Blog do Juca Kfouri

Águas passadas e maremotos futuros

POR JACQUES GRUMAN*

Morreu Orlando Batista (foto).

Quem ?

Ele mesmo: Orlando Batista.

Rádio Mauá, anos 60.

Às 18 horas, um locutor clássico, discreto, comandava um programa esportivo.

Raro negro nesta área.

O prefixo não podia ser melhor: Um a zero, do Pixinguinha (quantos, hoje, fazem esta linda comunicação esporte-música de boa qualidade ?).

Vascaíno roxo, Orlando não discriminava os “adversários”.

Naquela época, o campeonato carioca tinha jogos disputadíssimos mesmo com os chamados “pequenos”.

Nós, rubro-negros, jamais esqueceremos o 2 x 0 que o Bonsucesso sapecou em 1968, abrindo caminho para o título do Botafogo na Taça Guanabara.

O América, que anda num triste processo de decadência, sempre disputou, parelho, os títulos cariocas.

Campeão em 1960, excursionava no exterior sempre com sucesso.

29 de janeiro de 1962. Ainda com vários remanescentes da campanha de 60, os Diabos meteram seis a zero num combinado argentino, em Buenos Aires.

Hoje, qualquer joguinho dos nossos chamados “grandes” contra times medíocres vira páreo duro.

Timecos bolivianos, peruanos e assemelhados metem medo em estrelas pretensiosas, que sobrevivem de glórias passadas.

Nostalgia é um sentimento traiçoeiro.

Woody Allen tratou disso, de forma inteligente, em Meia-noite em Paris.

O passado exerce um fascínio que, no limite, atribui ao que desapareceu todas as virtudes.

Com a permissão do Ruy Castro, vou adiante.

A gente costuma suspirar pela época em que o trânsito tinha menos carros, o tempo corria sem tanta ansiedade, as relações pareciam menos mercantilizadas, os edifícios eram exceções no mar de casas com quintais.

Acontece que, nessa mesma época, morria-se muito mais cedo, luz e água faltavam com regularidade (meus contemporâneos devem se lembrar dos apagões diários nos anos 60; lata d’água na cabeça não tinha só no morro, eu mesmo cansei de carregar água em baldes, recolhida em cisternas), namoro só com supervisão vitoriana, telefone era artigo de luxo (e funcionava muito mal).

Daí que, com as exceções de praxe, é melhor não adocicar o que sempre teve um tom mesclado.

Preto no branco, e não preto ou branco.

João Ubaldo Ribeiro disse, com a conhecida ironia, que “Deus não tem pressa nenhuma, para Ele tudo é ontem, hoje e amanhã, só quem vive dentro do tempo somos nós”. Eu acrescentaria: Deus e os chineses.

Do futebol, não guardo ilusões.

Hoje, business as usual, a paixão virou uma prostituta.

Dentro de campo, a identidade clubística cedeu espaço à fábrica de dinheiro.

Fora, os negócios, não raro mafiosos, dão as mãos a instintos bestiais de torcidas organizadas que não fazem jus à memória de Jaime de Carvalho e Dulce Rosalina.

Venho da pré-história, quando um jogador fazia carreira completa no mesmo clube, dos juvenis aos profissionais, passando pelos aspirantes (desculpem a recaída nostálgica).

Agora, nas fotos aparecem patrocínios e muitos, muitos, cifrões.

Neymar, por exemplo, teve sua “marca” avaliada em R$ 122 milhões.

É sempre assim no capitalismo. Tudo vira comércio, tudo se compra e vende. A alma inclusive.

Num Fla x Flu esquecido no tempo, vi uma cena épica.

Carlos Alberto, então promissor ponta-direita do Flamengo, recebe uma entrada criminosa do lateral-esquerdo do Fluminense. Cai gritando de dor. Pela regra, não era possível substituí-lo. Mesmo lesionado, mancando, Carlos Alberto se recusa a sair de campo. Num último esforço, domina a bola, dá um drible da vaca no adversário, vai à linha de fundo e centra. Deu em gol ? Não me lembro. Só sei que ele desabou e saiu de maca. O pequeno gesto, que encantou o menino envolvido pela massa hipnotizada, jamais aconteceria hoje.

Um dos meus gurus esportivos  reproduziu recentemente algumas perguntas que o jornalista argentino Ezequiel Fernandez Moores fez sobre o futebol argentino, mas que valem, sem tirar uma vírgula, para o Brasilzão.

Em que momento nossa história foi substituída por histeria?

Quando os chefes de torcidas uniformizadas passaram a disputar espaço com os craques ?

Quando o épico saiu do campo para as arquibancadas ?

Quando o amor ao futebol virou show artificial ?

Quando passamos a acreditar que o mais importante é ganhar ?

Quando passamos a privilegiar a luta em vez de o jogo ?

Quando os craques passaram a ser ativos dos fundos de investimento ?

*Jacques Gruman é diretor da ASA – Associação Scholem Aleichem.

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A temporada das novelas no futebol 2012

Duas novelas do futebol 2012 terminaram bem para o futebol brasileiro: o Inter conseguiu a façanha de manter o argentino D’Alessandro no país mesmo diante da investida chinesa; e o Flamengo repatriou Vágner Love que estava no futebol russo.

O argentino, diga-se, já provou ser muito mais útil ao colorado do que o brasileiro por onde passou.

Mas duas novelas continuam, sem hora para acabar, embora possam terminar ainda hoje.

Uma envolve o atacante Nilmar, o São Paulo e o espanhol Villarreal.

A outra é protagonizada pelo argentino Montillo, o Corinthians e o Cruzeiro.

Qual será o desfecho é arriscado arriscar, mas de uma coisa você pode ter certeza: terá o desfecho que os jogadores quiserem.

Razão pela qual, ao menos no caso de Montillo, o mais provável é que ele acabe mesmo no Corinthians.

Comentário para o Jornal da CBN desta terça-feira, 31 de janeiro de 2012.

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Só por Love

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O domingo foi do tênis de dois super-homens

Que me  perdoem todos os amantes do futebol como este que vos fala.

Mas o domingo 29 de janeiro de 2012 entrou para a história do esporte mundial não por causa de Messi, Neymar ou  de qualquer outro gêni de esportes coletivos.

O sérvio Novak Djokovic e o espanhol Rafael Nadal foram os responsáveis por mais uma página inesquecível  ao protagonizarem um espetáculo de cinco horas e cinquenta e três minutos de arte, resistência física e emocional para culminar com um 3 a 2 sensacional de tênis jogado com um nível de excelência poucas vezes vistas nas quadras pelos tempos e pelo mundo afora.

O sérvio ganhou o jogo, mas os dois venceram uma batalha de duração jamais acontecida numa decisão de torneio do Grand Slam na final do Aberto da Austrália.

Quem viu, viu e, é claro, poderá rever, mas nunca será a mesma coisa depois de se conhecer o resultado final.

E o resultado final é mais que o resultado final porque o resultado final é a prova de que o esporte é uma atividade que faz dos homens super-homens, ao mesmo tempo inatingíveis e comoventes em seu esforço de buscar a perfeição.

Comentário para o Jornal da CBN desta segunda-feira, 30 de janeiro de 2012.

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Corinthians fez o mínimo…

Conformado com o programinha dominical, vi Corinthians x Linense no Pacaembu, porque o jogo do time do coração a gente vê mesmo que não seja por obrigação.

Vi e não gostei.

A começar pela arbitragem que anulou um gol legal do linense Fabão, 2,04m, e não deu um pênalti em seguida no corintiano Fábio Santos, 1,79m.

Só que gol é gol e pênalti não.

E aí o 0 a 0 foi ficando no placar e dando sono.

Pior devia estar em Catanduva, onde o Catanduvense ganhava do Palmeiras, que acabou por empatar 1 a 1.

Aí, aos 34 do segundo tempo, Emerson fez um belo gol,  meio sem ângulo.

O Santos ainda jogará, mas com os reservas, contra o Paulista 100%.

Melhor ir ver o documentário de Nelson Pereira do Santos sobre o gênio Tom Jobim.

Melhor, não, incomparavelmente melhor.

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Extraordinário!

AP

Acabo de ver dos melhores jogos de tênis de minha vida.

Djokovic bateu Nadal na final do Aberto da Austrália no jogo mais longo  da história de uma decisão de torneio de Grand Slam, por 3 a 2 (5/7;6/4;6/2;6/7 e 7/5).

Foram 5 horas e 53 minutos de bolas impossíveis, de técnica espetacular e resistência, psicológica e física, sobre-humana.

Um jogo tão maravilhoso que você acaba não torcendo para ninguém, porque ninguém merece perder.

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Nesta segunda, lançamento de primeira

O autor cunhou uma frase antológica: “Torcedor gosta de futebol. Corintiano gosta do Corinthians”.

 

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Matemática: o Brasil em campo

Por LUIZ GUILHERME PIVA

O inglês Alex Bellos publicou, há dez anos, o que deve ser o melhor livro sobre o futebol brasileiro: Futebol: o Brasil em campo (Jorge Zahar, 2002).

E acaba de publicar um excelente livro sobre matemática: Alex no país dos números(Companhia das Letras, 2011).

Ele não quis dizer, mas o segundo livro tem tudo a ver com o primeiro.

Senão vejamos.

Falando de números, Bellos destaca, entre outros, o Pi (π), o Fi (φ), os logaritmos (log) e a sequência de Fibonacci.

Começando por esta última.

Ela é formada pela soma de dois números inteiros seguidos a começar de zero (0) e um (1): 0, 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21 …

Ela é considerada a sequência que organiza a natureza, seja na reprodução de animais, na formação de pétalas, no desenho de espirais de girassóis, etc.

Pois bem.

Nela está a formação tática bem-sucedida do futebol brasileiro: goleiro, dois zagueiros, três meias e cinco atacantes: 1-2-3-5.

É o esquema utilizado na Copa de 58 e que, mexendo aqui e ali, predominou até 1970, período áureo do nosso futebol.

Áurea, aliás, é o nome dado à proporção ou razão que existe entre os números da sequência de Fibonacci à medida que ela cresce. Trata-se do número Fi: 1,618.

Ele é considerado, na matemática, nas artes e na estética, quase a razão divina da beleza e da harmonia.

O que talvez explique o que se convencionou, no resto do mundo, de chamar de “jogo bonito” ao se referir ao futebol brasileiro desde 1958.

Adiante.

O retângulo que apresente, na razão entre um lado e outro, o número Fi, é conhecido como retângulo áureo.

O campo de futebol pode ter oficialmente entre 100m e 110 m de comprimento e entre 64m e 75m de largura. Não é difícil, portanto, termos muitos campos que são retângulos áureos.

Um campo com aproximadamente 105m x 65m, por exemplo.

Tomemos o estádio Azteca, no México. Ele tem oficialmente 105m x 68m, muito perto da proporção áurea.

Nele brilhou o melhor dez de todos os tempos: Pelé.

E o dez não é um acaso matemático.

Acompanhem o raciocínio.

O retângulo áureo, ao ser cortado de forma a fazer surgir um quadrado, resulta em novo retângulo áureo. O qual, cortado da mesma forma, gerará outro, e assim por diante.

Ao traçar, com compasso, quartos de círculo nesses quadrados cada vez menores dentro dos retângulos áureos, forma-se a espiral logarítmica, ou “espiral maravilhosa”, que dá forma a muitas galáxias e seres vivos.

Obviamente, escala logarítmica é formada por logaritmos. E logaritmo é a forma de escrever qualquer número usando como base o número dez.

Daí que o dez é quem forma a espiral maravilhosa dentro do retângulo áureo.

E o número Pi?

Por definição, o Pi – ou seja, 3,14 – é a razão entre a circunferência e o diâmetro de qualquer círculo. Existem infinitos círculos em torno de uma esfera.

Portanto, a bola de futebol é como um amontoado incontável de números Pi.

Além do mais, as medidas oficiais do gol são 7,32m x 2,44 m. A razão entre a largura e a altura não é áurea (Fi), mas é quase Pi, porque dá 3.

Mas observem o que segue.

Primeira: medições recentes (2006) do Inmetro constatam variações razoáveis nas medidas das traves no Brasil. Há larguras de até 7,35m e alturas de até 2,42m, o que nos leva quase ao Pi.

Segunda: segundo Bellos, a Bíblia, ao citar as medidas de um mar que seria circular, calcula Pi em 3.

Concluindo.

Aquela espiral maravilhosa do dez, dentro do esquema  Fibonacci, desenvolvida no retângulo áureo, conduz um amontoado de Pis em direção a outro Pi.

Ou, simplificando por identidades:

Pelé, 2-3-5, estádio Azteca, bola na rede, gol do Brasil.

Considero que demonstrei.

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Luiz Guilherme Piva sabe a tabuada de cor.

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A razão do Corinthians

Jamais chamei a Arena da Baixada com o nome comercial que tinha e nem a Libertadores com o nome de seus patrocinadores.

E não me vejo chamando o estádio corintiano com o eventual nome da empresa que compre os direitos para batizá-lo.

No entanto parece justa a posição do marketing corintiano ao pedir que o estádio não receba apelidos como vem acontecendo — seja Itaquerão, ou Fielzão, de que gosto e até já usei muitas vezes.

Porque chamamos o estádio do Arsenal de Emirates e o de Munique de Allianz Arena sem problemas.

E aí mora uma contradição sobre a qual, no mínimo, devemos refletir.

Comentário para o Jornal da CBN desta sexta-feira, 27 de janeiro de 2012.

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