Blog do Juca Kfouri

São Paulo, Paulinho, Paulão

Foto: Caio Guatelli/Revista ESPN

Por LUIZ GUILHERME PIVA*

1. Paulinho

O sujeito mais amado de São Paulo é o Paulinho, do Corinthians.

No ônibus, no metrô, na fila de ingressos, no bar, no Ibirapuera, na Capela do Socorro, na Vila Maria, em Tucuruvi, na Barra Funda, no Butantã, quando se apuram os ouvidos só se ouve o nome dele.

Já era um caso sério. Mas, depois do gol que ele fez contra o Vasco no final do jogo, de subir no alambrado, de abraçar o torcedor e de chorar na entrevista, virou amor rasgado, desbragado, shakespeariano, incondicional, dos de exibir pra todo mundo, gritar nas janelas, tuitar, pôr em adesivos no carro, tatuar, fazer outdoors, caderninhos, megafones, viral de sms, retrato na carteira, horas ao telefone, sonhos obsessivos.

Mas o curioso é que é um amor sem o outro, sem objeto externo, sem distância ou diferença. Os corintianos o amam como amam a si mesmos, com o Paulinho sendo eles próprios se eles fossem jogadores e eles sendo o Paulinho se ele fosse só mais um torcedor.

Não se trata de narcisismo, que é quando um sujeito ama a si mesmo individualmente. Os corintianos amam a si mesmos e ao Paulinho como corintianos – e nisso há um sentido coletivo: social, clubístico, psicológico, comportamental, étnico e político.

Porque é assim que se fala hoje em São Paulo, com ardor, orgulho e identidade: “o Paulinho, meu! O Paulinho é corintiano!”.

2. Paulão

Ele é magrelo, pequeno, tímido, feio, inexpressivo – mas tem esse apelido: Paulão.

É maqueiro na várzea. Tem que carregar no braço os contundidos.

O pior é que o outro maqueiro, o Dinho, é enorme, mandão, rei do pedaço.

Na hora do carreto, o Dinho fica na frente, o Paulão atrás. Com a maca inclinada contra ele, sofre pra levar a carga até a beirada.

Ele fica sentadinho, calado, o jogo todo, esperando o chamado – a ordem – do Dinho: “acorda, Paulão!”.

Tem jogo que é puxado, quatro ou cinco viagens em cada tempo.

E as cargas? Quase todos gordos, grandes e reclamões.

O Dinho não tem cuidado: põe o cara na maca de qualquer jeito, corre, joga no chão. O sujeito reclama com quem? Xinga quem?

O Paulão.

Em casa, ele adora assistir jogo na TV pra ver a hora em que entra aquele carrinho de golfe pra rebocar os jogadores.

Até suspira.

Diz que logo, logo vai tirar carteira de motorista.

* Luiz Guilherme Piva ouve vozes.

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