Blog do Juca Kfouri

Quando se aplaude a ética é porque as coisas vão muito mal

Juca Kfouri

 POR JOÃO BATISTA FREIRE*
​Imaginemos que todos os jogadores de futebol sejam absolutamente honestos. 

Então, se acontecer de um juiz apitar um pênalti cometido pelo goleiro, injustamente, o atacante pode simplesmente dizer ao árbitro que o goleiro não o tocou, foi ele que, ao tentar saltar, perdeu o equilíbrio. 

E que todos os jogadores fizessem isso, tornando o jogo sempre limpo. 

Se essa fosse a ordem comum no futebol, a atitude de Rodrigo Caio, mostrando ao juiz que o adversário não fez a falta, passaria despercebida. 

Porém, num esporte onde a honestidade não é a regra, quando um jogador toma uma atitude ética como a de Rodrigo Caio, o mundo todo estranha, embora aplauda (e alguns o chamem de trouxa).

Rodrigo Caio merece os parabéns, mas fez o que todos deveriam fazer. 

Assim como nunca deveríamos oferecer propinas ao guarda de trânsito, assim como os guardas de trânsito nunca deveriam aceitar propinas, da mesma forma como os políticos não deveriam formar Caixas 2, e os empresários não deveriam dar comissões a políticos para ganhar licitações, como não deveríamos sonegar impostos, etc., etc. 

A honestidade não tem sido a regra; se fosse, não estaríamos hoje parabenizando Rodrigo Caio.
*João Batista Freire é professor Livre Docente aposentado da Unicamp, além de ter trabalhado na USP e na Universidade Federal da Paraíba e na Universidade Estadual de Santa Catarina, e autor de diversos livros sobre Educação Física e Esporte.