos levar na direção da emancipação e de uma verdadeira interdependência saudável entre todos aqueles que acreditam nestas mudanças, rumo a uma sociedade nova e melhor.
É hora de gritarmos; entrarmos em campo para conduzir o jogo de nossas vidas. E isto só é possível se fizermos todos juntos, coletivamente, por meio da política, da boa política.

 
Força Chape!
Força Brasil!

*João Paulo S. Medina é presidente da Universidade do Futebol.


O jogo eterno
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

É uma enorme ilusão.

Passaremos este domingo inteiro achando que hoje não está ocorrendo nenhum jogo de futebol no Brasil.

Ligaremos a TV e não haverá futebol. O rádio, a internet, nada.

Alguns irão aos estádios para se certificar. Tudo fechado.

De alguns prédios dá pra enxergar arquibancadas e mesmo o campo de alguns estádios – e também nada se verá.

Alguns, teimosos, com mais dinheiro, alugarão helicópteros para sobrevoar os campos – e não verão jogo algum.

Por isso, passaremos o domingo achando – melhor, acreditando convictamente – que não há futebol no Brasil hoje.

É uma enorme ilusão.

Fundada na ideia de que a morte dos jogadores da Chapecoense (e dos demais atingidos pela tragédia) fez parar o futebol, fechar os estádios, engavetar as bolas, estender o silêncio sobre os campos e desfraldar a ausência nas arquibancadas.

É o que vemos hoje.

Mas é uma enorme ilusão.

Porque em todos os campos, em todos os estádios, de todo o país, estão jogando hoje, o domingo inteiro, fazendo gols e defesas, os jogadores da Chapecoense.

Vivos.

Porque, apesar de terem morrido no acidente de avião na terça-feira, eles já renasceram.

Foram ressuscitados na cerimônia do estádio Atanasio Girardot, em Medellín, na quarta-feira, quando cinquenta mil ou mais pessoas transformaram o campo do Atlético Nacional no inverso do Coliseu.

Em Roma a torcida, em êxtase, com o sangue gritando pelos olhos e bocas, decidia a morte dos vivos que combatiam na arena. E ali mesmo eles eram mortos.

Em Medellín a multidão de torcedores decidiu, em silêncio, com as almas em uníssono, que os jogadores da Chapecoense, mortos, voltariam a viver.

E então, naquele local e naquela hora, fez-se o milagre: a torcida de Medellín devolveu a vida a todos os jogadores da Chapecoense.

Por isso é que é uma enorme ilusão o que não vemos hoje nos estádios do Brasil.

Os jogadores da Chapecoense, ressuscitados no estádio Atanasio Girardot pela torcida colombiana, estão jogando hoje, o domingo inteiro, em todos os campos do país.

Mais vivos do que nunca.

E assim ficarão para sempre.

Jogando o jogo eterno.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


A glória, a tragédia e o velho Chapecó
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Juca Kfouri

POR BRUNO AMABILE BRACCO*

Jogo mais importante da história do clube. Último minuto da semifinal do torneio continental. É um clube modesto, que heroicamente sobe, em seis anos, da quarta para a primeira divisão nacional. De repente, tem à frente um gigante argentino, recentemente campeão da América, time do Papa. Mas o clube modesto tem seu dia heroico. Bravamente, segura o empate que garante a passagem à inédita e grandiosa final do torneio continental. Bravamente, segura o empate até o último minuto.

Último minuto. O gigante argentino cruza a bola na área. A bola é rebatida. Sobra, limpa, para um jogador argentino, frente à frente com o goleiro. Todo o estádio se cala. No último minuto do jogo mais importante da história do clube, aquele segundo parece eterno. O jogador argentino arma o chute fatal. Talvez dois ou três metros entre a bola e o gigantesco gol à frente: gol de mais de sete metros de largura e quase dois e meio de altura. O chute vem. É o golpe fatal de Golias contra Davi.

Mas não. Não neste dia sublime. Num movimento magistral, o goleiro do modesto clube sacramenta em glórias aquele dia destinado a ser heroico. Uma perna esticada. A bola, que parecia certeira em direção ao gol imenso, explode na perna direita esticada do goleiro-herói. É o dia de maior alegria nos 43 anos de vida daquele modesto clube – que jamais havia sido tão gigante.

Há uma lenda antiquíssima que tenta retratar o profundo mistério da vida.

Conta-se que havia um povoado em que muito do trabalho necessário era realizado por cavalos. Um já idoso senhor possuía o mais belo e forte cavalo do povoado. O cavalo, entretanto, certo dia fugiu.

Todos ficaram perplexos e, repletos de piedade, dirigiam-se ao velho com palavras de pesar, ao que o senhor respondia: “Por que falam assim? O cavalo se foi, mas como podemos dizer se isso é bom ou ruim? Deixemos que o tempo nos traga suas respostas”.

No dia seguinte, o cavalo retornou trazendo consigo sete outros cavalos. O povoado encheu-se de alegria e resolveu celebrar. “O velho estava certo”, diziam. “A fuga do cavalo era o melhor que poderia ter acontecido!” Mas o ancião era o único que se mantinha sereno. “Chegaram aqui sete novos cavalos. Mas como poderemos afirmar se isso é motivo para comemorações? Deixemos que o tempo nos traga suas respostas”.

Mais um dia se passou e, numa cavalgada, um dos novos cavalos derrubou o filho do velho, quebrando sua perna. “Velho sábio”, todos pensaram. “Ele sabia que esses novos cavalos não trariam coisa boa ao povoado, e eis o resultado”. Mas o velho se mantinha tranquilo. A perna quebrada de seu filho seria de fato motivo de lamentação? Somente o tempo traria suas respostas.

No dia seguinte, chefes do exército vieram ao povoado recrutar soldados. Como o filho do sábio ancião estava com a perna quebrada, foi poupado da guerra. O povo surpreendeu-se novamente. Mas o velho mantinha sua postura. O velho sempre mantinha sua postura. A história, do velho e de cada um de nós, prossegue indefinidamente. A sabedoria de vida suprema do ancião estava em saber que nada poderia saber sobre a vida. A sabedoria suprema do ancião estava em saber que a sabedoria está apenas no tempo – e o tempo sempre seguirá seu curso, contará suas histórias e trará suas respostas.

A heroica perna esticada no último minuto do jogo histórico. O juiz apita o fim da partida. O modesto clube tem a maior glória de seus 43 anos de vida. Está na final do torneio continental.

O tempo traz, contudo, suas respostas. O tempo traz suas respostas mesmo quando nós não sabemos qual era a pergunta. Cai na Colômbia o avião que transportava os jogadores e a comissão técnica para a tão esperada final do torneio continental, contra aquele que é, hoje, o melhor time das Américas. Não entendemos as tramas misteriosas da vida. Nunca conseguimos de fato entender, por mais que tanto queiramos. Nos desesperamos a cada dia em que percebemos que não estamos no controle da nossa própria história. Nos desesperamos a cada dia em que a vida escancara diante da nossa cara atônita que não temos a menor ideia, de fato, sobre o que é bom e o que é mau.

Dias de grandes tragédias escancaram nossa pequenez. Contentamo-nos com nossas pequenas vitórias sem termos a menor ideia se são, de fato, gloriosas. Desesperamo-nos com nossas pequenas derrotas sem saber as bênçãos que a vida pode esconder no aparentemente trágico. Seguimos como os habitantes comuns do antigo povoado: rindo e chorando diante de cada acontecimento em nossas vidas, como se soubéssemos que são motivos para choro ou para riso. Mas não sabemos. Nunca soubemos.

Mas talvez viva, em Medellin ou em Chapecó, um sábio ancião. Um ancião que sabe que nada pode saber. Um velho que sabe que uma perna quebrada não necessariamente é trágica e que uma heroica perna esticada não necessariamente é gloriosa. E que talvez, com seus olhos sábios, consiga ver ainda além.

Gosto de imaginar o velho se levantando nas primeiras horas da manhã e preparando, em silêncio, seu café. Um vizinho vem, com os olhos fundos de tristeza, e lhe conta a notícia da madrugada. O velho se entristece também. Mas, em seu coração, mantém a serenidade. Porque sabe que pernas esticadas não necessariamente são gloriosas e pernas quebradas não necessariamente são tristes. Porque sabe: só o tempo pode dar a verdadeira dimensão das nossas vitórias e das nossas derrotas. E, acima de tudo, sabe: mesmo a mais aparentemente insuportável dor das grandes perdas e das grandes tragédias talvez seja apenas um pequeno momento na infindável trama da existência. Apenas um pequenino momento que nossos pequeninos olhos podem ver. Nas imensas profundezas do seu coração, o velho sabe: a história continua. Sempre continuará. E o tempo continuará nos trazendo suas respostas.

Talvez viva, em Medellin ou em Chapecó, um velho.

*Bruno Amabile Bracco é Defensor público, mestre e doutor em Criminologia pela USP e autor dos livros “Carl Jung e o Direito Penal” e “A Gnose de Sofia”.

Publicado originalmente no sítio Justificando.


Escalação gigante
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Juca Kfouri

POR FELIPE DOS SANTOS SOUZA*

Nacional campeão da Libertadores-1989: Higuita; Gildardo Gómez, Perea, Escobar e Villa; Pérez, Leonel Alvarez, Fajardo e Alexis García; Usuriaga e Arango.


Nacional campeão da Libertadores-2016: Armani; Bocanegra, Sánchez, Henriquez e Díaz; Arias e Perez; Berrio, Torres e Moreno; Borja.


Só não dá para citar a escalação do time que conseguiu uma vitória inesquecível ontem à noite, no Atanasio Girardot, porque é impossível escalar mais de 40 mil pessoas.

*Felipe dos Santos Souza é historiador e trabalha na ESPN.

 


Chape para sempre
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Juca Kfouri

POR EDUARDO DE MACEDO ALVES*

Conheci o Sr. Alvadir, fundador da Chapecoense, durante o período em que participei da administração do Figueirense. Ele, membros da diretoria e o diretor de futebol estiveram no Orlando Scarpelli em um jogo contra o Figueira pelo Campeonato Catarinense.


Durante o jogo, um legítimo banho de bola que terminou 3 x 0 para eles, conversei com o Sr. Alvadir e com a delegação da Chape sobre o projeto que eles tinham para o clube: uma administração enxuta, sem aventuras, com os pés no chão e foco na formação de uma equipe competitiva e comprometida.

Já naquele tempo, mesmo com a Chape ainda na série B do Campeonato Brasileiro (seria promovida à série A no final daquele ano), já se podia ver o resultado do trabalho. O time não tinha nenhuma estrela e nenhum estrelismo, mas tinha padrão tático, entrosamento, e não foi por acaso que venceu com relativa tranquilidade nossa equipe de série A e orçamento quase três vezes superior.

Durante todo o jogo, a diretoria da Chape mostrou sua educação diferenciada – apesar do placar avantajado e domínio completo de um jogo importante, não comemorou os gols ou vangloriou-se do resultado.

O Sr. Alvadir não estava no fatídico avião que caiu ontem. Recupera-se de um AVC e não acompanhava a equipe. Mas o presidente e a maior parte da diretoria que aprendi a admirar lá estava, assim como praticamente todos os jogadores, comissão técnica e profissionais da imprensa.

Pelo pouco que conheci das pessoas que fundaram o clube, a ascensão da Chape não me surpreendeu. Fiquei muito feliz pela conquista de uma final de Sul-Americana, e torcia por um título inédito não só para a Chape, mas para o futebol catarinense.

Também pelo que conheci deste clube, tenho a certeza de que se recuperará. A ferida será profunda, mas o trabalho sério e o tempo a superarão.

Como cidadãos, podemos ajudar – entendo que a melhor forma seja tornarmo-nos sócios do clube e demonstrarmos nossa solidariedade às propostas que os clubes brasileiros já anunciaram para colaborar: o empréstimo gratuito de jogadores e a estabilidade do clube na série A por algumas temporadas.

De resto, só posso dizer que ontem meu coração corintiano pela primeira vez amanheceu verde, e assim ficará, ao menos um pedacinho, até o fim.

______________________________
*Eduardo de Macedo Alves é empresário e corintiano (agora um pouco alviverde).

NOTA DO BLOG: Para se associar, clique AQUI.


Caos corintiano
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Juca Kfouri

POR JUCA KFOURI*

Até em impeachment por motivo tosco se fala no Corinthians, não porque haja fato realmente grave e prejudicial ao clube, mas porque a gestão do presidente Roberto de Andrade, inventado pelo ex-presidente Andrés Sanchez, encalacrado no STF, é abaixo da crítica.

Os que querem dar o golpe eram seus aliados quando tudo parecia correr a mil maravilhas e o time de futebol era campeão.

Agora, como o time é quase tão ruim como o cartola, um bando de oportunistas quer afastá-lo, alguns de olho na administração do estádio –o que afunda, e é objeto de uma coleção de ilegalidades contratuais.

Sim, afunda a ponto de a Odebrecht, sem autorização do Corinthians e sem dar conhecimento a quem de direito como a prefeitura e o Conselho Regional de Engenharia, esteve calçando tubos que deslizaram no subsolo do estacionamento oeste por causa do curso d’água que, irregularmente, passa por baixo do prédio. O Ministério Público foi lá –e não viu.

A empreiteira que negava haver problemas, age agora emergencialmente porque “a auditoria do Corinthians identificou riscos, mas nada fez para corrigi-los”.

A mesma Odebrecht que garante não estar mais no estádio, mas está e que agora, delação premiada quase aceita, tem mais que nunca o deputado petista Andrés Sanchez na mão, embora o caixa 2 possa ser anistiado pelos nobres parlamentares em Brasília, sem que se tenha ouvido uma panela nas varandas gourmets.

A auditoria é caso à parte.

Como se sabe é tocada pelo bacharel em Direito Paulo Molina, amigo de infância de Andrés Sanchez.

A cada dia seu papel fica mais claro, como se fosse o Velho Guerreiro Chacrinha, que veio para confundir, não para explicar.

A auditoria vaza mais informação que os 20 milhões de litros d’água sob o estádio, banaliza o efeito do que descobre e tem apenas uma intenção, desdobrada em diversos detalhes: livrar a cara dos cartolas envolvidos, manter intacta a imagem do estádio e diminuir o tamanho da dívida do Corinthians.

Só agora, tardiamente, bate de frente com a Odebrecht.

Se quisesse enfrentar com eficácia a construtora teria, na semana que passou, ao descobrir a envergadura do que está em execução sob o estádio, feito um boletim de ocorrência na delegacia de Itaquera e a denunciado pela ilegalidade da obra.

Mas limitou-se a mandar filmes do estado lamentável das tubulações para o conselheiro do clube, Romeu Tuma Júnior, botar em sua rede social.

Prova mais eloquente de que não se quer chegar a lugar nenhum minimamente sério é impossível.

Como no Brasil do impeachment a turma que quer tomar o poder no Corinthians é despudorada e a que quer se manter faz uma lambança em cima da outra.

Em resumo: ruim com uma, pior com a outra.

O dramático é que não há luz no fim do túnel.

ESCURIDÃO

O vice-presidente André “Negão” não tem biografia, mas folha corrida, além de ser unha e carne com Andrés Sanchez.

O grupo que quer o impeachment tem conselheiro apelidado de “171 do Vale do Paraíba” e é capitaneado por Herói Vicente, advogado em busca de sair da obscuridade como uma nova Janaína Paschoal. Pronto, saiu!

*Publicado originalmente na “Folha de S.Paulo” no último domingo.



Para onde vai a Chapecoense?
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Entre tantas perguntas sobre o passado.

Resta uma pergunta sobre o futuro?

Para onde vai a Chapecoense?

Chapecoense da pequena Chapecó.

Cidade de duzentos mil habitantes apaixonados por futebol.

A resposta pode estar no trajeto de quem viveu tragédia semelhante.

E a resposta pode ser triste ou alegre.

O Grande Torino recebeu homenagens pelo mundo.

O River Plate se trajou de grená.

Di Stefano e sua trupe jogaram em Turim.

Torneios se disputaram em sua honra.

Mas a Torino não suportou a perda dos seus craques.

A Torino se tornou um clube comum.

Já o Manchester renasce das cinzas.

Pelos pés de Dennis Law, George Best.

Pelos raros cabelos de Bobby Charlton.

Até mesmo o rebaixamento nos anos 70 é superado.

Graças ao Messias Alex Fergusson.

Nenhuma das equipes recebeu grandes benefícios de seus compadres.

Nenhuma das equipes recebeu jogadores de seus compadres.

Nenhuma das equipes permaneceu na divisão especial por amizade.

O que foi uma total falta de esportividade.

Quando grandes clubes brasileiros decidem ajudar a Chapecoense.

Emprestando jogadores.

Permitindo que durante três anos não seja rebaixada na Série A.

O futebol nacional dá exemplo ao mundo.

Exemplo que pode se tornar mais belo.

Quando o campeão brasileiro se vestir de Chapecoense na última rodada.

Pois o Palmeiras só deixou de ser Palmeiras.

Quando vestiu o manto da seleção brasileira em 1965…


O futebol de aviões
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Não existiria futebol moderno sem aviões.

A primeira Copa do Mundo foi disputada de barco – assim como a segunda e a terceira.

A quarta já tinha aviões.

A Inglaterra chegou pelo ares ao Brasil.

Mas a Itália veio pelo Atlântico.

Porque a Itália acabara de conhecer os perigos da aviação.

O supertime do Torino desaparecendo em Superga.

Foi a primeira vez que os aviões decidiram uma Copa do Mundo.

A Itália veio desgovernada para a Copa de 50.

Foi desclassificada pela Suécia.

E deixou de conquistar a Jules Rimet em definitivo.

Quase dez anos depois.

Os aviões quase aniquilam o Manchester United.

Jóia da Coroa inglesa saída da II Guerra Mundial.

Duncan Edwards e Tommy Taylor se vão.

Bobby Charlton se salva por milagre.

A Inglaterra chega capenga na Copa de 58.

Empata com o Brasil sem Pelé e Garrincha.

Brasil que ela goleara em 1956.

Atrasa seu projeto de ser campeã mundial até 1966 – com Charlton.

Em 1987, chegou a vez do Alianza de Lima.

O time desparece no mar de Ventanilla.

Para sempre.

E os aviões voltaram a assombrar na noite da Chapecoense.

Porque não existiria futebol moderno sem aviões.

Pelé e Messi passaram mais tempo neles que dentro de campo.

Porém, Gérson, Berman e Bergkamp não eram loucos afinal.

Tudo que é sólido corre o risco de desmanchar no ar…


Palmeiras, minha vida é você
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Juca Kfouri

POR MAURO FRANCISCO PAULINO*


Podia ser em qualquer outro momento, mas deu de acontecer bem no dia da final da Copa do Brasil contra o Santos, há um ano. Perdi justo o grande jogo. Por quê? Enfartei, no meio do caminho.

Tudo bem, foi em frente ao Samaritano. Tenho muita sorte, e um stent resolveu. Me convenci, vencendo meus fortes contra-argumentos, que era caso grave o bastante para desistir daquela final. Vida que segue? Não.

No ambulatório isolado apenas com minha mulher, enquanto aguardava o diagnóstico, tentava ouvir Silvério no rádio muito baixo do paciente vizinho. Aos dez do segundo tempo surgiu o médico. A má notícia se misturou com a narração, agora em bom som, do gol de Dudu. Que mania nós, brasileiros, temos de aumentar o volume na hora do gol. Ficamos, eu, ela e o médico, impassíveis sob aquele afinado, interminável grito de gol. A voz de Silvério ecoará até o fim da história.

Decidi então, com a empáfia dos enfartados diante do médico, que ano que vem, sem falta, veria o Palmeiras campeão, no Allianz. E sem mesmo combinar com os russos do destino adversário. Foi meu kit de sobrevivência, desde então.

Mas, por serem os russos duros na queda – especialmente quando menosprezados – novo diagnóstico se revelou semanas depois: mieloma múltiplo, um câncer hematológico que me obrigou a severo tratamento nos meses seguintes com quimioterapias, transplante de medula e tantos percalços decorrentes.

Virei aquele personagem tão popular do YouTube: Joseph Climber. Como o futebol, “a vida é mesmo uma caixinha de surpresas”. Tentei compor um tango.

Tempo para isso não faltou: nove meses longe de tudo, mas grudado à família, aos amigos, aos médicos mais que amigos; e ao Palmeiras, que a cada rodada elevava aquele meu devaneio a objetivo concreto. O destino joga como o Barcelona., mas não é imbatível.

Embalado, voltei antes do previsto ao convívio com os craques do meu Datafolha – mal comparando, como um Tostão em 70 – a tempo de atuar nas eleições, que é nossa Copa do Mundo. Obviamente, driblando os médicos, retornei também ao Allianz para seguir o líder a concretizar meu arrogante sonho.

Hoje, só hoje, cheguei à grande final. Após um ano, sinto-me campeão aos montes, como vencedor de um prêmio acumulado. Celebrei sozinho na mesma cadeira onde deveria ter estado em 2015. Os “deuses do futebol” multiplicaram minha alegria. Armando meu time, viraram o jogo contra o destino. Aconteceu!

Estou feliz como só os campeões podem ser. Os ecos de Silvério se ligaram, enfim. Completei o longo rito de passagem para o que virá.

Definitivamente, futebol não é só futebol. O Palmeiras, mais do que sempre, é minha vida. Avanti! Afinal, o Palmeiras não tem mundial…

*Mauro Francisco Paulino é diretor-geral do Datafolha.



Presidente da CBF, Del Nero manteve conta bancária nos EUA por 12 anos
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Juca Kfouri

POR SÉRGIO RANGEL, da Folha de S.Paulo e no UOL

 

O presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, foi dono de uma conta bancária durante 12 anos nos EUA. Ele a encerrou em 2011 ao depositar o saldo em conta da Danford Corporate Services INC, um fundo de investimento privado com sede nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal.

A existência da conta foi detectada pelo FBI (a polícia federal americana) e compartilhada com a Polícia Federal.


O documento, obtido pela Folha, afirma que a conta de Del Nero nos Estados Unidos registrou transações em 2004 com “indivíduos relacionados ao futebol e à Fifa”.

Em dezembro, a Justiça americana indiciou o presidente da CBF. Ele é acusado de fazer parte de um esquema de recebimento de propina na venda de direitos comerciais de torneios no Brasil e no exterior. Desde então, o cartola não saiu do Brasil.

Em depoimento aos senadores da CPI do Futebol em dezembro de 2015, o presidente da CBF negou que tivesse uma conta no exterior e afirmou que nunca esteve em um paraíso fiscal.

Segundo o FBI, a conta registrada em nome de Del Nero foi aberta no HSBC Internacional Private Bank, em Miami, na Flórida, no dia 16 de junho de 1999, quando o dirigente era presidente do Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo.

Ele chegou ao comando da Federação Paulista de Futebol em 2003. Nove anos depois, o dirigente se tornou o principal executivo da CBF durante a gestão de José Maria Marin, que atualmente cumpre prisão domiciliar nos Estados Unidos sob a mesma acusação de Del Nero.

Em abril de 2015, o cartola assumiu a chefia da CBF.

Segundo o documento, Del Nero era o titular da conta. Seu filho Marco Polo Del Nero Filho e sua ex-mulher Marcia Val Baldrati eram identificados como “sub-donos”.

Para realizar operação financeira como esta, o cliente precisa manter saldo de US$ 2 milhões, segundo relato dos agentes norte-americanos.

As informações repassadas pela polícia americana serão anexadas ao relatório paralelo que o senador Romário (PSB-RJ) vai apresentar na CPI do Futebol.

NOVA CONTA

Na investigação, os agentes do FBI chegaram a questionar Margarida Coutinho, gerente da conta do cartola no banco em Miami.

Segundo os advogados do banco, o atual presidente da CBF tentou abrir uma nova conta em 2011 com a mesma gerente, que recusou a oferta. De acordo com o informe, a gerente “declinou o pedido” justificando “preocupação com as relações de Del Nero com a Fifa”.

O banco informou ainda que o vínculo do cartola com a instituição terminou no dia 17 de agosto de 2011.

Antes disso, no dia 4 de agosto de 2011, ele transferiu o saldo disponível no banco americano (o valor não foi informado) para uma conta da Danford Corporate Services INC, no Safra National Bank of New York.

A empresa beneficiada pelo cartola é sediada nas Ilhas Virgens Britânicas e está em nome de Silvio de Jesus Gaspar. Segundo o documento, o empresário é residente no Brasil e dono da RV Brasil Indústria Aeronáutica.

OUTRO LADO

Em nota, o presidente da CBF disse que “toda e qualquer movimentação financeira, em qualquer país, foi e está declarada no IR e seus impostos recolhidos”.

À CPI, Del Nero negou ter conta no exterior: “Não tenho conta no exterior. Nem conta, nem trust”.

Ele não respondeu à Folha o motivo de ter depositado o saldo de sua conta nos EUA para uma empresa com sede em um paraíso fiscal.

O empresário dono da Danford Corporate Services INC não foi localizado.


Con la zurda
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para o Osvaldo Mañay (in memorian)

1.
De repente, dá-se conta de que é jogador de videogame. Vê-se caminhando – nunca o fizera – na entrada dos times em campo. Correndo para bater bola. As luzes, a torcida, os outros jogadores se aquecendo.

O jogo começa e a movimentação o atordoa. Percebe que, como nunca antes, pode olhar e se mover para todos os lados. Bolas divididas, marcação intensa, faltas, impedimentos. Não sabe o que fazer.

Esforça-se, mas aquilo é muito estranho. Sempre jogara parado: um drible, um corte, um chute ou o passe fatal para o centroavante. Agora aquela correria.

Pior: seu time joga em contra-ataques, e ele, na ponta direita, é o responsável por receber os lançamentos, correr pela lateral ou fechar para o meio em alta velocidade. Ele tenta algumas vezes, mas não consegue.

Jogara mais de trinta anos de ponta-direita no pebolim do “Negro” Fontanarossa. Quase dez mil gols marcados. Fora os milhares que dera para o centroavante, que deve ter feito uns vinte mil. Aliás, onde ele estará? E os demais? Nenhum jogador em campo ou nos bancos é conhecido. Ninguém veio do pebolim. Só ele.

Vem de novo a bola em sua direção, para ele partir correndo. Mas ele não sai do lugar. Recebe e domina. Descumpre o comando do joystick – escuta as mãos nervosas apertando os botões inúteis, os palavrões.

Fica com o pé em cima da bola. Posiciona-se onde sempre jogara: estático, na frente, na ponta direita.

Todos olham. Ali ele se movimenta para um lado e para o outro, com a bola sob a chuteira. Chega até o bico da grande área (“el área 18”). A defesa do outro time já voltara e estava em linha.

Ele olha, vê a brecha entre o zagueiro e o arqueiro e solta a pancada. A bola bate na trave e entra.

Gol! Igual a muitos que fizera

E ali ele fica. Não se mexe.

Se o quiserem no videogame, terá de ser como Fontanarossa o consagrou no “metegol”.

2.
Quando, nos anos quarenta, num conto do Cortázar, ele acompanhou uma inspeção oficial da companhia, acabou verificando que, num dado dia, saíram do metrô quatro pessoas a menos do que entraram.

Suas investigações sobre o mistério levaram-no a conclusões diferentes do que supunha a teoria de um amigo.

Segundo este, tal qual numa multidão saindo do Monumental ou da Bombonera, ou num aglomerado da Florida, ou numa manada de búfalos, haveria um desgaste atômico causado pelo atrito de tantas pessoas.

O desgaste causado nas roupas e corpos por tamanho e tão numeroso atrito produziria imperceptivelmente o desaparecimento de algumas unidades da multidão.

Setenta anos depois, resolve, neste conto, verificar a tese. Não conseguiria testá-la entre os búfalos nem no calçadão das lojas do centro.

Começa então a fazê-lo em vários estádios. Nos pequenos, espera fecharem as portas e vai até o responsável pela bilheteria. Alega auditoria federal ou algo assim. Pega o número. Checa a contagem nas roletas. Depois de todos saírem, passa, uma a uma, todas as catracas.

Nos grandes, copia os chips eletrônicos.

E comprova. Em todos os jogos, a partir de um determinado número de torcedores (nos pequenos públicos não há atrito suficiente), saem às vezes dois, às vezes três, às vezes quatro pessoas a menos do que entraram. Num jogo que lotou a Bombonera, chegou a contar oito de diferença!

Descartou desvio de recursos porque o número é pequeno – tais roubos sempre são muito maiores.

Pensa em procurar o amigo que lhe apresentara a teoria. Ou o próprio Cortázar, para mudar o conto. Mas eles não existem mais.

Talvez tenham desaparecido na saída de um River e Boca.
___________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)



Dida não vai para China. Voltou de lá
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Juca Kfouri

A experiência de Dida na China

Em entrevista exclusiva ao China Brasil Futebol, Dida revela seus três meses com Seedorf no Shenzhen FC


POR RODOLFO MOHR

O consagrado ex-goleiro da Seleção Brasileira e do Milan, Dida, não está de malas prontas para o futebol chinês.

Ao contrário do que indicaram algumas notícias, o ex-atleta não foi contratado em definitivo pelo Shenzhen FC, equipe da segunda divisão comandada por Clarence Seedorf.

“Estive a convite do Seedorf para acompanhar as partidas finais da temporada. Foram três meses na China mas já retornei para concluir o curso e obter a licença de treinador da CBF em dezembro. Sem essa licença não posso comandar equipes”, revelou com exclusividade ao China Brasil Futebol.

Dida, na verdade, exerceu as funções de assistente e consultor do Shenzhen, a convite de Seedorf. Além do dia a dia no clube, realizou trabalho de observação em jogos da Super Liga Chinesa, a primeira divisão do país.

“O futebol de lá está crescendo muito. Tecnicamente ainda são inferiores, mas os chineses estão querendo aprender e se aprimorar mais em questões táticas”, relatou.

O foco de Dida segue sendo sua formação. Concluiu o curso de Gestão Técnica da Universidade do Futebol, está fazendo fazendo o curso de treinadores na CBF e não pretende parar por aí. “Após a conclusão do curso da CBF pretendo fazer outro ano que vem na Itália”, planeja. O ex-goleiro ainda realizou um período de observação obrigatória para o curso da CBF no Internacional.

Aspectos como gestão de grupo, metodologia de treino, questões táticas e técnicas, fundamentais para a carreira de treinador, são objetos permanentes de estudo do futuro treinador.

Dida, 43 anos, é um dos maiores goleiros da história do futebol brasileiro. Conquistou a Copa do Mundo de 2002 pela Seleção Brasileira. No Brasil vestiu as camisetas do Vitória, Cruzeiro, Corinthians, Portuguesa, Grêmio e Internacional. Na Europa, defendeu o Milan por dez anos, onde foi duas vezes campeão da UEFA Champions League: em 2003 e 2007.

O Shenzhem FC é um clube da cidade de Shenzen, província de Guandong, ao sul da China, próximo a Hong Kong e a Macau. Na temporada 2016 da Liga Um Chinesa, a segunda divisão nacional, terminou em nono lugar com 40 pontos.


O treinador Clarence Seedor, seu auxiliar Valerio Fioti e Dida trabalharam juntos no Shenzhen FC


 


Futebol além do futebol
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Juca Kfouri

Recentemente, o técnico da seleção uruguaia, Óscar Tabárez, afirmou que “o futebol é uma excelente desculpa para falar de coisas mais importantes do que o futebol”.

E é com esse olhar que o livro “Além das Quatro Linhas” é lançado pela editora Vento Norte Cartonero.


A obra é uma compilação de reportagens do jornalista Roberto Jardim que têm o esporte mais popular do mundo com ponto de partida, mas que, como diz o título, vai além.

Dividido como uma partida, o livro reúne textos que resgatam alguns fatos históricos passados no Sul da América do Sul.

Na “primeira etapa”, duas matérias relatam episódios envolvendo futebol e as ditaduras do Chile e do Uruguai, nos anos 70.

No “intervalo”, um texto que resgata o único vexame da nefasta Operação Condor – que foi desvendado por dois jornalistas de Porto Alegre, pois um dos envolvidos era um ex-jogador de futebol. E, no “segundo tempo”, dois feitos marcantes do futebol da capital gaúcha protagonizados por Cruzeiro e São José.

Como diz o prefácio, assinado pelo jornalista Juca Kfouri, “Jardim tem o belo hábito de olhar para o futebol como uma forma de integração social, como mobilizador, não como alienante, equívoco frequente até entre gente que costuma pensar bem”. Kfouri finaliza: “Regar a plantinha da democracia é a tarefa de todos nós. Em todos os campos! Eduardo Galeano adoraria o livro de Roberto Jardim”.

LITERATURA CARTONETA – O movimento cartonero surgiu na Argentina por volta de 2001, período de uma grave crise econômica que deixou milhares de desempregados. Foi nessa época que o escritor Washinton Cucurto teve a ideia de fazer livros a partir do papelão recolhido nas ruas pelos desempregados que acabaram virando catadores.

Criado como uma espécie de fonte alternativa de renda acabou se tornando um fenômeno no país, com centenas de livros comercializados diariamente. A partir de então, a literatura cartonera virou uma tendência entre editoras alternativas dos países latino-americanos – com trabalhos espalhados do Chile ao México – e uma espécie resistência na forma de disseminar a cultura do livro e de tentar, de alguma forma, promover o resgate da cidadania.

A Vento Norte é o projeto de um pequeno grupo de pessoas que reside na cidade de Santa Maria (RS) direcionado a realizar de forma autogestionária, e sem vínculos nem apoio institucional de qualquer espécie, o trabalho de edição e circulação de livrinhos com capas de papelão confeccionadas a mão. Títulos de novos autores ou já publicados – a partir de cedência dos direitos – ajudam a construir um catálogo de literatura cartonera no Sul do Brasil.

Serviço
O que: lançamento do livro cartonero Além das Quatro Linha, coletânea de reportagens de Roberto Jardim.

Quando: 25 de novembro (sexta-feira), 19h
Onde: Brechó do Futebol, Rua Fernando Machado, 1188, Centro Histórico, Porto Alegre
Quanto: R$ 12
Como comprar: na hora ou por encomenda no facebook da Vento Norte Cartonero (facebook.com/ventonortecartonero)



STF 6, Andrés Sanchez 0
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Juca Kfouri

Com a decisão de ontem do ministro Teori Zavaski, sobe para seis o total de inquéritos que tramitam contra o ex-presidente do Corinthians, e deputado federal do PT, Andrés Sanchez no STF.


Uma rápida pesquisa revela que Andrés Navarro Sanchez, decorrente do foro privilegiado, tem mais cinco inquéritos criminais, que transitavam antes em primeira instância, tramitando no STF.

Tais inquéritos, anteriores a 2015, estão com o ministro Luiz Fux.

Se condenado em um único dos cinco processos por alguma das turmas do mencionado tribunal, além de perder o cargo de deputado federal, Sanchez pode ter sua prisão decretada.

Inq/3487DIREITO PENAL | Crimes Previstos na Legislação Extravagante | Crimes de “Lavagem” ou Ocultação de Bens, Direitos ou Valores

Inq/4077DIREITO PENAL | Crimes Praticados por Particular Contra a Administração em Geral | Sonegação de contribuição previdenciária

Inq/4069DIREITO PENAL | Crimes contra o Patrimônio | Apropriação indébita Previdenciária

Inq/4070DIREITO PENAL | Crimes Praticados por Particular Contra a Administração em Geral | Sonegação de contribuição previdenciária

Inq/4276 DIREITO PENAL | Crimes Previstos na Legislação Extravagante | Crimes contra a Ordem Tributária


Hermanos brasileiros
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Eles chegaram aos poucos e aos montes.

Primeiro nos anos 30 e 40.

E foram nos ensinando a jogar bola.

De tal forma que uma seleção brasileira de hermanos não é fora de propósito.

Para o gol Cejas ou Andrada.

Cejas que já veio campeão do mundo e sóbrio.

Cejas que ensinou a geometria das saídas de gol.

Andrada que deu aulas sobre devolução de bola aos brasileiros.

E quase Andrada se naturalizou para defender a seleção.

Isso sem falar no divino Fillol de breve experiência rubro negra.

A defesa é fácil.

Oscar Basso, Ramos Delgado, Perfumo e Sorín.

Basso deslocado para a lateral em respeito ao futebol.

Basso que não poderia ficar de fora.

Na frente da defesa?

O argentino que deu nome aos volantes brasileiros.

Carlos Martín Volante.

Volante que teria a seu lado o Mascherano.

Sastre distribuiria o jogo.

Sastre que foi catedrático na arte de jogar bola.

E lá na frente?

Tango, milonga e gols.

Doval, Artime e Tévez.

Vinho nas refeições.

Show dentro de campo.

Jogadores idolatrados por suas torcidas.

Quem disse que os brasileiros não amam os argentinos?


Pois se até Bernardo Gandulla virou verbete de nosso futebol!