Blog do Juca Kfouri

“Não há ninguém do futebol no meu relatório da antidopagem brasileira”

Juca Kfouri

POR MARCO AURELIO KLEIN*


O doutor Julio César Alves há tempos dopa atletas e se vangloria disto.

Sempre disse aos atletas que eles nunca seriam pegos se seguissem suas instruções para interromper o “tratamento” “x” dias antes da competição.

E isto funcionava porque não se fazia testes fora-de-competição no Brasil, os testes surpresa.

Com a ABCD a coisa mudou.

Para que se tenha uma ideia quando eu saí de sua direção, em 1º de julho de 2016,  estávamos na marca de 57% por cento dos nossos testes feitos de surpresa (a agência americana está na faixa dos 80% fora-de-competição, de surpresa).

Além disso, as análises encomendadas por quem fazia os testes aqui eram basicamente as análises do chamado menu básico, ou seja, bem simples, incapaz de detectar, por exemplo, o uso de EPO (eritropoietina).

Para os casos de atletas de competições que exigem muita resistência (ciclismo de estrada, corredores de longa distância — como a  São Silvestre , maratonas etc.–,  não existe testar sem analisar possível presença de EPO).

Então, como a ABCD fazia testes surpresa e análises muito completas os atletas dopados por Alves começaram a ser pegos um atrás do outro.

Os convencemos a falar e fazer o que no jargão da antidopagem se chama Assistência Substâncial.

E conseguimos muita informação, inclusive receitas, notas fiscais e até mesmo frascos ainda com comprimidos (que foram analisados no laboratório credenciado, o LBCD, com laudo para a presença das substâncias proibidas no esporte).

Com isso montei o dossiê que encaminhei para um Promotor de Justiça  da área criminal em São Paulo (depois, o processo foi distribuído para o interior porque o médico é de Piracicaba) e fiz três horas de apresentação para um grupo de promotores sobre o que é o sistema internacional de controle de dopagem.

O dossiê preparado por mim nada tem a ver com o Roberto Carlos.

O que acontece é que um dos atletas citou no seu depoimento ter visto Roberto Carlos na clínica.

Alves é que falou para a equipe da TV alemã que “cuidou do Roberto desde que ele tinha quinze anos”; chegou a dizer que ele é que “fez o Roberto Carlos”.

Entrevistado, o Promotor de Justiça disse não se lembrar do caso Roberto Carlos e isto é lógico porque não faz parte do dossiê  — exceto pela menção de um dos depoentes de tê-lo visto na clínica.

Todos os atletas depoentes e constantes desta investigação levada a termo pela ABCD são do atletismo e do ciclismo e foram testados pela ABCD.

Não tem ninguém do futebol dentre estes casos específicos.

A ABCD certamente tem cópias dos ofícios então enviados por mim para o Conselho Federal de Medicina, CBAt e para o Promotor de Justiça.

Tenho comigo os depoimentos dos atletas que falaram conosco nos diversos casos que investigamos,  apurando a venda ilegal aqui no Brasil (inclusive e especificamente em farmácias de São Paulo e Rio) de substâncias proibidas.

Num dos casos a “Folha de S.Paulo” conseguiu comprar EPO (ou anabolizante) na farmácia que apuramos na investigação.

E também apuramos que alguns treinadores e alguns atletas atravessavam a fronteira para comprar anabolizantes no Paraguai, o que levou a equipe da TV alemã a localizar a fábrica em Assunção.

Foram tempos os mais difíceis.

*Marco Aurelio Klein implantou e dirigiu a Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem.