Blog do Juca Kfouri

Tostão de Jesus

Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

A discussão é bizarra – e centenária.

Centroavante só deve fazer gol.

Ou centroavante pode jogar recuado?

Discussão meio absurda.

A Hungria jogava com centroavante recuado nos anos 50.

Hungria que implodia pelas meias.

Porém, a figura do centroavante é medieval.

Um cavaleiro em busca do Graal.

Ademir e Vavá personificaram o ideal.

Até que chegou um tal de Tostão.

Tostão marcando gols e mais gols.

Tostão que não era bem um centroavante de armadura e Dulcinéia.

Tostão que não podia jogar com Pelé, segundo a patuléia.

Tostão que vivia no precipício de cones e bastonetes.

Aí, o general não teve dúvida:

Bom é o Dadá!

Dadá que não tinha culpa no cartório, é bom que se diga.

Tostão virou Jesus crucificado.

Tostão não pode jogar com Pelé.

Discussão bizarra.

Tostão foi pra Copa de costas pro gol.

Hidegkuti verde amarelo.

Nada de gol contra tchecos.

Uma reles saia nos ingleses.

Um mero calcanhar contra romenos.

Coisa de gênio, mas centroavante nem neurônio deveria ter.

De saco cheio, Tostão meteu dois gols no Peru – um de orelha.

Deu um passe milimétrico para Clodoaldo nas semifinais.

Outro passe pra Pelé bailar com Mazurka.

E, sublime ironia, tirou a defesa italiana do jogo na final.

Sem tocar na bola.

Virou o símbolo do craque que não precisava de bola pra ser craque.

O que?

O texto compara Tostão com o arcanjo Gabriel?

Claro que não!

O texto não é herético.

Não se brinca com os protegidos pelos deuses do futebol.

Entretanto, a discussão é bizarra – e centenária.

Centroavante só deve fazer gol.

Ou centroavante pode jogar recuado?

Discussão que já devia ser meio absurda.

Se Tite tem dois meias criativos, inventivos, cerebrais.

O centroavante pode flutuar livremente.

E até mesmo abdicar de fazer gols em prol da equipe.

Porque até mesmo a nossa percepção de gol é paleozoica.

Já que a imensa maioria dos gols é coletiva,

Kibbutz.

Kolkhoses.

Os centroavantes rompedores estão na moda.

Quem não tem Kane caça com Lukaku.

Mas no país de Tostão.

É preciso entender que Jesus é sonho de consumo de Neymar e Coutinho.