Blog do Juca Kfouri

Mil e um jogos

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

E houve um estúpido rei, o mais poderoso e rico e temido de todo o mundo conhecido, que, decepcionado com as mulheres por julgar que elas o enganavam com mentiras, decidiu que com elas se casaria e a todas elas mataria logo depois da noite de núpcias.

Eis que, depois de dezenas de mortes, a ele coube conhecer e se casar com uma jovem que, desde as núpcias, e antes que ele pudesse agir contra ela, pôs-se a descrever-lhe, a cada noite, uma partida de futebol – jogo de que ele jamais ouvira falar. Iniciava a narrativa e, ao amanhecer, a interrompia, deixando o rei ansioso por seu desfecho. O jogo seguia na noite seguinte e era interrompido na alvorada.

Eram jogos sempre diferentes, cada um com um enredo e múltiplos personagens. Um empate dramático. Uma goleada. Uma virada sensacional. Um gol roubado. Decisões por pênaltis. Tirambaços na trave. Heróis do último minuto. Vilões derrotados por um lance. Campeonatos com decisões acirradas. Craques fabulosos, Copas do Mundo, jogos do interior, torneios de várzea.

“E então, ele entrou na área, driblou o zagueiro, o goleiro saiu…” – e o sol raiava, fazendo-a interromper a narração.

E à noite: “O goleiro saiu, ele tocou por cima, a bola foi pingando até a linha do gol, o zagueiro veio de carrinho, tirou a bola com a ponta dos pés, mas bateu a cabeça na trave, desfaleceu e morreu – o lance, porém, deu o título ao seu time e ele tornou-se estátua e lenda reverenciadas há muitas décadas”.

Ao elogio do rei ela seguia: “Mas isto não é nada perto do que ocorreu numa disputa num país longínquo, num descampado, quando o juiz resolveu expulsar o goleiro do time local, que não tinha reserva. Então, o centroavante, cego de um olho, foi para o gol…” – a claridade invadia o quarto e a história parava.

E houve o clássico sob neve, outro no barro, o desfile de craques no estádio mais moderno do mundo, as seleções e suas sagas, os meninos que viraram ídolos, os que nunca vingaram, o torcedor que pulou no campo, e amanhecia, e anoitecia, e o futebol se desenrolava em todas as suas possibilidades, suas tragédias, dramas, comédias, perplexidades, suas tramas patéticas, seus zero-a-zeros épicos, e amanhecia, e anoitecia.

O rei não conseguia parar de ouvir, e se apressava a ir para o quarto à noite, e lamentava o amanhecer dos dias, e perguntava, pedia detalhes, ela imitava narradores, descrevia rostos, estilos, lances, lugares ermos, gramados espetaculares, gandulas, laterais desdentados, faltas cobradas com milimétrico compasso, passes de calcanhar.

O amor do rei por ela e pelos jogos aumentava, e ele em tudo cria, a tudo queria fixar na mente, e desejava que, se um dia os jogos acabassem, ela infinitamente os repetisse um a um com mais detalhes, mais cenas, mais sons e cores.

Passaram-se assim centenas de noites.

E ela então iniciou a descrição da carreira do maior de todos os jogadores em todos os tempos. A ponto de ter se tornado rei. E descreveu-lhe as grandezas, a majestade, as fantasias, o balé, a força, a sabedoria, o poder sobre a bola, os homens e tudo o que existe e já existiu. Desenhou com palavras seu império, sua força, seu talento. E detalhou cada jogada impossível, cada gol, cada arrancada, chute, cabeçada, os feitos ao redor do mundo, o manto branco que, por sabedoria divina, lhe coube sobre a pele negra para fazê-lo brilhar a cores e em preto-e-branco, de dia e à noite, seus olhos de fera, seus passos de predador, sua plenitude inatingível, com a bola e o campo e todos os demais jogadores e torcedores aos seus pés.

O rei, absorvido, maravilhado, intrigado, flagrou-se de repente duvidando de si próprio, de seus domínios, de seu poder.

E pensou que a mulher o diminuía. Que era tudo inventado. Que ela mentia desde a primeira noite. Que não existia jogo como aquele. Muito menos tal rei capaz de sobre esse jogo complexo e inebriante e seus personagens pluridimensionais e seus enredos infinitos exercer tão exímio e completo controle.

Não aceitava que tudo aquilo fosse possível. Mordeu-se por várias noites: já não ouvia mais nada, tudo lhe era insuportável e irreal.

Por fim, corroído de ciúmes, na 1.001ªnoite matou a esposa.

Convenceu-se – ele era, como se viu desde o início, um estúpido – de que não é mesmo possível confiar nas mulheres e suas mentiras.

_________________________________

Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)