Blog do Juca Kfouri

Futebol andado

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

O José Trajano continua nos enganando.

No seu primeiro livro (Procurando Mônica) ele finge falar de amor, mas fala de futebol. No segundo (Tijucamérica) a prestidigitação é fingir que o assunto é futebol, quando o tema é o amor a seu pai.

E agora, no terceiro (Os beneditinos), ele apresenta outro número, as mãos ágeis mesmerizando nossos olhos, raios de luz criando imagens e sombras, o mantra sendo inoculado no pensamento e eis que achamos estar diante de algo que, súbito, some, ou vira outra coisa.

O truque agora é temporal. Trajano nos faz segui-lo ao passado. Vamos com ele ao encontro de antigos amigos, ao colégio, ao bairro, aos eventos e às sensações da juventude.

O pretexto é reorganizar o time da escola para disputar um torneio de walking football. Nessa modalidade só se pode andar. É proibido correr. Dada a idade da turma, é a chance de reviverem vitórias pretéritas e até de vingar derrotas para o principal rival.

Trajano, submerso no passado, revê lentamente (como ocorre debaixo d’água) seus amigos, seus feitos e sua história. Exibe prazer, ostenta orgulho, desfralda alegria – emoções que aparenta ter perdido ao longo do tempo. São imagens claras, mas talvez distorcidas, por efeito da refração da memória.

Demora-se ali, não quer voltar, sente que está mais seguro do que no presente. Mas volta. O passado acabou – e ele tem que respirar, afinal. Aterrissa nos seus dias correntes lamentando o fim da viagem e encerra o livro.

Mas não se trata de nada disso. É ilusionismo. Não é do passado que ele fala. É do futuro. O livro, a viagem, o mergulho, tudo é uma fuga do futuro, que está logo atrás da porta, na qual bate decididamente seu medo.

Ele tenta, como num sonho, fugir para trás, e se exaspera ao ver que dá passos no mesmo lugar (como ocorre nos sonhos).

Não há como voltar. Nem mesmo parar.

O livro é a constatação assustada de Trajano de que ele está indo muito depressa em direção ao futuro, como se corresse ao encontro da morte.

Ele tenta ao menos retardar o passo.

Ir mais devagar.

O mais lentamente possível.

Saboreando os momentos.

Vivendo outras vitórias.

Vingando derrotas.

Sem pressa.

Andando.

Como num jogo de walking football.

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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” e vai lançar em breve “A vida pela bola” – ambos pela Editora Iluminuras.