Blog do Juca Kfouri

Natal, Natal das crianças
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Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para o Ronaldão

“Não há Xavante que encontre,
Comanche que ache:
ninguém entra
no meu Forte Apache.” (José Santos)

Jabuticabas estufando as íris. As costelas como espichas na pele das costas (valuma negra de trapo translúcido). Pitangas acesas na boca. O calção, um cueiro como o que ainda outro dia cobria-o inteiro.

Na bola o dia todo.

No barro, na rua, no morro, na laje, na beira do brejo, a poeira à milanesa no suor, o catarro eterno, pernas de vareta de pedra.

A cama, o cimento. A noite, o virol.

Na noite de Natal, as casas ainda vivas até tarde, viu a estrela cair sobre ele, e tudo de repente escuro, só o Papai Noel brilhando à sua frente, com o saco de maravilhas inacabáveis, despejando a catarata de brinquedos, a montanha de soldados, carrinhos, jogos, dados, vidros, controles, bonecos, baralhos, dominós, subindo, crescendo, chegando até o céu.

As mãos na boca, os cotovelos abertos como grilo em fiapo, olhando até não mais ver, do pé ao cume imaginado, o Papai Noel dizendo: “é tudo seu!”.

Um passo pra trás. O umbigo em verruga excitada. Só dez anos de canelas, bacia, costelinhas, queixo e testa – esqueletinho negro esmaecido na noite.

A mão firme na bola de couro. Número cinco. Branca. Cheirosa. O abraço. A fungada.

“Papai Noel, pode levar o resto pras outras crianças.”

O sabor do couro nos poros. Esfera rugosinha de pêssego. Branca, costura, branca, costura, bico, costura, circunavegação completa, o mundo domado.

“Só quero a bola!”

Amanheceu de repente. A fontezinha magrela. O virol é de sol. O pinheirinho falso de luzinhas roxas plimplinzando na sua frente.

Notou, em remelas, que abraçava a bola.

A barriga de verme. Lisa. Roncando.

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Luiz Guilherme Piva publicou Eram todos camisa dez (Editora Iluminuras)


Me engana que eu gosto
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Juca Kfouri

A notícia que fecha esta nota, entre aspas, é de 2011, mais exatamente do dia 7 de novembro.

Lembra a notícia mais recente, da última sexta-feira, sobre as punições prometidas pela CBF para quem não honrar o fair play financeiro em 2015 em seus torneios.

Em comum, Marco Polo Del Nero, que presidirá a CBF a partir de abril e que presidia a FPF então, como ainda hoje.

Alguém acredita que a CBF punirá mesmo?

Se a FPF não puniu, por que a CBF punirá?

Ou você acha que desde 2012 todos os clubes paulistas pagaram em dia?

Na verdade, a CBF busca com tal “novidade” demonstrar que não é necessário ter em lei as contrapartidas exigidas para refinanciar as dívidas dos clubes.

Abaixo a notícia de 2011:

“Os clubes paulistas que atrasem salários de jogadores serão punidos com perdas de pontos no Campeonato Paulista de 2012. Esta foi a principal novidade anunciada no Conselho Técnico da Série A-1 do torneio, realizado na tarde desta segunda-feira, na sede da Federação Paulista. Foi divulgada também a tabela da competição.
Em acordo com os clubes, a FPF definiu que a agremiação que não cumprir com os seus compromissos e deixar de pagar os atletas será punida com a perda de três pontos a cada atraso salarial. Mas, para que isso aconteça, o jogador deverá denunciar o clube na Federação Paulista de Futebol e no Sindicatos dos Atletas de São Paulo.
Após feita a reclamação, o Tribunal de Justiça Desportiva irá analisar a situação e convocar o clube para apresentar sua defesa. A decisão sairá no prazo de 10 a 15 dias.
– Existe a necessidade de moralizar o futebol e isso é um grande avanço que nos demos – declarou o presidente da FPF, Marco Polo Del Nero”.


Campeão mundial, Real Madri ganha só de 2 a 0. Sem susto
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Juca Kfouri

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O San Lorenzo estava na final do Mundial de Clubes da Fifa, mas não queria jogá-la.

Queria truncar o jogo, catimbar, deixar o tempo passar, especular com uma decisão por pênaltis, qualquer coisa que não fosse enfrentar o Real Madrid.

Que, ao contrário, só queria jogar.

O gol espanhol só surgiu no fim do primeiro tempo, da cabeça de Sérgio Ramos, aparando escanteio pela esquerda, batido pelo alemão Kroos.

Não se trata de dizer nem que era justo. Era apenas inevitável.

Caminho aberto, o segundo gol, do galês Bale, veio logo no começo do segundo tempo, num frangaço de Torrico, pobre dele.

A final do 11o. Mundial de Clubes da Fifa tinha um time jogando e outro fingindo.

A diferença entre os dois é abissal, muito maior que, por exemplo, foi vista na final da Copa do Mundo, entre Alemanha e Argentina.

O mais chato foi constatar que quando tudo já estava decidido, e os argentinos se preocuparam em sair um pouco mais da defesa, até que chegaram no gol de Casillas que, aos 66 minutos de jogo fez sua primeira defesa.

Os madridistas ganhavam seu primeiro mundial da Fifa, o sétimo dos europeus, mas ainda perdem para o Barcelona que venceu dois.

Apenas os brasileiros Corinthians, São Paulo e Inter, por sinal os três primeiros vencedores, quebram a hegemonia europeia, cada vez mais acentuada entre clubes e seleções.

Para piorar, em terceiro lugar ficou o time semiprofissional neozelandês Auckland City, que bateu o mexicano Cruz Azul nos pênaltis, depois de 1 a 1 no tempo normal.

O futebol das Américas precisa tomar tenência.

Porque do jeito que vai, não há Papa que dê jeito.

Nem foi preciso que Cristiano Ronaldo deixasse sua marca e tudo que o San Lorenzo terá para dizer é que, ao menos, não levou o baile que o Santos tomou do Barcelona.

Talvez por não ter nenhum jogador, ainda mais o melhor, já negociado com os espanhóis…

Ao fim do jogo a comemoração do Real Madri foi…nenhuma!

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Água acima
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Juca Kfouri

Coluna publicada na “Folha de S.Paulo”, no dia 15/12, a derradeira antes das férias:

Fiasco no futebol, escândalo no vôlei; na piscina e no mar o esporte brasileiro achou ouro em 2014

País da piada pronta, em meio à falta d’água que assola boa parte do Brasil, e a mais um escândalo no vôlei, além da chuva alemã de gols no Mineirão, eis que vêm do precioso líquido nas piscinas e no oceano os maiores motivos de alegria para o esporte brasileiro na temporada que se encerra.

A começar pelos dois campeões nos 10 km da Copa do Mundo de Maratona Aquática, os baianos Ana Marcela Cunha e Alan do Carmo, eleitos os melhores nadadores do planeta na modalidade depois da última etapa disputada em Hong Kong, em outubro.

A continuar pelas sete medalhas de ouro no Mundial de piscina curta, em Doha, uma semana atrás, com a bela surpresa que Etiene Medeiros, Felipe França, Guilherme Guido e Marcos Macedo nos proporcionaram. Cesar Cielo não está citado porque nada que diga respeito a ele é surpreendente.

Para finalizar com o paulista Gabriel Medina, brilhando no Mundial de surfe nas ondas do Havaí.

É claro que você não foi para alto mar ver nossos maratonistas nem mesmo ficou na praia vendo o brilhante surfista. No máximo, curtiu pela TV os feitos da meninada na piscina curta, sempre lembrando que na olímpica, de 50m, são outros 500.

A natação está longe de ser preferência nacional, embora seja prática saudabilíssima para quem a pratica e emocionante para quem a assiste, como bem demonstrou Cielo em sua arrancada para o ouro no revezamento 4 estilos.

Agora só falta pegar toda esta água, dar uma boa lavada nas sujeiras sem graça alguma da Confederação Brasileira de Vôlei e aproveitar, mesmo que esteja imunda, para levar ribanceira abaixo os métodos nefastos e antiquados da CBF, porque um Neymar só não faz verão.

Só mesmo um verdadeiro tsunami poderá fazer nascer o esporte com a cara que sonhamos, sem nos iludir com os métodos da CBDA, a confederação dos esportes aquáticos, porque também nebulosos, sem renovação, comandada por um cartola que não fica corado quando é lembrado de que está no poder há 26 anos, embora fosse, antes de assumir a presidência, um crítico feroz das reeleições intermináveis.

Mas, enfim, nadar é preciso, viver não é preciso.


O que o Relatório da Comissão da Verdade revela sobre o futebol
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Juca Kfouri

trivela.uol.com.br

Há 50 anos, a ditadura militar se instaurou no Brasil. E, 29 anos depois da redemocratização do país, muitas cicatrizes deixadas no período continuam abertas. Assassinatos, torturas, perseguições e desaparecimentos que se revelaram ao longo das últimas décadas, mas também se esconderam em arquivos e memórias perdidas. Uma história que, no entanto, passou a ser revisitada com mais vigor a partir de 2012. A Comissão Nacional da Verdade se instituiu para apurar graves violações de Direitos Humanos. Nesta semana, divulgou o seu relatório final, detalhando muitos episódios de repressão.

50 ANOS DO GOLPE: Como a Ditadura Militar se apropriou do futebol brasileiro

Em um país fortemente ligado com o futebol, o esporte também apareceu nos documentos. Principalmente, citando histórias ocorridas em dois estádios que se tornaram centros de detenção em massa: o Caio Martins, em Niterói, e o Nacional de Santiago, no Chile, que também abrigou presos políticos a partir da instauração da ditadura de Augusto Pinochet. No mais, o relatório da CNV também reconta o assassinato do militante Jeová Assis Gomes, baleado enquanto fugia de militares em um pequeno campo de futebol na cidade de Guaraí, no interior de Goiás.

A utilização do Caio Martins e do Estádio Nacional do Chile, sobretudo, ressaltam a forma como o futebol acabou se tornando instrumento das ditaduras militares na América do Sul. Uma utilização do esporte que foi muito além das prisões realizadas nos dois locais, e que se aprofundou bem mais na coerção, no jogo de interesses e na manipulação da população. O relatório da CNV, entretanto, se aprofunda em dois momentos nos quais as violências se evidenciaram mais. Abaixo, trechos retirados dos documentos oficiais:

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Caio Martins
Os relatórios da Comissão Nacional da Verdade não se aprofundam nos depoimentos dos presos políticos do Caio Martins. No entanto, apresenta um panorama geral sobre como algumas instalações esportivas foram utilizadas como prisões coletivas logo após o golpe militar, em 1964.

Um dos aspectos mais reveladores das prisões coletivas realizadas em 1964 pelas forças de segurança da ditadura – incluindo-se agentes militares e policiais civis e militares – diz respeito aos locais utilizados para as prisões. Ultrapassando os limites dos quartéis, das delegacias e do sistema penitenciário, os trabalhadores foram mantidos presos em estádios de futebol e navios: em Niterói (RJ), no Ginásio Caio Martins; em Macaé (RJ), no Clube Ypiranga; em Criciúma (SC), no Esporte Clube Comerciários. Esses espaços apresentam-se como consequência lógica do que revelou a investigação de Marcelo Jasmin, realizada com base em 1.114 processos da Comissão de Reparações do Estado do Rio de Janeiro na qual 43,68% dos casos pesquisados de graves violações dos direitos humanos ocorreram nos três primeiros anos da ditadura – entre 1964 e 1966.

Destaque especial deve ser dado ao primeiro estádio da América Latina, o Ginásio Caio Martins, em Niterói, que funcionou como prisão desde abril de 1964 ou, nas palavras de ex-presos políticos, um verdadeiro “campo de concentração”. A despeito de o DOPS do Rio de Janeiro registrar que nesse estádio de futebol estiveram detidos apenas 339 pessoas, por ali passaram mais de mil presos políticos, conforme depoimentos de vítimas e advogados. As principais categorias de vítimas de prisão naquele local foram a dos bancários, dos ferroviários, dos operários navais e de trabalhadores do campo.

LEIA MAIS: O Brasil também teve o seu estádio-prisão durante a ditadura

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Estádio Nacional de Santiago
Em 1973, a ditadura de Augusto Pinochet considerou suspeitos todos os estrangeiros que migraram ao país durante o governo de Salvador Allende. Ao todo, 108 brasileiros foram detidos no Estádio Nacional do Chile. Um dos presos, Wânio José de Mattos, faleceu nas instalações, em “situação deliberada de omissão de socorro”. Sua esposa e sua filha de colo, rejeitados pela diplomacia brasileira, acabaram deportados a Paris.

LEIA TAMBÉM: Como o Santos se envolveu no 11 de setembro chileno

Aqueles que desejavam regressar ao Brasil tiveram a deportação tratada pelo Ministério das Relações Exteriores. Contudo, segundo as comunicações da época, “não só o MRE não tomou medidas que estavam ao seu alcance e que eram necessárias para que isso ocorresse, mas chegou mesmo a tomar iniciativas no sentido de impedi-lo”.

A realização da partida entre Chile e União Soviética, pela repescagem da Copa do Mundo de 1974, gerou uma “séria preocupação esvaziar o Estádio Nacional” no Ministro da Defesa chileno. As autoridades chilenas solicitaram a colaboração no “sentido de resolver rapidamente a situação dos brasileiros, já que devem deixar livres o mais rápido possível as dependências do estádio, e as prisões se encontram superlotadas”.

VÍDEO: Casely teve a mãe torturada por se opor a Pinochet

Ao invés de providenciar o auxílio, no entanto, o governo Médici enviou ao Chile uma equipe de militares e policiais brasileiros, para interrogar e torturar os detidos no Estádio Nacional. “Osni Geraldo Gomes relata como foi interrogado – pendurado no pau de arara e submetido a choques elétricos – por três agentes brasileiros, que falavam em português e perguntavam sobre suas atividades e ligações no Brasil. A sessão de tortura foi presenciada por um grupo de oficiais chilenos que assistiam a tudo por uma parede de vidro, e de um dos quais o depoente ouviu o seguinte comentário, dirigido aos demais: ‘esses são profissionais, prestem atenção’”.

O regime brasileiro manteve-se passivo sobre a situação dos presos, interessado apenas nos interrogatórios. Os documentos revelados não apresentaram qual a situação final das negociações, apenas de alguns casos nos quais o MRE ignorou os pedidos de deportação. Nos arquivos da chancelaria chilena há um único pedido de expedição de salvo-conduto, apresentado pelas autoridades brasileiras, para três cidadãos brasileiros detidos no Estádio Nacional. Monitorados de perto em seus deslocamentos, alguns desses brasileiros vieram a tornar-se desaparecidos políticos.

NO IMPEDIMENTO: La Cancha Infame, a história das prisões no Estádio Nacional

Na sequência, leia o depoimento de Luiz Carlos Vieira, preso político no Chile que, após sobreviver, foi acolhido pela embaixada da Suécia e se refugiou no país escandinavo.

O estádio parecia estar iluminado para uma noite de futebol. Ainda não sabíamos que o haviam transformado em uma enorme sala de tortura, humilhação e morte. Passamos por uma fileira de soldados. Logo seguimos por um longo corredor cujas paredes eram formadas por corpos humanos, os braços estendidos para o ar, os rostos voltados para as paredes de pedra do corredor do estádio. Chegamos ao que parecia ter sido um dos vestuários, agora transformado em sala de tortura. Um militante uruguaio acabava de ser castigado. Um oficial veio recolher nossos documentos de identificação. A sessão de tortura iniciou-se. O interrogatório girava em torno de um suposto esconderijo de armas, o qual era completamente desconhecido para nós. Diante da resposta negativa, o oficial decidiu que, juntamente com o militante uruguaio, devíamos deixar o estádio.

Todas essas viagens foram feitas em uma camioneta, onde íamos acompanhados de dois ou três soldados armados, sempre seguidos de perto por um caminhão com mais soldados. A última viagem levou-nos às margens do rio Mapocho. Os soldados mostravam-se nervosos e agiam com violência. Já não havia dúvida sobre qual seria o nosso destino. Luiz Carlos tentou argumentar com os soldados, mostrando-lhes o absurdo e o inumano de tal situação. Mas naquele momento já não regia nenhuma lei, nem a dos homens nem a de Deus. O uruguaio encaminhou-se para a beira do rio e jogou-se nas águas, sendo imediatamente metralhado por um soldado. O oficial mandou Luiz Carlos fazer o mesmo. Um soldado seguiu-o e disparou demoradamente. Depois foi a minha vez. Das três balas que me atingiram, uma pegou de raspão na cabeça, fazendo-me perder os sentidos por algum momento. Quando recuperei a consciência, senti-me levado pela leve correnteza do rio, ouvi as vozes dos soldados, vi as luzes dos caminhões refletirem-se nas águas do rio, iluminando os corpos inertes de meus companheiros. Era o único sobrevivente.


Gabriel Medina por cima da onda!
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Juca Kfouri

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Neste Brasil surpreendente, eis que temos um campeão mundial de surf.

Estou numa praia do litoral norte paulista, onde as ondas não se comparam às do Havaí.

Mesmo assim fico vendo os surfistas no fim da tarde e admiro a habilidade deles em pegar uma onda lá longe até darem na praia sem cair.

Imagino a destreza deste corintiano Medina entre ondas gigantes e tubos inimagináveis para nós, mortais.

Medina surfou muito mais de sete ondas para ter a felicidade de uma conquista histórica.

Os alemães, nesta, devem estar tão admirados como nós.

Viva Medina!

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O blog está em regime de recesso para descansar.

Volta à normalidade em um mês.

Pipocará aqui ou ali sempre que a cabeça exigir, os dedos toparem e as netas deixarem.

Boas Festas para todos e boas férias para quem as gozar.


Manobra no Congresso premia má gestão dos clubes
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Juca Kfouri

Editorial de “O Globo” de hoje

O Congresso acabou por dar abrigo ao que, desde a semana passada, já se desenhava como grande manobra para aliviar as bilionárias dívidas dos clubes de futebol por meio de uma doação de dinheiro público. Num esforço concentrado inusual nesta época do ano, que começou na quarta-feira na Câmara dos Deputados e avançou pela madrugada de quinta no Senado, parlamentares aprovaram, na votação da Medida Provisória 656, uma fórmula de refinanciamento dos débitos das agremiações.

Por ela, concede-se aos clubes inadimplentes um desafogo imediato, no caso a opção de parcelar em 240 meses suas obrigações vencidas, sem que lhes seja cobrada qualquer contrapartida — como, por exemplo, responsabilidade administrativa, responsabilização de dirigentes por má gestão, pagamento de salários em dia e proibição de seguidas reeleições de cartolas. Um fairplay financeiro que premia a má-fé, a esperteza e a bagunça que têm marcado a gestão do futebol brasileiro, com resultados que se medem pelo alto grau de mediocridade em campo e pelas desanimadoras imagens de estádios vazios.

A aprovação dessa farra, em si, é deplorável. Mas, pior, a manobra se consumou por meio de uma gambiarra parlamentar. Aproveitou-se a tramitação de uma medida provisória (MP 656) cujo escopo não é o futebol, mas a isenção tributária de importações. Para ela, por iniciativa do deputado Jovair Arantes (PTB-GO), não por acaso dirigente do Atlético-GO, foi contrabandeada, via emenda, a proposta que beneficia os clubes. O relator da MP, senador Romero Jucá (PMDB-RR), acolheu a proposição semana passada, numa prévia do que se delineava na posterior votação em plenário — o que acabou se confirmando.

A aprovação da emenda atropelou a discussão, em comissão especial, do projeto que institui a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte. Nesse fórum se debate a adoção de medidas sólidas e responsáveis de recuperação financeira dos clubes, mas com a contrapartida, inegociável, da mudança de hábitos administrativos, e a fixação de medidas punitivas contra a inadimplência (que poderiam incluir até o rebaixamento das agremiações). Sem essas exigências, essenciais para garantir a adoção de modelos de gestão responsável, renegociar dívidas corresponderia a estimular os maus dirigentes a manter a ciranda do endividamento.

É o que o Congresso acabou de fazer, recorrendo ao expediente de transformar uma MP numa árvore de Natal, com penduricalhos que nada têm a ver com seu objetivo central. De fato, a dívida dos clubes é impagável sem que lhes seja concedida alguma margem de negociação, mas esse pressuposto não pode ser tomado como licença para manobras no Congresso. Por mais que as discussões estejam emperradas, é na tramitação da LRFE que se deve discutir essa delicada questão. Só resta agora cobrar da presidente Dilma que, em nome da ética e do futebol do país, vete esse arranjo, que vai à sua sanção.


Movimento Diretas Já no Palmeiras cobra Paulo Nobre por reformas estatutárias
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Juca Kfouri

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Após as primeiras eleições diretas para presidente da história do Palmeiras, a cobrança agora é por uma reforma no Estatuto do Palmeiras para permitir, entre outras coisas, a eleição do presidente pelo voto direto dos sócios-torcedores e a total separação da gestão do futebol e do clube social.

Considerando os fracos resultados obtidos em campo em 2014, o Movimento #DiretasJáSEP, criado por torcedores comuns e associados para defender a democratização do Palmeiras, divulgou manifesto no qual convoca todos os palmeirenses a se unir por mudanças na estrutura política do clube que permitam o surgimento de novas lideranças, o voto do sócio-torcedor, e impeçam a gestão amadora do futebol profissional.

O Presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, será cobrado pela promessa constante do seu plano de governo: submeter para aprovação dos sócios, no primeiro semestre de 2015, uma proposta de reforma estatutária que democratize e amplie o colégio eleitoral da Sociedade Esportiva Palmeiras, permitindo, entre outras coisas, a eleição do Presidente pelos Sócios Torcedores e a extinção de todos os cargos vitalícios do clube.

Nobre foi re-eleito no dia 29 de novembro para um novo mandato de dois anos à frente do clube. Mais de 4.000 associados participaram da votação.

Saiba mais sobre o Movimento Diretas Já no Palmeiras

O Movimento Diretas Já no Palmeiras é apartidário, sem fins lucrativos, criado e organizado por meio das redes sociais para debater e exigir mais democracia na Sociedade Esportiva Palmeiras.

No Facebook, o conta com mais de 14.000 fãs.

No Twitter, são mais de 10.000 seguidores.

O movimento não possui vínculo com qualquer instituição, torcida organizada ou grupo político.

É composto por torcedores comuns e associados que desejam democracia e a reformulação do sistema político do Palmeiras para oxigenar o clube com novas ideias e métodos administrativos.

Queremos democracia e profissionalismo na gestão do Palmeiras.


Os dois lados
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Juca Kfouri

POR LUIS FERNANDO VERISSIMO em O Globo de hoje:

Não aceitar a diferença entre a violência clandestina de contestação a um regime ilegítimo e a violência que arrasta toda a nação para os porões da tortura é desonesto

Na reação ao relatório da Comissão da Verdade sobre as vítimas da ditadura, afirma-se que, para ser justo, ele deveria ter incluído o outro lado, o das vítimas da ação armada contra a ditadura.

Invoca-se uma simetria que não existe. Nenhum dos mortos de um lado está em sepultura ignorada como tantos mortos do outro lado.

Os meios de repressão de um lado eram tão mais fortes do que os meios de resistência do outro que o resultado só poderia ser uma chacina como a que houve no Araguaia, uma estranha batalha que — ao contrário da batalha de Itararé — houve, mas não deixou vestígio ou registro, nem prisioneiros.

A contabilidade tétrica que se quer fazer agora — meus mortos contra os teus mortos — é um insulto a todas as vítimas daquele triste período, de ambos os lados.

Mas a principal diferença entre um lado e outro é que os crimes de um lado, justificados ou não, foram de uma sublevação contra o regime, e os crimes do outro lado foram do regime.

Foram crimes do Estado brasileiro. Agentes públicos, pagos por mim e por você, torturaram e mataram dentro de prédios públicos pagos por nós. E, enquanto a aberração que levou a tortura e outros excessos da repressão não for reconhecida, tudo o que aconteceu nos porões da ditadura continua a ter a nossa cumplicidade tácita.

Não aceitar a diferença entre a violência clandestina de contestação a um regime ilegítimo e a violência que arrasta toda a nação para os porões da tortura é desonesto.

O senador John McCain é um republicano “moderado”, o que, hoje, significa dizer que ainda não sucumbiu à direita maluca do seu partido.

Foi o único republicano do Congresso americano a defender a publicação do relatório sobre a tortura praticada pela CIA, que saiu quase ao mesmo tempo do relatório da nossa Comissão da Verdade.

McCain, que foi prisioneiro torturado no Vietnã, disse simplesmente que uma nação precisa saber o que é feito em seu nome.

O relatório da Comissão da Verdade, como o relatório sobre os métodos até então secretos da CIA, é um informe à nação sobre o que foi feito em seu nome. Há quem aplauda o que foi feito. Há até quem quer que volte a ser feito. São pessoas que não se comovem com os mortos, nem de um lado nem do outro. Paciência.

Enquanto perdurar o silêncio dos militares, perdura a aberração.

E você eu não sei, mas eu não quero mais ser cúmplice.


Veto contra o golpe
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Juca Kfouri

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Veto presidencial contra o golpe armado pela bancada da bola.

Após mais uma rodada de reuniões em Brasília, realizada nos dias 9 e 10 de dezembro, chegamos a um bom termo de acordo entre as partes envolvidas na discussão do projeto de Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE). Como amplamente divulgado, o Bom Senso FC defende a democracia e a transparência na gestão do futebol, nas diretrizes e nas medidas concretas do projeto de lei.

Entretanto, às costas da mesa de negociação, uma manobra vergonhosa do deputado Jovair Arantes (PTB-GO) e do senador Romero Jucá (PMDB-RR) incluiu o refinanciamento dos clubes, sem nenhum tipo de contrapartida, através de uma emenda à Medida Provisória 656/2014, que trata de incentivos fiscais à importação de peças para aerogeradores. Isso é conhecido no Congresso Nacional como “contrabando legislativo”, quando uma questão é aprovada junto a outro que não tem absolutamente nenhuma relação. Como sabemos, a dívida dos clubes não contribui em nada para a importação de aerogeradores no Brasil.

A MP 656 já foi aprovada na Câmara e no Senado, com essa emenda idealizada pelo deputado Jovair. Isso representa uma virada de mesa vexatória nos debates da LRFE.

Reiteramos que parcelar as dívidas dos clubes sem contrapartidas não significa salvá-los; muito pelo contrário, uma medida como essa continua pavimentando o caminho para o abismo, distanciando cada vez mais o futebol brasileiro do profissionalismo e da modernização.

Diante dessa situação, o veto presidencial é a única medida coerente ao compromisso assumido publicamente pela presidenta Dilma Rousseff e pelo ministro Aloizio Mercadante com a modernização e democratização do futebol brasileiro.

Bom Senso Futebol Clube
Por um futebol melhor para todos