Blog do Juca Kfouri

Mestrado

Juca Kfouri

No diário “Lance!” de hoje:

POR ANDRÉ KFOURI

A menção ao nome de Marcelo Bielsa em qualquer rede antissocial costuma gerar o equivalente ao relincho quando o assunto são os técnicos de futebol. “Ganhou o quê?”, proclamam os especialistas, analisando o jogo de trás para frente e assim determinando quem tem mérito e quem não tem. É só mais um sinal de que vivemos uma realidade de cabeça para baixo, em que, por exemplo, se aceita que um ex-jogador conhecido pela baixa contagem neuronal excrete opiniões sobre jornalismo e temas que desconhece. E a vida segue.


O pecado de Bielsa não são os títulos que ele não conquistou, mas viver o futebol com as emoções de um apaixonado e não se dobrar a todos os mecanismos que repelem esse tipo de relação com o jogo. Fundamentalmente, Bielsa faz pensar, um estímulo cada vez menos reconhecido – não apenas no sentido da valorização, mas da mínima percepção – em sociedades nas quais o símbolo do sucesso é o rei do camarote. A inversão é compatível com a crítica do treinador argentino aos meios de comunicação, que “pervertem o ser humano de acordo com a vitória e a derrota”.

O grande Ezequiel Fernández Moores escreveu ontem, no diário La Nación, a propósito da palestra de Bielsa no evento organizado pela CBF: “Além de conhecimento, Bielsa é paixão pura. Esse é seu modo de entender o futebol. Sua credibilidade é à prova de balas. Não há outra personalidade como a sua na elite superprofissionalizada do futebol mundial”. Não há mesmo, e essa personalidade tem se mantido intacta em um ambiente que a rejeita justamente pelos princípios que ele não negocia, um dos motivos que o converteram em uma espécie de oráculo para técnicos que se orientam pelos valores do esporte.
Na segunda-feira, Bielsa se pôs a analisar a Seleção Brasileira conforme todos os sistemas táticos que existem (são dez, segundo ele), mas não sem antes pedir licença a Tite – sentado na primeira fila – e se desculpar de antemão por algum equívoco de observação. Na era da ofensa compulsória, passou despercebida a extrema generosidade de preparar uma palestra com este tema para ser apresentada no Rio de Janeiro, provavelmente porque é necessário cultivar certos valores para detectá-los. A autenticidade de Bielsa também o impediu de posar para fotos com uma camisa do Brasil, após uma explanação de mais de uma hora em que sua admiração pelo futebol brasileiro ficou evidente.

O pecado de Bielsa, de fato, é falar pouco. Entrevistas não fazem parte de sua rotina e aparições em congressos não são frequentes. Ele vive muito ocupado assistindo a jogos, pensando e rindo dos que relincham.