Blog do Juca Kfouri

Carlos Heitor Cony (1926-2018)

Juca Kfouri

Tão logo ouvi o apito final no Stade de France, botei também um ponto final em minha coluna para a “Folha de S.Paulo” saudando a justiça do 3 a 0 para a França contra o Brasil na Copa do Mundo de 1998 e me levantei na tribuna de imprensa, com pressa para ir embora, antes mesmo de ver a entrega da taça.

Carlos Heitor Cony me olhou com ar de desaprovação e disse, severo: “Isso não se faz, Juca. Saiba perder e fique até o fim”.

Tive de explicar a ele que precisava atravessar Paris inteira para chegar ao centro de imprensa e fazer, ao vivo, o “Cartão Verde” para a TV Cultura/ESPN Brasil.

Então, consentiu.

Dias antes tínhamos jantado em Marselha num restaurante finíssimo, desses com um garção por pessoa, e eu, com pouca fome, pedi apenas um filé.

Os demais cinco convivas, entre eles Cony, pediram peixes que eram a especialidade da casa.

A conta veio altíssima, evidentemente dividida por seis.

Dois dias depois meu pedido virou crônica de Cony, não sem me gozar por ter comido o filé mais caro de minha vida.

Cony, além de ter sido o escritor extraordinário que foi, o jornalista testemunha de momentos decisivos da vida brasileira, era capaz de ser extremamente espirituoso e severo ao mesmo tempo, dono de uma capacidade de observação admirável.

Cony se torna, agora, de fato, imortal.