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Blog do Juca Kfouri

A Estrela Rubra (pela fusão de Botafogo e América)

Juca Kfouri

19/01/2014 16h14

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*POR ZÉ ROBERTO, para José Trajano e Márcio Guedes

Tinha oito anos quando conheci o Maracanã.

Era a final do estadual carioca de 1960 entre o América FC, do meu pai e o Fluminense FC, do meu avô.

O América venceu por 1×0 e na volta duas imagens incríveis não me saiam da cabeça: a beleza da torcida tricolor, emoldurada pelo pó de arroz que subia entre suas bandeiras, e o magnífico contraste daquela camisa vermelha se movimentando naquela imensidão verde.

Entre o brilho dos dois, optei por me tornar torcedor tricolor.

Excetuando uma Taça Guanabara de 1974, nunca mais meu pai assistiu seu time levantar um estadual.

Sem festa, sem grandes times, não há um só neto ou bisneto que o seguisse.

Meu pai foi o ultimo torcedor americano que conheci.

Caindo pelas divisões, o simpático clube rubro vai disputar a segundona carioca reforçado por Andrezinho, ex-Votorantim, e por Gilberto, que aos 37 anos largou o carnê do INSS e a equipe Máster do Cruzeiro para dar um miguezinho ali na meiúca.

Desse jeito, sem reforços, torcida ou bons jogadores, tenho receio que desapareça de vez da família e do futebol.

Por outro lado, ontem, assisti Botafogo x Resende torcendo com um dos netos do meu pai que correram do diabo, meu filho botafoguense Guilherme.

Mesmo campeão carioca, classificado para a Copa Libertadores, apenas duas mil pessoas foram até Volta Redonda prestigiar sua estréia.

O torcedor do Botafogo cresceu sob os desígnios da superstição, e poucos são aqueles que abrem seu coração, pagam ingresso e vão encher o Maracanã apoiar seu time de peito aberto.

Antes, consultam os astros, ligam para mãe Dinah, se benzem e pensam duas vezes se vale a pena arriscar uma ida ao estádio.

Com o freio de mão puxado, deixaram de lotar o Galeão para apoiar ou se despedir do seu mais recente ídolo, deixaram-no partir friamente como se o que ele representou para o clube fosse pouco. Não se acha um Seedorf em cada esquina, e mesmo assim ele partiu em silêncio, sem protestos ou reverências.

E assim foi o Loko Abreu, o Vitinho e o Osvaldo de Oliveira perante apaixonados e contidos.

Desse jeito, tenho medo que o Guilherme seja o ultimo alvinegro da família.

Não por títulos, mas porque antes deles temos que ser felizes.

Com nossos times também e cá entre nós, não está faltando brilho e entrega mesmo que seja pra sofrer naquela massa alvinegra?

Bem, em nome do filho e do pai proponho uma fusão entre eles.

Os dois clubes, fundados em 1904, separados apenas por 46 dias, se uniriam com o nome de Estrela Rubra.

Um entraria com a força que sabe que tinha, o outro com aquela que subestima ter.

O América cederia a cor que falta ao Botafogo, colocando sangue naquele pavilhão, e o Botafogo daria o América a organização, o Engenhão, a energia extra patrocinada pelo Guaraviton.

Na arquibancada, emergiria naquela transmissão em preto e branco uma vigorosa estrela vermelha, em campo o sangue a sacudir e motivar uma enorme nação.

Se a Antarctica se uniu um dia a Brahma, e cresceram e viraram produto de exportação, se a Sadia se abraçou à Perdigão e os frangos triplicaram em nossas mesas, nada impede que os dois cresçam juntos.

Se tornem uma potencia esportiva ou desapareçam, cada um a seu modo: fracos em campo ou eternamente desconfiados de sua grandeza fora dele.

Neste dia regido por Marte, nunca a mais a estrela seria solitária.

*Zé Roberto jogou, muito, no Flu, entre 1971 e 1975.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/