Blog do Juca Kfouri

Derrotas

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Nós aprendemos/Palavras duras/Como dizer ‘perdi, perdi’.”
(“Tantas palavras”, Chico Buarque)

1.
Tem que misturar pra dar jogo. Uns, já maiores, quase homens; outros, pequenos, correndo sem parar pra todo lado; e os mais do que crianças e menos do que adolescentes.

Muitos pra cada lado. Pátio de terra pequeno, bola velha, gritaria, suor, o sol na cobertura de zinco da casa vizinha explode nos rostos, o cachorro se mete no jogo latindo atrás da bola, o bueiro com lodo no canto da grade de ferro, a caixa de areia na frente do portão do fundo, canelas finas, peitorais, dentes falhos, solas rachadas, carecas de piolho, cicatrizes, catarro pendurado, cascudos, palavrões, choros, risadas, o gol no portão faz o som do trovão, o na grade, o do tarol, só acaba quando as cuidadoras chamam pro banho, pra sopa rala, pro quarto, pra dormir.

Todo dia chega ao menos mais um, magro, sujo, umbigo pontudo, cabelo de arame, entra direto no jogo, é só escolher o lado. E raramente sai um, pequeno, que alguma família leva – só que uns voltam rapidinho. Alguns maiores fogem, mas também quase sempre retornam.

As cuidadoras põem garrafões de água numa bancada perto. Sentam-se nas escadas. O jardineiro se apoia no ancinho – e já teve até que entrar no gol. Pardais tentam encher a castanheira perto do galpão mas revoam com as boladas.

Famílias interessadas às vezes assistem da janela do diretor, batem palmas, quem sabe isso as ajude a escolher.

Sol e zinco.

Poeira.

Barulho dos pés na terra e dos trancos dos ossos.

E às vezes a narração esganiçada do autor de um gol: “Neymar!, Neymar!, Neymar!”.

As cuidadoras não desgrudam do relógio, marcando a hora de chamá-los.

2.
O “perdi” do título do livro do Juca se aplica às derrotas dele e de todos nós para os perpetuadores da exclusão e da miséria, os reacionários, os corruptos, os hipócritas e todos os que solapam a justiça social e a civilização no Brasil – e contra os quais ele tem sido um infatigável lutador.

Daí que leio o título como “Confesso que perdi – mas foi roubado”.
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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras)