Blog do Juca Kfouri

Duas canções

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

As canções “O futebol” e “Jogo de bola”, de Chico Buarque, tratam de universos muito distintos – o que os próprios títulos denunciam.


Um é o do esporte oficial, com os jogadores, o campo/estádio e os torcedores se transmutando em artistas, palco e espectadores de um espetáculo de alta nobreza. As jogadas descritas superam a própria arte em suas expressões mais clássicas. A letra narra lances que nenhum artista será jamais capaz de igualar. Nenhuma pinacoteca comporta, nenhum compositor captura, nem a geometria é capaz de conter a essência da realização dos deuses do esporte. Atinge-se tal elevação que o jogador torna o estádio em Coliseu e se alça próximo aos céus.

Outro é o da pelada, da gente comum que joga em campinhos simples para torcedores comuns. Integram esse mundo manifestações, lugares, expressões e personagens populares. Samba, botequim, pinto no lixo, guria, maria-chuteira, moleque, cachola, bicho pega, pelota. Os lances são os típicos do jogo não oficial: embaixadinha, caneta, toque. O jogador é mais do que mortal, é falho: toma dribles, perde a bola, decai.

A linguagem e a melodia de cada canção reforçam essa distinção.

Na primeira, as imagens são elaboradas, fugidias, cheias de matizes: “Para avançar na vaga geometria/O corredor/Na paralela do impossível, minha nega/No sentimento diagonal/Do homem-gol/Rasgando o chão/E costurando a linha”. Paradoxalmente, a melodia se desenrola naturalmente, assoviável, envolvente, com as notas se encaixando como as tabelas dos personagens principais, cujas trocas de passes ao final (“para Mané, para Didi, para Pelé…”), apresentadas à maneira de narradores de rádio, se desenrolam por toda a letra: para estufar, para aplicar, parafusar, parábola, paralisando. A contradição é falsa: o que se quer é mostrar que o grande espetáculo transcorre com leveza, porque é de sua natureza.

Na segunda, está tudo claro, ao alcance das mãos: “Há que levar um drible/Por entre as pernas sem perder a linha/No jogo de bola/Há que aturar uma embaixadinha, deveras/Como quem tira o chapéu para a mulher/Que lhe deu o fora”. Mas a melodia é quebradiça, cheia de saltos nas frases, de engates e dobras inesperadas, dando uma sensação de estranheza ou desorganização que não é menor do que a que se pode ver em peladas em geral. A aliteração com o som de que é exemplar desse bate-rebate: toque, tique-taque, pique, breque, craque, moleque.

Por fim, o ponto em comum entre as canções, que decorre da admiração que o autor tem pelos dois universos, é o seu deslocamento diante deles.

Mas num, o do futebol, ele se sente de fora espacialmente: não alcança a arte necessária, não é capaz de praticar o esporte divino que admira: “Que rei sou eu?” – mero cantor de uma canção capenga, que não se conforma com tal impossibilidade; simples mortal que exalta o “senhor chapéu” como quem olha o firmamento/Olimpo inalcançável.

No outro ele se sente alheado temporalmente. Ele está no seu território, mas seu tempo passou. Ali ele já reinou, só que perdeu o trono para outros que chegaram e levaram-lhe a namorada, deram-lhe um drible humilhante – e ele há que aceitar, conformar-se, sentir-se feliz, tirar o chapéu, e até se ver no moleque que o deslocou no tempo e “sorrir por dentro”.

Ou: o futebol está acima da vida; não tem tempo. E a pelada, ao contrário, é a própria vida – sempre chega ao final.

________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” (Editora Iluminuras”)