Blog do Juca Kfouri

Arquivo : novembro 2017

Ora, bolas!
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Não sei se comi bola, mas fiquei em dúvida se ela estava me dando bola de fato. Não estou com essa bola toda, pensei. Mas talvez eu tenha pisado na bola com ela – por isso dizem que não estou bom da bola.

Mas, também, ela era bola presa, só dava bola preta, nunca baixava a bola. Às vezes um cara começava a se achar a bola da vez, tocava a bola, aquilo virava uma bola de neve e quando via era bola dividida: tomava uma bola nas costas e ficava um tempão dando tratos à bola.

Eu, que sempre fui meio bola murcha e não tenho bola de cristal, não ia me arriscar a jogar sem bola. Mas ela estava com fome de bola e achava que eu jogava um bolão – só que eu troquei as bolas, achei que aquilo era bola de sabão e acabei lhe passando uma bola quadrada. Ela, então, antes de entrar sem bola, viu que estava pela bola sete e saiu do jogo levando a bola.

Mas bola pra frente: o mundo é uma bola e a bola que vai sempre volta. Aí vai ser show de bola: nada de bate-bola, nada de bola fora. Se a bola quicar na área, vai ser bola na rede, golaço.

E eu, então, com a bola cheia, vou correr pro abraço.
______________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)


Como Zetti, Guerrero pode ser vítima de enorme erro
Comentários Comente

Juca Kfouri

O toxicologista Otávio Brasil informa que a substância encontrada na urina do jogador Guerrero é achada, também, além de na cocaína, em centenas de plantas da família das eritroxiláceas.


Otávio Brasil, hoje aposentado da Polícia Federal, em Brasília, trabalhou no caso do goleiro Zetti, da Seleção Brasileira, quando, em ida para a Bolívia nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1994, ele tomou chá de coca, coisa habitual para diminuir os efeitos da altitude de La Paz.


À época, o médico Eduardo de Rose afirmou que para que se encontrasse a substância benzoilecgonina na urina do goleiro seria necessário que ele tivesse tomado “um balde de chá de coca”.

O Doutor Brasil provou que não ao fazer o atleta tomar uma pequena quantidade do chá diante de três especialistas e submeter o material ao exame ultra-sensível usado em tais ocasiões.

E Zetti foi devidamente absolvido.


Pode ser exatamente este o caso de Guerrero, segundo disse ao blog o toxicologista e,  se for, como com Zetti, estaremos diante de mais uma irresponsabilidade dos exames antidopagem.


Vitórias
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

1.
Novinho, tinha lido na Placar a história do Julinho Botelho, que, vaiado por cerca de 120 mil torcedores no Maracanã em 1959, acabou, em função de sua atuação, aplaudido de forma consagradora pela torcida. Emocionou-se e nunca mais esqueceu.

Agora, ali, estreando no time, na ponta-direita, ele jogava muito mal, não acertava uma. Afundava-se sob vaias, xingamentos, bagaços de laranja, copos d’água e cusparadas. E seguia errando passes, tropeçando na bola, sendo desarmado.

Até que bateu um escanteio direto para trás do gol. O barulho de protestos foi humilhante. Chegaram a atirar uma pilha perto da sua cabeça.

Ele fechou os olhos, tapou os ouvidos e pensou no Julinho.

Acreditava na redenção, na jogada espetacular que calasse a torcida e mostrasse o seu talento. Imaginava todos de pé o aplaudindo em delírio; de banho tomado nos ombros dos torcedores; na praça à noite ganhando olhares, abraços e cervejas.

Mas não. Errou ainda mais e foi ainda mais vaiado e xingado. O técnico acabou tirando-o antes do intervalo, por merecimento e dó.

Não foi à praça à noite. Ficou no quarto relendo a revista velha que guardara por tantos anos. E teve dúvidas se o que buscara desde então eram as vaias ou os aplausos.

2.
Na de 94 ele foi e não voltou mais. Ela se lembra: “Filha, não suporto a decisão por pênaltis, você sabe”. Pegou o carro, como em 86, pra ir para a área rural, longe de rádios e fogos.

Na Copa do México ele assistiu ao Zico perder o pênalti em pé, com a cerveja na mão, pronto pra explodir. Empalideceu e emudeceu com a defesa de Bats. Na prorrogação ficou alucinado com as chances para os dois lados. E não suportou assistir à decisão por pênaltis.

Mas voltou. Triste porque na volta vira a derrota muda nas ruas.

Ela só não entende isso: por que ele voltou quando o Brasil perdeu e por que ele foi embora na conquista do tetra.

Não tiveram mais notícias dele. Nem no Google ou nas redes sociais acham nada. Ela e a mãe, agora velha, fingem que não pensam nisso.

Mas é o que ela mais pensa. O que mais a atordoa. E que a deixa assim, sem saber diferenciar, na própria vida, quando é que está ganhando e quando é que está perdendo.

3.
Eu sei, doutor. Estou aqui, falando com o senhor. Mas eu já morri há algum tempo. Eu sei, eu sei. Me mandaram aqui pra ver se eu tiro essa ideia da cabeça. Dizem que é loucura, que ninguém morre e segue andando, falando, comendo. Mas é porque eles não sabem de nada, doutor. Já morri há uns três anos.

Fico aí, pra lá e pra cá, mas nem vejo meu corpo, meu rosto, não sinto nada, nem consigo me tocar. Nem tenho memória de nada que aconteceu desde a minha morte.

Foi no gol do Oscar, doutor. No final do jogo. Aos 44! Já estava 7 X 0. Cada gol deles tinha me ferido um pouco, me rasgado. Mas me dava uma raiva, um batimento, um calor cada vez maior. Eu estava irado, me sentia capaz de sair me vingando, batendo, estourando tudo. Vermelho, suado, nervoso, eu vi que o que estava acontecendo é o que eu precisava pra mudar minha vida, derrubar governos, devastar florestas, cruzar os mares, enforcar leões, conquistar riquezas, impor meu poder em vastos territórios, só faltava o clímax, o apito final, aquilo ia ser uma revolução, eu via todo mundo invadindo o campo, o país, os continentes sob meu comando, as veias pulavam, meus olhos saíam, eu ia gritar e pôr fogo em tudo.

Mas veio o Oscar e fez o gol, doutor. Um golzinho de merda quando estava 7 X 0! Não sei explicar, mas ali meu sangue sumiu, minha alma murchou, tudo apagou, vi uns carinhas no estádio ainda vibrando com o gol, doutor, vibrando!, eu me sentei, frouxo, mocho, roxo, sem ver mais nada, sem sentir nada, sem pensar em nada, perdi o ímpeto, a vontade, sumiram impérios, caçadas, riquezas, vitórias, raivas, ambições, vinganças, perdi tudo ali, doutor, tudo o que eu estava prestes a buscar e conquistar, sumiu, derreteu, vazou, desinflou, acabou, morreu.

Foi ali, doutor, foi ali que eu morri. Aquele golzinho do Oscar arruinou tudo.

Uma pena, doutor, uma pena.
_________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)


Flamengo segura vitória sobre o Fluminense
Comentários Comente

Juca Kfouri

Depois de um primeiro tempo fraco, em que o Flamengo saiu na frente, aos 27, com gol de Everton depois de jogada de Everton Ribeiro e chute de William Arão, com rebote de Diego Cavalieri, o Fluminense jogou melhor no segundo, mandou até bola na trave, mas saiu derrotado, como mandante, do Maracanã,com 31 mil torcedores.


O Flamengo joga pelo empate para ser semifinalista da Copa Sul-Americana.


W.O.
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Amontoados na Kombi velha iam titulares, reservas, isopores, bolas, motorista/treinador/dono do time e da Kombi, sacolas e pá, corda, balde e outras tralhas.

Tinha empurra-empurra, reclamações e zoeira com os esbarrões e as posições inconvenientes, gritaria na janela quando passavam por moças no caminho, rádio ligado, bateção no teto e no lado de fora da lataria e sacolejos enormes na estrada de terra esburacada.

Valia a pena. Jogo em fazenda grande, com campo gramado e rede. E sempre rolava um bicho – pouca coisa, mas dava pra juntar uns trocos jogando nas redondezas. O histórico de vitórias era bom.

O mais velho contava, pra inveja dos mais novos, que tinha até comprado um Vaporetto (“dos grandes, com rodinha”) pra mãe só com os bichos. Outro mostrou o tênis – de segunda mão, mas novo. O goleiro exibiu o Ray-Ban (“legítimo, legítimo”).

E nesse jogo o bicho seria dobrado, porque o anfitrião convidara.

Só que a Kombi quebrou. Falhou um pouco, tossiu, rosnou, atirou, emudeceu, bufou – e parou. Nenhum sinal na chave. Uma fumacinha na tampa do motor. Desceram todos, palpitaram, cutucaram, mexeram nuns cabos e tentaram empurrar. Nem soluço.

Começou a irritação, o pessoal reclamando com o dono, bate-bocas, empurrões, deixa-dissos, até que alguns decidiram que deveriam ir a pé.

“A pé?” “Estão loucos?” “A pé, sim.” “Mas são dez quilômetros ainda!” “Bora a pé!” “Vai ter jogo e vai ter bicho!”

Só o dono ficou. Coçando a cabeça, olhando o motor, torcendo pra passar alguém ali no ermo.

Tardinha. Noite. Madrugada. Ninguém voltou.

Ele dormiu dentro do carro e acordou com o sol no rosto. Nem sinal do time. Nem de ninguém. Virou-se com a água de um isopor e as goiabas do entorno.

Quase meio-dia e passou um senhor na bicicleta. Podia ajudar, tinha um sobrinho mecânico.

Só no fim da tarde vieram os dois. O rapaz deu um jeito e o motor funcionou.

O dono foi até a fazenda onde seria o jogo.

Não tinha aparecido ninguém lá. O time da casa ficara esperando um tempão e desistira.

Voltou com a Kombi gaguejando até em casa. Procurou os jogadores nos sítios e roças e não achou ninguém. Nem notícia.

Depois de uns dias sem qualquer sinal, fizeram um velório simbólico coletivo.

Até que um dia um dos mais novos voltou. Pra roda assustada contou que na caminhada pra fazenda encontraram um caminhão cujo dono, vendo-os uniformizados, resolveu levá-los pra cidade dele, na lona, longe, depois da divisa do estado. E lá jogaram e lá ficaram. Mais ainda, o caminhão começou a excursionar com eles, pagar bichos, arrumar roupa, pensão, comida, ganharam as estradas, depois alguns se dispersaram, ele seguiu jogando com os demais.

“E por que voltou?”

Abriu a sacola, pegou os óculos escuros, o par de tênis e o Vaporetto, que entregou, emocionado, à mãe. Tudo comprado com os bichos das excursões.

“Já conquistei o que queria.”

E por lá ficou, no trabalho da roça, enquanto o tempo fazia morrerem a mãe, dois dos seis irmãos, muitos conhecidos – e ele mesmo, num dia de chuva, numa foiçada de um vizinho.

_____________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)


Derrotas
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Nós aprendemos/Palavras duras/Como dizer ‘perdi, perdi’.”
(“Tantas palavras”, Chico Buarque)

1.
Tem que misturar pra dar jogo. Uns, já maiores, quase homens; outros, pequenos, correndo sem parar pra todo lado; e os mais do que crianças e menos do que adolescentes.

Muitos pra cada lado. Pátio de terra pequeno, bola velha, gritaria, suor, o sol na cobertura de zinco da casa vizinha explode nos rostos, o cachorro se mete no jogo latindo atrás da bola, o bueiro com lodo no canto da grade de ferro, a caixa de areia na frente do portão do fundo, canelas finas, peitorais, dentes falhos, solas rachadas, carecas de piolho, cicatrizes, catarro pendurado, cascudos, palavrões, choros, risadas, o gol no portão faz o som do trovão, o na grade, o do tarol, só acaba quando as cuidadoras chamam pro banho, pra sopa rala, pro quarto, pra dormir.

Todo dia chega ao menos mais um, magro, sujo, umbigo pontudo, cabelo de arame, entra direto no jogo, é só escolher o lado. E raramente sai um, pequeno, que alguma família leva – só que uns voltam rapidinho. Alguns maiores fogem, mas também quase sempre retornam.

As cuidadoras põem garrafões de água numa bancada perto. Sentam-se nas escadas. O jardineiro se apoia no ancinho – e já teve até que entrar no gol. Pardais tentam encher a castanheira perto do galpão mas revoam com as boladas.

Famílias interessadas às vezes assistem da janela do diretor, batem palmas, quem sabe isso as ajude a escolher.

Sol e zinco.

Poeira.

Barulho dos pés na terra e dos trancos dos ossos.

E às vezes a narração esganiçada do autor de um gol: “Neymar!, Neymar!, Neymar!”.

As cuidadoras não desgrudam do relógio, marcando a hora de chamá-los.

2.
O “perdi” do título do livro do Juca se aplica às derrotas dele e de todos nós para os perpetuadores da exclusão e da miséria, os reacionários, os corruptos, os hipócritas e todos os que solapam a justiça social e a civilização no Brasil – e contra os quais ele tem sido um infatigável lutador.

Daí que leio o título como “Confesso que perdi – mas foi roubado”.
__________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)


Mais uma sentença exemplar
Comentários Comente

Juca Kfouri

(…) o que se observa nestes autos, lamentavelmente, é a utilização indevida do Poder Judiciário para satisfazer sentimentos particulares.”

“Com efeito, o autor popular (Milton Neves) ajuizou a presente ação mesmo sabedor da retratação feita pelo Sr. Castiglieri (fls. 39), diga-se, aliás, das retratações feitas por ele, e sem apresentar uma única prova dos fatos articulados na inicial.”

“Assim, em conduta que beira a má-fé, preferiu recorrer às vias judiciais baseado em relato recalcitrante envolvendo seu desafeto público, o jornalista Juca Kfouri, sem se preocupar em averiguar a existência de fundamento nas denúncias que lhe foram feitas pelo Sr. Castiglieri ou, em outras palavras, a despeito das evidências revelarem que não havia fundamento algum, porquanto saltava aos olhos que agia motivado por sentimento pessoal de vingança, em razão de sua demissão, o que se denota claramente da leitura de suas mensagens.”

 

Leia a sentença inteira. Vale a pena:

 

“A ação é improcedente”

“Com efeito, a prova oral veio aos autos com a função de corroborar os argumentos lançados na sentença anulada, extirpando qualquer dúvida acaso ainda remanescente quanto a mais absoluta falta de fundamento da denúncia trazida pelo autor popular, conforme discorrerá a seguir”

“Extrai-se da inicial que todo o enredo teve início com denúncias de um ex-funcionário da EMTU, Marco Antônio Castiglieri, formuladas ao autor popular, no sentido de que, a pedido do jornalista Juca Kfouri, teria sido formalizada a contratação do corréu Conrado Giacomini para ocupar cargo de confiança na empresa referida, sendo que, na verdade, o objetivo era que esta pessoa não trabalhasse efetivamente para a empresa, e sim escrevesse um livro sobre o São Paulo Futebol Clube”

Teria havido, assim, contratação com desvio de finalidade, e evidente prejuízo ao erário, porquanto ele recebera seus salários para objetivo diverso do cargo ocupado, e que sequer condizia com a finalidade da empresa, já que relacionado ao futebol, mais especificamente ao São Paulo Futebol Clube e ao jornalista Juca Kfouri”

“Não obstante, não havia, desde o princípio – e a dilação probatória tampouco foi capaz de produzir – uma única prova nos autos que corroborasse tal assertiva, com exceção de correspondências eletrônicas trocadas entre o autor da referida denúncia, Marco Antônio Castglieri e o autor popular (Milton Neves)”

“Porém, estas denúncias, absolutamente desprovidas de qualquer comprovação, são absolutamente insuficientes ao fim a que se destinam, notadamente ante a mais absoluta falta de credibilidade do seu autor, o Sr. Marco Antônio Castiglieri, que altera a versão dos fatos constantemente, ao sabor do seu humor”

“Oportuno registrar que, antes mesmo da propositura desta Ação popular, o Sr. Marco Antônio Castiglieri já havia se retratado das acusações feitas, em emails trocados com o jornalista Juca Kfouri”

“Em sei de maio, por exemplo, ele escreveu para o aludido jornalista “… a besteira que fiz foi movida por um sentimento profundo de indignação pelo que fizeram comigo, …”, e mais adiante, continua “… me equivoquei, errei, fui estúpido, fiz ilações sem provas (aliás cito isto também no email ao Milton Neves) o que disse não tem valor jurídico nenhum. Envolvi o nome de pessoas de forma indevida. Portanto peço novamente mil desculpas. Se quiser faço uma retratação pública afirmando isto, tanto a você como as demais pessoas que citei”

“Em outro trecho relevante, Castiglieri finaliza “te agradeço imensamente caso puder compreender minha besteira e me perdoar”

“O sentimento de indignação a que se refere o autor da denúncia é a demissão dele, algum tempo antes, da referida EMTU, que, segundi ele, teria motivações políticas”

“Em todas as manifestações de Castiglieri se observa que o mote das acusações é de fato a demissão, que lhe trouxe revolta e inconformismo. Ele próprio informa em uma passagem que não teve mais paz desde o referido dia, e ainda relata o desespero sentido quando seu filho de seis anos lhe cobrou o motivo pelo qual ele não conseguiu um novo emprego”

“Denotava-se, desde o princípio, que o Sr. Castigliari estava bastante perturbado com a sua demissão e se utilizou destas denúncias de forma vingativa, tendo procurado o autor popular provavelmente em razão da desavença pública e notória existente entre o Sr. Milton Neves e o jornalista Juca Kfouri”

“Contudo, longe de ser a última versão acerca dos fatos, o Sr. Marco Antônio Castiglieri trouxe nova narrativa apenas dois dias depois, oito de maio, oportunidade em que enviou outra mensagem ao jornalista Juca Kfouri, na qual informou que não se retrataria de nada, que o email enviado no dia seis de maio fora escrito sob abalado estado emocional, eis que ele se encontrava com um parente hospitalizado. Ele ainda se dizia perseguido e ameaçado por Juca Kfouri e informava que registraria uma ocorrência policial”

“Entretanto, surpreendentemente, em Juízo, ele voltou atrás mais uma vez e não confirmou as denúncias contidas na inicial”

“Com efeito, visivelmente nervoso, e apresentando justificativas incompletas e, muitas vezes, incompreensíveis, comportamento típico de quem é colhido em contradição e esgotou seus argumentos, o Sr. Marcos Antônio Castiglieri não confirmou o teor das mensagens eletrônicas nas quais se baseou o requerente para ajuizar a presente Ação Popular”

“Esta juiza lhe indagou especificamente se poderia confirmar aquelas mensagens, no sentido de que o Sr. Conrado Giacomini fora contratado com desvio de finalidade, ou seja, não para trabalhar, mas sim para escrever um livro sobre o São Paulo Futebol Clube, ou ainda para “alimentar” o “blog” do jornalista Juca Kfouri, tendo ele respondido, textualmente, por mais de uma vez, que não podia fazer tal assertiva, pois Conrado fora contratado para trabalhar e, paralelamente, escrevia o livro e comentava no “blog” do referido jornalista”

“A negativa exsurge de forma mais evidente aos 12m18s da gravação do seu depoimento”

“Em outra passagem, ele afirma que nunca viu o Sr. Conrado escrever o livro do São Paulo, já que ele trabalhava em outra sala (21m54s), e que, em verdade, as denúncias foram baseadas no fato do próprio Sr. Conrado ter lhe comentado, certa vez, que fora contratado pelo Sr. João Paulo, porque conhecia o Sr. Juca Kfouri, e que estava escrevendo um outro livro sobre o São Paulo Futebol Clube”

“Com relação aos escritos no “blog” de Juca Kfouri, Marco Antônio Castiglieri informou que fez um levantamento por sua própria cinta no referido sítio eletrônico, e atestou que Conrado escrevia nele diariamente, em horários nos quais deveria estar trabalhando”

“Oportuno registrar que, a despeito de lido em audiência por esta magistrada parte do conteúdo dos e-mails subscritos pelo próprio Marco Antonio Castiglieri e enviados ao autor da ação, nos quais ele acusa diretamente o Sr. Conrado de ter sido contratado para escrever o livro do São Paulo e não trabalhar, chamando os vencimentos por ele percebidos de “patrocínio” à custa do erário público, o Sr. Marco Antonio Castiglieri continuou negando ter feito tais afirmações.”

“Tem-se, pois, que ele nega o que escreveu, mas não nega a autoria das mensagens. Assim, a despeito de algum empenho do advogado que representa o autor popular, o depoimento do Sr. Marco Antonio Castiglieri, especialmente a partir de 17min35seg, revela claramente que ele, uma vez mais, mudou sua versão acerca dos fatos, tendo deixado de confirmar em Juízo as acusações feitas pelo autor popular aos réus desta ação.”

“Conclui-se, pois, que as palavras de Castiglieri são imprestáveis, porque despidas de um mínimo de credibilidade, pelas constantes alterações da versão dos fatos. Insta salientar, outrossim, que a Corregedoria Geral da Administração instaurou procedimento administrativo para apurar as circunstâncias da contratação do corréu Conrado pela EMTU, bem como de suas atividades na empresa, e que o Sr. Castiglieri sequer compareceu para prestar declarações (fls. 322), demonstrando, mais uma vez, que suas denúncias não têm sustentação.”

“No mais, observa-se que no procedimento administrativo instaurado pela Corregedoria Geral da Administração foram ouvidos alguns colegas de trabalho do corréu Conrado, sendo que todos eles afirmaram que se tratava de funcionário assíduo, e que não tinha previlégios, como veículo oficial, por exemplo. Dividia a sala com outros funcionários e exercia normalmente suas funções. O registro de freqüência de Conrado igualmente não aponta ausências significativas (fls. 320/326).”

“Em Juízo também foi ouvida a Procuradora do Município aposentada, Sra. Diva Straciarini, que trabalhou na EMTU juntamente com Conrado Giacomini. Ela informou que trabalhava em São Paulo, e ele em Campinas, sendo que, na época, o serviço na referida empresa avolumou-se em razão do surgimento dos “perueiros”, e havia necessidade de que uma pessoa qualificada, com conhecimentos jurídicos, avaliasse a documentação por eles apresentada, sendo que esta era a função do Sr. Conrado.”

“Ele se dirigia a São Paulo cerca de uma vez por semana, mais ou menos, conforme a necessidade, para discutir questões afetas a sua função, realizava o seu trabalho a contento, era empenhado, e não havia reclamações contra ele.”

“Ela ainda contou que ele trabalhou ali apenas durante alguns meses, e acredita que ele tenha deixado a empresa em razão do fim daquela demanda extra de serviço, razão pela qual também nenhuma outra pessoa foi contratada para substituí-lo.”

“Destaque-se, outrossim, que o corréu Conrado Giacomini havia lançado um livro sobre o São Paulo Futebol Clube em 2005, ou seja, dois anos antes da contratação ora em exame, não havendo notícias de que outro tenha sido lançado por ele depois de trabalhar na EMTU.”

“É certo que há provas nos autos no sentido de que Conrado enviava comentários para “blogs” esportivos, especialmente do jornalista Juca Kfouri, durante o horário de expediente, o que foi inclusive admitido pelo por ele próprio em sua oitiva feita pela Corregedoria. Não obstante, esta conduta isolada poderia até mesmo ter ensejado alguma espécie de punição administrativa por falta funcional, mas definitivamente não tem o condão de comprovar que a sua contratação se deu por interesses outros, com desvio de finalidade.”

“Ouvido como testemunha, o jornalista Juca Kfouri informou que o seu “blog” permite comentários de qualquer pessoa, de forma que se Conrado ali escreveu diariamente, ele assim o fez espontaneamente, como qualquer outra pessoa que visita o “blog”, sem que tenha havido qualquer contratação ou pedido por parte dele.”

“Já o requerido José Luiz Portella Pereira, que ocupava o cargo de Secretário de Transportes à época dos fatos, não possuía qualquer ingerência formal sobre a contratação de funcionários pela EMTU, que é uma sociedade anônima de economia mista, e embora seja controlada pelo Governo do Estado, se constitui em pessoa jurídica de direito privado, com administração e patrimônio próprios, absolutamente independente da administração pública direta.”

“E, à evidência, não se encontra no âmbito das atribuições do Secretário de Transporte, fiscalizar as contratações de pessoal das empresas que lhe prestam serviços. Cabia, pois, ao autor popular, apresentar ao menos algum indício de que o corréu José Luiz Portella Pereira tivesse, de alguma forma, concorrido para a aludida contratação, o que não ocorreu, pois como já exposto, as denúncias feitas pelo Sr. Castiglieri não foram corroboradas por ele próprio, nem por qualquer outro indício existente nos autos.”

“É dos autos, porque confirmado pelo Sr. Juca Kfouri, que o presidente da EMTU à época, Sr. Mansur, em conversa com ele, perguntou-lhe se conhecia alguém com formação em Direito para ocupar um cargo em confiança na empresa referida, tendo o jornalista indicado o corréu Conrado, a quem também conhecia. Nada há de ilegal, contudo, nesta simples indicação, fato absolutamente natural, pois é evidente que ninguém contrataria um desconhecido para ocupar um cargo em comissão.”

“Por fim, as qualificações do corréu Conrado para ocupar o cargo em testilha têm pouquíssima ou nenhuma relevância no caso, pois se tratava de cargo em comissão, ou seja, de livre provimento, e ainda que se concluísse não se tratar da pessoa mais adequada para a função, esta circunstância novamente seria insuficiente para provar o alegado desvio de finalidade.”

“Não obstante, a prova oral acabou por confirmar exatamente o oposto do que pretendia o autor da ação, ou seja, que ele era devidamente qualificado para a análise da documentação dos chamados “perueiros” que desejavam prestar serviços à EMTU, porquanto a função demandava pessoa com conhecimentos jurídicos, ou seja, formada em Direito, como era o caso do Sr. Conrado.”

“Restou igualmente rechaçada a assertiva do Sr. Marco Antonio Castiglieri, neste aspecto, ao afirmar em Juízo que o cargo ocupado pelo Sr. Conrado, a saber, Especialista I, era privativo de advogado.”

“O Sr. Castiglieri chegou a mencionar, inclusive, episódio no qual o Sr. Conrado não estaria adequadamente trajado para representar a empresa em uma audiência, e nos e-mails afirmou que ele nunca se dispunha a representar a empresa na condição de advogado, porque estava sempre ocupado escrevendo o livro do São Paulo Futebol Clube.”

“Não obstante, as alegações são absolutamente inverídicas, porquanto a testemunha Diva informou que o cargo referido não era privativo de advogado, fato que foi confirmado pela própria EMTU no ofício de fls. 1382, oportunidade em que ela esclareceu, inclusive, que tampouco demandava registro na OAB.”

“E o Sr. Conrado não possuía o registro referido, razão pela qual não poderia advogar, razão pela qual as assertivas referidas são absolutamente sem sentido.”

“Considerando que o Sr. Marco Antonio Castiglieri chegou a ser indagado em audiência se conhecia a diferença entre bacharel em direito e advogado, a qual lhe foi ainda devidamente explicada naquela oportunidade, e que continuou a afirmar que tinha conhecimento pessoal de que o cargo referido era privativo de advogado, exsurgem evidências da prática de crime de falso testemunho.”

“Enfim, não há um único indício de ilegalidade na contratação examinada, já que sequer as inúmeras versões dos fatos trazidas pelo Sr. Castiglieri sequer podem ser consideradas como tal.

“Como já consignado na sentença anulada, o que se observa nestes autos, lamentavelmente, é a utilização indevida do Poder Judiciário para satisfazer sentimentos particulares.”

“Com efeito, o autor popular ajuizou a presente ação mesmo sabedor da retratação feita pelo Sr. Castiglieri (fls. 39), diga-se, aliás, das retratações feitas por ele, e sem apresentar uma única prova dos fatos articulados na inicial.”

“Assim, em conduta que beira a má-fé, preferiu recorrer às vias judiciais baseado em relato recalcitrante envolvendo seu desafeto público, o jornalista Juca Kfouri, sem se preocupar em averiguar a existência de fundamento nas denúncias que lhe foram feitas pelo Sr. Castiglieri ou, em outras palavras, a despeito das evidências revelarem que não havia fundamento algum, porquanto saltava aos olhos que agia motivado por sentimento pessoal de vingança, em razão de sua demissão, o que se denota claramente da leitura de suas mensagens.”

“Tem-se, pois, que a improcedência é medida de rigor.”

Posto isto, JULGO IMPROCEDENTE o pedido e, conseqüentemente, EXTINTO O PROCESSO COM JULGAMENTO DO MÉRITO, nos termos do artigo 487, inciso I, do Código de Processo Civil.
Sucumbente(s), arcará(ão) o(a/s) vencido(a/s) com o pagamento de custas e despesas processuais, bem como honorários advocatícios da parte adversa.”

“E, com relação a estes, aplico o artigo 85, § 8º, do NCPC, eis que a aplicação pura e simples do artigo 85, § 3º, do NCPC, culminaria com a fixação de valor absolutamente irrisório, considerando o baixo valor atribuído à causa.”

“E, assim, reputo condizente e adequado fixar os honorários, no caso, em R$ 20.000,00, devidamente atualizados, quantia que bem se presta a remunerar o trabalho realizado pelo procurador da parte vencedora.”

“Extraiam-se cópias integrais do feito e remetam se ao Ministério Público para apuração de eventual prática de crime de falso testemunho.”

P.R.I.
São Paulo, 28 de setembro de 2017.

Carmen Cristina F. Teijeiro e Oliveira
Juíza de Direito


Time do peito
Comentários Comente

Juca Kfouri

*POR LUIZ GUILHERME PIVA

O pessoal queria matar o gandula. O time local, depois de várias derrotas, estava ganhando justamente o jogo que poderia manter sua chance de não ser eliminado.

Pendurados no alambrado, trinta do segundo tempo, um a zero, os torcedores gritavam pra segurar o jogo, pra cair, pra demorar no tiro de meta, pra chutar pra longe. Por duas vezes a bola caiu na torcida e não voltou enquanto dois cabos não foram lá pressionar.

E o gandula faz aquilo? Na primeira vez passou, na segunda o xingaram, mas na terceira queriam pular o alambrado e pegá-lo. Ele era um corisco: mal a bola saía, ele a pegava e entregava ao cobrador, tanto local quanto adversário. Tiveram que segurar um que ameaçou enfiar o pau da bandeira pelo arame para atingi-lo. O gordão que tocava o surdo quis lançar o instrumento lá do alto na cabeça do moleque. Se não fossem os dois cabos, nem sei.

Deu certo. O gandula parou de ir na bola e, de medo, acabou sumindo. A bola saía e os jogadores do outro time é que tinham que buscá-la.

Mas aí foi o médico. Com as quedas sucessivas dos jogadores pra ganhar tempo, ele começou a ser acionado. E não é que ele entrava correndo, jogava a aguinha, o spray, dava um tapinha no jogador e fazia tinindo pro juiz pra recomeçar?

Quase quarenta e o doutor já tinha entrado, nesse ritmo, umas cinco vezes. A fúria da torcida se voltou contra ele. Mas xingá-lo era um problema: cidade pequena, todos o conheciam e respeitavam, atendia nas comunidades carentes, às vezes não cobrava consulta, ajudava o time de graça – enfim, não dava.

O gordão do surdo mordia a baqueta, outros puxavam o cabelo, enroscavam a camisa, afundavam a cabeça nos joelhos e se desesperavam a cada corrida do médico pra dentro de campo.

Quarenta e três. O adversário no ataque. Pressão. Bola na trave, confusão na área, bate-rebate, escanteio. O goleiro finge a contusão e cai. Era hora de segurar de vez. Parar o jogo. Esfriar até acabar.

Mas eis que o doutor se levanta e começa a partir rápido pra atendê-lo.

O do surdo não aguentou. Gritou: “Ai! Tô morrendo!”. Vermelho, a veia do pescoço saltada, os olhos saindo, a língua roxa, as mãos no peito. O surdo caiu-lhe das mãos e rolou os degraus e ele desabou babando.

O impacto do grito e da cena paralisou todo mundo. O silêncio chamou atenção. Abriu-se uma clareira onde o corpo dele jazia arfante.

O médico se virou, viu e ordenou: “Não mexam nele! Abram o portão!”.

Não tinha portão naquele ponto – rasgaram o alambrado e o enrolaram com força. O médico passou com a maleta, subiu os degraus e parou diante do corpo, que respirava com dificuldade, as mãos bambas, o olhar ermo. O médico fez massagem torácica, mediu o pulso fraco, jogou água no rosto, desabotoou a camisa, puxou as pálpebras, pôs o palito na língua – e ficou preocupado. Chamou os dois cabos e a maca, reuniu mais uns oito para aguentar o peso e iniciou, com cuidado, a remoção.

Atravessaram devagar, com muita dificuldade, a distância até o portão, todos abrindo espaço e acompanhando apreensivos.

Perto da saída o corpo sacudiu forte, estrebuchou e caiu da maca. Foi um desespero: sustos, gritos, correria. De novo o doutor o examinou detidamente, verificou se havia fratura e comandou a operação de erguê-lo até a maca e conduzi-o até a ambulância.

De dentro do pequeno estádio ouviram-se a sirene, a aceleração e os pneus arrancando.

Tudo levou meia hora ou mais. O goleiro seguia caído. Já escurecia. A torcida urrava pelo fim do jogo. E o juiz a atendeu, para ira dos adversários. Acabou. Vitória local, euforia na arquibancada, foguetes, invasão de campo, esperança renovada para as próximas partidas.

Na ambulância, médico e paciente na parte de trás, em silêncio. Até que o torcedor se levantou, sentou-se na maca, segurou as mãos do médico e disse: “Obrigado, doutor! Eu estou ótimo. Não tive nada, não. Agora, por favor, me escute: o senhor nunca mais, entendeu?, nunca mais, pelo amor de Deus, tente atrapalhar o nosso time!”.

_________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)


O Futebol e o Estado: a vez do STF
Comentários Comente

Juca Kfouri

Por RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO

O Estado brasileiro possui um histórico de leniência em relação ao futebol: nunca se exigiu que os clubes andassem com as próprias pernas.

 
Isenções tributárias, parcelamentos de débitos fiscais, baixa fiscalização do cumprimento das obrigações legais e injeção de capital por meio de patrocínios – apenas em 2017 foram R$ 153,3 milhões destinados pela Caixa Econômica Federal – são exemplos do tratamento diferenciado e privilegiado que é dispensado ao futebol no Brasil. Daí a afirmação de que o Estado subsidia a empresa futebolística.

 
Permissivo e condescendente, o Estado contribuiu para a construção de um ambiente em que os clubes e os seus dirigentes se sentem, de certa forma, protegidos pelo poder público.
Isso conduziu (i) à estagnação do desenvolvimento organizacional, caracterizado por um modelo de propriedade colonialista; (ii) à ausência de um modelo de governação adequado; e (iii) à recorrência de práticas indesejadas, como atrasos de salários, descumprimento de obrigações tributárias e falta de transparência informacional.

 
É natural que o futebol não seja equiparado, sem distinções, a qualquer outra atividade econômica. Futebol envolve paixão. Além disso, faz parte da cultura brasileira e do patrimônio nacional. Mas, há limite para o privilégio. Afinal, trata-se, também, de uma empresa econômica.

 
Aliás, mesmo quando o Estado pretende criar regras e mecanismos para, formalmente, endireitar (ou salvar) os clubes – e, consequentemente, preservar o futebol -, o faz de modo errático, com base em uma lógica punitiva.

 
O Profut é o mais recente exemplo disto: a imposição de uma série de obrigações, sem o oferecimento dos meios que os clubes precisam para se desenvolverem e, assim, cumprirem com essas mesmas obrigações, é contraproducente. Beira, até, a inocência acreditar que o mero estabelecimento de (novas) exigências mudaria as práticas internas dos clubes. O problema do futebol brasileiro é, portanto, mais profundo, e tem origem na sua anacrônica estrutura.

 
Essa proposição se confirma com o teste empírico do modelo que se tentou impor: diversos clubes não conseguem, não querem ou não se organizaram para cumprir as obrigações impostas pela lei – apesar da adesão voluntaria ao Profut – e, mais uma vez, recorrem à condescendência estatal.

 
Anteontem (18/09/2017), foram premiados com liminar, concedida pelo Supremo Tribunal Federal – STF, que suspendeu a eficácia de certas normas introduzidas pelo Profut.

 

A decisão proferida pelo Ministro Alexandre de Moraes, em Ação Direta de Inconstitucionalidade movida pelo Partido Humanista da Solidariedade (PHS) e pelo Sindicato Nacional das Associações de Futebol Profissional e suas Entidades Estaduais de Administração e Ligas, traduz bem a relação entre o Futebol e o Estado brasileiro.

 
Desta vez, a leniência emanou do judiciário; entretanto, se dela não viesse, o legislativo ou o executivo se encarregaria de livrar os clubes das consequências decorrentes do descumprimento do Profut.
Aí está a real crônica de uma morte anunciada: todo mundo sabia o desfecho da estória e já contava com o fim das punições. Faltava apenas o argumento.

 
E não se pretende, aqui, discutir o mérito dos argumentos admitidos pelo STF; mas são notícias como essa que atestam que sempre haverá uma solução Estatal para o problema estrutural do futebol.
Com isso, os clubes que não aderiram ou Profut ou que, tendo aderido, se mantiveram na linha, receberão um tratamento desigual e, de certo modo, ingrato (ou injusto). Do ponto de vista prático, são penalizados por cumprirem a lei.

 
Ao contrário do que se prega no meio, a recente decisão do STF não salva o futebol; ao contrário, o empurra ao desgoverno, à certeza de que sempre haverá uma mão visível para produzir o salvamento institucional.

 
Por tudo isso, o Estado e a sociedade precisam despertar para um problema de dimensões continentais, com reflexos sociais e econômicos realmente importantes. Está na hora de se empreender uma profunda e estruturada revisão dos modelos de propriedade e de governação da empresa futebolística. Sem esse encaminhamento, os Poderes continuarão a praticar o revezamento intervencionista que vem destruindo o maior bem do brasileiro: o futebol.


Duas canções
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

As canções “O futebol” e “Jogo de bola”, de Chico Buarque, tratam de universos muito distintos – o que os próprios títulos denunciam.


Um é o do esporte oficial, com os jogadores, o campo/estádio e os torcedores se transmutando em artistas, palco e espectadores de um espetáculo de alta nobreza. As jogadas descritas superam a própria arte em suas expressões mais clássicas. A letra narra lances que nenhum artista será jamais capaz de igualar. Nenhuma pinacoteca comporta, nenhum compositor captura, nem a geometria é capaz de conter a essência da realização dos deuses do esporte. Atinge-se tal elevação que o jogador torna o estádio em Coliseu e se alça próximo aos céus.

Outro é o da pelada, da gente comum que joga em campinhos simples para torcedores comuns. Integram esse mundo manifestações, lugares, expressões e personagens populares. Samba, botequim, pinto no lixo, guria, maria-chuteira, moleque, cachola, bicho pega, pelota. Os lances são os típicos do jogo não oficial: embaixadinha, caneta, toque. O jogador é mais do que mortal, é falho: toma dribles, perde a bola, decai.

A linguagem e a melodia de cada canção reforçam essa distinção.

Na primeira, as imagens são elaboradas, fugidias, cheias de matizes: “Para avançar na vaga geometria/O corredor/Na paralela do impossível, minha nega/No sentimento diagonal/Do homem-gol/Rasgando o chão/E costurando a linha”. Paradoxalmente, a melodia se desenrola naturalmente, assoviável, envolvente, com as notas se encaixando como as tabelas dos personagens principais, cujas trocas de passes ao final (“para Mané, para Didi, para Pelé…”), apresentadas à maneira de narradores de rádio, se desenrolam por toda a letra: para estufar, para aplicar, parafusar, parábola, paralisando. A contradição é falsa: o que se quer é mostrar que o grande espetáculo transcorre com leveza, porque é de sua natureza.

Na segunda, está tudo claro, ao alcance das mãos: “Há que levar um drible/Por entre as pernas sem perder a linha/No jogo de bola/Há que aturar uma embaixadinha, deveras/Como quem tira o chapéu para a mulher/Que lhe deu o fora”. Mas a melodia é quebradiça, cheia de saltos nas frases, de engates e dobras inesperadas, dando uma sensação de estranheza ou desorganização que não é menor do que a que se pode ver em peladas em geral. A aliteração com o som de que é exemplar desse bate-rebate: toque, tique-taque, pique, breque, craque, moleque.

Por fim, o ponto em comum entre as canções, que decorre da admiração que o autor tem pelos dois universos, é o seu deslocamento diante deles.

Mas num, o do futebol, ele se sente de fora espacialmente: não alcança a arte necessária, não é capaz de praticar o esporte divino que admira: “Que rei sou eu?” – mero cantor de uma canção capenga, que não se conforma com tal impossibilidade; simples mortal que exalta o “senhor chapéu” como quem olha o firmamento/Olimpo inalcançável.

No outro ele se sente alheado temporalmente. Ele está no seu território, mas seu tempo passou. Ali ele já reinou, só que perdeu o trono para outros que chegaram e levaram-lhe a namorada, deram-lhe um drible humilhante – e ele há que aceitar, conformar-se, sentir-se feliz, tirar o chapéu, e até se ver no moleque que o deslocou no tempo e “sorrir por dentro”.

Ou: o futebol está acima da vida; não tem tempo. E a pelada, ao contrário, é a própria vida – sempre chega ao final.

________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras”)


Que jogo!
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

No bar, já com algumas rodadas de chope, começaram a brincar de voltar no tempo. Mas com destino específico: voltar a determinado jogo a que tinham assistido, seja no estádio, seja na televisão.

Um falou do Brasil 4 x 1 Itália em 1970. Todos fizeram “ah!”, expressando aprovação e saudade. Ele tinha dez anos, ficava ao lado da TV arrumando a antena e o controle das horizontais. A sala cheia, os gritos, as bandeirinhas de papel, as pessoas na rua depois do jogo, o sol, o domingo que nunca mais acabaria.

Outro estalou os dedos e citou Botafogo 6 x 0 Flamengo em 1972. Mas não era botafoguense e sim flamenguista. Sete anos de idade, a camisa do time, a dor de cada gol rasgando um pouco sua camisa e seu peito – logo era noite, o choro em soluços, a escola no dia seguinte com as gozações que ainda ressoavam na sua cabeça.

“Não tem comparação”, disse outro: “Corinthians 1 x 0 Ponte Preta, em 1977, gol do Basílio”. Notou-se sua emoção ao descrever o lance, os saltos nos chutes que antecederam o arremate fatal do “pé-de-anjo”, o grito rouco, já era rapazinho, o pai até o deixara tomar um copo de cerveja, ficou ouvindo rádio até não haver mais assunto, redesenhando na mente, deitado, todo o lance.

Surgiram clássicos Atlético x Cruzeiro, Grêmio x Internacional, o Brasil 2 x 3 Itália de 1982 – que provocou lamentos, xingamentos e até um choro, aplacado com um gole grande e uns tapinhas nas costas. E outros tantos jogos, às vezes citados ao mesmo tempo, causando certa alegria em uns, tristeza em outros, mas sempre com a aura de “que jogo, que jogo!”.

Só um, calado, apenas olhando, bebericando, não citou nenhum. Notaram. “E você, nenhum jogo? Logo o mais fanático por futebol? Não tem nenhum que você gostaria de voltar pra ver?”

Recostou-se, escorreu o corpo na cadeira, passou as duas mãos nos cabelos, suspirou. Todos o olhavam.

“Tem”, respondeu. “Eu era pequeno, no interior. Domingo de manhã fui pela primeira vez ver meu pai jogar na várzea. Ao lado do meu tio, vi o poeirão subindo nas disputas de bola, os empurra-empurras, os palavrões da torcida e dos jogadores, meu pai no banco, aguardando. Ele olhava pra mim às vezes, dava tchau. Eu perguntava pro meu tio se ele não ia jogar. ‘Vai, sim, já, já ele entra.’”

“Ganhei picolé, bala, biscoito de polvilho. O jogo já durava a vida inteira. Até que o vi se levantar do banco, arrumar o meião, ficar à beira do campo. Quando ele entrou meu coração virou um balão, subiu ao céu, planou sobre o mundo todo. E o vi correndo, dominando a bola, chutando. Era meu pai. Deu um carrinho que a torcida aplaudiu. Uma cabeçada que me pareceu que ele subira mais alto que um super-herói. Era meu pai.”

Na mesa, todos em atenção total. Nem mexiam nos copos.

“E acabou o jogo. Não sei quanto ficou. Sei que fui encontrá-lo. Ele suado, a camisa com o número 3 nas costas, a chuteira velha, a barba rala, o cheiro, a aliança apertando o dedo já mais gordo, os pelos nas pernas. Era meu pai.”

Bebeu um gole.

“Nunca mais fui ver. Ele também parou de jogar logo depois. Só o via depois com a roupa de trabalho: camisa, calça, sapato e a pastinha de vendedor. A mesma com que foi enterrado – sem a pastinha, claro.”

Fechou os olhos. Todos calados. “Eu queria voltar a esse jogo. Só pra gritar o que eu não gritei naquele dia. Queria gritar alto: ‘É meu pai! É meu pai!”. Não sei por que não gritei. Fiquei só olhando. Ele, às vezes, no campo, olhava pra mim. Sempre sonho que ele esperava que eu gritasse. Mas não gritei.”

Olhou em volta, bateu na mesa com as duas mãos. “Agora já era. Não dá mais.”

Uns segundos de silêncio.

Pediram a conta. Foram embora.
_______________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


O adeus de Duque (1926-2017)
Comentários Comente

Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Davi Ferreira, o Duque, era um mineiro de muitas histórias.

Zagueiro esquecido nas brumas do tempo.

Vestiu a camisa de Cruzeiro, Vasco da Gama e Fluminense sem comprometer.

Também não entrou para a antologia poética de nenhum deles.

Embora fosse chapinha de Castilho, Telê e Pinheiro.

De repente.


Duque comanda o Olaria no Carioca de 1962.

Quarto lugar.

Vai pro Vasco caindo aos pedaços.

É mandado embora após dezesseis relatórios ao clube.

Dezesseis relatórios para devolver a grandeza vascaína.

Exílio.

Chega desconfiado em Pernambuco.

Transforma o Náutico em semifinalista de várias taças Brasil.

Implementa uma surpresa na região.

O treino em dois períodos.

É acusado de doping.

Quando o doping repousava na classe de Nado, Bita, Ivan, suor.

Depois pega o trabalho do Mestre Gradim.

E bota fogo no Santa Cruz.

Famoso no Nordeste, quase o milagre?

Levando o Timão ao título do Brasileirão de 72 e 76.

Em 1972 havia uma virada do Botafogo pelo caminho.

Em 1976 havia o rolo compressor Colorado.

No meio do caminho, quebra o jejum do Sport no Pernambucano.

Preparo físico ou mandingas.

Química ou física.

Duque foi até o fim um apaixonado pelo futebol.

Um dos últimos exemplares da bola que o tempo vai esquecendo.

Duque que deixava o catimbó rolar.

Duque amigo do pai Edu.

Duque que era tudo menos supersticioso.

1980.

Final de turno em Recife.

Duque treinava o Santa Cruz.

O Sport deixa um boneco de vudu todo espetado no banco de reservas tricolor.

Pior.

Um corcunda rubro negro entra em campo e se abraça ao treinador.

Duque sorri e abraça Quasimodo.

O Santa vence o Sport e o boneco alfinetado.

Davi Ferreira, o Duque, era um mineiro de muitas histórias.

Zagueiro esquecido nas brumas do tempo.

 


Futebol and Roll
Comentários Comente

Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Oh, yeah!

Hoje é Dia do Rock?

Poderia ser o samba.

Samba que é o rei no país de Pelé.

Como poderia ser o Tango.

Nas milongas argentinas e uruguaias.

Futebol que já foi Valsa nos pés do Wunderteam.

La vie em rose na careca de Zidane.

Ópera de Verdi, Meazza e Rossi.

Porém, for those about to play?

We salute you!

Rock’n roll.

O futebol é rock nas veias e nas imagens universais.

Beatles e Brasil de 58 e 70.

Duncan Edwards e Buddy Holly.

A estrada para o céu dos uruguaios em 50.

A estrada para o inferno de Barbosa.

George Best e Dylan embriagados nos anos 60.

Puskas e a canhota de Hendrix.

Crujff polivalente tal qual Oldfield.

Hooligans, organizadas e Sex Pistols.

O magic bus nos conduzindo ao teatro dos sonhos.

Ruínas de um domingo sangrento domingo.

Quantos de nós atingimos o Nirvana nos 90 minutos?

Quantos de nós não cantamos We Are The Champions?

We Will Rock You?

O rock se traduz em gols e defesas milagrosas.

A glória de uma Space Oddity.

A derrota no dark side of the moon.

Quando enlouquecidos como Barret vagamos pelas alamedas da mente.

Mutantes.

Legiões urbanas.

Claptomaníacos do ingresso da bola.

Pois não existe Satisfaction sem futebol.

Futebol que nunca se recusa to spend the night together.

Futebol nascido de três acordes básicos.

Futebol que se tornou psicodélico, punk e progressivo na infinita highway.


Logo, logo
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Fantasmas, sim. Eles sempre jogam ali. Chegam de noitinha, batem bola, dividem-se e começam.

Todos eles. Conheço todos. Vi cada um deles crescer, viver e morrer aqui no bairro. Pedreiros, vendedores, garçons, chapas, camelôs. Um deles foi alfaiate. E um ruço bexiguento que só bebia.

Foram morrendo. Uns moços; outros, de velhice. De uns anos pra cá começaram a se reunir ali pra jogar bola.

Começa bem na hora que eu pego no serviço. Abro o portão, entro, fecho, limpo os pingos de velas do chão, jogo fora os restos de flores e vou pra guarita.

Precisa, sim, de vigia. Antes não tinha. Mas andaram roubando de tudo aqui: azulejos, vasos, dentes, anéis, sapatos, sumiu até corpo de mulher nova.

Eles não me veem. Ou fingem, não importa. Fico ali fumando, de vez em quando grito “chuta!”, “cuidado!”, mas não ouvem. Só dá um grande eco no escuro.

Passa carro às vezes, bem no meio deles. No início eu me assustava, achava que ia atropelá-los, mas hoje dou risada. Também moto, gente, bicicleta. São poucos, mas passam. E não veem nada.

Ainda bem. Iam se assustar. As cabeças deles parecem máscaras: pálidas, sem pupilas, banguelas. Mas o corpo é igual ao de quando eram vivos.

Sabe que é um futebol até bonito? Leve, silencioso, sem briga.

O que me pergunto sempre é sobre a bola. Como é que pode ter bola fantasma?

Sim, bola fantasma. Porque ninguém que passa por aqui vê a bola. Só eles. Se fosse bola de verdade, o pessoal veria, não?

Como eu vejo? Não sei. Mas vejo tudo. Até a bola.

Meia-noite eles param. É a hora que eu desligo tudo. Deito no colchonete. Espero amanhecer.

Não sei até quando.

Não deve demorar.

Mas até que é bom saber que logo, logo vou ter essa peladinha pra jogar com eles.
________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


Calma, torcedor da Chape!
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR ZÉ ROBERTO PADILHA*

Ave, Mancini


Ele foi contratado para realizar uma pré-temporada atípica: dirigir em 2017 um clube de futebol sem time. Todos os outros treinadores que disputariam com ele o estadual, a Recopa, a Copa Sul Americana e a primeira divisão do campeonato brasileiro tinham perdidos alguns jogadores e contratados outros. Mantiveram as suas bases, no máximo em um mês um novo sistema tático estaria definido. Com Vagner Mancini foi diferente: teve que organizar uma nova comissão técnica, nem o massagista ele encontrou no vestiário, e formar um novo time, já que perdeu para a posteridade dezessete jogadores. Não encontrou nem titulares, nem reservas.

Quem os levou foi quem o iluminou nesta espinhosa missão: recusou vários medalhões que se ofereceram em meio a um mar de altruísmo e fraternidade que se formou pelo país e pelo mundo, e montou um elenco de bons jogadores que carregavam, acima de tudo, uma história de superação e luta. Do Flamengo veio o Luiz Antonio que estava no Sport, o Atlético Mineiro cedeu Lucas e Dodô, do Palmeiras Nathan e Vitor Ramos, o Londrina colocou o Caike à sua disposição e o São Paulo emprestou o Reinaldo. Douglas Grolli veio do Cruzeiro e Apodi, Neném, Osman e Wellington Paulista foram indicados por ele. Por mais que fosse um técnico rodado, nos primeiros coletivos teve que perguntar a um deles, como um treinador da base, “Em qual posição você se sente melhor meu filho?”.

Mesmo assim, como num milagre após o desastre, a bonança após a tempestade, conseguiu armar um time tão competitivo que alcançou o título estadual. Foi vice-campeão da Recopa e está classificado para a Copa Sul Americana, ao lado do Flamengo. E após dez rodadas do campeonato brasileiro, ocupa a décima terceira colocação à frente de Atlético Mineiro e São Paulo. Vagner Mancini, sua comissão técnica e todo seu elenco, mereciam ser reverenciados. No mínimo, respeitados. Mas ontem, sete meses depois de toda esta bonita história de reconstrução, saíram de campo vaiados após perderem em casa para o Atlético Mineiro. A imagem de um torcedor da chapecoense exaltado, xingando os jogadores ao final da partida, só contido pela polícia, nos faz refletir: Será que o luto acabou? Sabemos que o oficial decretado é de três dias, em caso de um Presidente da República, como Tancredo Neves, ele foi de oito dias. E quanto ao falecimento de um clube de futebol onde a emoção está sempre colocada acima da razão?

Segundo a psicologia, “O luto complicado não é definido por seu tempo de duração. Trata-se da compreensão de um tempo de Kairós, que designa o momento certo, e não o tempo de Chronos, que mede a quantidade de dias ou de horas”. Compreensão de um tempo. Seria mesmo pedir muito para um universo que vaia até minuto de silêncio, que fica na tocaia esperando o ônibus adversário passar com pedras na mão e que não é capaz de enxergar, mesmo jogando em casa, o valor destes novos heróis que o criador enviou para substituir os seus.


*Zé Roberto é jornalista e jogou na dupla Fla-Flu. E bem.


Gol de honra
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Comecinho de jogo.

– Volta!

Ele olhou espantado.

– Volta!

Era com ele mesmo.

Centroavante, retornava caminhando depois do ataque perdido. E iria somente até a intermediária do outro time, ou até o meio de campo, no máximo.

O rapaz gritava com ele:

– Volta pra marcar, porra! Vai ficar olhando?

Parou. Mais de dez anos jogando ali. Artilheiro. Capitão. Nunca ninguém ousara algo parecido. Nem técnico, nem torcida, muito menos jogador.

O rapaz, zagueiro, era novo no time. Filho de um morador recém-chegado ao bairro.

Não voltou. Pôs as mãos na cintura e ficou olhando. O rapaz foi envolvido pela tabela dos adversários, tentou bloquear o nove, chegou tarde, caiu, gol deles.

Levantou-se bufando e viu o centroavante lá na frente, assistindo. Foi andando firme em sua direção. Parecia decidido a enfrentá-lo.

Jogadores, torcida, juiz, técnicos, todo mundo olhando.

Parou na frente do centroavante. Ia abrir a boca para xingá-lo ao mesmo tempo em que movia as mãos para pegá-lo pela gola.

O centroavante foi mais rápido. Segurou o rapaz pelos punhos, apertou-os de forma dolorida, colou o rosto no dele e berrou:

– Sabe quando eu vou voltar pra marcar? Sabe? Nunca!

A saliva espirrou no rosto do rapaz. O veterano o empurrou violentamente.

– Aqui eu faço é gol! Vocês lá atrás marcam! E os do meio me passam a bola para eu fazer gol!

Pôs o dedo no meio dos olhos do rapaz.

– Entendeu?

O jovem olhou em volta. O silêncio de todos parecia dar razão ao centroavante.

Ainda tentou, intimidado:

– Mas, gente. Futebol moderno é assim. Todo mundo tem que ajudar na marcação. Senão dá nisso: gol deles. Não viram?

Ficou claro que não tinha entendido nada.

O outro zagueiro foi lá puxá-lo de volta. Mas ele ainda insistia:

– É jogo coletivo, gente.

O pai dele, do lado de fora, abaixou a cabeça, entrou em campo, pegou-o pelo braço:

– Vem, filho, vamos embora,

– Mas, pai.

– Vamos, filho, vamos.

Virou-se para o centroavante:

– Desculpa aí. Ele é novo. Fica vendo esses jogos na TV. Desculpa.

Não tinha ninguém para entrar no lugar dele. Jogaram o tempo todo com dez. E o centroavante seguiu sem voltar para marcar.

Perderam feio: seis a um.

Mas o gol foi dele.
______________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


Vencendo sempre
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Eles chegavam e contavam como fora o jogo. Suados, sedentos, misturavam as palavras com a respiração e os goles de água. O golaço, a furada, o começo de briga, o final emocionante.

Falavam os quatro ao mesmo tempo. E a turma ouvia. Salivava de inveja, admiração e vontade. Mas não podia ir. “Vocês são muito novos”, diziam. “É longe, e perigoso.” “Nem pra assistir?” “Não. Quando vocês crescerem mais a gente leva.”

Eram os quatro heróis do bairro. Da vila, na verdade. Um beco com velhos e moleques olhando e correndo. Lembrando e sonhando. Sumindo e crescendo.

Os quatro eram maiorzinhos, quatorze, quinze anos. Dia de jogo saíam cedo, bola na mão, camisas velhas de times, kichute, a meninada vinha vê-los cruzar o beco de ponta a ponta, dobrar a esquina, ganhar a rua e ir diminuindo até a avenida em que pegavam o ônibus.

Os pequenos passavam o dia jogando no beco o jogo que eles imaginavam – na verdade, sabiam – que os quatro, lá longe, jogavam. Entre as paredes, as cadeiras dos velhos, os varais, os tambores de lixo, os cachorros: eram golaços, furadas, começos de briga, finais emocionantes. Suavam, respiravam forte, morriam de sede, afogavam-se no bico da garrafa.

E então, fim do dia, calor e mormaço, quase escuro, os heróis voltavam. Descreviam tudo. E não poderia ser mais igual ao que eles tinham imaginado, jogado, vivido!

Orgulhavam-se dos quatro bravos. Sua aventura no desconhecido, sua coragem frente a estranhos. Viam selvas, despenhadeiros, correntezas, muros altos, adversários armados – e eles venciam!

Sempre venciam. Nunca perderam. Às vezes um placar apertado porque não existia empate: “quem fizer ganha!”. Ficavam ali em volta deles, ouvindo-os contar o jogo, a ida, a volta, os percalços, as conquistas, com as pupilas crescendo, os dentes se abrindo, o coração inflando, até o encerramento.

Abraçavam-nos, pulavam em volta. “Me leva na próxima, por favor!” “Deixa a gente ir!” Os quatro se levantavam, diziam que não dava, deixavam a bola ali para que eles brincassem e cruzavam de volta o beco, como cavaleiros na volta da missão no estrangeiro. Os velhos os abençoavam com os olhos.

Na casa de um deles, no pedaço de terra atrás do tanque, antes de se despedirem, combinavam como seria a próxima. Quanto seria o jogo. Quem faria os gols. Como acabaria. Como seria o outro time. Lances importantes. Algum sofrimento. E a vitória final, claro. Porque isso é o que importava. Voltar e contar a vitória.

É isso: não iam a lugar nenhum. Viravam na avenida, atravessavam pro bairro depois do posto e ficavam jogando sozinhos num terrão abandonado.

Golaço, furada, começo de briga, final emocionante. Tudo entre eles. Mas nem era pra valer. Era como eles imitavam o jogo que eles imaginavam – na verdade, sabiam – que eles jogariam se fossem jogadores, se estivessem num time, se disputassem partidas contra outros times de outros bairros e voltassem pra vila.

Cansados, sedentos, ofegantes.

Mas vitoriosos. Sempre vitoriosos. Nunca haveriam de perder. Esse era o compromisso que tinham com si mesmos e com os meninos e os velhos.

Não sabiam até quando duraria tudo aquilo. Mas sabiam que venceriam sempre.
__________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


De Santos para o Mundo
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO*

O Santos Futebol Clube (“Santos”) já deu ao mundo Pelé, Robinho e Neymar, e muitos outros jogadores que maravilharam – e maravilham – multidões.


Foi com Pelé e companhia, no entanto, que a mitologia se criou. E ainda resiste às décadas de aposentadoria do maior atleta da história. Jogadores que o sucederam contribuíram para manter a chama acesa, mas não foram – e não são – capazes de perpetuar esse estado de encantamento. O Santos deve reagir e se posicionar. Mostrar sua grandeza.

No plano nacional, ele leva vantagens realmente importantes em relação aos demais times grandes: baixa rejeição e simpatia, quando em confronto com rivais de outras torcidas.

Ou seja, se corretamente dirigido, poderia se tornar um time de expressão nacional e internacional, membro, talvez, do seleto grupo dos 10 maiores do planeta, inclusive em receitas.

Para isso, haveria de imprimir um movimento transformacional e admitir, como muitos times europeus o fizeram, que sua vocação não é apenas local e regional, mas, sim, global.


A bela cidade de Santos não o deve limitar, portanto; ao contrário, que sirva como o “porto” de lançamento para uma aventura, planejada, de dominação pelo futebol, pela arte do futebol.

Não haveria nada de errado nisso. Assim como não houve com Manchester United, Barcelona, Bayern, PSG, Manchester City e outros que resolveram, em momentos distintos de suas histórias, expandir suas fronteiras.

Conseguiram. A conquista, aliás, atinge meninos e meninas santistas, e torcedores de outros times, que, lamentavelmente, preferem acompanhar e torcer por times europeus, pelos conquistadores contemporâneos, em detrimento dos brasileiros.

Revendo o estatuto do Santos, percebe-se que, em algum momento, tentou-se, timidamente, ou ao menos de modo formal, dar-se o primeiro passo. O artigo 5o, Parágrafo Terceiro estabelece que:

“É facultado ao SANTOS, mediante prévia aprovação do Conselho Deliberativo, constituir sociedade, de qualquer tipo, ou deter participação societária em sociedade que tenha como objeto a prática esportiva profissional, e que seja classificada como entidade de prática desportiva participante de competições profissionais, nos termos definidos na Lei n. 9.615/98 e suas alterações, inclusive a Lei n. 10.672/2003, e transferir a ela os bens móveis e direitos relativos à modalidade profissional presente no objeto social da mencionada sociedade, que sejam necessários para o seu desenvolvimento, observando-se a legislação aplicável”.

O parágrafo Quarto fixa as regras que devem ser observadas se o movimento se produzir:

“Caso ocorra a transferência de bens e/ou direitos do clube à sociedade mencionada no parágrafo anterior, o SANTOS deverá deter, no mínimo, 75% das ações ou quotas em que se divide o capital social votante e total da sociedade, e sua participação societária não poderá ser onerada ou transferida, a qualquer título, e para qualquer fim, sem a aprovação do Conselho Deliberativo (…)”

Também se impôs um modelo administrativo colegiado, por meio de um comitê de gestão, formado por 9 membros. Mas, não se deu o passo rumo à contemporaneidade e se manteve atrelado ao sistema interno da tradicional política, que atrasa o futebol brasileiro. Assim, todos os membros (exceto o Presidente e o Vice, que são eleitos pela Assembleia) são indicados pelo Presidente do Comitê de Gestão dentre os membros Eleitos, Efetivos e Natos do Conselho Deliberativo.

Não existe, portanto, uma estrutura de controle e fiscalização dos atos executivos, por órgão superior autônomo, a exemplo do conselho de administração de companhias.

Aliás, o Conselho Fiscal, que é, de acordo com o estatuto santista o órgão independente de fiscalização da administração, é composto de 5 membros do Conselho Deliberativo, eleitos pelo próprio Conselho Deliberativo. Este Conselho fornece, assim, os membros do Comitê Gestor e os membros do Conselho Fiscal, que fiscalizam seus pares e colegas.

Falta, como se nota, independência, e estimula a ocorrência de situações de conflito de interesses, especialmente no âmbito político.

Complementa esse modelo a administração executiva, conduzida por profissionais remunerados, com qualificação comprovada, subordinada às decisões e determinações do Comitê de Gestão. Seus membros são, de fato, conforme se depreende do estatuto, executores, e não administradores, como se esperaria em uma empresa econômica.


Resumindo, o potencial planetário do Santos não é aproveitado. Muito pelo contrário: parece que se empreende muito esforço para confiná-lo na bela cidade praiana. Um verdadeiro pecado.

Para concluir, a estrutura do Santos, que não mantém equipamento clubístico social, facilita uma série de movimentos transformadores, como, no limite, a passagem do associativismo à forma da sociedade anônima, com a atribuição, a cada associado, de uma ação de nova companhia.

Apenas o mundo, e os seus administradores, limitam o Santos.

*Rodrigo R. Monteiro de Castro é advogado e colaborador do sítio Migalhas.


Os dias eram assim
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR ROBERTO VIEIRA
Muita gente não imagina – pensa que é mentira. Mas os dias eram assim, bicho!

13 de maio de 1977. Dia da abolição da escravatura por ironia. Os jogadores brasileiros recebem um decreto da Confederação Brasileira de Desportos (CBD). Todo mundo de juba aparada, elegante e calado. Atleta da seleção na Copa de 78 não podia abrir o bico nem opinar sobre nada: de esquema tático até política.

Se é que alguém era doido de falar em política após o abril de pacotes e desavenças entre Geisel e o Congresso.

Marinho Chagas era alvo fácil Suas madeixas louras eram fetiche para os delírios militaristas de plantão.


 E assim, a seleção foi pra Copa com um contrato milionário com a Adidas – os jogadores não viram um tostão. Um capitão do exército foi o técnico. Um almirante foi o comandante fora das quatro linhas – escalando até Dinamite.

Fomos campeões morais de uma Copa imoral que de bom mesmo só apresentou cento e oitenta minutos da Laranja Mecânica sem Crujff.

Laranja que tinha os cabelos dos hippies woodstockianos.


Para abalar suas certezas
Comentários Comente

Juca Kfouri

O São Paulo é mesmo o time da elite?

E Palmeiras da colônia italiana?

Será só o Corinthians o time do povo?

Se você quiser saber as respostas leia o livro “Cego é aquele que só vê a bola”‘ de João Paulo França Streapco, pela edusp.


Fruto de sete de anos de pesquisa, a tese de mestrado que virou livro desmistifica uma porção de versões sobre o Trio de Ferro paulistano e, de quebra, mostra como o futebol ganhou espaço na cidade de São Paulo.

Uma obra que você lê discutindo com ela o tempo todo, buscando até negá-la diante do que você já sabe, mas que, à medida que transcorre, desmonta velhas concepções.

O lançamento será nesta sexta-feira.


De cavadinha
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

O senhor sabe, doutor. É minha ideia fixa. Já sonhei mil vezes. Venho na corrida, recebo a bola, driblo um, dois, três, o goleiro vem saindo, eu toco por cima, de cavadinha, e a bola desce na rede, surfando a onda de barbante.

Tem anos, isso, doutor, o senhor sabe. Desde que eu vim aqui a primeira vez. Já fiz esse gol, igualzinho, milhões de vezes. Mas agora não consigo mais.

Já tem algumas semanas. Eu toco por cima, o goleiro pula e agarra. As duas mãos pro alto. Segura a bola, traz pra junto do peito e pousa os pés na grama com ela encaixada.

Uma vez, vá lá. Duas, estranhei. Três, acordei irritado e não dormi mais. Com ontem, já são cinco vezes. Não faço mais o gol. Já dormi pensando “vou tocar mais alto um pouco”, mas na hora da cavadinha o maldito sobe, pega, encaixa e pousa.

Antes, o sonho até tinha uns segundos a mais: eu comemorava, sentia o prazer do gol. Agora, não. Assim que ele pousa, acaba. Quer dizer, acordo. Suo. Ando. Xingo. Demoro a dormir.

O quê? O que eu acho disso? Acho ruim. Péssimo. Mas não é o pior.

O pior é o desgraçado do Alaor. Que Alaor? O Alaor, doutor, o pentelho do meu colega no escritório. Invejoso, puxa-saco, fofoqueiro. Já te falei dele mil vezes. Lembrou?

Então, doutor. Escuta. Ontem ele me contou que começou a ter um sonho repetitivo. Eu: ham-ham. Que já sonhou o mesmo sonho três vezes nas últimas semanas. Eu: sei. Ele: é a coisa mais esquisita. Tá. E sabe qual é o sonho dele, doutor? Sabe o que o disgramado sonha? Que ele é goleiro!

Isso mesmo! Goleiro, doutor! E sabe o que mais? Que ele tá no gol, vem um atacante driblando os zagueiros, um dois, três, ele sai, o atacante toca por cobertura, ele sobe, pega a bola, traz pro peito e pousa com ela encaixada!

O senhor acredita nisso, doutor? O senhor acredita? Eu fiquei de boca aberta! Achei que ele estava zoando. Que conhecia meu sonho. Mas não. Nunca que ele saberia. Só o senhor conhece isso. Fiquei parado, assustado. Olhei pra ele. Ele parou um pouco e disse: rapaz, você não sabe como eu fico feliz quando eu sonho isso! Quando vejo que agarrei a bola e estou no chão com ela no peito, sinto uma paz enorme. Durmo como um anjo.

Um anjo, doutor! Um anjo? É o capeta, isso sim! Só pode ser! Só o capeta pode entrar no sonho dos outros, doutor! É isso o que está acontecendo. Eu matei a charada: ele entrou no meu sonho, doutor! Ou melhor: ele pôs o sonho dele dentro do meu sonho! Por algum caminho do além ele descobriu onde eu jogo no sonho e resolveu entrar pra me atrapalhar.

Eu bem que tinha reparado que a cara do goleiro tinha mudado. Mas não dei importância. Depois que ele contou o sonho dele é que eu juntei as coisas. O goleiro que defende a bola é ele, doutor! É o Alaor!

É inveja, doutor, é inveja. É o mesmo que ele faz no trabalho. Copia meus relatórios, repete o que eu falo nas reuniões, cumprimenta o chefe antes de mim. Insinua que erro muito. Ele quer o meu lugar, doutor. Ele quer me prejudicar de todo jeito. Aí resolveu que perturbar o meu dia não bastava. Tinha também que perturbar minha noite.

Agora me explica, doutor. Como é que o cara consegue ter um sonho que invade o sonho do outro? Que poder é esse? Que invade e fica? Que não deixa mais o sonho do outro voltar ao normal?

Sabe o que eu fiz, doutor? Falei pra ele que esse tipo de sonho, mesmo dando prazer, quando é muito repetido, é doença. É ideia fixa. Ele ficou preocupado. Falei que pode virar obsessão. Até paranoia, coisa grave, de internar. Ele se assustou. Pensou. Pediu conselho. Eu falei: claro, amigão. E dei o telefone do senhor. Falei que o senhor cura essas coisas. Só no bate-papo. Na psicologia.

Ele vai marcar a consulta, doutor.

Então, doutor, agora o senhor me faça o favor, pelo amor de Deus! Quando o Alaor vier aqui, faça o que for preciso! Assusta ele, põe medo, dá remédio, faça o diabo.

Mas tira ele do meu sonho, doutor! Tira o sonho dele de dentro do meu!

Senão eu não me garanto.

Juro, doutor. Mais um tempo, se ele continuar a aparecer e defender, eu acabo com esse negócio de cavadinha.

Eu encho o pé, doutor. Dou de bico. Na ignorância. Meto a bola com força na cara dele!

Quero ver no dia seguinte, com a cara inchada, se ele se atreve a entrar de novo no sonho dos outros.

Quero ver.
________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


Janot inocenta Romário
Comentários Comente

Juca Kfouri

Documento original do Ministério Público: Prom._arq._60-2017_(1)

Na última quarta-feira (3), o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, mandou arquivar a investigação sobre uma suposta conta do senador Romário (PSB-RJ) na Suíça. A suspeita iniciou depois da publicação de um extrato bancário na revista Veja, em 2015. O documento atribuía ao senador a quantia de R$ 7,5 milhões, não declarados à Receita Federal.
Na época, o próprio senador foi à Suíça e recebeu documentos do banco que comprovavam a falsidade do documento. Posteriormente, o Romário solicitou ao Ministério Público que o investigasse. A investigação chegou ao fim na quarta-feira, quando Janot assinou o pedido de arquivamento do procedimento. No documento, o procurador esclarece que pediu cooperação jurídica as autoridades suíças e o Ministério Público da Confederação Helvética acionou o banco suíço BSI.

Veja o que concluiu o Ministério Público:

“Verifica-se, do trecho transcrito, que o BSI negou manter relacionamento bancário com Romário de Souza Faria, assim como informou que a conta corrente com o número mencionado na reportagem do semanário ‘Veja” não existe, assim como a cópia do extrato bancário publicada é falsa, pois não condiz com o “layout” adotado por aquela instituição financeira. Nesse sentido, não há elementos concretos de prova a subsidiar a suspeita inicial. O banco BSI, ao declarar a inexistência da conta corrente mencionada na reportagem, afasta a veracidade do conteúdo do extrato bancário publicado, demonstrando que os fatos delituosos imputados ao congressista são inverídicos. Ante o exposto, diante da inexistência de indícios de materialidade e autoria delitivas que justifiquem a continuidade das apurações, determino o arquivamento dos autos.”
Notícia completa aqui: http://www.romario.org/news/all/janot-arquiva-investigacao-sobre-suposta-conta-de-romario-na-suica-fatos-inveridicos/


Está tudo errado. Exceto Tite
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO

Paulo Francis escreveu que “um dos serviços mais importantes e em muitos casos semi-involuntário (…) que a imprensa presta aos poderes é dignificá-lo (…) porque o simples fato de relatar o que dizem e fazem os políticos (…) dignifica em parágrafos e imagens o que é em geral sandice absoluta”. “O jornalista organiza a besteira do político”.
O autor disse, ainda, que o ataque confere ao atacado personalidade que não tem. E reconheceu, com imodéstia, que sua pena ajudara muita gente a sair da obscuridade.
Não sou jornalista e o que escrevo não muda a vida de ninguém.
O que me conforta, ao menos em relação ao tema tratado esta semana, é que, quem quer que discorra sobre ele, também não será ouvido por ninguém – mesmo que, formalmente, seja lido.
É impossível falar sobre futebol sem, ao menos esporadicamente, abordar a sua organização política. E quando se fala de política do futebol, o grande – e talvez único – agente, responsável por tudo o que está aí, é a CBF.
Essa é a deixa para tratar de um importante documento, publicado recentemente: suas demonstrações financeiras.
A leitura do relatório da administração, capítulo introdutório do documento, parece querer resgatar aquela afirmação de que a CBF é o Brasil que dá certo. Diz-se, nele, que: “o resultado demonstra de forma clara o esforço continuado da administração da CBF em manter e ampliar os investimentos no futebol brasileiro, mesmo com a crise financeira do Brasil em 2016. A CBF aposta no futebol como um catalisador de investimentos com impactos financeiros e sociais para o país”.
Como já se podia supor, o efeito Tite é, de modo oblíquo, envolvido no discurso, mesmo que, em sua apresentação, parte dos resultados não tenha se realizado em 2016 – período a que se referem as demonstrações: “o ano de 2016 foi marcante para a história da Seleção Brasileira. Pela primeira vez, conseguimos a tão almejada medalha de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Esta conquista é fruto de investimento massivo nas seleções de base, nas novas tecnologias e na preparação para a competição”. E aí vem a apropriação de conquista futura, contabilizada nas demonstrações de ano anterior: “a seleção brasileira foi a primeira a se classificar para a Copa do Mundo da FIFA de 2018. A Seleção pentacampeã conseguiu a vaga na 14a rodada, sua classificação, com maior antecedência desde a mudança no formato das Eliminatórias Sul-Americanas”.
A peça também enfatiza os avanços no plano da governação: “nosso compromisso é estabelecer processos e modelos de governança com aderência às melhores práticas do mercado, sendo reconhecidos como uma entidade que adota os procedimentos mais modernos do mundo corporativo e esportivo”. E finaliza: “a administração da CBF reitera seu desejo de encarar os desafios de 2017 com serenidade, mantendo e ampliando o debate participativo e democrático e trabalhando cada vez mais para que o Brasil consolide sua posição de destaque no futebol mundial”.
Relata-se um mundo encantado do futebol brasileiro. Nada mais inverídico, porém. Até a chegada de Tite, a situação da CBF, sob qualquer ângulo, era tenebrosa.
Além disso, com poucas exceções, os times brasileiros, de todas as séries, estão atolados em dívidas, não encontram meios de se financiar e se curvam diante de concorrentes organizados e capitalizados, que protagonizam o esporte mundial. Os futebolistas e demais trabalhadores desse esporte enfrentam desemprego, dificuldades para receber seus salários ou se sujeitam a condições muito distantes daquelas oferecidas às poucas estrelas que se destacam em times de elite da Série A ou que são exportados para clubes europeus ou chineses.
A verdade é que, por um momento, os times brasileiros tiveram uma grande oportunidade, após o fracasso da Copa de 2014 e a multiplicação dos escândalos envolvendo os dirigentes da entidade, de impor – ou exigir – um novo modelo para o futebol brasileiro.
Nunca, realmente nunca, na história recente do futebol, as oportunidades de transformação foram tão evidentes.
Faltou, talvez, união. Ação coletiva. Abandono de condutas individualistas, em favor de um projeto maior: um projeto de contornos econômicos e sociais magníficos. Ninguém será realmente grande se a grandeza for isolada, não compartilhada e rivalizada.
Atualmente, o discurso pseudo-ufanista, quase sem vergonha de acontecimentos que, se o futebol fosse um tema de Estado (ou ao menos de Governo), teriam justificado intervenções ou manifestações públicas contundentes, sombreia condutas alcunhadas, pela imprensa, de maquiavélicas (cf. o jornal Lance!, edição eletrônica de 23.03.17).
Esconde-se, atrás de suposta habilidade política e criatividade jurídica, o desrespeito ao Estado Democrático de Direito. A zombaria, no caso, atingiu o ápice com a atribuição de voto múltiplo às federações estaduais, para que prevalecessem sobre a somatória dos times de primeira e segunda séries, incluídos no colégio eleitoral por determinação de Lei Federal que criou o Profut.

Nada mais distante, deve-se registrar, do anunciado processo e modelo de governança com aderência às melhores práticas do mercado. Se esse é o procedimento mais moderno do mundo corporativo e esportivo, como se gaba o relatório da administração, criou-se um mundo próprio, hermético, para justificar todas e quaisquer condutas.
Espanta, nesse processo, o silêncio dos clubes, que poderiam, enfim, dominar a entidade e orientá-la em benefício deles próprios, dos jogadores e demais agentes direta ou indiretamente dependentes do futebol.
A brutalidade parece que foi aceita pela sociedade. Aliás, nem mesmo é digna de reflexão e contrariedade. No plano da política futebolística, infelizmente, ainda se reflete, com força histórica, o verdadeiro Brasil.

*Publicado originalmente no sítio “Migalhas”.


A justica esportiva é uma piada
Comentários Comente

Juca Kfouri

Fagner pegou um jogo de suspensão e, teoricamente, está fora da final contra a Ponte Preta.

Deveria ter sido julgado antes do primeiro jogo e pego, no mínimo, dois jogos, para aprender a deixar de ser bobinho,  valentinho e burrinho, esquecido de que as câmaras captam tudo.

Pottker também deveria ter sido julgado, e suspenso,  ontem, mas não foi, com o que jogará a decisão e, depois, se apresentará ao Inter, livre de qualquer punição em São Paulo.

Não poderia ser mais ridículo.

Ou poderá, com a concessão, amanhã, de efeito suspensivo para Fagner.

Tivéssemos o tribunal de penas, rito sumário, Fagner não teria jogado em Campinas e nem ele nem Pottker jogariam em Itaquera.

Mas o que temos é apenas um picadeiro.


Uma bola
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Ninguém soube dizer de onde ela tinha vindo.

Talvez tivesse caído do alto do morro, onde provavelmente ficara desde a pelada do dia anterior: a meninada descera para suas casas – barracos amontoados em vielas tortas e íngremes – e a deixara lá. Mas os meninos garantiram que havia muitos dias não jogavam.

O fato é que, de manhã cedinho, o pessoal descendo os becos, as janelas esfregando as pálpebras, a bola veio pingando. Rolando devagar no começo, nas pedras do alto do morro, depois quicando nas lajes, ganhando altura, estufando os lençóis e as roupas coloridas como as de um festival ou de um feriado, esgueirando-se entre antenas e postes, batendo nas portas como se trouxesse cartas, pulando nos degraus de escadas sem começo nem fim, mergulhando nas bacias, nas latas d’águas nas cabeças, nos tetos de zincos pendurados pertinho do céu, às vezes ganhando enorme altura e formando outro olho, vesgo, ao lado do sol, às vezes perdendo velocidade e amortecendo o quique e deslizando nas ruelas mais planas, e as pessoas paravam para olhar, para dar caminho, para abrir as portas, a molecada correndo atrás, sem ninguém ousar tocá-la, todos dando-lhe passagem como num cortejo, até com reverências, abrindo a boca nas manobras mais elásticas, torcendo nos trechos em que ela se aninhava em obstáculos e se arrastava até o próximo declive e retomava a descida aos pulos, todos com os rostos para o alto, e para baixo, e para o alto, e para baixo, até que ela foi chegando ao fim do morro, ao limite entre a favela e a cidade, o asfalto, os carros, e tropeçou numa pedra mais alta, adquiriu força maior, elevou-se acima dos prédios da rua – e não desceu.

Não desceu.

Ficou todo mundo olhando para o alto, procurando, esperando sua volta triunfante, para vê-la quicando no asfalto até perder lentamente a inércia e repousar em algum canto, ou cair em cima de um caminhão, para cruzar fronteiras, ou parar embaixo dele, atropelada.

Mas não desceu.

O pessoal estranhou. Perguntaram-se com olhares, gestos, palavras, mas ninguém soube dizer.

E foi cada um pro seu canto. Cada qual com sua dor.

O curioso é que a meninada resolveu ir ao alto do morro, onde costumavam jogar e de onde a bola devia ter partido.

E não é que ela estava lá?
_____________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


O Brasil deveria parar para acompanhar as eleições no São Paulo
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO*

Na próxima terça-feira, 18 de abril, os conselheiros do SPFC escolherão o futuro presidente do clube. A importância das eleições transcende os muros do Morumbi.
Estará em jogo a esperança, o fio de esperança em relação ao início de uma nova fase da governação do futebol brasileiro.
Do ponto de vista formal, o estatuto do SPFC, aprovado por mais de 80% dos associados presentes à assembleia geral realizada em dezembro de 2016, absorveu aspectos essenciais do PL 5.082/16, de autoria do Deputado Federal Otavio Leite, que institui a Sociedade Anônima do Futebol.
Lá estão: o conselho de administração, com 1/3 de membros independentes; a diretoria executiva profissional, composta de membros que deverão se dedicar exclusivamente ao clube, em troca de remuneração compatível com suas responsabilidades; o conselho fiscal, formado por associados que não participem de qualquer órgão de administração do clube e eleitos diretamente pelos seus pares; a auditoria anual obrigatória por empresa especializada e de notória reputação; e, last but not least, a obrigatoriedade de realizar um estudo de viabilidade com o propósito de separar o futebol das demais atividades clubísticas, incluindo outras modalidades esportivas.
A importância das eleições decorre, portanto, da oportunidade de se iniciar a implementação – antes mesmo da existência de um marco regulatório adequado – de um modelo brasileiro de governação, arquitetado para resgatar e estabilizar seus times entre os protagonistas mundiais.
A eventual falta de comprometimento material com os comandos formais do estatuto implicará a dissipação do fio de esperança. Esperança que não se escreve apenas com as cores do SPFC, mas de todos os times que pretendem romper com o obsoleto e ineficiente sistema que impera no país.
Daí a motivação para que o Brasil acompanhe esse momento.
A missão será atribuída a um de dois candidatos: Carlos Augusto de Barros e Silva (“Leco”), atual Presidente, ou José Eduardo Mesquita Pimenta (“Pimenta”), Presidente de 1990 a 1994.
Ambos apresentam como promessa de campanha posição intransigente em relação à implementação integral dos instrumentos de governação e controle previstos no estatuto. Mais do que isso: prometem, a partir dessa nova constituição são paulina, construir os pilares que levarão o time ao topo do planeta.
Pimenta teve a virtude de presidir durante um período que se pode chamar de bossa nova tricolor. Sob o seu comando montou-se o time que, dirigido pelo mestre Telê Santana e capitaneado pelo maior jogador da história do SPFC, Raí, conquistou a América e o Mundo.
Por esses fatores, o então Presidente tinha força e poder político para impor o projeto reformista que desejasse. Não o fez.
Agora, quase 25 anos após sua passagem pela presidência, pretende conduzir a reconstrução que o estatuto determina. Se a sua pretensão for realmente sincera, terá, no entanto, que convencer e lidar com a sua base de apoio, formada por diversos conselheiros que negam a legitimidade do processo que resultou no novo estatuto.
Leco é um advogado bem sucedido, ex-Presidente da poderosa Associação dos Advogados de São Paulo – AASP e histórico dirigente do SPFC. Alçado ao cargo máximo em decorrência da renúncia de seu antecessor, viveu – e vive – a antítese do espírito da bossa nova noventista: assumiu um clube com enorme dívida financeira, turbulência política, interferências externas e elenco desacreditado.
Porém, o ambiente adverso não o impediu de, surpreendente e corajosamente, propor a reforma do estatuto, constituir uma comissão independente de associados para formular um projeto inovador, defendê-lo mesmo diante da proposição de criação de novos órgãos de administração (e consequente compartilhamento e controle do poder) e aprová-lo.
Leco, agora, pretende concluir o projeto que ele próprio iniciou – com o apoio de sua base de sustentação política e que obteve a aprovação (i) unânime dos membros do conselho deliberativo presentes à sessão deliberativa (inclusive daqueles que se opõem à sua candidatura e à legitimidade do processo conceptivo) e (ii) da maioria absoluta dos associados do clube -, implementando todos, conforme ele afirma, os comandos do estatuto.
Mais: promete trazer profissionais de mercado, realmente independentes, para as posições de conselheiro de administração que lhe compete indicar (a terça parte) e de diretoria executiva, e não subverter os princípios formadores do novo estatuto.
Resumo da ópera: contra Pimenta pesa o fato de não ter feito, quase 25 anos atrás, quando tinha poder praticamente absoluto, o que diz que fará agora. Pesa, ainda, o fato de estar associado a conselheiros que: (i) negam a importância e a legitimidade do projeto; (ii) tentaram, por via judicial, interromper o processo de concepção do novo estatuto; e (iii) pretendem, judicialmente, impedir a realização das eleições do dia 18.
A favor de Leco o fato de, mesmo na adversidade, (i) ter proposto e iniciado, de modo inédito e corajoso, o processo que não apenas o SPFC – mas o futebol brasileiro – precisa, e, ainda, de (ii) se comprometer, em conjunto com os conselheiros e grupos políticos que o apoiam, com a implementação do novo modelo de governação aprovado soberanamente pela assembleia geral de associados.
A eleição de terça-feira não será apenas mais uma na história do SPFC; talvez seja, sim, a mais importante desde a constituição do clube. A responsabilidade do conselho deliberativo é, pois, monumental.
Por esses motivos, o Brasil deveria parar e acompanhar essas eleições.

*Rodrigo R. Monteiro de Castro é advogado.


40 anos depois de tudo
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR CARLOS MAGNO SILVA DE MENEZES*
Nesses tempos em que se critica demais os estaduais, e com razão

O Campeonato Paulista tem uma chance rara de se tornar o maior campeonato do mundo

Seria com uma final reeditada entre Corinthians e Ponte Petra

Quarenta anos depois do maior Corinthians e Ponte Preta da história

Eu, como bom corintiano, é lógico que torceria para a Ponte

E se o jogo final fosse em um Moisés Lucarelli lotado?


Com Jadson sendo expulso ainda no primeiro tempo para alimentar ainda mais o sonho

Com o gol da vitória saindo nos momentos finais, chorado…

Dos pés de Pottker? Clayson? Elton?

Só saberemos após o último sonho de Gilson Kleina antes da partida

E que com o final do jogo começasse uma explosão de alegria jamais vista

Com a bandeira da Ponte sendo carregada de joelho pelo gramado

E nós corintianos, com lágrimas nos olhos, seríamos dois tipos

Os que viveram um dia parecido, esses seriam engolidos por uma lembrança avassaladora

E os que sentiriam ainda mais saudade de um dia que não viveram

Esses finalmente iriam entender como um título de Campeonato Paulista

Pode ser maior que qualquer título de Brasileiro, Libertadores ou Mundial

O maior título do mundo em toda a história

Só sendo superado neste momento diante dos seus olhos pela Ponte Preta

Depois ajudaríamos a acabar com toda a cerveja de Campinas
*Carlos Magno Silva de Menezes, 33 anos, e jornalista.


Relatório oficial é nova bomba no vôlei brasileiro
Comentários Comente

Juca Kfouri

Em tempos de caixas-pretas do esporte brasileiro sendo abertas, um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) tem o poder de uma bomba:

o órgão da Fazenda que atua na prevenção e lavagem de dinheiro considerou que as transações da S4G, empresa de Fábio Azevedo e que tinha diversos contratos com a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), tem uma série de transações “com indícios de atipicidade” e apresentam “movimentação de recursos incompatível com o patrimônio do proprietário”, “recebimento de recursos com imediata compra de instrumentos para realização de pagamentos ou de transferências a terceiros sem justificativa”, de acordo com o relatório do órgão da Fazenda.

Chamaram atenção do COAF os inúmeros e seguidos saques em espécie no valor de R$ 100 mil, e até saques como um de R$ 386.157,00 também em espécie, pela secretaria de Azevedo.

Além de pagamentos realizados assim que recebiam depósitos da CBV para empresas da mulher de Azevedo, ou de uma sobrinha de Ary Graça, e para diretores da confederação e empresas prestadoras de serviço que estão sendo checados.

Fábio Azevedo era o braço direito de Ary Graça na CBV e segue sendo na Federação Internacional de Vôlei (FIVB).


Um dia
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Era o que ele mais queria. Igual na TV, subir na tela ao comemorar o gol.

Só que não tinha alambrado.

Cada campo! Às vezes ao lado tinha riacho, bananeira, ribanceira, porteira, curral, estrada, muro, trilha de boi, formigueiro, ou só um descampado mesmo, de areia, terra ou capim.

Ele fazia o gol – muitos, aliás – e saía correndo, olhando, imaginando-se saltando nos buracos de arame e dando os braços para os torcedores, rodando a camisa sobre a cabeça e jogando-a no meio da galera.

Podiam dar cartão, sem problemas. Se fosse o segundo, podiam expulsar – nem aí.

Mas queria aquela glória. Vendo na TV abria a boca, levantava-se, insinuava o mesmo movimento, chegou a pular no sofá – que, fraco e velho, quebrou e lhe valeu uma bronca da esposa.

Uma vez havia uma cerca. Baixa, velha e de arame farpado. Chegou a correr na direção dela, mas viu que ela ia desmontar e que ele poderia se enganchar nos espinhos de ferro. Parou.

Até que um dia – quase sempre é com “um dia” que se fazem as histórias – foram a um campo melhor. Quase um estádio. Traves de ferro, rede nova, dois degraus de cimento de um lado para os torcedores, marcação de cal – e o alambrado!

Dos quatro lados. Com vigas brancas e a tela de losangos de arame.

Atrás dele, uma dúzia de velhos e meninos, dois vira-latas, um sujeito magrelo vendendo laranja.

Eu poderia terminar dizendo que ele não fez gol, mesmo tendo, além de duas chances cara a cara, um pênalti que ele chutou longe. E que se frustrou a ponto de nem querer mais jogar, ou de não conseguir mais fazer gol.

Ou que, mesmo assim, sem marcar, ao final do jogo ele correu até lá, subiu e comemorou emocionado, para espanto dos jogadores e dos assistentes.

Mas não. Este “um dia” pede outra variação.

Melhor assim: ele fez o gol, o da vitória, no final do jogo (no último segundo, na verdade), num chute retumbante de fora da área que bateu na forquilha e estufou a rede.

Ele correu para o alambrado. Ia subir e rodar a camisa e jogá-la como sempre sonhou.

Mas parou bruscamente a um metro da grade. Com a freada, os companheiros quase caíram por cima dele. Abraçaram-no, empilharam-se, ergueram-no nos ombros e o levaram numa espécie de volta olímpica.

Percorreram todo o perímetro lado a lado com o alambrado. Ele olhava cada gomo vazio, as vigas, os laços em volta das vigas, a cor do arame, o calibre, o espaço onde poria os pés, imaginava como apoiaria a mão esquerda e onde a camisa iria cair – talvez no cesto de laranjas.

Mas seguiu nos ombros dos colegas, deixou-se levar ao barraco que servia de vestiário, ao caminhão, à estrada, ao nunca mais.

E perdeu a vontade. Parou de pensar naquilo. Seguiu fazendo gols e comemorando no chão, como sempre.

Nem as comemorações da TV o abalavam mais.

Ele sabia que poderia ter feito o que mais queria. Que seria perfeito, glorioso, como sempre sonhara.

E isso lhe bastava.
________________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).