Blog do Juca Kfouri

Torcedor 3.0

Juca Kfouri

POR RICARDO PORTO*

Quem é o torcedor, o fã do futebol?

Inúmeros e respeitáveis institutos de pesquisa há anos vão a campo e tentam responder a pergunta.

Hoje, ferramentas de busca e identificação de dados avançadas, algoritmos “treinados” a pão-de-ló, sabem se você prefere carro vermelho ou preto, se vai ao cinema ou se liga nas séries on demand, até o ponto da carne que pediu na noite passada.

Aos pesquisadores e captadores de dados interessa conhecer profundamente os hábitos de consumo do torcedor.

As valiosas informações serve de mantra para o lançamento de produtos, campanhas, programas de sócio-torcedor, entre diversas ações marqueteiras.

Mas será que as pesquisas estão mesmo fazendo as perguntas pertinentes? Será que querem mesmo saber o que pensa o torcedor?

Quais os valores do torcedor para além do consumo imediato de produtos relacionados a futebol?

Afinal, se existe algo unificador, o que há de comum entre torcedores que frequentam estádios, acompanham jogos pela TV, laptops, celulares, assistem e participam de resenhas e noticiários, para lá da vontade de empurrar seus times do coração, consumir pipoca, cerveja, camisa do clube e ter algum benefício conexo a essas vontades?

Qual é o like que implica no engajamento, a palavra mágica que todos os especialistas de marketing gostam de repetir para simbolizar a união de comportamento, desejo e ação?

Se soubessem o que leva ao engajamento de seus torcedores, os clubes e seus parceiros já teriam identificado movimentos que conectam torcedores para fora do universo do consumo de ocasião.

Em março último, um longo apagão durante o clássico Santos x Corinthians, no Pacaembu, inspirou torcedores santistas a entoar em uníssono o já clássico “Fora Temer!” e o antológico “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!”.

Registros em vídeo circularam intensamente nas redes sociais.

Nada foi repercutido na mídia convencional nem nos canais oficiais dos clubes.

Na semana seguinte ao assassinato brutal da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, no centro do Rio, cartazes e faixas de apoio foram produzidos e exibidos nos estádios do país por torcidas dos mais diferentes clubes.

O clamor por “Marielle Presente” vestiu muitas camisas. Em alguns lugares – na Arena do Grêmio, por exemplo – a reação dos clubes foi chamar a polícia e reprimir as demonstrações, levando embora as faixas sob o argumento de que “futebol não se mistura com política”. Oi?

Mais recentemente, a prisão do ex-presidente Lula ensejou nova onda de demonstrações por parte de torcedores que, de um dia para o outro, produziram cartazes, faixas, cânticos, exibidos no domingo das finais dos Estaduais.

Tudo mais uma vez ignorado pela mídia convencional, embora circulado à exaustão nas redes sociais.

No entanto, há mais do que ignorada espontaneidade.

Os movimentos de torcedores não se restringem a reações imediatistas. A sucessão de fatos sugere um comportamento diverso daquele percebido pelas pesquisas, cujo foco está na leitura do torcedor como indivíduo, passando ao largo do inconsciente coletivo.

Seria este torcedor apenas massa de fácil manobra e modelagem, pronto a responder aos estímulos?

No Rio de Janeiro, cada um dos grandes clubes possui hoje grupos oficiais de torcedores/seguidores que se identificam com correntes políticas, não necessariamente partidárias.

Os grupos, que se distinguem das torcidas organizadas, nasceram nas arquibancadas e nas discussões de bar, ganharam força nas redes sociais, conquistando adesões em diversos cantos do país. Tricolores de Esquerda, Botafogo Antifascista, Fla Antifascista, Vasco Antifascista são alguns dos mais conhecidos. Movimentos semelhantes florescem em São Paulo, Minas Gerais e Ceará.

Em sintonia com a reocupação das ruas, do espaço público como locus de atuação política, o futebol, e seus estádios, expressões públicas em sua essência, vão se tornando cenários de um debate que supera as preferências clubísticas.

É um fenômeno que agrega elementos de paixão e cultura esportiva às pautas identitárias, às reivindicações e insatisfações com o quadro geral do país.

Como lidar com isso é um desafio que demanda dos clubes bem mais do que o silêncio, até aqui a reação dominante.

Já se mostra bem nítida a presença de um novo tipo de torcedor, aquele que percebe o poder de persuasão embutido em sua presença física e no seu apoio virtual.

Não estamos diante de um fenômeno manipulado por dirigentes inescrupulosos, como se tornou, infelizmente, parcela das antigas organizadas.

O torcedor quer respeito para respeitar.

Pede participação e se reconhece como influência na construção dos valores do clube que ama.

Apresenta um outro tipo de engajamento, mais preparado para debater ideias e abraçar causas.

Para qualquer marca, isso tem um valor imenso.

*Ricardo Porto é jornalista.