Blog do Juca Kfouri

Semanário da Copa da Rússia – 17

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Capítulo 16: leia aqui

Viu como autoridade funciona? O Ronaldinho falou que vai torcer pro Brasil. Que o Neymar pra lá, o Neymar pra cá, que o hexa é nosso e que quer ver os jogos comigo na varanda.

Não sei se é sincero, mas combinei que ele vai usar a camisa da Seleção o mês inteiro, que é pra dar sorte. E que, em jogo da Argentina, se ele fizer alguma menção de torcer pra eles, ou mesmo se der algum sorrisinho numa jogada do Messi, vai ficar sem celular.

É questão de princípios, aí tem que ser na linha dura.

Lembro da Copa de 82. Eu era menino, mas o Tonho, o Carlão e o Neném, já rapazinhos, mexiam com política na escola. E resolveram que iam torcer pra União Soviética na estreia do Brasil.

O diabo é que eles foram ver o jogo lá em casa. Meu pai, minha mãe, eu e meus irmãos de camisa do Brasil. No frango do Waldir Peres, nós, arrasados, vimos os três dando umas risadinhas. Meu pai ficou cismado. Botou o dedo na cara dos três e falou: “Comunista aqui é na porrada!”.

Eles falaram que não, que torciam pro Brasil, e meu pai se acalmou. Mas depois o Neném xingou o juiz porque ele não deu pênalti pra URSS. Meu pai pegou os três pelos braços e botou pra fora.

Da janela vi os três no bar da esquina assistindo ao resto do jogo.

E os vi pulando, se abraçando e sorrindo com o golaço de empate do Sócrates. Mostrei pro meu pai. Ele desdenhou.

No gol do Éder os três abraçavam todo mundo no bar e na rua. O Neném ajoelhou no chão, fez o sinal da cruz e chorou.

Meu pai me mandou buscar os três no final do jogo. Mas comentou baixinho comigo: “Comunistazinhos frouxos esses seus amigos, viu!”.

(Continua)

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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” e está lançando “A vida pela bola” – ambos pela Editora Iluminuras