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Blog do Juca Kfouri

O último olé do Mané

Juca Kfouri

17/05/2011 12h43

Por FERNANDO FARO*

Mané descansava em paz no céu quando ficou incomodado com uma "homenagem" feita pelos sérios políticos brasileiros, que resolveram dar seu nome a um estádio.

Batizar um local de concreto, duro, imóvel e estéril com o seu nome era a antítese do que ele, lépido e desconcertante, merecia. Como os homens não falam a língua dos anjos, Mané nada pôde fazer a não ser sorrir como fazia nos tempos em que era usado pelos engravatados de discurso vazio que queriam um garoto-propaganda popular e carismático.

O tal estádio estava lá meio esquecido e Mané, curtindo a vida no céu, também se desligou e acabou se dedicando às pescarias e peladas nos fins de semana. Se sua cervejinha santa de cada dia estava lá era um mistério.

Veio a Copa do Mundo e os mesmos engravatados que construíram o falso Mané Garrincha resolveram demoli-lo. O Mané de verdade, que lá do céu já estava cabreiro com o Mundial no Brasil (como podia um país que não consegue nem se organizar sediar um evento desses, pensava ele), não podia acreditar no que via: iriam dinamitar o estádio que leva seu nome da mesma forma que zagueiros dinamitaram suas sacras pernas tortas ao longo da sua carreira.

Era hora de agir e Garrincha sabia.

Sem pedir para Deus (desde quando Mané pede autorização para fazer qualquer coisa?), o Anjo desceu em Brasília e encarnou no gigante que estava para ser arrasado. Agora Mané e o estádio eram uma coisa só e iriam enfrentar aquilo juntos. Coitados dos seus oponentes…

No momento de "celebração" da detonação das bombas, a surpresa. Apesar de toda a carga de explosivos, Mané permaneceu de pé. Uma, duas vezes. Do mesmo jeito que debochava de zagueiros brucutus naquelas tardes de domingo no Maracanã, Mané fez os engravatados demagogos passarem vergonha. A TV estava lá e gravou tudo para que não parecesse história de pescador.

Era como se Mané mostrasse para nós que basta querer que ninguém pode nos fazer engolir um evento que vai consumir bilhões que deveriam ir para hospitais, escolas, programas sociais.

A torcida desta vez era todo o povo brasileiro, que assistia inerte à gastança de rios de dinheiro em um evento que só vai beneficiar meia dúzia. E qual não foi a alegria em gritar um olé de Mané em Agnelos, Luizes Inácios, Dilmas, Jerômes, Josephs. Quadris duros que achavam que bastava apertar um botão para suas vontades serem realizadas. Tolos.

Mané mostrou que não se brinca com ele. Anos depois de sua morte, o Anjo desceu à Terra e fez da classe política o seu grande João. Mesmo sabendo que essa é uma luta que fatalmente irá perder e que teremos uma Copa apesar de não merecermos (nós não, a classe política que usa e abusa do nosso dinheiro com pretexto do desenvolvimento), ele mostrou que os deuses da bola ainda olham por nós.

Satisfeito, voltou para o céu e gargalhou ao ver a cara perplexa dos engravatados. Deu seu recado e foi disputar uma partida com seus amigos no primeiro campinho de terra que avistou.

Nós ficamos felizes e com gostinho de quero mais. Que pena que não falamos a língua dos anjos.

*Fernando Faro é jornalista, mas não é o grande "Baixo" que todos conhecem da TV Cultura.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/