Blog do Juca Kfouri

Aro contrata seu próprio escritório e engorda renda

Juca Kfouri

Documentos mostram que entidade realiza pagamentos a um escritório que é de propriedade de Adriano Aro

POR LUCAS RAGAZZI, do jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte

 
A Federação Mineira de Futebol (FMF) realiza pagamentos a um escritório de advocacia que é de propriedade do próprio secretário geral da entidade, o advogado Adriano Aro, provável futuro presidente da federação e irmão do deputado federal e diretor da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Marcelo Aro (PHS-MG). É o que mostram documentos obtidos pela reportagem.

Adriano
As notas fiscais apresentadas pelo escritório indicam que a FMF passou a contratar a consultoria jurídica exatamente um mês depois da posse do presidente Castellar Guimarães. O próprio escritório foi aberto na Receita Federal em junho de 2014 – mesma época em que Guimarães passou a comandar a entidade. Os valores dos pagamentos da FMF à firma são de R$ 15.016.

Marcelo
De acordo com interlocutores ligados à FMF, Adriano Aro recebe, além dos repasses a seu escritório, um salário mensal como secretário geral da entidade. Apesar disso, o cartola pediu autorização a Castellar Guimarães para contratar uma consultoria jurídica para apoiar as atividades de sua diretoria. Devidamente autorizado, Aro não viu problemas em contratar o escritório de sua propriedade, em sociedade com sua mulher, para dar consultoria a si próprio.

As irregularidades não param por aí. As numerações das notas fiscais apresentadas pelo escritório, que datam de julho a dezembro de 2014, são sequenciais. Ou seja, a firma foi aberta para atender apenas a FMF, sem possuir outros clientes. Na Receita Federal, a Adriano Aro Sociedade de Advogados tem endereço no mesmo apartamento em que o diretor geral da FMF mora com a mulher, no bairro Estoril.

Além da constrangedora contratação do próprio escritório, funcionários e pessoas ligadas à federação questionam a experiência e a competência da firma para atender as demandas da FMF. A situação já havia sido debatida internamente no início deste ano. A desconfiança desses funcionários é de que esses valores pagos a Adriano Aro sirvam, na verdade, para custear atividades políticas de seu irmão, o deputado federal Marcelo Aro (PHS-MG).

Conexões. Como foi mostrado na reportagem publicada na semana retrasada, Adriano Aro, candidato único ao cargo, deve ocupar, a partir de junho de 2018, a vaga a ser deixada pelo atual presidente da FMF, o advogado Castellar Modesto Guimarães Neto.

Vice-presidente do PHS de Minas, Castellar tem intenção de se lançar candidato a deputado estadual. A construção de sua candidatura passa diretamente por Marcelo Aro, com quem já negocia a criação de uma “dobradinha”: o cartola, para a Assembleia Legislativa de Minas, e Aro, para a reeleição à Câmara Federal.

Assim como Adriano, Marcelo Aro também se beneficia de um “salário em dose dupla”. Além de deputado federal, ele é diretor de Relações Institucionais da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) –, indicação do ex-deputado e aliado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso desde outubro de 2016 por denúncias de corrupção. A entidade nacional é investigada não só pelas autoridades brasileiras, como também pela Interpol e pelo FBI. Na CBF, Aro recebe um salário superior a R$ 50 mil. O valor soma-se ao rendimento como parlamentar, que chega a R$ 33.700.

Entre as competências estabelecidas pelo estatuto da Federação Mineira de Futebol (FMF) ao secretário geral, está o comando das relações entre a entidade estadual e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). “Compete ao secretário geral estabelecer comunicação com a CBF e com demais organismos e entidades”, diz o texto oficial da FMF.

O curioso é que Adriano Aro, ao atuar com esta responsabilidade, está trabalhando em meio a conhecidos: ele tem contato direto com o próprio irmão, o deputado federal Marcelo Aro.

Enquanto isso…

Prioridades. Enquanto a Federação Mineira de Futebol (FMF) prefere bancar festas em resorts para seus filiados – como mostrou reportagem de O TEMPO na semana retrasada – e fazer contratos com seus próprios dirigentes, os clubes que disputam o Campeonato Mineiro de Futebol Feminino sofrem com a falta de ajuda e recursos. Na semana retrasada, as jogadoras que disputam o torneio não puderam nem mesmo entrar em campo por falta de médicos. Pelo regulamento do campeonato, os clubes mandantes são os responsáveis pela contratação de um médico para a partida. Mas os empresários criticam a total falta de apoio da FMF.

 

Federação afirma que pagamento é como PJ

Em nota, a Federação Mineira de Futebol (FMF) afirmou que Adriano Aro recebe da entidade apenas como pessoa jurídica. A reportagem levou à assessoria de imprensa da entidade uma série de questionamentos envolvendo a contratação do escritório do próprio secretário geral, mas a resposta enviada pela FMF limitou-se a negar o vínculo trabalhista de Aro e questionar a publicação das notas de pagamento. Veja a íntegra da resposta:

“Com relação ao secretário geral, Adriano Aro, CPF 045.822.936-97, esclarecemos que o mesmo não possui vínculo trabalhista com a entidade e, por isso, não recebe salário. Recebe por intermédio de sua pessoa jurídica. O mesmo se dá em relação a todos os demais diretores. Por fim, gostaríamos de saber a respeito do eventual acesso a informações financeiras e fiscais da entidade (privada) que são protegidas por sigilo e cuja quebra e divulgação representariam ato ilícito”.