Blog do Juca Kfouri

Começa o Brasileirão feminino

Juca Kfouri

Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino volta a ser disputado, este ano, com a participação de 20 equipes.

A partida que abre a primeira rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino no Distrito Federal, nesta quarta-feira, às 20h30, contará com a presença da ministra Eleonora Menicucci, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República.

A disputa será entre as equipes Ascoop (DF) e Vasco  no Bezerrão, no Gama, Distrito Federal.

Com 20 times e o apoio da Caixa Econômica Federal (e não venha dona CBF dizer que não recebe dinheiro público porque a CEF é uma empresa pública que compõe a Administração Publica Indireta) , o Campeonato Brasileiro de futebol feminino é um compromisso do Secretário de Futebol do ministério do Esporte, Toninho Nascimento, e um enorme desafio porque, por enquanto, dos grandes clubes do país, apenas o Vasco participa.

                                                                    

As mulheres no futebol

POR ELEONORA MENICUCCI*

O futebol praticado pelas mulheres no Brasil conquista espaço.

Prevê-se a Libertadores da América de futebol feminino para outubro próximo, já pela quinta vez – e novamente no Brasil, como ocorreu em todas as quatro edições.

A Copa Brasil de Futebol Feminino, encerrada em maio (com 31 participantes dos 27 estados, 54 jogos, 192 gols e média de 3,56 gols por partida), já registra sete edições.

Pela primeira vez, uma Seleção Brasileira – no caso, a Feminina Sub-17 – tem, finalmente, uma mulher como técnica, Emily Lima.

Também pela primeira vez, a Seleção Feminina conta, a partir deste ano, com uma equipe sub-15, com a missão de fornecer a base para as seleções principais. O noticiário, ainda que timidamente, começa a prestar mais atenção a esse universo.

O que esses fatos trazem à tona – à parte a alegria com que devemos recebê-los – são os preconceitos que ainda cercam a prática desse esporte pelas mulheres.

Tanto mais paradoxal porque, revolvendo a crônica do futebol no Brasil e no mundo, se encontra o pé feminino ainda no século 19.

Por que, então, esse véu tão duradouro sobre as mulheres e a bola?

Elas têm sua presença nos gramados registrada já em 1894, com a fundação do primeiro clube pela feminista e sufragista inglesa Nettie Honetball – o Ladies Football Club, em Londres.

No ano seguinte, Lady Florence Dixie, atraída pelas ideias feministas de que as mulheres podiam praticar esportes e conquistar sua emancipação, torna-se presidente do clube. E viabiliza a primeira turnê da equipe, que ocorre na Escócia.

O fato é que o senso comum consagrou o futebol como atividade e expressão masculinas.

Provavelmente tenha prevalecido no imaginário social a interdição das práticas esportivas pela suposição de que isso destruía a feminilidade e portanto masculinizaria as mulheres. Assim, elas foram afastadas do futebol por tabus, discriminação e proibições legais.

Algumas janelas se abriam, aqui e ali, para as mulheres. Assim, a organização dos Jogos Olímpicos Modernos no último quartel do século 19 e a luta feminista pelo direito ao voto – o sufragismo – possibilitaram à população feminina a oportunidade de praticar esportes, inclusive o futebol. E no Brasil, já nos anos 1920, alguns clubes admitiam a prática do futebol feminino, tanto na capital federal de então, o Rio de Janeiro, como na capital paulista.

Mas essas janelas claramente não significavam espaço consolidado. Tanto que, em 1941, o Conselho Nacional de Desportos promulgou o Decreto-lei nº 3.199, do general Newton Cavalcanti, que vetou às mulheres a prática de desportos considerados então incompatíveis com sua natureza. E em 1965 o conselho proibiu às mulheres o futebol de campo, assim como o de salão e o de praia, entre outras modalidades. Somente em 1979 a legislação foi revogada, refletindo a nova onda feminista dos anos 1970.

Mesmo assim, há registros pioneiros no Brasil, como o do pequeno clube mineiro Araguari Atlético Clube. Esse, em 1958, ousou organizar jogos de futebol feminino. Mas, sob pressão social, não resistiu e acabou (Folha de S.Paulo, 12/6/2011). Nos anos 1980, o Rio de Janeiro também teve seu time feminino, o Esporte Clube Radar.

Em escala global, a popularização culminou, em 1991, com a criação do Campeonato Mundial de Futebol Feminino. A CBF montou às pressas a primeira seleção nacional de futebol feminino. O Brasil, em 1999, ficou em terceiro lugar no Mundial. E participou dos Jogos Olímpicos de Atlanta, Sidney, Atenas e Pequim.

Mas essa institucionalização convive na prática com dimensões bastante incipientes. A profissionalização das meninas do futebol ainda é precária. A despeito do sucesso mundial das atacantes Marta e Cristiane e de algumas outras – ícones que têm recebido atenção do noticiário e incentivado milhares de meninas -, é nítido que ainda falta fortalecer essa prática esportiva pelas mulheres.

O futebol feminino tem todo o apoio do governo brasileiro, por meio tanto da Secretaria de Políticas para as mulheres da Presidência da República, quanto dos ministérios do Esporte e da Educação – aliás, SPM e a pasta do Esporte realizam, em 3 e 4 de julho, o Seminário Nacional mulheres, Esporte e Lazer e Políticas Públicas. Esses órgãos empenham-se na elaboração e fortalecimento de políticas públicas que, em conjunto com pulsões saudáveis e lúdicos da sociedade, permitam que o futebol seja de fato o grande campo simbólico no qual a alma brasileira se livre das travas patriarcais para vibrar numa imensa “ola” de cidadania plena.

*Ministra de Estado Chefe da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República