Blog do Juca Kfouri

Pedro, o menino da arquibancada do Maracanã

Juca Kfouri

POR CÉSAR OLIVEIRA*

Qualquer um que tenha vivido bons momentos sob a lendária marquise do Estádio do Maracanã, será capaz de se reconhecer no menino Pedro, de cabelos escovinha, blusão, calças curtas e sapatos de couro com meia. Era o uniforme dos meninos da classe média.

A foto em que ele aparece atento a um lance, não deve ter repercutido na ocasião. Ficou famosa depois, porque clicada por um fotógrafo que se tornou famoso depois, pelo seu trabalho diferenciado.

Tão bom, tão rico, que seu acervo de 20 mil negativos foi adquirido pelo Instituto Moreira Sales, em agosto de 2005. Em 1986, a Funarte realizou no Rio de Janeiro a mostra retrospectiva “José Medeiros, 50 anos de Fotografia”, que também transformou em livro.

UM FOTÓGRAFO DIFERENCIADO

Entre os 25 e os 40 anos, o piauiense José Araújo de Medeiros integrou a equipe da revista “O Cruzeiro”, então a maior do país, cujo departamento de fotografia, chefiado pelo francês Jean Manzon, revolucionava o tratamento dado à imagem na imprensa nacional.

Dentre os trabalhos que integram o acervo deixado por Medeiros, destaca-se a cobertura da derrota da Seleção Brasileira na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã, com especial atenção a cenas de arquibancada.

O ENCANTO DE SE RECONHECER

Quando vi a foto, pela primeira vez, numa exposição sobre a obra de Medeiros na galeria do Itaú Unibanco, em 2006. E fiquei pensando:

— Quem será, hoje, este menino?

Anos depois, revi a foto e resolvi que iria tentar descobrir quem era, por onde andava, o que fizera da vida, o que viu no Maracanã etc. Escrevi em 2011 para o “Overmundo” um pedido de ajuda: “Você conhece este garoto?”. E logo para o portal “Por Dentro da Mídia”

Levou muito tempo para descobrir. Só agora, em 2018, depois de voltar de vez em quando ao assunto, consegui contato com Eduardo, o filho do menino, dono da Melomano Discos, em Maringá.

Disse a ele que queria conversar com seu pai e os motivos. Eduardo explicou que gostaria, mas que o pai era reticente. Edu tem o pai como herói e me ajudou muito a dobrar a resistência inicial do Pedro.

Aos poucos, respeitosamente e com cuidado.

FINALMENTE, ELE CEDE

A família sabia da fotografia. Mas Pedro, o menino que agora está caminhando para os 80 anos, não queria falar comigo, não queria falar da vida, não queria lembrar do menino que ele foi. Respeitei, com dor no coração, porque a história obviamente só poderia ser sensacional.

Voltei a insistir com o filho. Eduardo, que tem o pai como ídolo, queria que ele falasse. Perguntei se ele poderia fazer fotografia do “velho”, segurando a fotografia. Ele diz, às vezes, que não se reconhece. Mas que as duas irmãs garantem que o menino na foto é ele.

Eduardo e eu fomos costurando um acordo, aos poucos, cuidadosamente para não melindrar o menino Pedro, respeitando sua vontade. Até que descobri uma maneira de chegar no menino: ele é torcedor do Botafogo, o time da Estrela Solitária. E eu já lancei oito livros sobre o Glorioso, seus ídolos e história. Podia ser um gancho pro papo. Negociei uma data e liguei para ele.

Me identifiquei aos poucos. Como interessado em boas histórias do futebol, como editor de livros desde 2008. Falei do nosso interesse comum pelo Botafogo, e isso — como numa passe de mágica — abriu as portas para o papo.

QUEM É PEDRO, O NOSSO MENINO

Pedro Cezar Gomes Lemos é capixaba, de Cachoeiro do Itapemirim. Mudou com a família para o Rio de Janeiro e, depois, para Maringá, onde reside até hoje. A caminho dos 80 anos, que completará em 10 de agosto, curte a tranquila aposentadoria do Banco do Brasil.

Ele se diz hoje “boia-fria”, cuidando “de uns boizinhos” numa propriedade que adquiriu na região, a 40Km de Maringá.

Foi sócio-juvenil do Botafogo, a partir de 1951, com a matrícula nº 1.649. Jogava algum esporte? — perguntei. “Não, eu gostava de assistir natação, pólo aquático, atletismo e basquete”. Natação, ele praticou no Fluminense.

“Lembra de Baliza; Gérson e Nilton Santos; Rubinho, Ávila e Juvenal: Paraguaio, Pirillo, Geninho, Otávio e Braguinha?” — ele me provoca.

A resposta: ”O Vasco está procurando eles até hoje…”, provocou-lhe uma gargalhada.

“Acompanhei o Botafogo campeão de 1948, era pertinho de casa, eu morava em Copacabana no Posto 2 e ia ver vários esportes”.

Mas eu ia ver jogos com meu pai em todos os estádios: Flamengo, Fluminense, Vasco, Madureira, São Cristóvão…

PEDRO E O MARACANÃ

Pedro lembra de ter visto a final do Sul-Americano em 1949 no Estádio do Vasco da Gama. O jogo aconteceu no dia 11 de maio e o Brasil goleou o Paraguai por 7×0.

A primeira vez em que foi ao Maracanã aconteceu na estreia do Estádio, num Cariocas x Paulistas, em 16 de junho de 1950. Foi Didi quem inaugurou as redes com um gol de folha-seca.

“Ainda lembro do estádio em obras, cheio de andaimes e madeiras” — relembra o nosso menino.

Ele morava perto do estádio, na Praça Saenz Peña, e foi a pé ao jogo com as irmãs à final Brasil x Uruguai, em 1950, e lembra com tristeza “o silêncio da saída, ninguém falava nada, a gente vinha descendo do alto das arquibancadas e era um silêncio triste”.

Ninguém esperava uma derrota daquelas, parecia que estramos com a faixa no peito.

E A COPA DA RÚSSIA?

Estou acompanhando, as seleções menores fazendo grandes jogos. Mas o futebol mudou muito.

Só o que não mudou, Pedro, foi o prazer das boas histórias que o futebol pode nos proporcionar, também do lado de fora das quatro linhas.

*César Oliveira é editor da LivrosdeFutebol.