Blog do Juca Kfouri

Arquivo : dezembro 2016

Um caso de abuso de autoridade: 31 presos por “presunção de culpa”
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Juca Kfouri

 Familiares de corintianos presos no Rio se mobilizam; menor de idade é solto por falta de provas

Em defesa dos 31 torcedores presos desde 23 de outubro, familiares soltam nota denunciando tortura, falta de provas e presunção de culpa

Depois de um mês e meio que 31 torcedores corintianos foram presos no Maracanã após confusão, familiares soltam nota pública intitulada “Relatos selvagens ou como fingir o combate à violência das torcidas organizadas”. O texto, recheado de fotos, denuncia a tortura e a violação de direitos aos quais foram submetidos os detidos. Para os familiares a decisão judicial pela manutenção das prisões, sem provas e sem que tenha sido feito o julgamento, se sustenta numa escolha política de preservação da imagem e da credibilidade dos próprios agentes e órgãos do Estado.

A argumentação dos familiares de que a presunção de culpa é o que está prevalecendo tem agora a seu favor a recente decisão da justiça de absolver, por falta de provas, o único menor de idade entre os 31 presos. A audiência e absolvição do menor foi feita na quarta-feira (16/11). Com base em imagens de câmera do entorno do estádio, no escaneamento do momento em que o ingresso passou pela catraca do estádio e de testemunhos em que policiais admitiram não ter certeza do reconhecimento físico do rapaz de 17 anos, foi provado que nem mesmo dentro do Maracanã ele estava no momento da confusão.

“Se não há certeza do reconhecimento que os policiais fizeram de um deles, as outras certezas também caem por terra, a não ser que existam provas factuais, como imagens, que identifiquem os agressores”, afirmou o irmão de um dos 30 que seguem presos. Assim como o menor de idade, outros dos detidos também têm evidências de que sequer tinham entrado no estádio no momento do confronto ou que comprovadamente estavam distantes daquele ponto da arquibancada. É o caso, por exemplo, do corretor André Tavares, que tem fotos no metrô e fora do estádio no momento em que a confusão acontecia.

Na nota publicada, familiares apontam que nas imagens que dão suporte às prisões “27 dos 31 que estão presos não aparecem”. “Isso torna inadmissível, repleto de vícios e plenamente nulos os depoimentos apresentados pelos supostos agentes garantidores de lei e da ordem”, afirmam. As imagens das câmeras de segurança do Maracanã até agora não foram apresentadas nos autos. Apesar das denúncias de espancamento e tortura, também não foram feitos exames de corpo delito. Um dos detidos tem câncer de pele e não está recebendo atendimento especializado. Outro teve o nariz quebrado por policiais militares.

“Cabe a punição sem provas, de jovens estudantes e trabalhadores, apenas para conforto do judiciário perante a suposta opinião pública?”, questionam os familiares, em nota. O Tribunal de Justiça justificou a manutenção das prisões argumentando que “os fatos apresentados ganharam grande repercussão social, de modo que a liberdade dos acusados, ao menos neste momento do processo, certamente colocará em xeque a credibilidade da justiça e do poder judiciário”.

“Como vem sendo comum em tempos recentes neste país, além de comportamentos estranhos ao devido processo legal e o uso exacerbado da prisão preventiva principalmente para os pobres, parece prevalecer a presunção da culpa ao arrepio da previsão basilar da presunção de inocência!”, ressalta a nota.

Está claro o abuso de autoridade e que há inocentes entre os presos.

Mesmo os eventualmente culpados não podem ser tratados desse modo.

A Justiça entrará em recesso para as festas de fim de ano e se não forem tomadas providências imediatas todos correm o risco de permanecer arbitrariamente detidos sem culpa formada.


China celebra acordo com Alemanha para desenvolvimento do futebol no país
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Juca Kfouri

Parceria de 5 anos contará com participação da Bundesliga

POR RODOLFO MOHR 

http://chinabrasilfutebol.com.br

A Federação Alemã de Futebol anunciou a celebração de um amplo acordo entre Alemanha e China para criar uma parceria de futebol entre as duas nações, com duração de 5 anos.

A negociação se deu a nível de Estado, celebrado pela chanceler alemã, Angela Merkel, e pelo presidente da China, Xi Jinping. Na ocasião da assinatura, no dia 26 de novembro, os chineses foram representados pela vice-presidente Liu Yandong.

Estiveram envolvidos na construção da parceria as federações de futebol dos dois países, a Bundesliga e o Ministério da Educação da China.

O acordo prevê intercâmbio de ideias e experiências entre os países e o suporte para desenvolvimento do futebol chinês com a formação de atletas, técnicos e árbitros, bem como o auxílio da Bundesliga na organização da Super Liga Chinesa.

A assinatura do convênio foi realizada na Chancelaria Federal, a sede do poder executivo alemão, em Berlim.

Na foto, atrás, da esquerda para direita:

Secretário Geral da Federação Chinesa, Zhang Jian; Presidente da Bundesliga, Dr. Rauball; Secretário de Estado do Ministério do Interior alemão, Sr. Engelke; CEO da Bundesliga, Mr. Seifert; Presidente da Federação Alemã de Futebol, Sr. Grindel; Secretário Geral da Federação Alemã, Dr. Curtius.

Na frente, da esquerda para direita:

Ministra-Adjunta de Relações Exteriores da China, Liu Haixing; Presidente da Federação Chinesa de Futebol e Diretor-Adjunto de Estado da Administração Geral de Esportes, Cai Zhenhua; Chanceler Alemã, Dra. Angela Merkel; Secretário Geral-Adjunto da China, Sra. Jiang; Vice-presidente da China, Sra. Liu; Embaixador Chinês na Alemanha, Sr. Shi; Ministro da Ciência e Tecnologia da China, Sr. Wan; Vice-ministro da Educação da China, Sr. Hao.


Força Chape, força Brasil!
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Juca Kfouri

POR JOÃO PAULO S. MEDINA*

Uma reflexão sobre futebol, sociedade e política

 
Alguns entendem que o futebol é uma coisa sem importância, se comparado com outros setores da atividade humana como a saúde, a educação, a economia…

 
Mas o acidente aéreo envolvendo o time da Chapecoense, em face à tamanha comoção que provocou no Brasil, na Colômbia e no mundo todo, nos mostrou mais uma vez que esta é uma manifestação social e um fenômeno cultural que transcende uma simples atividade esportiva.

 
A tragédia de um time de futebol, envolto por tantas emoções, permitiu que todos nós tivéssemos a oportunidade de vivenciar uma experiência sofrida, dolorosa, mas ao mesmo tempo rica em todas as suas dimensões e, particularmente, na dimensão que podemos chamar de espiritual ou transcendental.

 
O desastre com a Chapecoense foi capaz de unir pessoas, grupos, classes sociais, povos e nações que, em condições normais, provavelmente jamais ocorreria. A intensidade do sofrimento e da dor provocou uma catarse coletiva incomum, seguida de muitas reflexões sobre o real sentido da vida.

 
Tentar explicar esta catástrofe, seus desdobramentos e seus motivos, talvez seja desnecessário e inócuo neste momento. Não se trata de julgar se ela pode ser considerada maior ou menor do que outras tragédias que aconteceram na história da humanidade ou que acontecem no nosso cotidiano, construído com tantas incoerências, injustiças e desigualdades.

 
O fato é que nós todos, que não estávamos dentro do avião da empresa boliviana, temos uma grande oportunidade de reconstruir as nossas vidas, o nosso futebol e a nossa sociedade. E a referência pode ser o drama que matou 71 seres humanos e que tanto nos impactou e ainda mais as famílias e amigos mais próximos das vítimas deste desastre aéreo, agora inserido na história do futebol brasileiro e mundial.

 
O caso da Associação Chapecoense de Futebol, um clube até pouco tempo desconhecido e hoje reconhecido mundialmente, é emblemático. Com ele nos identificamos, por ser um exemplo de como se pode sair do nada para o céu. No fundo de nossos corações, representa um pouco de tudo aquilo que cada um de nós gostaria de conquistar como seres humanos e sociais, que passa por seguir nossos propósitos de vida, buscar nossos objetivos e, mais cedo ou mais tarde, morrer!

 
Sabemos que o futebol não é tudo que temos na vida, mas pode ser um importante vetor de transformação social, pela paixão e encantamento que causa em crianças, jovens, homens, mulheres, ricos e pobres. Na verdade, o futebol pode tanto levar à alienação como pode ser um poderoso agente de transformação da sociedade, dependendo daquilo que fazemos com ele.

 
Estamos fartos de conviver com um mundo socialmente doente, e já não temos o direito de aceitar tudo isso de forma tão passiva. Na correlação de forças que divide o futebol e de forma mais ampla toda a sociedade em interesses conflitantes e contraditórios, precisamos tomar consciência e partido contra este estado de coisas. As atuais políticas, no futebol e na sociedade, estão decadentes, na contramão da história do desenvolvimento humano e social, e precisam ser renovadas.

 
A política deve ser entendida como ciência e arte da negociação ou a capacidade de indivíduos e grupos para se compatibilizar interesses coletivos. Neste sentido, não podemos mais continuar dizendo que não gostamos de política. Queiramos ou não, é ela que conduz nossos destinos. Não se combate a “má política” com a “não política”. Só se combate esta má política que nos cerca e nos anula enquanto cidadãos, com a boa política. E ela só pode ser conduzida por meio da voz e atitude daqueles que acreditam que é possível superar as injustiças e as desigualdades do ambiente em que vivemos. Trata-se, portanto, de consolidarmos um movimento que flui muito mais, se for conduzido de baixo para cima, ou seja, a partir da sensibilidade, das angústias, do amor – sim, do amor – das pessoas (crianças, jovens, adultos) humildes, marginalizadas, sem direitos e oportunidades.

 
Saber o que significa genuinamente a boa política e trabalhar para construí-la é, talvez, o nosso grande desafio nestes tempos difíceis.

 

Afinal, é ela que poderá nos levar na direção da emancipação e de uma verdadeira interdependência saudável entre todos aqueles que acreditam nestas mudanças, rumo a uma sociedade nova e melhor.
É hora de gritarmos; entrarmos em campo para conduzir o jogo de nossas vidas. E isto só é possível se fizermos todos juntos, coletivamente, por meio da política, da boa política.

 
Força Chape!
Força Brasil!

*João Paulo S. Medina é presidente da Universidade do Futebol.


O jogo eterno
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

É uma enorme ilusão.

Passaremos este domingo inteiro achando que hoje não está ocorrendo nenhum jogo de futebol no Brasil.

Ligaremos a TV e não haverá futebol. O rádio, a internet, nada.

Alguns irão aos estádios para se certificar. Tudo fechado.

De alguns prédios dá pra enxergar arquibancadas e mesmo o campo de alguns estádios – e também nada se verá.

Alguns, teimosos, com mais dinheiro, alugarão helicópteros para sobrevoar os campos – e não verão jogo algum.

Por isso, passaremos o domingo achando – melhor, acreditando convictamente – que não há futebol no Brasil hoje.

É uma enorme ilusão.

Fundada na ideia de que a morte dos jogadores da Chapecoense (e dos demais atingidos pela tragédia) fez parar o futebol, fechar os estádios, engavetar as bolas, estender o silêncio sobre os campos e desfraldar a ausência nas arquibancadas.

É o que vemos hoje.

Mas é uma enorme ilusão.

Porque em todos os campos, em todos os estádios, de todo o país, estão jogando hoje, o domingo inteiro, fazendo gols e defesas, os jogadores da Chapecoense.

Vivos.

Porque, apesar de terem morrido no acidente de avião na terça-feira, eles já renasceram.

Foram ressuscitados na cerimônia do estádio Atanasio Girardot, em Medellín, na quarta-feira, quando cinquenta mil ou mais pessoas transformaram o campo do Atlético Nacional no inverso do Coliseu.

Em Roma a torcida, em êxtase, com o sangue gritando pelos olhos e bocas, decidia a morte dos vivos que combatiam na arena. E ali mesmo eles eram mortos.

Em Medellín a multidão de torcedores decidiu, em silêncio, com as almas em uníssono, que os jogadores da Chapecoense, mortos, voltariam a viver.

E então, naquele local e naquela hora, fez-se o milagre: a torcida de Medellín devolveu a vida a todos os jogadores da Chapecoense.

Por isso é que é uma enorme ilusão o que não vemos hoje nos estádios do Brasil.

Os jogadores da Chapecoense, ressuscitados no estádio Atanasio Girardot pela torcida colombiana, estão jogando hoje, o domingo inteiro, em todos os campos do país.

Mais vivos do que nunca.

E assim ficarão para sempre.

Jogando o jogo eterno.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).


A glória, a tragédia e o velho Chapecó
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Juca Kfouri

POR BRUNO AMABILE BRACCO*

Jogo mais importante da história do clube. Último minuto da semifinal do torneio continental. É um clube modesto, que heroicamente sobe, em seis anos, da quarta para a primeira divisão nacional. De repente, tem à frente um gigante argentino, recentemente campeão da América, time do Papa. Mas o clube modesto tem seu dia heroico. Bravamente, segura o empate que garante a passagem à inédita e grandiosa final do torneio continental. Bravamente, segura o empate até o último minuto.

Último minuto. O gigante argentino cruza a bola na área. A bola é rebatida. Sobra, limpa, para um jogador argentino, frente à frente com o goleiro. Todo o estádio se cala. No último minuto do jogo mais importante da história do clube, aquele segundo parece eterno. O jogador argentino arma o chute fatal. Talvez dois ou três metros entre a bola e o gigantesco gol à frente: gol de mais de sete metros de largura e quase dois e meio de altura. O chute vem. É o golpe fatal de Golias contra Davi.

Mas não. Não neste dia sublime. Num movimento magistral, o goleiro do modesto clube sacramenta em glórias aquele dia destinado a ser heroico. Uma perna esticada. A bola, que parecia certeira em direção ao gol imenso, explode na perna direita esticada do goleiro-herói. É o dia de maior alegria nos 43 anos de vida daquele modesto clube – que jamais havia sido tão gigante.

Há uma lenda antiquíssima que tenta retratar o profundo mistério da vida.

Conta-se que havia um povoado em que muito do trabalho necessário era realizado por cavalos. Um já idoso senhor possuía o mais belo e forte cavalo do povoado. O cavalo, entretanto, certo dia fugiu.

Todos ficaram perplexos e, repletos de piedade, dirigiam-se ao velho com palavras de pesar, ao que o senhor respondia: “Por que falam assim? O cavalo se foi, mas como podemos dizer se isso é bom ou ruim? Deixemos que o tempo nos traga suas respostas”.

No dia seguinte, o cavalo retornou trazendo consigo sete outros cavalos. O povoado encheu-se de alegria e resolveu celebrar. “O velho estava certo”, diziam. “A fuga do cavalo era o melhor que poderia ter acontecido!” Mas o ancião era o único que se mantinha sereno. “Chegaram aqui sete novos cavalos. Mas como poderemos afirmar se isso é motivo para comemorações? Deixemos que o tempo nos traga suas respostas”.

Mais um dia se passou e, numa cavalgada, um dos novos cavalos derrubou o filho do velho, quebrando sua perna. “Velho sábio”, todos pensaram. “Ele sabia que esses novos cavalos não trariam coisa boa ao povoado, e eis o resultado”. Mas o velho se mantinha tranquilo. A perna quebrada de seu filho seria de fato motivo de lamentação? Somente o tempo traria suas respostas.

No dia seguinte, chefes do exército vieram ao povoado recrutar soldados. Como o filho do sábio ancião estava com a perna quebrada, foi poupado da guerra. O povo surpreendeu-se novamente. Mas o velho mantinha sua postura. O velho sempre mantinha sua postura. A história, do velho e de cada um de nós, prossegue indefinidamente. A sabedoria de vida suprema do ancião estava em saber que nada poderia saber sobre a vida. A sabedoria suprema do ancião estava em saber que a sabedoria está apenas no tempo – e o tempo sempre seguirá seu curso, contará suas histórias e trará suas respostas.

A heroica perna esticada no último minuto do jogo histórico. O juiz apita o fim da partida. O modesto clube tem a maior glória de seus 43 anos de vida. Está na final do torneio continental.

O tempo traz, contudo, suas respostas. O tempo traz suas respostas mesmo quando nós não sabemos qual era a pergunta. Cai na Colômbia o avião que transportava os jogadores e a comissão técnica para a tão esperada final do torneio continental, contra aquele que é, hoje, o melhor time das Américas. Não entendemos as tramas misteriosas da vida. Nunca conseguimos de fato entender, por mais que tanto queiramos. Nos desesperamos a cada dia em que percebemos que não estamos no controle da nossa própria história. Nos desesperamos a cada dia em que a vida escancara diante da nossa cara atônita que não temos a menor ideia, de fato, sobre o que é bom e o que é mau.

Dias de grandes tragédias escancaram nossa pequenez. Contentamo-nos com nossas pequenas vitórias sem termos a menor ideia se são, de fato, gloriosas. Desesperamo-nos com nossas pequenas derrotas sem saber as bênçãos que a vida pode esconder no aparentemente trágico. Seguimos como os habitantes comuns do antigo povoado: rindo e chorando diante de cada acontecimento em nossas vidas, como se soubéssemos que são motivos para choro ou para riso. Mas não sabemos. Nunca soubemos.

Mas talvez viva, em Medellin ou em Chapecó, um sábio ancião. Um ancião que sabe que nada pode saber. Um velho que sabe que uma perna quebrada não necessariamente é trágica e que uma heroica perna esticada não necessariamente é gloriosa. E que talvez, com seus olhos sábios, consiga ver ainda além.

Gosto de imaginar o velho se levantando nas primeiras horas da manhã e preparando, em silêncio, seu café. Um vizinho vem, com os olhos fundos de tristeza, e lhe conta a notícia da madrugada. O velho se entristece também. Mas, em seu coração, mantém a serenidade. Porque sabe que pernas esticadas não necessariamente são gloriosas e pernas quebradas não necessariamente são tristes. Porque sabe: só o tempo pode dar a verdadeira dimensão das nossas vitórias e das nossas derrotas. E, acima de tudo, sabe: mesmo a mais aparentemente insuportável dor das grandes perdas e das grandes tragédias talvez seja apenas um pequeno momento na infindável trama da existência. Apenas um pequenino momento que nossos pequeninos olhos podem ver. Nas imensas profundezas do seu coração, o velho sabe: a história continua. Sempre continuará. E o tempo continuará nos trazendo suas respostas.

Talvez viva, em Medellin ou em Chapecó, um velho.

*Bruno Amabile Bracco é Defensor público, mestre e doutor em Criminologia pela USP e autor dos livros “Carl Jung e o Direito Penal” e “A Gnose de Sofia”.

Publicado originalmente no sítio Justificando.


Escalação gigante
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Juca Kfouri

POR FELIPE DOS SANTOS SOUZA*

Nacional campeão da Libertadores-1989: Higuita; Gildardo Gómez, Perea, Escobar e Villa; Pérez, Leonel Alvarez, Fajardo e Alexis García; Usuriaga e Arango.


Nacional campeão da Libertadores-2016: Armani; Bocanegra, Sánchez, Henriquez e Díaz; Arias e Perez; Berrio, Torres e Moreno; Borja.


Só não dá para citar a escalação do time que conseguiu uma vitória inesquecível ontem à noite, no Atanasio Girardot, porque é impossível escalar mais de 40 mil pessoas.

*Felipe dos Santos Souza é historiador e trabalha na ESPN.

 


Chape para sempre
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Juca Kfouri

POR EDUARDO DE MACEDO ALVES*

Conheci o Sr. Alvadir, fundador da Chapecoense, durante o período em que participei da administração do Figueirense. Ele, membros da diretoria e o diretor de futebol estiveram no Orlando Scarpelli em um jogo contra o Figueira pelo Campeonato Catarinense.


Durante o jogo, um legítimo banho de bola que terminou 3 x 0 para eles, conversei com o Sr. Alvadir e com a delegação da Chape sobre o projeto que eles tinham para o clube: uma administração enxuta, sem aventuras, com os pés no chão e foco na formação de uma equipe competitiva e comprometida.

Já naquele tempo, mesmo com a Chape ainda na série B do Campeonato Brasileiro (seria promovida à série A no final daquele ano), já se podia ver o resultado do trabalho. O time não tinha nenhuma estrela e nenhum estrelismo, mas tinha padrão tático, entrosamento, e não foi por acaso que venceu com relativa tranquilidade nossa equipe de série A e orçamento quase três vezes superior.

Durante todo o jogo, a diretoria da Chape mostrou sua educação diferenciada – apesar do placar avantajado e domínio completo de um jogo importante, não comemorou os gols ou vangloriou-se do resultado.

O Sr. Alvadir não estava no fatídico avião que caiu ontem. Recupera-se de um AVC e não acompanhava a equipe. Mas o presidente e a maior parte da diretoria que aprendi a admirar lá estava, assim como praticamente todos os jogadores, comissão técnica e profissionais da imprensa.

Pelo pouco que conheci das pessoas que fundaram o clube, a ascensão da Chape não me surpreendeu. Fiquei muito feliz pela conquista de uma final de Sul-Americana, e torcia por um título inédito não só para a Chape, mas para o futebol catarinense.

Também pelo que conheci deste clube, tenho a certeza de que se recuperará. A ferida será profunda, mas o trabalho sério e o tempo a superarão.

Como cidadãos, podemos ajudar – entendo que a melhor forma seja tornarmo-nos sócios do clube e demonstrarmos nossa solidariedade às propostas que os clubes brasileiros já anunciaram para colaborar: o empréstimo gratuito de jogadores e a estabilidade do clube na série A por algumas temporadas.

De resto, só posso dizer que ontem meu coração corintiano pela primeira vez amanheceu verde, e assim ficará, ao menos um pedacinho, até o fim.

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*Eduardo de Macedo Alves é empresário e corintiano (agora um pouco alviverde).

NOTA DO BLOG: Para se associar, clique AQUI.


Caos corintiano
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Juca Kfouri

POR JUCA KFOURI*

Até em impeachment por motivo tosco se fala no Corinthians, não porque haja fato realmente grave e prejudicial ao clube, mas porque a gestão do presidente Roberto de Andrade, inventado pelo ex-presidente Andrés Sanchez, encalacrado no STF, é abaixo da crítica.

Os que querem dar o golpe eram seus aliados quando tudo parecia correr a mil maravilhas e o time de futebol era campeão.

Agora, como o time é quase tão ruim como o cartola, um bando de oportunistas quer afastá-lo, alguns de olho na administração do estádio –o que afunda, e é objeto de uma coleção de ilegalidades contratuais.

Sim, afunda a ponto de a Odebrecht, sem autorização do Corinthians e sem dar conhecimento a quem de direito como a prefeitura e o Conselho Regional de Engenharia, esteve calçando tubos que deslizaram no subsolo do estacionamento oeste por causa do curso d’água que, irregularmente, passa por baixo do prédio. O Ministério Público foi lá –e não viu.

A empreiteira que negava haver problemas, age agora emergencialmente porque “a auditoria do Corinthians identificou riscos, mas nada fez para corrigi-los”.

A mesma Odebrecht que garante não estar mais no estádio, mas está e que agora, delação premiada quase aceita, tem mais que nunca o deputado petista Andrés Sanchez na mão, embora o caixa 2 possa ser anistiado pelos nobres parlamentares em Brasília, sem que se tenha ouvido uma panela nas varandas gourmets.

A auditoria é caso à parte.

Como se sabe é tocada pelo bacharel em Direito Paulo Molina, amigo de infância de Andrés Sanchez.

A cada dia seu papel fica mais claro, como se fosse o Velho Guerreiro Chacrinha, que veio para confundir, não para explicar.

A auditoria vaza mais informação que os 20 milhões de litros d’água sob o estádio, banaliza o efeito do que descobre e tem apenas uma intenção, desdobrada em diversos detalhes: livrar a cara dos cartolas envolvidos, manter intacta a imagem do estádio e diminuir o tamanho da dívida do Corinthians.

Só agora, tardiamente, bate de frente com a Odebrecht.

Se quisesse enfrentar com eficácia a construtora teria, na semana que passou, ao descobrir a envergadura do que está em execução sob o estádio, feito um boletim de ocorrência na delegacia de Itaquera e a denunciado pela ilegalidade da obra.

Mas limitou-se a mandar filmes do estado lamentável das tubulações para o conselheiro do clube, Romeu Tuma Júnior, botar em sua rede social.

Prova mais eloquente de que não se quer chegar a lugar nenhum minimamente sério é impossível.

Como no Brasil do impeachment a turma que quer tomar o poder no Corinthians é despudorada e a que quer se manter faz uma lambança em cima da outra.

Em resumo: ruim com uma, pior com a outra.

O dramático é que não há luz no fim do túnel.

ESCURIDÃO

O vice-presidente André “Negão” não tem biografia, mas folha corrida, além de ser unha e carne com Andrés Sanchez.

O grupo que quer o impeachment tem conselheiro apelidado de “171 do Vale do Paraíba” e é capitaneado por Herói Vicente, advogado em busca de sair da obscuridade como uma nova Janaína Paschoal. Pronto, saiu!

*Publicado originalmente na “Folha de S.Paulo” no último domingo.



Para onde vai a Chapecoense?
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Entre tantas perguntas sobre o passado.

Resta uma pergunta sobre o futuro?

Para onde vai a Chapecoense?

Chapecoense da pequena Chapecó.

Cidade de duzentos mil habitantes apaixonados por futebol.

A resposta pode estar no trajeto de quem viveu tragédia semelhante.

E a resposta pode ser triste ou alegre.

O Grande Torino recebeu homenagens pelo mundo.

O River Plate se trajou de grená.

Di Stefano e sua trupe jogaram em Turim.

Torneios se disputaram em sua honra.

Mas a Torino não suportou a perda dos seus craques.

A Torino se tornou um clube comum.

Já o Manchester renasce das cinzas.

Pelos pés de Dennis Law, George Best.

Pelos raros cabelos de Bobby Charlton.

Até mesmo o rebaixamento nos anos 70 é superado.

Graças ao Messias Alex Fergusson.

Nenhuma das equipes recebeu grandes benefícios de seus compadres.

Nenhuma das equipes recebeu jogadores de seus compadres.

Nenhuma das equipes permaneceu na divisão especial por amizade.

O que foi uma total falta de esportividade.

Quando grandes clubes brasileiros decidem ajudar a Chapecoense.

Emprestando jogadores.

Permitindo que durante três anos não seja rebaixada na Série A.

O futebol nacional dá exemplo ao mundo.

Exemplo que pode se tornar mais belo.

Quando o campeão brasileiro se vestir de Chapecoense na última rodada.

Pois o Palmeiras só deixou de ser Palmeiras.

Quando vestiu o manto da seleção brasileira em 1965…


O futebol de aviões
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Não existiria futebol moderno sem aviões.

A primeira Copa do Mundo foi disputada de barco – assim como a segunda e a terceira.

A quarta já tinha aviões.

A Inglaterra chegou pelo ares ao Brasil.

Mas a Itália veio pelo Atlântico.

Porque a Itália acabara de conhecer os perigos da aviação.

O supertime do Torino desaparecendo em Superga.

Foi a primeira vez que os aviões decidiram uma Copa do Mundo.

A Itália veio desgovernada para a Copa de 50.

Foi desclassificada pela Suécia.

E deixou de conquistar a Jules Rimet em definitivo.

Quase dez anos depois.

Os aviões quase aniquilam o Manchester United.

Jóia da Coroa inglesa saída da II Guerra Mundial.

Duncan Edwards e Tommy Taylor se vão.

Bobby Charlton se salva por milagre.

A Inglaterra chega capenga na Copa de 58.

Empata com o Brasil sem Pelé e Garrincha.

Brasil que ela goleara em 1956.

Atrasa seu projeto de ser campeã mundial até 1966 – com Charlton.

Em 1987, chegou a vez do Alianza de Lima.

O time desparece no mar de Ventanilla.

Para sempre.

E os aviões voltaram a assombrar na noite da Chapecoense.

Porque não existiria futebol moderno sem aviões.

Pelé e Messi passaram mais tempo neles que dentro de campo.

Porém, Gérson, Berman e Bergkamp não eram loucos afinal.

Tudo que é sólido corre o risco de desmanchar no ar…


Palmeiras, minha vida é você
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Juca Kfouri

POR MAURO FRANCISCO PAULINO*


Podia ser em qualquer outro momento, mas deu de acontecer bem no dia da final da Copa do Brasil contra o Santos, há um ano. Perdi justo o grande jogo. Por quê? Enfartei, no meio do caminho.

Tudo bem, foi em frente ao Samaritano. Tenho muita sorte, e um stent resolveu. Me convenci, vencendo meus fortes contra-argumentos, que era caso grave o bastante para desistir daquela final. Vida que segue? Não.

No ambulatório isolado apenas com minha mulher, enquanto aguardava o diagnóstico, tentava ouvir Silvério no rádio muito baixo do paciente vizinho. Aos dez do segundo tempo surgiu o médico. A má notícia se misturou com a narração, agora em bom som, do gol de Dudu. Que mania nós, brasileiros, temos de aumentar o volume na hora do gol. Ficamos, eu, ela e o médico, impassíveis sob aquele afinado, interminável grito de gol. A voz de Silvério ecoará até o fim da história.

Decidi então, com a empáfia dos enfartados diante do médico, que ano que vem, sem falta, veria o Palmeiras campeão, no Allianz. E sem mesmo combinar com os russos do destino adversário. Foi meu kit de sobrevivência, desde então.

Mas, por serem os russos duros na queda – especialmente quando menosprezados – novo diagnóstico se revelou semanas depois: mieloma múltiplo, um câncer hematológico que me obrigou a severo tratamento nos meses seguintes com quimioterapias, transplante de medula e tantos percalços decorrentes.

Virei aquele personagem tão popular do YouTube: Joseph Climber. Como o futebol, “a vida é mesmo uma caixinha de surpresas”. Tentei compor um tango.

Tempo para isso não faltou: nove meses longe de tudo, mas grudado à família, aos amigos, aos médicos mais que amigos; e ao Palmeiras, que a cada rodada elevava aquele meu devaneio a objetivo concreto. O destino joga como o Barcelona., mas não é imbatível.

Embalado, voltei antes do previsto ao convívio com os craques do meu Datafolha – mal comparando, como um Tostão em 70 – a tempo de atuar nas eleições, que é nossa Copa do Mundo. Obviamente, driblando os médicos, retornei também ao Allianz para seguir o líder a concretizar meu arrogante sonho.

Hoje, só hoje, cheguei à grande final. Após um ano, sinto-me campeão aos montes, como vencedor de um prêmio acumulado. Celebrei sozinho na mesma cadeira onde deveria ter estado em 2015. Os “deuses do futebol” multiplicaram minha alegria. Armando meu time, viraram o jogo contra o destino. Aconteceu!

Estou feliz como só os campeões podem ser. Os ecos de Silvério se ligaram, enfim. Completei o longo rito de passagem para o que virá.

Definitivamente, futebol não é só futebol. O Palmeiras, mais do que sempre, é minha vida. Avanti! Afinal, o Palmeiras não tem mundial…

*Mauro Francisco Paulino é diretor-geral do Datafolha.



Presidente da CBF, Del Nero manteve conta bancária nos EUA por 12 anos
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Juca Kfouri

POR SÉRGIO RANGEL, da Folha de S.Paulo e no UOL

 

O presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, foi dono de uma conta bancária durante 12 anos nos EUA. Ele a encerrou em 2011 ao depositar o saldo em conta da Danford Corporate Services INC, um fundo de investimento privado com sede nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal.

A existência da conta foi detectada pelo FBI (a polícia federal americana) e compartilhada com a Polícia Federal.


O documento, obtido pela Folha, afirma que a conta de Del Nero nos Estados Unidos registrou transações em 2004 com “indivíduos relacionados ao futebol e à Fifa”.

Em dezembro, a Justiça americana indiciou o presidente da CBF. Ele é acusado de fazer parte de um esquema de recebimento de propina na venda de direitos comerciais de torneios no Brasil e no exterior. Desde então, o cartola não saiu do Brasil.

Em depoimento aos senadores da CPI do Futebol em dezembro de 2015, o presidente da CBF negou que tivesse uma conta no exterior e afirmou que nunca esteve em um paraíso fiscal.

Segundo o FBI, a conta registrada em nome de Del Nero foi aberta no HSBC Internacional Private Bank, em Miami, na Flórida, no dia 16 de junho de 1999, quando o dirigente era presidente do Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo.

Ele chegou ao comando da Federação Paulista de Futebol em 2003. Nove anos depois, o dirigente se tornou o principal executivo da CBF durante a gestão de José Maria Marin, que atualmente cumpre prisão domiciliar nos Estados Unidos sob a mesma acusação de Del Nero.

Em abril de 2015, o cartola assumiu a chefia da CBF.

Segundo o documento, Del Nero era o titular da conta. Seu filho Marco Polo Del Nero Filho e sua ex-mulher Marcia Val Baldrati eram identificados como “sub-donos”.

Para realizar operação financeira como esta, o cliente precisa manter saldo de US$ 2 milhões, segundo relato dos agentes norte-americanos.

As informações repassadas pela polícia americana serão anexadas ao relatório paralelo que o senador Romário (PSB-RJ) vai apresentar na CPI do Futebol.

NOVA CONTA

Na investigação, os agentes do FBI chegaram a questionar Margarida Coutinho, gerente da conta do cartola no banco em Miami.

Segundo os advogados do banco, o atual presidente da CBF tentou abrir uma nova conta em 2011 com a mesma gerente, que recusou a oferta. De acordo com o informe, a gerente “declinou o pedido” justificando “preocupação com as relações de Del Nero com a Fifa”.

O banco informou ainda que o vínculo do cartola com a instituição terminou no dia 17 de agosto de 2011.

Antes disso, no dia 4 de agosto de 2011, ele transferiu o saldo disponível no banco americano (o valor não foi informado) para uma conta da Danford Corporate Services INC, no Safra National Bank of New York.

A empresa beneficiada pelo cartola é sediada nas Ilhas Virgens Britânicas e está em nome de Silvio de Jesus Gaspar. Segundo o documento, o empresário é residente no Brasil e dono da RV Brasil Indústria Aeronáutica.

OUTRO LADO

Em nota, o presidente da CBF disse que “toda e qualquer movimentação financeira, em qualquer país, foi e está declarada no IR e seus impostos recolhidos”.

À CPI, Del Nero negou ter conta no exterior: “Não tenho conta no exterior. Nem conta, nem trust”.

Ele não respondeu à Folha o motivo de ter depositado o saldo de sua conta nos EUA para uma empresa com sede em um paraíso fiscal.

O empresário dono da Danford Corporate Services INC não foi localizado.


Con la zurda
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para o Osvaldo Mañay (in memorian)

1.
De repente, dá-se conta de que é jogador de videogame. Vê-se caminhando – nunca o fizera – na entrada dos times em campo. Correndo para bater bola. As luzes, a torcida, os outros jogadores se aquecendo.

O jogo começa e a movimentação o atordoa. Percebe que, como nunca antes, pode olhar e se mover para todos os lados. Bolas divididas, marcação intensa, faltas, impedimentos. Não sabe o que fazer.

Esforça-se, mas aquilo é muito estranho. Sempre jogara parado: um drible, um corte, um chute ou o passe fatal para o centroavante. Agora aquela correria.

Pior: seu time joga em contra-ataques, e ele, na ponta direita, é o responsável por receber os lançamentos, correr pela lateral ou fechar para o meio em alta velocidade. Ele tenta algumas vezes, mas não consegue.

Jogara mais de trinta anos de ponta-direita no pebolim do “Negro” Fontanarossa. Quase dez mil gols marcados. Fora os milhares que dera para o centroavante, que deve ter feito uns vinte mil. Aliás, onde ele estará? E os demais? Nenhum jogador em campo ou nos bancos é conhecido. Ninguém veio do pebolim. Só ele.

Vem de novo a bola em sua direção, para ele partir correndo. Mas ele não sai do lugar. Recebe e domina. Descumpre o comando do joystick – escuta as mãos nervosas apertando os botões inúteis, os palavrões.

Fica com o pé em cima da bola. Posiciona-se onde sempre jogara: estático, na frente, na ponta direita.

Todos olham. Ali ele se movimenta para um lado e para o outro, com a bola sob a chuteira. Chega até o bico da grande área (“el área 18”). A defesa do outro time já voltara e estava em linha.

Ele olha, vê a brecha entre o zagueiro e o arqueiro e solta a pancada. A bola bate na trave e entra.

Gol! Igual a muitos que fizera

E ali ele fica. Não se mexe.

Se o quiserem no videogame, terá de ser como Fontanarossa o consagrou no “metegol”.

2.
Quando, nos anos quarenta, num conto do Cortázar, ele acompanhou uma inspeção oficial da companhia, acabou verificando que, num dado dia, saíram do metrô quatro pessoas a menos do que entraram.

Suas investigações sobre o mistério levaram-no a conclusões diferentes do que supunha a teoria de um amigo.

Segundo este, tal qual numa multidão saindo do Monumental ou da Bombonera, ou num aglomerado da Florida, ou numa manada de búfalos, haveria um desgaste atômico causado pelo atrito de tantas pessoas.

O desgaste causado nas roupas e corpos por tamanho e tão numeroso atrito produziria imperceptivelmente o desaparecimento de algumas unidades da multidão.

Setenta anos depois, resolve, neste conto, verificar a tese. Não conseguiria testá-la entre os búfalos nem no calçadão das lojas do centro.

Começa então a fazê-lo em vários estádios. Nos pequenos, espera fecharem as portas e vai até o responsável pela bilheteria. Alega auditoria federal ou algo assim. Pega o número. Checa a contagem nas roletas. Depois de todos saírem, passa, uma a uma, todas as catracas.

Nos grandes, copia os chips eletrônicos.

E comprova. Em todos os jogos, a partir de um determinado número de torcedores (nos pequenos públicos não há atrito suficiente), saem às vezes dois, às vezes três, às vezes quatro pessoas a menos do que entraram. Num jogo que lotou a Bombonera, chegou a contar oito de diferença!

Descartou desvio de recursos porque o número é pequeno – tais roubos sempre são muito maiores.

Pensa em procurar o amigo que lhe apresentara a teoria. Ou o próprio Cortázar, para mudar o conto. Mas eles não existem mais.

Talvez tenham desaparecido na saída de um River e Boca.
___________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)



Dida não vai para China. Voltou de lá
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Juca Kfouri

A experiência de Dida na China

Em entrevista exclusiva ao China Brasil Futebol, Dida revela seus três meses com Seedorf no Shenzhen FC


POR RODOLFO MOHR

O consagrado ex-goleiro da Seleção Brasileira e do Milan, Dida, não está de malas prontas para o futebol chinês.

Ao contrário do que indicaram algumas notícias, o ex-atleta não foi contratado em definitivo pelo Shenzhen FC, equipe da segunda divisão comandada por Clarence Seedorf.

“Estive a convite do Seedorf para acompanhar as partidas finais da temporada. Foram três meses na China mas já retornei para concluir o curso e obter a licença de treinador da CBF em dezembro. Sem essa licença não posso comandar equipes”, revelou com exclusividade ao China Brasil Futebol.

Dida, na verdade, exerceu as funções de assistente e consultor do Shenzhen, a convite de Seedorf. Além do dia a dia no clube, realizou trabalho de observação em jogos da Super Liga Chinesa, a primeira divisão do país.

“O futebol de lá está crescendo muito. Tecnicamente ainda são inferiores, mas os chineses estão querendo aprender e se aprimorar mais em questões táticas”, relatou.

O foco de Dida segue sendo sua formação. Concluiu o curso de Gestão Técnica da Universidade do Futebol, está fazendo fazendo o curso de treinadores na CBF e não pretende parar por aí. “Após a conclusão do curso da CBF pretendo fazer outro ano que vem na Itália”, planeja. O ex-goleiro ainda realizou um período de observação obrigatória para o curso da CBF no Internacional.

Aspectos como gestão de grupo, metodologia de treino, questões táticas e técnicas, fundamentais para a carreira de treinador, são objetos permanentes de estudo do futuro treinador.

Dida, 43 anos, é um dos maiores goleiros da história do futebol brasileiro. Conquistou a Copa do Mundo de 2002 pela Seleção Brasileira. No Brasil vestiu as camisetas do Vitória, Cruzeiro, Corinthians, Portuguesa, Grêmio e Internacional. Na Europa, defendeu o Milan por dez anos, onde foi duas vezes campeão da UEFA Champions League: em 2003 e 2007.

O Shenzhem FC é um clube da cidade de Shenzen, província de Guandong, ao sul da China, próximo a Hong Kong e a Macau. Na temporada 2016 da Liga Um Chinesa, a segunda divisão nacional, terminou em nono lugar com 40 pontos.


O treinador Clarence Seedor, seu auxiliar Valerio Fioti e Dida trabalharam juntos no Shenzhen FC


 


Futebol além do futebol
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Juca Kfouri

Recentemente, o técnico da seleção uruguaia, Óscar Tabárez, afirmou que “o futebol é uma excelente desculpa para falar de coisas mais importantes do que o futebol”.

E é com esse olhar que o livro “Além das Quatro Linhas” é lançado pela editora Vento Norte Cartonero.


A obra é uma compilação de reportagens do jornalista Roberto Jardim que têm o esporte mais popular do mundo com ponto de partida, mas que, como diz o título, vai além.

Dividido como uma partida, o livro reúne textos que resgatam alguns fatos históricos passados no Sul da América do Sul.

Na “primeira etapa”, duas matérias relatam episódios envolvendo futebol e as ditaduras do Chile e do Uruguai, nos anos 70.

No “intervalo”, um texto que resgata o único vexame da nefasta Operação Condor – que foi desvendado por dois jornalistas de Porto Alegre, pois um dos envolvidos era um ex-jogador de futebol. E, no “segundo tempo”, dois feitos marcantes do futebol da capital gaúcha protagonizados por Cruzeiro e São José.

Como diz o prefácio, assinado pelo jornalista Juca Kfouri, “Jardim tem o belo hábito de olhar para o futebol como uma forma de integração social, como mobilizador, não como alienante, equívoco frequente até entre gente que costuma pensar bem”. Kfouri finaliza: “Regar a plantinha da democracia é a tarefa de todos nós. Em todos os campos! Eduardo Galeano adoraria o livro de Roberto Jardim”.

LITERATURA CARTONETA – O movimento cartonero surgiu na Argentina por volta de 2001, período de uma grave crise econômica que deixou milhares de desempregados. Foi nessa época que o escritor Washinton Cucurto teve a ideia de fazer livros a partir do papelão recolhido nas ruas pelos desempregados que acabaram virando catadores.

Criado como uma espécie de fonte alternativa de renda acabou se tornando um fenômeno no país, com centenas de livros comercializados diariamente. A partir de então, a literatura cartonera virou uma tendência entre editoras alternativas dos países latino-americanos – com trabalhos espalhados do Chile ao México – e uma espécie resistência na forma de disseminar a cultura do livro e de tentar, de alguma forma, promover o resgate da cidadania.

A Vento Norte é o projeto de um pequeno grupo de pessoas que reside na cidade de Santa Maria (RS) direcionado a realizar de forma autogestionária, e sem vínculos nem apoio institucional de qualquer espécie, o trabalho de edição e circulação de livrinhos com capas de papelão confeccionadas a mão. Títulos de novos autores ou já publicados – a partir de cedência dos direitos – ajudam a construir um catálogo de literatura cartonera no Sul do Brasil.

Serviço
O que: lançamento do livro cartonero Além das Quatro Linha, coletânea de reportagens de Roberto Jardim.

Quando: 25 de novembro (sexta-feira), 19h
Onde: Brechó do Futebol, Rua Fernando Machado, 1188, Centro Histórico, Porto Alegre
Quanto: R$ 12
Como comprar: na hora ou por encomenda no facebook da Vento Norte Cartonero (facebook.com/ventonortecartonero)



STF 6, Andrés Sanchez 0
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Juca Kfouri

Com a decisão de ontem do ministro Teori Zavaski, sobe para seis o total de inquéritos que tramitam contra o ex-presidente do Corinthians, e deputado federal do PT, Andrés Sanchez no STF.


Uma rápida pesquisa revela que Andrés Navarro Sanchez, decorrente do foro privilegiado, tem mais cinco inquéritos criminais, que transitavam antes em primeira instância, tramitando no STF.

Tais inquéritos, anteriores a 2015, estão com o ministro Luiz Fux.

Se condenado em um único dos cinco processos por alguma das turmas do mencionado tribunal, além de perder o cargo de deputado federal, Sanchez pode ter sua prisão decretada.

Inq/3487DIREITO PENAL | Crimes Previstos na Legislação Extravagante | Crimes de “Lavagem” ou Ocultação de Bens, Direitos ou Valores

Inq/4077DIREITO PENAL | Crimes Praticados por Particular Contra a Administração em Geral | Sonegação de contribuição previdenciária

Inq/4069DIREITO PENAL | Crimes contra o Patrimônio | Apropriação indébita Previdenciária

Inq/4070DIREITO PENAL | Crimes Praticados por Particular Contra a Administração em Geral | Sonegação de contribuição previdenciária

Inq/4276 DIREITO PENAL | Crimes Previstos na Legislação Extravagante | Crimes contra a Ordem Tributária


Hermanos brasileiros
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Eles chegaram aos poucos e aos montes.

Primeiro nos anos 30 e 40.

E foram nos ensinando a jogar bola.

De tal forma que uma seleção brasileira de hermanos não é fora de propósito.

Para o gol Cejas ou Andrada.

Cejas que já veio campeão do mundo e sóbrio.

Cejas que ensinou a geometria das saídas de gol.

Andrada que deu aulas sobre devolução de bola aos brasileiros.

E quase Andrada se naturalizou para defender a seleção.

Isso sem falar no divino Fillol de breve experiência rubro negra.

A defesa é fácil.

Oscar Basso, Ramos Delgado, Perfumo e Sorín.

Basso deslocado para a lateral em respeito ao futebol.

Basso que não poderia ficar de fora.

Na frente da defesa?

O argentino que deu nome aos volantes brasileiros.

Carlos Martín Volante.

Volante que teria a seu lado o Mascherano.

Sastre distribuiria o jogo.

Sastre que foi catedrático na arte de jogar bola.

E lá na frente?

Tango, milonga e gols.

Doval, Artime e Tévez.

Vinho nas refeições.

Show dentro de campo.

Jogadores idolatrados por suas torcidas.

Quem disse que os brasileiros não amam os argentinos?


Pois se até Bernardo Gandulla virou verbete de nosso futebol!


Um conto de Adriano Bidão e um texto de Mario Filho
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Juca Kfouri


charge de Zuca Sardan

Aos 44 minutos – um conto de Adriano Bidão

Sérgio era flamenguista. Não era fanático, mas seus olhos não desgrudavam da TV e ele sempre deixava claro que era rubro-negro antes de ser brasileiro. Não gostava de zombar quando o time adversário dos colegas de trabalho perdia. Dizia que respeitava a tristeza alheia. Jamais discutiu por causa de futebol e não costumava dizer palavrões. Sérgio gostava de dizer que o futebol era um esporte democrático e que dentro de campo não importava a raça, o que não era pouco num país em que o negro é discriminado veladamente. “É a única profissão em que o negro é respeitado”, costumava dizer. Não gostava de ouvir a torcida xingando a mãe de jogador que dava um passe errado nem a do juiz que deixou de apitar um pênalti claro. Já seu colega de trabalho Gusmão era um gozador, gostava de chegar ao trabalho com a camisa do Vasco quando o time vencia. Sérgio nunca demonstrou sua chateação, levava na esportiva. Levava tanto na esportiva que resolveu apostar no clássico Flamengo x Vasco de domingo.
– O Flamengo vai perder de 3 x 0, Sérgio – dizia Gusmão. – O atacante de vocês já não faz gol há três jogos. Vê se Adaílton é nome de atacante. Eu aposto com você que vai ser 3 x 0. Se o Adaílton fizer um gol no Vasco eu visto a camisa do Flamengo e ainda canto o hino. O que acha, hein? Agora se não fizer nenhum gol, você é que vai vestir a camisa e cantar o hino do Vasco. Apostado?
Sérgio aceitou a aposta, embora tenha ficado tenso ao imaginar-se vestindo a camisa de outro time. E estranhou Gusmão não cogitar a hipótese de o Flamengo vencer. Adaílton era um atacante que viera das categorias de base do Flamengo. Fez seu primeiro jogo no início do Campeonato Carioca. Era um jogador talentoso, driblador, já fazia um bom tempo que o Flamengo não revelava uma “prata da casa” como ele. Adaílton era negro, tinha um porte físico avantajado. A torcida já começava a cobrar-lhe pela falta de gols. Muitos diziam que ele era muito pesado. O grande clássico de domingo seria a chance de Adaílton fazer as pazes com o gol e com a torcida. E, principalmente, de ajudar o Sérgio a ganhar a aposta.
Sozinho, no Maracanã, sentado na arquibancada, iria presenciar o terceiro clássico no ano, e, nos anteriores, o Flamengo ganhara. Ainda não entendia por que Gusmão não apostara na vitória do rubro-negro. “Gusmão é muito chato e arrogante, ele não pode ganhar esta aposta!”, pensava Sérgio. O jogo estava marcado para as 16 horas e faltavam apenas cinco minutos para o início. Os dois times já estavam em campo. De repente, o celular de Sérgio tocou. Era Gusmão.
– Fala aí, tá preparado pra segunda?
– E você está? – rebateu Sérgio.
– Rapaz, eu tô aqui na arquibancada. Tô muito tranquilo. Aconselho você a começar decorar o hino do Vasco.
– E você o do Mengão.
– Olha só, já vai começar o jogo. Presta atenção no Paulinho Peralta, os três gols serão dele. Se eu quisesse te sacanear mais, eu faria você, além de vestir, andar na rua com a camisa do Vascão. Hahaha! Mas a aposta vai ficar naquilo mesmo. Tô desligando, fui!
Sérgio riu da presunção de Gusmão. Começa o jogo. Sérgio escuta um torcedor na sua frente reclamando.
– Esse Adaílton deveria estar na reserva. Esse cara não joga nada!
Sérgio balança a cabeça de maneira negativa e pensa: “Calma aí, ele ainda é um garoto. Ainda vai trazer muita alegria para a gente”. Os dois times precisam ganhar para alcançar a liderança do campeonato. Ambos estavam armados ofensivamente. Com certeza, o jogo não terminaria 0 x 0. Lance para o Flamengo. A bola é lançada próxima à grande área para Adaílton. Ele ginga para cima do zagueiro adversário. O zagueiro do Vasco desarma Adaílton.
– Toca a bola! – grita o torcedor sentado à frente.
Sérgio lamenta em silêncio o lance. Até porque a jogada malfeita ajudou o contra-ataque do Vasco e a bola chegou ao pé de Paulinho Peralta, que a recebeu ainda fora da área e driblou o zagueiro. O goleiro do Flamengo saiu do gol, mas Paulinho Peralta tocou por cima. Gol do Vasco. O gol foi como um banho de água fria, mas Sérgio não se importou. “Clássico é assim mesmo. Daqui a pouco o Flamengo empata e vira”, pensou. De repente o celular toca. Sérgio atende.
– Fala aí, gostou? Ele ainda vai fazer mais um. De falta. No primeiro tempo – grita Gusmão, desligando em seguida.
Sérgio não gostava de conversar durante o jogo, fosse em casa ou na arquibancada. Ficou chateado ao desligar o telefone. Colocou-o dentro do bolso sem tirar os olhos do campo. Já passava de 40 minutos do primeiro tempo. Paulinho Peralta infernizava a zaga do Flamengo. Corria o campo inteiro.
– Esse cara deve estar dopado, não é possível! – dizia o torcedor sentado à frente.
Sérgio já estava inquieto, suas pernas balançavam. O Flamengo quase não dera trabalho para o goleiro cruz-maltino. De repente, Adaílton recebe a bola no meio de campo.
– Toca a bola! Toca a bola! – grita o torcedor da frente.
O atacante rubro-negro tenta driblar Paulinho Peralta. Não dá certo. Paulinho Peralta rouba-lhe a bola e se manda com ela. Adaílton corre atrás, acompanhando, e derruba Peralta perto da meia-lua da grande área. Falta. O goleiro arruma a barreira. Carlos Paraná era o melhor cobrador de falta do Vasco, seu aproveitamento era de quase 100%. Daquela distância, para ele, era praticamente um pênalti. Ele já estava com a mão na cintura e próximo à bola. O juiz apitou e, de repente, Carlos Paraná toca a bola para o lado. Paulinho Peralta surge correndo e manda uma bomba, no ângulo do goleiro, que fez apenas golpe de vista. Placar do primeiro tempo: Vasco 2 x 0 Flamengo. Alguns torcedores já pensavam em ir embora.
– Vai ser goleada, vai ser goleada! – diz o torcedor sentado à frente.
Sérgio permanece sentado, coçando a cabeça. O telefone toca.
– Fala aí, rapaz. Falta mais um, mais um! – Gusmão berrava tanto que Sérgio afastou o aparelho celular do ouvido.
Os 15 minutos de intervalo nunca demoraram tanto. Sua vontade era de que o jogo nem tivesse intervalo para não esfriar o time. O juiz apitou o início do segundo tempo. O Vasco deu a saída. Durante os 5 minutos iniciais, o Flamengo não conseguira tomar a bola. Aos 7 minutos, o lateral do Vasco chega à linha de fundo e cruza. Paulinho Peralta pula junto com os dois zagueiros e acerta uma cabeçada certeira no gol.
– Gooool! Aí, Sérgio, eu já tô indo pra casa, o jogo vai terminar assim. Se eu fosse você, iria pra casa também, até pra dar tempo de decorar o hino para amanhã!
Sérgio não só encerrou a ligação como também desligou o telefone. “Gusmão já me encheu o saco. Eu não faço isso nem com ele e nem com ninguém!”, pensou Sérgio irritado. Sua irritação se transformou em esperança quando Adaílton recebeu uma bola e de voleio chutou para o gol. A bola acertou o travessão. Sérgio colocou as duas mãos na cabeça, mas se manteve sentado. “Um gol antes dos 15 minutos poderia mudar o jogo”, pensou.
Alguns torcedores do Flamengo já saíam do estádio. Acreditar numa virada era impossível. Paulinho Peralta praticamente batia o escanteio e corria para cabecear. A chance do quarto gol era iminente. Aos 15 exatos, Adaílton recebe a bola e tabela com o outro atacante do Flamengo, que o deixa na cara do gol. Adaílton chuta em cima do goleiro. Não havia jeito: empatar e virar o jogo seria impossível.
Sérgio decidiu se concentrar somente na aposta com Gusmão e principalmente no gol do craque que veio da Gávea. “Ele não pode ganhar! Ele não pode ganhar!” Aos 20 minutos, a bola é cruzada rasteira para a área do Vasco. Ela passa pelo zagueiro, pelo goleiro e por Adaílton, que erra o chute quase em cima da linha do gol. Sérgio coloca as mãos no rosto. Não acredita no que acaba de assistir. “Como pode? Ele já fez gols impossíveis!”, pensava aflito. Suas pernas não paravam de tremer, suas mãos já estavam suadas. “Só um gol, não quero mais nada!” Aos 30 minutos, não havia mais ninguém à volta de Sérgio. Quase todos os torcedores do Flamengo haviam ido embora, exceto aquele sentado à sua frente, que dava gargalhadas toda vez que Adaílton tocava na bola.
– Eu já tô rindo de desespero, porque eu não entendo por qual motivo insistem em colocar esse cara pra jogar!” – sua risada aumentou ainda mais quando Adaílton cabeceou sozinho na área e a bola foi para fora.
O Vasco não atacava mais. O técnico cruz-maltino tirou Paulinho Peralta, que saiu aplaudido pela torcida, e colocou mais um meio-campo de marcação. “Se os deuses do futebol fossem justos, o Flamengo mereceria pelo menos dois gols. Um gol pelo menos”, pensou Sérgio. Já passava dos 43 minutos e a esperança se transformara em frustração, nervosismo, chateação e, principalmente, irritação. O juiz levantou um dedo para o assistente indicando que daria mais um minuto de acréscimo.
Sérgio já estava imaginando como seria a segunda-feira. Ele jamais apostaria novamente com quem quer que fosse. Principalmente com o Gusmão. “Vamos, Adaílton, você é bom jogador!”, torcia, fechando os olhos. Ao reabri-los, percebeu que o torcedor à sua frente tinha parado de rir e estava de pé.
– “Eu quero somente o gol de honra!”, falava sozinho o torcedor.
Sérgio estranhou a reação do torcedor e, assim que voltou os olhos para o jogo, viu Adaílton, aos 44 minutos, receber a bola, próximo à grande área. Ele dribla o primeiro zagueiro, dribla o segundo. Sérgio, que não se levantara o jogo inteiro, já estava de pé. Adaílton dribla o goleiro. O grito que estava preso na garganta veio depois do drible.
– Seu crioulo filho da puta! Seu lugar é quebrando pedra, seu merda!
Adaílton perdera mais um gol, chutando a bola para fora. O torcedor em pé e à frente olhou para trás sem entender a reação de Sérgio.

Adriano Bidão é Cineasta, Roteirista e Escritor. Dirigiu e escreveu cinco curtas-metragens. É autor do livro de contos Reflexões Delirantes (Ed. Multifoco). Foi auxiliar de pesquisa do livro Vida que Segue – João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970, de Raul Milliet Filho (Ed.Nova Fronteira).

Conforme opção editorial do Deixa Falar: o Megafone do Esporte, publicamos sempre, em todas as edições, um artigo contemporâneo e outro representativo dos clássicos e da história do futebol no Brasil.

Uma crônica de Mario Filho. Esta que você pode ler abaixo tem como mérito maior o reconhecimento do pioneirismo do Bonsucesso e de Gentil Cardoso no futebol carioca. Um clube modesto e um técnico negro na linha de frente da modernização desta prática esportiva. O autor de O negro no futebol brasileiro sempre esteve na vanguarda da defesa da democratização do esporte e de sua modernização tática.
Crônica de Mario Filho: Gentil Cardoso como técnico do Bonsucesso 

Peguei o Bonsucesso de 32. Naquele tempo os jornais abriam as manchetes para saudar o clube da Estrada do Norte como a atração do ano. O Bonsucesso chegou a ser um candidato real. Os grandes clubes, uns atrás dos outros, caíam diante do team de Leônidas e de Gradim. Foi lá que Leônidas se revelou. O Bonsucesso dava jogadores para o scratch carioca. Para o scratch brasileiro que conquistou a “Copa Rio Branco”, deu dois: Leônidas e Gradim. Lembro-me de um jogo em Campos Sales. O Bonsucesso enfrentava o campeão da cidade. Logo no principio do jogo houve um incidente.

Os torcedores do América não queriam deixar Leônidas jogar. Leônidas teria feito um gesto feio para as sociais do América. Daí a revolta dos torcedores atrás do goal da piscina.
O Bonsucesso de 32
O Bonsucesso retirou Leônidas de campo. Não para atender aos protestos do América ou por julgá-los justos. Apenas para que a partida prosseguisse e fosse até o fim. Havia ainda a lei das substituições. O Bonsucesso poderia substituir Leônidas, prosseguir o match com onze jogadores. Mas preferiu ficar com dez, lutar em inferioridade numérica. Foi a maior vitória do Bonsucesso. Com dez jogadores ele superou amplamente o América, derrotando por quatro a um. A saída de Leônidas realçou a vitória do Bonsucesso. Foi aí que se teve a visão do valor da tática. [negrito do editor] Porque foi o Bonsucesso o primeiro clube, no Brasil, que se utilizou de um padrão de jogo. Cada jogador entrava em campo para executar uma missão. O ataque formava um dábliu perfeito. Gradim lá na frente, quase na mesma linha dos pontas, Leônidas e Prego recuados, fazendo o trabalho de ligação entre a defesa e a vanguarda.
O Dábliu e a defesa cerrada
Mesmo quando o Bonsucesso perdia, quem saía do campo recordando as fases do bom football lembrava-se mais dos jogadores da camisa azul. Foi o Bonsucesso com aquela campanha de 32 que me fez adepto da tática. Quando Kruschner chegou não precisou de trabalho para convencer-me. Não se parecia a tática de Gentil Cardoso com a de Kruschner. Um era a velha tática do dábliu, do romantismo, do futebol inglês, a outra era a tática da realidade, que colocava a vitória acima da exibição.
Bonsucesso, um Pioneiro
O Bonsucesso foi sem dúvida alguma o precursor da tática no Brasil. Pelo menos não me lembro de outro clube que fizesse aqui experiência semelhante, que a levasse avante. E o Bonsucesso deu o passo à frente quando estava no apogeu a figura tão peculiar do football brasileiro, de dono do team. Leônidas e Gradim depois saíram do Bonsucesso.
…E Leônidas só voltaria a ser o Leônidas de 32, isto é, do Bonsucesso, quando acreditou novamente na tática. A tática não foi implantada pelo Bonsucesso. Mas o Bonsucesso foi o pioneiro no Brasil.

Obs.: como veremos em edições futuras, Gentil Cardoso não foi apenas um grande técnico, mas um criador de máximas e expressões, formando, ao lado de Neném Prancha, Nelson Rodrigues e João Saldanha, a linha de frente dos maiores criadores das “máximas” e “expressões” do futebol brasileiro. “Quem não faz, leva” é uma criação de Gentil, assim como “Cartola” e “Zebra”.

Deixa Falar: o Megafone do Esporte tem edição e criação de Raul Milliet (doutor em História pela USP)
Revisão e colaboração de Ângela Cristina da Silva



Ministério Público vistoriará a Arena Corinthians
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Juca Kfouri

A nota do Ministério Público de São Paulo revela que o MP cumprirá fielmente sua função em defesa da sociedade e que as manifestações da Odebrecht não o convenceram.

Ilustração: Folha de S.Paulo
Agora sim, depois da fiscalização do MP, poderemos saber com fidelidade se os 20 milhões de litros d’água que vazaram sob a Arena Corinthians ainda são um risco ou deixaram de ser.

A imprensa informa, os envolvidos se manifestam e as autoridades decidem o que fazer.

Eis a nota do MP:

Tendo chegado ao conhecimento do Ministério Público que houve grande vazamento de água, com o aparecimento de buracos no piso de estacionamento e possibilidade de abalo das arquibancadas e deslizamento de terra na área externa do estádio Arena Corinthians, a Promotoria de Habitação e Urbanismo, diante da gravidade dos fatos noticiados, com risco à integridade das pessoas que o utilizam, e havendo a necessidade de se verificar se o local reúne condições de segurança para a realização de eventos esportivos e de natureza diversa, bem como a possibilidade do estádio continuar funcionando, determinou a realização de vistoria no local pelo Centro de Apoio Técnico à Execução, esclarecendo que já há inquérito civil em andamento em fase de realização de perícia das condições de infraestrutura do estádio.



Apito final
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

O que acontece quando não há ninguém lá? Quando todos foram embora, apagaram-se as luzes, fecharam-se as portas, no oco da madrugada, no vórtice do silêncio, o que há?

Onde havia sol, pessoas, gritos, risos, xingamentos, onde os jogadores enredavam e terçavam sagas, agora o que há?

As cores, os gestos, os suores, as bandeiras, o calor do cimento, a luz da grama, o gemido das chuteiras, o zumbido que roubara a todos do tempo e do espaço, onde foram parar?

Quando o jogo acaba, e saem os jogadores e os torcedores, e depois as luzes, e depois, bem depois, os ecos dos gritos e choros, e só então as sombras dos chutes e passes, e o espectro dos olhares, e os espantos e as dores, e as lembranças imaginadas, e as almas e vozes rasgadas, o que é que ainda fica lá?

O que acontece quando todos saem de lá?

Quando tudo é escuro, quando tudo é fundo, quando ninguém vê nada, quando não há mais nada, nem ninguém para ver o nada, o que ainda existirá?

No campinho, no terreiro, na várzea, no estádio – onde havia tanta vida, o que fica em seu lugar?

Algo como o que chamam morte?

Não.

Acho que não é isso o que há.

Porque cada jogo não é só uma vida. É toda a história da vida, é toda a criação; o céu, a terra e o ar.

E quando o jogo acaba, acaba tudo. Não há mais nada: nem vida, nem morte, nem céu, nem terra, nem ar.

O próximo jogo será outra história, outro mundo, outro sopro de outro deus, outra aventura sem antes nem depois, outros seres surgidos do mar.

E ele, como todos os que houve antes, como todos os que ainda virão, depois do apito final, depois da saída de todos, quando o oco, o fundo, o vórtice, quando o eclipse, o vácuo e o silêncio baixarem, ele também acaba.

E eis que de novo, no campo vazio, de novo não há mais nada.

Nem haverá.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).



Leis do impedimento e história do futebol por João Saldanha
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Juca Kfouri


Zuca Sardan

Introdução ao texto de Saldanha escrita por Raul Milliet Filho

Este texto, inédito na imprensa, foi escrito originalmente pelo autor como apresentação ao livro Na Boca do Túnel (Organização de Milton Pedrosa), Editora Gol, em 1968, um ano antes de João Saldanha assumir o cargo de técnico da seleção brasileira.
Considero esta apresentação um primor de concisão e criatividade na abordagem da História do futebol. Os que dizem que Saldanha era um intuitivo, um “prático”, mero boleiro, desatento às questões táticas, certamente não acompanharam seu desempenho em toda a sua carreira de diretor de futebol, técnico e jornalista esportivo, desconhecendo, por óbvio, “Leis do impedimento e história do futebol”.

Com o fim da editora Gol, Na Boca do Túnel e sua notável apresentação foram desaparecendo até mesmo em sebos. Os anos passando e texto ficou praticamente apagado da memória dos aficionados..

Em 2006, tive a oportunidade de organizar e escrever a introdução e outras partes de Vida que segue – João Saldanha e as copas de 1966 e 1970, publicado pela editora Nova Fronteira. Não titubeei e republiquei a apresentação de Na Boca do Túnel, além de vários outros artigos de João no livro.

Confesso que este pequeno texto introdutório tem um endereço certo, que há tempos arranhava minha garganta. Refiro-me a alguns críticos de fancaria, pseudoconhecedores de futebol, que covardemente aguardaram o falecimento de Saldanha para atingi-lo em seu túmulo através de perfis, crônicas, entrevistas equivocadas e pérfidas.

Estes senhores destilaram sua amargura oferecendo interpretações reacionárias sobre a demissão de Saldanha da seleção brasileira. Não pretendo perder meu tempo citando seus nomes, atitude que já tive oportunidade de fazer frente à frente. Vejam só, raros leitores, um desses moleques, colega do nosso personagem ,até hoje omite todas as denúncias feitas por João “sem medo” sobre prisões e assassinatos cometidos pela ditadura militar em suas viagens a trabalho pela seleção brasileira, como em sua última, no México, para escolher os locais de concentração da equipe na Copa do Mundo.

Nesta, o gaúcho de Alegrete saiu do sério quando recebeu a notícia do assassinato de seu amigo e ex-companheiro de Partido Comunista, em novembro de 1969, em São Paulo, Carlos Marighela. Soltou o verbo, convocando uma entrevista coletiva cujo teor foi publicado em jornais mexicanos, franceses, ingleses, italianos e de alguns outros países. Pouco depois, recusa um convite para um jantar com o ditador Médici, em Porto Alegre, e se nega a aceitar uma sugestão invasiva do mandante da tocaia que vitimou seu amigo Marighela, para convocar o jogador Dario. Responde na lata. “Tenho em comum com o presidente várias coisas: somos gaúchos, somos gremistas, gostamos de futebol e nem eu interfiro no seu ministério nem ele interfere no meu time”. Quinze dias depois estava demitido.

Veja no link: https://www.youtube.com/watch?v=X3gRDhJYX2w

Em 1987, três anos antes do seu falecimento, entrevistado da vez no programa Roda Viva, afirma peremptoriamente: “Considero o Médici o maior assassino da história do Brasil. Pombas, este cara matou amigos meus. Não podia e não posso compactuar com uma situação destas. Tinha e ainda tenho um nome a zelar”.

Várias outras cascas de banana e provocações que fizeram João perder a cabeça poderiam ainda ser mencionadas. Mas, por ora, fiquemos só com estas.

Voltando às táticas do futebol, alguns críticos de João Saldanha sempre o acusaram de só saber armar seus times num 4-2-4 conservador, mas esquecem, ignoram ou fingem ignorar que, em 1957, como técnico do Botafogo, armou o seu time jogando num 4-3-3 na maior parte do certame. Na partida final, contra o Fluminense, João vai além, escalando seu time num 4-4-2, com Quarentinha (o maior artilheiro da história do Botafogo), fugindo às suas características ofensivas, marcando Telê, homem a homem, durante toda a partida. As instruções de João foram claras: “Quarenta, quero que você cole no Telê. É dele que saem as principais jogadas do Fluminense”. O Botafogo aplica uma goleada de 6 x 2 sagrando-se campeão carioca naquele ano. Também pudera, tinha um timaço: Nilton Santos, Didi, Garrincha e Quarentinha, dentre outros.

Na seleção brasileira, a história se repete. O primeiro ataque escalado por Saldanha foi Jairzinho, Dirceu Lopes, Pelé e Tostão, com Gérson e Piazza no meio-campo. Dirceu Lopes jogava o fino nos treinos, não repetindo essas atuações nos primeiros amistosos.
O ataque ganhou outra escalação: Jair, Tostão, Pelé e Edu. Os pseudoconhecedores de futebol, já mencionados, diziam: “Como vamos ganhar a Copa jogando neste 4-2-4?” O técnico campeão pelo Botafogo em 57 perdia a paciência sempre que ouvia tamanha estupidez. Nas eliminatórias, a Colômbia, a Venezuela e o Paraguai só atacavam com dois jogadores. Vez por outra, ousavam atacar com três. “Para que mais gente na defesa além dos quatro e do Piazza e do Gérson… Pelo amor de Deus, vamos parar com essa numerologia que só atrapalha e deixa muitos entendidos em má situação. 4-3-3, 4-2-4, 4-4-2, isso não existe mais, minha gente. Esta estória de dizer que só um ponta pode recuar é burrice da grande. Hoje o futebol exige que volte um e até quatro, desde que o bloqueio requeira. Se a podre está na zaga esquerda, que se recue o ponteiro esquerdo. Mas se estiver na direita? Continuará se recuando o ponteiro esquerdo…”

Saldanha questionava por que os dois homens do comando do ataque não poderiam voltar para recompor o meio-campo. Dizia: “O que a seleção precisa é voltar em bloco, deixar menos campo de ação para o adversário e não ter um voltador determinado, o que não se usa mais, só encerrando, quero avisar que, quando se fala em 4-3-3, não se diga que só pode ser feito pela ponta, que isso é muita burrice junta”.

Imaginem só, prezados leitores, o argumento do 4-2-4 foi utilizado por vários jornalistas pseudoespecializados para combater João Saldanha. Utilizado até mesmo pelo técnico Zagallo. É sempre bom relembrar que Zagallo é contratado do Flamengo pelo Botafogo iniciativa de João Saldanha e de seu amigo Renato Estelita, que comandavam o futebol do clube da estrela solitária há anos. Esta contratação foi fechada logo depois da Copa de 1958, atravessando uma tentativa do Palmeiras de contratar Zagallo.

E vamos além, em diversas de suas crônicas João sempre repetiu que Zagallo, Gérson, Alzuguir (seu titular no Botafogo em 1957) foram os jogadores que conheceu com maior visão do jogo dentro de campo.
É meio estranho contratar Zagallo para compor o meio-campo do Botafogo em 1958, defendendo dogmaticamente um 4-2-4. Não faz sentido.
Agora vamos à cereja do bolo desta edição do Megafone do Esporte, que é o artigo de Saldanha:

LEIS DO IMPEDIMENTO E HISTÓRIA DO FUTEBOL

O treinamento do futebol, sua tática e preparação, historicamente, está dividido em 4 épocas nitidamente marcadas: antes da primeira lei de impedimento, depois do surgimento desta lei, o surgimento da segunda lei de impedimento e o surgimento da medicina esportiva e da preparação física dos jogadores.
Como muitos sabem, a lei do impedimento foi determinante das diferentes táticas e formações de jogo. Antes dela, apenas havia jogadores que corriam ou ficavam parados dentro do campo, sem posições definidas. O futebol era feio e esteve a ponto de sucumbir como jogo ou competição porque não tinha graça. Não adiantava ser um bom jogador, que soubesse driblar e dominar a bola porque um perna-de-pau qualquer, comodamente encostado perto a uma das balizas, esperava a bola chegar e fazia o gol que dava tanto trabalho ao outro que era bom jogador.

O fato de não existir “off-side” levava a que um grupinho ficasse perto de um gol e outro lá do outro lado também esperando a bola. O resultado era que não adiantava ser superior. Mas os estudiosos do assunto, em 1896, modificaram esta situação. Resolveram que ‘um jogador para receber uma bola deveria ter pela frente pelo menos três adversários’. Isto foi uma autêntica revolução no futebol e principalmente na sua tática de jogo. E surgiu pela primeira vez uma definição de posições. Tão clássica que até hoje é vulgarmente usada em vários países. Trata-se daquela do ‘goal-keeper’, os dois ‘backs’, os três ‘half-backs’ e os cinco ‘fowards’. Claro que havia as subdivisões das posições, tais como ‘back’ direito, esquerdo; ‘half’ direito, ‘center-half’, etc. Esta organização de jogo foi apresentada em primeiro lugar por dois clubes ingleses. O Nottinghan Forest e o Blackburn Roves, e o sistema de jogo, também conhecido por 2-3-5 durante muito tempo e de acordo com as simpatias, adotava o nome daqueles dois clubes. Mas o tempo passou e este sistema de dois ‘backs’ foi superado. Por quê? Porque tinha uma falha séria que impedia o jogo de se desenvolver. Impedia que a principal condição de um jogador de futebol pudesse prevalecer: o talento. Sim.

De acordo com a lei, dois beques sabidos paravam todo o ataque adversário. Lógico, se a lei dizia que o atacante, para receber uma bola, necessitava ter pelo menos três adversários pela frente, bastava que um dos zagueiros se adiantasse, no momento do lançamento, para que todo um ataque fosse destruído. Foi assim que surgiu a antiga nomenclatura de ‘beque-espera e beque-avança’. O ‘avança’ adiantava-se e liquidava todo o mundo. O ataque tentou defender-se desta artimanha e formava em linha porque a lei também dizia que, se o atacante estivesse atrás da linha da bola, não estava impedido. Foi por isto, inclusive, que a artimanha dos beques levava a melhor e enfeava o jogo. Dois becões, mesmo grossos, paravam com facilidade os hábeis atacantes. Isto era uma contrariedade ao que há de mais puro no futebol – e o que mais deve ser defendido: o talento. Sempre o talento, que é o que desenvolve o futebol e apaixona a multidão. Por essa imposição, a lei teve novamente de ser modificada, fazendo surgir a mais importante etapa do futebol.

Reuniram-se os mentores do futebol e decidiram que a nova lei seria a seguinte: ‘Está impedido todo aquele jogador que, do meio do campo para a frente, não tenha pela frente pelo menos dois adversários.’ Claro que a lei também tem algumas particularidades, mas a sua essência é a questão dos dois homens necessários para dar condição de jogo. E tudo teve de ser modificado, pelo menos onde a lei foi imediatamente compreendida. Surgiu então a necessidade de mais um zagueiro. Dois só não bastavam. Aqueles dois espertalhões agora tinham também de saber jogar bola. Não bastava o artifício de um deles adiantar-se. Para deter o ataque, era preciso que os três beques se adiantassem ao mesmo tempo, e deixassem apenas o goleiro entre o atacante que iria receber a bola, para colocá-lo em impedimento. Mas essa era uma manobra perigosíssima. Antes era feita por um só. Agora teria de ser feita por três, numa fração de segundos. Um que ficasse parado e tudo iria água abaixo. Não deu certo a tática de colocar intencionalmente em impedimento o adversário e os responsáveis tiveram de pensar em outras manobras ou táticas de jogo.

Tanto na defesa quanto no ataque. Um homem chamado Chapman craniou o famoso WM como a melhor disposição e distribuição dos jogadores dentro da cancha. O jogo agora tinha de ser disputado em todas as partes do campo. Onde não tivesse ninguém tomando conta, o adversário se apoderava daquele lugar, porque, embora não fosse perto da zona do gol, era entretanto, um excelente ponto de partida para uma jogada. Do WM surgiram, sem exceção, todos os sistemas de jogo postos em prática até hoje. O 4-2-4, o 4-3-3, o 5-2-3 e outros. Sistemas estes que foram aparecendo em virtude da luta travada entre a marcação e a necessidade de se desmarcar. Os jogadores, de acordo com suas características, vão tomando posições no campo que lhes favoreça o jogo. Assim, o Zagallo preferiu ficar não muito avançado nem muito recuado para poder jogar. Seu físico e seu talento o levaram a isto. O Ademir, que era meia-armador, lançava-se mais à frente como ponta-de-lança. O Perácio também fez isto. Era meia-esquerda do Botafogo, mas aparecia sempre em velocidade na área para finalizar.

Aí já não foi mais a lei do impedimento que levou a modificações práticas. Quando o Perácio ou Ademir vinham lá de trás, em alta velocidade, chegavam na zona de chute e formavam quatro atacantes com os que lá estavam. Como o WM só tinha três zagueiros, houve necessidade de recuar mais um, ficando, assim, quatro homens na retaguarda. Mas, por que jogadores, antes da época do Perácio e do Ademir, também não avançavam em alta velocidade, vindos do meio-campo para a ponta-de-lança? O que impedia isto? Do ponto de vista das leis do jogo, nada. Rigorosamente nada. Apenas um pequeno detalhe: se antes da época do Perácio e do Ademir alguém fizesse isto, cairia morto de cansaço, o Ademir e o Perácio cansavam, é certo. Mas, muito menos. É que eles representavam uma nova etapa do futebol: a do profissionalismo, onde o jogador não é apenas um futebolista na acepção da palavra, mas um futebolista e atleta, formado em toda a extensão. A medicina foi se especializando e os métodos de ginástica se aprimorando. O que era feito em ritmo lento se transformou totalmente. O material esportivo é aprimorado todos os dias. Se participamos bisonhamente de competições em épocas antigas, foi por atraso técnico. Um exemplo? Jogamos a Copa do Mundo de 1938 com dois zagueiros, quando a lei do impedimento já havia sido modificada há quatorze anos atrás. Hoje, o futebol, evolui a paços gigantescos. A capacidade de resistência dos jogadores, sua habilidade com a bola estão criando situações inteiramente novas em relação às posições clássicas dos sistemas, que estão sendo levados de roldão pela prática do jogo. Um jogador para ser eficiente tem de saber jogar em várias posições. Tem de saber defender e atacar, e qualquer sistema moderno que pretenda ser eficiente tem de compreender que não pode ser rígido.

Estamos mais do que nunca precisando disto. O futebol é arte popular. Não podemos continuar atrasados.

Obs.: quem tiver interesse em ler duas crônicas complementares, abordando o tema da formação tática dos times, sugiro consultar “O voltador” e “Voltador oficial” publicadas em O Globo nos dias 24 de abril de 1970 e 25 de maio de 1970. A primeira crônica foi reproduzida no livro Vida que segue. João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970

Deixa Falar: o Megafone do Esporte :edição e criação de Raul Milliet (doutor em História pela USP)


Descoberta a fórmula de sucesso dos treinadores de futebol!
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Juca Kfouri

Por Rafael Bueno*

Primeiro, seja ídolo. Melhor: ÍDOLO, em garrafais, inconteste.

Depois, uma pitada de estudos teóricos.

Misture com um tour pelos clubes do principal campeonato nacional do mundo.

Finalize com um estágio de uma semana com um profissional vitorioso que admire.


Eis a fórmula para o treinador de sucesso desvendada pelos torcedores do São Paulo. A descoberta – tamanha a repetição entre a torcida tricolor desses elementos em defesa do M1TO Rogério Ceni como treinador são-paulino – parece ser a solução para os problemas dos clubes de futebol.

Em especial, para os problemas do São Paulo de vacas magérrimas, de administrações pífias, de conflitos políticos…

Rogério Ceni, o goleiro-artilheiro, capitão, multicampeão nos gramados, dispensa apresentações. Agora, entre a enorme parcela da torcida são-paulina, dispensa uma de suas mais características marcas como jogador: a evolução. Para a nação tricolor, o M1TO está pronto para capitanear o time desde já à frente do banco de reservas.

Invocam Zinedine Zidane – que durante um ano e meio treinou o Real Madrid Castilla, time B do gigante espanhol, e foi assistente de Carlo Ancelotti – e seu título da Champions League como treinador do Real Madrid de Cristiano Ronaldo, Bale, Benzema, Kross, Modric…

Ignoram Ryan Giggs – de tantos módulos concluídos e licenças obtidas do curso da UEFA e passagens como auxiliar técnico –, preterido na escolha como treinador do Manchester United que defendeu por mais de duas décadas.

O que explica essa ânsia por Rogério Ceni treinador do São Paulo, se não o misto de carência e paixão, com sabor da irracionalidade?

O São Paulo não é o Real Madrid – o time de impensável poderio financeiro para os padrões do futebol brasileiro e capaz de gastar com galácticos e com multas rescisórias milionárias de… treinadores!

O São Paulo não é o Manchester United – que, também de grande poder financeiro, optou pela experiência de José Mourinho ao ídolo, porém iniciante, Ryan Giggs.

Sem o poderio financeiro e organização dos gigantes europeus, comparar a realidade de Zidane no Madrid ou a realidade que Giggs encontraria no United com o que Rogério pode vir a enfrentar no São Paulo, é como comparar as ciclovias de Amsterdã com as da capital paulista.

O momento pede seriedade. Pede sobriedade. O São Paulo já tem problemas demais para brincar com o azar.

Quero o Rogério Ceni treinador, e não o M1TO goleiro-artilheiro de treinador.

*Rafael Bueno é são-paulino e jornalista.



Jogo de cena
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para o Dan Stulbach

Você pode não acreditar. Mas vou te contar como foi.

Quando começou a chover, estava três a zero pra eles. Três bobeiras nossas – um timinho fraco daqueles, juntado no bairro, não tinha como vencer o nosso.

A gente joga junto há um tempão. Você sabe. Não tem roça, várzea, e até estádio mesmo, da região em que a gente não tenha jogado. E bem: estávamos invictos havia meses.

Mas foram três bobeiras em dez minutos.

Fomos pra cima, pra massacrar.

Aí começou a chuva. Mas não começou fraquinha e depois aumentou. Não. Foi uma pancada só, de uma vez. Uma enxurrada forte, grossa, desabando do céu.

Parecia um basculante, não, mil basculantes de areia entornando a carga em cima do campo.

Sumiu quase tudo da visão. A terra embaixo virou barro, lama, poça, pântano. Cada passo afundava a perna até a canela.

Mas a gente seguiu. Parar significaria derrota.

Só que a chuva, a inundação, o mangue, tudo piorava rapidamente.

Alguém deles gritou e pediu pra parar. Do nosso lado gritaram que não. Que o jogo seguiria. Jogo é pra homem, parar é coisa de maricas, essas coisas.

Mas nem era jogo mais. Era uma andança de zumbis no meio do nada, se arrastando sem saber pra onde, caindo, enchendo a cara de barro, engolindo sujeira espessa, os olhos e as orelhas entupidas daquela gosma.

Nem se via mais a bola. Na verdade, nem se sabia se ela ainda estava em campo. Ninguém sabia de nada.

Foi aí que alguém gritou: “Quem tá com a bola?”.

Ninguém respondeu.

Juro que não sei como, nem pensei antes de falar, mas resolvi gritar: “Tá comigo!”.

“Onde?”

Eu jogava na frente, e tinha ficado lá quando a chuva começou.

“Aqui, na área, vou fazer o gol!”

“Faz logo, faz logo!”.

“Gol!”, gritei. “Gol!”

Escutei meu time vibrar. O outro time começou a reclamar um com o outro: “Por que não marcou direito? Volta pra ajudar! Ô, frangueiro, vai entregar, vai?”.

Vi que dava certo. Comecei a comandar: “Pessoal, vamos virar!”.

A chuva agora era mais do que areia. Era cimento, pedra, cal, tijolo, nos soterrando debaixo de um pesadelo de muitos andares. Todo mundo se movendo a esmo, quase surdos com a barulheira das chicotadas da chuva, os pés afundando, os esguichos, o movimento movediço de alucinados cegos na escuridão encharcada.

Mantive a voz: “Isso, Matozin, ali na direita, o Sossô tá livre! Boa! Cruza, Sossô, tô desmarcado! Beleza, bolão! Gol! Gol!”

Meu time percebeu, claro. E entrou no jogo. Cada um cantava sua jogada: “Vai, Pirão! Cobre a esquerda, Zeto! Lança pro Jungo, rápido!”. Era eu: “Gol! Gol! Gol!”.

Vibração. Gritaria.

O time deles, que estava se xingando sem parar, percebeu. Quer dizer, um deles percebeu e gritou: “Três a três! Quem fizer ganha!”.

Animados com o domínio da situação, topamos: “Vamos lá. Quatro acaba.”

Aí é que ocorreu o que eu não esperava. Rapidamente, no meio do barulho dos pés no barro, do estrondo da catarata que se despedaçava nas nossas cabeças, o carinha deles gritou: “Pênalti! Pênalti!”.

“O quê?”, gritei.

“Me puxaram na área, rasgaram minha camisa. É pênalti!”

Fiquei atordoado. Meu time também. Ninguém falava nada.

Não podíamos duvidar. Tentei pensar em alguma coisa, mas não deu tempo. O cara anunciou: “Vou bater!”. Nosso goleiro, no embalo, mandou: “Pode vir! Pode bater!”.

Bom, aí se deu a confusão. O jogador deles começou a comemorar alto: “Gol! Gol! Gol!”. Mas, junto com ele, nosso goleiro, no mesmo tom, dizia: “Peguei! Peguei! Peguei!” E se puseram a discutir aos berros. “Pegou nada, é gol, tá lá dentro!” “Peguei sim, olha a bola na minha mão!”

Todo mundo passou a se xingar, mas sem se ver, sem ver nada, falando e gesticulando no escuro, como se os olhos estivessem virados pra dentro, como se estivéssemos debaixo da terra, no fundo do mar, dentro de uma caverna ou de um poço.

Então a chuva começou a diminuir.

Foi se diluindo, enfraquecendo, aliviando, a claridade se insinuando no meio dela, invadindo o campo – e de repente explodiu: abriu os olhos de todos, o dia se escancarou, tudo estava claro, amarelo, branco, a luz quente do sol nas cabeças.

E o que se viu foi todo mundo completamente enlameado, como se usássemos armaduras, com os pés fundos na lama, alguns deitados, outros sentados, meia dúzia fora do campo, agarrados a uma árvore.

Conferimos, contamos. Todos estavam lá.

Menos a bola. Demoramos a achá-la, depois de escavar o campo todo.

Bom, e o jogo?

Ninguém passou recibo.

Ninguém falou nada.

Era como se tudo de fato tivesse acontecido.

Mas havia a questão do pênalti. Entrou ou o goleiro pegou?

Quem tocasse no assunto desmontaria tudo. A farsa estaria desfeita.

Raciocinei rápido. Eram três gols inventados pra nós e um só pra eles. Valia a pena. E nosso time era muito melhor. Propus: “Pessoal, quatro a três. Agora que tá sol, vamos queda de cinco?”.

Todo mundo topou.

Mas não deu.

Nosso goleiro não aceitou de jeito nenhum.

Ficou indignado.

Juntou suas coisas e saiu reclamando: “Peguei o pênalti, caramba! Peguei. E vocês dão gol?”. Parados, nós o vimos se afastar tirando a lama do rosto e do corpo.

De longe ele ainda se virou e gritou: “Defendi, entenderam? Defendi o pênalti! Se quiserem, joguem sozinhos!”.

E foi embora.

Aí, lógico, não deu mais. Acabou o jogo.

Foi assim que perdemos.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras).



A Fúria de Messi
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Juca Kfouri

 Por ROBERTO VIEIRA

São desses pecados concepcionais.

O craque nasce na época errada na terra errada.

Como se Pelé nascesse no Brasil em 1840.

Como se Romário nascesse na Bolívia.

Como se Zidane fosse australiano.

Tudo seria um lamentável engano da mãe natureza.

Assim é com Messi.

Messi que será sempre quase genial.

Bestial no clube.

Besta na seleção argentina.

Seleção argentina que é ruim de dar dó.

Uma das piores seleções argentinas da história.

E olha que eles tiveram 1958 e 1969 pra jogar tomates.

Assistindo Messi goleando o City.

Não é possível deixar de sonhar.

Um Messi na Espanha bicampeã europeia.

Um Messi no Brasil de Neymar e Tite.

Um Messi na Alemanha de Muller.

Este Messi seria maior que Maradona.

Maradona…

Pois é.

Mas pensando melhor.

Maradona não precisava da Espanha.

Maradona não dava bola pra mãe natureza.

Maradona era a própria mão da natureza…

E, talvez por isso mesmo, Maradona tenha sido maior que Lionel.

O que nos leva a perguntar:

O craque faz o time ou o time faz o craque?


Academia x Maternal
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Juca Kfouri

Palmeiras 1972 x Palmeiras 2016

Por ROBERTO VIEIRA

Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo!

Gabriel de Jesus abraça César Maluco e deseja boa sorte.

Edu sorri.

A cabeleira de César arranca risos da Arena.

Cleiton Xavier bate o centro.

Dudu não quer saber de brincadeira – entra firme.

A bola chega aos pés de Nei.

Jean olha com desprezo o baixinho.

No instante seguinte está sentado e a bola atravessa os céus.

Leivinha sobre entre Dracena e Vitor Hugo.

Gol.

Tchê Tchê corre atrás do Divino.

Thiago Santos corre atrás do Divino.

E o Divino se diverte… parado com a bola no pé.

Alfredo grita pra Chevrolet não avançar.

Mas Chevrolet tabela com o tempo e balança as redes do Maternal.

Está fácil.

O público jovem como Taylor Swift se cala.

Que Palmeiras é esse, mano?

As trombetas gritam.

La Academia!

Fedato entra e deixa o seu.

O jogo termina.

Zeca troca de camisas respeitosamente com Zé Roberto.

Leão sai com o uniforme limpo e impecável.

Eita, bicho fácil!

Cuca recebe o abraço de Osvaldo Brandão.

Fiori Gigliotti fecha as cortinas.

O futebol do passado comemora a goleada no futuro do futebol.


Vida longa para a Educação Física e para o jornalismo
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Juca Kfouri

POR JOÃO BATISTA FREIRE*


​No jornal “Folha de S.Paulo”, o jornalista Marcelo Coelho mostrou-se entusiasmado com a possibilidade de extinção da disciplina Educação Física.

Na proposta de reforma do Ensino Médio, o MEC sugere o término da obrigatoriedade da Educação Física.

As lembranças de aulas de Educação Física quando menino foram traumatizantes para Marcelo Coelho e ele vê com entusiasmo o castigo que essa disciplina faria por merecer.

Fala do assunto como se praticasse uma tardia vingança.

Passei por algo parecido quando fazia Educação Física na escola.

Ao contrário do jornalista, recuperei-me do trauma, formei-me professor e tive a oportunidade de participar da construção de um modo de fazer Educação Física que tornou aquela que ele viveu peça de arqueologia, embora ainda existam, entre os professores dessa disciplina, remanescentes do período das cavernas.

Tive experiências igualmente traumatizantes com a Matemática, aprendi a odiá-la por algum tempo, e nem por isso me manifestaria com júbilo caso ela fosse ameaçada de extinção; quando muito torceria para que, de maneira geral, os professores de Matemática humanizassem sua pedagogia.

Maior trauma sofri, no entanto, com a escola de modo geral.

Menino louco por brincadeiras, trancaram-me em salas de aula, imobilizado em carteiras, sem espaço para me mexer, conversar, rir ou chorar durante anos e anos.

Todos passamos por essa clausura, impedidos que fomos de ser crianças ou adolescentes.

E nem por isso me entusiasmo com a ideia da extinção da escola. Sou educador e trabalho todos os dias por uma Educação Física melhor e por uma escola melhor.
​O texto do aclamado jornalista Marcelo Coelho, de quem sou leitor e a quem muito respeito, seria menos grave não fosse ele o formador de opinião que é.

Deveria ter consultado pessoas confiáveis da área antes de escrever o que escreveu.

Testemunhei, ao longo de minha vida, reportagens catastróficas, indignei-me com manchetes de tablóides, mas não me aventuraria a sugerir medidas para o jornalismo antes de consultar os bons jornalistas.
​Não é de hoje que a Educação Física é ameaçada.

Até porque essa negação vai além da Educação Física.

Durante doze anos de escolaridade, crianças e adolescentes são encarceradas em espaços reduzidos de meio metro quadrado, quatro horas por dia, duzentos dias por ano, num total de 9600 horas de seus melhores anos de vida.

Isso é exclusão, numa época em que tanto se fala em inclusão. 

Exclusão do corpo. O corpo não pode ter vez na escola, porque ele nos amedronta, ele cede aos vícios, ele se degrada, ele morre, e não queremos esse destino para nós.

Mas ele também é a fonte da felicidade; daí a ansiedade das crianças para sair da sala e ir para a aula de Educação Física.

O medo do fim nos leva a negar o corpo, é preciso fazer de conta que ele é uma outra entidade diferente de nós.

Mas isso não é possível. Não podemos nos livrar do corpo, porque seria o mesmo que nos livrarmos de nós mesmos. O corpo somos nós, enquanto perdurar esta vida. E uma criança não pode viver como se não fosse corpo, como se não fosse criança.

Assim como um adolescente, exatamente num período de vida de tão grandes transformações físicas, não pode viver negando que é corpo. É disso que se trata. Queremos fazer de conta que poderemos nos livrar do corpo para sobreviver ao seu suposto destino final.
​Marcelo Coelho alinha-se a essa ideia quando afirma seu entusiasmo pela extinção da Educação Física.

Antes, ele deveria conhecer o que foi construído em nossa área dos anos 1980 para cá. E até mesmo antes disso, se estudasse os belos trabalhos de nossos pioneiros Inezil Pena Marinho, Fernando Azevedo, Oswaldo Diniz ou Alfredo Colombo.

Não se trata, saiba o ilustre jornalista, de ser o esporte ou as brincadeiras os conteúdos mais ou menos adequados. Trata-se de projetos educacionais, de projetos de vida, que carecem de sentido sem a orientação do método adequado ou de uma pedagogia humanizante. Pena ele não ter nos perguntado antes de se entusiasmar com nossa extinção. Teríamos carradas de exemplos de uma Educação Física que ele não teve a felicidade de conhecer.

​O espaço é pequeno para indicar trabalhos notáveis feitos atualmente por professores e professoras extremamente competentes. Poderíamos descrever projetos muito bons que tornam nossos alunos adolescentes protagonistas de projetos para atuar com a dança, com os esportes na natureza, com esportes radicais, com o conhecimento do próprio corpo, com os primeiros socorros e cuidados com a saúde, com as discussões de gênero, com as drogas, o racismo e a homofobia.

Há uma vasta cultura de jogos e exercícios, o que inclui o esporte, a dança, as lutas, o circo, as ginásticas, as brincadeiras populares, entre tantas manifestações do exercício e do lúdico, que nossos jovens precisam aprender a praticar e a compreender, o que jamais será feito caso seja decretada nossa extinção.
​Marcelo Coelho exultou com nosso fim. Nós, ao contrário, queremos para ele vida longa, pois precisamos, mais que nunca, de seu bom jornalismo.

*João Batista Freire é professor Livre Docente aposentado da Unicamp, além de ter trabalhado na USP e na Universidade Federal da Paraíba e na Universidade Estadual de Santa Catarina, e autor de diversos livros sobre Educação Física e Esporte.


Primeiros toques
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Juca Kfouri



Zuca Sardan

Nesta edição, Deixa Falar: o Megafone do Esporte apresenta um artigo de seu editor, o historiador Raul Milliet Filho, abordando os 36 primeiros anos do futebol no Rio de Janeiro, e dois poemas clássicos de Vinícius de Moraes, O Anjo de Pernas Tortas (homenageando Garrincha, o craque maior do seu time do coração, o Botafogo) e Olhe aqui, Mr. Buster, declamado pelo próprio autor.

PRIMEIRO TEMPO DO FUTEBOL NO RIO DE JANEIRO (1897-1933)
Da chegada do futebol no Rio de Janeiro (1897, pouco após a abolição da escravatura), até sua profissionalização em 1933, alguns marcos foram fincados na História do país.
O primeiro diz respeito a um esporte recém-regrado na Inglaterra, ultrapassando os muros dos clubes aristocráticos cariocas, transformando-se, em um dos componentes do imaginário da nação brasileira, que Benedict Anderson conceitua como “nação, comunidade política imaginada”.
Um esporte de elite, inglês, desembarcado no eixo Rio-São Paulo em malas europeias, que, num curto espaço de tempo, foi reinventado, incorporado pelas classes populares brasileiras, consolidando-se ao lado do samba como um dos pilares centrais de nosso incipiente Estado-Nação.
O futebol e a Escola Brasileira de Futebol, responsável pela “Queda da Bastilha” dos clubes aristocráticos, tecem uma relação mítica na qual a torcida incorpora o próprio clube, agora time.
Tudo isto ultrapassa os 45 minutos deste Primeiro Tempo, para nas décadas de 1940 e 1950 fixar os marcos mencionados nesta introdução.

PRIMEIROS TOQUES
Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1901. O Correio da Manhã noticiava:
“No campo do Rio-Cricket joga-se hoje pela primeira vez no Rio, uma partida de foot-ball. Esse jogo principiará às 8 horas da manhã. Jogarão dois grupos (teams) sob as denominações de “Brasil-team” e Inglaterra -team. Reina grande entusiasmo. Palpitamos pela vitória do Brasil”.
Três dias depois, o Correio noticiava o empate da partida em 1×1, que cabe frisar não foi oficial, reunindo brasileiros e ingleses em torno de uma pelada de futebol, organizada por Oscar Cox, pioneiro na introdução do futebol no Rio de Janeiro.
Engatinha o futebol em terras cariocas. Em São Paulo, três anos antes Charles Miller já dera o pontapé inicial.
O remo, antecipando-se ao futebol, tem suas primeiras regatas realizadas em 1851, em Niterói.
Em 1860, tendo como base a Marinha de Guerra, várias regatas são promovidas pela Armada Nacional.
Os clubes de remo se multiplicam: o Clube de Regatas Icaraí (1875); o Clube de Regatas Botafogo e o Gragoatá (1894); o Clube de Regatas Flamengo (1895); o Clube de Regatas Vasco da Gama (1898), dentre vários outros, como o Clube de Regatas São Cristóvão, em 1899.
O remo, esporte caro e elitista em sua prática, reunia grande número de espectadores em suas regatas, de tal forma que as primeiras partidas e campeonatos de futebol tinham seus horários marcados a partir dos calendários das regatas de maior importância, que ocorriam em quatro ou cinco domingos ao ano. Domingos que povoavam o imaginário da cidade, de todas as classes, da ansiedade das jovens mocinhas com perfumes e sais e seus elegantes acompanhantes, à torcida franca e barulhenta daqueles que até hoje têm por monumento “as pedras pisadas do cais”.
De qualquer forma, não podemos esquecer que o esporte ainda tinha uma importância reduzida, prevalecendo o tipo ideal do dândi (o jovem de olheiras, apreciador do absinto e da lírica dos poetas em voga) sobre o sportman. Esta contradição, o embate surdo entre o dândi e o sportman permaneceu de forma clara ou camuflada até os idos de 1940.
Noel Rosa compôs, em parceria com Vadico (1936), um samba choro abordando com picardia a contradição dândi & sportman, “Tarzan, o filho do alfaiate”, composição que fez parte da trilha sonora do filme Cidade Mulher, produção de Carmem Santos, direção de Humberto Mauro. Vale a pena ver e ouvir a composição com letra e música interpretada pelo talento de Zeca Pagodinho: https://www.youtube.com/watch?v=LHVi3-dsT4E&list=RDLHVi3-dsT4E
Os observadores atentos percebem que até 1910/1915, o remo (ao lado do turfe) ainda mantém a sua popularidade, quando o futebol emparelha na curva que antecede à reta final, tornando-se o esporte preferido das folhas e das ruas – das rodas dos cafés engravatados, aos botequins e mercearias de Aluísio de Azevedo.
Marcos Carneiro de Mendonça, goleiro do Fluminense e da seleção brasileira, em entrevista concedida a Raul Milliet Filho e André Trouche, em 1985, confirmava:
Nós podemos mostrar positivamente que o futebol ganhou rapidamente a preferência do povo do Rio de Janeiro porque em uma das últimas regatas que assisti, na praia de Botafogo, eu soube que os diretores da Federação de Regatas pediram que não houvesse jogo de futebol no dia da regata. Qual a conclusão que o senhor tira daí? É que a gente da regata já reconhecia que o povo do Rio de Janeiro, entre um espetáculo de regata e um jogo de futebol, dava preferência ao futebol.

Pergunta:

– Em que ano foi isso? O senhor se lembra?

Resposta:

Talvez por volta de 1908/1909.

A CENA CARIOCA E O FUTEBOL

Nos dez anos das primeiras peladas do futebol em São Paulo e no Rio de Janeiro, o Brasil caminhava a passos largos rumo ao encontro de sua modernização, porém de poucos.
Nos planos político e econômico, o país fervilhava pelo alto. A época era singular.

Quando Oscar Cox retorna ao Rio de Janeiro trazendo o futebol, encontra nos clubes de regatas espaços acolhedores, redutos ideais para mais uma novidade esportiva. Cox depara-se com uma cidade que certamente não consegue compreender por inteiro, após alguns anos de estudos na Suíça, onde, pela primeira vez, tomou contato com uma recente “invenção” inglesa: o foot-ball.
Conforme grifamos, o futebol começou sua carreira pelas elites, nesta babel tropical, vitral de igreja gótica que era o Rio. Neste Primeiro Tempo, quatro datas podem ser utilizadas como linhas demarcatórias de seu campo histórico: sua chegada em 1897, o Sul-Americano de 1919, disputado no Rio de Janeiro e conquistado pelo Brasil, o campeonato carioca de 1923, levantado pelo Vasco da Gama, com um time de negros e mulatos, abre-alas da democratização da arte de Mané e Pelé e a adoção do profissionalismo em 1933. Quatro datas que viraram de ponta a cabeça a cultura popular carioca.
O futebol no Rio de Janeiro na sua fase inicial de popularização abre cada vez mais as portas para este novo perfil, ganhando grande impulso por motivos que estão diretamente relacionados ao aprofundamento das relações de trabalho, derivadas da modernização excludente pós-escravidão, em um processo de urbanização no qual a indústria e o trabalho assalariado estão pouco presentes. A “escola brasileira de futebol” ganha impulso exatamente nesse período, demarcada pela vitória no Sul-Americano de 1919, no sentido oposto do que ocorria na Inglaterra, pois as linhas de produção não impõem a perda da habilidade do artesão, empurrando os moradores citadinos (no caso, Rio de Janeiro) a possuir uma plêiade de aptidões. O saber de tudo um pouco, “valorizando”, pelo “atraso social” e pela necessidade de sobrevivência, o equilibrista das atividades, o viver daquilo que se consegue a cada dia, criando o culto ao improviso, ao elogio da canção do:

…Se um dia passo bem
dois e três passo mal
Isto é muito natural
(“O orvalho vem caindo”, Noel Rosa)

https://www.youtube.com/watch?v=Z4RWCJx_bFg (no link, este samba pela voz do próprio Noel)

A elegia de um corpo resistente, açoitado e sincopado, que sem alternativas brilha nos palcos possíveis da vida. Nas ruas de um flâneur, que tem nos campos conquistados a aura de sua arte, assim como os sambistas têm nos terreiros e “presidentes vargas” futuras o bate pronto de um quilo de feijão arrancado na última hora, de um voltar para casa de um dia em que o improviso nada mais garantiu do que bolsos vazios.
O jogador de futebol, que, na década de 1920, começa a desenvolver seu talento, é o mais típico representante do que Baudelaire, Benjamin e João do Rio jamais imaginariam de um flâneur. Um flâneur do lado de baixo do Equador. Tropical polivalente. Criador e conservador. Rebelde e dócil. Questionador da ordem constituída e parceiro de primeira hora de qualquer um que lhe possa dar um ganho.
Um jogador que incorpora a cultura negra, sua tradição corporal, a cultura europeia, uma fusão de sportman com alma de flâneur, de um dândi em conflito. Desta fusão do faz tudo do trabalho informal brasileiro, da síncope, da feijoada cultural com a disciplina do sportman, nasce um estilo diferenciado de jogar, que, se por um lado, não pode ser idealizado nem naturalizado, por outro, não pode ser esquecido como uma marca cultural própria brasileira, com clara hegemonia, em seu processo de constituição, das classes populares.
Não há dúvida que os futebolistas dos primeiros 40 anos do século XX foram formados desse caleidoscópio de tudo que é o Brasil, o Rio de Janeiro, e que o tipo ideal do sportman incorporou muito do dândi no estilo e na disciplina. A crônica de João do Rio e as músicas de Noel são traduções claras desta fusão. É o sportman com o dândi incorporado em estado bruto, pronto para ser lapidado como foi com a perícia dos grandes craques no jogar e na linguagem, por Didi (“quem corre é a bola”; “treino é treino jogo é jogo”), por Nelson Rodrigues, Gérson e outros.
Sabemos que cerca de 40% da população carioca vivia de biscates, trabalhos temporários, desempregados enfim, com 50% de analfabetos.
O futebol carioca conquista nos anos pós-1919 sua popularização, tendo como ponta de lança o Vasco da Gama, a construção do Estádio de São Januário em 1927, meio caminho para a profissionalização de 1933, caminho inteiro para o vir a ser de um pentacampeonato. De um futebol que só adota a segunda lei do impedimento (de 1925) na década de 1940, alcançando estatuto de arte através de seus solistas e pavilhões maiores: Marcos Carneiro de Mendonça, Friedenreich, Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Gerson, Zizinho, Garrincha, Pelé, Romário, Sócrates e tantos outros, vestindo Flamengo, Santos, Corinthians, Botafogo, Vasco, Fluminense, América…

O ANJO DE PERNAS TORTAS
Vinícius de Moraes

A um passo de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento,

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento,
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé de vento!

Num só transporte, a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Gôooool!
É pura imagem: um G que chuta um O
Dentro da meta, um L. É pura dança!

Olha aqui, Mr. Buster
(clique no link para ouvir a inspirada declamação de Vinícius e em “mostrar mais” para ler o poema por extenso: https://www.youtube.com/watch?v=Ywe-_UK9Fp8

Você poderá ver que aqui profeticamente Vinícius diz muito do Brasil de Temer.


A poesia de Bob Dylan
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Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Os primeiros poetas eram trovadores.

Românticos ou políticos.

Pois a poesia é a mãe de todas as línguas.

E a poesia apaixonou-se pela música que o vento cantava.

Qual o espanto?

Os tempos são de mudança pais, mães e congressistas.

Uma tempestade vai cair sobre o mundo de todos nós.

Nós que um belo dia estaremos nas portas d’algum céu.


Robert nasceu judeu e com a voz de quem nunca nasceu pra cantar.

Mas os versos eram amigos de Robert.

E Robert foi ser Dylan na vida.

O maior poeta americano do século XX.

Escrevendo músicas quilométricas em sua máquina de escrever.

Resgatando os cantadores norte-americanos pelas estradas.

Guthrie na veia – pai e filho.

Greenwich Village nas noites – Joan Baez no coração.

Mas Joan não entendeu It Ain’t me Babe…

Para quem não aceita a poesia de Dylan?

Basta sentar à noite com algum vinho nas mãos.

E tentar responder as nove perguntas de Blowin’ in the Wind.

Peter, Paul e Mary tentaram.

Mas os Masters of War não permitiram.

O Prêmio Nobel descobriu apenas.

O que os homens de tamborim já sabiam.

Para quem se sente sem casa.

Para quem se sente desconhecido.

Como uma pedra rolando pelo mundo.

Sempre haverá a poesia de Bob Dylan…


Presidente do Corinthians se omitiu depois de alertado sobre os problemas em Itaquera
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Juca Kfouri

O arquiteto da Arena Corinthians, Anibal Coutinho, há mais de um ano advertiu o presidente do clube, Roberto de Andrade, para os prejuízos em curso devido ao não cumprimento do contrato pela construtora Odebrecht. (Leia abaixo a carta obtida pelo blog).

Dois parágrafos da missiva, que jamais foi respondida, revelam a gravidade do problema:

Estes prejuízos atingiram principalmente as propriedades de direitos de nomeação, desde o nome do estádio, das áreas VIP, dos camarotes de festas, etc., as quais, progressivamente têm menos valor, tal o desgaste provocado pelo excessivo tempo de obra, especulações de prazo, valores e serviços, gerando um aspecto geral de obra permanente, inacabada e com nenhum horizonte de término.

Como um importante exemplo dos prejuízos diretos, observe-se o aspecto geral do prédio oeste, principalmente, que, sem que tenha sido implementada a grande parte de sua programação visual, sua iluminação externa, passeios, áreas de ativação de patrocinadores internas e externas, deixa o mais importante setor do estádio com um aspecto hospitalar, asséptico, sem clima de jogo, dificultando todas as propriedades a comercializar e as ações de marketing a realizar”.

 

A empreiteira queria assumir a gestão da arena e, por isso, não aliviava a situação para o clube.

Depois que se deu mal no Maracanã, e desistiu de administrar estádios de futebol, a atitude da Odebrecht ficou ainda pior, desinteressada em finalizar a obra em Itaquera e em pagar para quem devia, como o arquiteto Coutinho.

Coutinho só conseguiu receber quando aceitou repassar o pagamento como empréstimo ao Corinthians porque, daí, quem cobrou a Odebrecht foi o clube, não ele.

Apesar de se comprometer a saldar o empréstimo em seguida, o clube não cumpriu o compromisso.

O que poderia ser apenas mais uma história de gangsterismo da empreiteira abala seriamente não só a vida de um profissional que agora cobra do Corinthians cerca de 11 milhões de reais na Justiça, como põe em risco o próprio clube, patrimônio cultural de milhões de torcedores.

Ao lado da incapacidade de gerir uma arena do porte da de Itaquera, que não se confunde com uma banca de feira no CEASA, o episódio revela a irresponsabilidade de Andrés Sanchez durante todos esses anos e a cumplicidade, pelo menos por omissão, de Roberto Andrade.

Fica óbvio que a Lava Jato pôs por terra a ideia de Sanchez, embriagado pelo que imaginou ser um presente do ex-presidente Lula e Emílio Odebrecht, de que não teria de pagar o estádio.

Eis a carta:
São Paulo, 14 de agosto de 2015.

Ao
Sport Club Corinthians Paulista
Att.: Sr. Presidente Roberto Andrade

Nesta

Caro Senhor Presidente,

Como parte de nossas obrigações contratuais, encaminhamos relatório de acompanhamento da obra do estádio “Arena Corinthians”, referente ao mês de Julho de 2015. Em função da gravidade e relevância do observado, estamos enviando este relatório de maneira diversa das anteriores, em função da situação de iminente saída da obra por parte da construtora, conforme fartamente veiculado na mídia, sob a alcunha de “término da obra”.

Abaixo, relatamos de forma concisa a situação corrente.

1) Em 6/02/15 – já sem conseguir realizar em sua plenitude o correto acompanhamento da construção, visto que a construtora já havia esgotado o prazo estabelecido em contrato – a CDC solicitou à Odebrecht o envio de novo cronograma e listagem de serviços para execução dos itens constantes do Anexo I, do Quinto Aditivo ao Contrato de Engenharia, Fornecimento e Construção, celebrado entre o Sport Club Corinthians Paulista e a Construtora Norberto Odebrecht.

Nunca obtivemos sequer resposta à correspondência, apesar de várias vezes reiterada a solicitação, inclusive via Corinthians.

2) O novo cronograma e listagem de serviços só veio a ser efetivamente enviado ao Corinthians em 23 de Março de 2015, e não contemplava uma quantidade considerável de itens constantes do Anexo I acima citado, donde somente se pode concluir que jamais houve intenção por parte da construtora de executá-los.

3) O cronograma original previa a execução total de todos os itens até o mês de Dezembro de 2014. Como era de natureza físico-financeira, também, da mesma forma, indicava o fluxo de recursos a se empregar mensalmente.

4) Como, para modificá-lo, de acordo com o Contrato, havia a necessidade de um conjunto de procedimentos a serem seguidos e a construtora não os fez, tais alterações foram executadas à revelia do Corinthians, não tendo a sua autorização para as postergações, cortes ou alterações.

5) Tais alterações atingiram cirurgicamente TODOS os centros de geração de receitas do estádio, não permitindo à operação e à comercialização meios de implementar qualquer pacote comercial, visto que grande parte dos seus itens não se encontram completos até a presente data.

6) Estes prejuízos atingiram principalmente as propriedades de direitos de nomeação, desde o nome do estádio, das áreas VIP, dos camarotes de festas, etc., as quais, progressivamente têm menos valor, tal o desgaste provocado pelo excessivo tempo de obra, especulações de prazo, valores e serviços, gerando um aspecto geral de obra permanente, inacabada e com nenhum horizonte de término.

7) Como um importante exemplo dos prejuízos diretos, observe-se o aspecto geral do prédio oeste, principalmente, que, sem que tenha sido implementada a grande parte de sua programação visual, sua iluminação externa, passeios, áreas de ativação de patrocinadores internas e externas, deixa o mais importante setor do estádio com um aspecto hospitalar, asséptico, sem clima de jogo, dificultando todas as propriedades a comercializar e as ações de marketing a realizar.

8) Para agravar a situação, a implementação das obras segue um roteiro caótico e randômico, onde nenhuma frente ou conjunto são terminados por completo, sem seguir ou sequer acertar uma estratégia comercial com a operação, acentuando o aspecto de obra sem-fim e acelerando o desgaste de imagem.

9) Se fossemos seguir um plano de destruição da imagem do estádio, de impossibilidade de concluir o empacotamento das propriedades, sejam elas quais forem, não poderia ter sido feito de forma mais contundente e bem executada.

10) Como efeitos complementares deste atraso, as verbas sujeitas a teto máximo mantêm o mesmo valor, muitas delas ficaram sujeitas a variação cambial ou acréscimo dos impostos, pois deveriam ter sido compradas pré-Copa, forçando a enorme perda na qualidade e/ou quantidade,

visto que a verba é fixa, mas o serviço ou produto a adquirir segue variando, seja pela inflação, câmbio ou os impostos acima referidos, destacando-se que ao cliente não podem ser imputadas estas responsabilidades.

11) Não é preciso fazer um grande esforço para calcular mais de um ano de prejuízo na comercialização de propriedades, sejam camarotes, cadeiras, camarotes de festas, áreas VIPS, eventos, tais como casamentos, reuniões corporativas, festas, treinamentos empresariais, feiras, receitas de estacionamento, alimentação, tours pelo estádio, etc. Como executar uma operação ou comercialização em meio a um canteiro de obras, sem previsão de término? Em meio a quedas de energia, elevadores parados, ou dedicados a transporte de carga, com o estádio frequentemente sem tempo hábil para uma limpeza adequada, sem poder executar uma estratégia de fluxo, pois nunca se sabe o que vai estar interditado, por exemplo, dentre muitos outros.

12) Este atraso, longe de ser uma situação normal, é profundamente irregular do ponto de vista contratual, um prejuízo ao cliente e um desrespeito a todos os envolvidos – SCCP, Fundo, Caixa Econômica, Operador, prestadores de serviços, concessionários internos, opinião pública e, principalmente, aos torcedores e frequentadores do estádio.

13) Com a divulgação de solicitação de extensão de prazo de carência para pagamento, veiculada com frequência pela imprensa, causada diretamente pelos efeitos dos atrasos relatados acima, somar-se-á aos prejuízos já brutalmente causados, a adição dos juros de mais este período, sem que o Corinthians tenha nenhuma responsabilidade sobre este montante.

14) Desta maneira, dentro de nossas responsabilidades, delegadas pelo Corinthians, de acompanhamento da execução da obra, solicitamos a imediata apuração das responsabilidades pelos fatos acima descritos, sob pena de omissão absoluta diante deste quadro de tal descalabro e desrespeito ao contrato de Construção – EPCpage3image15672

15) Acompanham, em anexo:

a) Quadro Comparativo entre Cronograma com serviços contratados e Cronograma recebido da CNO em 23/03/15

b) Cronograma recebido da CNO em 23/03/15

c) Cronograma Físico-Financeiro constante do Quinto Aditivo

Contratual

d) Relatório de acompanhamento e status de obra, pormenorizado e detalhado, com fotografias

Recomendamos, ainda, que, em virtude do aqui constatado, além deste relatório que enfoca apenas as questões arquitetônicas e as a ela afetas, verifique-se e audite-se as demais disciplinas de projetos complementares e a execução destes, tais como, mas não se limitando a, instalações elétricas e hidráulicas, instalações de ar condicionado e exaustão, tecnologia da informação, estruturas de concreto e metálica, etc.

É o que nos cabe até o momento, visando a orientação do nosso cliente Sport Club Corinthians Paulista, para que se tenha os elementos iniciais na busca de se evitar prejuízos maiores, assim como, possíveis ressarcimentos de perdas e gastos adicionais, já causados a este, além da verificação efetiva e comparativa do contratado em relação ao executado/entregue pela construtora e seus aspectos econômicos em favor do Clube.

Atenciosamente,

Anibal Coutinho



Guardiola em Belém do Pará
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Juca Kfouri

POR ANTONIO CARLOS SALLES*

Ao reconhecer como verdadeiras as acusações de que seu trabalho no futebol é apenas marketing, nada de resultados, Pepe Guardiola participou ontem em Belém do Círio de Nazaré, tradicional romaria católica que reúne milhões de devotos de Nossa Senhora de Nazaré.


O técnico do Manchester City agarrou-se estrategicamente à “corda”, local mais disputado pela multidão para o pagamento de promessas e penitências, e lá permaneceu ao longo do trajeto de cerca de 5 km.

Ao final do Círio, extenuado pelo calor e pelo sufoco da maratona, disse sentir-se perdoado ante as fraudes que cometeu em suas passagens pelo Barcelona e Bayern.

Afirmou ainda que não as repetirá em sua gestão à frente do MC.

*Antonio Carlos Salles é executivo em São Paulo e combina gravata com a camisa do Paysandu.