Blog do Juca Kfouri

Arquivo : maio 2016

Fechem os olhos
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Vocês não estão vendo. Nem ninguém. Mas ali está havendo um jogo. Onde? Ora, onde! Ali, bem à sua frente. Sei: nem mesmo o campinho vocês enxergam, não é? Nem a mim, eu sei; só me ouvem.

Mas isso basta. Prestem atenção à minha voz. Olhem para a frente. Mas não de olhos abertos. Assim é que não verão nada mesmo. Façam como eu: fechem os olhos. Tapem-nos com as mãos. Pronto. Agora vocês conseguirão assistir ao jogo.

Já veem o campinho, certo? Os buracos, as descaídas, o capinzal no fundo, o barro eterno num dos cantos. A bola velha, soltando lascas de couro, meio murcha. E o bando de moleques.

Reparem bem. Não são estranhos. São vocês. Magrelos, joelhos esfolados, pés encardidos, suor por todo o corpo. Correndo sem parar. Misturando-se uns com os outros, com o mato, com o barro, brigando pela bola como cães atrás de comida. Caem, rolam, pulam, chutam, brigam, riem, se abraçam, trocam socos, falam alto.

Vejam a si mesmos quando meninos jogando bola. Pensem em vocês agora. Parecem seres distintos, eu sei. Mas não é para se espantarem. Algo ocorreu – sempre ocorre, e não há quem saiba dizer o que é – desde aqueles jogos até hoje que tornou tudo e todos aparentemente tão diferentes. Por isso é que vocês não se reconhecem. Mas agora, observando bem, já têm certeza de que são vocês, certo?

Então. Vejam o jeito de cada um. A maneira de dominar a bola, de chutá-la, de esbravejar, driblar, dar passes, comemorar. Parece inacreditável, mas é assim que vocês ainda fazem hoje. Eu sei que vocês não jogam mais bola. Mas é por isso que estou lhes mostrando esse jogo. Para que percebam que é naquele campinho, com aquela bola, com os traços e modos que vocês tinham quando eram crianças e jogavam futebol que vocês forjaram o que são hoje.

Não falo de modos físicos. Nem de fracassos e sucessos. Falo da tormenta ou da paz de espírito. Da dignidade ou da covardia. Da respiração forte ou fraca. Do olhar altivo ou baixo. Da percepção ou não do espaço e do tempo e do que fazem ao percorrê-los. Esses são os fundamentos adquiridos nas peladas da infância e que os anos transformam em caráter.

Tudo isso está ali, no jogo à sua frente. Só que vocês então não o sabiam. Muito menos o sabem hoje. E tampouco o saberão daqui por diante. Porque assim que destaparem e abrirem os olhos tudo será esquecido. E o que é invisível voltará a sê-lo.

Vocês continuarão cegos, lutando, felizes ou infelizes, atrás de algo que não sabem o que é. Mas que provavelmente é voltar a jogar aqueles mesmos jogos. Para ter a chance – impossível – de tomar consciência de que ali se decidia o que viriam a ser ou deixar de ser hoje.

Agora chega. Podem abrir os olhos.

Veem? Pois é. É isso mesmo. Nada.

Não vemos nada, não é?

Mas é normal que não vejamos.

Porque não há mais nada para ver.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).



Livro escancara corrupção endêmica na Fifa
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Juca Kfouri

Jornalista Rodrigo Mattos detalha escândalos do futebol revelados por operação do FBI


Em 2015, depois de três anos de trabalho, a Agência Federal de Investigação (FBI) e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos escancararam o jeitinho Fifa de se fazer negócios: dirigentes embolsavam dinheiro e cediam direitos de marketing e televisivos de campeonatos como a Copa América e a Copa Libertadores da América para quem lhes pagasse mais.

Foram 18 acusados de pagamento e recebimento de propinas por contratos de competições em todo o continente americano, com destaque para o Brasil. José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), foi um dos sete dirigentes da Fifa presos em 27 de maio de 2015, numa operação policial em Zurique, na Suíça, que marcou o início da deflagração de uma série de escândalos envolvendo o órgão máximo do futebol mundial.
O caso que abalou as estruturas da Fifa é narrado com detalhes em Ladrões de bola.

O autor, Rodrigo Mattos, é jornalista esportivo, mantém um blog com reportagens diárias no UOL Esporte e já perfilou e entrevistou grande parte dos cartolas investigados.

No livro, ele aborda o tema delicado de maneira quase didática, contribuindo para o entendimento da trama de corrupção.

Bastam algumas das 184 páginas páginas para o leitor entender como o Brasil entrou na dança.

Em 1991, o empresário brasileiro José Hawilla, dono de uma empresa de marketing esportivo, descobriu o esquema de propinas que reinava na Fifa e quis tirar uma casquinha.

Levou os direitos de imagem da Copa Ouro, competição então recém-criada de seleções nacionais da Concacaf (Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe), depois de oferecer uma bolada de seis dígitos para Jack Warner, chefão da confederação.

Foi com o depoimento de José Hawilla à Justiça norte-americana, em 2014, que vieram à tona os escândalos futebolísticos tramados em solo brasileiro.

O empresário assumiu que concordou pagar subornos e propinas encobertos pelos contratos da Copa América, da Copa do Brasil e da Nike, patrocinadora da Seleção Brasileira, sob o mando do então presidente da CBF Ricardo Teixeira. A revelação levou à criação da CPI da CBF/Nike, na Câmara dos Deputados, e da CPI do Futebol, no Senado.

Os detalhes sórdidos presentes no livro prometem atrair não só os fanáticos por futebol, mas todo o público leitor interessado no funcionamento da máquina da corrupção, assunto que não poderia estar mais quente nos tempos atuais de crise política.

A escolha da África do Sul para sediar a Copa do Mundo 2010, por exemplo, custou 10 milhões de dólares não oficiais, negociados por representantes da Fifa com o governo do país africano.

Uma mixaria, comparada aos 100 milhões de dólares em subornos recebidos pela Fifa da gigante do marketing International Sport and Leisure (ISL), por muito tempo principal parceira da instituição.

A ISL acabou indo à falência de tanto pagar suborno a cartolas! Só Ricardo Teixeira embolsou uma mesada que totalizou 26,4 milhões de reais, com o objetivo de influenciar suas decisões ao renovar contratos relacionados aos direitos de transmissão e marketing da Copa do Mundo.

Capítulos exclusivos dedicados às falcatruas referentes à gestão de grandes competições como a Copa Libertadores da América e a Copa do Mundo 2014, sediada no Brasil, deixa clara a forma como a corrupção prejudica o futebol.

E, ao longo de todo o livro, o autor aproveita para traçar perfis de figurões dos bastidores do futebol, como José Maria Marin, Marco Polo Del Nero, Joseph Blatter e Ricardo Teixeira, contribuindo assim para o reconhecimento dos personagens envolvidos na trama criminosa e permitindo que mesmo o público não familiar com o tema esportivo tenha uma experiência proveitosa na leitura.

TRECHO

“Quando João Havelange estava idoso demais para seguir na presidência da Fifa, após 24 anos no poder, era natural que procurasse para substituí-lo um homem que daria seguimento à sua gestão e não remexeria no passado. Era preciso evitar que viessem à tona verdades inconvenientes. Para atender a esse tipo de requisito havia o seu braço direito na entidade: o suíço Joseph Blatter, secretário-geral do mundo do futebol. Sua carreira de cartola desen- volvera-se ligada às grandes corporações que atuavam junto à federação internacional de futebol, como a Adidas e a Coca-Cola. Conhecia a fundo os contratos e as relações com os donos do dinheiro que abasteciam a Fifa. Não sairia dali nenhuma resistência ou questionamento aos negócios realizados pelo chefão do futebol mundial.”

O AUTOR

Rodrigo Mattos é jornalista e iniciou a carreira em O Estado de S. Paulo em 1999, como repórter de Esporte. Depois de passar pelo diário Lance!, foi trabalhar na Folha de S.Paulo, onde ficou de 2005 a 2012, até ser transferido para o UOL. Cobriu duas Copas do Mundo e uma Olimpíada.

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Brasileirão tem quase um milhão de sócios torcedores
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Juca Kfouri

Clubes da Série A somam 941,721 inscritos no Movimento Por um Futebol Melhor

Entre os 20 clubes que disputarão a Série A nesta temporada, apenas Atlético Paranaense, Coritiba, Santa Cruz e Figueirense não fazem parte do Movimento.

O grande destaque entre os clubes participantes é o Corinthians, que tem 130.408 membros no Fiel Torcedor.

O Palmeiras, com 126.675 associados ao Avanti, e o Internacional, com 112.756 inscritos em seu programa, completa o pódio do “Torcedômetro”.

Atual campeão estadual e de volta à elite do futebol brasileiro após quatro anos na Série B, o América mineiro é o clube com menos sócios-torcedores: 1.902.

A Chapecoense, que disputa a primeira divisão nacional pela terceira temporada consecutiva, aparece logo à frente do clube mineiro, com 5.184.

Ao todo, o Movimento com 69 agremiações e 1.126.978 inscritos.

Confira o ranking (por ordem alfabética) de sócios-torcedores dos clubes que disputam o Campeonato Brasileiro de 2016:

América: 1.902
Atlético Mineiro: 61.504
*Atlético Paranaense: Não está inscrito.
Botafogo: 13.521
Chapecoense: 5.184
Corinthians: 130.408
*Coritiba: Não está inscrito.
Cruzeiro: 74.878
*Figueirense: Não está inscrito.
Flamengo: 54.811
Fluminense: 32.452
Grêmio: 94.726
Internacional: 112.756
Palmeiras: 126.675
Ponte Preta: 18.476
*Santa Cruz: Não está inscrito.
Santos: 63.396
São Paulo: 95.608
Sport: 43.656
Vitória: 11.768


“Somos todos esquizofrênicos”
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Juca Kfouri

O ex-parlamentar europeu Daniel Cohn-Bendit tem uma fraqueza por futebol.

Nesta entrevista, concedida ao diretor da combativa revista esportiva austríaca “ballesterer”, o jornalista Robert Florencio, ele fala sobre maus exemplos, gastança demasiada de dinheiro e dá seu palpite para a Eurocopa.


 
“Desde a infância estou ligado ao futebol. Minha alfabetização iniciou-se porque sempre quis saber o que estava escrito nas páginas esportivas do ‘L’Equipe'”, disse Daniel Cohn-Bendit nesta conversa num bistrô francês em Frankfurt.

Entrevistador do Doutor Sócrates, em 1984, e autor de excelente documentário durante a Copa de 2014 no Brasil, ele é mais conhecido como “Dany, o vermelho”, um dos principais ativistas dos protestos estudantis de Maio de 1968 em Paris, e por ter sido político do Parlamento Europeu pelo Partido Verde, do que como jornalista.


ballesterer – É sabido dos perigos de terrorismo durante a Eurocopa, que começa no próximo dia 10 de junho. Seria melhor aos visitantes tomar precauções especiais ou simplesmente não ir?

Daniel Cohn-Bendit – Eu não sei. O perigo de ataque está dado. Se, de fato, algo acontecerá ou não, depende de vários fatores. A qualidade da cooperação entre os serviços de segurança europeus desempenha um papel fundamental, porém, o acaso também. Entendo a preocupação dos torcedores, mas não se deve esquecer que, fora este evento, um ato terrorista é algo que pode acontecer a qualquer hora.
Quando se entra num trem-bala voltando para Viena, não se tem a certeza de que tudo correrá bem até a sua chegada. Aqui na Europa temos que aprender a viver com esta situação. Contudo, não devemos nos intimidar e seguir a vida normalmente.

O senhor vê as autoridades francesas bem preparadas contra possíveis ameaças?

Não tenho ideia sobre as atividades de serviço secreto. Eu só posso dizer que na situação atual, eu não desejaria, de forma alguma, ser o chefe do Ministério do Interior francês, pois só existem duas possibilidades: se nada acontecer, estiveram bem preparados. Caso algo aconteça, a responsabilidade recai sobre eles.

No recém inaugurado museu da FIFA em Zurique, o título mundial da França de 1998 é mostrado sob dois diferentes aspectos políticos. O primeiro é a aceitação do esporte pelos críticos intelectuais. O segundo aspecto seria a reconciliação dos três grandes grupos populacionais black, blanc, beurre. (negros, brancos e descendentes argelinos).
O senhor acredita que um novo título poderia reacender a atmosfera daquele tempo?

Sempre houve uns e outros intelectuais. Cito Albert Camus que sempre disse ter aprendido tudo o que sabe sobre ética humana nos campos de futebol.
Falando do outro aspecto, lembro dos dois milhões de pessoas de todas as classes sociais que participaram nas comemorações na Champs-Elysees em 1998. Ao contrário da demonstração daquela época, depois dos ataques recentes à revista “Charlie Hebdo”, onde outra grande manifestação do repúdio ao terrorismo e em prol da liberdade da imprensa foi organizada, os moradores dos Banlieues (subúrbios) não estiveram presentes.
Hoje a situação é bem mais complicada para muitas pessoas e ainda mais tensa desde os atentados.
Seria duvidoso dizer que uma alegria coletiva pudesse repetir-se, entretanto, se a performance da seleção for extraordinária, não excluiria esta possibilidade.

Os jogadores da seleção francesa expressam publicamente suas opiniões sobre temas sociais?

O primeiro nome que me ocorre é o de Lilian Thuram, que luta bravamente por intervenções anti-racistas. Depois temos Vikash Dhorasoo, que cuida de jovens dos guetos e Emmanuel Petit que frequentemente faz afirmações sociopolíticas.
Mas estes jogadores são exceções – todos já terminaram suas carreiras. Não é bem como no Brasil, onde vários jogadores antigos, que fizeram carreira na Europa, agora investem em doações ou possuem Fundações próprias que oferecem melhores oportunidades às crianças pobres.
O que, por exemplo, Raí e Leonardo fizeram no Brasil com sua Fundação Gol de Letra, serviria como um excelente exemplo para jogadores europeus.

Isto funcionaria se alguém como Karim Benzema se engajasse na periferia?

Se ele tivesse algo na cabeça, sim. Não devemos esperar muito dos jogadores, porém, meu desejo é que eles se dedicassem um pouco mais socialmente. Com o dinheiro que ganham, poderiam facilmente fazer um bocado e contribuir mais socialmente.

A França sediará, após a Eurocopa de 1984, da Copa de 1998 e do Campeonato mundial de rúgbi em 2007 o quarto grande evento esportivo em 32 anos. Existem problemas de financiamento? E como será a sustentabilidade das novas arenas?

O Governo injetou novamente dois bilhões de euros para a construção de novos e a adaptação de antigos estádios. Isto é uma quantidade altíssima, mas os franceses não tem uma disciplina fiscal tão rígida como os alemães. O aspecto sustentabilidade não teve um papel importante e somente agora , com a intenção de sediar os Jogos Olímpicos de 2024 na capital, a prefeita parisiense apresentou um projeto ecológico para tal.

Em outros países europeus há cada vez mais oposição contra eventos esportivos de grande porte. Seriam os franceses mais adeptos por tais espetáculos e menos conscientes do impacto ecológico?

Temos um pouco de ambos, mas existem protestos também na França. Os ecologistas protestaram em Lyon contra a construção do novo Estádio na periferia da Cidade, onde um monte de árvores foi arrancado. Também em Paris, um grupo de cidadãos se formou pela preservação de um parque que será afetado pelos trabalhos de ampliação do estádio de tênis Roland Garros. E, sim, é verdade: se houvesse um plebiscito na França, a maioria decidiria provavelmente a favor dos eventos esportivos – não importa se Eurocopa ou se Jogos Olímpicos.

No campeonato francês, Paris Sant-Germain parece inalcançável, por muitos anos, graças ao dinheiro do Catar. Como pode se competir com isso?

Se observarmos as principais Ligas européias, constatamos um problema de dinheiro. Podemos, por assim dizer: somos todos esquizofrênicos.
No aspecto do futebol em si, que é regido pelos negócios, é uma crueldade. Somente a ideia de conceder uma Copa do Mundo ao Catar, já é, por si só, um escândalo. A Rússia no seu estado atual é igualmente outro escândalo. E no que concerne aos Campeonatos nacionais: Se não houver regras de limites para os investidores estrangeiros, o mesmo time será sempre o mais beneficiado e o grande favorito aos títulos.
O futebol está sendo tragado pelo dinheiro e este fato possui efeitos sobre a psique dos jogadores, como se pode observar nas diversas escapadas. Eles perdem totalmente a noção em relação à vida real, pelas grandes somas de dinheiro que recebem.
Por isso compreendo as pessoas que não querem mais desperdiçar seu tempo com este mundo surreal e nem querem preocupar-se mais com tal coisa. Este é um lado.

E o outro lado?

Com frequência, se vê jogos de alta qualidade e grande dramaturgia – como no último confronto entre Bayern de Munique e Juventus. Ficamos fascinados. E, embora saibamos que Lionel Messi e Neymar enganem o fisco e Luis Suarez goste de morder, contiuamos fascinados com os atacantes dos sonhos do Barcelona. Esta é a esquizofrenia na qual vivemos.

Falemos de política esportiva. A FIFA tem um novo presidente, a UEFA ainda terá que escolher um em pouco tempo. Como o julgar todos estes escândalos?

A Copa de 2006 foi comprada, com certeza. O comportamento de Franz Beckenbauer foi muito desajeitado. Se ele tivesse falado desde o início que ninguém receberia uma Copa sem suborno por causa das estruturas corruptas da Fifa, hoje seria um herói. Entretanto, por causa das inúmeras mentiras e permanentes manobras, ficou numa situação complicada.
O que para mim é especialmente terrível, são os contratos que os países organizadores das Copas são forçados a assinar com a Fifa.
O presidente da Fifa espera ser tratado como Chefe de Estado. Nas zonas que envolvem os arredores dos estádios não vigoram mais as leis do país-sede, mas sim as da própria Fifa. Estes fatos mostram, claramente, o poder desta entidade, conseguido graças aos patrocinadores e aos direitos de transmissão. Isto é um absurdo.

Michael Platini está envolvido até o pescoço nas teias da corrupção e finalmente foi obrigado a deixar seu cargo como Presidente da UEFA. Qual a importância dele?

Michel Platini decepcionou muito. Entrou como um grande reformador, facilitou o caminho para os times menores da Liga dos Campeões e introduziu o jogo limpo financeiro. Coisas que jamais passariam pela cabeça de um Beckenbauer. No exemplo de Platini, se vê claramente: quando se faz parte de um sistema que permite a corrupção, se é tragado facilmente.

Alguma ideia de como este rumo poderia ser mudado?

Numa conversa com a ex-ministra dos Esportes, sugeri uma categoria de ingressos econômicos para as camadas excluídas. Ela saiu e não deu.

No geral é necessário puxar o freio monetário dos negócios ligados ao futebol?

Inicialmente eu começaria com os contratos de TV, que possibilitariam aos canais não pagos a livre transmissão dos jogos. Além disso, deveriam ser introduzidos limites financeiros para a cobertura dos direitos de transferência da TV e logo a seguir tetos salariais para os jogadores.
Também na formação das categorias de base, seria necessário uma proteção para os clubes formadores, evitando, desta forma, uma saída prematura das jovens promessas. Deveria haver ajustes mais claros nestas áreas.

O que se poderia fazer para diminuir o abismo que existe entre os pequenos times, os de médio porte e os 20 top de linha, que são clientes de carteirinha da Liga dos Campeões?

Meu receio é que seja tarde demais. Os grandes tiraram vantagens, tanto finaceiras quanto esportivas, as quais não podemos mais retirar. Contudo, todos os campeões das diferentes Ligas européias deveriam ter chances justas de fazer parte da Liga dos Campeões. Nos resta a esperança por surpresas, como o ocorrido na Inglaterra, com o time de Leicester.

O que esperar da Eurocopa? Como vê as chances da França levando em conta as vitórias em casa nos últimos torneios?

Logicamente que temos chances, porém não será fácil. Os jogos a partir das oitavas de final ficam bem acirrados, nesta fase tudo é possível. Me lembro do jogo contra o Paraguai em 1998, aonde a vitória só foi possível nos acréscimos e com bastante dificuldade. O melhor jogo foi a final. Mas, recapitulando o torneio em sua totalidade, uma grande porção de sorte foi necessária.

E a Alemanha? Joachim Löw disse que a Eurocopa é somente uma pequena parada a caminho da Copa de 2018, na Rússia.

Ele é realista e sabe que seu time não está tão forte atualmente. Philipp Lahm já não está mais no time. Bastian Schweinsteiger está machucado. Mesut Özil é um mistério, às vezes está presente, às vezes não, Ilkay Gündogan está lesionado e fora. Além disso, os problemas defensivos na esquerda e na direita. Não será fácil para eles, mas são, como todo mundo sabe, um time que cresce durante o torneio.

Quem mais teria em sua lista de favoritos para o título?

Os espanhóis, mas temos que observar se conseguiram remodelar o time, após o vexame da Copa.
Então os ingleses, que após um longo período conseguiram formar um time bem forte e também os belgas, que despertam muitas expectativas. Caso eu tivesse 1.000 Euros, apostaria em vários times.


Jogando no escuro
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

1.
No futebol de cegos a bola tem guizos para que os jogadores a localizem, dominem, troquem passes, chutem – joguem, enfim. Atrás do gol adversário fica o “chamador”, que, com a voz e batidas de metal nas traves, dá a direção e o alvo aos jogadores do seu time. A torcida tem que fazer silêncio total para não atrapalhar o som da bola e do chamador.

Uma bola de guizos e um chamador.

É isso.

Ele de repente descobre do que precisa a esta altura do segundo tempo.

Para saber o que fazer e para onde ir, em vez de ficar correndo a esmo como tem feito desde o apito inicial.

Ah, e de silêncio também.

2.
Desde cedo a capina, marmita, à tarde de novo capina, de noitinha chegava a hora da bola. De botinas, chapéus, calças rotas, um punhado para cada lado, enxadas, ancinhos e foices demarcando o campo e as traves, a umidade e o calor empapando o ar, o cheiro do ribeirão e do capim cortado, os restos de mato voando sob as solas, era tudo isso, todo dia, toda a vida. Até que houve a briga. Todos contra todos. As enxadas, os ancinhos e as foices, mais as facas das cintas e das botas, fizeram a sangueira escorrer no capim, quase todos mortos, picados, decepados, só três ficaram em pé, se olhando com medo e respeito, contando no chão as mortes estripadas e assistindo ao afluente de sangue dar no ribeirão, que ficou vermelho e correu pra algum lugar que eles imaginavam ser um lago enorme e fundo e então eles jogaram os pedaços dos corpos na corrente, limparam o que puderam, esfregaram as roupas, recolheram as armas, colocaram-nas na carroça e foram embora. À noite, só ficou ali no campo da capina, do jogo, das mortes, a bola. Debaixo de um arbusto, como se escondida e amedrontada. Nos gomos arregalados, respingos de sangue. O barulhinho espesso e rubro do ribeirão era seu antiacalanto.

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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).



Um livro, quatro crianças e muitas coincidências
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Juca Kfouri

POR CESAR OLIVEIRA*

Ele veio ao Rio de Janeiro para um evento na ABI. Era novembro de 2011. Protestávamos no “Comitê Popular Rio – Copa e Olimpíadas” contra a absurda maneira como o pessoal da Vila Autódromo estava sendo tratada, com o pé da porta e a retroescavadeira derrubando as paredes, numa reedição modernizada do “Ponha-se na Rua”.

O debate começando e eu curtindo o prazer de estar ao lado dele na plateia, conversando e esperando o momento em que ele seria convidado para subir ao palco e falar, com a conhecida contundência, contra aquela tremenda sacanagem perpetrada contra a população carioca.

A imprensa (ao contrário de agora), nada falava. Parece que a imprensa brasileira adora escolher o lado errado da força. Estava ao lado dos empreiteiros e incorporadores – esses mesmo aí agora envolvidos até o ú na Lava-Jato, governantes e empresários, armando o golpe dos Jogos Olímpicos, uma roubalheira sem tamanho que o jornalista investigativo escocês Andrew Jennings denuncia pelo mundo afora, só aqui que não lhe dão guarida, preferem ficar ao lado dos filibusteiros do dinheiro público.

(Depois dessa rápida digressão, voltemos ao nosso personagem, ao lado do qual eu estava sentado)

Apresentei a ele um exemplar do livro “O passe e o gol”, que ele escrevera há seis anos e havia dedicado “à Luiza, a netinha mais linda que já aconteceu na sua vida”.

Ele sorriu daquele mesmo jeito que a gente vê na televisão, soltou um “Opa!” e perguntou para quem ele deveria autografar o livro.

– É para o meu neto!
– Ah, que legal! E como ele se chama?
– Ainda não nasceu! É uma dedicatória prévia!

Ele riu e tascou:

“A quem vier, quando vier,
com um beijo afetuoso do
Vovô Juca”


Dito isso, duas conclusões:

1 – à minha nora Fabiana Portas e ao meu filho Thiago Carvalho Oliveira, comunico que estou botando nos Correios, para Ana Luiza e Victória, o exemplar do livro que Vovô Juca Kfouri autografou para elas em novembro de 2011.

2 – para Vovô Juca Kfouri, comunico, então, que quem veio, veio em dobro: as gêmeas Ana Luiza e Victória chegaram fazendo tabelinha, feito Pelé e Coutinho, Roberto Miranda e Jairzinho, Silva Batuta e Almir Pernambuquinho, em dezembro passado, filhas de um carioca flamenguista e uma paulistana da Moóca.

Mas… qual é a surpresa desse livro, autografado pelo vovô Juca, em novembro de 2011, para “quem viesse, quando viesse”?

É que a história de “O passe e o gol” é – pasmem! – a história de irmãos gêmeos – Joãozinho e Marinho – muito amigos, mas que, quando tinha bola no meio, era briga na certa…

Ora, ora… Juca Kfouri! Olha aí os deuses do futebol – como eu sempre disse, esses tremendos sacanas – aprontando mais uma!

Daqui a alguns anos, Ana Luiza (o passe? o gol?) e Victória (o gol? o passe?) poderão receber das mãos da mamãe Fabiana e do papai Thiago, o livro que vovô Cesar pediu pro Vovô Juca autografar há algum tempo, “para quem viesse, quando viesse”.

Mas o que me deixa mais feliz mesmo, feliz de fato, mais feliz que pinto no lixo, é que, na história do Vovô Juca, os gêmeos vão jogar do mesmo lado, no mesmo time… o Preto e Branco Futebol Clube!

UAU!!!

Como Botafoguense, Vovô Cesar fica feliz, com mais uma – quem sabe? – premonição consumada naquela tarde de 25 de novembro de 2011.

Caprichem na tabelinha, meninas!

Será que vai dar encrenca, Vovô Juca?…

*Cesar Oliveira é editor da Livros de Futebol.

NOTA DO BLOG: Por essas coisas é que viver segue sendo muito legal.


Manobra de Jucá dá em nada e CBF liga o alerta vermelho
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Juca Kfouri

A cúpula da CBF percebeu, de repente, que o seu homem de ouro na CPI do Futebol,  Romero Jucá, deixará o Senado  para se tornar, nas próximas horas, o poderoso ministro do Planejamento de Michel Temer.

O lobista da CBF Vandenbergue Machado colheu sete assinaturas para aprovar o apressado relatório de Jucá, repleto de platitudes e sem incriminar ninguém.

A manobra não deu certo porque dependia da aprovação do presidente da CPI, senador Romário.

Nenhuma reunião da CPI acontece sem a convocação dele.

Jucá conseguiu de seu aliado Renan Calheiros a publicação do relatório, de resto inócuo, porque a CPI seguirá até agosto.

Romário não fará um gesto enquanto não houver a decisão de Calheiros quanto à questão de ordem de Randolfe Rodrigues,  aprovada pelo senador Benedito de Lira contra a manobra de Ciro Nogueira, a serviço da CBF, que buscou anular a convocação de notórios corruptos de nosso futebol.

Romário e Randolfe sustentam que a convocação dessas pessoas, por enquanto barrada pela manobra de Nogueira e liberada pela decisão de Lira, vai trazer dados fundamentais para a investigação.

Com a saída iminente de Jucá a CBF entrou em alerta vermelho.


Gianni Infantino decreta “tolerância zero” na FIFA
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Juca Kfouri

ESCÂNDALO DA FIFA

Infantino declarou que a FIFA irá ter uma política de “tolerância zero” à corrupção. O presidente da instituição reconheceu que a imagem da instituição sofreu com os escândalos sucessivos.
Gianni Infantino mostrou-se receptivo à introdução de tecnologia para auxiliar a arbitragem.

Por Agência Lusa


 
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, afirmou no domingo que a organização que gere o futebol mundial vai ter uma política de “tolerância zero” relativamente a desvios de dinheiro, após os escândalos de corrupção.

“Temos um princípio de absoluta tolerância zero e se alguém acredita que pode fazer ‘trapaças’, que saia do futebol e o faça noutros sítios; os que cometeram atos criminosos e ganharam dinheiro ilegal com o futebol devem ser julgados criminalmente, e também pela FIFA, e devem, além disso, devolver o dinheiro”, disse o dirigente ítalo-suíço.

Infantino, que participou numa mesa redonda no México no início das atividades do Congresso da FIFA, que vai ter lugar na sexta-feira na capital do país, reconheceu que a imagem da instituição se encontra danificada após os escândalos de corrupção. “Se trabalharmos juntos, o futebol e a FIFA voltarão outra vez acima”, afirmou.

O presideme da federação mostrou-se ainda favorável à introdução de tecnologia a fim de ajudar os árbitros, desde que sob a condição de não interromperem o fluxo dos jogos.

“Devemos fazer experiências para ver se a tecnologia vai funcionar no futebol ou não. Talvez vejamos um pouco mais de ajuda aos árbitros no Mundial de 2018”, acrescentou.


O impeachment do golpe
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Juca Kfouri

JURISTAS CITADOS POR ANASTASIA REPELEM O RELATÓRIO DO SENADOR AECISTA:


Breve Nota Crítica ao Relatório Anastasia: contra a admissibilidade do processo de impeachment por crime de responsabilidade da Presidente da República

Por Lenio Luiz Streck*, Marcelo Andrade Cattoni de Oliveira* e Alexandre Gustavo Melo Franco de Moraes Bahia*, em empóriododireito

 

A citação feita no Relatório Anastasia[1] do texto dos comentários ao art. 85 da Constituição da República que escrevemos[2] não considera de modo adequado a integridade do texto, nem do trecho referido. Para nós, o fato do rol do art. 85 ser exemplificativo reforça ainda mais a exigência prevista no parágrafo único do mesmo artigo da Constituição de que a lei especial e regulamentar tipifique e defina os crimes de forma completa, afastando, portanto, “tipos abertos”, bem como a interpretação extensiva ou por analogia – o que não é possível por se tratar de crime. Indicamos, portanto, a leitura do trecho dos Comentários à Constituição do Brasil:

“Para os crimes de responsabilidade valem os dispositivos constitucionais e sua regulamentação através da Lei 1.079/50.” E, logo em seguida, “O rol previsto no art. 85 é meramente exemplificativo, constando sua definição completa naquela citada norma infraconstitucional”, ou seja, a Lei 1.079/50. Este é o último parágrafo do texto dos comentários ao artigo 85, in Comentários à Constituição do Brasil, p. 1287. Depois de ter explicado, portanto, que a Lei 1.079/50 tipifica os crimes.

O Senador Anastasia, assim, nos cita para tirar uma conclusão com a qual não concordamos, pois o fato de o elenco do art. 85 ser exemplificativo não significa que esteja afastada a exigência de previsão legal taxativa dos crimes de responsabilidade, conforme o parágrafo do mesmo artigo.

Como na Carta aberta a Anastasia que foi encaminhada por professores, estudantes e servidores da Faculdade de Direito da UFMG:

2) A CR/88 dispõe em seu art. 85, parágrafo único, que uma lei especial definirá os crimes de responsabilidade e estabelecerá as normas de processo e julgamento do impeachment. Esta lei, como já afirmado pelo STF no julgamento do caso Collor em sucessivos mandados de segurança (MS 21.564, MS 21.623 e MS 21.68) e agora na ADPF 378 é a Lei 1079/50. Entendemos que em consonância com o devido processo constitucional as hipóteses de crime elencadas pela lei do impeachment devem ser atendidas taxativamente, não cabendo, portanto, interpretações extensivas ou analógicas em respeito às garantias do próprio sistema presidencialista, e do ordenamento jurídico como um todo, em que restrições de direitos devem ser interpretadas de forma taxativa.”[3]

Para a Constituição da República, justamente porque o rol é exemplificativo que a lei especial regulamentará tipificando os crimes, por uma questão de segurança jurídica! Ou seja, cabe à lei especial definir por completo. Como diria Gomes Canotilho, estamos diante de uma vinculação expressa do legislador à Constituição. Sabemos, pois, quais são os crimes de responsabilidade e qual o procedimento de impeachment porque a Constituição estabeleceu os parâmetros no art. 85, incisos e parágrafo, e no art. 86 (também art. 51, I, e art. 52, I), e a Lei 1.079/50 os regulamentou, prevendo, taxativamente e definindo de forma completa, os tipos penais.

Não cabe assim interpretação extensiva e analógica dos crimes completamente definidos pela lei especial prevista no parágrafo do art. 85. O preceito fundamental em questão é mesmo o princípio da reserva legal. Somos, pois, daqueles que concordam com Marcelo Neves[4] e Alexandre Morais da Rosa[5] no sentido de que crime de responsabilidade é crime e se submete à reserva legal, em lei específica, no caso, a lei 1.079/50, no que foi recepcionada[6]. O fato de o rol do art. 85 não ser numerus clausus não afasta, muito antes pelo contrário, a exigência constitucional, prevista no parágrafo único do art. 85, de que a lei especial taxativamente o faça. Ou, como dissemos no texto dos Comentários, defina completamente os crimes. Questão mesmo de segurança jurídica, não há como se falar em “tipos abertos”. Ou seja, o Senador Anastasia termina por tirar conclusões com as que jamais concordaremos.

A estratégia do Relatório Anastasia é a de se admitir que não há a tipificação taxativa dos crimes de responsabilidade, mas que isso “não é um problema”, pois que “o tipo seria aberto” e, então, poder-se-ia a ele aderir legislações e capitulações que lhe são estranhas, como a responsabilidade fiscal ou qualquer outra. Ora, se há previsão de hipóteses de “crime de responsabilidade” e “crime comum” de Presidente da República, a serem apreciados em processos diferentes, é justamente porque há crimes, ainda que diferentes.

Cabe lembrar, ademais, que, embora estejamos numa República democrática em que, com certeza, o Presidente é responsável, o sistema de governo constitucionalmente adotado é o presidencialismo e não o parlamentarismo. Logo, no Brasil, o Presidente da República só pode ser impedido quando estiver configurado crime, segundo a Constituição e nos estritos termos da legislação a que a própria Constituição se refere.

Nesse sentido, cabe dizer que é perceptível desde o início qual seria a estratégia do relatório. A estratégia de pretender descaracterizar o caráter de crime do crime de responsabilidade para defender a possibilidade de afastar a exigência jurídica de taxatividade dos crimes previstos em lei especial, abrindo espaço para a interpretação extensiva e por analogia, defender uma responsabilidade objetiva, sem dolo, e por atos que a Presidente não cometeu, como bem mostrou Alexandre Morais da Rosa[7], mesmo no caso das chamadas “pedaladas fiscais” (sic) referentes ao Plano Safra, fato atípico posto que não há de se confundir o atraso no repasse dos valores referentes a subvenções sociais com operações de crédito e onde sequer há atos cometidos pela Presidente da República, como bem mostrou, mais uma vez, Ricardo Lodi[8].

O que se faz, ao fim e ao cabo, revela, justamente o que nós, e os demais autores aqui citados, temos dito desde o início: trata-se de uma flagrante inconstitucionalidade que sacrifica o caráter jurídico-político, portanto, constitucional, do instituto do impeachment para reduzi-lo apenas à vontade de uma maioria tardiamente formada.

*Alexandre Gustavo Melo Franco Bahia é Doutor e Mestre em Direito pela UFMG, Professor da UFOP e da IBMEC.

*Lenio Luiz Streck é Professor da Unisinos e Unesa, Doutor e Pós-Doutor em Direito, Ex-Procurador de Justiça e Advogado..

*Marcelo Andrade Cattoni de Oliveira é Doutor em Direito e Professor associado da Faculdade de Direito da UFMG.

NOTA DO BLOG: Também o insuspeito ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa repeliu a citação de Anastasia a um jurista americano, como informa o jornal “O Globo”:

“Barbosa fez referência a Alexander Hamilton, um dos responsáveis pela obra “O Federalista”, com argumentos para ratificar a Constituição dos Estados Unidos (de 1787), e também citado por Anastasia no relatório.

De acordo com o ex-ministro, Hamilton tinha um temor em relação ao processo de impeachment: ‘o demônio da parcialidade’. Barbosa criticou ainda o nível das discussões no Senado que, segundo ele, servem para ‘esconder do grande público questões fundamentais'”.


Histórias que Tite ainda não tinha contado
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Juca Kfouri

Biografia do treinador revela detalhes dos bastidores dos vestiários

Conhecido pelo bem-sucedido trabalho com o Corinthians, o técnico Tite foi procurado duas vezes pela CBF, em 2015, para assumir o comando da Seleção Brasileira. O furo é revelado pela jornalista esportiva Camila Mattoso, em “Tite”, livro recém-lançado pela editora Panda Books.


Gaúcho de Caxias do Sul, Adenor Leonardo Bachi é considerado o melhor técnico do Brasil. Responsável pela guinada do Corinthians na década de 2010, Tite já conquistou no comando do Timão nada menos do que seis títulos, entre eles a tão sonhada Libertadores e o Mundial de Clubes.

Dividido em 13 capítulos – número da sorte de Tite –, o livro traça um perfil do treinador. A linguagem leve que domina o texto é escancarada logo no sumário: os capítulos são nomeados por palavras inventadas, todas terminadas com o sufixo “dade”.

Os mais ligados à história de Tite entenderão: trata-se de uma piada com o termo “treinabilidade”, usado por ele numa entrevista coletiva em 2010, e que acabou se tornando motivo de gozações.

Graças às 84 fontes entrevistadas por Camila Mattoso, são revelados também episódios inéditos dos bastidores do futebol, como a vez em que Jorge Henrique chegou bêbado no último treino antes da viagem para o Mundial de Clubes, em 2012, e detalhes da vida pessoal de Tite.

O treinador é conhecido por seu temperamento reservado, calmo e ponderado, mas já se envolveu em desavenças com personalidades do futebol, como os jogadores D’Alessandro, Adriano Imperador, o jornalista Galvão Bueno e o próprio Felipão.

Diferentemente do que muitos pensam, não foi a declaração polêmica de Felipão em relação à eliminação do Corinthians pelo Tolima, na pré-Libertadores de 2011, que pôs fim à amizade.

De atacante da Portuguesa à glória no comando do Corinthians, o caminho do gaúcho Tite não foi curto. Desde criança, Ade – apelido que ganhou da família – gostava de futebol e passava horas jogando com o irmão Miro. Quem descobriu seu talento com a bola foi Luiz Felipe Scolari, no final da década de 1970. Ade era o camisa 10 de sua equipe na escola quando Scolari, que na época já se aventurava como treinador, vidrou os olhos no garoto. Alguns anos mais tarde, os dois se trombaram e o encontro resultou num teste para jogar no Caxias, do Rio Grande do Sul. O apelido Tite veio daí: Felipão lembrou da fisionomia do camisa 10, mas confundiu seu nome com um meio-campista da mesma equipe, o Tite. Chamou Ade de Tite e, com a confusão, surgiu o apelido que marcaria toda sua trajetória no futebol.

Tite foi aprovado no teste de Felipão, e as portas do futebol abriram-se para ele. Logo foi chamado para atuar no Grêmio, seu time do coração, mas em uma semana fugiu da concentração e voltou para casa. Mais tarde, jogou na Portuguesa e, então, no Guarani. Aos 27 anos, depois de lesões graves nos joelhos e sete cirurgias, encerrou prematuramente sua carreira de jogador de futebol. Treinou, então, São Caetano, Grêmio, Atlético Mineiro, Palmeiras, Internacional, os árabes Al Ain e Al Whada e, é claro, o Corinthians, onde alavancou seu nome. Na segunda passagem pelo Timão, de 2010 a 2013, o técnico com mais vitórias na história do clube conquistou um Brasileiro (2011), um Paulista (2013), uma Libertadores (2012), um Mundial (2012) e até uma Recopa (2013).

O livro traz ainda um caderno de fotos com registros dos tempos da Portuguesa (1984), da conquista da Copa do Brasil no comando do Grêmio (2001), do trabalho com o Internacional (2008-2009) e da bem-sucedida atuação no Corinthians.

TRECHO

“’Olê, olê, olê, olê, Titê, Titê’, cantavam os corintianos das arquibancadas, antes da partida de despedida do Brasileiro contra o Avaí.
Quanta coisa passou na cabeça de Tite nesse dia. […] ainda se lembrou das eliminações do Paulista e da Libertadores no começo de 2015, quando tudo parecia estar perdido, recordou-se do momento em que decidiu voltar ao trabalho, de quando fez a escolha corajosa de voltar ao clube em que já tinha conquistado tudo. Nem no melhor dos seus sonhos imaginava acabar o ano daquele jeito, com tanto carinho.”..

A AUTORA

Camila Mattoso é jornalista e começou sua carreira na Rádio Bandeirantes. Morou em Londres por um ano, onde trabalhou com Andrew Jennings, o repórter da BBC que ajudou o FBI a desvendar o escândalo da Fifa. Ganhou projeção fazendo matérias e entrevistas sobre os bastidores dos clubes, das federações e da CBF. Cobriu a Olimpíada de Londres pela ESPN, a Copa das Confederações 2013 pelo Lance! e a Copa do Mundo 2014 pela ESPN. Atualmente é repórter do caderno de esportes da Folha de S.Paulo.

240 paginas| R$ 37,90


A bola do jogo
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Ele era o astro do melhor time da cidade. Goleiro, alto, forte, galã, admirado por todos, desejado pelas mulheres.

Mas a dele, a que ele amava, o deixou.

Trocou-o pelo centroavante do maior rival.

Todos achavam que sairia duelo, ou um tiro à sorrelfa, uma surra encomendada, ao menos uma briga de rua.

O próprio centroavante deixou de sair por um tempo, temendo a vingança.

Mas não. Ele entristeceu, chorou sozinho, perdeu o sono, mas não fez nada.

Manteve-se nos treinos e nos jogos. Com o mesmo garbo. Sorrindo do mesmo jeito para os fãs e as fãs, agora mais esperançosas.

Até que veio o jogo entre eles. Decisão do campeonato.

A tensão durante a semana cresceu a ponto de no domingo, no pequeno estádio, o silêncio se impor: a charanga não tocou, não houve gritos, nem palmas pros times entrando, nem vaias pros juízes.

Todos de olho nos dois.

Camisa 9. Camisa 1. Camisa 1. Camisa 9.

Eles não se olharam durante o aquecimento.

Sabiam que o silêncio era a ansiedade pela cena que todos esperavam: eles haveriam de se encontrar na área. Num escanteio, num cruzamento, ou num bate e rebate.

Mas no primeiro tempo, nada. O melhor time manteve-se no ataque e encurralou o outro. Pressão, chutes, gols perdidos, jogadas pelo alto e pelo chão, uma saraivada. Sem sucesso.

Zero a zero.

No segundo tempo, a mesma coisa. A torcida até já se esquecia do duelo entre os dois. O drama do jogo se sobrepunha ao confronto passional.

Faltando cinco minutos parecia inevitável o gol do melhor time. O goleiro, lá atrás, seguia de roupa limpa, sem qualquer lance que o tivesse testado. Mas.

Mas histórias como esta sempre têm um mas.

E o mas foi uma bola roubada pelo adversário na defesa, tocada pro lateral-esquerdo, que, de primeira, a passou pro meia, que a enfiou lisa, firme, rasteira, pra corrida do centroavante.

O campo adversário todo livre.

O centroavante partiu de seu campo e se viu sozinho, disparando em direção ao gol do rival.

Mesmo sem tocar na bola, correndo atrás dela, ele sabia, pelas distâncias e velocidades, que chegaria nela antes do goleiro. Pouco antes, quase juntos.

O goleiro percebeu o mesmo, mas demorou um pouquinho a mais pra sair, deu um tempo para que o centroavante a dominasse antes da meia-lua e entrasse na área.

Só então se moveu.

Desde o toque do lateral para o meia o estádio pressentira os movimentos e recomeçara a silenciar. Quando o meia enfiou, tudo ficou mudo. Dava pra ouvir os carros passando na rua.

Nos segundos da arrancada do centroavante, nem era mais o silêncio. Era o centro do redemoinho. A absoluta ausência de qualquer som.

Todos parados, olhos abertos, bocas pendentes, mãos sem lugar.

Camisa 9. Camisa 1.

Os demais jogadores ficaram onde estavam. Nenhum deles, dos dois times, ousou se mexer. Só olhavam.

Camisa 1. Camisa 9.

O chiado na grama da chuteira do centroavante correndo. Sua respiração.

A respiração do goleiro.

O centroavante entrou na área e goleiro saiu, avançando firme.

A bola não era mais a bola.

A bola agora era ela.

A ex do goleiro e atual do centroavante.

O corpo e o rosto dela ali, nos pés do atacante, nos olhos do goleiro.

A bola era toda ela.

E ela era a bola do jogo.

O que se deu foi de espantar.

O goleiro ignorou a bola e voou com os pés no peito e no pescoço do centroavante. Derrubou-o com tal violência que ele caiu fora da área.

Derrubou-o e se levantou rapidamente. Pôs-se de pé ao lado do corpo caído, como o toureiro vigiando o estertor do animal.

Um oh varreu a torcida. Um ai envergou os jogadores.

Mas e ela?

E a bola?

Antes de levar o golpe o centroavante havia dado um toquinho de leve, para ajeitá-la, preparando o chute. Esse toquinho a fez ir se movendo lenta, quase parando, em direção ao gol.

O goleiro não olhou para trás. Ela ia sem forças, mas avançando até a linha fatal.

Nem o goleiro, nem os torcedores, nem os jogadores repararam. Fixaram-se na cena do goleiro em pé ao lado do centroavante no chão.

O juiz, assustado, começou a andar para o local para marcar o pênalti. Mas viu.

Só ele viu.

Viu que a bola entrava de mansinho, cruzava a linha, rodava seu último giro, até atravessar inteira a cal e parar dentro do gol, um milímetro depois da listra.

Ele apitou. Soou tão forte que fez com que todos despertassem. Apontou para o centro do campo.

Gol.

Um a zero.

O goleiro, derrotado, foi expulso. O centroavante, campeão, para o hospital.

Terminou o jogo.

Mas não a história.

O centroavante e a mulher mudaram-se para outro estado. Sumiram.

Só que anos depois ele se desencantou e decidiu se separar.

Ela voltou para a cidade sob os olhos e ouvidos de todos. Foi morar sozinha, trabalhar, refazer a vida. Mas.

Mas estas histórias sempre têm mais de um mas.

E o outro mas é que um dia ela procurou o goleiro.

Tocou sua campainha.

Ele abriu a porta. Olhou-a. Rememorou tudo.

Viu-a como se ela de novo fosse a bola daquele lance.

Como se ela fosse de novo a bola do jogo.

E a porta fosse a linha do gol.

Pensou que agora não poderia falhar. Que não poderia tomar o mesmo gol outra vez.

Respirou fundo, cerrou os olhos – e fechou a porta na cara dela.

Passou a tranca por dentro.

E nunca mais saiu.

Só morto, semanas depois.
_______________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).



A República dos 7 x 1: da Copa do Mundo ao impeachment
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Juca Kfouri

POR RODRIGO ANDRADE*

Quando a seleção brasileira entrou em campo no Itaquerão para o primeiro jogo da copa do mundo, os jogadores em fila indiana com a mão no ombro do jogador à sua frente, me lembrei da pintura de Peter Brueguel, “A parábola dos cegos”, de 1568, em que uma fila de mendigos cegos tropeçam e caem, de acordo com a parábola de Cristo “Se um cego guia outro cego, os dois caem num buraco”. Como pode uma seleção brasileira entrar em campo da mesma maneira que um time de cegos entraria?! E nem precisava ir tão longe para fazer tal associação, pois um pouco antes da copa do mundo houve a copa mundial de futebol de cegos, da qual o Brasil se saiu campeão, e num comercial da Coca Cola veiculada durante o Mundial, esse time campeão tinha o prazer de acariciar a verdadeira copa do mundo, o troféu que viria a ser entregue ao capitão da seleção alemã. E numa cena que seria tocante não fosse a capacidade intrínseca da propaganda de tornar tudo boçal, o nosso time de cegos entra no recinto onde está a taça em fila indiana com as mãos nos ombros do jogador da frente, com a humildade e a dignidade de quem enfrenta dificuldades gigantes.


No caso da seleção brasileira, em vez de humildade e dignidade, havia máscara e demagogia, e a simbologia inscrita na fila de cegos que usava ao entrar em campo acabou sendo a tradução perfeita para o futebol apresentado durante a copa, sem a menor noção de suas limitações, uma ausência total de planejamento futebolístico, de visão de jogo, de qualquer preocupação técnica ou tática, apostando todas as fichas no talento do jogador brasileiro (a esta altura uma figura histórica), na família Felipão, e principalmente no clamor patriótico da torcida e na fé em Deus. A histeria com que os jogadores (e a torcida) cantavam o hino nacional aos berros e no modo como, de olhos bem fechados, os jogadores erguiam seus indicadores para o céu e rezavam antes de começar as partidas, tentando inflamar o ambiente e o time mostram isso (sendo que o time seguia sem a mínima combustão)… Aliás, conseguiram inflamar o time, sim, só que para pior! Já que o destempero emocional de jogadores experientes como o capitão Tiago Silva, incapaz, aos prantos, de bater um pênalti contra o Chile, foi outro fator decisivo para o desastre… Em suma, a seleção brasileira apostou na irracionalidade, apelando para sentimentos nobres (e falsos), se esquecendo de jogar futebol e pagou um preço que jamais sonhou pagar.

Menos de dois anos depois, o Brasil inteiro se vê arrasado por um tsunami de ódio e irracionalidade baseados nos mesmos sentimentos nobres do patriotismo (“o último reduto dos canalhas”**) da fé, da luta do bem contra o mal (que se coloca acima da lei), num maniqueísmo primitivo e fanático (como acontece entre as torcidas de futebol). Uma onda gigante de panelaços, gritos guturais, intolerância e até discursos em prol da ditadura militar varreu o Brasil de norte a sul. Pois a meu ver esse movimento, que teve seu germe nas manifestações de 2013, se plasmou com forma e unidade um ano depois, justamente na Copa do Mundo, em dois momentos marcantes: o vexaminoso xingamento da torcida à presidenta Dilma no jogo de abertura e nos inacreditáveis 7 x 1 contra a Alemanha. O primeiro por razões óbvias, o segundo por ser o desfecho humilhante daquela apoteose de patriotismo e fé. Ninguém esperava 7 x 1, mas o que esperava aquela torcida ignorante de futebol que só sabia cantar ” Sou brasileiro com muito orgulho”? Que cantar o hino nacional à capela ganhasse os jogos, derrubando os adversários como se fossem as muralhas de Jericó? Tentavam ganhar no grito.

E se uma simples derrota num jogo de futebol já é difícil de engolir (a culpa é quase sempre do juiz), imagine uma derrota da nossa seleção, símbolo máximo da nossa excelência, reconhecida como a melhor do mundo, em casa?! Acrescente-se a isso a derrota patética da fé e do patriotismo em tamanho fervor! O baixo nível do nosso time, a profundidade abissal da nossa incompetência em campo é por demais doloroso para ser aceito ou meramente reconhecido e foi simplesmente recalcado, enterrado vivo, e vivo permanece, oculto. Sentimentos ruins como vergonha, desprezo e raiva daquela porcaria de time apodrecendo no espírito dessa gente orgulhosa. Pra onde foram esses fétidos sentimentos todos? Acredito que o recalque dos 7 x 1 é um elemento fundador (entre outros, claro, mais importantes, claro) desse movimento pró impeachment, dessa onda de ódio. Não é a toa que esses manifestantes usavam a camisa da seleção brasileira como uniforme para protestar contra o governo e usam calças e saias brancas, como a seleção brasileira em quase todos os jogos da Copa (embora não contra a Alemanha, diga-se). Em cada brasileiro e brasileira gritando pelo impeachment, um David Luiz, um Fred, um Hulk. A vergonha, a frustração e a raiva que aquele uniforme inspirava foi trocada, neuroticamente, patrioticamente, pela veneração. Me pergunto se, à luz da polarização que divide hoje o Brasil, a seleção brasileira não representa apenas um lado do país, o lado que clama pela pátria, deus e a família, o lado incapaz de criticar o time em nome do patriotismo, que veste com orgulho o distintivo da CBF (símbolo máximo da corrupção brasileira), do lado coxinha, enfim… aliás, noso time vem deixando de ser a seleção brasileira e se tornando a seleção da CBF desde de 2006, quando começou a escalada de vexames do nosso escrete (nosso ou deles?)…

Assim como o 7 x 1, a corrupção geral do Brasil é difícil de aceitar, nossa incompetência é difícil de aceitar, o nosso ridículo é difícil de aceitar, e bem ao modo como Freud explica o conceito de projeção, sentimentos indesejados e recalcados em nós são projetados no outro, como defesa. E a visão religiosa que divide o universo entre bem e mal, e que parece tomar conta do mundo em geral e do Brasil em particular, e dessa ala golpista em especial, favorece tal projeção: o mal é o outro. E se na Copa não tínhamos um “outro” a quem projetar nossa vergonha e nossa raiva (então só restava jogar nossa incompetência para debaixo do tapete), na política sim, passamos a ter, já que a polarização produzida pela onda de ódio que tomou conta do país permitiu isso, e ao se jogar toda a conta da corrupção para o PT, para o governo, abre-se uma pizzaria. É claro que a verdadeira razão para tal é a manutenção do poder político e econômico, algo muito concreto, e não um sutil mecanismo psíquico de defesa, mas acredito que o recalque dos 7 x 1 teve sim um efeito psicológico que contribuiu para a formação das hordas de paneleiros patrióticos antes frustrados e agora exultantes e redimidos.

Seja como for, o Brasil tinha uma copa do mundo em casa para jogar, um prato cheio para um espetáculo do nosso futebol, mas cego para suas próprias limitações técnicas, perpetrou um fiasco. Depois do fiasco, outro prato cheio, agora pra mudar completamente a gestão do futebol brasileiro, mas sobreveio outro fiasco, a continuidade, na figura lamentável de Dunga (um moralizador de estilo militar) como técnico da seleção, que continua cega (e a caminho de ficar fora de uma copa do mundo pela primeira vez). Agora a Operação Lava Jato é uma oportunidade de ouro para se desbaratar um cartel de empresas gigantes que alimenta um sistema corrupto que toma quase a totalidade da classe política e dos governos, seja que governo for, há décadas! Uma chance única de conseguir uma vitória histórica, de dar um salto como sociedade e como sistema político. A Lava Jato é como uma copa do mundo em casa! Mas ao invés de mudança, vemos um golpe de estado de colarinho branco para manter as coisas como sempre foram, com a distorção escandalosa do processo todo em prol da tomada de poder por parte dos chefes da classe política corrupta e fisiológica. Usando a nossa cultura arraigada cada vez mais punitiva, moralista e conservadora, aponta-se toda a máquina policial, jurídica, econômica e midiática contra o governo atual, certamente envolvido no sistema da corrupção geral e perene que domina o país, mas que tem legitimidade popular. Articula-se assim a continuidade – agora vacinada! – com a volta do golpismo. Se expulsa o PT e a visão social da política e então, como diz um locutor de futebol: “segue o jogo”…

E não é que aquela apoteose histérica de patriotismo e fé está ganhando o jogo da política no grito?! O Brasil virou várzea! Um impeachment baseado em provas pífias, lançado por uma advogada que mais parece uma fanática religiosa em transe, liderado pelo inacreditável Eduardo Cunha, aprovado por parlamentares invocando Deus e a família (como os slogans de 64) e até torturadores da ditadura militar, conduzido por um juiz também religioso que, dizem, a tempos se gaba entre amigos de que “ainda vai pegar o Nine Fingers”, usando sem escrúpulos (mas muito bem apoiado e garantido) expedientes como a vergonhosa liberação das escutas, a condução coercitiva etc, sempre em sintonia com o Jornal Nacional para inflamar a opinião pública – é tudo na base da inflamação, como na copa! – levou o pais a um passo de um fiasco histórico, uma derrota humilhante da democracia que pesará para sempre sobre nós. Estamos tomando uma surra ainda mais inimaginável que a da copa. O impeachment será o nosso 7 x 1 em proporções republicanas. O que aquela derrota foi para o futebol brasileiro o impeachment será para a história do país (o 7 x 1 inscrito nos números finais da votação do congresso – 367 x 137 – acabou dando um toque irônico de verdade naquela sessão infame). A comparação pode ser desproporcional, pois quem se importa com a seleção brasileira hoje em dia? Mas justiça seja feita, ela é o modelo exemplar da nação: um time de cegos.

*Rodrigo Andrade, autor também da ilustração,  é artista plástico.

____________________________________
**Samuel Johnson


O Santa Cruz de Barbosa e Grafite
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA
Moacir Barbosa chegou ao Santa Cruz em 1955.

Amargurado com o Vasco da Gama.


Passe comprado com moedas recolhidas pelas ruas do Recife.

O Santa Cruz sonhando com Barbosa.

Barbosa sonhando com a Copa de 50.

No dia 5 de março de 1956 – Barbosa no gol.

O Santa Cruz batia o Vitória da Bahia por 4 x 0.


E ganhava a Taça Pernambuco – Bahia.

Até hoje?

Este era o maior título coral fora de Pernambuco.

Mas com a chegada de Grafite ao Santa Cruz.

Grafite que levou o Santa Cruz a Série A.




Grafite que surgiu no tricolor e viajou o mundo.

Grafite que nunca havia sido campeão pelo clube do Arruda.

O Santa Cruz levanta a taça de Campeão do Nordeste.

Sessenta anos depois de Barbosa.

Provando que vale sempre apostar no craque.

Agora?

Quem é que segura o Terror do Nordeste?

Terror do Nordeste que vai pra cima do Sport na decisão do estadual.

Em Clássico das Multidões que completa cem anos este ano.

Clássico das Multidões para um país de estádios cada vez mais vazios…


Sugestão aos vaiadores do Independência
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Juca Kfouri

POR BRUNO S. QUIRINO

Quando vou ao Independência e vejo algumas pessoas vaiando Marcos Rocha, Lucas Pratto ou o treinador, fico pensando onde essa gente estava quando Márcio Mexerica representava nossas esperanças de gols.

O que faziam esses “cornetas” quando Catanha foi nossa grande contratação do ano?

Onde se encontravam durante a curta vida da abominável SeleGalo de 1994?

Por acaso se recordam eles que há exatos 10 anos disputávamos a segunda divisão enchendo o Mineirão a apoiar o meio-campo formado por Rafael Miranda, Márcio Araújo, Bilu e Marcinho?

Nem ouso questionar a respeito daquele maldito domingo em Sete Lagoas…

Essa gente não sabe sofrer – ou porque perderam a memória ou porque acordaram para o futebol há quatro anos.

Pagam caro e querem seu produto – a vitória. Exigem que o Galo lhes entregue um resultado, sem reconhecer que sua obrigação seria ajudar o time a vencer, usando a força de suas gargantas.

É legítimo se irritar com alguma jogada atrapalhada ou com a teimosia do técnico. Não é honesto nem inteligente vaiar o próprio time em campo.

Sugiro que o Galo faça, com essa parte de sua torcida, o que normalmente os clubes fazem com jogadores jovens de cuja qualidade inspira dúvida.

Galo, empreste essa banda da torcida para algum time menor, para que peguem experiência e voltem mais maduros, para que aprendam a se comportar numa arquibancada.


O Futebol
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Juca Kfouri

POR MATHEUS PICHONELLI, de CartaCapital

Em junho de 2013, um estrangeiro que visitasse São Paulo, maior cidade do Brasil, às vésperas da Copa das Confederações, fatalmente encontraria dificuldade para identificar onde estava a terra boa e gostosa da morena sestrosa descrita por Ary Barroso.


Naquele mês, jovens mobilizados paravam o trânsito contra o aumento da passagem de ônibus e a polícia responsável por reestabelecer a ordem, seja lá o que isso significa, mostrava os dentes do processo de quase 20 anos de amadurecimento democrático com cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo.

Os protestos daquele mês derrubaram a popularidade de governantes, indicaram a urgência de uma renovação política e exigiram mudanças de fato na relação entre representantes e representados.

Alguns governantes chegaram a demonstrar desconforto, mas entre a rebelião e as eleições, que consagrariam pouco depois as mesmíssimas fórmulas já identificadas como uma bomba-relógio, havia uma festa popular chamada Copa do Mundo.

Alguma coisa explodia em 2013, mas a expectativa construída em torno do Mundial tinha na argamassa os sonhos de um país finalmente prestes a cumprir seu ideal.

O país que exigia na ONU um assento permanente no Conselho de Segurança hoje se bate por uma cadeira rotatória da Presidência – e os símbolos de um projeto de grandiosidade caíram um a um, a começar pelo bilionário candidato a homem mais rico do mundo, passando pelos mares de lama em Minas Gerais, o surto de moléstias e microcefalia país afora e as ciclovias que não suportam a primeira onda às vésperas de outro grande evento, as Olimpíadas, no Rio.

“Não tem clima de Copa, né?”, diz o diretor Sérgio Oksman ao pai, Simão, no filme O Futebol, vencedor da competição brasileira de longas e médias do Festival de documentários “É Tudo Verdade”.

Dentro do carro, pai e filho mal pareciam estar a alguns quilômetros de Itaquera, para onde os olhos do mundo se direcionavam para o jogo de abertura da Copa.

Fazia frio, o céu estava nublado e a cidade, calada. Oksman tentava aos trancos retomar uma conversa interrompida com o pai havia 20 anos. O silêncio fora quebrado parcialmente com uma visita ao Brasil em 2013. O silêncio dos constrangidos fora driblado com uma visita dos dois ao Pacaembu. O futebol, a exemplo de um país inteiro, era a linguagem que ainda os ligava.

Daquela visita surgiu a ideia do diretor de retornar ao Brasil no ano seguinte e assistir à Copa do Mundo com o pai, que não sabia, ou não queria saber, se o filho distante morava em Madri ou Barcelona.

Dali em diante a distância entre expectativa e realidade segue em paralelo com a expectativa de um país prestes a explodir. O futebol, novamente, é o ponto de uma dissolução simbólica: a pujança dos 3 a 0 na final da Copa das Confederações contra a Espanha se esborracharia em cada gol da Alemanha na semifinal da Copa do Mundo no ano seguinte.

Da plateia, o espectador que esperava um reencontro, com um possível entendimento entre pai e filho e alguma trilha sonora de densidade dramática ao fundo, se espatifou. Estranhos um para o outro, eles acompanhavam a Copa das Copas como se ela acontecesse em outro planeta; o mais perto que chegaram de festa foi uma viela de Itaquera, onde a certa altura do filme eles estacionam o carro para ouvir os gritos que vinham do estádio sem ter ideia do que acontecia ali dentro.

Não havia rádio no carro porque o carro saiu da fábrica sem o equipamento. Era a explicação do pai para justificar a sua disposição a mudanças a certa altura da vida.

Na narrativa contemporânea do filho pródigo, não é o filho quem sai de casa em direção ao mundo. É o pai, indisposto a deixar de ser filho, que deixa a família e vai buscar abrigo na casa da mãe. No esforço do filho em identificar qualquer laço entre eles além da desistência e do trauma não articulado como trauma, o futebol serve como catalisador de uma expectativa frustrada.

O pai não conversa. Não quer conversar. Não muda. Não quer mudar. É turrão, teimoso, insolente, ríspido. Ainda assim nutrimos simpatia por ele. As ruas por onde eles passam, sem se fixar exatamente em nada, são as ruas que nós, brasileiros comuns, caminhamos todos os dias.

Os lugares nos são familiares, embora, de dentro do carro, onde estamos todos, tenhamos certa dificuldade em identificar qualquer endereço.

No documentário, o retrato do Brasil da Copa das Copas é uma realidade gelada, onde todas as ruas parecem iguais, todos os bares parecem iguais e onde os abrigos se revelam no subsolo – o amparo, mostra sem querer o diretor, é uma garagem de prédio escura.

Aquele pai, aparentemente seguro na própria rotina, bate no peito para dizer que ninguém entende mais de futebol do que ele, mas se perde na própria memória. Do passado, diz, não tem muito o que falar. Não tem muito a aprender. Não tem nada a emendar.

O pai do filme é um país inteiro que se silenciou em duas décadas. Que, por não reconhecer o sofrimento, disfarça o sintoma que a câmera cansou de flagrar: aquele homem, com seus tiques, seu TOC, seus vícios, é uma bomba-relógio incapaz de reconhecer a si mesmo.

Aquele homem, quando na direção, transita aos solavancos. Ele se transforma em sua própria cidade a zunir que, sem cores ou grandes emoções, suporta os dias de agonia entre rangidos de dentes como num velho tique-taque da música de Chico Buarque. Os dias ali parecem menos insuportáveis com uma piada no bar, o futebol pra aplaudir, um crime pra comentar, um samba pra distrair – a cachaça, a fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir, e os andaimes (capturados pela câmera) pingentes que a gente tem que cair.

Num lapso de lucidez alcoólica, aquele homem prevê: a Alemanha vai ser campeã. Ou a Argentina. (Foram os dois finalistas). E o Brasil, admite sem disfarçar a amargura, não tem condições de vencer.

Aquele homem e o clichê do próprio país se encontram numa esquina ao fim de uma vitória enganosa na primeira fase para cantar a Aquarela do Brasil. Bêbados, exaltam o samba e pandeiro, discorrem sobre fontes murmurantes que matam a sede e onde a lua vem brincar. Ao redor, aquele país lindo e trigueiro escurece no frio e na miséria da solidão das pessoas, todas elas, dessas capitais.

NOTA DO BLOG: o filme “O Futebol” está em cartaz no Belas Artes, em São Paulo, em horários pouco convencionais, mas é angustiantemente belíssimo.

Veja o trailer AQUI.


Documento da Lava Jato sugere cartel na Olimpíada
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Juca Kfouri

Apreendida pela PF, pauta de reunião lista construtoras vencedoras de licitação do Parque Olímpico mais de um ano antes de o resultado oficial ser divulgado. Empreiteiras investigadas na Lava Jato são favorecidas em mais de 90% dos investimentos para os Jogos



por Adriano Belisário, da Agência Pública

Principal interlocutor de Marcelo Odebrecht sobre projetos da Copa e Olimpíada, o executivo Benedito Junior encerrou a carreira de três décadas na maior construtora do Brasil quando a Polícia Federal bateu à sua porta, em fevereiro deste ano, em meio às investigações da Lava Jato. Centenas de documentos foram apreendidos com ele. Entre planilhas com repasses a políticos, há um documento que não traz cifras. No entanto, trata de um negócio bilionário envolvendo o palco principal dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro.

É uma pauta de reunião na qual a Construtora Norberto Odebrecht, a Andrade Gutierrez (AG) e a Carvalho Hosken (CH) aparecem como as empresas responsáveis pelo consórcio do Parque Olímpico da Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio. A data é 11 de fevereiro de 2011. Demoraria mais de um ano para elas serem anunciadas oficialmente como vencedoras da licitação – após disputarem sozinhas uma “concorrência” que elas mesmas conceberam. E mais: favorecendo as empresas, a prefeitura ignorou o próprio prazo para entrega de estudos de viabilidade do empreendimento, impossibilitando a participação de outras concorrentes e direcionando a licitação ao trio vencedor.

Para Paulo Furquim, ex-conselheiro do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o documento analisado pela Pública (veja abaixo) é um indício de colaboração entre concorrentes que merece ser investigado. “Há um papel de uma empresa que antecipa o que ocorreu depois. Ele não é como uma Mãe Dináh, não está especulando sobre o futuro. Está dizendo coisas sobre o futuro como quem tem segurança do que está acontecendo”, aponta. Professor de direito econômico pela Fundação Getulio Vargas, Mario Schapiro concorda: “Há indicadores que sustentariam uma investigação em várias instâncias, como no âmbito criminal, administrativo através do Cade, de improbidade, enfim, várias investigações deveriam ser feitas com uma pergunta em comum: esta licitação foi dirigida ou não?”.

O Ministério Público do Rio de Janeiro anexou os fatos apontados pela reportagem a um inquérito em andamento sobre os contratos da Olimpíada, afirmando que “em tese, há indícios de possíveis irregularidades”.


O documento foi apreendido na casa de Benedito Junior, ex-presidente da Construtora Norberto Odebrecht, no Leblon (RJ)

De acordo com a pauta da reunião, era preciso “entender o ‘convênio’” entre a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro (PCRJ) – a “cliente” – e o Ministério dos Esportes (ME), além de “acompanhar o posicionamento” deste órgão sobre o modelo a ser adotado no empreendimento. Já em abril de 2011, enquanto o ministério avaliava a proposta da prefeitura para entrada de capital privado no negócio sob pretexto de redução de gastos, Benedito Junior e executivos da Carvalho Hosken e Andrade Gutierrez uniram-se e solicitaram formalmente autorização ao município para elaborar o estudo de viabilidade da parceria público-privada. Conhecida como PPP, essa modalidade de contratação é usada em grandes projetos e prevê, em tese, dividir benefícios, custos e riscos de um empreendimento entre o poder público e a parte privada.

Ao acatar o pedido, em maio, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, abriu a oportunidade de outros interessados apresentarem estudos de viabilidade em até oito meses, tendo assim 5 de janeiro de 2012 como prazo final. Mas o consórcio se adiantou. O trio entregou o estudo de viabilidade e a “modelagem jurídico-financeira” da PPP já no final de outubro de 2011. Logo em seguida, com base nessa proposta – desconsiderando a possibilidade de outras empresas se apresentarem nos dois meses seguintes –, a Casa Civil da prefeitura iniciou o trâmite interno da minuta do edital.

“No mínimo, isso é muito estranho. O prefeito não era obrigado a impor este prazo, mas, ao ignorá-lo depois, ele fere a segurança jurídica e uma expectativa legítima de outras empresas que viram o chamamento. Tem um claro problema aí. Não respeitar os termos definidos no ato administrativo que abriu prazo para os demais interessados é indício de desrespeito aos princípios da moralidade e impessoalidade”, analisa Marcus Bacellar. Para o professor de direito administrativo na UFRJ, o estudo apresentado pelas empresas “basicamente direciona todo o edital, pois a modalidade de concessão [PPP Administrativa] foi definida pelas empresas, a forma de remuneração também, o objeto da concessão também, e assim por diante”.

Não à toa, o edital chamou atenção dos órgãos de controle interno da prefeitura. A Controladoria-Geral do Município compilou diversos pareceres com questionamentos à parceria. Entre eles, o da Procuradoria do Município recomenda “avaliar com detalhe os pontos levantados” acerca da relação custo-benefício da PPP. São listados seis desequilíbrios potencialmente lesivos aos cofres públicos na proposta – entre eles, despesas com as remoções, custos cartoriais, gastos de regularização imobiliária e benefícios da concessionária omitidos dos cálculos da proposta.

Na mesma linha, a Secretaria Municipal de Fazenda enumerou quatro despesas assumidas pela prefeitura do Rio que não foram listadas e pediu maior “detalhamento de mecanismos para o pagamento a favor do município nos casos de reequilíbrio econômico financeiro”. Isso porque a prefeitura estava prestes a assumir gastos difíceis de quantificar previamente, como as desapropriações e indenizações na Vila Autódromo. O estudo de viabilidade das empreiteiras considerava a remoção da comunidade, que se tornou símbolo de resistência às remoções, como “fundamental para o desenvolvimento do projeto”.

Os alertas não bastaram. Após ter recebido as solicitações para uma revisão na parceria proposta, Eduardo Paes publicou o edital da PPP mesmo assim. “Os órgãos municipais já apontavam que a proposta adotada por Paes beneficiava muito mais a parte privada que a própria prefeitura. Mesmo assim, o processo administrativo interno da prefeitura passou por cima dessas recomendações. No fim, o Conselho Gestor de PPPs e o Tribunal de Contas do Município (TCM) decidiram pela necessidade urgente de aprovação do processo licitatório”, explica Mariana Medeiros, advogada e mestre em Direito da Cidade com uma pesquisa sobre o Parque Olímpico.

Crônicas de uma vitória anunciada

 
Lançado o edital, durante o período de inscrições, o TCM reforçou a existência de “indícios de que o consórcio [Odebrecht, Andrade Gutierrez e Carvalho Hosken] que fez o estudo [de viabilidade] terá vantagem sobre os demais concorrentes”. Dito e feito. Para completar, poucos dias antes do término do prazo, a prefeitura publicou uma errata em que, entre outros ajustes, remanejou valores de obra para consultoria e tornou obrigatória a apresentação de uma carta atestando a viabilidade do negócio assinada por uma instituição financeira com patrimônio de, no mínimo, R$ 1,2 bi – o que beneficiou o trio de gigantes do ramo da construção.

Logo após o término da “concorrência”, outra mudança. Dessa vez, a prefeitura alterou o plano geral (chamado de “master plan”) do Parque Olímpico, que constava no edital e foi elaborado pela empresa Aecom ao custo de R$ 2,9 milhões para os cofres municipais. Isso favoreceu a exploração imobiliária do terreno pelas empresas. Segundo o Comitê Olímpico Internacional (COI), as mudanças foram resultado de “uma consulta com as empreiteiras da PPP e são motivadas por esforços de maximizar o valor dos terrenos e as oportunidades de desenvolvimento”.

A única diferença entre a pauta de 2011 apreendida com o executivo da Odebrecht, Benedito Junior, e o resultado de 2012 é a inclusão da Carvalho Hosken também no negócio de obras e manutenção da infraestrutura do Parque, e não apenas na parte de desenvolvimento imobiliário. “São vários elementos consistentes com uma tese de algum favorecimento, como a incorporação de um ator que poderia ser complicador no processo de concorrência, uma vez que detinha ativos importantes e poderia entrar sozinho na disputa”, afirma Paulo Furquim.

Renato Cosentino, pesquisador do projeto olímpico para a Barra da Tijuca, completa: “Articulando-se com empresários locais, como o grupo Carvalho Hosken, proprietário de milhões de metros quadrados de terra na região, as grandes empreiteiras perceberam que nenhum negócio imobiliário se efetivaria ali sem acordo com eles. E, ao mesmo tempo, o projeto olímpico não se realizaria apenas com estas empresas locais”. Segundo ele, os Jogos viabilizaram uma quantidade de recursos inédita para um projeto antigo: transformar a Barra no novo “centro” do Rio.

Eduardo Paes – que começou sua carreira política com 23 anos naquela mesma região, como subprefeito da Barra e Jacarepaguá – nega qualquer irregularidade. Para ele, é natural que em uma PPP as empresas queiram “maximizar o seu lucro” e, no caso do Parque Olímpico, há até mesmo “problemas que trazem até prejuízo para o [setor] privado”, pois “havia uma projeção de crescimento do mercado de imóveis no Brasil de 3% ao ano e tem dois anos que não cresce”.

Porém, pesquisadores que acompanham o projeto ouvidos pela Pública refutam a possibilidade de qualquer prejuízo às construtoras. Com duração de 15 anos, a PPP inclui transferência de recursos para as empreiteiras em três níveis. A primeira consiste em mensalidades, que totalizam R$ 265 milhões. Há, ainda, pagamentos extras que somam R$ 250 milhões e o repasse de terras públicas avaliadas em mais de R$ 850 milhões. No local, as empreiteiras são responsáveis por realizar arruamento, iluminação pública, limpeza, sinalização, vigilância e outras obrigações outrora cumpridas pelo poder público. Depois dos Jogos, 75% das terras do Parque serão comercializadas pelas empreiteiras no mercado imobiliário. A venda dos condomínios de luxo ali construídos vai para o bolso das empreiteiras.

“Como uma PPP que está sendo integralmente remunerada pelo poder público pode causar prejuízo para a iniciativa privada? É impossível. É um ganho privado baseado em investimentos públicos em infraestrutura”, aponta Mariana. Para ela, a PPP faz a prefeitura gastar mais do que o consórcio teria direito se recebesse apenas pela execução da obra – e as empreiteiras, se beneficiarem mais que o poder público. Em suma, um excelente negócio para as empresas, um péssimo negócio para o bolso dos cariocas.

Ilha Pura: da vila dos atletas ao bairro dos reis

 
“Um bairro planejado, registrado como tal”; “um novo bairro, um novo destino, um novo estilo de vida”; “um bairro de alto padrão”; “o bairro do futuro”; “um bairro que nasce pronto” e com “compromisso com o bom gosto, o luxo e a sofisticação”. Os anúncios imobiliários do Condomínio Ilha Pura, na Barra da Tijuca, deixam claro que não se trata de um complexo imobiliário qualquer.

Com 823 mil metros quadrados, o novo bairro está ao lado do Parque Olímpico e das principais vias de transporte implementadas para os Jogos. Construídos e administrados pela Odebrecht Realizações (que aparece na pauta de Benedito como O’R) e a Carvalho Hosken (CH), seus condomínios possuem preço médio de quase R$ 10 mil o metro quadrado.


Vila dos Atletas em fase de construção. Após a Olimpíada, espaço fará parte do condomínio de luxo Ilha Pura (Foto: Prefeitura do Rio de Janeiro)

Ainda que renda às empresas mais de R$ 254 milhões, a hospedagem dos participantes dos Jogos na Vila dos Atletas é apenas um detalhe do empreendimento. “A Carvalho Hosken é dona de grandes porções de terras naquela região, não só do Ilha Pura e do Parque Olímpico, e o investimento público da PPP gera grande valorização nas terras do seu entorno”, analisa Mariana Medeiros. Descrevendo-o como o “dono da Barra”, a BBC publicou reportagem sobre o proprietário da Carvalho Hosken: “A Ilha Pura vai ter os Jardins do Rei. Nós vamos transformar todo mundo em rei”, anunciou Carlos Carvalho. Sobre a remoção da comunidade de Vila Autódromo, o magnata foi taxativo: “Ali tem muita área que não pode ser habitada, e tudo depende de como você organiza. Você só não consegue organizar com favela, até porque você não pode pensar em tirar um favelado de onde ele vive, do habitat dele, para que ele venha a pagar aluguel e condomínio”. E concluiu: “Você não pode ficar morando num apartamento e convivendo com índio do lado, por exemplo. Nós não temos nada contra o índio, mas tem certas coisas que não dá. Você está fedendo. O que eu vou fazer? Vou ficar perto de você?”.

O nobre negócio foi viabilizado com R$ 2,9 bilhões por meio de um empréstimo com juros preferenciais pela Caixa Econômica Federal. Além disso, a infraestrutura básica de urbanização da Vila dos Atletas será paga pela prefeitura através do PPP do Parque Olímpico.

Especialistas afirmam que isso pode ser uma forma de contornar custos obrigatórios para as empresa empreenderem na região. “De acordo com o Plano Diretor do Rio de Janeiro, para fazer um condomínio na Barra, é preciso cobrir diversos gastos em infraestrutura: trazer água, construir estação de tratamento de esgoto etc., pois lá é considerada uma área que não é prioritária para investimentos públicos. Quando a Vila dos Atletas é construída ali, a prefeitura já banca tudo isso, então muitas despesas que a empresa deveria ter já não são mais necessárias”, analisa a urbanista Giselle Tanaka.

Cartel da Lava Jato participa de mais de 90% dos investimentos na Olimpíada

A partir de dados da Autoridade Pública Olímpica (APO) sobre os projetos relacionados aos Jogos, a Pública levantou as empreiteiras responsáveis por cada empreendimento. Revezando-se em diversos consórcios, Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão e a Carioca Christiani Nielsen participam de projetos que somam R$ 28,5 bilhões dos R$ 31,2 bilhões calculados pela APO. O mesmo seleto grupo de empreiteiras é investigado na Lava Jato por cartel para obras da Petrobras.

Embora o prefeito Eduardo Paes enfatize a origem privada de boa parte dos investimentos na Olimpíada, pesquisadores apontam distorções no cálculo desses números. No caso da PPP do Parque Olímpico, por exemplo, o R$ 1,15 bilhão de “investimentos privados” corresponde a R$ 850 milhões em terras públicas privatizadas e R$ 300 milhões do aumento de gabarito para construção de prédios na região, benefício também cedido pela prefeitura.

“Também na Vila dos Atletas, a APO calcula o valor da terra privada e o empréstimo da Caixa como recursos privados. Não há coerência na metodologia. Por que isso? Porque, se os recursos são privados, não é necessário realizar o debate público sobre o investimento”, critica Renato Cosentino. Pesquisadora da PPP do Porto Maravilha, Mariana Werneck afirma que, “além de tratar dinheiro do FGTS como investimento privado, eles continuam colocando o Porto Maravilha – que nada mais tem a ver com os Jogos – dentro do cálculo, para aumentar a conta da iniciativa privada”.

Confira a presença das empreiteiras por projeto olímpico. Os valores estão em milhões de reais.



Passou
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Primeiro, lembra-se de, pequeno, ficar pulando como goleiro no chão da garagem. Seu pai chutava e ele se exibia em pontes inimagináveis.

Depois, de ele chutar pro filho pequeno espalmar como acrobata na grama da praça.

Agora não defende nem chuta e sente saudade dos três.

Pensa que uma bola poderia tê-los unido no mesmo jogo.

Cada hora um chutando e outro no gol, ou os três tabelando, ou dois na linha e um no gol, ou sentados no chão, com a bola no meio, bebendo água, suados, falando alto, rindo e se preparando pros próximos chutes.

Os três na garagem ou na praça.

Estiveram juntos algumas vezes em idades que teriam permitido a brincadeira, o jogo, os gols e as defesas dos três.

Mas não se lembraram de pegar uma bola.

E então tudo passou – veio a morte, veio o velho, veio o adulto.

Imagina que nada teria passado se tivessem jogado juntos ao menos uma vez.

Que tudo teria estancado naquele momento.

E que eles teriam ficado para sempre como eram então.

Jogando bola juntos.

Agora não dá mais.

Que droga.
__________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


“Geraldinos”, um filme para matar de saudades
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Juca Kfouri

Nesta quinta-feira, em São Paulo, e na semana que vem, no Rio,  entra em cartaz o filme “Geraldinos”, de Pedro Asbeg e Renato Martins.

Um filme sobre o Maracanã que não existe mais, aquele em que os torcedores das gerais sentiam o perfume da grama, o cheiro da bola, o odor de seus ídolos.

Veja o trailer AQUI.


Ex-presidente do São Paulo é expulso do Conselho do clube
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Juca Kfouri

Carlos Miguel Aidar, três vezes presidente do São Paulo, filho de Henri Aidar, já falecido, e que também presidiu o clube durante seis anos, entre 1972 e 1978, foi expulso ontem do Conselho vitalício do Tricolor.


De 177 conselheiros presentes à assembleia que decidiu a sorte de Aidar, 152 votaram por sua exclusão, o que, praticamente, o alija da vida do clube.

Outras denúncias contra a administração dele também estão sendo investigadas pelo Ministério Público de São Paulo.

Escreveu o diário “Lance!” em tom de epitáfio:

“Com a perda de seus direitos políticos, Carlos Miguel Castex Aidar,  de 69 anos, encerra de maneira melancólica sua história no clube, que contou com três mandatos de presidente, dois na década de 1980, e o último de abril de 2014 a outubro de 2015. O advogado ainda mancha o nome da família no São Paulo, já que seu pai, Henri Aidar também foi presidente do clube”.

Lamentável.

Comentário para o Jornal da CBN desta terça-feira, 26 de abril de 2016, que você ouve aqui.


Ingresso sob a pele
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Juca Kfouri

Fãs de time argentino de futebol terão acesso a estádio através de chip implantado debaixo da pele.

“Passion Ticket”, do Club Atletico Tigre, é o primeiro no mundo a permitir o acesso a arenas através da tecnologia de biohacking

Todo torcedor fanático leva seu time dentro do coração e a emoção à flor da pele mas, graças à tecnologia de hackeamento biológico, os fãs do Clube Atlético Tigre serão os primeiros no mundo a literalmente fazer com que sua paixão dê acesso às arenas onde seu time jogará.

Denominado Ticket da Paixão, o mecanismo consiste na implantação no corpo dos fãs de um microchip com tecnologia RFID, que faz identificação através de radio frequência, permitindo que eles tenham acesso às arenas apenas através da sua aproximação a scanners especialmente programados em diferentes entradas do estádio.

O microchip conterá informação pertinentes a partida, que habitualmente estariam numa versão eletrônica ou impressa do bilhete de acesso.
“Estamos muito animados com o Passion Ticket, porque ele está na raíz da paixão que nossos fãs têm em relação a equipe”, diz Ezequiel Rocino, secretário geral do Club Atlético Tigre, e primeira pessoa a experimentar o recurso.

“Essa nova opção de ticket nos permitirá oferecer uma experiência melhor para nossos fãs mais passionais, já que eles terão que enfrentar menos filas e menos espera para entrar no estádio, inclusive usufruindo de benefícios exclusivos reservados aos detentores do Passion Ticket”, explica o dirigente.

O Club Atlético Tigre espera o quanto antes conseguir da AFA- Associação Argentina de Futebol e das autorizades médicas locais, a aprovação para a implementação do Passion Ticket, que foi desenvolvido em parceria com a agência de publicidade McCann Buenos Aires.


Passo a passo para evitar um gol contra
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Juca Kfouri

1. Na semana passada, o item nº 1 da pauta da CCJ era a decisão do senador Benedito Lira (PP-AL), reconhecendo o recurso do senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP) e mantendo as decisões da última reunião da CPI, que convocava Marin, Del Nero, Teixeira e o prefeito Gustavo Feijó. Uma questão de ordem inesperada do senador Ciro Nogueira (PP-PI) tinha colocado em dúvida a votação da CPI, decisão que o presidente Renan Calheiros subitamente acatou, remetendo o caso para a CCJ. O voto favorável do relator derrubou a manobra da bancada da bola e surpreendeu a dupla Ciro-Renan.

2. Atordoado, Ciro procurou Lira em seu gabinete e pediu que ele mudasse o seu voto, para não derrubar sua questão de ordem. Lira recusou:

– Em absoluto, não vou mudar, Ciro.

3. Ciro insistiu, dizendo que era necessário. Lira continuou firme:

– Não mudo, nem retiro meu voto. Não devo nada à CBF, Ciro, não devo um único centavo a ela.

4. Ciro continuou teimando. Lira, resistindo:

– Olha, Ciro, eu nem gosto de futebol. Não entendo de futebol. Eu era até contra a Copa no Brasil, que só trouxe despesas e escândalos. Nem fizeram as obras que prometiam como legado da Copa. Ficou tudo pela metade. E o Brasil pagando a conta. Não tenho nada a ver com essa gente. Se vocês querem salvar o pescoço da turma da CBF, não contem comigo.

5. Ciro percebeu que, embora presidente do PP, não conseguiria dobrar o senador do PP das Alagoas.

6. Mas, Ciro também é teimoso. Saiu do gabinete de Lira e tramou a operação-desmonte diretamente com o conterrâneo de Lira, o presidente Renan Calheiros, pai do governador (Renan Filho) que derrotou Lira na disputa alagoana pelo governo estadual em 2014.

7. Ciro foi se socorrer com o presidente da CCJ, o senador José Maranhão (PMDB-PB), que simplesmente retirou o voto de Lira da pauta e o devolveu ao relator, para ‘reexame’ – significando que a matéria não estava pronta para ser votada por pedido do relator.

8. Para o público externo, parece que Lira, de repente, desistiu do próprio voto e o pediu de volta para reexaminá-lo. Na realidade, o voto de Lira foi retirado de pauta arbitrariamente por Maranhão (atendendo apelo de Ciro e ordem de Renan) e devolvido à força a Lira.

9. Assim, o tema nº 1 da reunião da CCJ da semana passada, cancelada por falta de quórum, simplesmente evaporou-se da pauta da próxima reunião da CCJ, marcada para essa quarta-feira, 27. O voto de Lira, contra os interesses de Ciro e da bancada da CBF, desapareceu num passe de mágica.

10. Amanhã, terça-feira, 26, no plenário do Senado Federal, um dia antes da reunião mutilada da CCJ, o senador Randolfe Rodrigues (REDE-RS) — autor do recurso que resistiu às manobras de Ciro Nogueira — vai denunciar esse mistério. E vai pedir que o voto do relator seja colocado em pauta imediatamente e votado pelo plenário ainda nessa terça-feira.

11. Assim, diante da TV Senado e de todas as torcidas do Brasil, será desfeito o ‘gol de mão’ da dupla Ciro-Renan.

12. É a última chance que a CPI da CBF terá para evitar o gol contra dos inimigos do futebol brasileiro.


É permitido enganar um povo?
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Juca Kfouri

POR EMMANUEL NAKAMURA*

A essa pergunta Hegel tinha uma resposta paradoxal: «um povo não se deixa enganar acerca da sua base substancial, da essência e do caráter determinado do seu espirito, mas que ele é enganado por si mesmo acerca do modo como ele sabe desse espírito e como julga as suas ações, os acontecimentos etc. segundo esse modo.»[1] Aceitar essa resposta de Hegel significa ter como ponto de partida indivíduos livres e emancipados e que não precisam e nem aceitam nenhum tipo de tutela: um povo não se deixa enganar, ele engana a si mesmo. Logo as instituições sociais e políticas são um resultado de suas próprias ações e da maneira como as julga.

Hoje em dia, o cidadão médio brasileiro tem como bandeira libertar o Brasil da corrupção. Ele não tem nenhum interesse concreto, apenas uma ideia puramente abstrata de justiça vingativa que é uma segunda lesão ao direito. Se os políticos lesam o direito através de práticas corruptas, a justiça vingativa da classe média justiceira é uma segunda lesão ao direito. Assim como os políticos corruptos, ela está aquém de qualquer representação moral que exigisse uma justiça legal. Como se trata de uma ideia abstrata de justiça vingativa, ela é uma abstração de qualquer interesse particular concreto. Logo, a classe média vingativa se volta com violência contra qualquer opinião contrária, solapando um dos pilares do Estado de direito: a liberdade de opinião.[2]

Afirmar que o povo brasileiro construiu um Estado de direito seria, no entanto, uma opinião muito generosa. Temos um «Estado Oligárquico de direito».[3] Foi o que conseguimos construir depois da abertura democrática e não devemos nos envergonhar tanto disso, pois se tratava de uma limitação da consciência da liberdade que diz respeito à história mundial. As ditaduras do capital foram todas patrocinadas pelos EUA; assim como as ditaduras do proletariado, pela antiga URSS. Tratava-se de uma disputa pelo poder entre dois blocos geopolíticos que deixou feridas que vão demorar a cicatrizar: os países dos leste-europeu estão longe de serem Estados democráticos de direito e os conflitos no oriente médio resultam em grande parte de ditaduras financiadas anteriormente pelos dois blocos. No Brasil não poderia ser diferente. A ditadura militar nos legou fundamentalmente dois pensamentos: a ideologia anticomunista e a crença no crescimento econômico. Este último é uma visão rebaixada da teoria desenvolvimentista que buscava superar a miséria social brasileira.

A esquerda, no entanto, sempre acreditou que poderia ser diferente, afinal o PT surgiu junto com a abertura democrática. E, de fato, poderia ser, caso o PT tivesse conseguido representar politicamente os interesses sociais que potencialmente deveriam se auto-diferenciar com a desmilitarização do controle social. Mas, para isso, o PT teria que representar os diversos setores da sociedade que durante a ditadura não tiveram representação política. E ele só poderia fazer isso através do poder legislativo, pois não temos até agora outra forma política para isso. O legislativo é espaço institucional onde os conflitos sociais podem adquirir uma forma política. Durante a ditadura eles foram reprimidos militarmente. Sindicatos, movimentos sociais e qualquer outro setor social só podem organizar os seus próprios interesses autonomamente quando estão livres de qualquer controle estatal, interesse governamental ou interesses políticos da sociedade como um todo. A representação parlamentar é a única forma que permite essa separação. – Uma democracia direta, p. ex., contaminaria o desenvolvimento de interesses de grupos sociais com o debate político e a administração do todo. – Quem ocupou o poder legislativo foi, no entanto, o PMDB: «Estamos aqui há 50 anos. Temos raízes. Somos o partido que derrubou a ditadura sem matar ninguém, só com a política.»[4] Neste sentido, a análise de Marcos Nobre está correta: «a verdadeira força política hegemônica da política brasileira é o pemedebismo.»[5]

O PMDB foi quem controlou o processo de democratização e conseguiu fazer isso democraticamente, porque os dois partidos políticos que surgiram com a abertura democrática – PT e PSDB – deram pouca importância para o poder legislativo. Por isso a sociedade brasileira não conseguiu desenvolver novos interesses sociais e muito menos dar uma voz política a estes. Para o brasileiro ficar contente basta uma coisa: o crescimento econômico. PT e PSDB se contentaram então apenas em lançar candidatos «gerentes do condomínio político pemedebista brasileiro.»[6] A representação pemedebista tem, portanto, um enraizamento profundo. O PMDB representa uma sociedade que mal sabe formular os seus interesses, porque no passado sempre foi calada por meio da violência e depois não nunca teve meios políticos para formular livremente os seus interesses. Por isso, o melhor exemplar do que é o cidadão médio brasileiro é o «Macho PMDB», o «pior tipo de homem de todos os tempo» ou «o pior dos moralistas».[7] Não é a toa que a classe média justiceira só sabe bater em panelas. Ela simplesmente não sabe o que quer. Ou melhor, ela sabe: tudo que ela quer é que o país volte a crescer economicamente. Por isso, o discurso aparentemente moral-anticorrupção é pura dissimulação. Pouco importa que quem julgue o impeachment sejam deputados envolvidos no esquema de corrupção da Petrobrás. O importante é derrubar uma presidente que não consegue fazer a economia voltar a crescer. Prova disso foi o escândalo do mensalão. Lula foi reeleito, porque o que importava mesmo era que a economia estava crescendo.

O PT conseguiu gerir o condomínio pemedebista, porque herdou do PSDB uma situação de estabilidade monetária, em um momento de melhora na conjuntura econômica internacional, mas, principalmente, porque era a consciência social da abertura democrática. Logo, a sociedade brasileira, como um todo, depositava no governo petista todos os anseios de conquista de liberdades pessoais, sociais e políticas. O governo Lula, no entanto, canalizou essa força social para reanimar a crença no crescimento econômico. – Ao chegar ao governo, o PT manifestou também uma limitação da política latino-americana que diz respeito ao longo histórico de repressão social no continente. Como interesses sociais nunca puderam se desenvolver livremente, os diversos agrupamentos sociais, assim como a classe média, nunca conseguiram formular o que queriam. Diante de uma política que a afetava, mas que ela nunca conseguiu participar, restou à esquerda um sentimento em comum de miséria social e uma aspiração à soberania popular, traduzida no Brasil em «Lula lá». Lula é a imagem sensível desse sentimento popular. Ele é a representação sensível das liberdades sociais que os setores de esquerda queriam conquistar: «É por preconceito, proclamou, que os ricos não toleram que desfrute de um sítio no fim de semana. ‹Todo mundo pode, menos essa merda desse metalúrgico›, disse. A execração é de classe: ‹Eles partem do pressuposto que pobre nasceu para comer em cocho. Eu aprendi que não, quero comer comida boa›.»[8] Mas isso mostra que os países latino-americanos nunca conseguiram pensar as liberdades pessoais, sociais e políticas como pertencentes ao homem como tal – i.e. ela sempre precisou projeta-las exteriormente numa pessoa absoluta, e não em direitos sociais, constitucionalmente garantidos. Daí porque a força social do processo de democratização brasileiro se transformou em «lulismo»[9]. – Talvez isso ocorra porque desconhecemos o princípio da liberdade subjetiva, que segundo Hegel o protestantismo trouxe ao mundo.[10] Ao trazer Deus para o coração do homem, Lutero mostrou que, através de Cristo, Deus se mostrou como um de nós e, logo, nos elevou à mais suprema liberdade. Com isso, ele livrou o cristianismo da carência de abstração que projetava as liberdades subjetivas em uma autoridade exterior ou em um objeto sensível. Mas o Brasil é fundamentalmente um país católico e continua apegado a uma autoridade exterior. Mesmo as novas comunidades evangélicas estão muito longe da doutrina de Lutero, pois projetam as liberdades numa unidade comunitária na qual as liberdades subjetivas são distorcidas por um pastor malformado.

A polarização política atual mostra como pouco conseguimos nos distanciar do período militar. Não é a toa que aqueles que são pró-impeachment só sabem repetir a ideologia anticomunista do período ditatorial. O «vai pra Cuba», na boca do cidadão médio brasileiro, reproduz uma visão distorcida de Cuba do período da guerra fria, como um país com muita miséria social, políticos corruptos e ausência de liberdade de expressão. A ironia é que é exatamente aqueles que gritam «vai pra Cuba» que estão retransformando o Brasil nesta representação distorcida de Cuba, pois, ao querer reintroduzir a ideologia anticomunista para dentro do Estado, eles se mostram a favor do controle de liberdade expressão e que a relação entre cidadão e Estado seja baseada na desconfiança. Do outro lado, os que são contra-impeachment afirmam que se trata de um golpe. Há desse lado um pouco mais de razão, pois, ao se voltarem contra a manipulação política de instituições jurídicas pelo PMDB e PSDB, eles reivindicam que nenhum partido deve estar acima da constituição. Ambos os lados querem, no entanto, apenas que o país volte a crescer economicamente. O empresariado é pró-impeachment porque sabe o PMDB não vai deixar o governo em paz e quer resolver logo a situação. A classe média justiceira finge acreditar que a crise política é apenas o resultado da «má condução do estado pelo lulo-petismo», i.e. de um governo que formou «quadrilhas para assegurar o poder com a aquiescência de empresários e partidos.»[11] No fundo ela quer também apenas a volta do crescimento econômico, pois não dá a mínima (1) para a manipulação política das instituições jurídicas, (2) para o fato de que os parlamentares que julgarão o impeachment estão tão ou mais envolvidos no esquema de corrupção da Petrobras e (3) em entregar o poder executivo ao PMDB, que sempre comandou o poder legislativo como sendo o seu condomínio. Já os que são contra-impeachment criticam a política econômica do governo Dilma e os petistas, em particular, apostam na única solução que encontraram desde o fim da ditadura militar: «Lula lá». A imprensa, que pouco se distanciou da ditadura militar, pede a renúncia da presidente, reconhece que não há base legal para o impeachment e por isso pede um sacrifício da presidente para salvar a constituição.[12] Finge esquecer que uma constituição livre e democrática não precisa do sacrifício de ninguém.

O que vem à superfície com o escândalo da Petrobras é, no entanto, a limitação de nossa representação democrática, que só representa interesses econômicos por meio de corrupção. A atual crise política não parece apresentar opções para resolver esse problema porque o povo quer apenas a volta do crescimento econômico. A classe média justiceira finge acreditar que a corrupção acabará com o impeachment, deixando o poder executivo e legislativo sob controle do PMDB. Já a esquerda projeta uma situação catastrófica, e há um pouco de razão isso, pois o país caminha no sentido de refortalecer a força política do PMDB e as ideologias da ditadura militar: o anticomunismo e a cresça no crescimento econômico. Se antes os movimentos sociais eram mal representados pelo PT, agora eles caminham para o «grau zero da representação»[13]. A esquerda autônoma aposta na organização autônoma dos movimentos sociais.[14] Na verdade, é o que sobrará, mas convém alertá-la que dificilmente ela conseguirá conquistar algum direito social. Poderá, no máximo, resistir – p. ex. impedir que escolas com professores mal-pagos e com estrutura precária sejam fechadas ou impedir que tarifas de transporte público precário se tornem mais caras, isto é, ela poderá no máximo impedir uma precarização ainda maior dos serviços públicos, deixados sob administração do PMDB e do PSDB. Quem procura não tomar partido pró ou contra impeachment recorre a uma conduta mais própria a animais do que a seres humanos: «Fazer sem acreditar»[15]. Só podemos agir moralmente se acreditamos em alguma ordem moral do mundo. – Tal descrença foi, entretanto, formulada muito antes pelo pensamento crítico brasileiro, que em sua última análise do país viu uma espécie fim da história, própria às leituras equivocadas da filosofia da história de Hegel. Se a tradição crítica chegava ao fim, significava que as suas categorias perdiam poder para explicar o Brasil, mas isso não deveria impor nenhum determinismo histórico, no sentido de que estaríamos formados e somos esse bicho estranho chamado ornitorrinco.[16] O que chegava ao fim era a crença desenvolvimentista de superação do subdesenvolvimento através de um projeto nacional elaborado por intelectuais atuantes no poder executivo.

Quem faz necessariamente crê que o país pode ser algo diferente dessa formação social-política estranha e corrupta que o período militar nos legou. Quem aposta em movimentos sociais autônomos, p. ex., acredita na possibilidade de conquistar liberdades sociais. O conteúdo da crença é, portanto, a liberdade social. Quem defende hoje o fim das eleições obrigatórias acredita que a liberdade política não deve apenas aclamar um poder corrupto, mas deve ser a manifestação da vontade livre de cidadãos emancipados. O conteúdo dessa crença é, portanto, a liberdade política. Quem defende o fim do financiamento privado de campanha, acredita que a representação política deve representar todos os interesses de todos os setores da sociedade, e não apenas os econômicos. O conteúdo dessa crença é a liberdade ética-comunitária. Quem defende o voto em legenda, acredita os partidos políticos devem representar ideias e interesses sociais específicos. O conteúdo da crença é a liberdade concreta formada por formas de vida particulares e não uma liberdade abstrata como soma indivíduos atomizados. Quem defende a imprensa livre é porque acredita que os indivíduos emancipados sabem diferenciar e imprensa livre da manipuladora. O conteúdo dessa crença é a liberdade de expressão. Quem defende a criação de novos partidos políticos acredita que o país precisa de novos atores políticos que reconheçam a separação entre as esferas privada, social e política. O conteúdo dessa crença é a separação moderna entre liberdades pessoais, sociais e políticas. Em todas essas crenças, o conteúdo comum é a liberdade. Só teremos uma país melhor quando fizermos da liberdade o conteúdo do nosso querer. Não precisamos de um novo projeto nacional-desenvolvimentista, nem de uma nova forma abrangente de fazer política a ser pregada por intelectuais em todos os setores da sociedade e nem muito menos de uma nova força social tal como foi o PT no começo da abertura democrática. Dar existência a liberdades sociais significa transformá-las em direitos sociais. Mas para isso precisamos urgentemente parar nos auto-enganar e colocar em pauta uma reforma política e criar novos partidos políticos, capazes de representar os mais diversos setores sociais no poder legislativo.

*Emmanuel Nakamura é doutorando em Filosofia na Universidade de Berlim.
[1] HEGEL, G. W. F. Grundlinien der Philosophie des Rechts oder Naturrecht und Staatswissenschaft im Grundrisse. GW 14,1. Hamburg: Felix Meiner: 2009, § 317. (Tradução de Marcos Lutz Müller).

[2] Cf. BOULOS, G. Quem está incendiando o Brasil? In: FOLHA DE SP. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/guilhermeboulos/2016/04/1756647-quem-esta-incendiando-o-brasil.shtml. Acesso em 04/04/2016.

[3] Cf. SAFATLE, V. O Estado Oligárquico de Direito. In: FOLHA DE SP. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2015/12/1717437-o-estado-oligarquico-de-direito.shtml. Acesso em 04/04/2016.

[4] FRANCO, M. Ex-ministro Moreira Franco diz que gestão petista ‹não confia em ninguém›. In: FOLHA DE SP. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/09/1684133-ex-ministro-moreira-franco-diz-que-gestao-petista-nao-confia-em-ninguem.shtml. Acesso em 04/04/2016.

[5] NOBRE, M. O Fim da polarização. In: REVISTA PIAUÍ, edição 51, dezembro de 2010. Disponível em: http://revistapiaui.estadao.com.br/materia/o-fim-da-polarizacao/. Acesso em 04/04/2016.

[6] NOBRE. O Fim da polarização, op. cit.

[7] SÁ, X. O pior tipo de homem de todos os tempos. In: EL PAÍS. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/24/opinion/1429875361_407271.html. Acesso em: 04/04/2016.

[8] CONTI, M. S. Falta certeza e sobra ódio. In: FOLHA DE SP. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2016/03/1747392-falta-certeza-e-sobra-odio.shtml. Acesso em 05/04/2016.

[9] SINGER, A. Sonho suspenso. In: FOLHA DE SP. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/219384-sonho-suspenso.shtml. Acesso em 05/04/2016.

[10] HEGEL, G. W. F. Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften im Grundrisse (1830). GW 20. Hamburg: Felix Meiner, 1992, § 482.

[11] CARDOSO, F. H. A constituição é o caminho. In: EL PAÍS. Disponível: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/03/opinion/1459687432_855868.html. Acesso em 05/04/2016.

[12] FOLHA DE SP. Nem Dilma nem Temer. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/04/1756924-nem-dilma-nem-temer.shtml. Acesso em 05/04/2016.

[13] SAFATLE, V. Deixe os mortos enterrarem seus mortos. In: FOLHA DE SP. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2015/08/1665348-deixe-os-mortos-enterrarem-seus-mortos.shtml. Acesso em 05/04/2016.

[14] BRUM, E. Acima dos muros. In: EL PAÍS. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/28/opinion/1459169340_306339.html. Acesso em: 05/04/2016.

[15] BRUM, E. Em defesa da desesperança. In: EL PAÍS. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/21/opinion/1450710896_273452.html. Acesso em 05/04/2016.

[16] Cf. OLIVEIRA, F. Crítica à razão dualista – O ornitorrinco. São Paulo, Boitempo, 2003.


Flamengo estampará logomarca do “Pacto Pelo Esporte” no clássico com o Vasco
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Juca Kfouri

O Flamengo estampará nas costas de sua camisa a marca do “Pacto Pelo Esporte” no clássico diante do Vasco neste domingo(24), pela semifinal do Campeonato Carioca.

“A conformidade com os princípios do ‘Pacto pelo Esporte’ é mais uma marca atingida pelo Flamengo, que esteve à frente da formulação e da aprovação do Profut. Nos reconhecem como clube cidadão e, por isso, somos vencedores de vários prêmios relativos à transparência e à qualidade de governança. Essa é uma marca do nosso clube e que só renderá frutos positivos”, destaca o presidente Eduardo Bandeira de Mello.

  O ex-jogador Raí, diretor da Atletas pelo Brasil, agradeceu pelo apoio: “Esta é uma iniciativa muito importante para divulgar o Pacto pelo Esporte. O Flamengo esteve em São Paulo no lançamento do Pacto pelo Esporte, em outubro, e também já se dispôs a ser a primeira agremiação de futebol a ser avaliada pelo programa pelo esporte. O apoio do Flamengo é um exemplo e abre espaço para que outros clubes vejam a importância de uma nova era na gestão eficiente e transparente. Com isso, ganham os equipes, as empresas patrocinadoras e todo o esporte…”

O Pacto pelo Esporte é um acordo firmado entre empresas patrocinadoras, por uma gestão mais profissional, moderna e eficiente no esporte. As entidades terão um prazo para adequação ao Pacto e a iniciativa pretende aumentar e melhorar o investimento no esporte e dar mais segurança para os patrocinadores.

A iniciativa é da Atletas pelo Brasil e Instituto Ethos e tem como signatárias 20 das maiores empresas do Brasil: Aché Laboratórios, Banco do Brasil, Bradesco, BRF, Carrefour, Centauro, Coca-Cola, Construtora Passarelli, Correios, Decathlon, EY, Estácio, Gol Linhas Aéreas Inteligentes, Itaú Unibanco, Johnson&Johnson, McDonald´s, P&G, Somos Educação, TAM e Vivo.

A Atletas pelo Brasil é uma organização sem fins lucrativos que reúne, em uma iniciativa inédita no mundo, cerca de 60 atletas e ex-atletas pela melhoria do esporte e, por meio do esporte, pelos avanços sociais do País.

Em 2013, a associação contribuiu para a aprovação do artigo 18-A da Lei 12.868, que criou regras para dar mais transparência às entidades esportivas.

Em 2014, a Atletas pelo Brasil divulgou uma carta para os candidatos à Presidência. A associação também ajudou a criar o Pacto pelo Esporte por mais transparência, integridade e gestão no esporte brasileiro.

A instituição ainda possui o Programa Cidades do Esporte, realizado nas 12 cidades-sede da Copa. A iniciativa tem como objetivos promover a importância do esporte nas políticas públicas, realizar um diagnóstico e monitorar anualmente a evolução dos indicadores nos municípios, além de fomentar o intercâmbio entre as cidades e divulgar boas práticas.

   


Perdendo sempre
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para Jorge Dorfman Knijnik

Domingo à tarde enchia de gente.

A TV pequena, em preto e branco, cheia de chuviscos, faixas horizontais e verticais, sem som, ficava no fundo do botequim.

Os da frente ainda viam um pouco. Os do meio pra trás tinham que deduzir.

Mas todos vidrados em sagrado silêncio.

Fumo, cachaça, rapadura, pão velho.

Do lado de fora, nada.

Um terreno perdido e vasto.

Empoeirado.

Depois de morros e trilhas.

Era o único lugar por ali em que o pessoal das roças de todas as distâncias podia ver futebol.

Um deserto marrom.

Tufos de mato secos, queimados.

Cercas.

Só o telhado de amianto do boteco e a espinha de peixe da antena quebravam a paisagem.

Bicicletas velhas na porta.

As botinas do lado de fora pra não sujar o recinto.

Calor e moscas.

O ar parado.

De noitinha, todos de volta às suas distâncias.

À partida que eles venciam fugazmente naquelas horas de futebol aos domingos.

Todo o resto, antes e depois, dentro e fora do botequim, sem o futebol, era derrota.

E sem ninguém pra assistir.
__________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras”).


Três histórias de vitórias legítimas nos esportes para leitura e reflexão dos congressistas democratas
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Juca Kfouri

Primeira

Em 1941, os nazistas ocuparam Kiev e espalharam a violência e o horror. Extinguiram o futebol local. Os jogadores do Dynamo e do Lokomotiv tiveram que trabalhar em outras atividades, a maioria como padeiros.

Em 1942 formaram um time (FC Start) e começaram a vencer, em amistosos, times locais e, num torneio, búlgaros, romenos e alemães, sempre de goleada. Mas os alemães não aceitaram a derrota, sobretudo a de 5 a 1 imposta ao seu time mais forte, o Flakelf, formado por militares nazistas.


Os alemães exigiram uma revanche (não prevista no torneio). Reforçaram o time com seus melhores atletas e soldados. Lotaram o estádio com militares e simpatizantes nazistas. Escalaram como juiz um oficial da SS.

Antes do início, o juiz e outros militares nazistas foram ao vestiário do Start impor que fizessem a saudação nazista na hora do hino e avisaram sobre as consequências de um resultado adverso para os alemães.

Os jogadores do Start resistiram à pressão e à intimidação. Não fizeram a saudação nazista, sofreram todo tipo de agressão por parte dos adversários – com a complacência do juiz – e terminaram o primeiro tempo vencendo por 3 a 1.

Nova visita ao vestiário no intervalo. Mais pressão. Os ucranianos voltaram, superaram as intimidações e roubos do árbitro e venceram por 5 a 3. Com direito a, no final, um de seus jogadores driblar o goleiro e, em lugar de fazer o gol, chutar a bola para trás, em protesto. O juiz encerrou o jogo na hora.

Nos dias e semanas que se seguiram, ao menos quatro ucranianos foram presos e outros quatro foram mortos pelos nazistas.

Mas foram os ucranianos que venceram no campo de jogo. E foram os alemães que perderam a guerra.

Segunda
Seis anos antes haviam ocorrido as Olimpíadas de Berlim de 1936, montada pelo poderio nazista para mostrar a superioridade de sua elite atlética, racial, militar e econômica.

Mas Jesse Owens, um atleta negro, de origem pobre, segregado por sua cor em seu próprio país mesmo após suas grandes conquistas como atleta, e completamente desprezado pelos nazistas antes das competições, venceu as corridas de 100m e 200m rasos, o revezamento de 400m e o salto em distância. Derrotou a elite esportiva alemã. Hitler, irado, recusou-se a cumprimentá-lo e a lhe entregar a medalha.


Mas Owens foi o campeão olímpico de fato, na disputa legítima, nas pistas. Hitler, o nazismo e a Alemanha foram derrotados. E o segregacionismo racial americano também acabou, com as décadas, sendo condenado.

Terceira
Muhammad Ali começou sua carreira como Cassius Clay. Tornou-se o maior lutador de boxe americano nos anos sessenta, conquistando o título olímpico em 1960 e o título mundial em 1964. Mas um golpe do governo americano retirou-lhe os títulos em 1967, por ele se recusar a servir na Guerra do Vietnã, em nome de seus ideais pacifistas.


Ele recomeçou, venceu de novo os adversários mais fortes e desafiou o campeão mundial George Foreman em 1974 no Zaire (atual Congo). Todo o establishment político e esportivo americano apoiava Foreman. Os negros africanos e americanos torciam por Ali.

Foreman bateu em Ali por sete rounds. Ali absorvia os golpes e aguardava o momento do contra-ataque. No oitavo round, revidou com uma sequência de socos e derrubou Foreman. Ainda teve a chance – como o jogador do Start – de dar o último golpe quando o adversário caía grogue, mas retirou o braço e o deixou soterrar desacordado.

O título era de quem de fato o conquistara nos ringues.


Organizações e movimentos fazem ação e pedem que presidenta vete Lei Geral das Olimpíadas
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Juca Kfouri

Projeto traz série de ataques à Democracia, como criação de novos tipos penais
– Twitaço está marcado para as 15 horas desta quarta-feira (13)

 

Está nas mãos da Presidenta Dilma Rousseff o Projeto de Lei da Câmara 2/2016, a chamada Lei Geral das Olimpíadas, que, se for sancionado, representa uma série de retrocessos na democracia, afetando desde o direito à livre manifestação até penais, com a criação de novas tipificações criminais ligadas exclusivamente aos Jogos, por exemplo.


Para evitar que os efeitos nocivos desse projeto entrem em vigor, os movimentos e organizações reunidas na plenária Jogos da Exclusão – que busca denunciar e interromper os efeitos desse megaevento – lançam hoje a campanha #VetaLeiOlímpica, para que o Executivo não aceite as propostas aprovadas pelo Congresso.

Veja alguns dos pontos polêmicos do Projeto:

– No Artigo 9º cria áreas exclusivas do COI e seus patrocinadores, o que restringe o livre exercício do trabalho ao impedir o comércio de rua para produtos vendidos pelos organizadores, e, ainda restringe a liberdade de expressão e a liberdade de ir e vir das pessoas no entorno dos locais oficiais de competição e nas áreas que serão delimitadas pela Prefeitura do Rio. Para piorar, não há qualquer critério para estabelecer o tamanho máximo dessa área que será delimitada.

– O projeto restringe (Artigo 12) o direito de captar imagens e sons em qualquer evento, a não ser que seja autorizado pelo Comitê Olímpico e o Comitê Paralímpico Internacional (IPC). De acordo com a Constituição Federal, art. 220, §1º nenhum dispositivo pode constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer meio de comunicação social. A gravidade do das consequências deste artigo podem ser exemplificadas, por exemplo, se houver qualquer violação decorrente de um protesto, o COI e o IPC poderão tentar impedir a disseminação dessas imagens, inclusive pela internet.

– Na parte de Proteção e Exploração de Direitos Comerciais, há uma série de seções específicas que restringem os direitos dos cidadãos de circular por áreas públicas. Na Seção V, o projeto vai além e cria pena de detenção de três meses a um ano ou multa para quem reproduzir, imitar, falsificar ou modificar qualquer símbolo oficial dos Jogos. Aqueles que forem distribuir, vender, ajudar na venda ou mesmo guardar material com símbolos oficiais pode ficar preso de um a três meses ou pagar multa. É de enorme gravidade a existência de uma seção que cria novos tipos penais, ressaltando a postura punitivista do Estado com relação aos cidadãos. Este artigo é extremamente prejudicial para liberdade de expressão, pois as pessoas que usarem/modificarem qualquer símbolo oficial como forma de protesto poderão ser detidas. Além do que, há uma proteção desproporcional do direito às marcas, que já é garantido por outras leis.

– No Capítulo IV, o projeto afirma, que como condição de permanecer nos locais oficiais, não se deve portar ou ostentar cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, de caráter racista, xenófobo ou que estimulem outras formas de discriminação. A Lei limita previamente o tipo de expressão que não é admitida dentro dos Locais Oficiais de Competição. A Constituição Federal e outras leis já se encarregam de responsabilizar qualquer forma de discriminação, motivo pelo qual não cabe à Lei das Olimpíadas estabelecer restrições prévias à liberdade de expressão, uma vez que os excessos devem ser responsabilizados posteriormente por meios legais já existentes. O mais problemático aqui é o fato de deixarem em aberto “mensagens ofensivas”.

– Na Seção X, afirma que não devem ser utilizadas bandeiras para outros fins que não o da “manifestação festiva e amigável”. Além de violar o direito à liberdade de expressão, garantido constitucionalmente, nos locais do evento, caracterizando uma censura prévia, pode ser prejudicial para os protestos uma vez que pessoas com cartazes e bandeiras poderão ser banidas dos arredores do estádio, por exemplo. Além disso, a utilização das expressões “manifestação festiva e amigável” caracteriza, em tese, um comportamento intolerante das entidades organizadores no que se refere às críticas que poderão ser feitas pelos indivíduos, evidenciando, assim, que trata-se de uma afronta à livre manifestação de pensamento e à liberdade de expressão como um todo. Além de serem termos excessivamente amplos e indefinidos.

A partir das 15 horas de hoje, haverá um twitaço nas redes sociais denunciando as irregularidades do projeto e pedindo que a presidenta vete a proposta.

Rio 2016 – Os Jogos da Exclusão

NOTA DO BLOG: A reivindicação do veto faz sentido, mas o veto é utopia.

Acontece agora exatamente o que aconteceu com a Lei Geral da Copa, enfiada goela abaixo do país por exigência do caderno de encargos da Fifa.

Dá-se o mesmo com o COI e a Olimpíada.

Além do mais, Dilma Rousseff, a partir de domingo, não poderá vetar mais nada.


Futebol de breque
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

(Sobre a melodia de “Tragédia Afrodisíaca”, samba de breque do Língua de Trapo)

Montei o time com quatro zagueiros,

três volantes pelo meio,

os laterais e um no ataque

– um centroavante de araque.

A ordem era jogar bem fechadinho,

chegar junto, dar carrinho,

fazer cera e dar chutão.

Nada de toquinho, nem jogada,

só tentar bola parada

pra aproveitar a confusão

– nosso atacante é grandalhão.

Estávamos tomando um sufoco,

então reforcei um pouco

e tirei o centroavante

– botei um beque flutuante.

Tranquei ainda mais nossa defesa,

verdadeira fortaleza,

e mandei baixar o pau:

no craque deles logo deram quatro

(isso aqui não é teatro,

nem espaço cultural!)

– o cara era infernal!

Então o juizinho sem-vergonha

(um palerma, um pamonha)

expulsou meu capitão.

O sururu foi se configurando,

eu cheguei logo avisando:

vou te encher de bofetão!

Quando ele exibiu-me o vermelho,

dei-lhe um chute no joelho

e ele chamou a guarnição

– que me levou pro camburão.

Meu time ainda perdeu mais um zagueiro,

um lateral e o goleiro

pouco antes do intervalo

– o juizinho era um safado!

Os outros bem que lutaram bastante

mas o placar, tão humilhante,

mostra o assalto incomum.

O resultado foi um despautério:

terminou quatorze a zero,

um roubo claro, a olho nu!

– se ao menos fosse sete a um…

(Sete a um, eu me lembro muito bem.

Sete a um, eu me lembro muito bem).

______________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


Ser ou não ser do esporte? O significado no patrocínio ao esporte.
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Juca Kfouri

POR RODRIGO FERREIRA*

Se você tem entre 25 e 35 anos (ou tem filhos desta idade) certamente reconhece diversas pessoas que largaram tudo para viajar, montar um food truck ou viver de arte. Ou simplesmente não se encontram.

Parece, por vezes, que chega à maturidade não uma geração X, Y ou Z, mas sim uma “geração Beta”, incapaz de se sentir completa e eternamente em busca da felicidade. Uma conquista que não tem parâmetros tão claros quanto a geração de seus pais, cultivada à base de “construir uma carreira”, “dar aos filhos o que não tiveram”, “buscar a estabilidade” ou mesmo “ser bem sucedido”, seja qual for a métrica pra tal.

São filhos que não se contentam em fazer o que lhes carece significado real. Ou autêntico, honesto, verdadeiro.

Há pouco mais de 10 dias para o acendimento da Chama Olímpica, símbolo sagrado de todo o significado que o esporte carrega (amizade, respeito e excelência, para citar os “oficiais”), vivemos um bom momento para discutir esta falta de significado, no esporte e no universo de patrocinadores que o cerca (ou por vezes parasita).

Marcas no Brasil sempre viram no esporte uma oportunidade de visibilidade. Simplesmente estar na maior TV do país, durante os maiores eventos e garantir uma fatia substancial da população reconhecendo sua marca. Simplesmente estar lá era a razão do sucesso. Top of mind, diriam uns para a simples associação entre cara e crachá de uma marca. Marketeiros adoram um rótulo. Em inglês, melhor ainda.

Na semana em que o país deve pegar fogo mais uma vez, é oportuno pensar que por mais de 20 mil quilômetros, a maior iniciativa de comunicação do esporte começa a ganhar vida. Em meio a um momento chave para o país, espera-se que cerca de metade da população brasileira tenha oportunidade de ver a Chama diante dos seus olhos. Uma oportunidade incrível para todos que acreditam nestes valores de passar a sua mensagem.

Hoje, toda e qualquer associação gera novos sentidos, entendimentos. Caminhamos a passos largos para a auto-suficiência de interpretação. Cada pessoa atribui seus valores ao que recebe como mensagem, seja em um anúncio, seja em um blog ou seja em uma atitude. As fontes são tão fartas que a escolha de onde captar a informação é de interesse responsabilidade única e exclusivamente do dono do controle. Um consumidor que faz qualquer informação passar pelo seu filtro de valores. Sejam eles quais forem.

Se não há uma clareza do conceito de sucesso neste momento, uma coisa é verdade dentre esta geração: a era da ignorância não existe mais.

Como um jornalista (bem meia boca) que descambou para o lado do marketing, sempre acreditei no conteúdo como ferramenta fundamental da comunicação. Com a chegada de tantas ferramentas de produção de conteúdo, iniciou-se um movimento valorização do “o quê”, a forma sempre embalada de muita criatividade, de estéticas apaixonantes e, óbvio, de muito investimento. Content marketing, storytelling, crowdsourscing. Como bons publicitários, o rótulo passa a ser ainda mais relevante que o conteúdo em si.

Assim, rapidamente o conteúdo perdeu conteúdo. Deixou de ter significado.

Dizer por dizer não diz mais nada. Estar por estar, não muda absolutamente nada. É preciso ser. É preciso manifestar, se posicionar. E deixar claro o seu papel para a sociedade que desejamos construir.

Autenticidade. Honestidade. Verdade. Vivemos uma era em que mais do que o que falamos, o que importa é o que fazemos.

As associações que buscamos dizem muito sobre o que queremos ser. Neste “ser ou não ser” que as relações comerciais pouco veradeiras perdem a valor para os consumidores, que antes de consumirem qualquer coisa, são indivíduos com seus próprios valores. Que fique claro, no universo do marketing esportivo, consumidores são os fãs de esporte.

Temos uma geração inteira que deseja “prender todos eles”. Que não se alinha com discursos pré-estabelecidos. Que deseja mudança, para suas vidas, para seu país e para a sua sociedade, simplesmente por não se contentar com o que está posto.

É histórico vermos não só o povo (independente do seu lado) nas ruas, como ver marcas como Coca-Cola, McDonald’s pedirem publicamente a limpeza de uma Fifa. Era inimaginável ver a CBF perder quatro patrocinadores em questão de meses ou escândalos de doping serem deflagrados em grande escala. Como diz esta geração, #significa.

Vivemos uma espécie de momento “carpe diem”, em que o sucesso se mede diariamente, baseado em respostas verdadeiras diante de cada dilema que somos colocados. A felicidade não chegará em 30 anos após uma carreira de sucesso, ela é feita de atitudes, nossas, dos nossos e daqueles que admiramos ou compramos. Precisamos de provas diárias de que estamos vivendo uma realidade (felicidade?) autêntica.

Com o maior revezamento da Tocha Olímpica prestes a ser realizado, temos a oportunidade de vislumbrar na Chama que ela conduz os valores tão simples e verdadeiros que deveriam reger não apenas o tal Espírito Olímpico, mas também toda a relação dos que se envolvem com ele. E resgatar o significado primordial de competir, chegando cada vez mais alto, mais forte e mais rápido, mas também mais verdadeiro.

E qual o significado que você deseja para a “sua” marca. O que você quer ser neste novo mundo que nascerá depois de toda esta tempestade?

*Rodrigo Ferreira, jornalista, publicitário e Geraldino acima de tudo.
https://br.linkedin.com/in/ferreirarodrigo


Capez levou merenda para a manifestação?
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Juca Kfouri

Na nota “O gavião e o tucano da merenda”, que você vê AQUI , foi publicado um vídeo que mostra um entusiasmado presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado Fernando Capez, dançando e cantando contra a corrupção.

Estranhamente, porém, de repente, o vídeo desapareceu do blog, com um aviso “Retirado pelo usuário”.

Explica-se: o vídeo havia sido postado no Youtube, claramente como propaganda da honestidade do personagem, e quem o publicou pôde retirá-lo.

Para azar de quem o tirou de lá e do blog, porém, o vídeo havia sido devidamente salvo em outro endereço.

E já voltou à nota original.

Aqui é reapresentado em repeteco apenas como uma homenagem que só este blog é capaz de fazer, à virtude do parlamentar, com apenas uma pergunta: terá ele levado merenda à manifestação?