Blog do Juca Kfouri

Entidades de imprensa repudiam tentativas de Doria de desqualificar jornalistas e veículos

Juca Kfouri

Último episódio ocorreu na segunda-feira, quando o prefeito de São Paulo não respondeu aos questionamentos de um repórter da CBN e, em vez disso, tentou constrangê-lo. A postura do tucano foi criticada pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e ANJ (Associação Nacional de Jornais).

 

Por Guilherme Balza

Entidades representativas do setor de imprensa condenam a maneira como o prefeito de São Paulo, João Doria, vem tentando desqualificar jornalistas e o trabalho da imprensa profissional quando se apontam falhas ou contradições na gestão dele à frente da prefeitura da capital paulista.

O último episódio ocorreu na segunda-feira passada, quando o prefeito não respondeu aos questionamentos de um repórter da CBN e, em vez disso, tentou constrangê-lo.

‘- Vocé é jornalista há quantos anos? Você é jornalista há quantos anos? Responda!

– Eu não sou a pauta, prefeito, estou lhe perguntando sobre os jatos d’água na Praça da Sé…

– Há quantos anos você é jornalista?’

Por volta de 7h de 19 de julho, no dia mais frio do ano em São Paulo, a reportagem da CBN constatou que moradores de rua tiveram seus pertences molhados durante o trabalho de limpeza por equipes da prefeitura. Os próprios moradores de rua disseram à reportagem que foram molhados. O mesmo fato foi apurado e confirmado por outros órgãos de imprensa.

A ação causou repercussão negativa à prefeitura. Em resposta, Doria divulgou um vídeo nas redes sociais acusando a imprensa de tratar o caso de maneira deturpada e de mentir. A repórter da CBN que testemunhou a ação foi alvo de ataques, calúnias e ofensas nas redes sociais por seguidores de Doria, inclusive o MBL, Movimento Brasil Livre, grupo que apoia o prefeito e muitas vezes tem o conteúdo difundido por Doria nas redes sociais.

Na época, o prefeito regional da Sé, Eduardo Odloak, afirmou que as câmeras da prefeitura comprovavam que os moradores não foram atingidos pela água. A reportagem da CBN, então, pediu à prefeitura, via Lei de Acesso à Informação, os registros das câmeras e constatou que as gravações não mostram o momento da ação de limpeza na Sé, no local onde estavam os moradores de rua. A reportagem mostrou que a prefeitura não podia sustentar a versão de que eles não foram atingidos.

Nesta segunda-feira, Doria não respondeu à pergunta de um repórter da CBN e passou a desqualificar a jornalista que presenciou a ação na Sé, acusando-a de mentir.

‘Evidente que houve uma indução – deixa que eu quero falar, eu quero falar e vou terminar de falar! – quero ser claro para você. Claro porque eu respeito o jornalismo da CBN, mas não respeito o trabalho dessa moça. Primeiro pelo seu passado ideologicamente comprometido com o PT, sua vivência com o PT e a sua falta de equilíbrio para colocar uma matéria que não foi correta. Então, não cabe aqui fazer juízo sobre o prefeito regional, cabe fazer juízo ao trabalho jornalístico dessa repórter, que mentiu e colocou uma informação falsa no site da CBN e na rádio. Estou afirmando, não estou supondo, a repórter mentiu e agiu de má-fé.’

Importante esclarecer que a repórter em questão nunca trabalhou para o PT ou qualquer movimento próximo ao partido. Isso foi um boato espalhado por grupos e veículos que produzem as chamadas “fake news”, ou notícias falsas, e que apoiam João Doria.

Um vídeo desta entrevista da última segunda-feira, que ocorreu dentro da prefeitura, foi divulgado pela página do MBL nas redes sociais, com ofensas aos jornalistas. Mais uma vez, os profissionais foram alvo de ataques pelos seguidores do prefeito e do MBL.

O diretor-executivo da CBN, Ricardo Gandour, afirma que repudia este comportamento de autoridades e esclarece que a reportagem foi checar as câmeras da praça da Sé e revelou que há pontos cegos, que as declaradas imagens não existem e que ao invés de esclarecer o assunto, a prefeitura misturou com a reportagem anterior, para poder mais uma vez atacar e imprensa e gerar repercussão nas redes sociais.

A Abraji, Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, afirmou em nota que ao ‘desqualificar o jornalismo, em vez de responder aos questionamentos, Doria nega à sociedade o direito democrático de vigiar os atos dos administradores’. A entidade repudia ‘tentativas de intimidação virtual que podem se transformar em agressões verbais e físicas.’

A diretora da Abraji, Maiá Menezes, diz que isso expõe o jornalista a um ‘bullying virtual’.

‘Isso na Abraji nos preocupa porque coloca o profissional diante de um universo que ele não conhece, exposto a um assédio que a gente ainda não tem a dimensão, e é um assedio bem grave porque atinge o universo individual do profissional. Por outro lado, tenta descredenciar em alguma medida a imagem do próprio veículo.’

Para o jornalista Eugênio Bucci, professor na Escola de Comunicações e Artes da USP, o comportamento de Doria tem paralelo com o do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem como hábito tentar desqualificar jornalistas. Ele chegou, inclusive, a publicar nas redes sociais um vídeo fictício, uma montagem, em que ele espanca um repórter da rede CNN.

‘O Trump se vale muito das redes sociais e sempre contou com esse artifício. Isso é extremamente negativo, um desserviço ao ambiente democrático, só faz valer a gritaria, com muita ofensa, o que não ajuda ninguém. A ironia é que não ajuda nem mesmo esse tipo de agente político. A imprensa é uma garantia que a sociedade tem para se proteger da tal da pós-verdade.’

O diretor-geral da Abert, Roberto Antonik, criticou o fato de Doria tentar descredenciar os jornalistas associando-os a grupos ideológicos.

‘Essas pessoas que alegam que estamos comprometidos com uma facção ou outra, estamos sim, estamos comprometidos com a facção da notícia, com a facção do fato, do jornalismo profissional, com responsabilidade editorial. Quando você publica algo na rede social, você não tem responsabilidade editorial, não tem ninguém que arque com aquilo que foi dito. Copia e cola na rede social sem responsabilidade nenhuma.’

A presidente da Fenaj, Federação Nacional dos Jornalistas, Maria José Braga, também critica a postura de Doria.

‘É muito comum que o gestor público, quando é criticado, não no sentido pessoal, mas no apontamento de falhas no trabalho como gestor público, em vez de dar uma resposta satisfatória à sociedade, tentar agredir verbalmente e desqualificar o trabalho do jornalista.’

Em junho, Doria também chamou de mentirosa uma reportagem da CBN que mostrou que a prefeitura estava entregando à população remédios que foram doados e que estavam perto do vencimento. Em um vídeo nas redes sociais, o prefeito disse que a CBN informou que medicamentos vencidos estavam sendo distribuídos, o que não foi veiculado pela reportagem.

Em julho, Doria gravou um vídeo em que tentou desqualificar um repórter da Folha de São Paulo que mostrou que as doações recebidas pela prefeitura eram menores do que as divulgadas. Citado nominalmente pelo prefeito, ele teve o perfil do Facebook marcado por Doria e também foi alvo de ataques dos seguidores do tucano.

O diretor-executivo da Associação Nacional de Jornais, Ricardo Pedreira, afirmou que é lamentável que uma autoridade se volte de maneira sistemática contra jornalistas, estimulando o comportamento de outros em relação aos próprios jornalistas. Ele diz ainda que o homem público deve saber lidar com as críticas e corrigir eventuais erros.

A reportagem da CBN procurou a prefeitura e solicitou uma entrevista com o prefeito para ouvi-lo a respeito de tudo isso. A gestão, no entanto, preferiu mandar a resposta em nota, que informa que ‘o prefeito considera o trabalho da imprensa essencial para a democracia e para o aperfeiçoamento de políticas públicas, e sabe que a crítica, quando procedente e justa, colabora para a correção de eventuais falhas.’

A nota diz ainda que o prefeito ‘acredita que, como autoridade pública e como indivíduo, também possui o direito de reagir à crítica quando considera ela injusta e improcedente.’

O prefeito, no entanto, não respondeu a dois questionamentos feitos: o primeiro, se ele acha correto desqualificar um jornalista ou um veículo em vez de rebater o que está sendo dito na reportagem. O segundo, como ele enxerga as reações de organizações com o MBL e outros grupos que o apoiam e que perseguem jornalistas.