Blog do Juca Kfouri

Camisa 9

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Jogou daquela vez como se fosse a última.

Vinham duvidando de sua capacidade, criticando-o, tirando-o no segundo tempo. Já por duas vezes haviam-no deixado na reserva no início, só escalando-o quando faltavam uns dez minutos.

E ele fora o craque do time. O maior da história. Anos e anos, na região, não havia quem não o admirasse. Vinha gente de longe para vê-lo. Camisa 9, cabelo molhado, chuteira engraxada, os rapazes no alambrado de boca aberta, as moças na torcida de mãos fechadas, era como um astro de brilho próprio a iluminar mais do que o sol dos domingos.

Gols de falta, de cabeça, driblando meio time, de bicicleta. A montanha dos companheiros pulando em cima dele – pequenos planetas amontoados no centro do universo.

Depois do jogo, festa, comida, bebida, o copo no ar como se fosse um príncipe.

Eis que o tempo, o cansaço e o corpo – a translação no vazio entre o nada e o nada.

Começou a errar, perder na corrida, falhar no chute. O cabelo ralo, a chuteira puída, moças de olhos fechados, rapazes com os braços abertos. Opaco, cinza como a sombra à ave-maria.

Já não lhe davam passes, quase. E ele é que, anticopernicano, agora corria para pular por sobre os companheiros na hora do gol.

Mas veio a decisão. E ele foi escalado. Por respeito, talvez. Ou porque não confiavam nos garotos. Ou porque só ele não estava contundido. Não quis saber.

Poderia ser a última.

E correu, e lutou, e dividiu, armou, deu passes, meteu duas na trave, uma delas de falta com a potência e o efeito de antes, o suor sob o rival estatelado no céu, as pálpebras semicerradas, o peito cheio, feliz, vibrante, e de novo as bocas abertas e as mãozinhas fechadas, e viu a bola vindo alta, cruzada da meia-esquerda em direção à área, ele na corrida, calculando o pique até a meia-lua para chegar de frente, meter de testa (molhada, franzida) e vê-la engravidar a rede e vir à luz no terrão dentro do gol, as pernas tensas, as chuteiras feitas cascos, a bola já quase ao alcance, mas muito alta, muito acima do que poderia, e então o pulo forte, acelerado, sideral, quebrou a gravidade e ele voou como um pássaro e cabeceou de testa, para o chão, os planetas embaixo olhando, e a bola desceu ao gol adversário como um asteroide, e ele ouviu a explosão, os gritos, os fogos, e acendeu sua luz imensa, plena, sobre tudo e sobre todos, e dançou e gargalhou e urrou – e, enfim, tropeçou no céu, planou, deu cambalhotas e mergulhou na vertigem estratosférica até cair, duro, arfante, sorrindo, de costas no chão, bem na marca de pênalti.

Morreu ali. Todos em volta o olhando.

Como se fosse – e de fato era – o único.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)