Blog do Juca Kfouri

Arquivo : abril 2016

O Futebol
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Juca Kfouri

POR MATHEUS PICHONELLI, de CartaCapital

Em junho de 2013, um estrangeiro que visitasse São Paulo, maior cidade do Brasil, às vésperas da Copa das Confederações, fatalmente encontraria dificuldade para identificar onde estava a terra boa e gostosa da morena sestrosa descrita por Ary Barroso.


Naquele mês, jovens mobilizados paravam o trânsito contra o aumento da passagem de ônibus e a polícia responsável por reestabelecer a ordem, seja lá o que isso significa, mostrava os dentes do processo de quase 20 anos de amadurecimento democrático com cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo.

Os protestos daquele mês derrubaram a popularidade de governantes, indicaram a urgência de uma renovação política e exigiram mudanças de fato na relação entre representantes e representados.

Alguns governantes chegaram a demonstrar desconforto, mas entre a rebelião e as eleições, que consagrariam pouco depois as mesmíssimas fórmulas já identificadas como uma bomba-relógio, havia uma festa popular chamada Copa do Mundo.

Alguma coisa explodia em 2013, mas a expectativa construída em torno do Mundial tinha na argamassa os sonhos de um país finalmente prestes a cumprir seu ideal.

O país que exigia na ONU um assento permanente no Conselho de Segurança hoje se bate por uma cadeira rotatória da Presidência – e os símbolos de um projeto de grandiosidade caíram um a um, a começar pelo bilionário candidato a homem mais rico do mundo, passando pelos mares de lama em Minas Gerais, o surto de moléstias e microcefalia país afora e as ciclovias que não suportam a primeira onda às vésperas de outro grande evento, as Olimpíadas, no Rio.

“Não tem clima de Copa, né?”, diz o diretor Sérgio Oksman ao pai, Simão, no filme O Futebol, vencedor da competição brasileira de longas e médias do Festival de documentários “É Tudo Verdade”.

Dentro do carro, pai e filho mal pareciam estar a alguns quilômetros de Itaquera, para onde os olhos do mundo se direcionavam para o jogo de abertura da Copa.

Fazia frio, o céu estava nublado e a cidade, calada. Oksman tentava aos trancos retomar uma conversa interrompida com o pai havia 20 anos. O silêncio fora quebrado parcialmente com uma visita ao Brasil em 2013. O silêncio dos constrangidos fora driblado com uma visita dos dois ao Pacaembu. O futebol, a exemplo de um país inteiro, era a linguagem que ainda os ligava.

Daquela visita surgiu a ideia do diretor de retornar ao Brasil no ano seguinte e assistir à Copa do Mundo com o pai, que não sabia, ou não queria saber, se o filho distante morava em Madri ou Barcelona.

Dali em diante a distância entre expectativa e realidade segue em paralelo com a expectativa de um país prestes a explodir. O futebol, novamente, é o ponto de uma dissolução simbólica: a pujança dos 3 a 0 na final da Copa das Confederações contra a Espanha se esborracharia em cada gol da Alemanha na semifinal da Copa do Mundo no ano seguinte.

Da plateia, o espectador que esperava um reencontro, com um possível entendimento entre pai e filho e alguma trilha sonora de densidade dramática ao fundo, se espatifou. Estranhos um para o outro, eles acompanhavam a Copa das Copas como se ela acontecesse em outro planeta; o mais perto que chegaram de festa foi uma viela de Itaquera, onde a certa altura do filme eles estacionam o carro para ouvir os gritos que vinham do estádio sem ter ideia do que acontecia ali dentro.

Não havia rádio no carro porque o carro saiu da fábrica sem o equipamento. Era a explicação do pai para justificar a sua disposição a mudanças a certa altura da vida.

Na narrativa contemporânea do filho pródigo, não é o filho quem sai de casa em direção ao mundo. É o pai, indisposto a deixar de ser filho, que deixa a família e vai buscar abrigo na casa da mãe. No esforço do filho em identificar qualquer laço entre eles além da desistência e do trauma não articulado como trauma, o futebol serve como catalisador de uma expectativa frustrada.

O pai não conversa. Não quer conversar. Não muda. Não quer mudar. É turrão, teimoso, insolente, ríspido. Ainda assim nutrimos simpatia por ele. As ruas por onde eles passam, sem se fixar exatamente em nada, são as ruas que nós, brasileiros comuns, caminhamos todos os dias.

Os lugares nos são familiares, embora, de dentro do carro, onde estamos todos, tenhamos certa dificuldade em identificar qualquer endereço.

No documentário, o retrato do Brasil da Copa das Copas é uma realidade gelada, onde todas as ruas parecem iguais, todos os bares parecem iguais e onde os abrigos se revelam no subsolo – o amparo, mostra sem querer o diretor, é uma garagem de prédio escura.

Aquele pai, aparentemente seguro na própria rotina, bate no peito para dizer que ninguém entende mais de futebol do que ele, mas se perde na própria memória. Do passado, diz, não tem muito o que falar. Não tem muito a aprender. Não tem nada a emendar.

O pai do filme é um país inteiro que se silenciou em duas décadas. Que, por não reconhecer o sofrimento, disfarça o sintoma que a câmera cansou de flagrar: aquele homem, com seus tiques, seu TOC, seus vícios, é uma bomba-relógio incapaz de reconhecer a si mesmo.

Aquele homem, quando na direção, transita aos solavancos. Ele se transforma em sua própria cidade a zunir que, sem cores ou grandes emoções, suporta os dias de agonia entre rangidos de dentes como num velho tique-taque da música de Chico Buarque. Os dias ali parecem menos insuportáveis com uma piada no bar, o futebol pra aplaudir, um crime pra comentar, um samba pra distrair – a cachaça, a fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir, e os andaimes (capturados pela câmera) pingentes que a gente tem que cair.

Num lapso de lucidez alcoólica, aquele homem prevê: a Alemanha vai ser campeã. Ou a Argentina. (Foram os dois finalistas). E o Brasil, admite sem disfarçar a amargura, não tem condições de vencer.

Aquele homem e o clichê do próprio país se encontram numa esquina ao fim de uma vitória enganosa na primeira fase para cantar a Aquarela do Brasil. Bêbados, exaltam o samba e pandeiro, discorrem sobre fontes murmurantes que matam a sede e onde a lua vem brincar. Ao redor, aquele país lindo e trigueiro escurece no frio e na miséria da solidão das pessoas, todas elas, dessas capitais.

NOTA DO BLOG: o filme “O Futebol” está em cartaz no Belas Artes, em São Paulo, em horários pouco convencionais, mas é angustiantemente belíssimo.

Veja o trailer AQUI.


Documento da Lava Jato sugere cartel na Olimpíada
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Juca Kfouri

Apreendida pela PF, pauta de reunião lista construtoras vencedoras de licitação do Parque Olímpico mais de um ano antes de o resultado oficial ser divulgado. Empreiteiras investigadas na Lava Jato são favorecidas em mais de 90% dos investimentos para os Jogos



por Adriano Belisário, da Agência Pública

Principal interlocutor de Marcelo Odebrecht sobre projetos da Copa e Olimpíada, o executivo Benedito Junior encerrou a carreira de três décadas na maior construtora do Brasil quando a Polícia Federal bateu à sua porta, em fevereiro deste ano, em meio às investigações da Lava Jato. Centenas de documentos foram apreendidos com ele. Entre planilhas com repasses a políticos, há um documento que não traz cifras. No entanto, trata de um negócio bilionário envolvendo o palco principal dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro.

É uma pauta de reunião na qual a Construtora Norberto Odebrecht, a Andrade Gutierrez (AG) e a Carvalho Hosken (CH) aparecem como as empresas responsáveis pelo consórcio do Parque Olímpico da Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio. A data é 11 de fevereiro de 2011. Demoraria mais de um ano para elas serem anunciadas oficialmente como vencedoras da licitação – após disputarem sozinhas uma “concorrência” que elas mesmas conceberam. E mais: favorecendo as empresas, a prefeitura ignorou o próprio prazo para entrega de estudos de viabilidade do empreendimento, impossibilitando a participação de outras concorrentes e direcionando a licitação ao trio vencedor.

Para Paulo Furquim, ex-conselheiro do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o documento analisado pela Pública (veja abaixo) é um indício de colaboração entre concorrentes que merece ser investigado. “Há um papel de uma empresa que antecipa o que ocorreu depois. Ele não é como uma Mãe Dináh, não está especulando sobre o futuro. Está dizendo coisas sobre o futuro como quem tem segurança do que está acontecendo”, aponta. Professor de direito econômico pela Fundação Getulio Vargas, Mario Schapiro concorda: “Há indicadores que sustentariam uma investigação em várias instâncias, como no âmbito criminal, administrativo através do Cade, de improbidade, enfim, várias investigações deveriam ser feitas com uma pergunta em comum: esta licitação foi dirigida ou não?”.

O Ministério Público do Rio de Janeiro anexou os fatos apontados pela reportagem a um inquérito em andamento sobre os contratos da Olimpíada, afirmando que “em tese, há indícios de possíveis irregularidades”.


O documento foi apreendido na casa de Benedito Junior, ex-presidente da Construtora Norberto Odebrecht, no Leblon (RJ)

De acordo com a pauta da reunião, era preciso “entender o ‘convênio’” entre a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro (PCRJ) – a “cliente” – e o Ministério dos Esportes (ME), além de “acompanhar o posicionamento” deste órgão sobre o modelo a ser adotado no empreendimento. Já em abril de 2011, enquanto o ministério avaliava a proposta da prefeitura para entrada de capital privado no negócio sob pretexto de redução de gastos, Benedito Junior e executivos da Carvalho Hosken e Andrade Gutierrez uniram-se e solicitaram formalmente autorização ao município para elaborar o estudo de viabilidade da parceria público-privada. Conhecida como PPP, essa modalidade de contratação é usada em grandes projetos e prevê, em tese, dividir benefícios, custos e riscos de um empreendimento entre o poder público e a parte privada.

Ao acatar o pedido, em maio, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, abriu a oportunidade de outros interessados apresentarem estudos de viabilidade em até oito meses, tendo assim 5 de janeiro de 2012 como prazo final. Mas o consórcio se adiantou. O trio entregou o estudo de viabilidade e a “modelagem jurídico-financeira” da PPP já no final de outubro de 2011. Logo em seguida, com base nessa proposta – desconsiderando a possibilidade de outras empresas se apresentarem nos dois meses seguintes –, a Casa Civil da prefeitura iniciou o trâmite interno da minuta do edital.

“No mínimo, isso é muito estranho. O prefeito não era obrigado a impor este prazo, mas, ao ignorá-lo depois, ele fere a segurança jurídica e uma expectativa legítima de outras empresas que viram o chamamento. Tem um claro problema aí. Não respeitar os termos definidos no ato administrativo que abriu prazo para os demais interessados é indício de desrespeito aos princípios da moralidade e impessoalidade”, analisa Marcus Bacellar. Para o professor de direito administrativo na UFRJ, o estudo apresentado pelas empresas “basicamente direciona todo o edital, pois a modalidade de concessão [PPP Administrativa] foi definida pelas empresas, a forma de remuneração também, o objeto da concessão também, e assim por diante”.

Não à toa, o edital chamou atenção dos órgãos de controle interno da prefeitura. A Controladoria-Geral do Município compilou diversos pareceres com questionamentos à parceria. Entre eles, o da Procuradoria do Município recomenda “avaliar com detalhe os pontos levantados” acerca da relação custo-benefício da PPP. São listados seis desequilíbrios potencialmente lesivos aos cofres públicos na proposta – entre eles, despesas com as remoções, custos cartoriais, gastos de regularização imobiliária e benefícios da concessionária omitidos dos cálculos da proposta.

Na mesma linha, a Secretaria Municipal de Fazenda enumerou quatro despesas assumidas pela prefeitura do Rio que não foram listadas e pediu maior “detalhamento de mecanismos para o pagamento a favor do município nos casos de reequilíbrio econômico financeiro”. Isso porque a prefeitura estava prestes a assumir gastos difíceis de quantificar previamente, como as desapropriações e indenizações na Vila Autódromo. O estudo de viabilidade das empreiteiras considerava a remoção da comunidade, que se tornou símbolo de resistência às remoções, como “fundamental para o desenvolvimento do projeto”.

Os alertas não bastaram. Após ter recebido as solicitações para uma revisão na parceria proposta, Eduardo Paes publicou o edital da PPP mesmo assim. “Os órgãos municipais já apontavam que a proposta adotada por Paes beneficiava muito mais a parte privada que a própria prefeitura. Mesmo assim, o processo administrativo interno da prefeitura passou por cima dessas recomendações. No fim, o Conselho Gestor de PPPs e o Tribunal de Contas do Município (TCM) decidiram pela necessidade urgente de aprovação do processo licitatório”, explica Mariana Medeiros, advogada e mestre em Direito da Cidade com uma pesquisa sobre o Parque Olímpico.

Crônicas de uma vitória anunciada

 
Lançado o edital, durante o período de inscrições, o TCM reforçou a existência de “indícios de que o consórcio [Odebrecht, Andrade Gutierrez e Carvalho Hosken] que fez o estudo [de viabilidade] terá vantagem sobre os demais concorrentes”. Dito e feito. Para completar, poucos dias antes do término do prazo, a prefeitura publicou uma errata em que, entre outros ajustes, remanejou valores de obra para consultoria e tornou obrigatória a apresentação de uma carta atestando a viabilidade do negócio assinada por uma instituição financeira com patrimônio de, no mínimo, R$ 1,2 bi – o que beneficiou o trio de gigantes do ramo da construção.

Logo após o término da “concorrência”, outra mudança. Dessa vez, a prefeitura alterou o plano geral (chamado de “master plan”) do Parque Olímpico, que constava no edital e foi elaborado pela empresa Aecom ao custo de R$ 2,9 milhões para os cofres municipais. Isso favoreceu a exploração imobiliária do terreno pelas empresas. Segundo o Comitê Olímpico Internacional (COI), as mudanças foram resultado de “uma consulta com as empreiteiras da PPP e são motivadas por esforços de maximizar o valor dos terrenos e as oportunidades de desenvolvimento”.

A única diferença entre a pauta de 2011 apreendida com o executivo da Odebrecht, Benedito Junior, e o resultado de 2012 é a inclusão da Carvalho Hosken também no negócio de obras e manutenção da infraestrutura do Parque, e não apenas na parte de desenvolvimento imobiliário. “São vários elementos consistentes com uma tese de algum favorecimento, como a incorporação de um ator que poderia ser complicador no processo de concorrência, uma vez que detinha ativos importantes e poderia entrar sozinho na disputa”, afirma Paulo Furquim.

Renato Cosentino, pesquisador do projeto olímpico para a Barra da Tijuca, completa: “Articulando-se com empresários locais, como o grupo Carvalho Hosken, proprietário de milhões de metros quadrados de terra na região, as grandes empreiteiras perceberam que nenhum negócio imobiliário se efetivaria ali sem acordo com eles. E, ao mesmo tempo, o projeto olímpico não se realizaria apenas com estas empresas locais”. Segundo ele, os Jogos viabilizaram uma quantidade de recursos inédita para um projeto antigo: transformar a Barra no novo “centro” do Rio.

Eduardo Paes – que começou sua carreira política com 23 anos naquela mesma região, como subprefeito da Barra e Jacarepaguá – nega qualquer irregularidade. Para ele, é natural que em uma PPP as empresas queiram “maximizar o seu lucro” e, no caso do Parque Olímpico, há até mesmo “problemas que trazem até prejuízo para o [setor] privado”, pois “havia uma projeção de crescimento do mercado de imóveis no Brasil de 3% ao ano e tem dois anos que não cresce”.

Porém, pesquisadores que acompanham o projeto ouvidos pela Pública refutam a possibilidade de qualquer prejuízo às construtoras. Com duração de 15 anos, a PPP inclui transferência de recursos para as empreiteiras em três níveis. A primeira consiste em mensalidades, que totalizam R$ 265 milhões. Há, ainda, pagamentos extras que somam R$ 250 milhões e o repasse de terras públicas avaliadas em mais de R$ 850 milhões. No local, as empreiteiras são responsáveis por realizar arruamento, iluminação pública, limpeza, sinalização, vigilância e outras obrigações outrora cumpridas pelo poder público. Depois dos Jogos, 75% das terras do Parque serão comercializadas pelas empreiteiras no mercado imobiliário. A venda dos condomínios de luxo ali construídos vai para o bolso das empreiteiras.

“Como uma PPP que está sendo integralmente remunerada pelo poder público pode causar prejuízo para a iniciativa privada? É impossível. É um ganho privado baseado em investimentos públicos em infraestrutura”, aponta Mariana. Para ela, a PPP faz a prefeitura gastar mais do que o consórcio teria direito se recebesse apenas pela execução da obra – e as empreiteiras, se beneficiarem mais que o poder público. Em suma, um excelente negócio para as empresas, um péssimo negócio para o bolso dos cariocas.

Ilha Pura: da vila dos atletas ao bairro dos reis

 
“Um bairro planejado, registrado como tal”; “um novo bairro, um novo destino, um novo estilo de vida”; “um bairro de alto padrão”; “o bairro do futuro”; “um bairro que nasce pronto” e com “compromisso com o bom gosto, o luxo e a sofisticação”. Os anúncios imobiliários do Condomínio Ilha Pura, na Barra da Tijuca, deixam claro que não se trata de um complexo imobiliário qualquer.

Com 823 mil metros quadrados, o novo bairro está ao lado do Parque Olímpico e das principais vias de transporte implementadas para os Jogos. Construídos e administrados pela Odebrecht Realizações (que aparece na pauta de Benedito como O’R) e a Carvalho Hosken (CH), seus condomínios possuem preço médio de quase R$ 10 mil o metro quadrado.


Vila dos Atletas em fase de construção. Após a Olimpíada, espaço fará parte do condomínio de luxo Ilha Pura (Foto: Prefeitura do Rio de Janeiro)

Ainda que renda às empresas mais de R$ 254 milhões, a hospedagem dos participantes dos Jogos na Vila dos Atletas é apenas um detalhe do empreendimento. “A Carvalho Hosken é dona de grandes porções de terras naquela região, não só do Ilha Pura e do Parque Olímpico, e o investimento público da PPP gera grande valorização nas terras do seu entorno”, analisa Mariana Medeiros. Descrevendo-o como o “dono da Barra”, a BBC publicou reportagem sobre o proprietário da Carvalho Hosken: “A Ilha Pura vai ter os Jardins do Rei. Nós vamos transformar todo mundo em rei”, anunciou Carlos Carvalho. Sobre a remoção da comunidade de Vila Autódromo, o magnata foi taxativo: “Ali tem muita área que não pode ser habitada, e tudo depende de como você organiza. Você só não consegue organizar com favela, até porque você não pode pensar em tirar um favelado de onde ele vive, do habitat dele, para que ele venha a pagar aluguel e condomínio”. E concluiu: “Você não pode ficar morando num apartamento e convivendo com índio do lado, por exemplo. Nós não temos nada contra o índio, mas tem certas coisas que não dá. Você está fedendo. O que eu vou fazer? Vou ficar perto de você?”.

O nobre negócio foi viabilizado com R$ 2,9 bilhões por meio de um empréstimo com juros preferenciais pela Caixa Econômica Federal. Além disso, a infraestrutura básica de urbanização da Vila dos Atletas será paga pela prefeitura através do PPP do Parque Olímpico.

Especialistas afirmam que isso pode ser uma forma de contornar custos obrigatórios para as empresa empreenderem na região. “De acordo com o Plano Diretor do Rio de Janeiro, para fazer um condomínio na Barra, é preciso cobrir diversos gastos em infraestrutura: trazer água, construir estação de tratamento de esgoto etc., pois lá é considerada uma área que não é prioritária para investimentos públicos. Quando a Vila dos Atletas é construída ali, a prefeitura já banca tudo isso, então muitas despesas que a empresa deveria ter já não são mais necessárias”, analisa a urbanista Giselle Tanaka.

Cartel da Lava Jato participa de mais de 90% dos investimentos na Olimpíada

A partir de dados da Autoridade Pública Olímpica (APO) sobre os projetos relacionados aos Jogos, a Pública levantou as empreiteiras responsáveis por cada empreendimento. Revezando-se em diversos consórcios, Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão e a Carioca Christiani Nielsen participam de projetos que somam R$ 28,5 bilhões dos R$ 31,2 bilhões calculados pela APO. O mesmo seleto grupo de empreiteiras é investigado na Lava Jato por cartel para obras da Petrobras.

Embora o prefeito Eduardo Paes enfatize a origem privada de boa parte dos investimentos na Olimpíada, pesquisadores apontam distorções no cálculo desses números. No caso da PPP do Parque Olímpico, por exemplo, o R$ 1,15 bilhão de “investimentos privados” corresponde a R$ 850 milhões em terras públicas privatizadas e R$ 300 milhões do aumento de gabarito para construção de prédios na região, benefício também cedido pela prefeitura.

“Também na Vila dos Atletas, a APO calcula o valor da terra privada e o empréstimo da Caixa como recursos privados. Não há coerência na metodologia. Por que isso? Porque, se os recursos são privados, não é necessário realizar o debate público sobre o investimento”, critica Renato Cosentino. Pesquisadora da PPP do Porto Maravilha, Mariana Werneck afirma que, “além de tratar dinheiro do FGTS como investimento privado, eles continuam colocando o Porto Maravilha – que nada mais tem a ver com os Jogos – dentro do cálculo, para aumentar a conta da iniciativa privada”.

Confira a presença das empreiteiras por projeto olímpico. Os valores estão em milhões de reais.



Passou
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Primeiro, lembra-se de, pequeno, ficar pulando como goleiro no chão da garagem. Seu pai chutava e ele se exibia em pontes inimagináveis.

Depois, de ele chutar pro filho pequeno espalmar como acrobata na grama da praça.

Agora não defende nem chuta e sente saudade dos três.

Pensa que uma bola poderia tê-los unido no mesmo jogo.

Cada hora um chutando e outro no gol, ou os três tabelando, ou dois na linha e um no gol, ou sentados no chão, com a bola no meio, bebendo água, suados, falando alto, rindo e se preparando pros próximos chutes.

Os três na garagem ou na praça.

Estiveram juntos algumas vezes em idades que teriam permitido a brincadeira, o jogo, os gols e as defesas dos três.

Mas não se lembraram de pegar uma bola.

E então tudo passou – veio a morte, veio o velho, veio o adulto.

Imagina que nada teria passado se tivessem jogado juntos ao menos uma vez.

Que tudo teria estancado naquele momento.

E que eles teriam ficado para sempre como eram então.

Jogando bola juntos.

Agora não dá mais.

Que droga.
__________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


“Geraldinos”, um filme para matar de saudades
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Juca Kfouri

Nesta quinta-feira, em São Paulo, e na semana que vem, no Rio,  entra em cartaz o filme “Geraldinos”, de Pedro Asbeg e Renato Martins.

Um filme sobre o Maracanã que não existe mais, aquele em que os torcedores das gerais sentiam o perfume da grama, o cheiro da bola, o odor de seus ídolos.

Veja o trailer AQUI.


Ex-presidente do São Paulo é expulso do Conselho do clube
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Juca Kfouri

Carlos Miguel Aidar, três vezes presidente do São Paulo, filho de Henri Aidar, já falecido, e que também presidiu o clube durante seis anos, entre 1972 e 1978, foi expulso ontem do Conselho vitalício do Tricolor.


De 177 conselheiros presentes à assembleia que decidiu a sorte de Aidar, 152 votaram por sua exclusão, o que, praticamente, o alija da vida do clube.

Outras denúncias contra a administração dele também estão sendo investigadas pelo Ministério Público de São Paulo.

Escreveu o diário “Lance!” em tom de epitáfio:

“Com a perda de seus direitos políticos, Carlos Miguel Castex Aidar,  de 69 anos, encerra de maneira melancólica sua história no clube, que contou com três mandatos de presidente, dois na década de 1980, e o último de abril de 2014 a outubro de 2015. O advogado ainda mancha o nome da família no São Paulo, já que seu pai, Henri Aidar também foi presidente do clube”.

Lamentável.

Comentário para o Jornal da CBN desta terça-feira, 26 de abril de 2016, que você ouve aqui.


Ingresso sob a pele
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Juca Kfouri

Fãs de time argentino de futebol terão acesso a estádio através de chip implantado debaixo da pele.

“Passion Ticket”, do Club Atletico Tigre, é o primeiro no mundo a permitir o acesso a arenas através da tecnologia de biohacking

Todo torcedor fanático leva seu time dentro do coração e a emoção à flor da pele mas, graças à tecnologia de hackeamento biológico, os fãs do Clube Atlético Tigre serão os primeiros no mundo a literalmente fazer com que sua paixão dê acesso às arenas onde seu time jogará.

Denominado Ticket da Paixão, o mecanismo consiste na implantação no corpo dos fãs de um microchip com tecnologia RFID, que faz identificação através de radio frequência, permitindo que eles tenham acesso às arenas apenas através da sua aproximação a scanners especialmente programados em diferentes entradas do estádio.

O microchip conterá informação pertinentes a partida, que habitualmente estariam numa versão eletrônica ou impressa do bilhete de acesso.
“Estamos muito animados com o Passion Ticket, porque ele está na raíz da paixão que nossos fãs têm em relação a equipe”, diz Ezequiel Rocino, secretário geral do Club Atlético Tigre, e primeira pessoa a experimentar o recurso.

“Essa nova opção de ticket nos permitirá oferecer uma experiência melhor para nossos fãs mais passionais, já que eles terão que enfrentar menos filas e menos espera para entrar no estádio, inclusive usufruindo de benefícios exclusivos reservados aos detentores do Passion Ticket”, explica o dirigente.

O Club Atlético Tigre espera o quanto antes conseguir da AFA- Associação Argentina de Futebol e das autorizades médicas locais, a aprovação para a implementação do Passion Ticket, que foi desenvolvido em parceria com a agência de publicidade McCann Buenos Aires.


Passo a passo para evitar um gol contra
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Juca Kfouri

1. Na semana passada, o item nº 1 da pauta da CCJ era a decisão do senador Benedito Lira (PP-AL), reconhecendo o recurso do senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP) e mantendo as decisões da última reunião da CPI, que convocava Marin, Del Nero, Teixeira e o prefeito Gustavo Feijó. Uma questão de ordem inesperada do senador Ciro Nogueira (PP-PI) tinha colocado em dúvida a votação da CPI, decisão que o presidente Renan Calheiros subitamente acatou, remetendo o caso para a CCJ. O voto favorável do relator derrubou a manobra da bancada da bola e surpreendeu a dupla Ciro-Renan.

2. Atordoado, Ciro procurou Lira em seu gabinete e pediu que ele mudasse o seu voto, para não derrubar sua questão de ordem. Lira recusou:

– Em absoluto, não vou mudar, Ciro.

3. Ciro insistiu, dizendo que era necessário. Lira continuou firme:

– Não mudo, nem retiro meu voto. Não devo nada à CBF, Ciro, não devo um único centavo a ela.

4. Ciro continuou teimando. Lira, resistindo:

– Olha, Ciro, eu nem gosto de futebol. Não entendo de futebol. Eu era até contra a Copa no Brasil, que só trouxe despesas e escândalos. Nem fizeram as obras que prometiam como legado da Copa. Ficou tudo pela metade. E o Brasil pagando a conta. Não tenho nada a ver com essa gente. Se vocês querem salvar o pescoço da turma da CBF, não contem comigo.

5. Ciro percebeu que, embora presidente do PP, não conseguiria dobrar o senador do PP das Alagoas.

6. Mas, Ciro também é teimoso. Saiu do gabinete de Lira e tramou a operação-desmonte diretamente com o conterrâneo de Lira, o presidente Renan Calheiros, pai do governador (Renan Filho) que derrotou Lira na disputa alagoana pelo governo estadual em 2014.

7. Ciro foi se socorrer com o presidente da CCJ, o senador José Maranhão (PMDB-PB), que simplesmente retirou o voto de Lira da pauta e o devolveu ao relator, para ‘reexame’ – significando que a matéria não estava pronta para ser votada por pedido do relator.

8. Para o público externo, parece que Lira, de repente, desistiu do próprio voto e o pediu de volta para reexaminá-lo. Na realidade, o voto de Lira foi retirado de pauta arbitrariamente por Maranhão (atendendo apelo de Ciro e ordem de Renan) e devolvido à força a Lira.

9. Assim, o tema nº 1 da reunião da CCJ da semana passada, cancelada por falta de quórum, simplesmente evaporou-se da pauta da próxima reunião da CCJ, marcada para essa quarta-feira, 27. O voto de Lira, contra os interesses de Ciro e da bancada da CBF, desapareceu num passe de mágica.

10. Amanhã, terça-feira, 26, no plenário do Senado Federal, um dia antes da reunião mutilada da CCJ, o senador Randolfe Rodrigues (REDE-RS) — autor do recurso que resistiu às manobras de Ciro Nogueira — vai denunciar esse mistério. E vai pedir que o voto do relator seja colocado em pauta imediatamente e votado pelo plenário ainda nessa terça-feira.

11. Assim, diante da TV Senado e de todas as torcidas do Brasil, será desfeito o ‘gol de mão’ da dupla Ciro-Renan.

12. É a última chance que a CPI da CBF terá para evitar o gol contra dos inimigos do futebol brasileiro.


É permitido enganar um povo?
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Juca Kfouri

POR EMMANUEL NAKAMURA*

A essa pergunta Hegel tinha uma resposta paradoxal: «um povo não se deixa enganar acerca da sua base substancial, da essência e do caráter determinado do seu espirito, mas que ele é enganado por si mesmo acerca do modo como ele sabe desse espírito e como julga as suas ações, os acontecimentos etc. segundo esse modo.»[1] Aceitar essa resposta de Hegel significa ter como ponto de partida indivíduos livres e emancipados e que não precisam e nem aceitam nenhum tipo de tutela: um povo não se deixa enganar, ele engana a si mesmo. Logo as instituições sociais e políticas são um resultado de suas próprias ações e da maneira como as julga.

Hoje em dia, o cidadão médio brasileiro tem como bandeira libertar o Brasil da corrupção. Ele não tem nenhum interesse concreto, apenas uma ideia puramente abstrata de justiça vingativa que é uma segunda lesão ao direito. Se os políticos lesam o direito através de práticas corruptas, a justiça vingativa da classe média justiceira é uma segunda lesão ao direito. Assim como os políticos corruptos, ela está aquém de qualquer representação moral que exigisse uma justiça legal. Como se trata de uma ideia abstrata de justiça vingativa, ela é uma abstração de qualquer interesse particular concreto. Logo, a classe média vingativa se volta com violência contra qualquer opinião contrária, solapando um dos pilares do Estado de direito: a liberdade de opinião.[2]

Afirmar que o povo brasileiro construiu um Estado de direito seria, no entanto, uma opinião muito generosa. Temos um «Estado Oligárquico de direito».[3] Foi o que conseguimos construir depois da abertura democrática e não devemos nos envergonhar tanto disso, pois se tratava de uma limitação da consciência da liberdade que diz respeito à história mundial. As ditaduras do capital foram todas patrocinadas pelos EUA; assim como as ditaduras do proletariado, pela antiga URSS. Tratava-se de uma disputa pelo poder entre dois blocos geopolíticos que deixou feridas que vão demorar a cicatrizar: os países dos leste-europeu estão longe de serem Estados democráticos de direito e os conflitos no oriente médio resultam em grande parte de ditaduras financiadas anteriormente pelos dois blocos. No Brasil não poderia ser diferente. A ditadura militar nos legou fundamentalmente dois pensamentos: a ideologia anticomunista e a crença no crescimento econômico. Este último é uma visão rebaixada da teoria desenvolvimentista que buscava superar a miséria social brasileira.

A esquerda, no entanto, sempre acreditou que poderia ser diferente, afinal o PT surgiu junto com a abertura democrática. E, de fato, poderia ser, caso o PT tivesse conseguido representar politicamente os interesses sociais que potencialmente deveriam se auto-diferenciar com a desmilitarização do controle social. Mas, para isso, o PT teria que representar os diversos setores da sociedade que durante a ditadura não tiveram representação política. E ele só poderia fazer isso através do poder legislativo, pois não temos até agora outra forma política para isso. O legislativo é espaço institucional onde os conflitos sociais podem adquirir uma forma política. Durante a ditadura eles foram reprimidos militarmente. Sindicatos, movimentos sociais e qualquer outro setor social só podem organizar os seus próprios interesses autonomamente quando estão livres de qualquer controle estatal, interesse governamental ou interesses políticos da sociedade como um todo. A representação parlamentar é a única forma que permite essa separação. – Uma democracia direta, p. ex., contaminaria o desenvolvimento de interesses de grupos sociais com o debate político e a administração do todo. – Quem ocupou o poder legislativo foi, no entanto, o PMDB: «Estamos aqui há 50 anos. Temos raízes. Somos o partido que derrubou a ditadura sem matar ninguém, só com a política.»[4] Neste sentido, a análise de Marcos Nobre está correta: «a verdadeira força política hegemônica da política brasileira é o pemedebismo.»[5]

O PMDB foi quem controlou o processo de democratização e conseguiu fazer isso democraticamente, porque os dois partidos políticos que surgiram com a abertura democrática – PT e PSDB – deram pouca importância para o poder legislativo. Por isso a sociedade brasileira não conseguiu desenvolver novos interesses sociais e muito menos dar uma voz política a estes. Para o brasileiro ficar contente basta uma coisa: o crescimento econômico. PT e PSDB se contentaram então apenas em lançar candidatos «gerentes do condomínio político pemedebista brasileiro.»[6] A representação pemedebista tem, portanto, um enraizamento profundo. O PMDB representa uma sociedade que mal sabe formular os seus interesses, porque no passado sempre foi calada por meio da violência e depois não nunca teve meios políticos para formular livremente os seus interesses. Por isso, o melhor exemplar do que é o cidadão médio brasileiro é o «Macho PMDB», o «pior tipo de homem de todos os tempo» ou «o pior dos moralistas».[7] Não é a toa que a classe média justiceira só sabe bater em panelas. Ela simplesmente não sabe o que quer. Ou melhor, ela sabe: tudo que ela quer é que o país volte a crescer economicamente. Por isso, o discurso aparentemente moral-anticorrupção é pura dissimulação. Pouco importa que quem julgue o impeachment sejam deputados envolvidos no esquema de corrupção da Petrobrás. O importante é derrubar uma presidente que não consegue fazer a economia voltar a crescer. Prova disso foi o escândalo do mensalão. Lula foi reeleito, porque o que importava mesmo era que a economia estava crescendo.

O PT conseguiu gerir o condomínio pemedebista, porque herdou do PSDB uma situação de estabilidade monetária, em um momento de melhora na conjuntura econômica internacional, mas, principalmente, porque era a consciência social da abertura democrática. Logo, a sociedade brasileira, como um todo, depositava no governo petista todos os anseios de conquista de liberdades pessoais, sociais e políticas. O governo Lula, no entanto, canalizou essa força social para reanimar a crença no crescimento econômico. – Ao chegar ao governo, o PT manifestou também uma limitação da política latino-americana que diz respeito ao longo histórico de repressão social no continente. Como interesses sociais nunca puderam se desenvolver livremente, os diversos agrupamentos sociais, assim como a classe média, nunca conseguiram formular o que queriam. Diante de uma política que a afetava, mas que ela nunca conseguiu participar, restou à esquerda um sentimento em comum de miséria social e uma aspiração à soberania popular, traduzida no Brasil em «Lula lá». Lula é a imagem sensível desse sentimento popular. Ele é a representação sensível das liberdades sociais que os setores de esquerda queriam conquistar: «É por preconceito, proclamou, que os ricos não toleram que desfrute de um sítio no fim de semana. ‹Todo mundo pode, menos essa merda desse metalúrgico›, disse. A execração é de classe: ‹Eles partem do pressuposto que pobre nasceu para comer em cocho. Eu aprendi que não, quero comer comida boa›.»[8] Mas isso mostra que os países latino-americanos nunca conseguiram pensar as liberdades pessoais, sociais e políticas como pertencentes ao homem como tal – i.e. ela sempre precisou projeta-las exteriormente numa pessoa absoluta, e não em direitos sociais, constitucionalmente garantidos. Daí porque a força social do processo de democratização brasileiro se transformou em «lulismo»[9]. – Talvez isso ocorra porque desconhecemos o princípio da liberdade subjetiva, que segundo Hegel o protestantismo trouxe ao mundo.[10] Ao trazer Deus para o coração do homem, Lutero mostrou que, através de Cristo, Deus se mostrou como um de nós e, logo, nos elevou à mais suprema liberdade. Com isso, ele livrou o cristianismo da carência de abstração que projetava as liberdades subjetivas em uma autoridade exterior ou em um objeto sensível. Mas o Brasil é fundamentalmente um país católico e continua apegado a uma autoridade exterior. Mesmo as novas comunidades evangélicas estão muito longe da doutrina de Lutero, pois projetam as liberdades numa unidade comunitária na qual as liberdades subjetivas são distorcidas por um pastor malformado.

A polarização política atual mostra como pouco conseguimos nos distanciar do período militar. Não é a toa que aqueles que são pró-impeachment só sabem repetir a ideologia anticomunista do período ditatorial. O «vai pra Cuba», na boca do cidadão médio brasileiro, reproduz uma visão distorcida de Cuba do período da guerra fria, como um país com muita miséria social, políticos corruptos e ausência de liberdade de expressão. A ironia é que é exatamente aqueles que gritam «vai pra Cuba» que estão retransformando o Brasil nesta representação distorcida de Cuba, pois, ao querer reintroduzir a ideologia anticomunista para dentro do Estado, eles se mostram a favor do controle de liberdade expressão e que a relação entre cidadão e Estado seja baseada na desconfiança. Do outro lado, os que são contra-impeachment afirmam que se trata de um golpe. Há desse lado um pouco mais de razão, pois, ao se voltarem contra a manipulação política de instituições jurídicas pelo PMDB e PSDB, eles reivindicam que nenhum partido deve estar acima da constituição. Ambos os lados querem, no entanto, apenas que o país volte a crescer economicamente. O empresariado é pró-impeachment porque sabe o PMDB não vai deixar o governo em paz e quer resolver logo a situação. A classe média justiceira finge acreditar que a crise política é apenas o resultado da «má condução do estado pelo lulo-petismo», i.e. de um governo que formou «quadrilhas para assegurar o poder com a aquiescência de empresários e partidos.»[11] No fundo ela quer também apenas a volta do crescimento econômico, pois não dá a mínima (1) para a manipulação política das instituições jurídicas, (2) para o fato de que os parlamentares que julgarão o impeachment estão tão ou mais envolvidos no esquema de corrupção da Petrobras e (3) em entregar o poder executivo ao PMDB, que sempre comandou o poder legislativo como sendo o seu condomínio. Já os que são contra-impeachment criticam a política econômica do governo Dilma e os petistas, em particular, apostam na única solução que encontraram desde o fim da ditadura militar: «Lula lá». A imprensa, que pouco se distanciou da ditadura militar, pede a renúncia da presidente, reconhece que não há base legal para o impeachment e por isso pede um sacrifício da presidente para salvar a constituição.[12] Finge esquecer que uma constituição livre e democrática não precisa do sacrifício de ninguém.

O que vem à superfície com o escândalo da Petrobras é, no entanto, a limitação de nossa representação democrática, que só representa interesses econômicos por meio de corrupção. A atual crise política não parece apresentar opções para resolver esse problema porque o povo quer apenas a volta do crescimento econômico. A classe média justiceira finge acreditar que a corrupção acabará com o impeachment, deixando o poder executivo e legislativo sob controle do PMDB. Já a esquerda projeta uma situação catastrófica, e há um pouco de razão isso, pois o país caminha no sentido de refortalecer a força política do PMDB e as ideologias da ditadura militar: o anticomunismo e a cresça no crescimento econômico. Se antes os movimentos sociais eram mal representados pelo PT, agora eles caminham para o «grau zero da representação»[13]. A esquerda autônoma aposta na organização autônoma dos movimentos sociais.[14] Na verdade, é o que sobrará, mas convém alertá-la que dificilmente ela conseguirá conquistar algum direito social. Poderá, no máximo, resistir – p. ex. impedir que escolas com professores mal-pagos e com estrutura precária sejam fechadas ou impedir que tarifas de transporte público precário se tornem mais caras, isto é, ela poderá no máximo impedir uma precarização ainda maior dos serviços públicos, deixados sob administração do PMDB e do PSDB. Quem procura não tomar partido pró ou contra impeachment recorre a uma conduta mais própria a animais do que a seres humanos: «Fazer sem acreditar»[15]. Só podemos agir moralmente se acreditamos em alguma ordem moral do mundo. – Tal descrença foi, entretanto, formulada muito antes pelo pensamento crítico brasileiro, que em sua última análise do país viu uma espécie fim da história, própria às leituras equivocadas da filosofia da história de Hegel. Se a tradição crítica chegava ao fim, significava que as suas categorias perdiam poder para explicar o Brasil, mas isso não deveria impor nenhum determinismo histórico, no sentido de que estaríamos formados e somos esse bicho estranho chamado ornitorrinco.[16] O que chegava ao fim era a crença desenvolvimentista de superação do subdesenvolvimento através de um projeto nacional elaborado por intelectuais atuantes no poder executivo.

Quem faz necessariamente crê que o país pode ser algo diferente dessa formação social-política estranha e corrupta que o período militar nos legou. Quem aposta em movimentos sociais autônomos, p. ex., acredita na possibilidade de conquistar liberdades sociais. O conteúdo da crença é, portanto, a liberdade social. Quem defende hoje o fim das eleições obrigatórias acredita que a liberdade política não deve apenas aclamar um poder corrupto, mas deve ser a manifestação da vontade livre de cidadãos emancipados. O conteúdo dessa crença é, portanto, a liberdade política. Quem defende o fim do financiamento privado de campanha, acredita que a representação política deve representar todos os interesses de todos os setores da sociedade, e não apenas os econômicos. O conteúdo dessa crença é a liberdade ética-comunitária. Quem defende o voto em legenda, acredita os partidos políticos devem representar ideias e interesses sociais específicos. O conteúdo da crença é a liberdade concreta formada por formas de vida particulares e não uma liberdade abstrata como soma indivíduos atomizados. Quem defende a imprensa livre é porque acredita que os indivíduos emancipados sabem diferenciar e imprensa livre da manipuladora. O conteúdo dessa crença é a liberdade de expressão. Quem defende a criação de novos partidos políticos acredita que o país precisa de novos atores políticos que reconheçam a separação entre as esferas privada, social e política. O conteúdo dessa crença é a separação moderna entre liberdades pessoais, sociais e políticas. Em todas essas crenças, o conteúdo comum é a liberdade. Só teremos uma país melhor quando fizermos da liberdade o conteúdo do nosso querer. Não precisamos de um novo projeto nacional-desenvolvimentista, nem de uma nova forma abrangente de fazer política a ser pregada por intelectuais em todos os setores da sociedade e nem muito menos de uma nova força social tal como foi o PT no começo da abertura democrática. Dar existência a liberdades sociais significa transformá-las em direitos sociais. Mas para isso precisamos urgentemente parar nos auto-enganar e colocar em pauta uma reforma política e criar novos partidos políticos, capazes de representar os mais diversos setores sociais no poder legislativo.

*Emmanuel Nakamura é doutorando em Filosofia na Universidade de Berlim.
[1] HEGEL, G. W. F. Grundlinien der Philosophie des Rechts oder Naturrecht und Staatswissenschaft im Grundrisse. GW 14,1. Hamburg: Felix Meiner: 2009, § 317. (Tradução de Marcos Lutz Müller).

[2] Cf. BOULOS, G. Quem está incendiando o Brasil? In: FOLHA DE SP. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilhermeboulos/2016/04/1756647-quem-esta-incendiando-o-brasil.shtml. Acesso em 04/04/2016.

[3] Cf. SAFATLE, V. O Estado Oligárquico de Direito. In: FOLHA DE SP. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2015/12/1717437-o-estado-oligarquico-de-direito.shtml. Acesso em 04/04/2016.

[4] FRANCO, M. Ex-ministro Moreira Franco diz que gestão petista ‹não confia em ninguém›. In: FOLHA DE SP. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/09/1684133-ex-ministro-moreira-franco-diz-que-gestao-petista-nao-confia-em-ninguem.shtml. Acesso em 04/04/2016.

[5] NOBRE, M. O Fim da polarização. In: REVISTA PIAUÍ, edição 51, dezembro de 2010. Disponível em: http://revistapiaui.estadao.com.br/materia/o-fim-da-polarizacao/. Acesso em 04/04/2016.

[6] NOBRE. O Fim da polarização, op. cit.

[7] SÁ, X. O pior tipo de homem de todos os tempos. In: EL PAÍS. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/24/opinion/1429875361_407271.html. Acesso em: 04/04/2016.

[8] CONTI, M. S. Falta certeza e sobra ódio. In: FOLHA DE SP. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2016/03/1747392-falta-certeza-e-sobra-odio.shtml. Acesso em 05/04/2016.

[9] SINGER, A. Sonho suspenso. In: FOLHA DE SP. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/219384-sonho-suspenso.shtml. Acesso em 05/04/2016.

[10] HEGEL, G. W. F. Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften im Grundrisse (1830). GW 20. Hamburg: Felix Meiner, 1992, § 482.

[11] CARDOSO, F. H. A constituição é o caminho. In: EL PAÍS. Disponível: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/03/opinion/1459687432_855868.html. Acesso em 05/04/2016.

[12] FOLHA DE SP. Nem Dilma nem Temer. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/04/1756924-nem-dilma-nem-temer.shtml. Acesso em 05/04/2016.

[13] SAFATLE, V. Deixe os mortos enterrarem seus mortos. In: FOLHA DE SP. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2015/08/1665348-deixe-os-mortos-enterrarem-seus-mortos.shtml. Acesso em 05/04/2016.

[14] BRUM, E. Acima dos muros. In: EL PAÍS. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/28/opinion/1459169340_306339.html. Acesso em: 05/04/2016.

[15] BRUM, E. Em defesa da desesperança. In: EL PAÍS. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/21/opinion/1450710896_273452.html. Acesso em 05/04/2016.

[16] Cf. OLIVEIRA, F. Crítica à razão dualista – O ornitorrinco. São Paulo, Boitempo, 2003.


Flamengo estampará logomarca do “Pacto Pelo Esporte” no clássico com o Vasco
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Juca Kfouri

O Flamengo estampará nas costas de sua camisa a marca do “Pacto Pelo Esporte” no clássico diante do Vasco neste domingo(24), pela semifinal do Campeonato Carioca.

“A conformidade com os princípios do ‘Pacto pelo Esporte’ é mais uma marca atingida pelo Flamengo, que esteve à frente da formulação e da aprovação do Profut. Nos reconhecem como clube cidadão e, por isso, somos vencedores de vários prêmios relativos à transparência e à qualidade de governança. Essa é uma marca do nosso clube e que só renderá frutos positivos”, destaca o presidente Eduardo Bandeira de Mello.

  O ex-jogador Raí, diretor da Atletas pelo Brasil, agradeceu pelo apoio: “Esta é uma iniciativa muito importante para divulgar o Pacto pelo Esporte. O Flamengo esteve em São Paulo no lançamento do Pacto pelo Esporte, em outubro, e também já se dispôs a ser a primeira agremiação de futebol a ser avaliada pelo programa pelo esporte. O apoio do Flamengo é um exemplo e abre espaço para que outros clubes vejam a importância de uma nova era na gestão eficiente e transparente. Com isso, ganham os equipes, as empresas patrocinadoras e todo o esporte…”

O Pacto pelo Esporte é um acordo firmado entre empresas patrocinadoras, por uma gestão mais profissional, moderna e eficiente no esporte. As entidades terão um prazo para adequação ao Pacto e a iniciativa pretende aumentar e melhorar o investimento no esporte e dar mais segurança para os patrocinadores.

A iniciativa é da Atletas pelo Brasil e Instituto Ethos e tem como signatárias 20 das maiores empresas do Brasil: Aché Laboratórios, Banco do Brasil, Bradesco, BRF, Carrefour, Centauro, Coca-Cola, Construtora Passarelli, Correios, Decathlon, EY, Estácio, Gol Linhas Aéreas Inteligentes, Itaú Unibanco, Johnson&Johnson, McDonald´s, P&G, Somos Educação, TAM e Vivo.

A Atletas pelo Brasil é uma organização sem fins lucrativos que reúne, em uma iniciativa inédita no mundo, cerca de 60 atletas e ex-atletas pela melhoria do esporte e, por meio do esporte, pelos avanços sociais do País.

Em 2013, a associação contribuiu para a aprovação do artigo 18-A da Lei 12.868, que criou regras para dar mais transparência às entidades esportivas.

Em 2014, a Atletas pelo Brasil divulgou uma carta para os candidatos à Presidência. A associação também ajudou a criar o Pacto pelo Esporte por mais transparência, integridade e gestão no esporte brasileiro.

A instituição ainda possui o Programa Cidades do Esporte, realizado nas 12 cidades-sede da Copa. A iniciativa tem como objetivos promover a importância do esporte nas políticas públicas, realizar um diagnóstico e monitorar anualmente a evolução dos indicadores nos municípios, além de fomentar o intercâmbio entre as cidades e divulgar boas práticas.

   


Perdendo sempre
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para Jorge Dorfman Knijnik

Domingo à tarde enchia de gente.

A TV pequena, em preto e branco, cheia de chuviscos, faixas horizontais e verticais, sem som, ficava no fundo do botequim.

Os da frente ainda viam um pouco. Os do meio pra trás tinham que deduzir.

Mas todos vidrados em sagrado silêncio.

Fumo, cachaça, rapadura, pão velho.

Do lado de fora, nada.

Um terreno perdido e vasto.

Empoeirado.

Depois de morros e trilhas.

Era o único lugar por ali em que o pessoal das roças de todas as distâncias podia ver futebol.

Um deserto marrom.

Tufos de mato secos, queimados.

Cercas.

Só o telhado de amianto do boteco e a espinha de peixe da antena quebravam a paisagem.

Bicicletas velhas na porta.

As botinas do lado de fora pra não sujar o recinto.

Calor e moscas.

O ar parado.

De noitinha, todos de volta às suas distâncias.

À partida que eles venciam fugazmente naquelas horas de futebol aos domingos.

Todo o resto, antes e depois, dentro e fora do botequim, sem o futebol, era derrota.

E sem ninguém pra assistir.
__________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras”).


Três histórias de vitórias legítimas nos esportes para leitura e reflexão dos congressistas democratas
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Juca Kfouri

Primeira

Em 1941, os nazistas ocuparam Kiev e espalharam a violência e o horror. Extinguiram o futebol local. Os jogadores do Dynamo e do Lokomotiv tiveram que trabalhar em outras atividades, a maioria como padeiros.

Em 1942 formaram um time (FC Start) e começaram a vencer, em amistosos, times locais e, num torneio, búlgaros, romenos e alemães, sempre de goleada. Mas os alemães não aceitaram a derrota, sobretudo a de 5 a 1 imposta ao seu time mais forte, o Flakelf, formado por militares nazistas.


Os alemães exigiram uma revanche (não prevista no torneio). Reforçaram o time com seus melhores atletas e soldados. Lotaram o estádio com militares e simpatizantes nazistas. Escalaram como juiz um oficial da SS.

Antes do início, o juiz e outros militares nazistas foram ao vestiário do Start impor que fizessem a saudação nazista na hora do hino e avisaram sobre as consequências de um resultado adverso para os alemães.

Os jogadores do Start resistiram à pressão e à intimidação. Não fizeram a saudação nazista, sofreram todo tipo de agressão por parte dos adversários – com a complacência do juiz – e terminaram o primeiro tempo vencendo por 3 a 1.

Nova visita ao vestiário no intervalo. Mais pressão. Os ucranianos voltaram, superaram as intimidações e roubos do árbitro e venceram por 5 a 3. Com direito a, no final, um de seus jogadores driblar o goleiro e, em lugar de fazer o gol, chutar a bola para trás, em protesto. O juiz encerrou o jogo na hora.

Nos dias e semanas que se seguiram, ao menos quatro ucranianos foram presos e outros quatro foram mortos pelos nazistas.

Mas foram os ucranianos que venceram no campo de jogo. E foram os alemães que perderam a guerra.

Segunda
Seis anos antes haviam ocorrido as Olimpíadas de Berlim de 1936, montada pelo poderio nazista para mostrar a superioridade de sua elite atlética, racial, militar e econômica.

Mas Jesse Owens, um atleta negro, de origem pobre, segregado por sua cor em seu próprio país mesmo após suas grandes conquistas como atleta, e completamente desprezado pelos nazistas antes das competições, venceu as corridas de 100m e 200m rasos, o revezamento de 400m e o salto em distância. Derrotou a elite esportiva alemã. Hitler, irado, recusou-se a cumprimentá-lo e a lhe entregar a medalha.


Mas Owens foi o campeão olímpico de fato, na disputa legítima, nas pistas. Hitler, o nazismo e a Alemanha foram derrotados. E o segregacionismo racial americano também acabou, com as décadas, sendo condenado.

Terceira
Muhammad Ali começou sua carreira como Cassius Clay. Tornou-se o maior lutador de boxe americano nos anos sessenta, conquistando o título olímpico em 1960 e o título mundial em 1964. Mas um golpe do governo americano retirou-lhe os títulos em 1967, por ele se recusar a servir na Guerra do Vietnã, em nome de seus ideais pacifistas.


Ele recomeçou, venceu de novo os adversários mais fortes e desafiou o campeão mundial George Foreman em 1974 no Zaire (atual Congo). Todo o establishment político e esportivo americano apoiava Foreman. Os negros africanos e americanos torciam por Ali.

Foreman bateu em Ali por sete rounds. Ali absorvia os golpes e aguardava o momento do contra-ataque. No oitavo round, revidou com uma sequência de socos e derrubou Foreman. Ainda teve a chance – como o jogador do Start – de dar o último golpe quando o adversário caía grogue, mas retirou o braço e o deixou soterrar desacordado.

O título era de quem de fato o conquistara nos ringues.


Organizações e movimentos fazem ação e pedem que presidenta vete Lei Geral das Olimpíadas
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Juca Kfouri

Projeto traz série de ataques à Democracia, como criação de novos tipos penais
– Twitaço está marcado para as 15 horas desta quarta-feira (13)

 

Está nas mãos da Presidenta Dilma Rousseff o Projeto de Lei da Câmara 2/2016, a chamada Lei Geral das Olimpíadas, que, se for sancionado, representa uma série de retrocessos na democracia, afetando desde o direito à livre manifestação até penais, com a criação de novas tipificações criminais ligadas exclusivamente aos Jogos, por exemplo.


Para evitar que os efeitos nocivos desse projeto entrem em vigor, os movimentos e organizações reunidas na plenária Jogos da Exclusão – que busca denunciar e interromper os efeitos desse megaevento – lançam hoje a campanha #VetaLeiOlímpica, para que o Executivo não aceite as propostas aprovadas pelo Congresso.

Veja alguns dos pontos polêmicos do Projeto:

– No Artigo 9º cria áreas exclusivas do COI e seus patrocinadores, o que restringe o livre exercício do trabalho ao impedir o comércio de rua para produtos vendidos pelos organizadores, e, ainda restringe a liberdade de expressão e a liberdade de ir e vir das pessoas no entorno dos locais oficiais de competição e nas áreas que serão delimitadas pela Prefeitura do Rio. Para piorar, não há qualquer critério para estabelecer o tamanho máximo dessa área que será delimitada.

– O projeto restringe (Artigo 12) o direito de captar imagens e sons em qualquer evento, a não ser que seja autorizado pelo Comitê Olímpico e o Comitê Paralímpico Internacional (IPC). De acordo com a Constituição Federal, art. 220, §1º nenhum dispositivo pode constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer meio de comunicação social. A gravidade do das consequências deste artigo podem ser exemplificadas, por exemplo, se houver qualquer violação decorrente de um protesto, o COI e o IPC poderão tentar impedir a disseminação dessas imagens, inclusive pela internet.

– Na parte de Proteção e Exploração de Direitos Comerciais, há uma série de seções específicas que restringem os direitos dos cidadãos de circular por áreas públicas. Na Seção V, o projeto vai além e cria pena de detenção de três meses a um ano ou multa para quem reproduzir, imitar, falsificar ou modificar qualquer símbolo oficial dos Jogos. Aqueles que forem distribuir, vender, ajudar na venda ou mesmo guardar material com símbolos oficiais pode ficar preso de um a três meses ou pagar multa. É de enorme gravidade a existência de uma seção que cria novos tipos penais, ressaltando a postura punitivista do Estado com relação aos cidadãos. Este artigo é extremamente prejudicial para liberdade de expressão, pois as pessoas que usarem/modificarem qualquer símbolo oficial como forma de protesto poderão ser detidas. Além do que, há uma proteção desproporcional do direito às marcas, que já é garantido por outras leis.

– No Capítulo IV, o projeto afirma, que como condição de permanecer nos locais oficiais, não se deve portar ou ostentar cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, de caráter racista, xenófobo ou que estimulem outras formas de discriminação. A Lei limita previamente o tipo de expressão que não é admitida dentro dos Locais Oficiais de Competição. A Constituição Federal e outras leis já se encarregam de responsabilizar qualquer forma de discriminação, motivo pelo qual não cabe à Lei das Olimpíadas estabelecer restrições prévias à liberdade de expressão, uma vez que os excessos devem ser responsabilizados posteriormente por meios legais já existentes. O mais problemático aqui é o fato de deixarem em aberto “mensagens ofensivas”.

– Na Seção X, afirma que não devem ser utilizadas bandeiras para outros fins que não o da “manifestação festiva e amigável”. Além de violar o direito à liberdade de expressão, garantido constitucionalmente, nos locais do evento, caracterizando uma censura prévia, pode ser prejudicial para os protestos uma vez que pessoas com cartazes e bandeiras poderão ser banidas dos arredores do estádio, por exemplo. Além disso, a utilização das expressões “manifestação festiva e amigável” caracteriza, em tese, um comportamento intolerante das entidades organizadores no que se refere às críticas que poderão ser feitas pelos indivíduos, evidenciando, assim, que trata-se de uma afronta à livre manifestação de pensamento e à liberdade de expressão como um todo. Além de serem termos excessivamente amplos e indefinidos.

A partir das 15 horas de hoje, haverá um twitaço nas redes sociais denunciando as irregularidades do projeto e pedindo que a presidenta vete a proposta.

Rio 2016 – Os Jogos da Exclusão

NOTA DO BLOG: A reivindicação do veto faz sentido, mas o veto é utopia.

Acontece agora exatamente o que aconteceu com a Lei Geral da Copa, enfiada goela abaixo do país por exigência do caderno de encargos da Fifa.

Dá-se o mesmo com o COI e a Olimpíada.

Além do mais, Dilma Rousseff, a partir de domingo, não poderá vetar mais nada.


Futebol de breque
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

(Sobre a melodia de “Tragédia Afrodisíaca”, samba de breque do Língua de Trapo)

Montei o time com quatro zagueiros,

três volantes pelo meio,

os laterais e um no ataque

– um centroavante de araque.

A ordem era jogar bem fechadinho,

chegar junto, dar carrinho,

fazer cera e dar chutão.

Nada de toquinho, nem jogada,

só tentar bola parada

pra aproveitar a confusão

– nosso atacante é grandalhão.

Estávamos tomando um sufoco,

então reforcei um pouco

e tirei o centroavante

– botei um beque flutuante.

Tranquei ainda mais nossa defesa,

verdadeira fortaleza,

e mandei baixar o pau:

no craque deles logo deram quatro

(isso aqui não é teatro,

nem espaço cultural!)

– o cara era infernal!

Então o juizinho sem-vergonha

(um palerma, um pamonha)

expulsou meu capitão.

O sururu foi se configurando,

eu cheguei logo avisando:

vou te encher de bofetão!

Quando ele exibiu-me o vermelho,

dei-lhe um chute no joelho

e ele chamou a guarnição

– que me levou pro camburão.

Meu time ainda perdeu mais um zagueiro,

um lateral e o goleiro

pouco antes do intervalo

– o juizinho era um safado!

Os outros bem que lutaram bastante

mas o placar, tão humilhante,

mostra o assalto incomum.

O resultado foi um despautério:

terminou quatorze a zero,

um roubo claro, a olho nu!

– se ao menos fosse sete a um…

(Sete a um, eu me lembro muito bem.

Sete a um, eu me lembro muito bem).

______________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


Ser ou não ser do esporte? O significado no patrocínio ao esporte.
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Juca Kfouri

POR RODRIGO FERREIRA*

Se você tem entre 25 e 35 anos (ou tem filhos desta idade) certamente reconhece diversas pessoas que largaram tudo para viajar, montar um food truck ou viver de arte. Ou simplesmente não se encontram.

Parece, por vezes, que chega à maturidade não uma geração X, Y ou Z, mas sim uma “geração Beta”, incapaz de se sentir completa e eternamente em busca da felicidade. Uma conquista que não tem parâmetros tão claros quanto a geração de seus pais, cultivada à base de “construir uma carreira”, “dar aos filhos o que não tiveram”, “buscar a estabilidade” ou mesmo “ser bem sucedido”, seja qual for a métrica pra tal.

São filhos que não se contentam em fazer o que lhes carece significado real. Ou autêntico, honesto, verdadeiro.

Há pouco mais de 10 dias para o acendimento da Chama Olímpica, símbolo sagrado de todo o significado que o esporte carrega (amizade, respeito e excelência, para citar os “oficiais”), vivemos um bom momento para discutir esta falta de significado, no esporte e no universo de patrocinadores que o cerca (ou por vezes parasita).

Marcas no Brasil sempre viram no esporte uma oportunidade de visibilidade. Simplesmente estar na maior TV do país, durante os maiores eventos e garantir uma fatia substancial da população reconhecendo sua marca. Simplesmente estar lá era a razão do sucesso. Top of mind, diriam uns para a simples associação entre cara e crachá de uma marca. Marketeiros adoram um rótulo. Em inglês, melhor ainda.

Na semana em que o país deve pegar fogo mais uma vez, é oportuno pensar que por mais de 20 mil quilômetros, a maior iniciativa de comunicação do esporte começa a ganhar vida. Em meio a um momento chave para o país, espera-se que cerca de metade da população brasileira tenha oportunidade de ver a Chama diante dos seus olhos. Uma oportunidade incrível para todos que acreditam nestes valores de passar a sua mensagem.

Hoje, toda e qualquer associação gera novos sentidos, entendimentos. Caminhamos a passos largos para a auto-suficiência de interpretação. Cada pessoa atribui seus valores ao que recebe como mensagem, seja em um anúncio, seja em um blog ou seja em uma atitude. As fontes são tão fartas que a escolha de onde captar a informação é de interesse responsabilidade única e exclusivamente do dono do controle. Um consumidor que faz qualquer informação passar pelo seu filtro de valores. Sejam eles quais forem.

Se não há uma clareza do conceito de sucesso neste momento, uma coisa é verdade dentre esta geração: a era da ignorância não existe mais.

Como um jornalista (bem meia boca) que descambou para o lado do marketing, sempre acreditei no conteúdo como ferramenta fundamental da comunicação. Com a chegada de tantas ferramentas de produção de conteúdo, iniciou-se um movimento valorização do “o quê”, a forma sempre embalada de muita criatividade, de estéticas apaixonantes e, óbvio, de muito investimento. Content marketing, storytelling, crowdsourscing. Como bons publicitários, o rótulo passa a ser ainda mais relevante que o conteúdo em si.

Assim, rapidamente o conteúdo perdeu conteúdo. Deixou de ter significado.

Dizer por dizer não diz mais nada. Estar por estar, não muda absolutamente nada. É preciso ser. É preciso manifestar, se posicionar. E deixar claro o seu papel para a sociedade que desejamos construir.

Autenticidade. Honestidade. Verdade. Vivemos uma era em que mais do que o que falamos, o que importa é o que fazemos.

As associações que buscamos dizem muito sobre o que queremos ser. Neste “ser ou não ser” que as relações comerciais pouco veradeiras perdem a valor para os consumidores, que antes de consumirem qualquer coisa, são indivíduos com seus próprios valores. Que fique claro, no universo do marketing esportivo, consumidores são os fãs de esporte.

Temos uma geração inteira que deseja “prender todos eles”. Que não se alinha com discursos pré-estabelecidos. Que deseja mudança, para suas vidas, para seu país e para a sua sociedade, simplesmente por não se contentar com o que está posto.

É histórico vermos não só o povo (independente do seu lado) nas ruas, como ver marcas como Coca-Cola, McDonald’s pedirem publicamente a limpeza de uma Fifa. Era inimaginável ver a CBF perder quatro patrocinadores em questão de meses ou escândalos de doping serem deflagrados em grande escala. Como diz esta geração, #significa.

Vivemos uma espécie de momento “carpe diem”, em que o sucesso se mede diariamente, baseado em respostas verdadeiras diante de cada dilema que somos colocados. A felicidade não chegará em 30 anos após uma carreira de sucesso, ela é feita de atitudes, nossas, dos nossos e daqueles que admiramos ou compramos. Precisamos de provas diárias de que estamos vivendo uma realidade (felicidade?) autêntica.

Com o maior revezamento da Tocha Olímpica prestes a ser realizado, temos a oportunidade de vislumbrar na Chama que ela conduz os valores tão simples e verdadeiros que deveriam reger não apenas o tal Espírito Olímpico, mas também toda a relação dos que se envolvem com ele. E resgatar o significado primordial de competir, chegando cada vez mais alto, mais forte e mais rápido, mas também mais verdadeiro.

E qual o significado que você deseja para a “sua” marca. O que você quer ser neste novo mundo que nascerá depois de toda esta tempestade?

*Rodrigo Ferreira, jornalista, publicitário e Geraldino acima de tudo.
https://br.linkedin.com/in/ferreirarodrigo


Capez levou merenda para a manifestação?
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Juca Kfouri

Na nota “O gavião e o tucano da merenda”, que você vê AQUI , foi publicado um vídeo que mostra um entusiasmado presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado Fernando Capez, dançando e cantando contra a corrupção.

Estranhamente, porém, de repente, o vídeo desapareceu do blog, com um aviso “Retirado pelo usuário”.

Explica-se: o vídeo havia sido postado no Youtube, claramente como propaganda da honestidade do personagem, e quem o publicou pôde retirá-lo.

Para azar de quem o tirou de lá e do blog, porém, o vídeo havia sido devidamente salvo em outro endereço.

E já voltou à nota original.

Aqui é reapresentado em repeteco apenas como uma homenagem que só este blog é capaz de fazer, à virtude do parlamentar, com apenas uma pergunta: terá ele levado merenda à manifestação?


A caravana não pára
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Juca Kfouri

POR PEDRO HENRIQUES*
Vivemos um momento em que é fácil vislumbrar a desonestidade. O ardil. A deliberada conduta de tentar tirar o foco daquilo que as pessoas precisam se atentar, direcionando-as a factoides.

Factoides e mentiras são imputados a pessoas de bem, sérias e que conduzem seus trabalhos de forma ética e honesta. Buscam atingir-lhes a honra para abalá-las e inibi-las de agir conforme seus princípios.

Ainda no século XVIII, o filósofo Edmund Burke nos alertou: a única coisa necessária para o mal prevalecer é que os homens bons nada façam.

E, infelizmente, é comum ver homens bons se omitirem. Olharem para o outro lado.

Não porque estejam a tornar-se maus, mas por lhes faltar coragem.

Por ser difícil desafiar um sistema corrupto.

Por preverem as dificuldades de enfrentar uma instituição cujo histórico de falsificações de documento torna controversa a credibilidade das suas declarações.

Por perfilarem contra adversários que usam de comunicólogos que possuem agendas particulares para lhes jogar de encontro à opinião pública.

Por se verem submetidos a uma entidade que é mundialmente reconhecida por sua corrupção. E, pior, por saberem que, mesmo com diversos desmandos, aqueles que a lideram jamais são punidos – ao menos em território nacional.

Nosso conterrâneo Rui Barbosa chegou a profetizar: de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.

O meio do futebol, assim como diversos segmentos da sociedade, tem muita sujeira.

Uma análise superficial traz um dado elucidativo: trata-se de ambiente que movimenta milhões e é composto por inúmeros “abnegados”.

Difícil acreditar num trabalho sério sem que haja profissionalização.

Tal como diversos setores da sociedade, no futebol há muita “política”, inclusive, na pior conotação da palavra. Basta procurar nos noticiários dos bastidores do mundo da bola que se encontra uma série de referências nesse sentido.

Tudo isso desencoraja e desanima.

É difícil manter-se firme em suas convicções e travar a boa luta. Mas é necessário.

Apesar de todo o mal, há o bem. Há esperança. E haverá luta.

A profissionalização e a responsabilidade pedem passagem no futebol. Ainda não se superou o tempo dos velhos cartolas. Mas o caminho para isso está traçado.

Reformas não são apenas necessárias, mas imperativas.

Ligas estão sendo criadas, monopólios rompidos e a própria Lei de Responsabilidade Fiscal no Esporte serve não apenas como indício, mas prova irrefutável de que o antigo modelo de gestão do futebol no Brasil está a um passo do fim.

Que esses sinais sirvam de alento àqueles que insistem em lutar, em enfrentar o sistema, apesar de todas as intempéries que essa batalha pode lhes proporcionar.

Lembremos, pois, que o futebol tem, também, uma função social. Se pudermos ajudar na moralização de algo nesse país, é nossa obrigação lutar com cada fibra do nosso ser para buscar a consecução do que é justo e correto.

*Pedro Henriques, 31 anos, é advogado e vice-presidente do Esporte Clube Bahia.


A solução para a violência entre torcedores está aqui
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Juca Kfouri

Para aqueles que vivem dizendo que a imprensa só critica e não aponta soluções, as para a violência das torcidas, estão AQUI, no relatório de Marco Aurélio Klein, dez anos atrás, feito para o Ministério do Esporte, que o engavetou.

  


Cadê a bola?
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

No gol de baixo não podia chutar. A bola tinha que ser levada até dentro da meta – um chinelo de cada lado. Nos chinelos de cima podia. Dois tempos, os times mudavam de lado, ficava equilibrado.

A rua era quase uma ladeira. E de paralelepípedo. Não era fácil dominar a bola. Fora as divididas, rebatidas, espirradas.

Com isso, ela toda hora rolava ladeira abaixo. Umas vezes dava pra pegar pertinho; mas quase sempre ela descia rapidamente até o terreno baldio no final da ladeira, quase 500 metros adiante.

Sempre sobrava pro menorzinho buscar. Só o deixavam jogar por causa disso.

Ele reclamava, mas davam-lhe cascudos e socos, xingavam, ameaçavam tirá-lo e ele acabava indo, as pernas curtas, embalado chorando morro abaixo, devagar chorando morro acima.

Dez, vinte vezes por jogo.

Queria jogar. A condição era essa.

Mas um dia ele não voltou.

Todo mundo esperando, estranhando o tempo. Sentaram-se. A tarde já ficando escura.

Decidiram descer todos: uns com raiva, prometendo surrar o moleque, outros com receio de que algo tivesse ocorrido.

No final da ladeira o medo era unânime. Foi sequestrado? Atropelado? Os pais dele vão nos matar. A polícia vai nos prender.

Entraram no terreno baldio. Entulhos, mato, tambores, mosquitos, monturos, poças. E escurecendo.

Gritaram o nome dele.

Nada.

O medo e a noite fizeram todos saírem. Subiram a ladeira devagar e apavorados.

Em silêncio.

Chegaram aos chinelos.

Olharam em volta pra ver se ele tinha voltado – embora não houvesse outro caminho.

Chamaram, gritaram.

Nada.

Na penumbra espessa calçaram as traves e decidiram ir à casa dele, com medo, contar aos seus pais.

Bateram palmas.

Nada. Casa vazia.

Mas como? A família era grande, estavam todos ali pouco antes.

Empurraram a porta. Tudo vazio, empoeirado, bolorento, malcheiroso.

Como se nunca ninguém tivesse morado ali.

Rangidos no fundo. Vento.

Tremiam.

Um grito (“gol!”) – a vozinha dele, muito alta e fina – fez todos correrem.

No escuro, um deles tropeçou em algo e caiu de cara no chão.

Era a bola.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


O que é, originalmente, um blog
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Juca Kfouri

Já expliquei um sem-número de vezes, desde que este blog nasceu, em setembro de 2005, que o faço como um diário, a concepção original dos blogues.

De lá para cá muita coisa aconteceu e os blogues de muitos jornalistas se transformaram em colunas eletrônicas, de informação ou de opinião.

  
Eu mantenho o meu como nasceu: opinião, informação, humor, literatura, cinema, política, o que der na telha.

Um espaço onde publico assuntos do meu interesse.

Não há, aqui, diferentemente do que um jornal deveria ser, uma revista, um programa de rádi0 ou de TV, a preocupação em ser plural, em dar espaço a tudo e a todos ou em cobrir todos os jogos.

Público o que gosto, repito, o que escolho para ver.

Para minha sorte, muita gente tem gosto parecido, tanto que nos últimos 30 dias, segundo o instituto que mede as audiências no UOL, o Adobe Marketing Cloud, 3.056.657 pessoas entraram no blog.

  
Muitos, certamente, para criticar, odiar, xingar.

Os comentários mais civilizados são publicados, os menos são postos no lixo pelo moderador do blog, o jornalista Rafael Belattini.

Em regra, só leio os comentários que ele aprova, para poder comentar alguns poucos, porque não me sobra tempo para mais.

Comentários preconceituosos, extremistas, em letras maiúsculas, em regra, também não são aprovados.

Sim, os critérios são os dele, combinados comigo.

Há quem, acredite, manda três, quatro comentários diariamente e jamais foi publicado, mas, enfim, tem louco para tudo.

A esmagadora maioria dos leitores, porém, entra, lê e vai embora.

Volto a explicar tudo isso, e talvez devesse fazê-lo pelo menos uma vez por mês, porque houve quem estranhasse uma resposta minha a um comentário que queria a publicação de textos pró-impeachment.

Nem argumentarei que já são a maioria pela mídia em geral, porque mesmo que não fossem não os publicaria.

Enfim, enfatizo novamente, meu blog é meu diário e assim seguirá sendo.

Agradeço, e muito, os que aqui vêm diariamente.

Aproveito para acusar uma falha na área de comentários: apenas cabem, não sei por que, três comentários sobre outro comentário, razão pela qual muitos acabam por não aparecer.

Já pedi uma solução para a área de tecnologia do UOL.


Reunião urgente
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Juca Kfouri

POR INÊS BARI*

Nunca havia presenciado uma cena parecida. 

Até hoje não sei se foi um desejo, um sonho ou uma rara experiência de EQM (experiência de quase morte).

Mas estava ali, na minha frente, aquela mesa gigante repleta de personagens notáveis, alguns nem tanto, sentados, lado a lado, com semblantes sérios e preocupados.

Reunião urgente. Em pauta: o Brasil.

  
De um lado da mesa eu podia ver os vultos de Niemeyer, Cazuza, Carlos Drummond, Ayrton Senna, Renato Russo, Paulo Francis, Don Helder, Médici
e “Seo Zito”.

Do outro lado, Hebe Camargo, Chico Anísio, Volpi, Adib Jatene, Ulisses Guimarães, Ronald Golias, Araci de Almeida e um grupo enorme de motoboys recém chegados.

O primeiro problema apontado foi a violência. Muitas soluções apareceram…

A colocação de milhares de anjos da guarda de plantão nas esquinas das novas ciclovias e VLT’s foi sugerido. 

Mas o contingente seria imenso e o problema não era só urbano, disse Niemeyer, com uma vozinha tão baixa que não dava quase pra se ouvir.

Jatene com seu jaleco branco, lá na ponta, disse que a saúde estava pior que a violência.

Ulisses citou que mais grave era a corrupção e Drummond concordou com os dois dizendo que, com certeza, mais de uma pedra havia no caminho.

Cazuza então levantou e acusou a burguesia e suas piscinas cheias de ratos.

Renato Russo colocou a culpa em Brasília e nos cavalos marinhos.

E num canto isolado, Don Helder rezava pra que tudo acabasse bem.

A reunião começou a ficar chata mesmo quando Paulo Francis levou quarenta minutos para descrever o panorama político brasileiro. 

Foi quando Ayrton Senna pediu mais rapidez, enquanto Volpi rabiscava bandeirinhas e Hebe ria das piadas de Golias.

Até Pedro Alvares Cabral, que não havia sido convidado, sentiu-se no direito de participar e sugeriu que os portugueses é que deveriam “de voltar cá nestas terras”
e resolver as questões, pois o que se vê hoje são problemas de criação.

Foi vaiado e retirado a tapas por Médici. 

Alguns minutos depois da briga, chegou Tim Maia que deveria ser o presidente da reunião, mas a pedido de Zito foi substituído da posição, por conta de mais um atraso.

A reunião rolava tensa. Nada se resolvia.

Grupos se desentendiam. Os da direita faziam barulho e não davam soluções.

Os da esquerda acusavam os da direita que atiravam papeizinhos, muito embora ninguém soubesse mais quem era esquerda e quem era direita.

Os da ponta, menos conhecidos e os motoboys apenas tiravam selfies.

Quando a discussão atingiu seu grau máximo e os militares já tentavam tomar conta da situação, Araci de Almeida mostrou a que veio, batendo na mesa
e pondo ordem na casa, gritou com a voz da boa malandragem:

-Dá pra gente ter mais educação?

Todos levantaram e aplaudiram, concordando finalmente com a solução do país.

Será que dá?

*Inês Bari é escritora, publicitária e blogueira em inesplicando.blogspot.com
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Presidente da República é treinador de time de futebol?
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Juca Kfouri

POR JÚLIO CEZAR BITTENCOURT SILVA*

Impeachment e cultura futebolística

Desde 1º de janeiro de 2015, assistimos no Brasil à construção de uma narrativa, ainda que velada, cujo objetivo é o de trivializar o processo de impeachment, previsto no artigo 85, da Constituição da República de 1988.

De fato, desde a posse da Presidente Dilma Roussef em seu novo mandato, já se articulavam movimentos tendentes à sua cassação, algo que mais parecia um 3º turno das eleições, um eco da insatisfação daqueles que restaram derrotados nas urnas, democraticamente, no pleito de 2014.

Com o agravamento da crise econômica vivenciada pelo Brasil na atualidade, que ganhou mais força a reboque da crise política que temos assistido, o clamor pelo impeachment aumentou, e uma das peças que pediam sua instauração foi admitida pelo Presidente da Câmara dos Deputados, o suspeitíssimo senhor Eduardo Cunha.

Pois bem, muito embora esteja em curso essa narrativa da trivialização do impeachment, não é possível concluir da leitura do texto constitucional que este seja possível sem o cometimento de um crime de responsabilidade, no desempenho do mandato, pelo Presidente da República.

Sim, a despeito da tentativa de afirmar a constitucionalidade do processo de impeachment que, de fato, em tese, é constitucional, sem que haja o cometimento do crime de responsabilidade, o processo de impeachment torna-se mero eufemismo para golpe de estado travestido de obediência a alguma institucionalidade.

O que vivenciamos, na verdade, é um processo de impeachment pautado pelo clamor das ruas, insuflado por um mau momento econômico (que nem de longe é o pior já enfrentado por esta nação), em que se tenta indicar que a única saída para a crise seria a troca de comando da Presidência da República.

Impossível não lembrarmos, nesse ponto, da cultura futebolística brasileira em face de crises enfrentadas por qualquer time de futebol: diante de um mau momento enfrentado pela equipe, iniciam rumores de que o comandante do time está ameaçado em seu cargo; e se o mau momento não for rapidamente superado, o treinador da equipe é demitido.

O que se pretende com essa trivialização do processo de impeachment parece, justamente, uma tentativa de se estender, ao campo da política, essa tão criticada prática do mundo futebolístico brasileiro: diante de um mau momento enfrentado pela equipe (nação), iniciam rumores de que o comandante do time (Presidente da República) está ameaçado em seu cargo.

Ocorre que não é assim que podem se passar as coisas no campo da política.

O único fundamento hábil para a cassação de um mandato de um Presidente da República democraticamente eleito, é o cometimento, por este, de um crime de responsabilidade no desempenho do mandato.

E, no presente processo de impeachment, diante de cometimento de crime de responsabilidade não se está. Afinal, as ditas pedaladas fiscais (outra metáfora futebolística, que anteriormente eram chamadas de contabilidade criativa), nada mais representam do que inadimplementos contratuais com bancos públicos – dos quais a União é credora, e não devedora – que acarretam passivos contábeis no custeio de programas de governo, passivos estes que já foram devidamente pagos. Por fim, somente com o reconhecimento de que as pedaladas fiscais inviabilizaram o superávit primário, é que se poderia, em tese, impedir a expedição de decretos de abertura de créditos suplementares, dando ensejo, aí, a um crime de responsabilidade – um drible argumentativo (nova metáfora futebolística) que não pode ser utilizado em matéria criminal.

Pois bem, ainda que possam ser criticáveis, do ponto de vista contábil, as ditas pedaladas fiscais, jamais poderão ser consideradas como crime, até porque não se tratam de operações de crédito, nos termos do art. 3º, da Resolução 43/2001, do Senado Federal. Tampouco podem ser consideradas crime de responsabilidade.

Isso porque, em primeiro lugar, nada têm ou tinham de irregulares, tanto que são e foram largamente praticadas por governadores de estado e pelos antecessores da Presidente da República.

E, em segundo lugar, ainda que irregulares sejam consideradas, somente podem o ser para o futuro, dado que uma decisão do Tribunal de Contas da União não pode considerar, retroativamente, irregular uma conduta que sempre foi considerada regular por esta mesma Corte de Contas. Afinal, a Lei Federal de Processo Administrativo, Lei 9.784/1999 (que orienta o processo, também, no TCU) veda a aplicação retroativa de nova interpretação (art. 2º, § ún., inc. XIII).

Ora, como estamos diante de inovação de entendimento do TCU, este somente pode ser aplicado para práticas havidas após a sua publicação. E, após a publicação da decisão do TCU, não ocorreram novas pedaladas fiscais. Diante do que, não se pode concluir que houve o cometimento de crime de responsabilidade pela Presidente da República no exercício do presente mandato.

Com o que se tem outra conclusão imperiosa: se não há crime de responsabilidade, o processo de impeachment possui fundamento exclusivamente político. E a Constituição da República de 1988 veda tal hipótese.

Em face do que, a despeito dessa tentativa de trivialização do impeachment, é imperioso ter-se que na inexistência de crime de responsabilidade, não há como se julgar procedente um pedido dessa ordem.

A não ser que se pretenda instituir na política brasileira a criticável cultura futebolística de troca de comandante no mau momento. Algo que, nesse momento, pode até representar, para alguns, algo útil. Mas que pode trazer, e trará, no futuro, malefícios imprevisíveis para a jovem democracia brasileira. Noutras palavras, teremos um precedente perigosíssimo de que o impeachment passe a ter como fundamento qualquer crise econômica ou política. Ou seja, no futuro todo mundo vai querer um impeachment para chamar de seu.

*Júlio Cezar Bittencourt Silva é professor de Direito Administrativo da Faculdade CNEC de Campo Largo, mestre e doutorando em Direito do Estado pela Universidade Federal do Paraná.


A regra é clara
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Juca Kfouri

Extraído de “Regras do futebol e suas aplicações” – Curso Preparatório Elementar, Apostila 1, Introdução.

Entre as 17 regras do futebol, a do impedimento – regra número 11 – é a que dá mais margem a polêmica.

Apesar de ser clara quanto à situação, ela está sujeita a muitos erros por parte dos árbitros.

  
Seja por ser o lance às vezes difícil, seja porque alguns juízes e bandeirinhas erram mesmo, por incompetência ou má vontade.

Erros assim, em momentos decisivos, podem, obviamente, definir o resultado de um jogo e de um campeonato, punindo injustamente um time e beneficiando também injustamente outro.

Não é raro que tais erros acabem levando torcedores dos dois times a se rebelar, entrando em confronto entre si e contra a arbitragem.

Há quem diga que equipamentos televisivos poderiam ser usados para evitar erros.

Mas se, depois de apitado um impedimento numa jogada que resultaria em gol, os árbitros verificassem no vídeo que erraram (e na hipótese de que admitissem o erro, o que não é garantido), não haveria mais como recompor a jogada.

O impedimento já teria inviabilizado a jogada, o gol, o jogo e o campeonato.

Isso sem considerar que quem manejasse os vídeos também poderia errar na edição, ou mesmo manipulá-la com ângulos e enquadramentos distorcidos para tentar comprovar a infração inexistente.

Aumenta essa possibilidade o fato de que só os árbitros, e mais umas poucas pessoas, teriam acesso ao vídeo para tirar dúvidas.

O resultado é que a torcida acabaria, da mesma forma, se rebelando contra a injustiça cometida.

Por tudo isso, o melhor mesmo é que a regra 11 receba o máximo de cuidado, honestidade e rigor por parte da arbitragem.


Brasil x Paraguai: dureza em Assunção
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Juca Kfouri

Hoje a seleção brasileira enfrentará a paraguaia no Defensores del Chaco, em Assunção.

Moleza, lá, pelas eliminatórias, só uma vez, quando mesmo em clima de guerra, Pelé e cia venceram por 3 a 0 sob o comando de João Saldanha.

   

De lá para cá, a seleção nacional obteve duas vitórias como visitante, duas derrotas e um empate, além de dois empates e quatro vitórias como anfitrião.

Antes, para a Copa do Mundo de 1954, os brasileiros venceram lá e cá.

Esqueça as últimas duas eliminações impostas pelos paraguaios na Copa América. 

Lembre que o jogo desta terça-feira já tem ingredientes dramáticos em número suficiente, a começar pela ausência de Neymar e aceite que o empate será lucro, embora o discurso dos pracinhas do sargentinho Dunga seja o de vitória obrigatória.

Bons tempos em que podíamos achar que a seleção tinha obrigação de vencer…e vencia.

Não há motivo para esperar bom futebol, apenas virilidade, como quer o linguajar bélico de Dunga. 

Lucas Lima e Philippe Coutinho, no lugar de Neymar, seriam as melhores apostas de quem gosta de jogo bem jogado.
Mas teremos  ainda Fernandinho e Ricardo Oliveira.

Guerra e experiência, duas palavras do vocabulário dunguista.

Ou seria punguista, já que se trata de alguém que bate a carteira de nossas melhores tradições?


O que faria Johan?
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Juca Kfouri

Futebol feito arte: ou seja, Johan Cruijff ao jogar e ao pensar futebol; ou seja, Jorge Valdano ao escrever sobre Cruijff jogando e pensando futebol.

 

Por JORGE VALDANO*, no jornal “Record”, do México.

 
Estava em Madrid passeando em uma manhã ensolarada e, de repente, do céu limpo caiu um raio que apareceu pelo meu telefone: “Morreu Cruijff”.

Foi descrença mais que impacto, porque há personagens tão cheios de energia que nem nos passa pela cabeça pensar que a morte possa alcançá-los.

Contam que em uma ocasião, sendo treinador, o ônibus chegou de viagem altas horas da madrugada, após um jogo como visitantes, e encontraram-se com as portas do estádio fechadas.

Cruijff desceu do ônibus para analisar a situação e um jogador se perguntou em voz alta: “Também sabe de cadeados?”.

Ninguém com tanta convicção como para merecer o apelido de “Deus”, como seus jogadores do “dream team” do Barcelona o chamavam.

Um dia nos pusemos a falar de futebol em um hotel de Santander.

Estávamos instalados confortavelmente nas poltronas, mas o dia era tão bonito que decidimos continuar a conversa no terraço.

Quando íamos para a porta corri para chegar primeiro e Johan ficou surpreso, mas ainda não tinha perdido a corrida.

Foi então que me disse: “Se abrir a porta, para fora!”.

Este simples ato o proclamou autor intelectual da abertura da porta e eu fiquei como um simples operário da função.

Então lá vai, para onde quer que vá, a competir com quem quer que espere por ele. Porque este Deus do futebol era um concorrente excepcional.

Também jogava futebol como os deuses.

É inesquecível esse selo que parecia um cartão postal do futebol e a força de seu carisma, que atraía olhares mesmo quando não tocava a bola.

Chamavam-lhe “Magro” e era, mas a minha sensação quando tinha a bola é que aquele corpo leve, orelhudo e ágil, o tinham feito para jogar futebol.

Corria com a elegância de um veado e a convicção de um leão.

Sua visão era a de uma grande angular que lhe permitia jogar em qualquer lugar porque sua influência pesava em todo o campo.

Era o ” jogador total ” do ” Futebol total ” que praticava o fascinante Ajax e que se prolongou na seleção holandesa dos anos setenta.

Uma espécie de John Lennon que revolucionou o futebol, como os Beatles revolucionaram a música.

Tinha uma velocidade endiabrada, mas decorava as suas carreiras com enganos: mudava de ritmo e de direcção com uma astúcia letal.

Parecia impossível pará-lo dentro das regras.

A bola sempre se adaptou aos seus freios e a seus ataques como se fosse um animal de que fazia o que o seu Senhor lhe ordenava.

E se entramos no capítulo da personalidade devo dizer que nunca vi ninguém governar os jogos com a autoridade com que o fazia Johan.

Mexia os braços como quem dirige o tráfego, falava até no meio de um drible, pedia a bola como se fosse só dele.

Mandava ele.

Se permitia desafiar a autoridade de seu treinador modificando, no meio de um jogo, as posições de seus companheiros e a sua própria sem nenhum complexo.

Mas também mandava nos árbitros, aos que fazia sentir o poder de seu talento, falando com eles entre uma jogada e outra como se fossem os seus empregados.

Conheci-o quando eu apenas cruzava os 20 anos e ele já era um jogador consagrado (naquele tempo já havia levantado três Taças da Europa com o Ajax e três Bolas de Ouro).

Nós enfrentamos num jogo da Taça do Rei e tivemos uma discussão sem importância.

Me perguntou de onde eu era, depois o meu nome e finalmente a minha idade.

Cada pergunta a fazia com muita seriedade, como se lhe interessar de verdade.

Eu respondia a tudo com a obediência que merecia uma lenda do seu tamanho mas Johan, sem piedade, me atirou como um dardo fatal: “Com 20 anos a Johan Cruijff se trata de senhor”.

Não foi um bom começo, no entanto isso não alterou a minha admiração.

Sempre acreditei que a de treinador era uma profissão adequada para jogadores inteligentes, mas com algum tipo de limitação. Pessoas que tem que pensar para sobreviver no profissionalismo.

Os craques absolutos sabem desde o berço e resolvem os problemas mais complexos com a velocidade da ponta do instinto.

Razão suficiente para subestimar a Johan, o homem que tinha nascido para jogar.

Quando chegou ao Barcelona como treinador demorei a perceber que estávamos perante um revolucionário.

Pensei que se tratava de um excêntrico, mas olhando para traz suas primeiras decisões foram as de um gênio que tinha um plano.

Em um tempo em que era permitido dois estrangeiros por clube, grandes equipes tiveram que escolher muito bem.

Ali estava a possibilidade de fazer a diferença.

Geralmente, se buscava por grandes dianteiros porque o gol costuma ter nome próprio.

Johan começou a comprar um zagueiro quase gordo que se chamava Ronald Koeman e que tinha um toque de bola extraordinário.

Porque o gol, segundo Cruijff, é tão filho do jogo como dos especialistas. E o jogo há que lhe propor isso vindo de trás.

Mais tarde chegou Laudrup, um jogador muito fino rejeitado pelo tático futebol italiano daqueles dias. Outra estação intermédia antes de chegar ao arco.

Assim, elo a elo, acabou criando um time que dividia o campo em áreas.

A área central se acabou dando a Pep Guardiola — outro magro esfomeado que brincava com uma inteligência superior e que se alimentou desse futebol para acabar impondo método ao colossal instinto de Johan.

Enganam-se aqueles que dizem que Johan criou uma grande equipe.

Isso é reduzir muito o seu legado.

Criou uma escola que mudou a história do Barça e do futebol espanhol.

Basta dizer que, de 1960 até 1991 o Barcelona ganhou dois títulos.

De 1991 até hoje, no Barça, só ganharam campeonatos aqueles treinadores que, sendo holandeses ou espanhóis, são compatíveis com o seu estilo. E não são poucos. De fato, são mais da metade dos títulos disputados desde então.

Quatro Johan, dois Van Gaal, dois Rijkaard, três Guardiola, um Tito Vilanova e um Luis Enrique.

No mesmo período, o Barcelona ganhou suas primeiras cinco Copas da Europa.

Isto significa que o romântico futebol de Johan Cruijff, a primeira coisa que lhe ensinou o Barça foi ganhar. E também a Espanha, cuja revolução formadora teria sido impossível sem a sua influência.

Não era fácil compreender Johan.

Por um lado porque, como ele mesmo dizia, falava mal cinco idiomas.

Em segundo lugar porque, como todos os gênios, saltava pedaços quando queria explicar uma coisa.

E, principalmente, porque amava as simplificações.

Um dia jogavam contra o Atlético de Madrid de Manolo, um jogador assustador por sua capacidade de se desmarcar.

Quando os jogadores viram na lousa que Manolo não tinha atribuída nenhuma vigilância especial, estranharam.

Cruijff Perguntou:”Qual é a maior qualidade de Manolo?”.

Todos concordaram que o desmarque.

Cruijff, todo empertigado, com sua firmeza de sempre, asseverou: “Então o melhor é não marcá-lo”.

E ficava tão envaidecido como surpreendido: por que alguém perguntava por uma questão que se respondia sozinha desde a lógica mais elementar? A verdade é que as suas equipes acabaram por falar por ele.

Ninguém na história do futebol conjugou com tanto sucesso uma carreira de jogador com a de treinador.

Ninguém com tanta força para converter o bom futebol em uma cultura.

Há precisamente uma semana vi o apaixonante Bayern x Juventus.

Um jogo que o Bayern viu escapar entre os dedos.

Perdia de 2 a 0 e Guardiola teve que tomar decisões muito arriscadas para igualar no tempo regulamentar e ganhar na prorrogação.

No dia seguinte almocei com Pep e ele me disse algo extraordinário:

“Quando pior estava a coisa me perguntei: o que faria Johan nesta situação?”.

Não me ocorre uma homenagem melhor para terminar este artigo.

*Jorge Valdano, 60 anos, foi um extraordinário atacante campeão mundial pela Argentina em 1986 e bicampeão europeu pelo Real Madrid em 1986/86, de quem também foi treinador é campeão espanhol em 1995. É um dos mais brilhantes pensadores do futebol na atualidade.


Não é fácil jogar no Zerão
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

É preciso enfrentar, além do adversário, impactos relacionados à geografia, à meteorologia e – os mais sérios – à física.

Trata-se do estádio Milton Corrêa, em Macapá. Nele a linha do meio de campo passa exatamente pela Linha do Equador, ou seja, onde a latitude é zero – daí o apelido.

Agora que acabamos de entrar no outono aqui no Hemisfério Sul e que no Hemisfério Norte começou a primavera, há menos problemas: os dias têm duração parecida e a temperatura não é muito diferente nos dois lados. Mas só agora.

À medida que o sul vai se aproximando do inverno e o norte, do verão, já começa a complicar.

Os dias vão ficando curtos no sul e longos no norte. O clima muda: vai esfriando aqui e esquentando lá. O inverso ocorre ao longo da primavera no sul e do outono no norte.

E complicam de vez quando é verão num lado e inverno no outro.

Para os torcedores o problema é menor porque eles têm seus assentos fixos ao longo do jogo. Uns vão agasalhados e outros de camiseta; aqueles vão de chapéus, estes, de óculos escuros.

Mas para os jogadores, que transitam de um campo a outro, e ainda mudam de lado no intervalo, é uma loucura. Do calor pro frio, do claro pro escuro, do sol para os refletores, a todo momento (exceto os goleiros e alguns zagueiros e centroavantes).

Ao longo de um campeonato que dure as quatro estações as alterações são tantas que não consigo conceber como os times locais as enfrentam.

A preparação física tem que ser especial. Ainda mais quando os jogos ocorrem no auge do verão no sul e no auge do inverno no norte: imagine, em segundos, por várias vezes, sair de 40 graus no sul para, digamos, 2 graus negativos no norte. Ou sair do sol a pino típico do Hemisfério Sul pra neve do Hemisfério Norte. E vice-versa.

O impacto na saúde, no tipo de jogada e até nos uniformes e chuteiras a serem usados é muito grande. É preciso muita preparação. Muita resistência. Muita técnica para enfrentar as mais diferentes condições de jogo.

Mas a maior dificuldade é relativa a um efeito da física chamado Força de Coriolis. Por ela, os ventos fazem com que no sul os – por exemplo – redemoinhos girem no sentido horário e no norte, no anti-horário.

Há quem diga que esse efeito não atinge volumes pequenos (como a água na pia, que não sofreria tal alteração), mas há quem discorde.

Uma bola de futebol, chutada com certa força e efeito, num dia de vento mais vigoroso, suponho que há de sofrer ao menos uma parte desse efeito.

Com isso, chutar de trivela ou com a parte de dentro do pé, a depender da posição da qual se chuta – se da meia-esquerda ou da meia-direita, por exemplo – produzirá no sul trajetórias inversas às geradas por um chute no norte.

Nesse caso, se os cobradores de falta forem bem treinados, coitados dos goleiros quando mudam de lado do primeiro para o segundo tempo. Além de enfrentarem, batendo nos seus olhos, ora o sol forte, ora a luz dos refletores, eles terão que se contorcer frente a curvas inesperadas dos chutes a gol.

Esse efeito pode ser imprevisível nos chutões de um campo a outro – sabe-se lá o que ocorrerá com a curva da bola quando ela cruzar o meio de campo.

Se bem que para quem dá chutão isso não importa.

Importa mesmo é para um craque que quer, do seu campo, botar seu atacante na cara do gol adversário.

Nesse caso, além de ser exímio no lançamento, ele terá que dominar também uma geometria diferente e mais complexa e calcular trajetórias que, se forem bem sucedidas, deixarão os zagueiros adversários tontos.

Mas talvez também confundam seu próprio atacante, que correrá para um lado e verá a bola de repente girar para o outro. Conforme a velocidade, ele poderá até levar um tombo.

E, dependendo do dia, cair de cara na neve.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


Cruyff colocou o futebol holandês no mapa
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Juca Kfouri

POR FELIPE DOS SANTOS SOUZA*

Cruyff para sempre apontou os caminhos do futebol holandês (Sportfotodienst gmbH/VI Images)
Antes de Pelé? Ah, antes de Pelé houvera Friedenreich, Leônidas, Zizinho, Ademir de Menezes. Antes de Maradona? Ah, antes de Maradona houvera Loustau, Pedernera, Di Stéfano. Antes de Beckenbauer? Ah, antes de Beckenbauer houvera Fritz Walter, Helmut Rahn. Antes de Zidane? Ah, antes de Zidane houvera Michel Platini, Raymond Kopa, Just Fontaine. Antes de Roberto Baggio? Ah, antes de Baggio houvera Silvio Piola, Giuseppe Meazza, Giampiero Boniperti, Gigi Riva…

  
Claro, houve gente da Holanda que tratou bem a bola antes dele. Mas nenhum (ressalte-se: NENHUM) com a capacidade de pensar sobre o jogo, colocar em prática um estilo de jogar futebol que marcasse tanto um país, que criasse raízes tão fundas, até hoje seguidas de um modo ou de outro pelos times e pelas seleções holandesas depois dele. Por isso, é justo dizer: não havia futebol holandês, não havia seleção holandesa antes de Hendrik Johannes Cruyff, falecido nesta quinta aos 68 anos, vestir a camiseta laranja.

Nascido em Amsterdã (cresceu na Akkerstraat, no bairro de Betondorp), Cruyff foi maturando sua habilidade nas peladas pelas ruas de Amsterdã – isso, quando não tinha de trabalhar na quitanda mantida pela mãe, Petronella “Nel” Bernarda Draaijen, e pelo pai, Hermanus “Manus” Cornelis Cruyff. Porém, em 1959, seu pai “Manus” morreu, vitimado por um ataque cardíaco, no que foi um dos maiores traumas de sua vida. A perda também levou-o para um caminho decisivo em sua carreira: já trabalhando voluntariamente no Ajax, não só “Nel” passou a ser remunerada pelo clube, mas também foi trabalhar como empregada doméstica na casa do inglês Vic Buckingham, técnico do Ajax. Enquanto isso, “Jopie” (apelido de infância de Cruyff) já estava na escolinha do Ajax desde 1957. E não demorou a ascender para marcar época. Veloz e técnico ao mesmo tempo. Parecia correr o que não pudera na infância, por um problema de saúde. Ao mesmo tempo, parecia ter o campo todo em sua cabeça.

Tanto é que marcou gol logo em sua estreia pelos profissionais do Ajax, ainda com Vic Buckingham como o treinador – o único do time na derrota por 3 a 1 para o GVAV, em 15 de novembro de 1964, pela 11ª rodada do Campeonato Holandês 1964/65. E justamente em 1965, chegou aquele que seria seu mestre, o sujeito que exigiria demais dele – mas também o trataria como seu pupilo, numa relação de amor e ódio: Rinus Michels. Que faria de Cruyff o ponto principal, o “primus inter pares”, o craque entre craques, o personagem a ajudá-lo em campo no caminho que levou o Ajax a se transformar num clube lendário no futebol europeu e mundial. O pupilo reconheceu isso quando Michels faleceu, em março de 2005: “Ele me deu muitas broncas, mas me fez ser o que sou”.

Também ficou marcada desde cedo a irascibilidade do gênio. Basta mencionar sua primeira partida pela seleção holandesa, em 7 de setembro de 1966, contra a Hungria, num amistoso. Ele já marcou o primeiro de seus 33 gols pela Oranje. Mas também foi o primeiro jogador da história da equipe nacional holandesa a ser expulso de campo. Afetou tanto sua imagem que recebeu uma suspensão de um ano. Seu temperamento pode ser resumido numa frase dita orgulhosamente: “Nunca aceitei uma ordem”.

Tão logo voltou, viu-se que não se poderia prescindir daquele jogador único. E único não só dentro de campo. Sua parceria com o sogro Cor Coster (sogro a partir de 1968, após o casamento com Danny) o transformou no primeiro jogador holandês a capitalizar em cima da própria imagem naquele futebol de riqueza crescente. Cada patrocínio, cada camisa que vestia, cada produto que propagandeava: tudo rendia a Johan milhares de florins, a moeda holandesa antes do euro. Vale dizer: Cruyff não era só um símbolo do futebol holandês, era um símbolo da mudança da sociedade holandesa nos anos 1960-70. Basta lembrar da camisa de duas listras que a Adidas fez para ele na Copa de 1974, já que ele se negava a usar a camisa com as três listras que marcam a multinacional de material esportivo – rival da… Puma, que patrocinava… Cruyff.

E tudo isso – seu brilhantismo dentro de campo, seu temperamento fortíssimo, sua capacidade para promover sua imagem – foi visto no início dos anos 1970. No Ajax, como já dito, ele foi o personagem principal daquela equipe que colocou os Ajacieden no mapa, com o tricampeonato da Copa dos Campeões, mais Mundial Interclubes de 1972 (nos outros anos, o Ajax declinou da participação), três títulos holandeses (1969/70, 1971/72 e 1972/73) e três Copas da Holanda (1969/70, 1970/71 e 1971/72). Pessoalmente, foi o goleador da Eredivisie em 1966/67 e em 1971/72. Sem contar seus três prêmios como melhor jogador da Europa, em 1971, 1973 e 1974.

Nesse tempo de Ajax, duas histórias merecem menção. Em 30 de agosto de 1970, Cruyff voltava de uma lesão na virilha, num clássico contra o PSV, pela rodada do Campeonato Holandês. Na reserva, vestia a camisa 14, enquanto a 9 (seu número habitual até então) ficou com Gerrie Mühren. O Ajax venceu por 1 a 0. Na semana seguinte, por “ter achado legal”, Cruyff usou novamente a 14. E estva definido o número que usou por toda a carreira, e que até lhe rendeu um de seus apelidos. A outra história: em 1973, o técnico Stefan Kovacs decidiu fazer uma votação para ver quem seria o capitão do Ajax. Cruyff era o titular da braçadeira, mas o atacante Piet Keizer a exigia. Por 13 votos a 3, o elenco decidiu que Keizer seria o novo capitão. Bastou: julgando que o elenco cometera uma quebra de confiança, o “Nummer 14″ saiu da sala de votação direto para seu quarto no hotel, ligando para o sogro e empresário Cor Coster. Suas palavras: “Ligue imediatamente para o Barcelona. Estou saindo”. E assim Cruyff tomou o caminho de Les Corts, onde também fez história definitiva.

Na Oranje, participou das eliminatórias para as Copas de 1970 e 1974. Mas, acima de tudo, teve fundamental papel na decisão de trazer Rinus Michels para o comando da seleção, no início de 1974. E, óbvio, foi o principal interlocutor e principal peça da equipe que assombrou o mundo na Copa daquele ano. De fato, Cruyff merecia cada um dos apelidos que ganhou a partir dali: “Nummer 14” (Número 14), “Pitágoras de chuteiras”, “O salvador” (dado pela torcida do Barcelona, após o título espanhol de 1973/74, encerrando 14 anos de jejum). Enfim, o personagem principal do Totaalvoetbal.

Depois da Copa de 1974, é justo dizer que Cruyff estaria para sempre na história do futebol mundial. Tanto é que seu nome só ganhou o “y” então, para facilitar a leitura do resto do mundo, distanciando-o da grafia holandesa “Cruijff”. Porém, a partir dali seu nome perdeu um pouco de força. Na seleção, uma participação turbulenta na Euro 1976, e a recusa em participar da Copa de 1978. Até hoje, vários motivos são ventilados: a ameaça de sequestro da família, recusa em viajar à Argentina então sob ditadura militar, eventual ordem da mulher após suposta noite passada com prostitutas às vésperas da final de 1974… enfim, o fato é que Cruyff parou com a Laranja após 48 jogos e 33 gols.

Pior: também sua produtividade pelos clubes caiu. A ponto dele declarar o fim da carreira já em 1978, um dos seus mais melancólicos anos. Na partida de “despedida”, o Ajax encarou o Bayern Munique… e perdeu por 8 a 0, a mais dura derrota da carreira de Cruyff. Mais: carreira encerrada, ele tentou viver dos negócios em Barcelona com o amigo Michel Basilevitch, na criação de porcos e na exportação de vinho, cimento e imóveis. Fracasso, prejuízo e fuga de Basilevitch, deixando Cruyff com seis milhões de florins em débitos variados.

Restou tirar as chuteiras do armário e aceitar ofertas variadas para pagar as dívidas. Na lucrativa NASL, a liga norte-americana da época, passagens pelo Los Angeles Aztecs e pelo Washington Diplomats; um jogo único pelo Milan; um semestre rapidíssimo no Levante-ESP… mas sua carreira só voltou aos eixos após o retorno ao Ajax, em 1981. Inicialmente, nem era para jogar, mas para auxiliar o treinador Leo Beenhakker. Qual nada: Cruyff voltou aos gramados e foi personagem fundamental nos títulos holandeses de 1981/82 e 1982/83. Daí, o Ajax acreditou que ele estava “velho”, e não renovou seu contrato. Bastou para a vingança maligna: Cruyff aceitou a proposta do arquirrival Feyenoord, onde conquistou a Eredivisie e a Copa da Holanda na temporada 1983/84.

Carreira encerrada no campo, Cruyff começou no banco de reservas. Treinando o Ajax entre 1985 e 1988, não só levou os Amsterdammers ao título da Recopa europeia, em 1987/88, mas também revelou vários jogadores: os De Boer, Dennis Bergkamp, Sonny Silooy… sem contar gente com quem havia jogado e que ganhou espaço com ele no banco, como Marco van Basten e Frank Rijkaard. Como não poderia deixar de ser, um desentendimento com a diretoria do Ajax o tirou do clube, em 1988, levando-o ao Barcelona – sua outra casa, o outro clube em que fez história.

Também por sua personalidade irascível é que a federação holandesa nunca o chamou seriamente para treinar a Oranje, coisa que muito se esperou até hoje. E por ela, também, sua relação com o Ajax sempre foi turbulenta – basta citar o projeto natimorto de trabalho com Van Basten quando este assumiu o clube, em 2008, ou a “Revolução de veludo” rachada nesta temporada.

Ainda assim, se a importância de Cruyff no Barcelona é gigante, no futebol holandês ela é ainda maior, definitiva. Basta saber que até livros foram editados com suas frases. “Toda desvantagem tem sua vantagem”; “Os italianos não podem lhe vencer, mas você pode perder para eles”; “Antes de cometer um erro, eu não cometo um erro”… viraram marcas das “Cruijfiaans”, suas tiradas misteriosas e até curiosas.

Mas hoje, neste dia em que a Holanda para, pela perda de um de seus símbolos mundiais (Cruyff foi eleito o sexto holandês mais importante da história do país, numa pesquisa de 2004 – à frente de Anne Frank, Rembrandt e Vincent van Gogh), basta lembrar duas frases para dimensionar sua importância. A primeira: “Jogar futebol é muito simples, mas jogar o futebol de modo simples é a coisa mais difícil que há”. E a segunda: “Em qualquer sentido, eu provavelmente sou imortal”. De fato: em cada Cruyff Court (quadras destinadas a crianças carentes para a prática do futebol), em cada aluno da Cruyff University (faculdade destinada à formação de dirigentes esportivos), em cada mudança tática vista atualmente, em cada elogio de gente como Josep Guardiola, não há como não reconhecer: Verdade, Johan, verdade. De fato, você é imortal.

*Felipe dos Santos Souza é historiador formado na PUC e especialista em futebol holandês.


Flu-Fu na final da Primeira Liga
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Juca Kfouri

Depois de um primeiro tempo fraco, mas com o Flamengo melhor que o Furacão em Juiz de Fora, o segundo foi aberto e repleto de chances de gol, diante de 12 mil torcedores.

Mais para o time paranaense que abriu o placar com Marcos Guilherme, aos 17, ao acertar um tirambaço no ângulo, de fora da área.

  
 
Antes de Marcelo Cirino fazer grande jogada e concluir nas nuvens, o Atlético Paranaense teve duas ótimas chances para ampliar, como teve logo depois do incrível desperdício do ex-atacante do Furacão.

Perdido por um, perdido por 10, o Flamengo foi para cima em busca do empate que levaria a decisão para a vaga na final contra o Fluminense para a marca do pênalti.

O Furacão se aproveitou dos contra-ataques e Paulo Vítor evitou o segundo gol do time dirigido por Paulo Autuori.

O juiz deu 4 minutos de acréscimos, para esperança dos flamenguistas e nervosismo dos atleticanos.

No fim, em vez de Fla-Flu, outro rubro-negro, o paranaense, fará um Flu-Fu na finalíssima da Copa da Primeira Liga, no dia 7 de abril.


Por que a Caixa não renova com o Corinthians
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Juca Kfouri

A Caixa Econômica Federal não renova o contrato de patrocínio com o Corinthians por causa da Winner Play que aparece na camisa alvinegra.

O motivo é simples:

A Winner Play é um disfarce para uma empresa sediada em paraíso fiscal que faz jogo de pôquer  pela internet.

  
  A Caixa argumenta que é a única instituição autorizada a promover o jogo no Brasil e que não pode dividir patrocínio com quem está ilicitamente no país.

A Winner Play está desde janeiro nos ombros da camisa corintiana, o contrato irá até dezembro de 2018, renderá cerca de R$ 20 milhões ao clube e diz que não é uma empresa de apostas. Mas é.

A CEF pagava, e está disposta a continuar pagando, R$ 30 milhões por ano.

Mas o deputado  Andrés Sanches (PT-SP), sem cargo no clube, não aceita a retirada da marca Winner Play da camisa.


A PM assusta uma criança de 9 anos, uma mulher grávida, um monte de gente que deveria proteger na saída da Arena Corinthians
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Juca Kfouri

POR CÁSSIO BRANDÃO*

Esse aí da foto é o Pedro Rodriguez. O Pepê.


Na foto, estamos na estação de trem indo para a Arena Corinthians.

O Pepê, posso garantir, é a criança de 9 anos mais corinthiana que existe. Posso garantir. Ele é apaixonado por futebol, conhecedor de todos os nossos jogadores e dos times da Champions, fera no PlayStation.

Jogo tranquilo, Linense, sábado a tarde. Ele, o pai dele, um primo querido e eu. 4×0. Romero fez dois.

Saindo da arena ele me lembrou que é pé quente – nosso último jogo juntos foi aquele eterno 6×1 em cima do time do Morumbi.

Estamos descendo calmamente a rua, quando explode a primeira bomba.

Segunda.

Terceira, quarta, quinta.

Correria. Pessoas correndo para todos os cantos. Crianças começam a chorar, uma mulher grávida do meu lado se desespera.

Incontáveis bombas explodem, gás começa a irritar os olhos, Pepê aperta a minha mão e diz:
– Por favor, Tio Cassio, me tira daqui!

Eu tento tranquiliza-lo, digo que já vamos chegar no metrô.

Mais bombas.

Quando o Pepê reforça:

– Eu estou com muito medo, Tio Cassio, me tira daqui!

Somos tratados como gado no futebol brasileiro. Você sabe bem. Frequento estádios desde 1989 e já corri da polícia algumas vezes, já fugi de cavalos e bombas. Nunca, por ter incitado algo.

O que a PM fez hoje já aconteceu outras vezes comigo – mas não tinha acontecido com ele, na idade mais mágica pra se apaixonar por esse esporte que nos trata tão mal.

Não quero politizar a questão aqui – mas foi um abuso injustificável da PM, um excesso que não dá pra compreender!

Represália à torcida organizada que vem protestando e que já tinha apanhado na última quarta-feira (onde também tive que correr de uma bomba na saída).

Represália de quem deveriam me proteger. De quem deveria proteger o Pepê!
Foi triste! A fragilidade que uma situação como essa nos coloca é assustadora!
Estamos bem, nada nos aconteceu. E espero que não tenha acontecido nada de grave com ninguém.
Mas o que eu queria mesmo era que o Pepê esquecesse aquele pequeno momento de terror onde apertou minha mão.

Pra continuar sendo pé quente. Pra continuar amando o futebol e o Corinthians. Pra que daqui alguns anos, 15, 20 anos, não sei, ele não precise apertar a mão do filho dele.

Pra que ele nunca precise correr de bombas ao sair de um estádio de futebol.

*Cássio Brandao, publicitário, homenageou seu maior ídolo, Basílio, dando o nome a seu cão Pug de 4 anos.