Blog do Juca Kfouri

As viúvas do voo da Chapecoense reclamam do abandono

Juca Kfouri

Por ANDREW DONNIE, da Agência Reuters

As famílias de brasileiros mortos no acidente aéreo do Chapecoense apelam por justiça e por reparações e disseram em entrevistas,  nesta quarta-feira,  que se sentem “abandonadas” pelo clube de futebol e pelas empresas de mídia.

No mesmo dia em que os jogadores do Chapecoense se encontraram com o Papa em Roma, representantes da Associação de Famílias e Amigos das Vítimas do Vôo Chapecoense disseram à Reuters que mais deve ser feito para ajudá-los financeiramente e psicologicamente.


Eles também exigem respostas para perguntas sobre a responsabilidade pelo acidente.


Fabiane Belle e Mara Paiva. Foto: Nacho Doce

“Foi um acidente anunciado”, disse Fabienne Belle, cujo marido Cesar Martins era o fisiologista do clube. “A Chapecoense e as empresas precisam assumir a responsabilidade institucional pelas vidas que nos foram tiradas”.

Setenta e um passageiros e tripulação morreram quando o avião que levava a Chapecoense entrou na Colômbia, no último dia 28 de novembro.
Todos, exceto três dos jogadores a bordo, morreram, juntamente com dezenas de funcionários e jornalistas que acompanham o time na final da Copa Sul-Americana em Medellín .

As autoridades de aviação colombianas descobriram que a companhia aérea da Bolívia, LaMia, tinha economizado combustível, fazendo com que o avião caísse em uma montanha antes de chegar ao aeroporto.

O executivo-chefe da companhia aérea, que foi preso e está na pendência de um julgamento por homicídio culposo, nega as acusações. O co-proprietário da empresa era o piloto do avião que morreu no acidente.

Uma das principais queixas da associação é a de que o clube insistiu na contratação da LaMia mesmo depois de os métodos da empresa terem sido questionados pelos jogadores.

Em uma viagem a Barranquilla, na Colômbia, para uma rodada anterior, o time foi retirado da fronteira boliviana para o aeroporto em uma van que não tinha portas, disse Belle. A equipe chegou 22 horas depois do previsto, o que deveria ter levado o clube a cuidar mais de seus funcionários, dizem as viúvas.

“O que aconteceu antes determinou o que aconteceu naquela noite”, disse Belle, presidente da associação, em entrevista em São Paulo. “A Chapecoense já havia feito isso em muitas viagens. Havia falta de supervisão. Uma das nossas preocupações é preventiva, para garantir que isso não aconteça novamente “.

O diretor de comunicações do Chapecoense, Fernando Matos, disse que o clube se reuniu com a associação na semana passada para discutir muitos dos pontos levantados, mas ele se recusou a abordar questões específicas.

“Foi estabelecido que o clube e as associações não lidariam com essas questões através da mídia”, disse Matos.

Uma das principais queixas das viúvas é a falta de acesso aos documentos sobre a investigação. O grupo, que possui 54 membros de 16 famílias, não teve acesso aos detalhes do seguro de acidentes da LaMia.

Algumas famílias foram pagas através de planos de seguro de vida, mas a companhia de seguros de acidentes só ofereceu 200 mil dólares para cada família como pagamentos “humanitários”, disse Belle.

“Foi como um prêmio de consolação”, disse ela. “Algumas pessoas querem pegar a quantia porque não tiveram renda por nove meses. Algumas famílias estão lutando e foram ao clube para pedir mais que esmolas”.

Sem transparência do clube, as famílias dizem que estão lutando para garantir pagamentos mais elevados.

As viúvas também expressaram ressentimento com as empresas de mídia envolvidas. Vinte jornalistas e repórteres de nove diferentes meios de comunicação morreram no acidente, mas também sentem ter recebido pouca assistência ou informações.

“O mais revoltante é que nenhuma das empresas reconheceu sua responsabilidade”, disse Mara Paiva, viúva do comentarista e ex-jogador Mario Sergio Pontes de Paiva, da Fox Sports, à Reuters. “A maioria lavou as mãos do caso e jogou tudo no clube”.

A Fox Sports disse à Reuters que “adotou todas as medidas à sua disposição para reduzir a dor sentida pelas famílias e torná-las mais confortáveis”. A empresa disse que não listaria as medidas, mas continuaria a fazer todo o possível para ajudar os enlutados.