Blog do Juca Kfouri

Escanteio

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Era exatamente ali que ele tinha falado.

Um tufo de capim, quase no brejo.

Nem dava pra ver que naquele espaço existira um campinho de terra, com traves de bambu. Pequeno, irregular, cheio de barro na chuva, de poeira no calor, ao lado da estrada.

E os mosquitos do brejo ao lado. E os espinhos no pé pra buscar a bola atrás das traves, o suor gosmento, cachorros magros correndo junto com a bola. E a cara no chão, o short rasgado, a bola ferida.

Era ali que ele crescera. Por muitos anos mostrou o local aos filhos sempre que passavam pelo local.

Com o tempo foi ficando mais difícil ver o campinho: o mato tomava conta, as traves caíam, o brejo aumentava.

Mas deixou avisado. Parados, chupando picolé, os filhos o olharam apontar o canto onde fora o córner.

“Aqui, ó. Bem aqui.”

Menino, fizera um gol dali, de efeito, olímpico. Era pertinho do gol, não havia goleiro, mas tornou-se seu maior orgulho – ainda mais que foi o gol que fechou a pelada, já escuro, sedentos, cansados, e os abraços, os vivas, ele nos ombros, depois a água da bica, a manga nos dentes, o pé cascudo na trilha pra casa.

E assim foi.

Derramaram bem ali suas cinzas.

Nem dava pra vê-las, porque o capim era alto.

Mas pelo menos o vento não as levaria.

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Luiz Guilherme Piva publicou “A vida pela bola” e “Eram todos camisa dez”, ambos pela Editora Iluminuras.