Blog do Juca Kfouri

Vamos falar do VAR?

Juca Kfouri

POR RICARDO PORTO*

Envolvida na emoção diária da Copa, a gente pode não perceber de imediato, mas se olhar atentamente veremos que o futebol está a caminho de uma revolução diante da experiência com o VAR – árbitro assistente de vídeo – na Rússia. Antes de tomar posições e partir para o embate de prós e os contras, vamos voltar alguns anos no tempo, quando a Fifa acordou do sono letárgico  diante da evolução e do impacto provocados pela adoção da tecnologia em outras ligas, como a NFL, NBA, MLB, e esportes como o tênis e o voleibol. A crescente capacidade de processamento de dados e imagens já tinha tornado a tecnologia fator decisivo no esclarecimento, para o bem e para o mal, de situações em que o olho humano não era mais capaz de conduzir um processo viável e transparente de tomada de decisão. Na maioria dos casos, devido à velocidade dos jogos, as consequências esportivas e interesses comerciais decorrentes de qualquer ação de arbitragem.

A NFL foi a primeira liga a adotar a ajuda externa para clarear as decisões de arbitragem ao instituir, em 1986, o sistema de replay instantâneo – imagens das câmeras de transmissão são analisadas pelo árbitro de campo. Houve muita controvérsia sobre sua eficácia, mas, desde 1998, o sistema vem sendo continuamente aperfeiçoado. Em relação ao nosso futebol, há uma importante diferença: os técnicos devem “desafiar” (challenge) as decisões de campo antes que sejam revisadas. As 13 situações nas quais o replay instantâneo pode ser usado estão claramente descritas nas regras.

As luzes de LED acendendo na tabela foram a primeira forma de ajuda externa para árbitros usada pela NBA, lá em 2002. A ideia era determinar se o arremesso tinha sido ou não executado antes do cronômetro zerar. A FIBA adotou o sistema em 2006. Hoje, a NBA construIu um centro de replays instântaneos com tecnologia de ponta, conectado a todas as arenas, capaz de exibir, em poucos segundos, aos árbitros na quadra os melhores ângulos da jogada. Há 14 situações de regra diferentes nas quais o replay pode ser utilizado. Não é permitido às equipes desafiar as decisões dos árbitros.

O beisebol profissional americano (MLB) também possui seu centro de replays. A diferença em relação à NBA é que um grupo de árbitros revisa os lances e informa os árbitros no campo se a marcação permanece ou não. A interferência tecnológica existe quando o lance é desafiado pelos  treinadores.

O tênis e o voleibol desenvolveram um sistema que introduz a imagem computadorizada à equação. Ambos usam o “Hawk Eye”, um sistema privado que reconstrói, a partir de imagens, a trajetória da bola para determinar o ponto exato de aterrissagem na quadra. Em ambos os casos, “desafios” dos jogadores e técnicos disparam a avaliação. O vôlei também utiliza câmeras especiais, fora da transmissão comum, conectadas ao “Hawk Eye” para determinar toques na rede e outras infrações. No caso da FIVB, o sistema que vinha sendo utilizado no tênis foi testado e desenvolvido por mais de um ano até ser oficialmente adotado durante os Jogos Rio 2016.

Historicamente, a Fifa sempre foi contra qualquer interferência externa via tecnologia. O ex-presidente Sepp Blatter chegou a dizer que “erros acrescentam ao fascínio e popularidade do futebol”. E que “a tecnologia era custosa para ser implementada amplamente”. No entanto, com o desenvolvimento das transmissões, em qualidade HD e câmeras lentas de alta definição, as falhas dos árbitros passaram a ser expostas cruamente ao mundo inteiro. Decisões questionáveis tiveram um impacto mais do que desejável nos resultados de partidas.

Um dos pontos de inflexão certamente foi o gol dos inglês Frank Lampard contra a Alemanha em 2010. A bola passou 60 centimetros da linha de gol, mas o árbitro não conseguiu ver e não deu o gol. A partir dali, a FIfa se viu quase forçada a desenvolver a tecnologia de linha de gol. Depois de uma batalha técnica e comercial, a GLT foi usada pela primeira vez na Copa de 2014. E, aberta a porteIra, passa a boiada. A GLT nunca daria conta das questões polêmicas da arbitragem, muitas das quais ocorrem no último terço do campo – impedimentos e pênaltis pediam esclarecimento adicional, assim como as aplicações de cartões amarelos e vermelhos.

A Fifa tinha então 4 anos para desenvolver o VAR. O sistema utiliza câmeras de transmissão conectadas a uma central onde um grupo de 4 árbitros acompanha os lances. O sistema foi testado na Série A italiana e na Premier League inglesa, gerando inúmeras polêmicas sobre sua aplicação.

Em primeiro lugar, a Fifa não permite os consagrados “desafios” dos técnicos. Assim, as decisões estão sujeitas à interpretação da equipe de revisão e são informadas ao árbitro no campo, sem que o público no estádio ou a audiência da TV tome conhecimento dos processos. O árbitro pode optar por olhar ou não as imagens no campo para tomar a decisão final. Além disso, desde o início da Copa, a Fifa abandonou o protocolo para as situações em que o VAR deveria ser usado. O diretor de arbitragem, Massimo Busacca, admitiu que a Copa poderia assistir vários equívocos na aplicação do VAR. Irresponsavelmente, tinha razão.

O protocolo do VAR, publicado antes da Copa, diz que o sistema é uma ferramenta para evitar “erros claros” nas seguintes circunstâncias: gols, pênaltis, cartões vermelhos diretos e cartões atribuídos a outros jogadores. O foco são lances objetivos, como um gol marcado em “claro”impedimento. Ou o pênalti cometido na linha da grande área.

A aplicação tem sido acusada de falta de transparência. Na Copa, por exemplo, além dos pênaltis e impedimentos, o VAR foi utilizado para tentar anular um cartão amarelo aplicado a Cristiano Ronaldo. Um lance de interpretação do árbitro, não uma situação objetiva. Suecos e alemães quase chegaram às vias de fato em razão de um pênalti não assinalado pelo árbitro, numa situação em que o VAR deveria ter se manifestado.

Do lado positivo, a interferência do VAR ajudou a aumentar o número de decisões corretas em lances duvidosos de pênalti e impedimentos.

De acordo com o ex-árbitro e comentarista Arnaldo Cezar Coelho, a Fifa atribuiu um poder excessivo ao VAR, desacreditando a decisão dos árbitros de campo, especialmente em lances que requerem interpretação. “Eles rasgaram o protocolo inicial”, diz Arnaldo. “Na central de replay temos árbitros de segunda linha, que chegaram à Copa sem qualquer experiência prévia sobre como aplicar o VAR. Estão olhando as jogadas baseando-se na câmera lenta, que muda completamente a velocidade real e a percepção da jogada.”. Ele repara que, em campo, os árbitros começaram a se valer do VAR como muleta para suas próprias indecisões.

Como não foi intensivamente testado antes de sua aplicação, o VAR ainda depende de muitos ajustes. Especialistas entendem que a Fifa deve investir no treinamento dos árbitros e das equipes de VAR. Enfrentar o problema da transparência parece óbvio. Uma vez que a opinião pública compreenda os critérios, menores serão as polêmicas.

Para o futuro próximo, uma sugestão que já está sendo estudada pela Fifa é permitir os “desafios”(challenges) pelos técnicos. Isso ajudaria na confiabilidade da tecnologia, que chega atrasada, quase que empurrada goela abaixo dos amantes do futebol, justamente durante o maior evento do esporte. Fato é que o futebol nunca será o mesmo depois do VAR. Não sejamos ingênuos: as discussões após jogo estão garantidas nos bares e nas mesas redondas. Quem sabe com um tempero extra, capaz de render embates anos a fio.

*Ricardo Porto é jornalista. Dos bons.