Blog do Juca Kfouri

Brasil sem cidadania, futebol sem lei

Juca Kfouri

POR RICARDO PORTO*

Quanto vale o tíquete médio de um jogo de futebol no Brasil?

É possível e válido determinar este valor?

Há variações gigantes em preços de ingressos entre as praças.

E dentro de uma própria praça, há variações nos preços de ingressos de um campeonato para o outro.

O Flamengo, exemplo mais recente de discrepância, cobra 40 reais pelo ingresso num jogo do Campeonato Brasileiro e 240 na final da Copa Sul-Americana.

Mesmo local, mesma operação, mesmos jogadores.

Deixemos de lado a questão de resultado.

Nos interessam as razões para a mudança.

A diferença aqui, segundo o clube, é a importância do jogo.

Sim, uma final tem um valor simbólico muito maior.

É uma partida especial. Vale então sextuplicar o valor do ingresso original? Em tese, sim.

O clube tem o direito de fazer o que quiser com o preço, desde que não se caracterize o “abuso econômico”, algo que pode ser questionado nos tribunais competentes.

Se há demanda capaz de lotar o estádio com o novo valor do ingresso, do ponto de vista simplesmente mercadológico o preço é justo.

Vamos descartar momentaneamente a questão do papel social do futebol em nosso país, onde 1% da população detém 27,8% da renda – recorde mundial! – , e onde, por isso mesmo, o esporte profissional deveria resguardar uma quantidade mínima de lugares para aqueles cujo poder aquisitivo é menor. Essa é uma outra e longa discussão.

O problema aqui é que o aumento do preço de um ingresso deve vir acompanhado também de um aumento na responsabilidade por parte dos promotores do espetáculo.

Afinal, se o consumidor/torcedor está pagando (muito) caro, devem continuar sendo garantidos a ele todos os direitos previstos no Estatuto do Torcedor – segurança, comodidade, horário, acesso etc.

Se há maior demanda e tendência de busca por acesso crescente nas últimas horas, cabe ao promotor do espetáculo garantir, em conjunto com as autoridades, que os direitos de quem adquiriu os ingressos sejam preservados.

Nada disso aconteceu na última quarta-feira no Maracanã.

As cenas de selvageria antes e depois da partida, no entorno do estádio, a superlotação nas arquibancadas, a invasão pelo céu por um voador de paraglider, tudo demonstra como os promotores do espetáculo – o Flamengo, a Conmebol – e as autoridades estão despreparados para gerir grandes eventos.

Ou seja, gerir seu próprio negócio.

Infelizmente, não dá para separar os terríveis acontecimentos da investigação sobre o tráfico de ingressos, deflagrada dias antes pelo MP-RJ, algo que compromete não apenas o Flamengo mas os outros grandes clubes do Rio de Janeiro.

As coisas não estão totalmente separadas. O escândalo dos ingressos, que envolve funcionários, dirigentes e torcedores ditos organizados, dialoga diretamente com a selvageria da quarta à noite.

Afinal, sem autoridades respeitáveis e respeitosas ao direito público e ao direito econômico, fica difícil exigir comportamento respeitável da torcida.

Fica difícil exigir idoneidade se quem deveria dar o exemplo é o primeiro a sair da linha.

Então, que os levemos todos – dirigentes, torcedores, funcionários – às barras dos tribunais.

Aos tribunais esportivos, responsáveis por punir quem não cumpre o Estatuto do Torcedor.

Mas, e a composição destes tribunais?

Os TJDs são formados, em quase sua totalidade, por gente historicamente oriunda dos clubes, federações. Gente com conexões diretas, e por vezes, profissionais, com essas entdidades. É como se indicássemos para o Tribunal alguém que vai nos julgar.

Nossos dirigentes são os primeiros a desobedecer e ignorar o Estatuto do Torcedor.

Quando uma instituição como o Flamengo se exime de culpa pelo que aconteceu, num jogo em que tem o mando de campo e assume a administração do estádio e do espetáculo, fica claro que falta muito amadurecimento e capacidade de gestão.

São as pessoas que levam ao descrédito o Estatuto do Torcedor as mesmas que investem milhões na promoção de campanhas de sócio-torcedor.

Sim, querem o torcedor-contribuinte e ignoram o torcedor-cidadão.

Parecem interessadas na verba, e não na responsabilidade que acompanha essa verba.

Responsabilidade perante a sociedade, algo bem maior do que a responsabilidade perante sua torcida.

*Ricardo Porto é jornalista.