Blog do Juca Kfouri

Estrada nua

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Do escritório em que trabalha ele vê as quadras de uma escola de primeiro grau.

Perde-se nas reuniões quando ouve a correria, os risos, os gritos dos meninos e meninas atrás da bola no intervalo. Indaga o rosto dos convivas, procura neles as crianças que foram e não as vê.

Levanta-se, chega à janela, finge concentrar-se numa questão, mas fixa os olhos na criançada, na quadra, nas bolas, nos risos.

Ausenta-se.

Está lá na escola, corre, gargalha, sua, arregaça as mangas e a bainha, tira os nós dos sapatos e da gravata, dos desejos, dos receios – como se fosse falar com Deus –, chuta, agarra, cai, abraça e é abraçado.

Chamam-no.

Ele se vira encabulado: o que ele faz ali, menino, num escritório cheio de adultos, e assim desarrumado, suado? Vão castigá-lo, teme, botá-lo pra fora. Engole, gagueja, vai se explicar – mas nota que ninguém vê nele nenhuma criança, nem a que já foi nem a que é naquele momento.

Perguntam-lhe algo, ele não sabe responder.

Atrás da janela segue o zunido agudo do ar inflando corpos e esvaziando bolas.

Aumenta o estardalhaço das vozes na reunião. Números, quadros, textos. Algaravia, glossolalia. Não entende nada.

Aflige-se.

Olha as crianças.

Vê agora um menino que lembra seu retrato no primário: uniforme, mapa do Brasil atrás, o nome da escola e o seu na plaquinha na mesa, o cabelo caído, o riso de lado.

Reconhece-se. Vê que ele recebe a bola e parte para o gol. Torce. Aperta o parapeito. Mas em segundos a bola já está com outro, lento, grande, murcho, que a deixa fugir. Olha melhor: são dois, lado a lado. O menino e o velho, correndo ombreados, sem se encostar.

Percebe tudo. Abre a vidraça e grita: “Seu infinito sou eu!”.

Mas eles não ouvem, talvez por causa do barulho do escritório, cada vez mais cheio, e somem aos poucos. Aos poucos, todos desaparecem.

A quadra fica vazia.

A bola então escapa sozinha, esgueira-se pela parede, encontra o portão, se insinua na calçada e rola para a rua, caindo na mesma estrada que ele tomou um dia – e que vai dar em nada, nada, nada, nada do que ele pensava encontrar.

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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)