Blog do Juca Kfouri

O mesmo jogo

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Amanhã vai ter de novo. Faz muito tempo que é assim.

Dia 31, às onze e dez da noite, eles começam a pelada.

No escuro.

Só com a luz da lua e os faróis da caminhonete, num terrão ermo, longe do vilarejo, alcançado por um atalho bêbado que sai da estradinha de terra e termina ali, ao lado do bambuzal e do brejo, atrás do monturo, dentro do seu cheiro.

Põem umas camisas no chão demarcando os gols, aplainam com os pés um pouco dos montes, separam os times e jogam sem que ninguém fale nada.

Esse é o trato.

Todos mudos.

Não se pode gritar, reclamar, comentar, pronunciar nem balbuciar absolutamente nada. Desde que sobem na carroceria para vir jogar é proibido abrir a boca.

Na estradinha, olham-se calados, às vezes pousam as pupilas nas estrelas ou cerram as pálpebras e aspiram as nuvens, o motor crocita no breu quente, o diesel roça os cabelos, cercas, árvores despenteadas, cercas, campos cheios de fantasmas, cercas, até que tudo vá sumindo, o freio relinche e a bola seja atirada pelo motorista para o meio do campo.

E jogam.

Ninguém dá um pio.

Só o barulho dos passos, dos encontrões, dos chutes, do chocalho das derrapadas, das respirações, das cusparadas no chão. A depender do momento, quando param à espera de alguém buscar a bola, até o suor derretendo nas faces e garoando na terra se ouve.

Às cinco para a meia-noite param para o intervalo.

Aproximam-se do meio de campo, dão-se as mãos e aguardam a meia-noite.

A bola fica no centro da roda. Como uma vela que consome o tempo.

O pavio do silêncio arde, crepita.

Então, no horizonte, na divisa do céu, rojões sussurram, faíscas chuviscam e eles, juntos, pegam a bola e a erguem como um andor.

Ali se mantêm: olhos fechados, bocas fechadas, cinco minutos de nada, de ausência, de morte.

Meia-noite e dez relançam a bola ao chão e recomeçam.

Tudo igual. A mesma sonoplastia, a mesma mímica, o mesmo absoluto escuro e sem voz.

Cinco para a uma, fim de jogo.

Caminhonete, atalho, cercas, estrada, cercas, vilarejo, cada um na sua casa, cada um na sua vida, cada um no seu jogo, no seu barulho, na sua claridade.

O motorista segue sozinho, pára perto do rio, desce, joga a bola como uma oferenda e volta para sua casa.

É Ano-Novo.

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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)