Blog do Juca Kfouri

O delator e os coronéis de Rio Preto

Juca Kfouri

POR ALLAN DE ABREU

Não tem jeito: sempre que se veem ameaçadas, as elites brasileiras se autoprotegem, sobretudo no interior do país. A censura a “O delator”, que narra a ascensão criminosa do empresário J. Hawilla nos negócios do futebol, ilustra com perfeição essa tese. A família Hawilla é de São José do Rio Preto (SP), onde detém inúmeros negócios imobiliários e também a concessão de uma afiliada da Rede Globo, o que lhe confere poder, muito poder. Primeiro nos jornais: o “Diário da Região”, onde os autores do livro construíram carreira sólida, se negou a autorizar o uso, na obra, de uma foto de J. Hawilla que havia em seus arquivos. Quando noticiou o livro, o fez de modo tão vexatório que não se pode considerar um trabalho minimamente jornalístico. Depois, os dois shoppings da cidade, Riopreto e Iguatemi, se recusaram a ceder suas livrarias, as únicas do município, para uma noite de autógrafos. Por fim, as duas empresas de outdoor de Rio Preto, J. Silva e Interdoor, se recusaram a veicular publicidade de “O delator” alegando que não poderiam divulgar uma “biografia não-autorizada” – pelo visto, seus advogados precisam urgentemente se atualizar sobre as decisões do STF que liberam a publicação desse tipo de obra ou então inventar subterfúgio melhor. Aqui embaixo, o outdoor que nenhum habitante de Rio Preto verá nas ruas. Pelo visto, a “omertà” que Hawilla quebrou para escapar da cadeia ainda segue firme entre a alta burguesia rio-pretense.