Blog do Juca Kfouri

Arquivo : setembro 2015

Adote um pequeno torcedor, propõe o Sport
Comentários Comente

Juca Kfouri

Trata-se do primeiro programa de adoção apoiado por um time de futebol; ação envolve 43 crianças da capital, todas acima de 7 anos

O Sport Club do Recife sai na frente e se diferencia em seus projetos sociais.

O clube lança agora a ação “Adote um Pequeno Torcedor”, o primeiro programa de adoção apoiado por um time de futebol.

O objetivo é conseguir famílias para dezenas de crianças que vivem em abrigos.

Todo o trabalho social foi criado e desenvolvido em parceria com a Segunda Vara de Infância e Juventude do Recife e com o Ministério Público de Pernambuco, em acordo com as leis brasileiras.

Neste primeiro momento da ação, 43 crianças de diversos abrigos estão envolvidas, todas da capital pernambucana e acima de 7 anos.
No Brasil, quase 94% dos pais interessados em adotar buscam crianças menores de 7 anos.

No entanto, 78% das crianças que estão esperando por uma adoção já passaram dessa idade.

Os dados são do Cadastro Nacional de Adoção e foram fornecidos pelo Conselho Nacional de Justiça. “A ideia é que a paixão pelo futebol e pelo Sport seja a primeira conexão entre futuros pais e filhos. Além de ter mais um torcedor do Sport na sua casa, crianças sempre levam alegria, amor e carinho, não importa a idade que elas têm”, diz o presidente-executivo do Sport, João Humberto Martorelli.

Martorelli lembra que, apesar de esta ser uma ação apoiada pelo Sport, com o objetivo de sensibilizar a sua torcida, quando o tema é adoção, não há rivalidade. “Pessoas de qualquer região do país e não apenas torcedores do Sport podem apoiar a causa. Queremos que a campanha mobilize todo o Brasil para que o maior número possível de crianças que vivem em abrigos sejam adotadas”, completa o presidente.

Há cerca de um ano, estão trabalhando no projeto “Adote um Pequeno Torcedor”, além do próprio clube, as promotoras de Justiça do Ministério Público de Pernambuco Ana Maria Maranhão e Daniela Brasileiro, o juiz da Segunda Vara de Infância e Juventude do Recife Elio Braz e a Ogilvy Brasil, agência de comunicação responsável pela conta do clube desde 2012.

O apoio de cada um dos órgãos públicos foi indispensável para a realização da campanha. “Fomos procurados para que pudessem apresentar o projeto e saber sobre a viabilidade; na hora achamos a ideia muito pertinente, já que a maioria das crianças que esperam por uma adoção tem acima de 7 anos. Nosso objetivo, sempre, é que todas elas encontrem uma família. Projetos que estimulam a adoção e despertam esse interesse nos brasileiros em apoiar a causa são sempre muito bem-vindos”, comenta o juiz Elio Braz.

O lançamento do projeto “Adote um Pequeno Torcedor” aconteceu ontem, em jogo do Sport contra o Flamengo, na Arena Pernambuco.

Algumas ações foram preparadas, como presença das crianças no campo ao lado dos jogadores, bandeirão com o tema da campanha, faixas, apresentação de vídeo à torcida.

Para divulgar mais o projeto, foi preparado ainda um site (www.adoteumpequenotorcedor.com), no qual é possível conhecer o perfil das crianças que podem ser adotadas – todas da Segunda Vara.

Foram criados também dois filmes para divulgar a campanha.

Um é chamado de “Paixão em Comum” e o outro chamado “Dia de Jogo“.
A comunicação visual da campanha foi feita em cordel, com uma caricatura de cada criança.

No site, ainda há informações sobre a lei brasileira que trata de adoção e os contatos da Justiça caso alguém se interesse em adotar. Importante: o site é apenas uma ferramenta para divulgar a ação – não facilita nem encurta nenhuma das etapas. A partir dali, todos os processos devem seguir os trâmites legais, sem nenhuma interferência dos envolvidos no projeto “Adote um Pequeno Torcedor”.

Ainda com o objetivo de chamar a atenção e divulgar a causa, foram criados filmes, cartaz e várias peças para mídia online – disponível no site oficial e nas redes sociais do Sport Club do Recife. O trabalho é todo voluntário, portanto não envolve nenhum tipo de remuneração. A produtora é a Academia de Filmes, que atuou em parceria com a Urso Filmes.

“Depois de duas grandes ações sociais do Sport – uma para doação de órgãos e outra para combater a violência nos estádios –, fica claro que o engajamento da sociedade local e o apoio dos órgãos públicos são fundamentais para que uma campanha social tenha sucesso e resultados reais. Agora, mais uma vez, tivemos um grande comprometimento de todas as equipes envolvidas, permitindo que o projeto ‘Adote um Pequeno Torcedor’ se torne realidade”, diz Fernando Musa, CEO da Ogilvy & Mather.

Recentemente, o Sport lançou duas campanhas sociais que tiveram grande repercussão na mídia com excelentes resultados. “Fãs Imortais” (2012) ajudou a aumentar doação de órgãos no Estado de Pernambuco, e “Mães Seguranças” (2015), ação que levou mães de torcedores do Sport para o estádio, zerou as estatísticas de violência num clássico regional.

LINK COM IMAGENS:

Download link
http://we.tl/oV5nNBhgOl


Calendário faz rir e chorar
Comentários Comente

Juca Kfouri

O resumo da ópera, atilado leitor, é que o Brasileirão vai CONCORRER com a Olimpíada. Coce os olhos e desacredite!

POR VALDOMIRO NETO, no “Lance!” de hoje

Quando achamos que o calendário do futebol nacional não pode piorar, a CBF apronta das suas e nos mostra que é imbatível no quesito sadismo com torcedores, jogadores e, em essência, com a alma da bola. Difícil classificar o acinte que é manter o Campeonato Brasileiro, menina dos olhos da temporada ludopédica, em concomitância com a primeira edição dos Jogos Olímpicos no Impávido Colosso. Salve, salve o descaso! O resumo da ópera, atilado leitor, é que o Brasileirão vai CONCORRER com a Olimpíada. Coce os olhos e desacredite!

Você, amigo, poderá estar em casa ávido, consumindo frenético os infinitos canais com disputas olímpicas, e se verá em algum momento dividido. Dar ou não dar um tempo na maratona dos Jogos para espiar seu time em campo? Vai que é um clássico, uma briga pela liderança, um espacinho no G4 ou um duelo fundamental para fugir da zona da degola? Desperdiçar a oportunidade única de ver Cielo, Fabiana Murer ou as seleções de vôlei tentarem uma medalha histórica em solo pátrio para não largar seu time? A CBF coloca o torcedor emocionalmente contra a parede e dá o recado: Não gostamos de você!

Para piorar o soneto, há uma emenda que soa provocativa. Estádios importantes, como Arena Corinthians, Fonte Nova, Maracanã, Mineirão e Nilton Santos serão usados para as partidas de futebol dos Jogos. Os clubes do Rio de Janeiro, Corinthians, Bahia e Cruzeiro, assim, tomaram um piparote da entidade. Uma situação que prejudica times e gera desequilibrio na principal competição do país. O mais cômico – uma comicidade irritante, de rilhar os dentes – é que a CBF emitiu uma nota louvando as inovações do calendário. Mais uma vez, coce os olhos e desacredite! O texto publicado no site oficial da entidade é um primor da sátira, dessas de fazer inveja a muito humorista tarimbado. Simples- mente não cita a sequência da competição durante a Olimpíada, como que a fazer segredo de polichinelo, e ainda se gaba de estar realizando ”um desejo de clubes, torcedores e analistas de todo o país”. O desejo saciado é o de não haver jogos do Brasileirão durante partidas da Seleção pelas Eliminatórias da Copa. Ora, mas haverá partidas um ou dois antes e depois disso, o que, na prática, dificulta da mesma forma os clubes com atletas convocados de escalá-los, por questões de viagem e físicas.

Ano que vem poderemos ter um novo quadro estatístico nos inúmeros que os pontos corridos concedem: o rendimento olímpico de um time. Quem fez mais pontos no Brasileirão no período em que os Jogos foram disputados? Quem sabe o COI não concorda em até construir um pódio à parte para os capitães dos clubes melhor ranqueados subirem? As medalhas poderão ser expostas com pompa nas salas de glórias dos times. Já pensou: medalha de ouro no Brasileirão durante os Jogos Olímpicos do Rio-2016? Fica a sugestão! A própria CBF poderia propor. Se quer avacalhar, que avacalhe com distinção e espírito competitivo, afinal!

Se pelo segundo ano os clubes terão um período racional para pré-temporada, por outro o estufamento continuará. Com os estaduais ainda inchados, teremos essa aberração durante os Jogos do Rio e torcedor sacrificado.

MAIS SADISMO

Não é só o Brasileirão que seguirá durante os Jogos Rio-2016. O calendário da CBF reserva uma data nas coxas olímpicas para os jogos de ida das oitavas de final da Copa do Brasil. Justamente quando começa a etapa mais nobre do mata-mata nacional, com a entrada dos times que jogaram a Libertadores.

Sadismo pouco é bobagem. Um clube pode ter seu estádio usado nos Jogos e ainda perder atleta em idade olímpica em jogo importante como mandante no torneio. É o horror!
NÃO ACABOU

Enquanto a nota no site da CBF exaltou a parada sem efeito durante as Eliminatórias, uma olhada no calendário revela mais prejuízos de jogos da Seleção aos clubes. Uma edição festiva da Copa América – que não será mais jogadas nos EUA por conta das investigações do FBI – não irá poupar os clubes. O fato só aumenta a sensação de quão piegas foi a gabolice da entidade. No fim das contas, os times sofrerão duplamente com a Seleção: Eliminatórias e Copa América.


Derrota terrível para o Vasco
Comentários Comente

Juca Kfouri

Otelo Caçador, cartunista e jornalista, fazia coluna humorada sobre futebol que o jornal “O Globo” publicava às segundas-feiras entre 1953 e 1986.

Se não tivesse morrido em 2006, aos 80 anos, teria visto Vasco x Figueirense e diria que o placar moral dos primeiros 45 minutos foi 3 a 3, tantas chances de gol foram criadas no Maracanã pelos dois times classificados para as quartas de final da Copa do Brasil, mas em posições incômodas no Brasileirão, o Figueira rondando a ZR, o Cruzmaltino afundado nela.

Que jogo mais maluco, aberto, imprudente, beirando a irresponsabilidade absoluta, mas ao mesmo tempo, divertido para quem não torce nem por um nem por outro.

No segundo tempo só deu Vasco: 2 a 0 seria pouco e, com 25 minutos, se estivesse 5 a 3 seria o retrato do jogo.

O 0 a 0 era sofrível para os visitantes e terrível para os anfitriões.

Alex Muralha, não por acaso o nome e o apelido do goleiro catarinense, fechava o gol e se aproveitava, também, da ansiedade dos atacantes cariocas na hora de finalizar.

O Figueira jogava por uma bola e esta quase veio aos 34, num voleio de Clayton, diante de 14.857 pagantes.

Mas veio aos 48, com Marcão, para desespero da gente vascaína, menos, é claro, de Eurico Miranda, que garante que não haverá rebaixamento.

Foi o repeteco do jogo contra o Coritiba.

  


Outro lugar
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Michel Foucault não jogava futebol.

Mas elaborou um conceito que pode ser aplicado a ele.

Heterotopia.

Literalmente: outro espaço. Ou: espaços que, embora existam concretamente, nos tiram da realidade. Por efeito temporal (um museu), ou comportamental (uma prisão), ou de ilusão (um espelho), ou mesmo geográfico (um navio) – entre outros.

Fácil deduzir: um estádio de futebol pode ser tudo isso ao mesmo tempo. Pense em cada um dos exemplos acima.

Mas isso vale pro torcedor.

Pro jogador, não.

Heterotopia, no caso dele, é o contrário: o fim do jogo, a rua, a casa, a cidade, a vida real. É tudo o que está fora do estádio.

Mas futebol não é só no estádio.

É nos campos, nas várzeas, nas quadras, nas ruas, nos barrancos, nos quintais, nos terraços, nos corredores, em todos os espaços em que se chuta algo a que se chame de bola – mesmo que seja um jogo imaginário, com chutes no nada, ou mais ainda, deitado na cama, sonhando com os chutes.

Fora desses espaços, tudo é heterotopia.

Tudo fica sem sentido temporal, espacial, comportamental ou físico quando quem joga bola – de qualquer forma, incluindo quando não joga – está fora desses espaços.

Até a torcida, para quem joga em estádios, está num sumidouro espacial.

Só o campo e a bola compõem a realidade no futebol.

Sair dali é abandonar tempo, espaço, forma e personalidade.

Fora do futebol, portanto, nada é real.

Nem Michel Foucault.
______________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)


As pernas curtas da CBF
Comentários Comente

Juca Kfouri

PING

Em 28/5/2015:

“A CBF manifestou o seu apoio integral a toda e qualquer investigação e se colocou à inteira disposição para esclarecimentos adicionais que se façam necessários”.

PONG

Hoje:

“A CBF entrou com um processo no STF para evitar de ter de enviar à CPI do Futebol as movimentações financeiras feitas pela entidade”.


O futebol de botões de volta
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUCIANO ARAUJO*

“Botões Clássicos” nasceu de três paixões: futebol, rock e design.

Como bom brasileiro sou um boleiro frustrado.

Cheguei a acreditar que pudesse ser jogador de futebol, até…
… até perceber que na minha classe de escola tinham amigos bem melhores nos fundamentos.

Cresci e sempre carreguei comigo a paixão pelo futebol.


Comecei a estudar artes gráficas e assim realizei um sonho: fui escolhido para trabalhar na principal revista de futebol do país, a “Placar”.

Foram muitos anos como colaborador da revista. Aliás, quem colecionava a revista nos anos 80 se lembra daquela última página sempre dedicada aos escudinhos de equipes. Meus primeiros times saíram dali.

Depois,  também trabalhei alguns ano no grupo Lance!, onde fui editor de arte da revista “FUT!”.

Surgiu, então, a ideia de aplicar essa paixão em uma tradição dos tempos de criança.

Eu ainda não sabia a importância de um Canhoteiro, porém lá estava ele escalado no time que herdei de meu avô e, assim, fui descobrindo o botão como uma forma de resgate da história do nosso futebol.

Todo o trabalho é artesanal, por isso as possibilidades são infinitas. Feitos um a um.

Clássico é clássico e vice-versa

 

E se tem algo que combina com estádio lotado numa final é um grande show de rock.

Em “Botões Clássicos” você encontra pela primeira vez os times de suas bandas favoritas.

Agora você pode marcar muitos gols com os Beatles, Rolling Stones, The Who, Ramones… e também praticar verdadeiros milagres com os goleiros Mick Jagger, Axl Rose, Kurt Cobain, John Lennon, Robert Plant…

Chega de papo, aumente o som e PRUU GOOOLLLL!!!!!!!

Botoesclassicos.com.br

*Luciano Araujo é torcedor, roqueiro e botonista.


Muito mais que futebol
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR DANIELA THONES, do blog “Donas da Bola”

Para quem, como eu, já perdeu as contas de quantas vezes foi ao estádio, poderia ter sido só mais um jogo, mas valeu muito mais do que os três pontos de uma partida pelo Brasileirão.

Foi o primeiro jogo que meu pai assistiu no estádio após ser diagnosticado com Alzheimer.

Depois de muito tempo, o cara que me levou pela primeira vez a um jogo de futebol, que me ensinou todas as quebradas e caminhos até o Beira Rio, quis ir a um jogo. E fomos juntos.

Na verdade ele foi junto comigo. Eu o levei, como se ele fosse meu filho, a quem eu deveria ensinar os todos os caminhos e quebradas.

Levei-o de ônibus – porque o verdadeiro clima pré-jogo não é possível sentir dentro de um táxi.

Fiz questão de ir até o centro só para embarcar em um ônibus da linha FUTEBOL, a clássica linha que leva os torcedores do centro de Porto Alegre até o estádio, seja do Inter ou do Grêmio. A mesma linha que muito usei na infância, levada pela mão do meu pai. No fundo eu queria apenas viver de novo a infância, na época em que meu pai era o meu super-heroi, senhor dos próprios passos e dono da própria memória.

Caminhamos calmamente pelo centro, pegamos o ônibus já cheio de torcedores e fomos para o Beira Rio. Meu pai repetia a todo momento: “Tô por ti, tu que sabe o que fazer”.

Chegando lá, depois de eu comprar o ingresso dele, paramos para tomar aquela cerveja de sempre antes dos jogos.

Deus abençoe os hábitos. Graças a eles, sabemos o que fazer, independente se lembramos ou não.

Encontramos minha melhor amiga e seu filho de dois anos que estava indo pela primeira vez ao Beira Rio, assim como meu pai parecia estar. Pensei nisso na hora em que botei o olho no jovem coloradinho e me questionei como a vida pode ser tão irônica.

Entramos pelo portão 7, pelo qual eu sempre entro há mais de 20 anos quase que semanalmente.

Domingo, jogo, ônibus, cerveja, portão 7. A banalidade dessa sequência a qual eu estou tão acostumada foi quebrada pela expressão no rosto do Seu Macau: ele estava desbravando um mundo totalmente novo. Eu nunca vou esquecer sua cara de guri meio assustado, meio encantado.

Escolher o lugar onde sentamos, esperar à porta do banheiro, chamar o vendedor de cachorro-quente. Coisas que meu pai fez tantas vezes por mim e que neste domingo eu pude retribuir, segurando para não chorar.

Foi mágico e ao mesmo tempo muito triste. É complicado perceber que nossos pais também envelhecem e adoecem. Que nossos pais são seres humanos, também. Mesmo que para nós tenham sido sempre super-heróis sem capa.

Se eu tenho o futebol e o Inter como companheiros de vida, devo isso ao Seu Macau.

Meu pai foi jogador de futebol, atuou profissionalmente e também nos campos da várzea, enquanto o corpo aguentou. É de uma geração em que não era comum o pai trocar fralda ou fazer a janta dos filhos. Ele faz parte da tribo dos que sustentavam a casa e os filhos com tudo de melhor que podiam; aqueles pais que se reservavam para as brincadeiras noturnas e aos finais de semana, deixando as broncas por conta da Dona Tania.

Futebol sempre foi a paixão do meu pai, o seu assunto predileto, o seu programa favorito. E isso foi o que ele compartilhou comigo de sua vida. Isso foi o elo que criamos entre nós e a paixão em comum que passamos a ter. Algo que escolhemos dividir pela vida.

Portanto, eu quero dizer que respeito e muito os que acham cafona usar camisa de time como se fosse uma roupa normal, as mulheres que se irritam quando só passa futebol na TV e até aqueles que não gostam de futebol. Todo mundo tem direito de achar e sentir o que quiser. De criar elos com o que quiser.

Mas eu quero mesmo dividir com vocês o que, para mim, assim como para muitos filhos e filhas da pátria de chuteiras é muito mais do que futebol.

O Inter é, na minha vida e na vida do meu pai, algo mais do que um simples clube. Resume muito do que ele mesmo me ensinou de respeitar o outro, de lutar pelo que acredito, de compartilhar as alegrias e as tristezas, de não desistir nunca, de aproveitar a partida da vida mesmo nas derrotas e, nesse domingo, especialmente, aprendi a viver cada partida de uma vez. Afinal, o passado é lindo, mas o que temos pela frente é o dia de hoje.

Obrigada, pai por me ensinar esse tantão de sentimento pelo futebol. E fica tranquilo: eu vou te apresentar o Beira Rio quantas vezes tu quiser.


Até quando vão deixar que a inconsequência dite as regras do nosso futebol?
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ FERNANDO GOMES, Editor-chefe do LANCE!

Quando a gente pensa que já viu tudo… a CBF consegue aprontar ainda mais.

Agora, deu a louca de vez.

Manter o futebol brasileiro em atividade durante os Jogos da Rio 2016 é um verdadeiro atentado ao bom senso.

Mais do que isso, uma sabotagem ao próprio futebol.

Uma decisão que não beneficia a ninguém, muito ao contrário, só traz prejuízos para todo mundo.

Serão cinco rodadas de Brasileirão e uma da Copa do Brasil em plena olimpíada. E o que significa isso?
Flamengo, Fluminense e Botafogo, Corinthians, Cruzeiro e Bahia simplesmente não terão onde mandar os seus jogos, já que Maracanã e Engenhão, a Arena de Itaquera, o Mineirão e a Fonte Nova estarão cedidos ao Comitê Olímpico Internacional para as partidas de futebol dos Jogos. Uma interdição que certamente vai começar bem antes para a realização das mudanças necessárias.

– Clubes tradicionalmente formadores de jogadores, como Grêmio e Internacional, o Corinthians e o São Paulo, o Cruzeiro e o Atlético Mineiro, o Flamengo e o Fluminense vão ter de disputar o Brasileirão desfalcados de seus jovens talentos eu estarão servindo à Seleção que vai lutar pelo inédito ouro olímpico.

– As partidas do Brasileirão vão disputar com os astros do esporte mundial a audiência da TV e o espaço da mídia. Poderemos ter duelos interessantes como Bolt x Guerrero, LeBron James x Alexandre Pato ou Michael Phelps x Ronaldinho Gaúcho.

Ou seja, perdem os clubes, perdem os detentores dos direitos de TV, os concessionários das arenas, os patrocinadores. Perde o torcedor.

Mas, tão grave quanto a estupidez da CBF, é a passividade com que todos esses atores reagem a esses desmandos.

Até quando os clubes e todos os que movimentam a engrenagem do futebol vão aceitar um calendário como esse, desfocado do resto do mundo – que obviamente estará de férias durante a Olimpíada – ainda com 19 datas para os falidos estaduais e jogos de clubes coincidindo com as convocações da seleção brasileira – inclusive para a Copa América do Centenário, em junho nos EUA, que certamente será outro fator de desfalque para os times?

Até quando vão deixar que a inconsequência dite as regras do nosso futebol?


Um sindicato em apuros
Comentários Comente

Juca Kfouri

Está nas mãos da procuradora do Trabalho Andréa Tertulia de Oliveira, a grave denúncia (leia AQUI) contra o sindicato dos atletas de São Paulo.

A denúncia foi feita em 27 de julho e distribuída em 18 de agosto, mas ainda não aconteceu o despacho do procedimento de investigação.

O sindicato, presidido há quase duas décadas por Rinaldo Martorelli, ex-obscuro goleiro do Palmeiras, além do mais, tem como seu principal advogado um filho do presidente e a funcionária que cuida da entidade é casada com  o tesoureiro, além de ser tia de outras duas empregadas do órgão.

Uma festa em família.


Jornalista condenado a regime semi-aberto está na cadeia há 50 dias
Comentários Comente

Juca Kfouri

Jornalista condenado a regime semi-aberto está na cadeia há 47 dias

POR BRUNO FÁVERO, na “Folha de S.Paulo” de 21 de agosto de 2015

O jornalista Paulo Cezar de Andrade Prado, que edita o site esportivo “Blog do Paulinho”, está preso em regime fechado há 47 dias, apesar de ter sido sentenciado a 5 meses e 10 dias no regime semiaberto.

Condenado por injúria, o jornalista foi preso no dia 6 de julho e, até a última quarta-feira (19), ficou detido no 31º DP, na Zona Leste de São Paulo, que não tem regime semiaberto. Na quarta, foi transferido para o presídio de Tremembé 2, mas ainda não pôde sair da prisão para trabalhar, segundo seu advogado, Romeu Tuma Jr.

“Ele foi condenado a semiaberto e já passou mais de um quarto de sua pena no fechado. É uma aberração jurídica, uma violência”, afirmou à Folha Tuma Jr, que acredita que seu cliente esteja sendo perseguido por causa de denúncias feitas em seu blog.

Procurada, a Secretaria de Administração Penitenciária afirmou que o jornalista não foi encaminhado antes para um presídio porque o pedido de vaga só foi feito na terça (18) pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.

Segundo a secretaria, depois que se passarem dez dias de sua chegada ao Tremembé 2 –prazo em que novos presos ficam isolados dos outros detentos–, Paulinho poderá ir para o regime semiaberto.

A assessoria de imprensa do tribunal, por sua vez, afirmou que o pedido à secretaria foi encaminhado “no prazo correto”, mas alegou não poder precisar em que dia foi feito.

O CASO

Paulinho foi condenado  a 5 meses e 10 dias de prisão no regime semiaberto no ano passado por injúria contra o advogado Antonio Carlos Sandoval Catta Preta, que já defendeu, entre outros, o técnico de futebol Vanderlei Luxemburgo e o apresentador de TV Milton Neves.

De acordo com a decisão judicial proferida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, Paulinho foi condenado por escrever em seu blog que “o advogado Catta-Preta possui bem mais
competência para o ‘halterocopismo’ do que no exercício de suas funções profissionais” e por chamá-lo, também no blog, de “péssimo advogado”.

O juiz responsável pelo caso salientou na decisão que o réu “tem extensa ficha criminal por crimes contra a honra praticados pela internet”.

Na semana passada, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) divulgou uma nota condenando a prisão do blogueiro e criticando o “tratamento penal destinado a questões de injúria, calúnia e difamação no Brasil”.

NOTA DO BLOG: Não importa o que se pense do jornalista Paulo Cezar de Andrade Prado, o Paulinho.

Importa que numa democracia o que acontece com ele já passou de todos os limites.

Até quando?


 Paulinho no “Provocações”, de Antônio Abujamra, na Rede Cultura


Brasileirão é o mais equilibrado do mundo
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, GUILHERME DUARTE E RODRIGO BURGARELLI, de “O Estado de S.Paulo”

Que o Campeonato Brasileiro é equilibrado, todo torcedor intui. Afinal, foram seis campeões diferentes em dez anos. Mas que o Brasileirão é o mais equilibrado entre os principais campeonatos de pontos corridos do mundo, só a estatística poderia confirmar. E confirmou.

Em estudo inédito, o Estadão Dados comparou 65 disputas: as últimas cinco edições de 13 torneios nacionais distintos. Nenhum outro campeonato tem uma simetria tão grande no desempenho dos times quanto o do Brasil. O equilíbrio é evidente no gráfico que ilustra esta reportagem. A curva que simboliza as últimas cinco edições do Brasileirão é a mais simétrica. Lembra um morro cujas encostas têm a mesma inclinação em ambos os lados, culminando em um ponto médio bem centralizado.

Significa não só que a distribuição dos times na tabela de classificação é equilibrada, mas que a distância entre os primeiros colocados e a média – assim como entre primeiros e últimos – é menor do que em outros torneios por pontos corridos.

A curva dos campeonatos nos quais poucos times se distanciam dos demais, como o espanhol, têm o lado dos líderes mais longo e com uma inclinação muito mais suave do que o lado dos lanternas. Isso acontece porque Barcelona e Real Madrid vencem muito mais vezes do que os demais, alcançado taxas de aproveitamento (pontos conquistados em relação ao total de pontos possíveis) mais próximas de 100% do que, por exemplo, o campeão brasileiro. Na última década, Barça ou Real levaram a taça nove vezes.

Para além da comparação visual, há uma medida estatística do equilíbrio – ou desequilíbrio – entre os times de cada campeonato: a assimetria (“skewness”, em inglês). Quanto mais próximo de zero é o valor, mais simétrico é o campeonato.

A assimetria média do Brasileirão é 0,15, enquanto em La Liga (Espanha) ela chega a recordes 1,07. Pode-se dizer que o torneio espanhol é sete vezes mais desequilibrado do que o brasileiro. Na prática, um campeonato equilibrado significa que mais equipes têm chance de disputar as primeiras colocações e levarem o título.

A tendência dos torneios mais simétricos é que a definição do campeão e dos primeiros colocados ocorra mais tardiamente na disputa. Do mesmo modo, a briga entre os lanternas para não ser rebaixado vai até as últimas rodadas.

Foto: Infográfico Estadão/ Fonte: Estadão Dados

SEGUNDO LUGAR

Dos 13 campeonatos nacionais por pontos corridos analisados, o Russo ficou em segundo lugar entre os mais equilibrados, com valor 0,24. Mesmo assim, tem um desequilíbrio 58% maior do que o Brasileirão. Em terceiro lugar ficou o Holandês, com 0,33. Os campeonatos Italiano e Francês ficaram em 6º e 7º lugares, respectivamente, com uma assimetria parecida entre si, mas três vezes maior do que a do Brasileirão.

Os campeonatos Inglês (9º) e Alemão (10º) se equivalem em desequilíbrio entre as equipes que os disputam, com medidas de assimetria de 0,62 e 0,63, respectivamente. O da Alemanha é assimétrico por causa do predomínio do Bayern de Munique, que levou o título cinco vezes na última década. Entre os ingleses, porque apenas três times se alternaram como campeões nos últimos dez anos: Chelsea, Manchester United e Manchester City.

FORA DA CURVA

Entre os torneios europeus, só um se compara em desequilíbrio ao Espanhol. O Campeonato Portuguêstem assimetria de 0,92 – só 14% menor que a dos vizinhos. Como na Espanha, dois times monopolizam o campeonato: só Benfica (três vezes) e Futebol Clube do Porto (sete vezes) foram campeões na última década.

Entraram na conta os principais campeonatos por pontos corridos do mundo: Inglaterra, Itália, Espanha, Alemanha, França, Holanda, Portugal, Rússia, Turquia – além de torneios fora da Europa, como os do Japão, África do Sul e China.

Foram excluídos torneios que misturam pontos corridos a outros sistemas de competição, como mata-mata (caso do Campeonato Mexicano), ou que têm dois turnos com campeões distintos (abertura e clausura), como os da Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Colômbia, pois as estratégias de competição mudam.


Foto: Infográfico Estadão/ Fonte: Estadão Dados

Em 2009, o torneio mais acirrado

Desde o início da disputa do Brasileirão por pontos corridos, em 2003, nenhuma edição do campeonato foi tão equilibrada quanto a de 2009. A disputa nesse ano foi tão acirrada que o campeão (o Flamengo, no caso) conseguiu apenas 15 pontos a mais do que a média dos times do campeonato. Esse recorde não é apenas brasileiro, mas também internacional: não houve campeonato nacional mais disputado que esse em nenhuma das 65 edições analisadas pelo Estadão Dados.

Naquele ano, tanto o campeão como os classificados para a Copa Libertadores só foram decididos na última rodada. Três times chegaram ao último jogo com chances de ser campeão, o que foi inédito na história do Brasileirão: Flamengo, Internacional e São Paulo. Todos os três jogaram em casa e ganharam seus respectivos jogos, mas foi o time carioca que se consagrou campeão por já estar dois pontos na frente dos seus adversários.
Outra curiosidade desse campeonato é que ele foi o único na era dos pontos corridos em que o campeão só chegou ao topo da tabela na penúltima rodada. Antes do Flamengo, cinco outros times lideraram a tabela. Quem esteve lá por mais tempo foi o Palmeiras, que liderou por 17 rodadas, mas acabou o campeonato fora até da zona de classificação da Libertadores, com péssimo desempenho na reta final.

DRAMA ATÉ O FIM
O Campeonato Brasileiro de 2009 foi o mais dramático da história dos pontos corridos, mas está longe de ser uma exceção. O equilíbrio entre os times tem sido a regra. Desde 2006, quando o campeonato passou a ter 20 equipes, a diferença de pontos entre o campeão e a média de todos os times do torneio é de apenas 23 pontos. Por comparação, no campeonato espanhol a distância média que separa o ganhador do título da média do campeonato é de 43 pontos. Ou seja, a distância é quase o dobro em comparação ao campeonato brasileiro.

MENOR DIFERENÇA
Quando são analisados os dados dos 13 maiores campeonatos nacionais de pontos corridos do mundo nos últimos cinco anos, o Brasil é o segundo país com a menor diferença média entre o aproveitamento do líder e a média dos outros times.
O campeão brasileiro ganhou apenas 21% mais pontos do que a média do campeonato. A diferença só não é menor do que no Japão, onde é de 20%.

Metodologia contempla taxa de aproveitamento dos clubes

O equilíbrio nos campeonatos nacionais de pontos corridos para cada país foi calculado pelo Estadão Dados a partir de um estudo preliminar do economista do Banco Mundial Branko Milonovic. Para isso, foi utilizado o conceito de “taxa de aproveitamento”, que corresponde ao número de pontos conquistados por um time dividido pelo total de pontos possíveis.

No Campeonato Brasileiro, a pontuação máxima que um time pode atingir é de 114 pontos, caso ganhe e conquiste os três pontos em cada uma das 38 partidas disputadas. Um exemplo é o Cruzeiro na vitoriosa campanha de 2014, que registrou o aproveitamento recorde dos últimos cinco anos de 70% ao marcar 80 pontos no campeonato nacional.

Nos gráficos que ilustram essa página, a taxa de aproveitamento dos clubes está representada no eixo horizontal. Quanto mais à direita, maior o aproveitamento das equipes. Já o eixo vertical se refere à concentração de times naquela faixa de aproveitamento. Assim, o ponto em que a curva é mais alta revela qual é a pontuação mais comum atingida pelos times naquele campeonato.

Os cálculos foram feitos usando os dados dos últimos cinco campeonatos finalizados.


Inglaterra repensa seu futebol
Comentários Comente

Juca Kfouri

A Federação Inglesa (FA) está passando por um intenso processo de reestruturação interna e vai demitir 100 funcionários (mais de 10% do total) dos mais diversos níveis em posições que ela considerou redundante, inclusive do alto escalão, para poder aumentar o investimento no futebol de base.

Isso faz parte de um redirecionamento de quase R$200 milhões em despesas diversas que serão utilizados pela FA para construir campos de futebol com grama artificial em 30 cidades inglesas, como parte de um programa de quatro anos em que ela vai investir quase R$1,5 bilhão do próprio bolso no futebol amador.

 

 


Por que o Palmeiras está feliz com as arbitragens
Comentários Comente

Juca Kfouri

Em meio às críticas amplas, gerais e irrestritas sobre a arbitragem neste Campeonato Brasileiro, causou estranheza para muitos a nota oficial do Palmeiras, publicada anteontem,  sobre o tema:

NOTA  OFICIAL: ARBITRAGEM 
Departamento de Comunicação

A Sociedade Esportiva Palmeiras vem a público expressar seu repúdio à pressão que alguns de nossos adversários pretendem exercer sobre as arbitragens no Campeonato Brasileiro 2015.
Durante todo o primeiro turno não houve marcação de nenhuma penalidade máxima a favor do Palmeiras. Nem com a evidente mão na bola na partida de domingo (16), contra o Flamengo, em lance semelhante a tantos outros em que o pênalti foi assinalado. No segundo gol dos cariocas, uma falta clara cometida pelo jogador rubro-negro também não foi marcada.
Ainda que tenhamos sido prejudicados em alguns episódios, não utilizamos veículos de comunicação para colocar em dúvida a lisura das partidas da competição. Confiamos na idoneidade dos árbitros e reiteramos nossa discordância contumaz daqueles que tentam encontrar justificativas evasivas para suas derrotas.

A explicação para tamanha confiança no Departamento de Árbitros da CBF parece simples: a empresa “Press FC”, que faz a assessoria de imprensa do Palmeiras, hoje em dia apelidada de “Departamento de Comunicação”, é de Fernando Mello, o “diretor de comunicação” da CBF.


O golpe perfeito
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR VLADIMIR SAFATLE

O Brasil não é para amadores, já dizia Tom Jobim. De fato, enquanto vários outros países latino-americanos tiveram longos períodos de conflitos violentos no interior de suas elites, com rupturas muitas vezes traumáticas, o Brasil conseguiu apresentar continuidades impressionantes. Sua elite tem o dom do acordo e da autopreservação. Ela sabe como criar situações nas quais toda tentativa de entrar em confronto contra seus interesses sai perdendo.

Mas há de se reconhecer que existem momentos nos quais a inteligência animal de nossa elite supera toda expectativa, demonstrando laivos de genialidade mefistofélica. Um desses momentos é exatamente o presente. Se eu fosse afeito à teoria da conspiração, diria que estaríamos vendo atualmente o crime perfeito.

No fim da eleição de 2014, o Brasil demonstrou-se radicalmente clivado. Era óbvio que tal clivagem não passaria, pois o nível de descontentamento e expectativa era muito alto para todos voltarem aos negócios de sempre. Em uma situação como essa, a primeira coisa a fazer é fortalecer a mobilização de seu próprio grupo. Você governa primeiro para quem te elegeu, ou seja, levando em conta as expectativas de quem te elegeu, pois são essas pessoas que te defenderão em contextos de tensão.

Mas eis que algum grande estrategista palaciano sugeriu uma manobra radical. O governo deveria esvaziar o discurso da direita, ao realizar o que Lula fez várias vezes, a saber, aplicar ações propostas pelo próprio adversário, colhendo nomes na seara do adversário para construir seu ministério. Assim, Dilma daria um sinal para os opositores e para a elite rentista do País. Algo como: “Fiquem tranquilos, pois não haverá conflitos de interesses com o governo”. A ala de esquerda da população que votou no governo viria por gravidade. Afinal, não haveria nenhuma outra opção para eles, gente que pode gritar, espernear, mas no final vota no governo e ainda faz campanha mobilizada pelo medo de a direita voltar.

Infelizmente, desta vez, o truque não funcionou. Ele foi aplicado de maneira muito farsesca para funcionar. Cansados de confiar em um governo que não temeu abraçar a nata do liberalismo econômico nacional, a ala de esquerda da população virou as costas e se desmobilizou. A ala conservadora sentiu o campo aberto e colocou seu sistema de pressão na rua. Pela primeira vez na história tal pressão não teve contrapressão. O desejo de impeachment cresceu, alimentado pela tentativa desesperada do presidente da Câmara de escapar da Operação Lava Jato.

Mesmo com o governo nas cordas, ficou claro, contudo, que a oposição não tinha unidade, que certamente entraria em fagocitose se assumisse o poder. O estilo brutalizado de Cunha era incapaz de aglutinar. Até que o golpe de mestre apareceu. Aterrorizado pela possibilidade de perder o poder, o governo foi procurado pelo presidente do Senado para um acordo em prol da “governabilidade”, agora defendida abertamente pela Fiesp, pela Globo e pelo sr. Trabuco, o verdadeiro chefe do ministro da Economia.

Na pauta, um conjunto de propostas para explodir de alegria qualquer liberal defensor dos interesses da elite rentista. O que seria visto, em situação normal, como proposições inaceitáveis por colocar em questão a natureza pública de certos serviços e direitos trabalhistas aparece agora como uma agenda positiva e responsável para tirar o Brasil da crise política.

Assim, tudo o que a direita sonhou será aplicado pelo governo dito esquerdista. É ele que pagará todo o preço, alcançando, enfim, o grau zero de apoio popular. Mas como o espantalho Cunha continuará amedrontando, tudo o que vier do agora esteio da responsabilidade da República, Renan Calheiros, será visto como um mal menor.

Assim, o crime perfeito se completa. Toda a pauta mais radical do liberalismo brasileiro será aplicada sem que os liberais tenham de arcar com o peso de aplicar tal política. Ela será aplicada não pelos liberais de plantão, mas por uma esquerda em vias de autoeliminação. Há de se admirar a astúcia da elite brasileira na defesa de seus interesses. Realmente, um trabalho de profissionais.

http://www.cartacapital.com.br/revista/863/o-crime-perfeito-138.html

 


Fechado com Osorio
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR RAFAEL BUENO*

  
O sábado se desenhava agradável para o torcedor do São Paulo no confronto contra o Goiás: horário razoavelmente atrativo, boa vitória no meio da semana, evolução no desempenho em campo. O que se viu, contudo, foi um incontestável 3×0 que o Tricolor levou. Como são-paulino, falar racionalmente sobre esse vergonhoso revés, em casa, é difícil. Foi das piores atuações que vi do meu time em muitos anos sob todos os aspectos (e olhe que, para se ater apenas a futebol, essa segunda década do novo século não tem sido nada agradável).

Neste cenário trágico, muitas vaias, xingamentos e gritos começaram a ser escutados no Morumbi sem nem o cronômetro ter atingido a metade do segundo tempo. Ganso e Tolói foram as vítimas nominais dos apupos, intercalados por cantos genéricos de “time sem vergonha”, de “respeito com a camisa tricolor” e o irônico “olé” no toque de bola tricolor.

Protestos compreensíveis (agressões, nunca), apesar de – por princípio, sobretudo quando se desenhava um progresso tático no futebol são-paulino antes desse cruel jogo contra o Goiás – preferir apoiar nos 90 minutos. Entendo como válidas as manifestações antes, no tempo de acréscimo da etapa complementar ou mesmo após o jogo, com o apito final do árbitro devidamente trilado.

Mas nada disso – à parte a vexatória da derrota em si – me deixou tão incomodado quanto alguns focos de enérgicas queixas contra o profe Juan Carlos Osorio. Atordoados pela exibição paupérrima, foi possível ouvir de muitos dos mais de 25 mil são-paulinos os gritos de “burro” direcionados ao treinador do São Paulo.

Vida ingrata a de treinador! Que Osorio errou ao optar pelo lento Edson Silva, alvo cristalino dos contra-ataques esmeraldinos, parece óbvio. Também parece claro o erro na composição do banco de reservas sem nenhum atacante que pudesse ajudar a costurar tabelas e auxiliar na construção de jogadas para penetrar na sólida defesa do Goiás.

Mas… “Burro”?!?!?!? Já?!?!?!?

Com um trabalho de dois meses recém-completados e de uma sequência que, apesar de contabilizar a enganosa derrota para o Atlético Mineiro e o mentiroso empate com o Corinthians, teve bom, ótimo futebol apresentado?

Com um ambiente de instabilidade financeira e política que na verdade é uma fábrica de crises em vermelho, branco e preto?

Com a perda de jogadores que, bons ou ruins, de potencial ou não, implica repensar o grupo de jogadores, buscar alternativas, além do fato evidente de o trabalho ter sido iniciado com a temporada em andamento?

Com a necessidade de reais assimilação e identificação da cultura do futebol brasileiro, desde a reação dos atletas a determinados comandos até a complicada parte administrativa?

Osorio despediu-se de Medelín rumo a São Paulo sob calorosa homenagem dos torcedores do Atlético Nacional que entoaram o grito de “El equipo de Osorio tiene corazón, el equipo de Osorio merece ser Campeón”. Foram vários títulos pelo clube colombiano e admiração inconteste dos fãs. Para não ficar restrito à Colômbia, por aqui já despertou declarações entusiasmadas de jogadores veteranos do quilate de Rogério Ceni e Luis Fabiano.

E o que o são-paulino começa a dar em resposta dentro de todo esse contexto é um intolerante “burro”?

O torcedor é passional e sobre isso não resta dúvidas. Eu também sou, reajo muito mal a derrotas do meu time, sobretudo quando elas são definidas de modo tão vergonhoso quanto essa do Tricolor contra o Goiás. Mas ser passional não impede de pensar e ponderar. Pensar e ponderar o futuro do clube que você ama!

Jogar contra Osorio – sem lhe dar o tempo necessário para implantar suas ideias e filosofias – é, hoje e neste momento, jogar contra o São Paulo. Em tempos de raros motivos de celebração para o são-paulino, a carência e o imediatismo que passam a ser externados pela torcida – somados ao amadorismo cada vez mais inflado da cartolagem do Morumbi – minam um trabalho que sequer começou em sua essência.

Osorio não terá vida fácil em sua aventura brasileira. Uma pena que a intolerância e a exigência por resultados e conquistas imediatos façam dela não somente difícil, mas potencialmente curta – curtíssima.

Entre o “burro” e os caranguejos que andam de lado, fico com o burro da vez – que, apesar da pesada carga que lhe depositam, trabalha sempre para mover-se adiante, em frente. E pelo São Paulo.

*Rafael Bueno é jornalista.


O pelego e os cartolas
Comentários Comente

Juca Kfouri

  
Martorelli e Del Nero, em outra ocasião

Hoje aconteceu o lançamento do Fórum Legislativo do Futebol, em Brasília.

Lá estiveram o secretário menor da CBF, Walter Feldman, assim como os presidentes dos sindicatos dos clubes e dos atletas.

Todos em alegre convivência e em completa harmonia.

Feldman começou sua fala para saudá-los, efusivo:

“Quero saudar especialmente Rinaldo Martorelli e Mustafá Contursi, representantes dos atletas e clubes, a alma do futebol.”

Ao que Martorelli, o pelego que preside o sindicato dos atletas paulistas  há quase duas décadas, respondeu com a seguinte pérola:

“Esta é uma nova CBF, que quer o melhor para os clubes, mas principalmente para os atletas”.

Daí não ser surpresa que o interlocutor para qualquer coisa séria que se faça no futebol brasileiro tenha passado a ser o Bom Senso FC.


O Bom Senso FC agradece à presidenta
Comentários Comente

Juca Kfouri

Abaixo, o discurso de Thiago Gasparino representando o Bom Senso FC na solenidade com Dilma Rousseff ontem, no Palácio do Planalto.

Muita gente que critica o BSFC, como se fosse um movimento de milionários, desprezou o fato de que o atleta que discursou foi obrigado a encerrar a carreira aos 29 anos, dado o sofrimento que foi para sua família trocar o filho de escola 15 vezes antes de o menino completar 10 anos, devido à troca constante de clubes:
Excelentíssima Presidenta Dilma Rousseff, senhoras e senhores, boa tarde.

Queríamos lhe agradecer profundamente pelo esforço empreendido em defesa da reforma do futebol brasileiro. Em nome dos mais de 20 mil atletas profissionais de futebol do país, expressamos aqui os mais sinceros votos de gratidão e apreço pelas medidas tomadas em prol do desenvolvimento do esporte.

Não sei se Vossa Excelência se recorda do nosso primeiro encontro em maio de 2014. Estivemos aqui no Palácio do Planalto com mais de 10 jogadores de todas as divisões do país. Às vezes parece que o futebol é apenas aquilo que vemos na TV, mas nós pudemos lhe trazer um pouco das histórias do verdadeiro futebol brasileiro.

Entre muitas trajetórias, eu contei a minha.

Lhe contei sobre minha carreira. Em como em 10 anos, meu filho precisou estudar em 15 escolas. Das tantas vezes que fiquei desempregado simplesmente por não haver mais competições para o meu clube disputar. Diante dessa situação, decidi junto com minha família encerrar minha carreira aos 29 anos.

Acreditamos que a MP 671, agora lei 13.155/2015, estabelece pilares fundamentais para um novo tempo no futebol brasileiro. Um tempo em que atletas não precisem passar pelo que muitos de nós já passamos.

Todos sabem que o futebol é uma das maiores expressões sociais e culturais brasileiras, mas acreditamos que ele pode ser também um grande setor da nossa indústria. A partir dessa nova lei, com os clubes e as entidades de administração do futebol tratando o esporte com mais responsabilidade e transparência, honrando os seus contratos de trabalho e se mantendo em dia com suas obrigações fiscais e tributárias, confiamos que a economia do futebol possa se desenvolver, capacitar e empregar cada vez mais pessoas.

Sabemos que não foi fácil iniciar esse processo de modernização: barrar o contrabando legislativo que refinanciava a dívida sem contrapartidas, reunir, ouvir e dialogar com todas as partes e propor um projeto tão progressista quanto à MP. Sabemos também que o caminho que a MP trilhou no Congresso não foi dos mais tranquilos. Ainda que boas ideias tenham surgido no processo, muitos avanços foram retirados do projeto final.

Acredito que todos aqui presentes entendam a necessidade de se desenvolver o futebol brasileiro. Nós do Bom Senso F.C. consideramos que o Governo Federal e o Congresso Nacional têm um papel fundamental nesse processo.

Vimos ao longo desses quase dois anos de movimento como a melhora do futebol é um grande desejo do povo brasileiro. Desde o apoio que recebemos nas manifestações em campo ainda em 2013 até agora com a campanha que promovemos em defesa da MP que enviou mais de 10 milhões de emails ao Congresso.

Sem dúvida a sanção da MP do futebol foi uma vitória da mobilização de atletas, torcedores, dirigentes e parlamentares que desejam que o Brasil volte a ser o país do futebol.

Agradecemos mais uma vez o empenho de todos e principalmente o seu, Vossa Excelência, ao longo de todo esse processo. Reafirmamos aqui o nosso intuito de continuar colaborando com o desenvolvimento do futebol no país.


Domingo passado
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Domingo passado ele, de novo, não foi vê-lo.

Tem sido assim todos os Dias dos Pais há muitos anos.

É o dia em que ele vai jogar bola de manhã, de tarde e de noite, pro dia passar logo e ele ficar longe.

No resto do ano, não.

Todo dia vai lá, carrega, limpa a sujeira, dá banho, penteia, põe de novo na cama e fica falando com o pai – coitado, os olhos escancarados sem entender nada de nada.

Era goleiro. E contador.

A doença o pegou muito cedo. Nem quarenta. E normalmente, dizem, é doença de idade avançada.

Mas com ele foi aos quarenta. Nem isso, coitado, trinta e oito, por aí.

Primeiro, deu um vazio no meio de um jogo. Gol adversário sem que ele fizesse um gesto.

Quando voltou a si, demorou a entender. Percebeu. Inventou qualquer coisa.

Mas foi se repetindo e o tiraram.

No trabalho, foram rebaixando suas funções – auxiliar, cópias, carimbos.

Mas, ainda com períodos vivos, um dia disse pro filho: “não quero mais ir ao trabalho, o pessoal ri dos erros que eu cometo”.

Ele o tirou. Aposentou-o. Viu-o definhar em poucos anos, sumindo de corpo e mente. A mãe sem saber o que fazer.

Num Dia dos Pais – já faz quase vinte anos –, banho tomado, imóvel, olhando a mesa com um bolinho e um guaraná, de repente, com raríssimo e pleno domínio, disse pra esposa e pro filho: “se ao menos eu ainda conseguisse ser goleiro não ia dar tanta vergonha pra vocês”.

Depois disso, rapidamente, cama, ausência, fiapo: a inconsciência foi avassaladora.

Tanto que ele jura que foram as últimas palavras que o pai pronunciou.

São elas que gongam na sua cabeça o tempo todo.

E que ele pragueja entredentes o dia inteiro, todos os Dias dos Pais, jogando bola de manhã, de tarde e de noite.

Com raiva e orgulho de ser goleiro.
_______________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)


Série B: três líderes e a estrela solitária
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR MARCELO TORRES*

A briga pelas quatro vagas de acesso da primeira para a segunda divisão está bem interessante, com uma espécie de gangorra no G4.

Neste sábado o Botafogo, que até duas semanas atrás parecia estar com a vida fácil, caiu da liderança para o quarto lugar.

O alvinegro perdeu de 1a0 do Santa Cruz, no Arruda, que recebeu 44.485 torcedores, na a reestreia de Grafite (dono da festa e o autor do gol).

A coisa só não foi pior para o Botafogo porque Náutico e Paysandu perderam de 1a0 para CRB e Luverdense.

Se o Timbu e o Papão vencessem, o Botafogo, que iniciou a rodada em primeiro, despencaria para a sexta posição.

Ao final de 17 rodadas, o G4 está nesta ordem: o líder é o Vitória; o vice é o Bahia; o terceiro é o América-MG; e o Botafogo é o quarto

Detalhe curioso: os três primeiros estão com 31 pontos, e as posições só são definidas pelos critérios de desempate – e por pouca diferença.

Vitória e Bahia empatam em pontos (31), vitórias (9), e saldo (10 gols). A vantagem do rubro-negro é que tem um gol a mais que o rival (26a25).

Já o América empata com a dupla Ba-Vi em pontos e vitórias, mas tem menor saldo de gols (8a10).

Com 28 pontos, o quinto e o sexto (Sampaio Correia e Náutico) estão a três pontos dos líderes e, embora improvável, possuem chances de assumir a ponta na próxima rodada.

Na sexta-feira o Bahia venceu o Boa Esporte por 4a1 e o América ganhou de 2a0 do Paraná. Se esses jogos fossem Bahia 5a2 e América 4a0, hoje teríamos os três times iguais.

Caso houvesse esses dois placares, os três (Vitória, Bahia e América) teriam 31 pontos, 9 vitórias, saldo de 10 gols e 26 gols pró. Tudo igual nos quatro primeiros itens.

Os outros critérios de desempate seriam confronto direto, menor número de cartões vermelhos, menor número de cartões amarelos e sorteio.

Claro que, ao final das 38 rodadas, é improvável que esses clubes cheguem tão empatados assim – afinal, caso haja empate em pontos, há cinco critérios para desempatar.

Mas uma coisa parece certa: a disputa na Série B até agora está animada, bem parelha ali na ponta.

Nas duas últimas rodadas, em algum momento a liderança passou pelas mãos de cinco concorrentes – Náutico, Botafogo, América, Bahia e Vitória.

Está parecendo corrida de cavalos.

E se está parecendo corrida de cavalo, a pergunta hoje é: Será que o Botafogo é um cavalo paraguaio?

O time – pela estrela, pela tradição e pelos interesses em jogo – continua favorito ao acesso e ao título.

Mas a coisa está feia para o clube da estrela solitária. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

*Marcelo Torres, baiano, torcedor do Vitória, mora em Brasília.


Trabalho voluntário para o COI
Comentários Comente

Juca Kfouri

  

Trabalho voluntário na organização das Olimpíadas e Paraolimpíadas do Comitê Olímpico Internacional

POR JORGE LUIZ SOUTO MAIOR e VICTOR EMANUEL BERTOLDO TEIXEIRA

A agenda dos megaeventos no Brasil não se esgotou em 13 de julho de 2014, data do encerramento da Copa do Mundo da FIFA no novo estádio do Maracanã.

A partir de 5 de agosto 2016, no mesmo Rio de Janeiro, onde os alemães ergueram a taça, está prevista a entrega de medalhas para os vencedores das diversas modalidades esportivas disputadas nas Olimpíadas e Paraolimpíadas do Comitê Olímpico Internacional (COI).

Assim, na linha dos estudos realizados pelo Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital, este artigo possui o intuito de explicitar como o trabalho voluntário planejado para os Jogos de 2016 opera na lógica do estado de exceção permanente, que envolve os aludidos eventos.

Em primeiro lugar, não se pode perder de vista a tendência mundial de crítica à expansão dos espaços privados dos mercados em detrimento do espaço público e dos serviços públicos, aliada ao funcionamento autoritário do poder político.

Tais sintomas podem ser tidos como consequências do que Gilberto Bercovici chama de estado de exceção econômico permanente, no qual a razão do mercado é a razão do Estado.

Assim, impõe-se a adaptação do direito interno aos imperativos neoliberais do capital financeiro, por meio da diminuição das possibilidades de interferência popular, bem como da limitação dos direitos da população em geral para garantir a propriedade privada e acumulação capitalista.

No mais, ocorre a erosão da autoridade pública, despolitização das relações econômicas e redução da vida democrática ao mínimo. Afinal, o mercado acaba por tomar decisões políticas fundamentais todos os dias, independentemente da vontade popular, em um momento de fragilidade de sindicatos, partidos políticos e até do próprio parlamento.

Desse modo, ainda segundo Gilberto Bercovici, as constituições democráticas e sociais encaram barreiras a sua concretização, pois seus princípios são constantemente suspensos e violados, para que o capitalismo seja garantido.

Também nessa linha, Giorgio Agamben acredita que o estado de exceção passa a ser, na realidade contemporânea, o paradigma de governo, inclusive naqueles tidos por democráticos, ainda que não haja sua declaração no sentido técnico. Assim, sob o pretexto de se aplicar o direito, o aspecto normativo deste é aniquilado por uma violência governamental que ignora o direito internacional no âmbito externo e instala um estado de exceção permanente no âmbito interno.

Estas ponderações se inserem no âmbito do conceito de estado de exceção traçado pelo pensador italiano, segundo o qual tal figura representa a abertura de uma separação entre a realidade e a lei em vigor. Assim, a norma não se aplica, ficando suspensa, para em tese garantir sua existência e aplicação na situação de normalidade, sendo que, por outro lado, atos sem valor de lei adquirem essa força.

Pois bem, os megaeventos não fogem a esta lógica, servindo estrategicamente para reforçar o posicionamento do Brasil como bom lugar para investimentos, em um contexto de proliferação de empreendimentos imobiliários de alto padrão nas proximidades dos complexos esportivos. Ocorre, ao mesmo tempo, a expulsão da população mais pobre, por meio da remoção violenta ou decorrente da valorização imobiliária.

Por exemplo, na Vila Autódromo, onde há décadas residem centenas de famílias, estas darão lugar às obras do Parque Olímpico, que, por sua vez, depois dos Jogos, irá se tornar um empreendimento imobiliário.

Recorde-se que, segundo Raquel Rolnik, os procedimentos adotados durante as remoções para os megaeventos não correspondem àqueles determinados pelo marco internacional dos direitos humanos.

Desrespeita-se o direito de informação, participação e assistência dos atingidos, além de as compensações financeiras serem insuficientes, sendo certo ainda que os reassentamentos ocorrem em locais distantes, com prejuízo ao acesso à rede de subsistência das pessoas.

Em relação às contas governamentais, não se pode olvidar que, no plano federal, a Lei nº 12.780/2013 garante isenções fiscais bilionárias. Há também dispensa de tributos estaduais e municipais.

De outra parte, em julho de 2014 já estavam previstos gastos públicos da ordem de 2,30 bilhões tão somente para projetos associados exclusivamente à organização e à realização do evento (pertencentes à chamada Matriz de Responsabilidades), como os centros esportivos.

Pois bem, o trabalho voluntário na organização dos Jogos de 2016, como se verá, também está inserido nestas medidas excepcionais.

Além dos 65.000 trabalhadores de empresas contratadas, o COI pretende contratar 7.000 e ainda utilizar 70.000 sob o regime de voluntariado, destes 45.000 atuarão nas Olimpíadas e 25.000 nas Paraolimpíadas.

Segundo o site da própria organização (http://www.rio2016.com/voluntarios/), o processo seletivo envolve diversas etapas, iniciadas em outubro de 2014 e que culminam com o recebimento das credenciais somente em julho de 2016.

Durante esse período (chamado de Jornada do Voluntário), os candidatos, que deverão possuir 18 anos completos até fevereiro de 2016, passarão por entrevista e treinamentos, virtuais e presenciais, inclusive com participação nos eventos-teste, assim como verificação de antecedentes criminais.

Em alguns casos, os treinamentos poderão corresponder a três dias, sendo exigidos ao menos 10 dias de trabalho na época dos Jogos, com folgas dependendo da função a ser desempenhada. Não se localizou declaração oficial a respeito da jornada de trabalho, mas cabe recordar que ela era de 10 horas por dia nos Jogos de Londres em 2012. Alerta-se também que a organização não confere abono por faltas, sugerindo-se o planejamento para que a pessoa esteja em gozo de férias ou licença de sua ocupação habitual.

Além do uniforme, fabricado na China, e de treinamento virtual de idiomas, os ditos voluntários receberão brindes exclusivos, alimentação nos dias de trabalho, transporte na região metropolitana da capital fluminense e certificado de participação. Não serão disponibilizados acomodação e transporte durante o processo seletivo e a atuação para aqueles que não morem na cidade dos Jogos.

Ressalte-se ainda que não haverá credencial especial ou ingressos para que eles assistam às competições.

 
As atividades serão realizadas na cidade do Rio de Janeiro, inclusive em seus aeroportos, e nas cidades específicas do futebol – São Paulo, Brasília, Salvador e Belo Horizonte.

 
Ademais, existe uma enorme gama de afazeres a serem desenvolvidos em inúmeros segmentos. Vejamos de modo resumido: a) recepção e assistência nas instalações, Vila dos Atletas, aeroportos, centros de imprensa, bem como auxílio na recepção, transporte, recreação, acomodação das delegações na Vila Olímpica; b) orientação do público, organização de filas, controle de ingressos e credenciais, bem como acompanhamento de portadores de necessidades especiais; c) assistência a patrocinadores e parceiros; d) distribuição, manuseio, suporte, manutenção de equipamentos esportivos, na área de competição e em locais de treinamento; e) apoio operacional, administrativo e logístico nos eventos oficiais, programas culturais e competições; f) produção de conteúdo para canais de comunicação, auxílio na coordenação das conferências de imprensa e atuação na zona mista; g) divulgação dos resultados das competições aos profissionais da imprensa; h) controle e distribuição de uniformes, bem como de itens de engajamento; i) controle das escalas de trabalho; j) auxílio na produção de credenciais; k) suporte à logística e ao protocolo das cerimônias de abertura e encerramento, até mesmo auxiliando cabelereiros, maquiadores, figurinistas, além de atuação na cenografia e nos bastidores; l) auxílio na premiação, inclusive carregando medalhas e flores, assim como acompanhando os atletas entre a área de espera e o pódio; m) participação no elenco das cerimônias; n) acompanhamento, até mesmo servindo como intérprete, dos atletas e dos integrantes das delegações durante os Jogos; o) assistência médica aos atletas, com consultas agendadas e emergenciais, além de atendimento odontológico; p) controle, armazenamento e transporte de produtos farmacológicos; q) realização de serviços antidoping; r) suporte técnico para serviços de informação; s) operação de placares e de rádios portáteis, além da atuação nas estatísticas dos resultados das competições; t) condução de veículos leves entre as regiões de competições; u) gerenciamento do volume de pessoas nos transportes oficiais dos Jogos e auxílio na atualização de informações do fluxo de veículos, bem como do sistema de monitoramento de transporte; v) prestação de informações sobre as rotas de transportes e seus horários; x) seleção dos próprios voluntários.

Não é por outro motivo que, na aludida página eletrônica oficial, consta que o voluntário possui “a responsabilidade de fazer os Jogos acontecerem”. Aliás, por meio de depoimentos emotivos em vídeos institucionais, medalhistas pátrios reforçam esse dever, valendo-se de enunciados como: “sem eles nenhuma vitória ou recorde seria possível”; “enquanto a gente está dormindo, descansando, concentrando para a prova, eles estão mantendo a Vila funcionando, mantendo o transporte para todos os locais”; “sem o atleta não acontecem os jogos, mas sem o voluntário também não”; “aquele amigo de todas as horas”; “tem que ter boa vontade, paciência e querer se doar”; “preparados para qualquer desafio”.

Curiosamente, essas pessoas descritas como heróis preparados e com estado de espírito elevado, essenciais para a realização das Olimpíadas e das Paraolimpíadas, são alijadas do direito fundamental à relação de emprego, insculpido no art. 7º, I, da Constituição. Essa circunstância inclusive faz cair por terra pronunciamentos oficiais no sentido de um suposto legado em termos de redução de desigualdades, geração de empregos e melhoria dos direitos do cidadão.

Não perdendo de vista o já exposto e retomando algumas das reflexões realizadas no artigo “Trabalho voluntário e infantil na organização da Copa do Mundo” de Victor Emanuel Bertoldo Teixeira, serão apresentados a seguir os motivos pelos quais o Direito do Trabalho não tolera essa forma de vinculação nestas circunstâncias.

A extração da mais-valia, por meio da exploração do trabalho alheio, consiste na essência do capitalismo, de modo que a relação de emprego é tida como a regra geral de vinculação de uma pessoa (natural) ao tomador de serviços. Pode-se até mesmo se afirmar a existência de uma presunção no ordenamento jurídico pátrio a esse respeito, conforme expresso na Súmula nº 212 do Tribunal Superior do Trabalho.

Não se pode perder de vista ainda que o pleno emprego deve ser um dos princípios norteadores da ordem econômica, na esteira do art. 170, VIII, do texto constitucional.

Por outro lado, a ausência do elemento onerosidade descaracteriza a relação de emprego, configurando o trabalho voluntário ou gratuito, o qual, coerentemente com a linha de raciocínio exposta, também constitui modalidade excepcional de relação de trabalho. Segundo Amauri Mascaro Nascimento, carece este tipo de finalidade profissional, por não ser assalariado.
Esclareça-se. Aliada à inexistência do escopo oneroso por parte do prestador do serviço (animus contrahendi), a ausência no plano objetivo de remuneração, contrapartida pelo trabalho prestado, fulmina a configuração do vínculo empregatício.

Aliás, a caridade, a assistência e a filantropia podem ser tidas, de certa forma, como manifestação de contrariedade das pessoas à exclusão e à miséria geradas pela desordem mundial, em demonstração de cidadania e solidariedade. Nas últimas décadas, tanto o impulso foi relevante que se coloca a atividade organizada nesse sentido, chamada de terceiro setor, ao lado do Estado e do mercado.

Logo, deve estar presente no trabalho voluntário a índole graciosa do prestador (sem onerosidade), a qual não é afastada com o ressarcimento de despesas relativas ao próprio serviço (caráter indenizatório), segundo o art. 3º, da Lei nº 9.608/98.
Contudo, não basta apenas isto. Na esteira da lição de Mauricio Godinho Delgado, a benemerência desta forma de labor reside na dimensão subjetiva, mencionada no parágrafo anterior, e na causa benevolente dos serviços realizados, dimensão objetiva. Nesse contexto, o referido autor explicita que o tomador deverá ser entidade pública de qualquer natureza, instituição privada sem fins lucrativos ou a própria comunidade, sendo que o art. 1º da referida lei ainda apresenta rol exemplificativo dos objetivos do trabalho voluntário – cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência social, inclusive mutualidade, podendo ainda ser complementado pela militância política e pelas atividades religiosas desenvolvidas por leigos.

Destarte, mostra-se admissível tão somente em hipóteses nas quais a própria natureza da atividade justifique a ausência de remuneração. Isso porque o serviço voluntário não pode ser meio para multiplicação de ganhos com concentração de renda no plano social.

Por óbvio, não se enquadra nos propósitos aludidos o empreendimento esportivo dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos do COI, o qual, embora diga não buscar o lucro, por ser uma associação, em caso de resultado financeiro positivo, 20% deste ficará para ele, 20% para o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), também uma associação, e o restante para beneficio geral do esporte no país.

Ademais, a mera circunstância de se tratar de associações não afasta a configuração da relação de emprego (art. 2º da CLT), ainda mais considerando o fato de que, no caso dos Jogos, sua própria realização consiste em um dos objetivos destas organizações, que compõe o chamado Movimento Olímpico, sob a autoridade e liderança do COI (ponto 1.1 da Carta Olímpica).

 
Esta última entidade tem o papel de assegurar a celebração regular dos Jogos (ponto 2.3 da Carta Olímpica), sendo que ao COB cabe a designação dos Comitês Organizadores dos Jogos Olímpicos, Jogos Pan-americanos e Jogos Sul-americanos, quando o Brasil for a sede (art. 4º, VII, do Estatuto Social do COB).

 
O Comitê Organizador dos Jogos, por sua vez, responde diretamente ao Conselho Executivo do COI, pois este entrega a organização dos Jogos ao Rio de Janeiro, cidade cede, e ao COB, Comitê Olímpico nacional do país (ponto 35 da Carta Olímpica).

 
Desse modo, constata-se uma inadmissível substituição de força de trabalho em atividade inerente à atuação da pessoa jurídica em questão. Isso porque se pretende a utilização de enorme número de voluntários em praticamente todas as funções necessárias para a ocorrência do evento esportivo, o qual consiste na própria essência dos entes envolvidos, inclusive porque são propriedades do COI não somente os próprios Jogos, mas também o símbolo olímpico (cinco anéis), bandeira olímpica, lema olímpico, os emblemas olímpicos, o hino olímpico, a chama olímpica e a tocha olímpica (ponto 7 da Carta Olímpica).

A isto se conjuga a exposição de mais de trinta marcas, nacionais e internacionais, associadas aos Jogos, reforçando a lógica de exploração comercial destas competições. Nesse contexto, não se pode deixar de mencionar que tais eventos também não escapam à fetichização da mercadoria típica do capitalismo.

Como ensina Nelma Gusmão de Oliveira, no fim do século XX, conseguiu-se associar o mercado aos valores morais do Olimpismo. Assim, passou-se a comercializar o aglomerado de valores vinculados ao Movimento Olímpico, pois são altamente valorizados pelo marketing, como honra, integridade, determinação, competividade e excelência.

Assim, o COI negocia, com exclusividade por território ou categoria de produto, a associação entre determinada marca ou rede de televisão e aqueles valores, o que é enriquecido pela restrição de publicidade durante as provas dentro dos locais de competição e na tela das emissoras.

Os próprios voluntários podem ser tidos como uma espécie de manifestação destes valores, exigindo-se determinada conduta por parte deles, os quais devem promover a alegria, valorizar outras pessoas e fazer acontecer. Nessa linha, os comportamentos desejados são proatividade, comprometimento, adaptabilidade a situações diversas, energia e atitude positiva. Deve-se saber trabalhar em equipe, conviver bem com pessoas diferentes e haver preocupação com todos ao seu redor.
Nestes termos, o trabalho voluntário nos Jogos não passa pelo crivo dos critérios cumulativos estabelecidos por Jorge Luiz Souto Maior, quais sejam: a) prestação do serviço não atrelada à sobrevivência ou à satisfação de alguma necessidade essencial do prestador; b) afazeres não utilizados com proveito econômico pelo tomador de serviços; c) amadorismo, ou seja, não constitui atividade profissional do prestador de serviços; d) caráter benevolente, de prazer pessoal ou vínculo de natureza familiar ou religiosa.

A fraude aqui denunciada não é elidida pelo fato de os trabalhadores não estarem sendo forçados a tanto, pois os princípios da imperatividade das normas trabalhistas e da indisponibilidade ou irrenunciabilidade dos direitos trabalhista não permitem que se disponha do próprio salário.

A irrenunciabilidade, característica fundamental do Direito do Trabalho, impede que a força de trabalho seja utilizada fora dos padrões jurídicos fixados pelos direitos trabalhistas. Assim, se o trabalhador não pode simplesmente abrir mão de seus direitos, não será permitida, pela mesma razão, a renúncia ao direito fundamental ao recebimento de justa retribuição pelo serviço prestado, conforme garantido pelo art. 23, inciso III, da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Além disso, propaga-se o argumento de que a atuação como voluntário consistiria em oportunidade única na vida do trabalhador, tendo em vista o contato com pessoas de diferentes culturas, a participação em dois dos maiores eventos esportivos do mundo, a prática de ação solidária de auxílio aos visitantes e o incremento curricular. Portanto, percebe-se que essas pessoas estão pagando com seus próprios direitos a possibilidade de vivência de seus sonhos e desejos, motivo pelo qual não se pode concordar com o juízo de que seriam simplesmente estúpidas, culpabilizando-se em última instância as maiores vítimas, alijadas de direitos fundamentais por força da perversa lógica do estado de exceção permanente.

A propósito, as pessoas que pretendem se envolver no evento das Olimpíadas na qualidade de voluntários devem se perguntar como estão se sentido os milhares de voluntários que atuaram nesta condição na Copa de 2014 após terem notícia das vultosas quantias de que se apropriaram empresas, entidades e personalidades em decorrência da realização da Copa no Brasil.

Aliás, os “voluntários” da Copa ainda podem recorrer ao Judiciário, pleiteando os seus direitos que foram vilipendiados,  para que qualquer pecha de “otário da FIFA” não fique marcada na história.

Ao fim e ao cabo, explora-se uma mercadoria singular e rentável, o espírito olímpico, sem qualquer preocupação com a responsabilidade social inerente ao capitalismo sob a égide do Direito Social, o qual estabelece retornos econômicos à sociedade para viabilização de projetos relativos à política de emprego e do seguro social, ao mesmo tempo em que organiza o processo produtivo, preservando a dignidade do trabalhador, elemento central da produção de riquezas, e fixando margens para a concorrência.

Vislumbra-se ainda patente contradição com os próprios princípios fundamentais do Olimpismo declarados na Carta Olímpica. Ora, o proclamado estilo de vida com responsabilidade social e respeito aos princípios éticos fundamentais universais evidentemente não irá se construir com a organização dos Jogos nos moldes descritos, a qual, ao contrário do anunciado, não se preocupa com a preservação da dignidade humana, considerando o que foi aqui relatado.

A responsabilidade social não consiste em mera mercadoria associada à marca. Ela impõe a devolução à sociedade de parcela dos benefícios propiciados pelo modelo de exploração econômico, por meio do respeito, no mínimo, aos direitos trabalhistas daqueles cujo trabalho serviu ao tomador, ainda que indiretamente.

Assim, a organização dos Jogos se vale da mesma estratégia de grandes empresas, inclusive públicas, as quais divulgam suas inciativas benevolentes como meio de escamotear formas de contratação precarizadoras de direitos, como a subcontratação, e política ostensivamente repressiva das atividades de reivindicação de direitos por parte dos trabalhadores. Na verdade, o intuito é a vinculação de suas marcas a atividades de interesse social (assistencialismo), suplementando, em parcela de pequenas proporções, o papel que seria do Estado, que inclusive parece estar associado a este mecanismo.

Entretanto, todo esse movimento antidemocrático, inserido – como não poderia deixar de ser – no contexto do processo de reprodução do capitalismo atualmente, não passa despercebido pela população brasileira, que protesta com milhares na rua desde o ano passado, expondo as contradições latentes em nossa sociedade.

*Jorge Luiz Souto Maior é professor da Faculdade de Direito da USP e Victor Emanuel Bertoldo Teixeira é mestrando em Direito do Trabalho pela USP.


Por que derrubar o veto ao clube-empresa
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR JOSÉ FRANCISCO C. MANSSUR, CARLOS EDUARDO AMBIEL E EWERTON DE SOUZA*

A sanção presidencial da Lei nº 13.155/2015, o chamado “PROFUT”, foi saudada como positiva para o futebol brasileiro. Não sem razão.

Todavia, o veto aos dispositivos do PROFUT que criavam um Regime Especial de Tributação para os clubes que se transformassem em empresa gerou frustração para aqueles que defendem a profissionalização e a transparência na gestão dos clubes.

E, pior, interrompeu um movimento que se iniciava dentro dos próprios clubes, que, desta vez, mostravam estar realmente interessados em estudar com seriedade o assunto, motivados pela proposta de Regime Especial de Tributação, que permitiria sua transformação em empresa, perdendo as vantagens das isenções das atuais associações, mas sem acrescer muito (muitas vezes diminuindo) os custos em tributos, pois o novo regime permitiria o pagamento do equivalente a 5% da receita mensal, apurada pelo regime de caixa, para o IRPJ, PIS/PASEP, CSLL e COFINS. Tudo isso com a vantagem de adotar mecanismos mais modernos de governança e se tornarem mais atraentes a receberem investimentos.

É fato que desde a década de 1990 os diversos governos têm tentado provocar (ou impor) a transformação dos clubes em empresa. Sem sucesso.

Também é fato que, desde então e até os dias de hoje, o mesmo Estado reconhece, como só poderia ser, que os clubes realizam negócios com inegável componente econômico, seja pelo valor, seja pela natureza. Tanto assim que, mesmo organizados na forma de associação, os clubes são obrigados ao recolhimento de alguns tributos (mesmo que muitos não o façam, o que obriga, de tempos em tempos, a criação de programas de parcelamento de impostos atrasados, como foi a Timemania e agora o PROFUT).

De fato, ainda, que o cenário atual, mantido pelo veto presidencial ao Regime Especial de Tributação, desincentiva uma transformação que se desenhava possível e repleta de perspectivas positivas.

Também reduz as chances de recebimento de novos investimentos pelos clubes brasileiros. Primeiro, porque o ambiente das associações, adotados por razões históricas na quase totalidade dos clubes – pois assim se organizavam quando da sua criação, no século passado – não é seguro ao investimento, com seus regimes políticos instáveis e a falta de fiscalização dos atos de gestão. E caso o investidor queira “começar do zero” um clube novo, adotando os mecanismos de governança das empresas, iria iniciar em enorme desvantagem em relação aos clubes-associações em face das atuais isenções fiscais que lhes assistem.

Parece-nos que não há como modernizar o futebol brasileiro sem alterar esse cenário, tanto que o Regime Especial de Tributação já começava a despertar a atenção de alguns clubes, dessa vez, sem serem obrigados a tanto, no pleno exercício da sua livre iniciativa.

Por isso, a decepção quando, “aos 45 do segundo tempo”, apareceu o veto ao Regime Especial de Tributação. Parece que o futebol nacional sofreu mais um gol da Alemanha. Segundo noticiado, foi o Ministro da Fazenda Joaquim Levy, que teria recomendado o veto à Presidenta Dilma, com a seguinte justificativa oficial: “Embora o estímulo à adoção do formato empresarial pelos clubes de futebol possa ser desejável, as alíquotas e parâmetros propostos carecem de análise mais aprofundada, além da respectiva estimativa de impacto financeiro.”

É lamentável que um tema presente nas discussões de modernização do nosso futebol há mais de 15 anos, não tenha recebido, nessa especial oportunidade, o estudo necessário de impacto financeiro pelo Ministério da Fazenda. Assim, a par de tudo quanto a migração dos clubes para o regime das empresas pode gerar de benefício ao nosso futebol, podemos examinar alguns dados que mostram o real impacto para o Tesouro dessa medida salutar. Vamos a eles.

Por amostragem, os clubes de futebol pagam tributos que em média equivalem a 7% sobre sua receita bruta, já considerando a contribuição de 5% do INSS sobre parte de suas receitas, embora não há uma uniformização de recolhimento entre os diversos clubes de futebol, devido a divergência quanto aos impostos que devam recolher.

Em 2013, a receita bruta dos clubes de futebol do Brasil, observando os balanços publicados, foi de R$ 3,3 bilhões, gerando impostos de aproximadamente R$ 231 milhões. Se os clubes passassem a recolher na alíquota de 5% proposta pelo Regime Especial de Tributação do PROFUT, teriam recolhido R$ 165 milhões, o que significaria, em valores absolutos uma renúncia fiscal estimada, considerando os dados daquele ano, de R$ 66 milhões/ano, valor relativamente pequeno em face do efeito positivo que modernização do futebol brasileiro poderia proporcionar, inclusive com a potencial melhoria do produto e aumento das receitas e, conseqüentemente, dos impostos.

Comparando com outras renuncias e investimentos recentes do Estado brasileiro no futebol, apenas para ficarmos no mesmo “campo”, o Estádio Nacional de Brasília custou aos cofres públicos o valor de R$ 1.6 bilhão, fora os custos de manutenção. Portanto, com o valor gasto para construir 1 estádio da Copa do Mundo, seria possível conceder, por 26 anos, a renúncia fiscal temporária que estava no PROFUT e foi vetada. Nesse período, mudanças significativas na gestão do futebol brasileiro certamente já seriam percebidas. Governar é saber escolher prioridades.

Mas, não é tudo. É absolutamente razoável esperar que, melhor organizados, os clubes gerem muito mais receitas e, eventualmente, apresentando lucro, o que contribuiria para elevar a base de contribuição. Ou seja, a renúncia temporária logo seria substituída por aumento do valor dos impostos a serem pagos pelos clubes.

Da mesma forma, a aprovação do Regime Especial e a transformação dos clubes em empresa poderia viabilizar o recolhimento dos tributos sobre as receitas oriundas das transferências de atletas para o exterior, pois, atualmente, os principais clubes, por serem associações civis, não recolhem impostos na venda de atletas. Com a transformação em empresas, nossos clubes passariam a pagar 5% de impostos sobre tais receitas. Ainda em 2013, foram obtidos mais R$ 600 milhões em receitas pela transferência de atletas. Com base nos números de 2013, já estaríamos falando R$ 30 milhões que passariam a ser recolhidos e que hoje não são.

Por tudo isso, é preciso dizer que veto ao Regime Especial de Tributação abortou um movimento de modernização que parecia, enfim, se iniciar no futebol brasileiro, interrompendo As as iniciativas de diversos clubes que já estudavam a melhor forma de se transformarem em empresa. Foi um passo atrás, num momento em que precisamos avançar e muito. E, isso se deu, em função de uma renúncia fiscal temporária em valores que não justificam negar a possibilidade do avanço e que poderiam ser compensados pelo aumento da base de contribuição.

E é por isso que o Congresso Nacional pode e deve derrubar o veto Presidencial nesse ponto, evitando mais esse gol da Alemanha.

*José Francisco C. Manssur, Carlos Eduardo Ambiel, advogados especializados em Direito Desportivo e Ewerton de Souza, economista


Deixe os mortos enterrarem seus mortos
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR VLADIMIR SAFATLE, hoje na “FOLHA”

A Nova República acabou. Qualquer análise honesta da situação brasileira atual deveria partir dessa constatação. O modelo de redemocratização brasileiro, que perdurou 30 anos, baseava-se em um certo equilíbrio produzido pelo imobilismo.

Desde o momento em que FHC se sentou com ACM e o PFL para estabelecer a “governabilidade”, a sorte da Nova República estava selada. Frentes heteróclitas de partidos deveriam ser montadas acomodando antigos trânsfugas da ditadura e políticos vindos da oposição em um grande pacto movido por barganhas fisiológicas, loteamento de cargos e violência social brutal.

O resultado foi um sistema de freios que transformou os dois maiores grupos oposicionistas à ditadura (o PT e o núcleo mais consistente do PMDB, a saber, o que deu no PSDB) em gestores da inércia. Com uma “governabilidade” como essa, as promessas de mudanças só poderiam gerar resultados bem menores do que as expectativas produzidas.

Mas a Nova República tinha também um certo princípio de contenção por visibilidade. No auge da era FHC, José Arthur Giannotti cunhou a expressão “zona cinzenta de amoralidade” para falar do que ele entendia ser um espaço necessário de indeterminação das regras no interior da dita democracia com sua “gestão de recursos escassos”.

Essa zona de amoralidade, mesmo tacitamente aceita, deveria saber respeitar uma certa “linha de tolerância”, pressuposta na opinião pública. Havia coisas que não poderiam aparecer, sob pena de insuflar a indignação nacional.

Giannotti acreditava falar da essência da democracia, mas estava, na verdade, a fornecer involuntariamente o modo de funcionamento das misérias da Nova República: um acordo fundado sobre uma zona cinzenta de amoralidade resultante de disfunções estruturais e democratização limitada.

Mesmo isso, no entanto, é coisa do passado. O primeiro sintoma do fim da Nova República é a pura e simples gangsterização da política e a brutalização das relações sociais. Não há mais “linha de tolerância” a respeitar, pois não é mais necessário um “pacto pelo imobilismo”.

Pacto pressupõe negociação entre atores que têm força e querem coisas distintas. Mas todos os principais atores políticos da Nova República já estão neutralizados em seu risco de mudança. Os que não querem a mesma coisa não têm mais como transformar seu desejo em ação.

Assim, como não há mais linha de tolerância a respeitar, o outrora impensável pode ser mostrado, desde que sirva para desestabilizar o governo de plantão.

Por exemplo, foi como um sindicato de gângsteres que o Congresso Nacional e seu presidente agiram na semana passada ao convocar, para uma CPI de fantasia, a advogada de defesa de denunciantes da Operação Lava Jato, a fim de intimidá-la.

De toda forma, só uma política gangsterizada pode aceitar que o presidente da Câmara seja um indiciado a usar seu cargo para, pura e simplesmente, intimidar a Justiça, como se estivesse na Chicago dos anos 1930.

Dilma acreditava ainda estar na Nova República ao rifar seu governo para economistas liberais. Seu cálculo era: “Se eu garantir que não haverá nenhuma mudança drástica de rota, serei preservada no governo”. Esse raciocínio, no entanto, não serve mais.

Como é, atualmente, indiferente saber quem está no governo, pois todos sabem que nenhuma mudança drástica de rota virá, a rifa de Dilma não garantirá sua sobrevida.

Em um contexto de crise dessa natureza (e, antes de ser econômica, a crise brasileira é política, é a marca do fim de uma era política) a única solução realmente possível é caminhar ao que poderíamos chamar de “grau zero da representação”.

Não há, hoje, mais atores políticos no Brasil. Os principais foram testados e falharam, e é desonestidade intelectual acreditar que uma simples troca de presidente mudará algo. Por isso, o poder instituinte precisa se apresentar diretamente, com o mínimo de representação possível. Ao apresentar-se enquanto tal, o poder instituinte pode impulsionar um processo de constituição de novos atores e novas formas.

O parlamentarismo tem a possibilidade de convocação de eleições em situações de crise. O presidencialismo brasileiro precisaria de tal flexibilidade para, no caso, convocar eleições gerais, tendo em vista, entre outros objetivos, a dissolução deste Congresso e a convocação de uma assembleia constituinte capaz de refundar a institucionalidade política nacional.

Assembleia para a qual poderiam se apresentar candidatos independentes, fora de partidos políticos, com controle estrito do poder econômico. A saída da crise não se dará por meio de conchavos de bastidores, mas pela radicalização da democracia. Como já se disse antes, há horas que você precisa deixar os mortos enterrarem seus mortos e seguir outro caminho.


Por que eles não param?
Comentários Comente

Juca Kfouri

Na “Folha” de hoje:

Entre tantas dúvidas a assolar nossas pobres cabeças, há uma recorrente: não há limite para a ganância?

Por que gente milionária quer sempre mais e mais dinheiro?

Porque buscar mais poder é compreensível e aí estão as seguidas reeleições no esporte brasileiro para demonstrar. Mas dinheiro, depois de um certo ponto, para quê? Jantará duas vezes ao dia?

Alguém dirá não se tratar de ganância, mas apenas de ambição para fazer a roda do capitalismo girar.

Daí um Bill Gates não parar ou um Steve Jobs só ser parado pela morte.

Não são eles, nem tantos outros empreendedores, que despertam a pergunta sobre limites.

Trato de figuras menos nobres, não admiráveis, que vieram ao mundo apenas para enriquecer, por quaisquer meios, desonestos se necessário, anti-éticos, “espertos”, às vezes disfarçados em causas humanitárias, na maior parte voltadas para os próprios umbigos.

Eis uma lista limitada, por ordem alfabética, com alguns cuja ganância levou à desgraça, se não financeira, mas moral, além até da perda do mais precioso dos bens, a liberdade.

Eduardo Azeredo, Fernando Collor, José Dirceu, José Maria Marin, Paulo Maluf e Ricardo Teixeira.

O primeiro teve de renunciar ao mandato de deputado.

O segundo perdeu a presidência da República.

O terceiro a liberdade e o respeito de toda uma geração.

O quarto está preso na Suíça, aos 83 anos.

O quinto vaga por aí feito um morto vivo, rico, abandonado e amedrontado.

O sexto também sentiu o gosto da prisão, mas como não é o terceiro, logo saiu.

Terá compensado?

Não dava para ter parado antes de ficar evidente que os meios eram ilícitos e tornar as punições inevitáveis?

Pouco me lixo para Azeredo, Collor, Marin, Teixeira e Maluf, mas a revelação de que Dirceu obrava em causa própria, embora não surpreendente, é dessas que, preto no branco, deprimem.

Deprime quem, apesar de equivocado, em busca de outra ditadura, a do proletariado, achou que um dia libertaria o Brasil pelas armas depois do golpe de 1964.

Deprime quem viu Zé Dirceu com a camisa ensanguentada do estudante morto por bala atirada pela direita na “Batalha da Maria Antônia”, entre estudantes da USP e do Mackenzie.

Impossível não lembrar de Nabi Abi Chedid, já falecido, que presidiu a Federação Paulista de Futebol, foi vice, com muito poder, da CBF e deputado em São Paulo.

Homem de direita, de moral, digamos assim em respeito à sua memória, absolutamente complacente e elástica, pragmático ao extremo, um dia me encontrou no aeroporto de Congonhas, logo depois que o “mensalão” veio à luz e cobrou: “Não te disse que no poder todos ficam iguais?”.

Pego de surpresa, reagi ingenuamente:”Não justifica, mas pelo menos não é para enriquecimento pessoal”.

Ele abriu um sorriso largo, quase sedutor, e contra-atacou: “Não se engane, você vai quebrar a cara”.

Collor, Marin, Teixeira, Maluf, jamais me enganaram.

O Zé sim. E como!

É imperdoável.


A história de um diário que vingou
Comentários Comente

Juca Kfouri

  
Aqui está a história de um diário esportivo que vingou apesar de todas as opiniões contrárias e das intempéries de nosso futebol.

Um jovem e corajoso empreendedor mais um grupo de animados jornalistas fizeram do “Lance!” muito mais que um jornal, tantos são os filhotes que gerou.

A história é contada por Maurício Stycer, como tese de mestrado, que você encontra também AQUI.


Fundação
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Diego: “Foi o que falaram: erregê de todo mundo. Titular e reserva.”

Paulinho: “Erregê?”

Diego: “É.”

Zeca: “Que que é isso?”

Diego: “Não sei.”

Pedro: “Por que não perguntou?”

Carlão: “E o nome? Vamos decidir?”

Beto: “Eu sugiro Debóis.”

Diego: “Fiquei com vergonha.”

Carlão: “Debóis? Isso não é nome de time!”

Zeca: “Que que é Debóis?”

Paulinho: “Burro, devia ter perguntado! Vê aí no Google o que que é erregê!”

Diego: “Como é que escreve?”

Beto: “Claro que é! Debóis Esporte Clube.”

Fabinho: “Pessoal, podia ser Arco-Íris!”

Zeca: “O que é arco-íris?”

Fabinho: “Aquela ponte colorida que aparece no céu, Zeca!”

Carlão: “Zeca, você não sabe nada de nada, não?”

Fabinho: “Não fala assim com meu irmão! Ele tem só tem oito anos!”

Beto: “Eu também tenho oito e sei muito mais coisa!”

Diego: “E-erre-erre… É? O que é Debóis, então?”

Beto: “Não sei. Vi num filme.”

Fabinho: “Viu? Nem sabe e quer dar o nome pro time!”

Zeca: “O Diego nem sabe escrever erregê!”

Carlão: “Arco-íris não! Muito mulherzinha.”

Fabinho: “Mas é tão bonito!”

Pedro: “E o uniforme ia ter que ser cheio de cor!”

Paulinho: “Que cor vai ser o uniforme?”

Carlão: “Branco e preto!”

Diego: “Vermelho e preto!”

Zeca: “Podia ser todo branco!”

Paulinho: “Todo preto!”

Diego: “Meu irmão respondeu que erregê é identidade.”

Zeca: “Seu irmão tá no Google?”

Diego: “Não, Zeca! Eu escrevi pra ele!”

Zeca: “Eu não tenho identidade!”

Beto: “Nem eu.”

Carlão: “Vamos usar branco com azul porque dá pra aproveitar a camisa do colégio.”

Pedro: “Já sei: Erregê Esporte Clube!”

Paulinho: “Erregê?”

Carlão: “Gostei. Tá resolvido.”

Beto: “Por que você decide?”

Carlão: “Porque sou o mais velho, já fiz treze.”

Zeca: “Então põe Identidade Esporte Clube, pra todo mundo entender.”

Carlão: “Até que enfim, Zeca! Boa Ideia!”

Diego: “Quem vai lá fazer a inscrição?”

Pedro: “Vocês viram o time do Ricardo do sexto ano? Só tem grandalhão!””

Fabinho: “Precisa de foto?”

Beto: “Pode ser Identidade Debóis Clube?”
_______________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)


O TCU acorda tarde
Comentários Comente

Juca Kfouri

  

“Ele (Nuzman) exerce, também, a presidência da Co-Rio 2016, caso único na mais que centenária história das Olimpíadas, e se justifica dizendo que o duplo exercício evita ‘conflito de interesses’, como estaria acontecendo na Inglaterra, onde o presidente do comitê olímpico é um e o do Jogos de Londres é outro, o campeoníssimo atleta Sebastian Coe.

Na verdade, o insubstituível cartola confunde conflito de interesses com livre concorrência.

E aproveita a dupla função para arrancar dos patrocinadores do COI, com espaço obrigatório na Olimpíada do Rio, mais dinheiro para o COB, ameaçando os que não aceitarem com “pão e água” durante o megaevento de 2016.”

Em maio de 2012, mais de três anos atrás, portanto, o que você leu acima foi escrito em minha coluna, na “Folha de S.Paulo”.

Só agora, porém, nosso intrépido Tribunal de Contas da União se deu conta do evidente conflito de interesses vivido por Carlos Nuzman ao acumular as duas funções e exige que ele renuncie a uma delas — o que não fará.

O TCU é um órgão do faz de conta e faz bem apenas aos seus membros.


Bergman e o Galo
Comentários Comente

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Um mesmo cinema de Belo Horizonte está exibindo, em uma das salas, “O Dia do Galo” e, em outra, “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman.

Difícil imaginar coisas à primeira vista mais diferentes uma da outra.

O primeiro filme acompanha torcedores atleticanos no dia 24 de julho de 2013, data em que o Galo conquistou o título de campeão da Libertadores. O segundo filosofa sobre a vida e a morte, Deus e o diabo, o bem e o mal, o sentido ou não da existência.

Até os espectadores de um filme e de outro são física e psicologicamente – ao menos naquele momento – seres de espécies longínquas entre si.

Sem falar no comportamento dentro das salas: em um, o transe de uma torcida, incluindo xingamentos e comemorações; no outro, o ritual de uma meditação, cortado somente por suspiros de angústia.

Mas, na verdade, há muitas semelhanças entre o que se passa nos dois filmes.

Na história de Bergman, um homem, com a fé abalada, põe sua vida em jogo numa partida de xadrez contra a morte. A cada lance tudo pode acabar.

A campanha do Galo, a partir das quartas de final, com a defesa de Victor aos 47 do segundo tempo, e as duas recuperações de placar, com vitórias nos pênaltis, na semifinal e na final, ficou muito próxima disso.

O próprio documentário, aliás, avisa no subtítulo que se trata de “um filme sobre paixão, fé e futebol”, tal a carga de elementos dramáticos e mesmo religiosos (“eu acredito!”) que envolveram a conquista do Atlético.

Relido dessa forma, o parágrafo acima, sobre o comportamento dos espectadores nas salas, pode até ficar ambíguo.

Talvez a diferença fundamental mesmo seja a seguinte: na partida de xadrez do filme de Bergman – ou depois dela, qualquer que seja o seu resultado – a vencedora é sempre a morte, mesmo que ela comece em desvantagem, jogando com as pretas.

Já no caso da Libertadores, o vencedor foi o Galo, que superou a morte três vezes, na última de forma definitiva.

Claro que o fez pela competência do time.

Mas também porque, ao contrário do protagonista do outro filme, fé é o que não faltou aos seus torcedores.

Além do mais, o time jogou sempre com as pretas e as brancas ao mesmo tempo.

Desse jeito, a morte não era mesmo páreo pro Galo.
__________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)


Aos imbecis
Comentários Comente

Juca Kfouri

“Crítico do papel das novas tecnologias no processo de disseminação de informação, o escritor e filósofo italiano Umberto Eco afirmou que as redes sociais dão o direito à palavra a uma ‘legião de imbecis’ que antes falavam apenas ’em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade’.”

A estes imbecis, felizmente minoria esmagadora neste blog, o que escrevi quando Petros, então do Corinthians, foi julgado:

“Entre cinco julgadores, três deram 180 dias de gancho para Petros.

Um optou por quatro jogos e outro por apenas um.

Julgava-se o óbvio: se Petros agrediu ou não o apitador.

É claro que agrediu.

Não fosse a palhaçada que caracteriza o STJD, estaria no regulamento do campeonato que agressão ao árbitro é punida com x dias.

No dia seguinte ao jogo, em rito sumário, imagens consultadas, se decidiria:

Houve ou não agressão?

Não houve?

Absolve-se o jogador.

Houve?

Gancho de x dias.

Mas, no picadeiro, houve quem não visse agressão alguma.

O Corinthians recorrerá e, provavelmente como é habitual, haverá redução da pena no picadeiro ampliado.

9 a 1 para a Alemanha!”

Então, nenhum imbecil comentou que o blogueiro estava provocando o tribunal para manter a pena ao corintiano.